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Franciscanos: A VIDA CONSAGRADA NO CORAÇÃO DA IGREJA

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O Papa Francisco teve a feliz ideia de proclamar o ano de 2015 como Ano dedicado à Vida Consagrada. Sem dúvida que o Espírito Santo esteve presente nessa sua decisão. É um ano de graça, em que todos os cristãos são convidados a refletir sobre a importância da Vida Consagrada na vida da Igreja e a rezar intensamente por esta intenção.

O Santo Padre abriu solenemente o Ano da Vida Consagrada no dia 30 de novembro, primeiro domingo do Advento, com uma Carta Apostólica dirigida especialmente às pessoas consagradas, e o seu encerramento será no dia 2 de fevereiro de 2016, Dia do Consagrado.

1. O que é um consagrado? Sagrado é só Deus. Con-sagrado é todo aquele ou aquela que vive em íntima união com o Sagrado, em íntima união com Deus, de forma definitiva, integral, sem condições nem reservas.

A consagração é um dom gratuito de Deus à sua Igreja. A vocação para a Vida Consagrada tem a sua origem no coração de Deus. É Ele que chama. É Ele que consagra, como podemos ler em Jeremias: “Antes de te haver formado no ventre materno, Eu te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta…” (Jr 1, 5).

2. Deus chama e consagra para enviar em missão. O consagrado é por natureza um enviado, com uma missão específica: tornar presente no mundo o modo de vida de Jesus, enquanto viveu no meio de nós. Os consagrados assumem este compromisso e exprimem-no através dos três votos que fazem na sua profissão: de obediência, pobreza e castidade. Abraçam livre e voluntariamente a vivência dos conselhos evangélicos, para viverem mais de perto o estilo de vida de Jesus e se identificarem com Ele no dia-a-dia.

Como diz o Papa Francisco na sua carta, a Vida Consagrada “enquanto dom de Deus, não é uma realidade isolada e marginal, mas situa-se no coração da Igreja, como elemento decisivo da sua missão”.

3. Há na Igreja muitas Ordens, Congregações e Institutos de vida consagrada, cada um com o seu carisma próprio; mas, na realidade, todos têm o mesmo objetivo: a sua própria santificação e a santificação do mundo. Os meios para alcançar esse fim são sobretudo a oração, o anúncio do evangelho e o testemunho de vida. Como diz o Papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi, 41, “o testemunho de uma vida autenticamente cristã é o primeiro meio de evangelização”. Se isto se aplica a qualquer cristão, com mais razão aos religiosos, que “têm na sua vida consagrada um meio privilegiado de evangelização eficaz”, como se lê no mesmo documento. Os consagrados têm, pois, uma importância especial no quadro da evangelização do mundo.

4. A Ordem Franciscana, à qual pertenço, é uma das chamadas Ordens mendicantes. Foi fundada por S. Francisco de Assis (1182-1226) e aprovada oralmente, em 1210, pelo Papa Inocêncio III, visto que Francisco ainda não tinha propriamente uma regra escrita. Limitou-se a apresentar a Inocêncio III algumas frases basilares retiradas do evangelho, pedindo autorização para viver com os seus frades segundo essa norma de vida. Esse pequeno documento é conhecido como “proto-regra” ou primeira regra da Ordem Franciscana, que se perdeu. O Capítulo (assembleia geral) de 1221 apresentou ao Papa uma Regra escrita, que a Sé Apostólica aprovou provisoriamente, sem bula, e que vigorou até 1223. A Regra definitiva foi aprovada através da respetiva bula no ano de 1223, pelo Papa Honório III. Chama-se, por isso, Regra definitiva ou Regra bulada. Começa com estas palavras:

“A Regra e Vida dos Irmãos Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade. O irmão Francisco promete obediência e reverência ao Senhor Papa Honório e aos seus sucessores canonicamente eleitos e à Igreja Romana”.

Temos aqui os traços fundamentais do carisma franciscano: a vivência do evangelho, seguindo os conselhos evangélicos da obediência, pobreza e castidade, e uma profunda reverência e respeito para com a Santa Mãe Igreja. Uma caraterística muito franciscana!

Francisco era filho de um rico comerciante de Assis; mas, quando descobriu no evangelho a paternidade de Deus e a sua filiação divina, exclamou: “Meu Deus e meu Tudo! Se tenho a Deus como Pai, que mais me é preciso?” Renunciou a toda a herança e riqueza paterna, e começou a viver pobremente vestido e a cantar por toda a parte os louvores de Deus. Algumas pessoas, que o tinham conhecido antes, chamavam-lhe doido; no entanto, muitos jovens começaram a segui-lo, juntaram-se a ele, e a Ordem Franciscana nasceu.

Em 1217, quando o grupo já era numeroso, Francisco começou a enviar os Irmãos dois a dois em missão: uns para a França, outros para a Alemanha, outros para a Terra Santa, passando pelo Egito. Em 1219, partiu o próprio Francisco também para o oriente. Esta viagem missionária teve como fruto a fundação da Custódia da Terra Santa. A partir daí, a Igreja Católica confiou à Ordem Franciscana a guarda dos lugares santos na terra onde Jesus nasceu e viveu. Quem fizer uma peregrinação à Terra Santa notará que em todos os santuários se vê a presença dos Frades Menores ou Franciscanos.

Em 1219, um grupo de seis frades foi enviado para Marrocos, a fim de pregar a fé cristã aos muçulmanos. Passaram pelo sul da França e chegaram ao norte da Espanha, onde um deles, Fr. Vital, ficou retido por grave doença. Os restantes cinco prosseguiram viagem, passando por Coimbra, Sevilha, e chegaram a Marrocos, onde foram martirizados por causa de Cristo. Os cinco mártires de Marrocos são os primeiros mártires da Ordem Franciscana. Foi o seu testemunho de simplicidade e de fé que levou santo António de Lisboa a deixar os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, onde se encontrava em Coimbra, e a entrar na Ordem Franciscana.

A chegada dos franciscanos a Portugal aconteceu, ainda em vida de S. Francisco, no ano de 1217, com a vinda de Fr. Gualter e Fr. Zacarias, dois missionários enviados a Portugal para introduzirem esta Ordem no nosso país: Fr. Gualter fundou o convento de Guimarães e Fr. Zacarias o de Alenquer.

A Lamego chegaram por volta de 1270, ou ainda antes. Também as Irmãs Clarissas (franciscanas da 2ª Ordem, de clausura, fundadas por Santa Clara de Assis) viveram em Lamego até à década de 1260-1270. Os primeiros franciscanos que viveram em Lamego faziam parte do ramo franciscano dos chamados Claustrais, que foram extintos pela Santa Sé em 1568, visto que levavam um género de vida pouco condizente com o espírito original do fundador Francisco de Assis. Vieram substituí-los, uns anos mais tarde, os Frades Menores Observantes, que tinham um espírito mais simples e austero, e viviam das esmolas que o povo e os benfeitores lhes ofereciam. Assim, os franciscanos estiveram presentes ininterruptamente em Lamego da segunda metade do séc. XIII até 1834, quando foram expulsos de Portugal todos os religiosos. Regressaram de novo em 1916, tendo permanecido com mais ou menos dificuldades até aos nossos dias.

A atividade pastoral, a que os franciscanos se dedicavam, centrava-se sobretudo na assistência espiritual à Ordem Terceira Franciscana (hoje chamada Ordem Franciscana Secular), no auxílio aos párocos das redondezas (pregação, confissões, funerais, etc.), na orientação de retiros espirituais, sempre que solicitados, e particularmente garantindo o culto e assistência religiosa à igreja de S. Francisco, situada na Rua de Almacave, nº 1, na cidade de Lamego. A igreja de S. Francisco sempre foi um ponto de referência e uma das mais frequentadas da cidade, e é ainda hoje o centro espiritual onde os fiéis de perto e de longe procuram o sacramento da reconciliação. – Os Franciscanos sempre foram e continuam a ser muito estimados pelo povo desta região, e sempre sentiram e continuam a sentir um grande carinho e apoio por parte do clero e dos Bispos, que têm servido pastoralmente esta diocese.

Interessa ainda recordar que, a poucos quilómetros de Lamego, os Frades Menores também viveram no convento de Santo António de Ferreirim. Construído em terrenos doados para o efeito pelos Condes de Marialva, a 28 de janeiro de 1525, ali permaneceram os Franciscanos até ao séc. XIX.

a) Para os menos iniciados neste campo, a Ordem Franciscana está dividida em três ramos: a 1ª Ordem (que compreende os Frades Menores ou simplesmente os Franciscanos, os Capuchinhos e os Conventuais), a 2ª Ordem (as Irmãs Clarissas, de clausura) e a Ordem Terceira ou Ordem Franciscana Secular. – À Ordem Franciscana Secular pode pertencer qualquer cristão, que deseje viver o evangelho ao jeito de Francisco de Assis. Já fizeram parte deste ramo da Ordem, desde as pessoas mais simples e humildes, até reis e Papas. – Temos aqui em Lamego uma Fraternidade da OFS, com sede na igreja de S. Francisco, Rua de Almacave,

b) Como vimos, a Ordem Franciscana é uma Ordem missionária desde as suas origens. No entanto, dedica-se a qualquer género de apostolado: paróquias, ensino, saúde, missões, etc.

5. Sendo tão importante para a vida da Igreja este Ano da Vida Consagrada, é desejo do Santo Padre que todos nós cristãos rezemos pelas vocações consagradas: para que o Senhor fortaleça e encoraje os que já trabalham na sua vinha, e para que continue a chamar novas vocações consagradas, para que o “coração da Igreja” tenha sempre sangue novo que lhe dê saúde, vitalidade e alegria.

Para que Deus possa continuar a dar-nos vocações, precisa muito da nossa colaboração humana. Primeiramente da colaboração das famílias. Que as famílias jovens estejam abertas à transmissão da vida, pois é às famílias que Deus vai buscar as vocações. Se não houver crianças, não haverá vocações! Que as famílias ofereçam um ambiente de fé, paz e amor, onde as vocações possam germinar, crescer e atingir o seu pleno desenvolvimento. – Deus precisa particularmente da colaboração dos jovens, rapazes e meninas. Que estejam atentos! E, caros jovens, “se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não lhe fecheis o vosso coração”.

 Deus é generoso para com os seus filhos e não os abandona. Neste Ano da Vida Consagrada, todos nós cristãos vamos dar o nosso contributo, para, em união com os consagrados, anunciarmos o evangelho e expandirmos o Reino de Deus.

Pe. Fr. Amador Pereira Carreira, ofm,

in Voz de Lamego, n.º 4305, ano 85/18, de 17 de março de 2015