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Posts Tagged ‘Fábio Ribeiro’

Espuma dos dias: Até que enfim o primeiro infetado português

Desde que o Corona Vírus, rebatizado Covid-19, surgiu no extremo oriente com números alarmantes, a comunicação social portuguesa tem acompanhado o evoluir do surto da doença com muita atenção. O registo dos números, sempre em ritmo crescente, tem acompanhado uma certa expectativa de perceber se este vírus chega ao nosso país ou então a Espanha. No entanto, para gáudio de todas as mentes sensacionalistas e temerárias, esta semana um português a viajar num cruzeiro pelo Japão ficou infetado.

Durante várias semanas, fomos todos testemunhas de inúmeros diretos à porta de hospitais portugueses em que batalhões enormes de jornalistas deram conta de casos “suspeitos”. Era uma senhora que esteve na China, outra que veio num avião com um cidadão belga infetado, etc, etc. Para grande desilusão dessa horda de repórteres, todos os casos suspeitos em Portugal, incluindo a comitiva lusa que estava em Wuhan, deram negativo. Não quero ser adepto do “bota-abaixismo”, mas quase que se percebia a frustração de alguns desses jornalistas. Ora bolas.

Isso não impediu de as mais estapafúrdias teorias da conspiração chegarem ao nosso país. Autênticos boatos em forma de verdade-verdadinha. A que registei, em primeiro lugar, foi a de que teria sido o governo chinês a criar este vírus para controlar o aumento desenfreado da população naquele país (sensivelmente 1,4 biliões de habitantes). Xi (Jinping), o que você foi fazer, seu maroto! Outra informação que andou a circular relacionava-se com a suposta venda de carne chinesa contaminada com o vírus e que já estaria à venda nos talhos portugueses. Estas notícias só não falavam do preço do quilo desta carne infetada.

A China tem sabido estar à altura da responsabilidade. A resposta ao surto, as medidas de quarentena, a construção de hospitais em tempo recorde, tudo me parece muito acertado e dentro do espírito típico chinês de resolver as questões como deve ser. Ainda que a tragédia esteja longe, nada nos garante que não possa chegar a Portugal em breve. E nessa altura conto com o trabalho menos sensacionalista, alarmista de toda a classe jornalística portuguesa. Já alguém imaginou se este surto tivesse começado em Portugal? Como estaríamos agora? O que fariam as autoridades? Marcelo, esse comentador-presidente, o que faria ele?

Fábio Ribeiro, in Voz de Lamego, ano 90/13, n.º 4548, 26 de fevereiro de 2020

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Adeus a um Mestre: o Professor Sabino Pinto Almeida

Gosto demasiado de palavras. Tenho um respeito tão grande por este património tão nosso, que me incomodam os erros gramaticais, orais, de sintaxe. Deus e eu sabemos o quanto me arrepia quando me perguntam “o que é que tu fizestes? Como é que soubestes?”. É uma mania pessoal que até se reflete no meu modo de ser. Tudo isto foi genuinamente plantado em mim por uma pessoa que nos deixou recentemente, em Lamego: o Professor Sabino Pinto Almeida.

Natural de Panchorra, perto de Resende, o Professor Sabino esteve 10 anos na Escola Secundária da Sé, até se reformar em 2005. Foi meu Professor de Português durante seis anos, até ao 12.º ano. Uma época memorável.

Quem o conhecia, sabia perfeitamente que o Professor Sabino despertava alguma curiosidade: a voz grave, o bigode cuidadosamente aparado que escondia o lábio superior, a pouca facilidade em sorrir, a mala preta, clássica, que agarrava pesarosamente sempre que se dirigia para a sala de aula, enquanto olhava para o chão, faziam dele uma figura que impunha respeito e autoridade. Medo. No entanto, nada neste estilo imponente significava arrogância ou desprezo pelos alunos. Havia, isso sim, uma exigência inegociável pelo estudo. Pelo compromisso de aprender. O respeito pela nossa língua, o português. Por isso, só tínhamos duas opções: gostar dele ou temer sempre que o nome dele aparecia.

Com ele, fui apresentado a O’Neill. Detestei. Com ele tive vontade de desistir mal li os versos “As Armas e os Barões Assinalados/Que da Ocidental Praia Lusitana”, de Camões. Também foi com o Professor Sabino que discuti por que raio a casa do Ramalhete era tão espetacular que demorava para aí umas 30 páginas a descrevê-la? Foi através dele que me apaixonei pela escrita leve e encantadora de Jorge Amado. Que aprendi a gostar do olhar descritivo, atento (jornalístico?) de Almeida Garrett. Fiquei sempre intrigado com a opinião dele sobre Saramago, um nome pouco falado nas aulas. Fernando Pessoa, não, era consensual. Acho que ele era mais Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos. Eu sempre gostei mais do futurismo de Álvaro de Campos. E como ele adorava Urbano Tavares Rodrigues?

Ainda assim, não foram seis anos de aprendizagens feitas ao sabor dos “gostos”. É graças ao Professor Sabino que ainda hoje retenho autênticas lições de humildade. Certo dia, defendi que a palavra “cobarde” também poderia ser escrita com “v”. Ele duvidou; fixou-me, saiu porta fora e a sala colapsou. Que teria feito eu? Dez minutos depois, regressa, naquele estilo de caminhar pausado e metódico, com um dicionário, e diz-me: “você tem razão”. Ou então numa das famosas “idas ao quadro”, em que ele me mandou analisar um poema em frente a toda a turma. Um autêntico momento de tensão. “Para onde se dirige o sujeito poético, senhor Fábio?”. Respondi totalmente ao lado. “Para um sítio que eu cá sei vai o senhor!”. Foi a coisa mais azeda que me disse. E ainda assim, a mais certeira. Não me tinha preparado como deve ser para o texto.

Com ele aprendi a fazer do dicionário uma companhia diária. Ter dúvidas é sinónimo de inteligência. O respeito pela nossa língua é matéria de responsabilidade, de honrar gente que veio antes de nós e nos deixou esta herança. Um dia quando me perguntarem o que é um Professor, saberei colocar Sabino como sinónimo. Ainda que saiba a pouco, só posso pensar: obrigado por tudo, Professor Sabino.

Fábio Ribeiro, in Voz de Lamego, ano 90/11, n.º 4546, 11 de fevereiro de 2020

Fábio Ribeiro: Pela defesa do ambiente (e da Greta)

Certamente terá visto muitas vezes nas notícias uma rapariga de ar pacato e tranquilo, com tranças Heidi, esbranquiçada e com uma certa fragilidade aparente. Quando ela fala, o mundo parece invadir-se de um certo deleite, embora uma grande fatia de pessoas esteja mais interessada em bater na menina. Do que fala ela afinal? De ambiente, de salvar o planeta. Só disto.

O nome dela é Greta Thunberg, tem 16 anos e é sueca. Saltou para as bocas do mundo porque criou um movimento chamado “Sextas-feiras pelo futuro”, em que jovens suecos, liderados por Greta, faltam às aulas no último dia da semana, e protestam contra as políticas que não incluem o meio ambiente nas preocupações governativas. É, de facto, um movimento um pouco estranho, é verdade, mas não tem nada de negativo, aparentemente.

Entretanto esta ativista, que chegou a Lisboa na semana passada vinda de barco desde os EUA, tem sido alvo de uma intensa polarização – ou seja: há quem a ame e troque juras de amor com ela; há quem veja nela todo o ódio do mundo e o exagero de uma “não questão” como o clima. Estive muito atento às reações dos políticos e basicamente vi duas marcas muito claras: a esquerda a aplaudir e endeusar Greta; a direita a troçar, menorizar e quase pisar todo o trabalho desta miúda. Como se, em matéria de ambiente, ser-se de esquerda ou direita fosse fundamental.

É um autêntico disparate o destaque que os meios de comunicação social têm dado a Greta. Efetivamente ela não diz nada de novo. Zero. Ela é apenas uma voz. Há várias décadas que existem diversas personalidades que apoiam o clima nesse destaque muito pessoal. É por ser miúda? É porque devia estar a estudar em vez de andar em greve? É mesmo isso o fundamental?

Greta tem endurecido o discurso. Falou em políticos que “lhe roubaram os sonhos”, fala num clima ambiental que depende do “patriarcado”. Parece que, por vezes, ela estica a corda, por alguma razão que possa ter. Efetivamente, toda a campanha de ódio perante alguém que pretende apenas colocar a preocupação ambiental na agenda pública, com ações concretas, tem sido miserável. Nesta procura pela próxima heroína do Mundo, patrocinada pelos média, assiste-se a esta novela do sofá, gritando contra a televisão: “esta Greta é mesmo a maior!” ou “raio de miúda, com aquelas tranças de menina mimada e rica… sabe lá ela o que é vida?”. Depois levantamo-nos e fazemos um chá. E a vida continua.

Fábio Ribeiro, in Voz de Lamego, ano 90/03, n.º 4538, 10 de dezembro de 2019