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JUBILEU DA MISERICÓRDIA | AO SERVIÇO DO HOMEM

humildade

A fé não é uma questão privada ou irrelevante no âmbito social e político. Apesar de se aceitar a distinção entre realidades terrenas e espirituais, não se aceita a sua separação. Isto porque, apesar de cada dimensão da realidade ter algo de próprio, tudo deve ser orientado para objectivos que defendam e promovam a dignidade e vocação do homem, plenamente revelada pela Palavra de Deus.

O Reino de Deus, não sendo deste mundo, opera nele. Sabemos que a salvação se realiza plenamente na eternidade, mas começa na história e manifesta-se aqui e agora, sobretudo quando a realidade se vê restituída de autenticidade e beleza.

A Igreja tem consciência da sua missão e esforça-se por levar a todos uma mensagem que também é importante para a organização da sociedade. “Quando cumpre a sua missão de anunciar o Evangelho, a Igreja atesta ao homem, em nome de Cristo, a sua dignidade própria e a sua vocação à comunhão das pessoas e ensina-lhe as exigências da justiça e da paz, conformes à sabedoria divina (CIC – Catecismo da Igreja Católica – n.º 2419).

No respeito pela liberdade de cada um e da autonomia dos poderes instituídos, longe da confessionalidade do Estado (laicidade), a Igreja “emite um juízo moral em matéria económica e social, quando os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigem” (CIC 2420; GS 76). Porque a Igreja também se preocupa com os aspectos temporais do bem comum e esforça-se por “inspirar as atitudes justas, no que respeita aos bens terrenos e nas relações socioeconómicas.

Como aqui referido na semana passada, o ensinamento da Igreja é fruto da interpretação eclesial dos acontecimentos aparecidos no decurso da história “à luz do conjunto da Palavra revelada por Cristo Jesus, com a assistência do Espírito Santo” (CIC 2422).

Assim, “a DSI propõe princípios de reflexão, salienta critérios de julgamento e fornece orientações para a acção” (CIC 2423). Por exemplo, a Igreja condena qualquer sistema que seja “inteiramente determinado pelos factores económicos”, porque é “contrário à natureza da pessoa humana” (CIC 2423). Tal como se manifesta contrária diante de uma teoria que “faz do lucro a regra exclusiva e o fim último da actividade económica” ou condenando qualquer sistema que possa “sacrificar os direitos fundamentais das pessoas e dos grupos à organização colectiva da produção” (CIC 2424; GS 65). E é por isso que, no seu ensinamento, “a Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias”, “recusou, na prática do ‘capitalismo’, o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano” (CIC 2425).

A Igreja é, algumas vezes, notícia por causa das fraquezas de alguns dos seus membros, mas a verdade é que, em questões sociais, o mundo muito pode aprender com o seu ensinamento. Bastará, para isso, ultrapassar alguns preconceitos ou retirar os “óculos ideológicos” que dificultam a visualização da verdade.

JD, in Voz de Lamego, ano 86/42, n.º 4378, 13 de setembro de 2016

JUBILEU DA MISERICÓRDIA | VOLUNTARIADO

Homenagem_Voluntários_alunos_e_ex-alunos

No âmbito do Ano Jubilar em curso, em que a misericórdia é tema e contínuo é o convite à sua vivência, talvez seja oportuno deixar uma palavra sobre o voluntariado e expressar gratidão diante de tantos que o protagonizam, sem esperar publicidade ou homenagens públicas.

Falar de voluntariado é fazer referência a uma actividade própria do exercício de cidadania que se traduz numa relação solidária para com o próximo, participando, de forma livre e organizada, na solução dos problemas que afectam a sociedade em geral. Sob variadas formas, individualmente ou de forma organizada e articulada com outros, o voluntariado pode desenvolver-se através de projectos e programas de entidades públicas e privadas. Mas, ser voluntário, corresponde sempre a uma decisão livre, apoiada em motivações e opções pessoais.

Apesar do bem que assim é feito, a líder de um partido político português proferiu, há algumas semanas, palavras que desvalorizavam o voluntariado, quando afirmou tratar-se de “uma treta”. Talvez a ânsia de protagonismo e a distância do chamado “país real” justifiquem tais palavras, que se revelam injustas e ingratas para tantos e tantos que, discreta e eficientemente, dão algum do seu tempo e do seu saber, bem como algumas das suas forças e dos seus meios em favor do próximo, de instituições, associações ou grupos da comunidade. Talvez seja difícil para essa líder política perceber e aceitar que alguém se disponibilize para fazer o bem sem esperar outra recompensa imediata que não seja a alegria, o sorriso ou o bem-estar do outro, sobretudo o mais carenciado. É verdade que, às vezes, os grandes meios de comunicação dão mais destaque a uma esporádica campanha de recolha de lixo numa praia qualquer, mas há gente que, diariamente, se ocupa e preocupa em fazer o bem, voluntariamente.

A misericórdia, esse compadecer-se do outro para o dignificar e o ajudar a avançar, também precisa desse voluntariado para se concretizar, contribuindo para a alegria de quem dele beneficia e para a realização e satisfação pessoal de quem o protagoniza.

A Igreja não tem o monopólio da acção social, mas só um olhar muito distraído ou ideologicamente (de)formado não consegue ver o bem que é feito. E não será para angariar votos, ser notícia ou querer protagonismo. Também não será para promover um assistencialismo que gera dependências. A acção social de gente e instituições ligadas à Igreja é uma verdade e o trabalho voluntário de muitos dos seus membros merece outra atenção e outro tratamento.

Há pessoas que têm dificuldade em aceitar o facto de outros fazerem bem e melhor. A tentação para desvalorizar o esforço alheio deve ser vencida. Afinal, o voluntariado é muito mais vasto que o acto de colar cartazes em tempos de campanha ou andar em arruadas com bandeirinhas.

Os verdadeiros voluntários acreditam no que fazem, sabem distinguir a verdade das tontices e continuarão a dar o seu melhor, até porque “algumas vozes não chegam longe”.

JD, in Voz de Lamego, ano 86/34, n.º 4370, 5 de julho de 2016