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Jubileu da Misericórdia | Confessores

13-03-2015 Celebrazione Penitenziale

O tempo litúrgico da Quaresma, entendido como preparação para um novo começo em que a conversão é indispensável, propicia a celebração da Reconciliação. Todos são convidados a assumirem os seus pecados e a experimentar a misericórdia do Pai: há tempo de confissões agendado e proposto em todas as paróquias, os párocos vizinhos disponibilizam-se para ajudar, há tempo de adoração e pregação (jubileus, 40 horas), a imposição das cinzas, o jejum e a abstinência…

Ao iniciarmos o caminho para a Páscoa, o sacramento da Reconciliação não poderia estar ausente destes singelos apontamentos; começamos pelos seus ministros (sacerdotes e bispos).

Na Bula para o Ano da Misericórdia, o Papa alegra-se com o crescente número de baptizados que se aproximam deste sacramento, sinal de um reencontro com o Senhor e de um redescobrir do sentido da vida. E deixa o apelo para que este sacramento seja posto no centro, “porque permite tocar mais sensivelmente a grandeza da misericórdia”, sendo para o penitente uma “fonte de verdadeira paz interior”.

Nesse sentido, a intenção do Papa é enviar pelo mundo os “missionários da misericórdia”, mandatados para “perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica”, quais “artífices dum encontro cheio de humanidade, fonte de libertação, rico de responsabilidade para superar os obstáculos e retomar a vida nova do Baptismo” (MV 18).

Mas no número anterior (MV 17), Francisco apresenta também alguns conselhos para os confessores, a quem pede insistentemente que “sejam um verdadeiro sinal de misericórdia do Pai”.

Aqui ficam alguns:

– convida-os a prepararem-se para a missão, já que “ser confessor não se improvisa”;

– devem assumir-se como penitentes em busca do perdão, aprendendo com isso a tornarem-se confessores;

– ter consciência de que participam na missão de Jesus e são “sinal concreto do amor divino que perdoa e salva”;

– ter presente que receberam o dom do Espírito Santo para o perdão e são responsáveis por isso;

– nunca esquecer que o sacerdote não é “senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus”;

– acolher os féis como “o pai na parábola do filho pródigo”;

– alegrarem-se com aqueles que regressam à casa do pai e se arrependem;

– ir, também, ao encontro do outro filho, que ficou fora;

– não devem “fazer perguntas impertinentes”;

– sendo sinal do primado da misericórdia, devem esforçar-se por compreender cada um dos que encontram e disponibilizar-se para ajudar.

Por último, na entrevista que concedeu e que originou o aparecimento do livro “O nome de Deus é misericórdia”, o Papa volta a sublinhar a importância do “apostolado do ouvido”, convidando os confessores a mostrarem misericórdia com todos, concedendo até uma bênção aos que não podem ser absolvidos (p. 33). E, mais adiante, afirma que “no diálogo com o confessor é preciso ser ouvido e não interrogado” (p. 42).

JD, in Voz de Lamego, ano 86/12, n.º 4349, 9 de fevereiro de 2016

Jubileu da Misericórdia | Continuidade

Pope Francis leads the Vespri prayer in Saint Peter's Basilica at the Vatican April 11, 2015.     REUTERS/Alessandro Bianchi - RTR4WX5G

Ao convocar e dedicar este jubileu extraordinário à misericórdia, o Papa Francisco inscreve-se numa dinâmica eclesial que imediatamente o antecede.

O Papa que convocou a Igreja para o II Concílio do Vaticano, S. João XXIII, afirmava que a “misericórdia é o mais belo nome de Deus” e os documentos conciliares abandonaram o tom severo de concílios anteriores, adoptando o diálogo como ponte e a misericórdia como remédio, sublinhando a intenção pastoral daquela magna reunião eclesial.

A segunda encíclica de João Paulo II é dedicada a este tema: “Deus rico em misericórdia”, (Dives in misericórdia), em 1980. E será este Papa que, influenciado pela mística Irmã Faustina, sua conterrânea, vai proclamar o II domingo de Páscoa como Domingo da Divina Misericórdia, encarregando a Igreja de transmitir e testemunhar ao mundo o fogo da compaixão. Nas suas exéquias, aquele que viria a ser o seu sucessor, J. Ratzinger, apontou a misericórdia como ideia mestra de todo o seu longo e fecundo pontificado.

Após a sua eleição, em plena guerra fria, o Papa vindo do leste escrevera na sua primeira encíclica (Redemptor Hominis) que “todos e cada um dos homens são o caminho da Igreja”. Não um qualquer caminho, mas semelhante ao que Cristo percorreu e que culmina na sua entrega por amor, algo que parece estranho à mentalidade contemporânea que parece opor-se a Deus, convencida de que o desenvolvimento tecnológico e o progresso verificado não deixarão “espaço para a misericórdia” (DM 2) ou para a divindade.

Diante desta realidade, já o Concílio Vaticano II havia alertado: “O mundo actual apresenta-se, assim, simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio. E o homem torna-se consciente de que a ele compete dirigir as forças que suscitou, e que tanto o podem esmagar como servir” (GS 9).

Apesar dos avanços conseguidos, S. João Paulo II percebe que ficar por aí não chega e escreve que “a justiça, por si só, não é suficiente”. Porque a “permissividade moral” atinge a convivência humana e “é esta desmoralização que se transforma muitas vezes em ‘desumanização’. O homem e a sociedade, para os quais nada é ‘sagrado’, decaem moralmente não obstante as aparências” (DM 12).

E é neste contexto que aquela encíclica apresenta o amor divino, “paciente e benigno” (1 Cor 13, 4), que acolhe o homem e o motiva no caminho da conversão, porque o “autêntico conhecimento do Deus da misericórdia, Deus do amor benigno, é a fonte constante e inexaurível de conversão” (DM 13).

Na Bula que convocou este jubileu (Misericordiae vultus), o Papa Francisco reassume a necessidade da Igreja contemplar o mistério da misericórdia e dela dar testemunho, apesar da limitação do pecado (MV 2 e 3).

JD, in Voz de Lamego, ano 85/52, n.º 4339, 24 de novembro

JUBILEU EXTRAORDINÁRIO MISERICÓRDIA | ANÚNCIO

jubileu_misericordia_igreja

No passado dia 11 de abril, na véspera da vivência do Domingo da Misericórdia (II Dom. Pascal), o Papa Francisco tornou pública a Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, “O rosto da misericórdia” (Misericordiae vultus). Ao todo, cerca de 24 páginas (Paulinas Editora) que valerá a pena ler e meditar para melhor perceber a intenção do Papa e ficar a conhecer os objectivos e percursos deste Jubileu que se inicia já no próximo dia 8 de dezembro.

Consciente da missão e presença eclesial no mundo, atento ao tempo que passa e mostra tantas situações de conflito, discórdia e ressentimentos, o Papa não tem dúvidas de que este é “o tempo do regresso ao essencial” e que “chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão”, porque “o perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde coragem para olhar o futuro com esperança” (n.º 10). Nesse sentido, “o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada” (n.º 12).

O convite para contemplar, meditar e testemunhar a misericórdia divina é dirigido a todos, tendo em vista o desejo de que cada um se possa tornar “um sinal eficaz do agir do Pai”, já que o agir misericordioso “torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos” (n.º 9). E conclui: “Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes” (n.º 3).

O ponto de partida é Jesus Cristo “o rosto da misericórdia do Pai” (n.º 1) que “precisamos sempre de contemplar”, porque é “fonte de alegria, serenidade e paz” (n.º 2) e “tudo nele fala de misericórdia” (n.º 8). A misericórdia de Deus “não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras” (n.º 6).

Por isso, falar de misericórdia é ter presente “o caminho que une Deus e o homem” que “nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (n.º 2), porque a “misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa” (n.º 3).

O ano jubilar, que terminará no dia 20 de novembro de 2016, Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, ficará marcado por várias e variadas celebrações, cujo objectivo primeiro será sempre o testemunho dos baptizados: “Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos, em suma, onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (n.º 12).

JD, in Voz de Lamego, ano 85/48, n.º 4335, 27 de outubro