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Dias de genocídio: em pleno século XXI muitos cristãos perseguidos…

genocídio

O mundo prepara-separa acrescentar mais um ano ao calendário e os cristãos vivem o Advento como tempo de preparação para a grande festa do encontro entre Deus e a humanidade, o Natal. No entanto, no mundo, há milhões que não têm motivos para festejar a chegada de um novo ano e há milhares e milhares de cristãos perseguidos que não têm liberdade para celebrar a sua fé e condições para viverem a sua vida com dignidade.

No Iraque e na Síria, os terroristas do Estado Islâmico são implacáveis para com os Cristãos: ou se submetem, convertendo-se ao Islão, ou pagam um imposto – elevadíssimo – ou morrem. Os jihadistas não respeitam nada nem ninguém. Destroem igrejas, matam indiscriminadamente, violam mulheres e escravizam-nas. Milhares de crianças viram os pais serem assassinados à sua frente. O terror é tanto que a única alternativa é a fuga.  Milhares de cristãos deixaram tudo o que tinham e partiram. Agora vivem em tendas e não sabem o que fazer das suas vidas. No Líbano e na Jordânia há um lamento enorme, um grito de dor e de revoltaem milhares de pessoas. São os novos refugiados.  Não têm absolutamente nada. Às vezes, nem sequer a esperança de poderem algum dia regressar a casa…

A perseguição estende-se a outras zonas do globo, como seja em alguns países da Ásia e em África. Maioritariamente, os maus tratos e a morte são infligidos em países se orientação islâmica.

Apesar dos apelos ao diálogo e do convite permanente a que a diversidade seja respeitada, muitos grupos islâmicos consideram estar a cumprir a vontade de Alá quando perseguem e matam “infiéis”, isto é todos aqueles que professam outra fé. A imagem que têm da divindade é muito limitada e a compreensão que protagonizam das verdades da fé não reconhece o direito à diferença. Persegue-se e mata-se, não porque algum crime hediondo tenha sido cometido, mas tão somente porque não adoram o seu deus.

Comunidades cristãs com séculos de existência, famílias estabelecidas há muito com as suas tradições e bens são perseguidas, maltratadas, expulsas ou mortas porque se limitam a seguir a sua fé, a fé que herdaram dos seus antepassados.

Os perseguidores são alguns, podem até ser uma minoria e serão, certamente, um mau exemplo a evitar e uma má “publicidade” à fé islâmica. Mas a pergunta que se faz é esta: como se transmite tanto ódio de geração em geração, de grupo em grupo? Quem continua a propagar tais interpretações das escrituras islâmicas? Quem subsidia a existência de tais “mestres” e de tais “escolas” corânicas? Quem financia o recrutamento de tantos jovens europeus para as suas fileiras? Que os Palestinianos não gostem e persigam os judeus até é compreensível, quando vemos a situação em que milhões de Palestinianos são obrigados a viver. Mas que mal cometeram tantos cristãos indefesos, pobres e isolados no Iraque ou na Síria, na Nigéria ou na Coreia do Norte?

Por vezes a religião é apresentada como obstáculo e causa de conflitos, quando, na verdade, o problema será uma questão de valores e de princípios. Enquanto não se olhar para a vida como valor supremo e para a dignidade humana como princípio universal não se chegará muito longe. Que importa rezar ao Senhor da Vida se não sou capaz de respeitar a vida que tenho e que testemunho à minha volta? Como posso pedir perdão ao Senhor misericordioso se não aceito e sou incapaz de conviver com quem pensa diferente de mim?

Por outro lado, em países que se dizem de orientação ateia, como a Coreia do Norte, onde está o respeito pela liberdade individual e donde vem tanto medo perante a fé dos cidadãos? Ou será que a fé cristã ensina e promove pensamentos e práticas que respeitam a diversidade e excluem todo o totalitarismo? Porque será que esses dirigentes, que se dizem iluminados e teimam em manter os seus compatriotas nas trevas, têm mais medo das bíblias que proíbem do que das armas que produzem e vendem?

Ninguém poderá ficar insensível perante tantas atrocidades que se cometem por esse mundo fora, desrespeitando a individualidade e dignidade humanas. Curvamo-nos perante tantos testemunhos de fidelidade e sentimo-nos pequenos diante de tamanhos exemplos de vida e de fé.

Enquanto crentes, somos desafiados na nossa esperança, acreditando que a Providência de Deus não falha, apesar de, às vezes, pensarmos que Deus anda “distraído” perante tanto mal e “silencioso” diante de tantas súplicas. Mas Ele concede-nos tempo para reconhecer o erro e corrigir a falha. Rezamos para que o sangue destes mártires seja “semente de novos cristãos” e que os perseguidores reconheçam o valor da vida e aceitem a diferença.

Joaquim Dionísio, in VOZ DE LAMEGO, n.º 4292, ano 84/54, de 9 de dezembro de 2014