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LIBERDADE e RESPEITO | Editorial Voz de Lamego | 20 de janeiro

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A edição desta semana é publicada com uma data especial para a Diocese de Lamego, a celebração do seu Padroeiro Principal, mártir São Sebastião, morto a 20 de janeiro de 288 (e segundo outros, no ano de 300).

Depois dos atentados de Paris, muitas canetas se levantaram para escrever, para refletir e nos fazer refletir, apresentando pontos de vistas, tentando compreender tamanha barbárie, mas simultaneamente balizar a liberdade (que nunca é absoluto, pois não existimos sozinhos) com o respeito. O Papa Francisco na recente Viagem Apostólica ao Sri Lanka e às Filipinas sublinhou que nada justifica que se mate em nome de Deus, mas salientou o respeito que se deve ter para com as religiões, pois também estas têm direito à liberdade.

O Editorial, do Diretor da Voz de Lamego, Pe. Joaquim Donísio, coloca-nos precisamente esta interrogação: será possível a liberdade de expressão sem respeito? Além desta reflexão que ambienta a edição do Jornal, outros textos de reflexão sobre a liberdade de expressão conjugada com o respeito pelos outros, pelos crentes.

Para já o Editorial e a primeira página da Voz de Lamego, na edição impressa, uma grande variedade de notícias, da Igreja, da Diocese, da cidade de Lamego e da região.

LIBERDADE e RESPEITO

Nos últimos anos, os actos terroristas que têm ensombrado a paz e ceifado milhares de vidas tiveram como protagonistas indivíduos ou grupos que se afirmavam ligados à fé islâmica. Daí que, após cada atentado, se instale a tentação de falar de religião e não de terrorismo. E logo aparecem vozes para dizer que as religiões são fontes de conflito. Mas se é verdade que podem existir motivações religiosas nesses actos, elas não explicam tudo.

A este propósito, e tendo o mundo ocidental como referência, Zigmund Bauman, um filósofo e sociólogo polaco-britânico, de origem judaica, fala de um “multiculturalismo superficial”, de fachada, que continua a não conseguir integrar plenamente, gerando excluídos que, às vezes, protagonizam actos condenáveis.

Um multiculturalismo que é consequência das “diásporas”, do partir para uma terra distante, transportando consigo uma cultura, sonhos de realização e tentando adaptar-se ao meio onde se instala. O vizinho com quem se partilha a rua, as estruturas, a escola e os locais de trabalho era, há pouco tempo, um estrangeiro longínquo. E hoje, apesar de estar perto, continua a ser um desconhecido. Há, então, uma “proximidade desestabilizante”, pois não se sabe com o que contar.

Este multiculturalismo superficial é um sistema que reconhece a legitimidade de culturas diferentes da nossa, mas que ignora ou recusa tudo o que ela tem de sagrado e não negociável. A falta de respeito autêntico afigura-se profundamente humilhante. E, sabemo-lo, a humilhação tende a motivar gestos de revolta e vingança, tais como os praticados contra jornalistas ou “fazedores de opinião”.

Por isso, os comentadores e jornalistas que apontam a religião como causa de tais actos podem estar a precipitar-se: afinal, a causa pode bem ser a sua incapacidade para acolher e, sobretudo, respeitar. Poderá haver liberdade de expressão sem respeito?

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4297, ano 85/10, de 20 de janeiro de 2015