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Posts Tagged ‘Natureza’

UM REPARO – ÁGUA

A falta de água começa a afectar fortemente a vida de muitos na nossa região, tal como relatado e ilustrado pela comunicação social. Desde há semanas (meses) que algumas populações dependem da água transportada pelos camiões-cisterna.

Há regiões no mundo com menos água do que nós, o que as levou a organizarem-se e a desenvolverem meios a preservarem e bem utilizarem. Comparativamente, no nosso país ainda há muita água, mas a diminuição da chuva e das reservas aquíferas começam a ter consequências e exigem medidas. Sem capacidade para armazenar no inverno, como assegurar água para o verão? Sem o cuidado e a atenção de todos os consumidores, como garantir uma boa utilização da água?

As recentes obras da albufeira de Alqueva mostram como o armazenamento e distribuição da água permite fixar populações e desenvolver o cultivo das terras. Quem quererá viver ou trabalhar numa terra que não tem abastecimento de água para consumo e para a agricultura? O investimento pode ser grande e moroso, mas os resultados compensarão. O problema estará, sobretudo, nas opções dos responsáveis políticos. Habituados a ciclos de curta duração (mandatos), preferem investir em algo mais rápido que permita uma reeleição, em vez de olharem para as gerações futuras. Por outro lado, ainda há freguesias (também no nosso concelho) que continuam, sem água ao domicílio, talvez porque o número de eleitores não tem grande influência!

A formação também é importante, já que os actos e opções de cada um têm influência na vida de todos. No fundo, trata-se de educar para a preservação da “casa comum”, tal como repetidamente lembrado pelo Papa Francisco.

A água é um bem essencial que tenderá a escassear, a ficar cada vez mais caro e que merece ser preservado. Não basta pedir chuva.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/51, n.º 4437, 21 de novembro de 2017

Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum

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CUIDADO com A CRIAÇÃO

No primeiro dia deste mês fomos convidados a viver o Dia Mundial de Oração pela Criação, prolongando a temática até ao próximo dia 04 de outubro. E, no sentido de sensibilizar o mundo para a defesa do planeta, o Papa Francisco escreveu uma mensagem, que intitulou “Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum”. Aqui ficam algumas passagens e a indicação que a mensagem se encontra disponível em www.diocese-lamego.pt.

“A terra clama…

Com esta Mensagem, renovo o diálogo com «cada pessoa que habita neste planeta» sobre os sofrimentos que afligem os pobres e a devastação do meio ambiente. Deus deu-nos de presente um exuberante jardim, mas estamos a transformá-lo numa poluída vastidão de «ruínas, desertos e lixo». Não podemos render-nos ou ficar indiferentes perante a perda da biodiversidade e a destruição dos ecossistemas, muitas vezes provocadas pelos nossos comportamentos irresponsáveis e egoístas. «Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer».

O planeta continua a aquecer, em parte devido à atividade humana: o ano de  2015 foi o ano mais quente de que há registo e, provavelmente, o ano de 2016 sê-lo-á ainda mais. Isto provoca secura, inundações, incêndios e acontecimentos meteorológicos extremos cada vez mais graves. As mudanças climáticas contribuem também para a dolorosa crise  dos  migrantes forçados.  Os pobres do mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os mais vulneráveis e já sofrem os seus efeitos.

Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos «tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres» e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada e célere. Ler mais…

LAUDATO SI’ | Carta Encíclica sobre o cuidado da Casa Comum

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Um texto denso para cuidar da casa comum

Laudato Si’

A nova encíclica do Papa Francisco, “Louvado sejas”, foi apresentada e publicada na passada quinta-feira, no Vaticano. Trata-se de um texto denso: 246 parágrafos, divididos por seis capítulos, onde o Papa torna público o seu pensamento sobre um planeta que se deteriora e sobre a responsabilidade do homem nesse processo.

O Papa começa por recordar a herança dos seus predecessores, de Paulo VI a Bento XVI, sobre esta temática, continuando a apresentar um horizonte desenhado pela ciência, dirigindo, depois, uma constatação alarmante sobre o estado da “nossa casa comum”, onde as mutações climáticas, o acesso à água potável ou a perda de biodiversidade são sintomas da doença que assola a terra.

O Papa fala de uma dívida ecológica dos países do hemisfério norte face aos países do sul. Em seguida relê o relato bíblico, onde Deus confia ao homem a Criação. “Estas narrações sugerem que a existência humana se baseia em três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a bíblia, estas relações romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta rutura é o pecado” (66). O homem é, assim, convidado a colaborar com a Criação e a proteger a sua fragilidade.

Ponto nevrálgico da encíclica, o terceiro capítulo debruça-se sobre a “raiz humana da crise ecológica”: o Papa interroga-se sobre os avanços tecnológicos, às vezes fonte de progresso, mas também portadores de limites. Apesar de escrever que “ninguém quer o regresso à Idade da Pedra”, a encíclica identifica as “lógicas de dominação tecnocráticas que conduzem à destruição da natureza e à exploração das pessoas e das populações mais frágeis”. Numa época onde o antropocentrismo marca a forma de estar, o Papa denuncia, mais uma vez, a “cultura do descarte”, onde tudo e todos podem ser descartáveis, já que o ser humano e o meio ambiente são tidos como objetos que só são apreciados se puderem ser uteis.

A nova encíclica clama por uma “ecologia integral”, inclusiva, onde tudo está interligado. “Não há duas crises separadas, uma do meio ambiente e outra social, mas uma só e complexa crise sócio-ambiental”

No texto agora publicado, e cuja leitura se recomenda, o Papa não se limita a constatar o observável, mas fornece pistas para a ação, nomeadamente um convite ao diálogo honesto e sincero, quer a nível local quer a nível internacional. A este propósito, o Papa não deixa de criticar os inúmeros encontros internacionais sobre a questão climática que redundaram em contínuos fracassos, atendendo a que não produziram as mudanças necessárias.

No final do texto, o Papa propõe uma verdadeira educação e espiritualidade ecológicas, alertando para a necessidade de uma mudança no estilo de vida e a não sobestimar os simples gestos quotidianos pelos quais se rompe com a lógica da violência, da exploração, do egoísmo. Para isso, Laudato si’ convida a colocarmo-nos à escuta dos santos, a começar por S. Francisco de Assis.

E o Papa conclui:  “No coração deste mundo, permanece presente o Senhor da vida que tanto nos ama. Não nos abandona, não nos deixa sozinhos porque se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor leva-nos sempre a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!”

in Voz de Lamego, n.º 4319, ano 85/32, de 23 de junho de 2015