Arquivo

Posts Tagged ‘Jubileu da Misericórdia’

Santos para o Jubileu da Misericórdia

1109_0_20150930120254_img_b

Todos os dias são uma oportunidade para os crentes se deixarem “surpreender por Deus”. Os santos, que a Igreja mostra como modelos de virtudes e exemplos a seguir, deixaram-se surpreender por Deus e nunca cessaram de O mostrar nas palavras e nos gestos que protagonizaram. A santidade cristã não é um acaso e nasce do olhar que não se distrai, como “dom de poder abraçar Deus e o homem ao mesmo tempo”.

Numa Igreja presente em todo o mundo, quantos pais e mães, filhos e avós, funcionários e empregadores, desportistas, catequistas, jovens e adultos, vizinhos ou gente de longe… não poderiam ser apresentados como exemplos a seguir?

Sta. Faustina Kowalska (1905-1938) e a alegria de anunciar a misericórdia. A primeira canonização do séc. XXI (30/04/2000), autora de um “Diário” com relatos de mensagens que Jesus lhe inspirou. A esta religiosa polaca se deve muita da devoção à misericórdia divina que João Paulo II se empenhou em instituir (Domingo da Divina Misericórdia).

Sta. Teresa de Lisieux ou Teresinha do Menino Jesus (1879-1897) e o reconhecimento ao Deus justo e misericordioso. A adolescente que cedo decide entregar-se a Deus, a Padroeira das Missões, a Doutora da Igreja… No livro “História de uma alma”, fruto dos três manuscritos deixados, escreveu: “O que agrada a Deus é ver-me amar a minha pequenez e a minha pobreza, por causa da cega esperança que tenho na sua misericórdia”.

St. Cura d’Ars, de seu nome João Maria Vianney (1786-1859), o humilde e empenhado ministro (servidor) da misericórdia e exemplo para os que, também hoje, são chamados a absolver em nome da Igreja e a perdoar em nome de Deus. “Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina”.

São Vicente de Paulo (1581-1660) e a misericórdia para os últimos levou a que ficasse conhecido como “o santo das caridades”. A caridade não substitui a justiça e a ajuda que se presta não dispensa a alteração de opções que possibilitem uma vida digna para todos.

Beata Teresa de Calcutá (1910-1997) a canonizar este ano. Quem não recorda a sua figura franzina e as suas palavras interpeladoras? Dizia às religiosas: “A diferença entre nós e os técnicos sociais consiste nisto: eles agem por causa de alguma coisa; nós, pelo contrário, agimos por causa de Alguém. Nós servimos Jesus nos pobres”.

São João de Deus (1495-1550), um português que nos ensina a reconhecer Cristo no rosto sofredor de tantos, a começar nos “doentes mentais”, e que é considerado o “criador do hospital moderno”.

São João Bosco (1815-1888) e a misericórdia para com os pequeninos. Visto como um “génio da educação”, destacou-se pela forma como acolheu e ajudou milhares de jovens que recebeu nos seus Oratórios.

São Martinho de Porres (1579-1639) e a misericórdia para os marginalizados. Filho ilegítimo de um nobre e de uma escrava, nasceu no Peru e ficou conhecido como “Martinho da caridade”. No convento dominicano onde fora acolhido e no serviço de enfermagem que prestava, as suas curas eram inumeráveis, mas dizia aos doentes: “Eu trato-te; Deus cura-te”.

Aqui ficam estas referências e, sobretudo, o apelo para posteriores pesquisas e leituras. Porque não ler um livro, consultar a internet, eleger alguns como tema de reunião e formação, partilhar ensinamentos, reter e publicitar vivências e afirmações?…

J.D., in Voz de Lamego, ano 86/11, n.º 4348, 2 de fevereiro de 2016

SALMOS DA MISERICÓRDIA

Os-Salmos-da-misericordia_R

Neste Ano da Misericórdia, o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização preparou e publicou uma pequena colecção de livros para ajudar à vivência deste jubileu. Um dos livrinhos (135 p.) tem por título “Os Salmos da Misericórdia”. Após uma breve apresentação, são apresentados, de forma simples e didáctica, dez salmos. O objectivo é ajudar a compreender estes poemas e divulgar a sua recitação. Porque, tal como ali se pode ler, “O Saltério é, na verdade, a voz de Deus transformada em oração dos homens quando estão na sua presença, sabendo necessitarem do seu amor” (p. 5).

Se pegarmos na Bíblia e a abrirmos no Antigo Testamento lá encontraremos o Livro dos Salmos que nos oferece um conjunto de 150 poemas. Na Igreja, os ministros ordenados assumem o dever de os recitar ao longo do dia (Liturgia das Horas), embora já muitos fiéis leigos os recitem, por exemplo de manhã (Laudes) ou à tarde (Vésperas). E rezamo-los também nas nossas Eucaristias, logo após a primeira leitura.

Aqui ficam os dez salmos atrás referidos.

Sl 25 – uma súplica individual, onde aquele que reza se sente atormentado pelos inimigos e se dirige confiadamente a Deus para que o livre dessa situação;

Sl 41 – súplica de um doente que se dirige ao Senhor para que o livre da enfermidade, certo de que a sua oração será atendida;

Sl 42 e Sl 43 – o salmista encontra-se afastado da face de Deus e por isso a sua alma se consome e o seu interior está desgastado… O silêncio de Deus incomoda e inquieta, mas a certeza da presença do Senhor anima-o para o tempo que virá;

Sl 51 – um dos salmos mais conhecidos, que a Igreja reza todas as sextas-feiras (Laudes), também referido como “Miserere”. O pecado é assumido e confessado e o orante pede perdão e purificação. Invocando o pleno perdão divino, apela ao amor misericordioso de Deus;

Sl 57 – súplica dirigida a Deus, colocada nos lábios do rei David, testemunhando os sentimentos de angústia e de confiança;

Sl 92 – exemplo de um hino que convida ao louvor, desenvolve os motivos do louvor e convida ao reconhecimento diante da rectidão de Deus;

Sl 103 – hino de louvor ao Senhor, onde a alma humana é convidada a bendizer o Senhor, num louvor que nunca terminará;

Sl 119 – o salmo mais longo do Saltério, uma lamentação que apresenta o tema da perseguição dos inimigos;

Sl 136 – hino de acção de graças utilizado nas grandes festas, com um ritmo litânico que repete o refrão “é eterna a sua bondade” por cada momento da salvação (criação, redenção, dom da terra).

Porque não, ao longo deste ano, desenvolver este gosto por rezar a Deus com os Salmos e integrar a sua recitação nos diversos momentos de oração individual, familiar ou comunitária?

Como escreveu o nosso bispo, D. António Couto, “Os Salmos são para cantar com toda a intensidade… para entregarmos a Deus a nossa alegria, mas também o ódio que nos habita. Rezar é entregar tudo a Deus” (O Livro dos Salmos, p. 5).

JD, in Voz de Lamego, ano 86/10, n.º 4347, 26 de janeiro de 2016

Mensagem do Santo Padre Francisco para a Quaresma 2016

msg_PAPA_FRANCISCO_Quaresma_2016

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2016

«“Prefiro a misericórdia ao sacrifício” (Mt 9, 13).
As obras de misericórdia no caminho jubilar»

1. Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada

Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que «a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus» (Misericordiӕ Vultus, 17). Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa «24 horas para o Senhor», quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus.

Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, no Magnificat, a misericórdia com que Deus A predestinou. Deste modo a Virgem de Nazaré, prometida esposa de José, torna-se o ícone perfeito da Igreja que evangeliza porque foi e continua a ser evangelizada por obra do Espírito Santo, que fecundou o seu ventre virginal. Com efeito, na tradição profética, a misericórdia aparece estreitamente ligada – mesmo etimologicamente – com as vísceras maternas (rahamim) e com uma bondade generosa, fiel e compassiva (hesed) que se vive no âmbito das relações conjugais e parentais.

2. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia

O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo.

Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada (cf. Misericordiӕ Vultus, 8). Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de Israel. E é-o ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu pelo Shemà, fulcro ainda hoje da aliança de Deus com Israel: «Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6, 4-5). O Filho de Deus é o Esposo que tudo faz para ganhar o amor da sua Esposa, à qual O liga o seu amor incondicional que se torna visível nas núpcias eternas com ela.

Este é o coração pulsante do querigma apostólico, no qual ocupa um lugar central e fundamental a misericórdia divina. Nele sobressai «a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (Evangelii gaudium, 36), aquele primeiro anúncio que «sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese» (Ibid., 164). Então a Misericórdia «exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar» (Misericordiӕ Vultus, 21), restabelecendo precisamente assim a relação com Ele. E, em Jesus crucificado, Deus chega ao ponto de querer alcançar o pecador no seu afastamento mais extremo, precisamente lá onde ele se perdeu e afastou d’Ele. E faz isto na esperança de assim poder finalmente comover o coração endurecido da sua Esposa.

3. As obras de misericórdia

A misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia. É um milagre sempre novo que a misericórdia divina possa irradiar-se na vida de cada um de nós, estimulando-nos ao amor do próximo e animando aquilo que a tradição da Igreja chama as obras de misericórdia corporal e espiritual. Estas recordam-nos que a nossa fé se traduz em actos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo. Por isso, expressei o desejo de que «o povo cristão reflicta, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina» (Ibid., 15). Realmente, no pobre, a carne de Cristo «torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga… a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós» (Ibid., 15). É o mistério inaudito e escandaloso do prolongamento na história do sofrimento do Cordeiro Inocente, sarça ardente de amor gratuito na presença da qual podemos apenas, como Moisés, tirar as sandálias (cf. Ex 3, 5); e mais ainda, quando o pobre é o irmão ou a irmã em Cristo que sofre por causa da sua fé.

Diante deste amor forte como a morte (cf. Ct 8, 6), fica patente como o pobre mais miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar riqueza e poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais que um pobre mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa. Chega ao ponto de não querer ver sequer o pobre Lázaro que mendiga à porta da sua casa (cf. Lc 16, 20-21), sendo este figura de Cristo que, nos pobres, mendiga a nossa conversão. Lázaro é a possibilidade de conversão que Deus nos oferece e talvez não vejamos. E esta cegueira está acompanhada por um soberbo delírio de omnipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco «sereis como Deus» (Gn 3, 5) que é a raiz de qualquer pecado. Tal delírio pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar. E podem actualmente mostrá-lo também as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a vê-los.

Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais directamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo. Por esta estrada, também os «soberbos», os «poderosos» e os «ricos», de que fala o Magnificat, têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo Crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor infinitos que o homem se ilude de poder colmar mediante os ídolos do saber, do poder e do possuir. Mas permanece sempre o perigo de que os soberbos, os ricos e os poderosos – por causa de um fechamento cada vez mais hermético a Cristo, que, no pobre, continua a bater à porta do seu coração – acabem por se condenar precipitando-se eles mesmos naquele abismo eterno de solidão que é o inferno. Por isso, eis que ressoam de novo para eles, como para todos nós, as palavras veementes de Abraão: «Têm Moisés e o Profetas; que os oiçam!» (Lc 16, 29). Esta escuta activa preparar-nos-á da melhor maneira para festejar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte conquistada pelo Esposo já ressuscitado, que deseja purificar a sua prometida Esposa, na expectativa da sua vinda.

Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38).

Vaticano, 4 de Outubro de 2015
Festa de S. Francisco de Assis

Francisco

MISERICÓRDIA: Atributo divino

12313634_867173486724033_1334969278192253219_n

A leitura da Sagrada Escritura revela-nos um Deus presente, próximo e misericordioso que, sem deixar de ser justo, sofre connosco e por nós, respeita a liberdade das suas criaturas e não cessa de esperar o regresso do filho pródigo. O Deus que se revela ao longo da história, cujo cume da revelação acontece em Jesus Cristo, é um Deus que tem que ver connosco e quer a salvação de todos.

A misericórdia não suprime a justiça de Deus, aquela que coloca o pecador diante de Deus (Ex 34, 6; Os 11, 8). Deus age segundo a sua misericórdia e segundo a sua justiça. De acordo com o NT, a misericórdia é parte essencial da caridade que Jesus revela, exige e torna possível (Mt 5, 48; Lc 6, 31). Se o atributo da justiça conota as noções de severidade e exigência, mas também de transcendência da santidade divina, o atributo da misericórdia reenvia a uma compaixão fundamental, à vigilância compreensiva de um Deus que “sabe de que somos formados” (Sl 103,14) e que se mostra sempre disposto à clemência e ao perdão.

A justiça de Deus não está acorrentada à nossa noção de justiça, de dar a cada um segundo os seus merecimentos, porque Deus é amor (1 Jo 4, 8) e a misericórdia divina é expressão da fidelidade de Deus a si mesmo e da absoluta soberania no amor. Ao longo do tempo, o Criador demonstra uma inesgotável paciência com os homens, não abandona ninguém e a cada um oferece novas oportunidades, novos começos. Dito de outra forma, a justiça divina não é uma justiça legal nem simplesmente retributiva, mas uma justiça “re-creativa”; trata-se de recriar o ser humano e de o salvar, algo que não pode existir sem amor e sem misericórdia.

A misericórdia divina alimenta a esperança de redenção, mas não se pode confundir com o superficial “deixar andar” tão característico de quem se instala na facilidade ou no comodismo. A misericórdia é a propriedade fundamental de Deus e a maior das virtudes que possamos cumprir (EG 37), não para diminuir a exigência dos mandamentos, mas para melhor os compreender e realizar, segundo o Evangelho. Se Jesus diz: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36), isso tem consequências para a vida cristã que é chamada a viver as obras de misericórdia corporais e espirituais.

O amor é o valor fundamental da experiência e da vida cristã, o que há de mais sublime e profundo no homem, o que lhe permite ser plenamente humano. A sua falta faz com que a existência humana seja vazia e sem sentido, ao mesmo tempo que impossibilita ser cristão, porque, no seguimento de Jesus, o amor é o padrão da vida cristã (St. Agostinho dizia: “ama e faz o que quiseres”).

A misericórdia divina sossega-nos diante das possíveis limitações pessoais, mas põe-nos em movimento. Estamos diante de algo que é exigente e provocante, pois “a mensagem da misericórdia divina não é a mensagem de uma graça barata” (W. Kasper).

JD, in Voz de Lamego, ano 85/54, n.º 4341, 8 de dezembro

Jubileu da Misericórdia | Continuidade

Pope Francis leads the Vespri prayer in Saint Peter's Basilica at the Vatican April 11, 2015.     REUTERS/Alessandro Bianchi - RTR4WX5G

Ao convocar e dedicar este jubileu extraordinário à misericórdia, o Papa Francisco inscreve-se numa dinâmica eclesial que imediatamente o antecede.

O Papa que convocou a Igreja para o II Concílio do Vaticano, S. João XXIII, afirmava que a “misericórdia é o mais belo nome de Deus” e os documentos conciliares abandonaram o tom severo de concílios anteriores, adoptando o diálogo como ponte e a misericórdia como remédio, sublinhando a intenção pastoral daquela magna reunião eclesial.

A segunda encíclica de João Paulo II é dedicada a este tema: “Deus rico em misericórdia”, (Dives in misericórdia), em 1980. E será este Papa que, influenciado pela mística Irmã Faustina, sua conterrânea, vai proclamar o II domingo de Páscoa como Domingo da Divina Misericórdia, encarregando a Igreja de transmitir e testemunhar ao mundo o fogo da compaixão. Nas suas exéquias, aquele que viria a ser o seu sucessor, J. Ratzinger, apontou a misericórdia como ideia mestra de todo o seu longo e fecundo pontificado.

Após a sua eleição, em plena guerra fria, o Papa vindo do leste escrevera na sua primeira encíclica (Redemptor Hominis) que “todos e cada um dos homens são o caminho da Igreja”. Não um qualquer caminho, mas semelhante ao que Cristo percorreu e que culmina na sua entrega por amor, algo que parece estranho à mentalidade contemporânea que parece opor-se a Deus, convencida de que o desenvolvimento tecnológico e o progresso verificado não deixarão “espaço para a misericórdia” (DM 2) ou para a divindade.

Diante desta realidade, já o Concílio Vaticano II havia alertado: “O mundo actual apresenta-se, assim, simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio. E o homem torna-se consciente de que a ele compete dirigir as forças que suscitou, e que tanto o podem esmagar como servir” (GS 9).

Apesar dos avanços conseguidos, S. João Paulo II percebe que ficar por aí não chega e escreve que “a justiça, por si só, não é suficiente”. Porque a “permissividade moral” atinge a convivência humana e “é esta desmoralização que se transforma muitas vezes em ‘desumanização’. O homem e a sociedade, para os quais nada é ‘sagrado’, decaem moralmente não obstante as aparências” (DM 12).

E é neste contexto que aquela encíclica apresenta o amor divino, “paciente e benigno” (1 Cor 13, 4), que acolhe o homem e o motiva no caminho da conversão, porque o “autêntico conhecimento do Deus da misericórdia, Deus do amor benigno, é a fonte constante e inexaurível de conversão” (DM 13).

Na Bula que convocou este jubileu (Misericordiae vultus), o Papa Francisco reassume a necessidade da Igreja contemplar o mistério da misericórdia e dela dar testemunho, apesar da limitação do pecado (MV 2 e 3).

JD, in Voz de Lamego, ano 85/52, n.º 4339, 24 de novembro

Jubileu da Misericórdia: Imagem e datas

porta_santa

Como refere o sítio oficial do Ano da Misericórdia (www.iubilaeummisericordiae.va), o logótipo e o lema colocados juntos oferecem uma síntese feliz do Ano jubilar, que nos propõe viver a misericórdia no exemplo do Pai que pede para não julgar e não condenar, mas perdoar e dar amor e perdão sem medida (cfr. Lc 6,37-38).

O logótipo – do jesuíta Marko I. Rupnik – apresenta-se como uma pequena suma teológica do tema da misericórdia: mostra o Filho que carrega aos ombros o homem perdido, recuperando uma imagem muito querida da Igreja primitiva, porque indica o amor de Cristo que realiza o mistério da sua encarnação com a redenção.

O desenho realça o Bom Pastor que toca profundamente a carne do homem e o faz com tal amor capaz de lhe mudar a vida. Um detalhe não é esquecido: o Bom Pastor, com extrema misericórdia, carrega sobre si a humanidade, mas os seus olhos confundem-se com os do homem. Cada homem descobre assim em Cristo, novo Adão, a própria humanidade e o futuro que o espera, contemplando no Seu olhar o amor do Pai.

A cena é colocada dentro da amêndoa, também esta figura cara da iconografia antiga e medieval que recorda a presença das duas naturezas, divina e humana, em Cristo.

Enquanto esperamos pelo calendário diocesano, eis algumas datas encontradas naquele sítio.

08 de Dezembro de 2015

Abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro.

13 de Dezembro de 2015

Abertura da Porta Santa da Basílica de São João em Latrão e nas Catedrais do Mundo.

01 de Janeiro de 2016

Abertura da Porta Santa da Basílica de Santa Maria Maior.

19 de Janeiro –21 de Janeiro de 2016

Jubileu dos Operadores dos Santuários.

25 de Janeiro de 2016

Abertura da Porta Santa da Basílica de São Paulo extra-muros.

02 de Fevereiro de 2016

Jubileu da Vida Consagrada e encerramento do Ano da Vida Consagrada.

10 de Fevereiro de 2016

Envio dos Missionários da Misericórdia na Basílica de São Pedro.

22 de Fevereiro de 2016

Jubileu da Cúria Romana.

04 e 05 de Março de 2016

“24 horas para o Senhor”

03 de Abril de 2016

Domingo da Divina Misericórdia

24 de Abril de 2016

Jubileu dos adolescentes (13 – 16 anos)

29 de Maio de 2016

Jubileu dos Diáconos.

03 de Junho de 2016

Jubileu dos Sacerdotes.

12 de Junho de 2016

Jubileu dos Doentes e das Pessoas com deficiência.

26 – 31 de Julho de 2016

Jubileu dos Jovens. Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia.

04 de Setembro de 2016

Jubileu dos Operadores e voluntários da misericórdia.

25 de Setembro de 2016

Jubileu dos Catequistas

08 e 09 de Outubro de 2016

Jubileu Mariano

06 de Novembro de 2016

Jubileu dos Presos, em São Pedro.

13 de Novembro de 2016

Encerramento da Porta Santa nas Basílicas de Roma e nas Dioceses.

Domingo, 20 de Novembro de 2016

Encerramento da Porta Santa em São Pedro e conclusão do Jubileu.

JD, in Voz de Lamego, ano 85/51, n.º 4338, 17 de novembro

Jubileu da Misericórdia | ano santo temático

11138998_489629654518618_302276954244899040_n

Ano Santo temático

Tal como escrito na semana passada, este é um jubileu extraordinário, convocado fora das datas habituais. Mas é também singular no que respeita ao tema escolhido e assumido: a misericórdia. Por isso, na sua apresentação, o cardeal Fisichella falou de um “jubileu temático”, que se apoia no conteúdo central da fé e se propõe renovar o convite à Igreja para assumir a sua missão prioritária: ser sinal e testemunho da misericórdia em todos os aspectos da vida pastoral.

Na Bula de proclamação deste jubileu, “O rosto da Misericórdia”, o Papa dirige-se a todos para justificar a sua decisão e fundamentar o tema do jubileu: “Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (n.º 2).

O tema da misericórdia, escolhido para este jubileu extraordinário, é oportuno e até nem terá sido uma grande novidade, se atendermos às intervenções papais e às vezes em que o tema foi referido nas suas palavras e iniciativas. Lembremos a deslocação à ilha de Lampedusa – a primeira fora de Roma – para visitar refugiados, os contínuos apelos à paz diante dos conflitos, a denúncia diante de uma sociedade que descarta os mais fracos e idosos, as palavras duras e certeiras diante de uma economia que mata, o convite à preservação do planeta, as assembleias sinodais sobre a família, etc. Também aos líderes de outras religiões o Papa Francisco apresentou a misericórdia como caminho, quando os convidou para a via do diálogo e para a denúncia do que contribui para a perseguição e a morte.

Os cristãos precisam contemplar o rosto misericordioso de Deus revelado em Jesus Cristo para poderem meditar a reconfortante boa nova de serem amados, apesar dos limites. Ter consciência deste amor divino que está para além da justiça concede alegria e serenidade, ao mesmo tempo que motiva a sentimentos semelhantes diante do próximo. A misericórdia não é o sentimento dos fracos, dos que não conseguem retribuir “na mesma moeda”, mas a única realidade que pode trazer a verdadeira paz, porque resulta de algo que ultrapassa a mera justiça distributiva.

Na carta que o Papa escreveu a D. Rino Fisichella, o importante é que, durante este Ano Santo, cada um tenha uma “experiência vida da proximidade do Pai” e seja capaz de “sentir pessoalmente a sua ternura, para que a fé de cada crente se revigore e assim o testemunho se torne cada vez mais eficaz”.

in Voz de Lamego, ano 85/50, n.º 4337, 10 de novembro

ANO SANTO: APROFUNDAR A FÉ

logooficialanomisericordia

No dia-a-dia, jubileu é sinónimo de festa para celebrar um aniversário (matrimónio, sacerdócio…). Na bíblia significa um “ano da graça do Senhor” (Is 61, 2), uma ocasião para remir dívidas e penas devidas aos pecados, “um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4, 19). Na Igreja católica, jubileu é sinónimo de convite papal para assinalar, num determinado período, acontecimentos importantes na vida da fé, durante o qual são concedidas indulgências plenária.

Na Bíblia distinguem-se o “ano sabático” e o “ano jubilar”. O ano sabático é o último ano de um período de sete anos. O agricultor semeará os seus campos e colherá os produtos dele durante seis anos, mas, no último ano, deixá-los-á em pousio e o que eles produzirem espontaneamente será abandonado aos indigentes e aos animais do campo. Neste mesmo ano, os escravos serão libertados.

O ano jubilar é o que termina as sete vezes os sete anos, o 50.º ano (7×7=49). É anunciado ao som da trombeta, deixam-se os campos em pousio, libertam-se os escravos, perdoam-se as dívidas e devolvem-se ao proprietário ou aos seus herdeiros os bens fundiários (Lev 25, 10. 23 ss). Uma oportunidade para afirmar e concretizar a igualdade entre todos os filhos de Israel, proteger os mais fracos e oferecer novas oportunidades às famílias que haviam perdido as suas propriedades e, mesmo, a liberdade.

Com raízes bíblicas, tornou-se, depois do século XIV, ocasião para meditar, proclamar e agradecer a alegria provocada pela presença e acção de Cristo na terra, o Ano Santo.

A tradição do Ano Santo foi iniciada pelo Papa Bonifácio VIII, em 1300, que fixou a sua celebração a cada cem anos. A partir de 1475 – no sentido de dar a cada geração a possibilidade de o viver – o jubileu ordinário foi estabelecido a um ritmo de 25 anos. Por outro lado, um jubileu extraordinário pode ser convocado por ocasião de um acontecimento singular. No total, e até hoje, os Anos Santos ordinários já celebrados foram vinte e seis. O último Ano Santo remonta ao jubileu do ano 2000. De forma extraordinária, no último século, foram convocados em 1933, por Pio XI, para assinalar o 19.º centenário da Redenção, e em 1983, por João Paulo II, para os 1950 anos da Redenção.

A Igreja católica privilegia um significado espiritual para o jubileu, que consiste num perdão generalizado, numa indulgência aberta a todos e na possibilidade de reforçar a união com Deus e com o próximo. O Ano Santo é uma oportunidade para aprofundar a fé e viver, de forma comprometida e renovada, o testemunho cristão.

O início do jubileu é marcado pelo rito da abertura da Porta Santa, que se abre apenas no Ano Santo, existente em quatro basílicas romanas: S. Pedro, S. João de Latrão, S. Paulo fora de muros e Santa Maria Maior.

JD, in Voz de Lamego, ano 85/49, n.º 4336, 3 de novembro

JUBILEU EXTRAORDINÁRIO MISERICÓRDIA | ANÚNCIO

jubileu_misericordia_igreja

No passado dia 11 de abril, na véspera da vivência do Domingo da Misericórdia (II Dom. Pascal), o Papa Francisco tornou pública a Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, “O rosto da misericórdia” (Misericordiae vultus). Ao todo, cerca de 24 páginas (Paulinas Editora) que valerá a pena ler e meditar para melhor perceber a intenção do Papa e ficar a conhecer os objectivos e percursos deste Jubileu que se inicia já no próximo dia 8 de dezembro.

Consciente da missão e presença eclesial no mundo, atento ao tempo que passa e mostra tantas situações de conflito, discórdia e ressentimentos, o Papa não tem dúvidas de que este é “o tempo do regresso ao essencial” e que “chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão”, porque “o perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde coragem para olhar o futuro com esperança” (n.º 10). Nesse sentido, “o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada” (n.º 12).

O convite para contemplar, meditar e testemunhar a misericórdia divina é dirigido a todos, tendo em vista o desejo de que cada um se possa tornar “um sinal eficaz do agir do Pai”, já que o agir misericordioso “torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos” (n.º 9). E conclui: “Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes” (n.º 3).

O ponto de partida é Jesus Cristo “o rosto da misericórdia do Pai” (n.º 1) que “precisamos sempre de contemplar”, porque é “fonte de alegria, serenidade e paz” (n.º 2) e “tudo nele fala de misericórdia” (n.º 8). A misericórdia de Deus “não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras” (n.º 6).

Por isso, falar de misericórdia é ter presente “o caminho que une Deus e o homem” que “nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (n.º 2), porque a “misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa” (n.º 3).

O ano jubilar, que terminará no dia 20 de novembro de 2016, Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, ficará marcado por várias e variadas celebrações, cujo objectivo primeiro será sempre o testemunho dos baptizados: “Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos, em suma, onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (n.º 12).

JD, in Voz de Lamego, ano 85/48, n.º 4335, 27 de outubro

JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA | Ano Santo

logooficialanomisericordia

No passado dia 11 de abril, na véspera da vivência do Domingo da Misericórdia (II Dom. Pascal), o Papa Francisco tornou pública a Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, “O rosto da misericórdia” (Misericordiae vultus). No sentido de divulgarmos este Ano Santo da Misericórdia, aqui ficam algumas breves e incompletas notas sobre a referida Bula, cuja leitura e meditação se recomendam.

Jubileu

O termo jubileu evoca o Ano Santo dos judeus, palavra que significa “toque de trompa”, porque tal ano era anunciado por este instrumento. Na Bíblia distinguem-se o “ano sabático” e o “ano jubilar”.

O ano sabático é o último ano de um período de sete anos. O agricultor semeará os seus campos e colherá os produtos dele durante seis anos, mas, no último ano, deixá-los-á em pousio e o que eles produzirem espontaneamente será abandonado aos indigentes e aos animais do campo. Neste mesmo ano, os escravos serão libertados.

O ano jubilar é o que termina as sete semanas dos sete anos (7×7=49). É anunciado ao som da trombeta, deixam-se então os campos incultos, libertam-se todos os escravos, perdoam-se todas as dívidas e devolvem-se ao proprietário ou aos seus herdeiros todos os bens fundiários comprados (Lev 25, 10. 23 e seguintes).

Na Igreja católica, o primeiro ano jubilar foi decretado por Bonifácio VIII para o ano de 1300. Estava previsto para todos os começos de século, em seguida passou para todos os cinquenta anos e, finalmente, todos os vinte e cinco anos. O início e o fim do jubileu são assinalados pela abertura da porta sagrada, em Roma.

A misericórdia divina

Jesus Cristo “é o rosto da misericórdia do Pai” (n.º 1) que “precisamos sempre de contemplar”, porque é “fonte de alegria, serenidade e paz” (n.º 2). A misericórdia de Deus “não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras” (n.º 6).

Por isso, falar de misericórdia é ter presente “o caminho que une Deus e o homem” que “nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (n.º 2), porque a “misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa” (n.º 3).

Lema do Ano:

“Misericordiosos como o Pai” (n.º 14)

Algumas datas

11/04/2015 – Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia

08/12/2015 – Início do Ano Santo da Misericórdia

15/12/2015 – Abertura da Porta Santa, na Basílica de S. João de Latrão, catedral da diocese de Roma. No mesmo domingo, abertura da Porta da Misericórdia em todas as igrejas catedrais do mundo, bem como noutras igrejas de referência ou santuários

Quaresma de 2016 – envio dos “missionários da misericórdia”, sacerdotes a quem o Papa concederá a  faculdade de perdoarem até os pecados reservados à Sé Apostólica.

04 e 05/03/2016 – Iniciativa “24 horas com o Senhor””, um tempo ininterrupto de adoração em todas as dioceses.

20/11/2016 – Encerramento do Ano Jubilar

Objetivos

“Há momentos em que somos chamados, de maneira mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos um sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes” (n.º 3).

 “Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo do regresso ao essencial… o perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde coragem para olhar o futuro com esperança” (n.º 10).

Por isso, “o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada” (n.º 12).

“Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos, em suma, onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (n.º 12).

Reconciliação

O Papa dedica algumas palavras ao sacramento da confissão, convidando todos os baptizados a aproximarem-se para “celebrar e experimentar a misericórdia de Deus” e insistindo junto dos confessores para que sejam “um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai” (n.º 17).

Durante a próxima Quaresma, o Papa anuncia também o envio de “missionários da misericórdia”, sacerdotes a quem dará “autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica, dizendo aos bispos para convidarem e acolherem “estes missionários” (n.º 18).

obras_misericordia

Obras de misericórdia

“Felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7) é a bem-aventurança destacada pelo Papa, na esperança de que suscite particular empenho por parte dos fiéis (n.º 9).

Convidando a “ir às periferias”, às “situações de precariedade e sofrimento”, evitando a “indiferença que anestesia” ou o “cinismo que destrói”, o texto papal recorda-nos as obras de misericórdia corporal (dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos e enterrar os mortos) e espiritual (aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas e rezar pelos vivos e defuntos), esperando que a sua leitura e meditação “acorde as consciências adormecidas” (n.º 15).

Desejo final

“Neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e a perdoar. Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar ‘Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre’ (Sl 25, 6)” (n.º 25).

JD, in Voz de Lamego, n.º 4314, ano 85/27, de 19 de maio de 2015