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Apontamento social: Educação e Escolha

The concept of choosing a future profession. Icons education. Silhouette of a boy with a laptop surrounded by icons of education.

Confesso que o meu envolvimento nesta questão é só como contribuinte. Não sou aluna nem Professora, não tenho filhos nem netos a estudar e não possuo qualquer interesse económico ou outro em qualquer estabelecimento privado de ensino. Mas pago impostos e gosto de saber em que é gasto parte do que ganho com o meu trabalho. Dito isto, vamos analisar o que se passa:

  • Há estabelecimentos privados que recebem apoios estatais para receber alunos, quaisquer alunos, da área correspondente;
  • Tanto quanto sei, recebem por turma um valor aproximado ao que essa turma gastaria no ensino público;
  • Tanto quanto sei, a maioria tem boas condições para receber esses alunos, o que não é certo no ensino público em que as escolas que receberam chão de mármore e candeeiros do Arquiteto Siza Vieira andam a par com as que não têm pavilhão para atividades desportivas e/ou chove nas salas de aula;
  • Não vejo nos media pais/alunos de estabelecimentos privados a protestar porque não há Professores a tempo, porque o Professor falta muito pois adoeceu e não foi substituído, porque não há auxiliares, porque as salas são muito frias, porque as turmas estão sobrecarregadas ou porque não há Professores de apoio para o ensino especial;
  • Tanto quanto sei, os alunos que entram para o ensino privado com este tipo de contrato com o Estado vêm da Central de Matrículas da zona, pelo que as turmas são muito heterogéneas, têm filhos de classe média, alta, famílias necessitadas, crianças e jovens institucionalizados…e ninguém paga. Parece-me bem mais justo e democrático que o sistema de distribuição de bolsas de estudo pelo Estado a alunos em colégios privados, tão pouco fiscalizado, criando situações em que, no mesmo estabelecimento de ensino uns paguem e outros não, quando muitos dos que recebem bolsas exibem sinais exteriores de riqueza que tornam muito suspeita a necessidade desse apoio… Suponho que este segundo caso é um bem pior “assalto” ao bolso do contribuinte.
  • Tanto quanto sei, vários diretores de escolas públicas já disseram que estão sobrelotados; apesar disso, alguns deles disponibilizaram-se para receber mais alguns se forem feitas obras para os acolher! Não será solução se afinal vamos gastar mais dinheiro em obras!
  • Tanto quanto sei, o desemprego gerado pelos cortes nas comparticipações será significativo num setor que já tem muitos desempregados, e não é linear que esses empregos transitem para o setor público – pelos antecedentes será mais fácil imaginar mais horas para os professores já empregues e mais alunos por turma; afinal a ideia é economizar, certo?
  • Tanto quanto sei, os alunos parecem gostar das suas escolas e os pais de os lá ter. Será que isto não é importante? A quem incomoda esta situação?

Após esta pequena reflexão a minha conclusão é que o problema, para certas pessoas, está na gestão! É privada! O Estado não mete o “tentáculo”! E digo eu, pela confusão que se vê no ensino público a cada arrancar dum novo ano letivo isso não será uma mais-valia?! E não poupará, afinal, o dinheiro do contribuinte?

I.M., in Voz de Lamego, ano 86/31, n.º 4367, 14 de junho de 2016

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LIBERDADE e RESPEITO | Editorial Voz de Lamego | 20 de janeiro

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A edição desta semana é publicada com uma data especial para a Diocese de Lamego, a celebração do seu Padroeiro Principal, mártir São Sebastião, morto a 20 de janeiro de 288 (e segundo outros, no ano de 300).

Depois dos atentados de Paris, muitas canetas se levantaram para escrever, para refletir e nos fazer refletir, apresentando pontos de vistas, tentando compreender tamanha barbárie, mas simultaneamente balizar a liberdade (que nunca é absoluto, pois não existimos sozinhos) com o respeito. O Papa Francisco na recente Viagem Apostólica ao Sri Lanka e às Filipinas sublinhou que nada justifica que se mate em nome de Deus, mas salientou o respeito que se deve ter para com as religiões, pois também estas têm direito à liberdade.

O Editorial, do Diretor da Voz de Lamego, Pe. Joaquim Donísio, coloca-nos precisamente esta interrogação: será possível a liberdade de expressão sem respeito? Além desta reflexão que ambienta a edição do Jornal, outros textos de reflexão sobre a liberdade de expressão conjugada com o respeito pelos outros, pelos crentes.

Para já o Editorial e a primeira página da Voz de Lamego, na edição impressa, uma grande variedade de notícias, da Igreja, da Diocese, da cidade de Lamego e da região.

LIBERDADE e RESPEITO

Nos últimos anos, os actos terroristas que têm ensombrado a paz e ceifado milhares de vidas tiveram como protagonistas indivíduos ou grupos que se afirmavam ligados à fé islâmica. Daí que, após cada atentado, se instale a tentação de falar de religião e não de terrorismo. E logo aparecem vozes para dizer que as religiões são fontes de conflito. Mas se é verdade que podem existir motivações religiosas nesses actos, elas não explicam tudo.

A este propósito, e tendo o mundo ocidental como referência, Zigmund Bauman, um filósofo e sociólogo polaco-britânico, de origem judaica, fala de um “multiculturalismo superficial”, de fachada, que continua a não conseguir integrar plenamente, gerando excluídos que, às vezes, protagonizam actos condenáveis.

Um multiculturalismo que é consequência das “diásporas”, do partir para uma terra distante, transportando consigo uma cultura, sonhos de realização e tentando adaptar-se ao meio onde se instala. O vizinho com quem se partilha a rua, as estruturas, a escola e os locais de trabalho era, há pouco tempo, um estrangeiro longínquo. E hoje, apesar de estar perto, continua a ser um desconhecido. Há, então, uma “proximidade desestabilizante”, pois não se sabe com o que contar.

Este multiculturalismo superficial é um sistema que reconhece a legitimidade de culturas diferentes da nossa, mas que ignora ou recusa tudo o que ela tem de sagrado e não negociável. A falta de respeito autêntico afigura-se profundamente humilhante. E, sabemo-lo, a humilhação tende a motivar gestos de revolta e vingança, tais como os praticados contra jornalistas ou “fazedores de opinião”.

Por isso, os comentadores e jornalistas que apontam a religião como causa de tais actos podem estar a precipitar-se: afinal, a causa pode bem ser a sua incapacidade para acolher e, sobretudo, respeitar. Poderá haver liberdade de expressão sem respeito?

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4297, ano 85/10, de 20 de janeiro de 2015

SANTIDADE E LIBERDADE | Editorial Voz de Lamego | 4 de novembro

santidade_liberdadeUm dos temas de fundo desta edição da Voz de Lamego, de 4 de novembro, e destaque de primeira página, é a Família, com entrevista ao responsável da Comissão Diocesana da Família, Pe. Carlos Lopes. Porém, e, como já nos habitou, o Jornal da Diocese traz até nós um conjunto de reflexões, sobre a vida, a felicidade, as comunicações sociais, a Igreja, o mundo atual… Sendo um semanário regionalista e que abrange o território da Diocese de Lamego, notícias do que vai acontecendo ou do que vai acontecer, em diferentes lugares, com acontecimentos variados, como o Encerramento do Serviço Serviço de Atendimento Permanente (SAP), no Centro de Saúde de Resende, e a consequente e urgente contestação; a formação de catequistas para o próximo sábado, no Seminário Maior de Lamego; iniciativas no projeto + Ser; Tarouca em promoção do Aeroporto Sá Carneiro no Porto; balanço da festa da castanha, em Armamar; os Forais de Sernancelhe; e muitos outros motivos de interesse na região e na diocese.

Como habitualmente, sugerimos que a leitura se inicie com o EDITORIAL proposto pelo Diretor do Jornal, Pe. Joaquim Dionísio, esta semana relacionando a santidade e a liberdade:

SANTIDADE E LIBERDADE

Afirmar que a santidade é fruto da liberdade pode incomodar quem vê a santidade como negação de si mesmo para agradar ao Outro e contempla a liberdade como o direito de fazer e dizer sem depender de ninguém. Nesse sentido, a liberdade será entendida como ausência de obrigações e responsabilidades, isto é, uma liberdade de. Tal liberdade facilmente resvala para a libertinagem.

A liberdade de que aqui se fala, condição fundamental para a santidade, é a liberdade de quem sabe que aos direitos correspondem deveres: cidadania, fraternidade, responsabilidade social… Trata-se, então, de uma liberdade para.

A liberdade concretiza-se na vida de todos os dias, nas relações humanas, correndo riscos, assumindo limites, valores e princípios. A sua falta faz-nos pensar na escravidão ou na impossibilidade de movimentos ou da livre expressão, tal como escreveu Dostoiévsky: “Quando ouço gritar ‘liberdade’ venho à janela ver quem vai preso”.

Para o cristão, a liberdade é dom que Deus dá ao homem para lhe permitir caminhar no amor. Uma presença que não oprime, esmaga ou destrói a subjectividade. Por isso, Paulo escreve: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. Fomos libertos para sermos livres. E é esta liberdade que deve ser santificada diariamente. Como? Assumindo-a com responsabilidade.

A liberdade assume-se, plenamente, como obediência, como disponibilidade para seguir fazendo o bem. Quanto mais praticamos o bem, concretizando o amor, mais livres somos. Por isso, Lutero, que tanto se preocupou com a questão da liberdade, é capaz de exclamar: “o cristão é um ser absolutamente livre e a ninguém sujeito; o cristão é servo de tudo e a todos sujeito”.

Jesus é a expressão máxima do homem livre que obedece, porque ama.

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4287, ano 84/49, de 4 de novembro de 2014.

A ESCRAVIDÃO DO IMEDIATO

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«É necessário ajudar os jovens a superarem a escravidão do imediato. Para isso, eles têm de compreender que a liberdade que possuímos não consiste tanto em fazer aquilo que nos apetece, mas sim em fazer o bem porque o queremos de verdade. Ser livre não é a mesma coisa que ser caprichoso. A liberdade não nos foi dada somente para escolher iogurtes num hipermercado».

Que palavras tão sábias! Numa época em que temos tanta sensibilidade para este conceito (liberdade), também temos de tomar cuidado para não ficarmos somente numa visão empobrecida e reduzida do que ela significa.

Na educação dos filhos, é muito conveniente ensinar-lhes a serem ponderados no exercício da sua liberdade. É preciso que aprendam a decidir perguntando-se antes: isto que me apetece é conveniente para mim? É uma necessidade real, ou é um simples capricho? É justo gastar este dinheiro quando tantas pessoas por aí estão a passar dificuldades?

Na tarefa educativa, os pais têm de ajudar os filhos a quererem de verdade aquilo que é o melhor para eles, e a não se deixarem levar pelo que é mais atraente à primeira vista. Isto é o que significa superar a escravidão do imediato.

No entanto, existe uma característica da vida hodierna que não facilita nada essa superação: a falta de ponderação. É com a ponderação que uma pessoa pode suscitar em si mesma essa força de vontade que a faz atrasar uma satisfação imediata, por ter em vista um bem maior pelo qual vale a pena esforçar-se.

Os jovens têm de perceber que a liberdade é uma certa abertura ao infinito. Nós, cristãos, sabemos que ela é um dom gratuito de Deus, que Ele nos deu precisamente para chegarmos até Ele e não nos contentarmos somente com os iogurtes do hipermercado.

A liberdade é uma capacidade radical. A juventude sempre gostou desta palavra porque é radical por definição. Mas se os jovens não entenderem bem esta capacidade, podem acabar por chegar à brilhante conclusão de que ela deve servir para fazer desportos radicais. Desportos que têm imensa “piada” precisamente porque vão unidos à “emoção” de arriscar a própria vida.

A liberdade é uma capacidade radical de sermos protagonistas da nossa própria vida. De sermos os nossos próprios pais. De sermos aquilo que de verdade queremos ser.

Como tantas vezes nos repetiu João Paulo II, a liberdade não é só, nem sobretudo, uma escolha de algo concreto, mas, dentro dessa escolha, uma decisão sobre nós mesmos. A pessoa constrói-se ou destrói-se através dos seus próprios actos. Isso é o que significa ser livre.

Por isso, a escravidão do imediato é um problema de falta de liberdade. Ou talvez seja, antes disso, uma consequência lógica de acharmos que temos essa capacidade só por causa dos iogurtes.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria, in VOZ DE LAMEGO, n.º 4280, de 16 de setembro de 2014