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Posts Tagged ‘Eutanásia’

Editorial da Voz de Lamego: Para que tenham vida em abundância!

É o programa de vida de Jesus. Não tem outro. Realizar a vontade do Pai. É o Seu alimento, o Seu propósito, a Sua vida. Qual é a vontade do Pai? Que ninguém se perca. Nem um só dos Seus filhos! E, por isso, Jesus é o enviado do Pai, fazendo-Se um de nós, tornando-Se um dos nossos. Por amor. Somente amor. Para nos reconduzir ao Pai. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Para entrarmos na comunhão com o Pai, com a Santíssima Trindade, temos de nos assumir, antes de mais, como irmãos, filhos do mesmo Pai, deixando-nos mover pelo Espírito de Amor que estabelece e garante a comunhão.

No Evangelho de São João, Jesus apresenta-Se como o bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas, e como a Porta, pela qual entram as ovelhas. Jesus conclui dizendo: “Eu vim para que tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). O Seu discurso está em sintonia com a Sua postura, em cada olhar e em cada palavra, em cada gesto e em cada prodígio, Jesus traduz e concretiza o amor de Deus para connosco, para com todos, especialmente para com os mais desfavorecidos, pobres, doentes, pecadores, publicanos, camponeses e pecadores, mulheres e crianças, estrangeiros!

Jesus não desiste de ninguém. Não desiste de Judas, nem de Pedro, nem dos demais apóstolos; não desiste da mulher acusada de adultério nem da prostituta que lhe lava os pés com as lágrimas; não desiste de Mateus, chefe de publicanos, nem de Lázaro, o amigo que morreu! Jesus vai até ao fim, até onde tem de ser. Já o dissemos, a vida não é um absoluto, mas é um direito inalienável, que vem antes e está acima dos demais, é fundamento e substrato de todos os direitos e garantias. Absoluto, na vida de Jesus, na minha e na tua vida, porque somos Seus discípulos missionários, é o amor.

O amor faz-nos pobres, faz-nos servos, não por obrigação, mas por opção.

O amor faz-nos pobres… quem ama, dá e dá-se por inteiro, predispõe do que tem e do que é para que a pessoa amada se sinta agraciada. Vejam-se os pais em relação aos filhos… deixam de comer e de comprar roupa e calçado para que os filhos comam melhor e possam comprar aquela peça de roupa ou aquelas sapatilhas! Como não lembrar as mães que na hora da refeição não se sentavam à mesa, dizendo que já tinham comido para que não faltasse aos filhos…

O amor faz-nos servos… isto é, filhos! O filho do Homem veio para servir e não para ser servido! Já não vos chamo servos mas amigos! O filho do dono da casa serve os seus comensais e convidados. E não se sente secundarizado ou menosprezado, pelo contrário, o filho também é dono na casa. Como é que nos sentimos? Filhos (donos da casa) ou convidados? Se somos filhos amados é com alegria que acolhemos e servimos os “convidados”, as visitas! Como não recordar a parábola do Pai misericordioso e do filho pródigo? A um momento, cada um dos filhos se sentiu, em relação ao Pai, como empregado, não como filho! É o amor do Pai que salva, é o amor de nos sentimos filhos que nos salva. Preenchidos de amor, estamos disponíveis para nos gastarmos em prol da vida dos outros, independentemente das pandemias.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/32, n.º 4567, 7 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Qual a prioridade do país?

Até há pouco, a prioridade era defender a vida, custasse o que custasse. Fechámos escolas, bares, fábricas, concelhos, igrejas, proibimos visitas a lares, ajuntamentos na rua, participação em velórios e funerais, visitas aos hospitais, à cadeia. Era necessário fazer tudo para proteger os mais vulneráveis.

A prioridade foi zelar pela vida. Horas e horas gastas por médicos e enfermeiros e outro pessoal auxiliar para evitar a morte de pessoas com COVID-19, expondo-se, mas com o intuito único e sublime de cuidar da vida.

Na tempestade, o melhor das pessoas vem ao de cima, mas manifesta-se igualmente o pior.

Houve e continua a haver verdadeiros heróis… muitos no anonimado, que abriram as portas e foram ao encontro dos mais desprotegidos, a levar mantimentos ou medicamentos, e assegurando-se que não haveria pessoas esquecidas.

Agora que a pandemia parece mais controlada, mesmo que todos os dias surjam surpresas desagradáveis, o Parlamento traz-nos a temática da eutanásia como uma urgência em facilitar a morte e ajudar a morrer… até aqui havia que evitar a morte a tudo o custo… agora que já morrem menos pessoas, há que facilitar a morte, independentemente dos motivos, ou mesmo sem motivos. Até agora… não desistir de ninguém… agora que as contas estão mais equilibradas, para quê gastar recursos e energias para acompanhar aqueles que vivem em situações mais difíceis?

Para aqueles que veem a história como um eterno retorno, bem podemos dizer que a civilização parece estar a regredir até ao tempo dos faraós, dos reis e das rainhas, e dos imperadores, em que a vida valia conforme o estrato social, o género ou a idade, o poder ou o dinheiro… A vida de alguns valia pouco ou nada: escravos, mulheres, crianças, pessoas portadoras de deficiência ou simplesmente doentes, podiam ser excluídas da sociedade, maltratadas e até mortas, sem que houvesse necessidade de prestar contas… ainda há alguns países assim…

O cristianismo valorizou a vida, não a qualquer custo, mas enformada pela verdade e pelo amor, pela filiação divina. Somos filhos amados de Deus. Eu e tu. Todos. A criança, a mulher, o escravo, o grego, o chinês. Todos, sem exceção. O enfermo, o leproso, o estrangeiro. O que a todos une e identifica é a filiação divina, a dignidade de cada um, e a sua insubstituibilidade.

O direito à vida tornou-se essencial para qualquer sociedade. Foi um salto qualitativo na civilização. O direito à morte… significa que se abdica do direito à vida, por qualquer motivo ou mesmo que não haja motivo nenhum.

Será esta uma prioridade do país? Consigo coligir algumas prioridades: empregabilidade, produtividade, acesso facilitado aos cuidados de saúde, para as pessoas idosas e com menos recursos; recuperar a economia, promover uma efetiva justiça social… erradicar a pobreza; aumento significativo do ordenado mínimo nacional; pagamento do trabalho doméstico para mães/pais que optem ficar em casa a cuidar/educar os filhos, política de natalidade abrangente…

A despenalização, liberalização e promoção da eutanásia, como antes o aborto, será uma questão de dias… pois mesmo que no Parlamento não houvesse uma maioria para levar à prática esta lei, contra os estudiosos, os médicos, contra a filosofia, far-se-iam tantos referendos quantos fossem precisos até conseguirem outra maioria…

Contudo, como cidadãos e como cristãos só temos uma prioridade: amar e servir, cuidar, defender, proteger e celebrar a vida, não desistir de ninguém, não deixar ninguém para trás; salvar, curar, sarar… é a nossa missão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/30, n.º 4565, 23 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Razões da nossa esperança

Vivemos em democracia. Somos, aparentemente, comandados pela maioria. Muitas vezes por uma maioria silenciosa, indiferente, ao jeito de Pilatos, demitida ou desiludida. Em cada eleição, a abstenção ganha terreno. Os deputados da Assembleia da República são eleitos por metade do país, a outra metade não quer saber, ou não acredita, ou sente-se defraudado, ou não entrevê que quem venha possa fazer melhor a favor dos mais desprotegidos. Claro que os eleitos têm a legitimidade para legislar, mas com o avançar do tempo vamos verificando que os programas de governo que são propostos não são exatamente os que são cumpridos. Nas eleições seguintes, aumenta a abstenção ou aumenta da representatividade dos partidos extremistas.

Somos responsáveis uns pelos outros. Em nome da liberdade e da autonomia, abdicamos da responsabilidade que nos une, nos irmana, nos familiariza. No Principezinho faz-se essa acentuação: somos responsáveis por aqueles que cativamos! Talvez tenhamos necessidade e urgência de cativar, de criar laços, de nos tornarmos mais dependentes uns dos outros, reconhecendo a nossa indigência e a verdade que nos humaniza. Quando desistimos dos outros, por mais trabalho que nos possam dar, e todos os relacionamentos exigem persistência, cuidado, atenção, dedicação, perdemos um pouco de nós. Pertencemo-nos uns aos outros. Quando uma relação falha, quando alguém parte porque não lhe demos o tempo que precisava e merecia, quando desistimos por cansaço, por indiferença ou por medo (medo de sofrermos ou de vermos sofrer), ficamos mais pobres e menos humanos.

A Assembleia da República, em nome do Estado, vai optar por dar “mais liberdade” para desistir, para matar dentro da legalidade. A Eutanásia, dizem-nos, é uma opção pessoal, isto é, individual, em que cada um pode abdicar de viver. Se é uma questão pessoal, da liberdade de cada um, então porque há de o Estado legislar e intrometer-se nesse desejo e/ou decisão e, com isso, “obrigue” outros a serem carrascos. Por outro lado, é inequívoco que esta lei será aprovada sub-repticiamente. À direita ou à esquerda, não ouvimos qualquer referência à eutanásia na última campanha eleitoral. O assunto tinha sido discutido na Assembleia da República, em 2018, mas, não tendo sido aprovada a despenalização/liberalização/obrigação da eutanásia – morte ativamente provocada no paciente, a pedido do próprio, pelos familiares ou por decisão de um médico – caberia ser amplamente discutida e claramente proposta na campanha eleitoral que antecedeu a composição do atual parlamento. Alguns contratos têm letras miudinhas e isso é feito propositadamente para aproveitar a distração! E todos nós já fomos enganados em situações similares (venderam-nos banha de cobra). Engraçado! Há disponibilidade de meios e de médicos para a morte assistida e faltam tantos meios e tantos médicos para atenderem os doentes. Ainda há dias na Urgência de Lamego faleceu um paciente por falta de médicos para fazerem face a tantos pedidos!

Um bloco que quer acabar com o privado, na Educação e na Saúde, e obrigar, agora, os privados a praticarem a eutanásia… em nome da liberdade!

Com a aprovação da eutanásia, do suicídio com ajuda de médicos, a nossa responsabilidade, como cidadãos, como crentes e/ou cristãos é continuar a cuidar, sem desistir nunca, dando razões da nossa fé e da nossa esperança, apostando na companhia, na proximidade, pedindo a Deus o discernimento para sermos melhores cuidadores e a força para lidarmos com o nosso sofrimento e com o sofrimento daqueles que Deus coloca à nossa beira e por quem somos responsáveis.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/12, n.º 4547, 18 de fevereiro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Eutanásia, suicídio ou homicídio?

A 20 de fevereiro celebra-se a memória litúrgica de duas crianças que fazem parte do imaginário, da vida, da história e da identidade do país, Jacinta e Francisco. No mesmo dia, os nossos representantes eleitos vão pronunciar-se contra um dos valores da sociedade, da civilização e dos direitos humanos fundamentais: em que condições se pode facilitar a morte?

Sem vida não há direitos, não há civilização, não haverá sociedade.

Deixaremos de poder confiar nos profissionais de saúde, pois podem decidir matar-nos quando acharem que já não temos autonomia suficiente ou se o prejuízo para as finanças públicas estiver a ultrapassar as expectativas. Talvez também não possamos confiar nos nossos familiares que, por cansaço ou para receberem alguns proventos mais cedo, podem decidir que a nossa vida já não tem valor. Num momento podemos ser nós a pedir que nos matem, e a seguir podem matar-nos sem nos pedir a opinião, como vai sendo na Bélgica e na Holanda.

A questão do aborto permite que os pais (e a sociedade) relativizem o direito à vida. A criança será um estorvo, as condições socioeconómicas são desfavoráveis, não é o momento certo ou porque pode colocar em causa a progressão na carreira! Já há defensores do infanticídio: a criança quando nasce tem a mesma consciência do que o feto, logo se não agradar aos pais, estes podem decidir matá-la, e tudo dentro da lei.

Não se combatem as condições socioeconómicas, combate-se a vida. Sem menosprezar situações de aflição, de desespero e dúvida, de sofrimento… teremos que apostar mais na prevenção, na educação, na proteção e ajuda às pessoas e às famílias. Numa sociedade que definha e envelhece, as políticas de natalidade talvez mereçam muito mais que reflexão… A acérrima defesa dos animais contrasta, muito, com a defesa e promoção da vida humana.

O Papa Francisco tem reiteradamente falado numa cultura de descarte. Dispensamos todos os que nos incomodam, afastamo-los da nossa vista, os pobres, os doentes, os idosos, as pessoas portadoras de deficiência; passeamos os cães, mas não temos tempo para os pais ou para os filhos. A democracia dá lugar à egolatria. Todos somos livres e iguais… desde que os meus interesses sejam caucionados. Veja-se a liberdade de expressão nos livres! À primeira dificuldade, não fazemos caminho, desistimos das pessoas e descartámo-las.

Eu decido! Eu mando! Conta o que me beneficiar! Mais liberdade, mais autonomia! Independência total face aos outros e ao mundo. No dizer de D. António Couto, um “eu” sem pai nem mãe, sem irmãos e sem filhos, sem Deus, sem raízes e sem chão, sem céu nem Providência, sem vínculos nem pertenças. Vazio total. O Iluminismo, em nome da razão, dispensou tudo o que poderia ser limitação à minha liberdade, ao meu pensamento, à minha ação. Eu sou a medida de todas as coisas!

Os pobres serão os primeiros a ser legalmente eutanasiados. Em Auschwitz foram os judeus, os velhos, os aleijados, os que não podiam trabalhar… agora serão novamente os “velhos”, os aleijados e os que não têm acesso (tão fácil) aos cuidados de saúde, e que não podem escolher os médicos ou as instituições de saúde que desejam. Na Holanda daqui a nada estarão disponíveis comprimidos para morrer para as pessoas a partir dos 70 anos, basta que estejam cansados de viver! Nem precisam de “responder”, de refletir, de solicitar alguma opinião.

“A pessoa tem o direito de acabar com a sua vida, chama-se suicídio, não tem o direito de me convocar para esse suicídio, porque aí passa a ser homicídio” (Henrique Raposo, RR).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/11, n.º 4546, 11 de fevereiro de 2020

RELEVÂNCIA E PRESENÇA | Editorial Voz de Lamego | 5 de junho de 2018

RELEVÂNCIA E PRESENÇA

A recente votação parlamentar “adiou” a legalização da eutanásia, já que os seus promotores não descansarão enquanto não puderem inscrever mais esse “avanço” na legislação portuguesa. Tal como na questão do aborto, o tema voltará à ordem do dia e os “arautos do progresso” inscreverão mais essa página na história lusa.

A este propósito, e a par dos defensores de tal prática, muitas foram os portugueses que se fizeram ouvir apelando ao “não”. E se noutros tempos caberia, maioritariamente, aos bispos e padres tal apelo, a verdade é que se ouviram outras vozes e se viram outros rostos nas manifestações concretizadas. O facto mostra que a Igreja cresceu, dando vez e voz a quem não é ministro ordenado, proporcionando aos fiéis leigos afirmarem-se como sujeitos.

Num tempo marcado pelo fim da cristandade e consequente perda de relevância da Igreja no debate público, saúda-se e sublinha-se a aparição de vozes formadas e informadas que enriquecem o debate e, de alguma forma, podem colmatar a ausência da hierarquia, tantas vezes ignorada pelos grandes meios de comunicação.

A Igreja sabe e assume que a perda de relevância no debate, a ausência do convite ou a invisibilidade a que, involuntariamente, é muitas vezes votada em nada diminuem a sua determinação em permanecer fiel ao Senhor, cumprindo a missão de anunciar o Evangelho, servir a humanidade e ser “sacramento de salvação”.

Porque enquanto a Igreja estiver disponível para servir, acolher, escutar, ocupar-se dos mais frágeis, marcar presença nos lugares não cobiçados… a Igreja permanecerá.

É verdade que a Igreja pode ter perdido a relevância de outros tempos, mas para ser fiel Àquele que a fez nascer será sempre mais importante estar presente, promovendo e defendendo a dignidade de todos.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/27, n.º 4464, 5 de junho de 2018

EUTANÁSIA – PSEUDO-AVANÇO | Editorial Voz de Lamego | 29 de maio

EUTANÁSIA – PSEUDO-AVANÇO

Os deputados eleitos pelos portugueses para os representarem na Assembleia da República discutem e votam, hoje, propostas legislativas destinadas a legalizar a prática da eutanásia, assumida  como prioridade por alguns desses eleitos.

A sociedade actual lida mal com a velhice, esconde a morte e detesta estar dependente e perder a autonomia. A idade provoca limitações físicas e a perda de faculdades, as rugas não poderão ser continuamente disfarçadas e a eficiência deixará a desejar. Como continuar a viver numa sociedade que privilegia o individualismo e a eficácia? Como aparecer com as marcas da idade quando o aspecto físico é tão valorizado? Em que alturas da vida ou em que circunstâncias uma vida perde dignidade?

Por outro lado, o culto da liberdade individual (autonomia que não tolera a presença do Outro) leva a querer deixar a cada um a decisão de antecipar a morte. Mas poderá alguém gravemente doente ou afectivamente abandonado ser totalmente livre para antecipar o fim?

Certamente que ninguém poderá ser obrigado a solicitar tal acto, mesmo que legalmente possível, e que os profissionais de saúde poderão evocar reservas de consciência. Mas, como noutras vezes, não faltarão pedidos para morrer nem voluntários para satisfazer tais vontades.

Opiniões contra e a favor têm sido expressas por muitas pessoas, com toda a legitimidade. Como crentes, sabemos que a vida é um dom recebido e que em todos os momentos da vida não estamos sós, porque estamos na mão de Deus. Assim, viver a vida toda é louvar o seu Criador e assumi-la em todos os momentos um acto de gratidão e fidelidade.

Desconhecendo o desfecho da votação, mas esperando que tal iniciativa não venha a ter sucesso, será, no entanto, de esperar que os seus proponentes não desistirão facilmente e tudo farão para concluir mais um “pseudo-avanço civilizacional”.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/26, n.º 44592, 29 de maio de 2018

EUTANÁSIA – VIDA | Editorial Voz de Lamego | 8 de maio de 2018

EUTANÁSIA – VIDA

Entre os dias 13 e 20, ligando as solenidades da Ascensão e do Pentecostes, viveremos a Semana da Vida. O tema escolhido, “Eutanásia… o que está em jogo?”, não é alheio ao debate já iniciado por quem anseia aprovar legislação favorável.

Eutanásia poderá traduzir-se por “boa morte” e ser compreendida como um acto médico que provoca intencionalmente a morte de um paciente com a finalidade de lhe aliviar o sofrimento, seja agindo com esse fim (eutanásia activa), seja abstendo-se de agir (eutanásia passiva).

Os seus defensores dirão sempre que a possibilidade legal não obriga a quem pensa de maneira contrária e não deixarão de sublinhar a liberdade individual.

Os que pensam de maneira contrária rejeitarão tais medidas legislativas e condenarão tais práticas, referindo-se-lhe como um homicídio e propondo a existência de cuidados paliativos acessíveis a todos.

Trata-se de evitar o “dever de matar” quando alguém propõe o “direito de morrer”, valorizando todas as vidas, também as que estão marcadas pela doença, pela deficiência ou pela idade. Porque a dignidade do ser humano se assegura com a vida e não com a morte. Por isso, enveredar por esta via pode apenas significar que a sociedade se demite de tratar os seus.

E se o médico se enganar no diagnóstico? A eutanásia poderá ou não fragilizar o doente e abalar a sua confiança nos hospitais? Um doente, um idoso ou limitado físico tenderá a ver-se como um fardo para alguém? Haverá tentações economicistas? Irão os cuidados paliativos ser incrementados ou deixarão de ser a primeira opção? Que consequências para a sociedade?

Há uns anos, “morrer com dignidade” seria ter acesso aos cuidados paliativos; hoje será um pedido de morte. Ao mesmo tempo que se cultiva a beleza, a festa, o corpo ou a eterna juventude, temos dificuldade em aceitar a fraqueza e a fragilidade.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/23, n.º 44589, 8 de maio de 2018

Eutanásia: Que Estado desejamos? Que sociedade queremos construir?

Doctor harms a patient with cutting tube in the hospital

O tema da eutanásia, que tem vindo a ser cada vez mais debatido em Portugal, chegou à Assembleia da República. Neste momento encontram-se no Parlamento duas petições, uma a favor e outra contra (esta com quase o dobro das assinaturas da primeira). Para além disso o Bloco de Esquerda e o PAN já anunciaram a sua intenção de apresentar propostas de lei sobre o tema.

Por isso, queiramos ou não, é hora de reflectirmos sobre que Sociedade e que Estado desejamos. É talvez a única vantagem deste debate é obrigar-nos a ajuizar claramente sobre a posição que nós, enquanto país, enquanto sociedade, temos diante da Vida Humana.

Porque, ao contrário do que tem vindo a ser afirmado, não se está a discutir a autonomia pessoal, não estamos a debater a possibilidade de as pessoas decidirem o que fazer com a sua vida. Na eutanásia é a pessoa que pede para morrer mas sãos os médicos que decidem se ela pode ou não. Não há autonomia pessoal quando são precisos três médicos (como é proposto pelo PAN) para decidir se uma pessoa pode ou não ser morta. Ler mais…

Desumanização e comodidade | Editorial Voz de Lamego | 7.02.2017

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Na ordem do dia, a temática da Eutanásia. A Voz de Lamego destaca o tema na primeira página, mas também no interior. No Editorial, o Pe. Joaquim Dionísio reflete sobre esta temática, com os riscos envolvidos, com o seguidismo de alguns face a outros países, introduzindo um assunto para eventualmente ter mais um tempo de antena, acentuando-se a perda de valores e de referências, numa sociedade capaz de matar crianças por nascer e anciãos, muitas vezes por mera questão de comodidade.

DESUMANIZAÇÃO E COMODIDADE

O debate sobre a eutanásia estava prometido e era esperado, atendendo à movimentação dos promotores e à disponibilidade dos políticos para o concretizar. Poderá não avançar tão rapidamente como alguns o desejam, mas o tema vai fazer caminho e, mais tarde ou mais cedo, lá se vai conseguir legislar nesse sentido, com o argumento decisivo de que tal disposição legal não obriga quem pensa de outra forma e defende a opção de quem deseja antecipar a morte.

Os bispos portugueses, defendendo o sim à vida e alertando para a crescente desumanização, têm pedido um debate alargado e sereno com vista à necessária e desejada (in)formação.

A discussão agora iniciada não é uma total surpresa, se atendermos ao seguidismo de alguns face a outros países, à perda de valores e da perspectiva da eternidade, à comodidade observada e à solidão imposta, ao declínio da família e à ausência do apoio familiar, ao medo diante da fragilidade e da perda de atributos físicos, à descida da natalidade e ao abandono dos anciãos…

A eutanásia tende a impor-se disfarçada da veste humanista e apregoa o “morrer com dignidade”. O que agora é olhado como um mal (suspensão dos cuidados médicos, injecção letal, suicídio assistido, ajudar a morrer “com dignidade” doentes incuráveis e anciãos “inúteis”), vai parecer, daqui a algum tempo, algo natural e, até, louvável!

Na introdução ao livro “Contra a eutanásia” (Multinova, 2016), recorda-se que em certos grupos esquimós, quando chegava a fome, os idosos se afastavam voluntariamente e aceitavam morrer de frio, na neve e na solidão, para proporcionar a sobrevivência às crianças. Mas a nossa sociedade, conclui autor, “é capaz de fazer morrer, ao mesmo tempo, as crianças ainda por nascer e os anciãos por razões de comodidade”.

in Voz de Lamego, ano 87/13, n.º 4398, 7 de fevereiro de 2017

Ainda a propósito da eutanásia: Direito a morrer?

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Ninguém pode negar aos outros o direito a morrer. Não aprovar a eutanásia é tirar às pessoas a liberdade de serem elas a decidir sobre a sua própria vida.

Quem não quiser pedir a eutanásia, por motivos religiosos, não o faça. Mas, por favor, não tire a liberdade aos outros. A lei não pode continuar a negar às pessoas o direito a uma morte digna.

Será que isto é mesmo assim?

É uma visão muito simplista de tudo aquilo que está em jogo.

E também o é o argumento tantas vezes esgrimido de que somente aqueles que acreditam em Deus são contra a eutanásia. Os argumentos contra a legalização do suicídio assistido não são religiosos — são profundamente humanos!

Pensemos com calma: que consequências trará a legalização da eutanásia ao modo de tratar os idosos, os doentes terminais, os pobres, os deficientes e, em geral, os frágeis da sociedade?

Com a aprovação de uma lei deste tipo, aqueles que são frágeis e optem pela vida correm o grande risco de serem considerados uns egoístas. Podem ser vistos como um fardo que rouba a felicidade àqueles que têm de cuidar deles.

Porque não nos enganemos: uma lei que permita a eutanásia de algum modo incentiva os idosos a tirarem a própria vida. Fá-los pensar, num momento em que mais necessitam do apoio dos seus familiares, que estão a mais e que são somente um peso inútil.

Manter a ilegalidade da eutanásia é o melhor modo de proteger os vulneráveis da sociedade. A lei, se o é de verdade, deve sempre proteger a vida e amparar os mais vulneráveis, porque são eles que necessitam de protecção.

Ao aprovar uma lei destas, o direito à morte acaba por converter-se, para muitas pessoas frágeis, no dever de morrer.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

in Voz de Lamego, ano 86/32, n.º 4368, 21 de junho de 2016