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ORDENAÇÕES SACERDOTAIS | HOMILIA DE D. ANTÓNIO COUTO

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  1. Refere uma indicação do Pontifical Romano acerca da Ordenação dos Presbíteros que o Bispo faz a homilia, dirigindo-se ao povo e aos Eleitos, falando-lhes do ministério dos presbíteros, a partir do texto das leituras lidas na liturgia da palavra (n.º 123). É o que vou tentar fazer, caríssimos fiéis leigos, caríssimos Eleitos Fabrício e Valentim, caríssimos sacerdotes e diáconos, consagrados, seminaristas.

  1. Ezequiel é um profeta. Portanto, é frágil. Portanto, não é autorreferencial, não vive de si e para si, mas vive da força de Deus (é o que significa o nome de Ezequiel), que o atravessa e nele se manifesta como uma nascente, como uma música suave e melodiosa em palavras de namoro decantada (Ezequiel 33,32). Eis Ezequiel entre os exilados de Tel ʼAbîb, na Babilónia, com a sua harpa dependurada nos salgueiros do rio Cobar, atual Shatt Ennil, um canal de irrigação feito sair do rio Eufrates para irrigar a cidade de Nippur. É ali, àquela colina de Tel ʼAbîb, ou da primavera ou das espigas, que acorrem os judeus ali exilados para ouvir aquela doce melodia que o vento do Espírito faz ressoar, repassando as cordas da harpa de Ezequiel ali dependurada. É por 93 vezes que Ezequiel é interpelado por Deus com a locução «filho do Homem», para abrir logo ali duas avenidas: uma, que liga Ezequiel, «filho do Homem», ao «Homem» de Génesis 1, que recebe de Deus o mandato de cuidar com doçura da inteira criação, até pôr cada criatura a cantar com renovada emoção aquele: «Louvado sejas, meu Senhor…», que São Francisco de Assis, já cego, nos ensinou a entoar; outra, que abre caminho para aquele Jesus, manso e humilde de coração, que atravessa os Evangelhos, e que, por 82 vezes, se diz a si mesmo com a locução «Filho do Homem», assumindo o Homem, desde Génesis 1, e nele imprimindo a verdadeira imagem do Deus invisível (Colossenses 1,15).

  1. É este Jesus que vemos no Evangelho de hoje (Marcos 6,1-6), a sair de lá (ekeîthen) (Marcos 6,1), de lá, de Cafarnaum, da casa de Jairo, onde o tínhamos deixado no Domingo passado (Marcos 5,35-43). Sai da casa de Jairo, onde tinha encontrado e levantado do sono da morte uma sua irmã verdadeira, Talitha (feminino de Talyaʽ, que significa “Servo”, “Cordeiro”, “Pão” e “Filho”, decifrando claramente Jesus), e dirige-se agora para a sua pátria (pátris) (Marcos 6,1), ao encontro dos seus familiares e conterrâneos. Esta ida à sua pátria, ao encontro dos seus familiares e conterrâneos, tem o seu ponto alto no dia de sábado, e a sinagoga é o lugar desse encontro (Marcos 6,2). Trata-se, no Evangelho de Marcos, da primeira ida de Jesus à sua pátria, e é também a última vez, neste Evangelho, que Jesus ensina numa sinagoga (Marcos 1,21.23.29.30; 3,1; 6,2). É ainda significativo que o sábado seja mencionado, neste Evangelho, apenas mais uma vez, precisamente naquela manhã de Páscoa, «passado o sábado» (Marcos 16,1).

  1. E, portanto, tudo neste texto, neste encontro, assume um carácter denso e decisivo. Desde logo a escolha do termo pátria (pátris), que carrega consigo um significado mais intenso e mais amplo do que o mais habitual de «povoação», «lugar» ou «aldeia» (chôra, tópos, kômê). Com esta forma de dizer, este decisivo encontro com Jesus não fica apenas circunscrito a uma pequena região da Galileia, mas prefigura já o encontro de Jesus com o inteiro Israel. E a rejeição que lhe é movida ali, na sua pátria (Marcos 6,2b-4), aponta já para a rejeição que lhe será movida pelo inteiro Israel. Indo mais fundo: são mesmo já visíveis, desde aqui, as resistências ao Evangelho radicadas no nosso coração, e que o Quarto Evangelho porá a claro, dizendo de Jesus: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Mas também esta primeira ida de Jesus à sua pátria, e esta última vez de Jesus a ensinar na sinagoga, e este sábado que aponta para aquele último «passado o sábado» (Marcos 16,1), devem despertar em nós evocações e apelos decisivos. Tudo o que tem sabor a primeiro e último carrega, como sabemos, um particular peso específico, uma carga ou descarga única de emoção. Sim, é a primeira vez que Jesus nos vem visitar! É a última vez que vemos Jesus a ensinar na nossa terra! E este sábado já a passar, já passado, deixa-nos à beira do tempo novo da ressurreição e da missão!

  1. É aí que vos deixo, caríssimos Eleitos Fabrício e Valentim, no limiar mistério e do ministério, no limiar da missão. A última vez como Diáconos, a primeira vez como Presbíteros. Fazei sempre tudo com particular intensidade e emoção. Como se fosse sempre a primeira vez, como se fosse sempre a última vez! A vossa missão é simultaneamente crepuscular e auroral. Morrei para vós mesmos; dai vida aos vossos irmãos e irmãs. Como Moisés. No último dia da sua vida, não chora, não se lamenta, não olha para trás, mas empurra o povo de Israel para a Terra Prometida. O Livro do Deuteronómio cabe todo, narrativamente, no último dia da vida de Moisés. Podia ter o tom de uma despedida, mas é uma das mais belas auroras que algum dia despontou nas páginas da Escritura. Assim também Ezequiel, assim Jesus, assim Paulo. Todos completamente ao dispor de Deus e dos seus irmãos e irmãs. Dizia Deus, hoje, para Paulo: «Basta-te a minha graça» (2 Coríntios 12,9), a que Paulo responde bem, confessando: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Coríntios 12,10).

  1. Caríssimos irmãos e irmãs, caríssimos sacerdotes e diáconos, caríssimos Eleitos. Permiti que vos deixe ainda uma advertência: amai mais, louvai mais, admirai-vos mais, estremecei mais, espantai-vos mais! Todos teremos certamente reparado que aqueles conterrâneos de Jesus sabiam tudo acerca de Jesus: a sua terra de origem, os nomes dos seus familiares, profissão e residência. Sabiam isto tudo, mas não sabiam de onde (póthen) lhe vinha aquela sabedoria única e os prodígios que realizava.

  1. Permiti ainda que vos diga, caríssimos irmãos e irmãs, que às vezes, por termos os olhos tão embrenhados na terra, nas coisas da terra, não conseguimos ver o céu! Veja-se a iluminante cena da cura do cego de nascença, narrada em João 9. Em diálogo com o cego curado, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos de onde (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando assim a cegueira deles: «Isso é “espantoso” (tò thaumastón): vós não sabeis de onde (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Tal como o cego, e fazendo uso da mesma linguagem, também Jesus «estava espantado» (ethaúmazen), lê-se no Evangelho de hoje, com a falta de fé dos seus conterrâneos (Marcos 6,6). Note-se bem que a falta de fé aqui assinalada não é apenas a negação de Deus. É a rejeição de Jesus em nome de uma errada concepção de Deus. Podemos mesmo dizer que se rejeita Jesus para salvar a honra de Deus! Veja-se bem até onde pode chegar a nossa cegueira!

  1. Amados irmãos e irmãs, caríssimos Eleitos. Tomai hoje verdadeiramente conta de Jesus, que Ele tomará conta de vós! Tomai hoje verdadeiramente conta do Evangelho, que o Evangelho tomará conta de vós! Caríssimos Eleitos, vivei com amor, estremecimento, espanto e emoção os sacramentos que realizareis, sobretudo a Eucaristia e a Reconciliação. Como diz o Pontifical Romano, «Recebei a oferenda do povo santo para a apresentardes a Deus. Tomai consciência do que vireis a fazer; imitai o que vireis a realizar, e conformai a vossa vida com o mistério da cruz do Senhor». Amen.

Lamego, 05 de julho de 2015, Dia do Senhor e de Ordenações Sacerdotais

+ António, vosso bispo e irmão

Ordenação diaconal | Fabrício Pinheiro: testemunho

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Como são belos sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz” (Is 52, 7)

A 13 de agosto de 1990, nascia eu, Fabrício António Pinheiro Correia, numa “extensa freguesia de serra, de vinhedos e pomares, pedaço de terra lindo e fecundo, alongando-se pela margem esquerda do célebre Douro” (cf. Paróquia de Penajóia, Um tempo e um espaço à beira Douro). Sim! Refiro-me à minha Penajóia, mais particularmente à povoação de Valclaro e ao lugar da Mata que me viu nascer e crescer.

Como todos os miúdos frequentei a escola e a catequese e, eis que aqui surge o chamamento.

No seio de uma família católica praticante incutem-me os valores morais e o gosto pela oração, que ainda hoje transporto e pretendo levar até ao fim dos meus dias.

Vários anos passaram e o desejo de ser alguém ao serviço dos outros não desapareceu, embora me tentasse enganar a mim próprio. Esta tentativa de engano não surtiu efeito.

No ano de 2004 surge uma proposta: “Olha Fabrício não queres fazer um encontro de Pré-Seminário?”, perguntava-me o pároco de então (Pe. Joaquim Dionísio) a quem muito devo e agradeço a força e a coragem incutida durante os 9 anos que frequentei os Seminários de Resende e de Lamego, aos quais, também devo a minha gratidão pela formação, assim como aos formadores que fizeram de mim aquele que hoje sou. Aceitei a proposta, embora não soubesse muito bem que desafio seria aquele. “Está bem. Eu vou”, respondi. E, de facto, fui. Gostei e, no ano seguinte decidi entrar no Seminário de Nossa Senhora de Lourdes em Resende para o 10º ano.

Não mais me esqueço do quão difícil foi aquele dia 18 de setembro de 2005. Dia de lágrimas e de saudades tentadas ultrapassar pelos colegas mais velhos, mas sem grande efeito. Todavia tudo foi melhorando, e fui forte o suficiente para abraçar a missão para a qual havia sido chamado.

O fim de uma meta iniciou um novo caminho a 21 de setembro de 2008 aquando da minha entrada no Seminário Maior de Lamego, onde iniciei os estudos teológicos. Nesta casa que me ficará gravada na memória e no coração para o resto da vida fui admitido às Ordens Sacras em 24 de abril de 2012 e instituído Leitor e Acólito a 19 de março de 2013 e 2014, respetivamente. Passos pequenos, mas de grande importância para a minha caminhada vocacional.

Muito tenho a agradecer, a muita gente, pelas palavras de coragem e pelo carinho que me foram dando ao longo destes 9 anos de percurso.

Em primeiro lugar agradeço a Deus o dom da vida e da vocação. Aos meus familiares mais próximos (pais, irmã, cunhado e sobrinha) pelo incentivo e pela presença nos momentos de maior dificuldade. A todos párocos que passaram por esta comunidade e dos quais me recordo (Pe. Armando, Pe. António Loureiro, Pe. Joaquim e atualmente Pe. José Fernando) obrigado pela estima e Amizade que frutificou ao longo deste tempo. A toda a comunidade de Penajóia a “minha família em grande dimensão” pela oração e pelo companheirismo. A todos os meus amigos que nunca me deixaram sozinho. Por último a todas as comunidades por onde passei e a todos aqueles e aquelas que, porventura, me tenha esquecido.

Atualmente estou no Seminário Menor de Resende, talvez porque não tenha aprendido tudo, mas agora, para fazer parte da Equipa Formadora no acompanhamento dos seminaristas mais novos. A todos eles a minha gratidão por mais esta etapa da minha vida. Não é uma missão fácil, mas está a ser enriquecedora.

A todos o meu bem-haja. Assim vale a pena exclamar como o Profeta: “Como são belos sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz” (Is 52, 7).

in VOZ DE LAMEGO  n.º 4289, ano 84/51, de 18 de novembro de 2014.