Arquivo

Posts Tagged ‘EUA’

Editorial Voz de Lamego: Trump e Biden, conspirações e palhaçadas

Uma das notícias destes dias é a eleição do novo Presidente dos EUA, que tudo indica será Joe Biden, candidato democrata, derrotando o até aqui Presidente republicano Donald Trump. Lance-se o fogo de artifício, o mundo está a mudar! Agora até a pandemia vai chegar ao fim! A economia vai integrar os milhões de pobres; a liberdade, a igualdade e a fraternidade terão de novo cidadania!

Uma dose de confiança faz-nos bem, mas talvez o Presidente dos EUA, seja ele quem for, esteja mais preocupado com as intrigas internas, com a manutenção do status quo dos membros do partido, nos faça perceber que o país continua a dominar o mundo, e exiba acordos de paz, enquanto vende armamento armazenado para renovar os seus novos arsenais.

Isto pode parecer cinismo! Uma dose de esperança, ou de expetativa, faz-nos bem, porque nos mobiliza e nos empenha na transformação do mundo. No dia em que deixarmos de acreditar, começaremos a morrer. A eleição do Presidente da maior potência do mundo deve ser vista como um motivo de esperança e, por maioria de razão, quando chega ao final um dos mais controversos mandatos presidenciais.

Os norte-americanos são peritos em teorias da conspiração. Donalt Trump potenciou ao máximo estas teorias. Conspirações nas eleições, nas anteriores e nas atuais, conspirações na “criação” e expansão do contágio do novo corona vírus. Não é o primeiro a atribuir uma situação negativa, por culpa própria ou alheia, a conspirações, que muitas vezes não passam de desculpas e justificações. Não é exclusivo dos EUA, em muitos outros países acontece, em ditaduras, mas também em democracias, nos partidos, nos clubes e na Igreja. Há quem suspeite de tudo e de todos, numa preocupação excessiva por manter o estatuto ou o poder, há líderes (fracos) que veem conspiração em toda a parte, sentem-se ameaçados ou inseguros, esperam aplausos por tudo e por todos, independentemente dos méritos, não admitindo ideias diferentes, alternativas, visões que ajudem a melhorar as coisas. Claro que as conspirações existem, como sempre existiram, e, na maioria das vezes, vêm dos círculos mais próximos.

Mas, por outro lado, eu só votaria no Biden como se fosse um mal menor. No primeiro debate entre os dois candidatos, Joe Biden nunca olhou nos olhos do seu adversário e a única frase relevante que fixei foi: cale-se, palhaço. Cale-se, palhaço! Um candidato a Presidente da maior potência do mundo, com idade para ter juízo, chamar palhaço ao ainda Presidente, é no mínimo surrealista!

Que lições podemos tirar destas duas personagens?

Para nós cristãos o modelo por excelência é Jesus. São paradigmáticas as palavras de Jesus aos Seus discípulos, desejosos de constituírem um grupo fechado, excluindo outros, mesmo que façam o bem: “Ninguém fará uma ação em Meu nome e logo de seguida dizer mal de Mim; quem não é contra nós, é a nosso favor” (Mc 9, 39-40). Jesus Cristo, no final, foi vítima de conspiração, mas em nenhum momento Se deixou manietar pelos adversários ou mesmo pelos discípulos, sabia de que somos feitos, mas ainda assim apostou e aposta em nós, porque em nós habita a Sua santidade, ainda que sejamos habitados também pelas nossas limitações e pelo nosso egoísmo.

Não sei se aprenderíamos com o Biden a lidar com os nossos adversários, mas aprendemos com Jesus. Ele olha-nos nos olhos. O olhar de Jesus é uma constante. Olhos nos olhos. Mesmo os Seus adversários sentem um olhar terno, próximo, transparente. Quem não consegue olhar os outros nos olhos só pode esconder uma grande insegurança ou uma grande mentira.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/01, n.º 4583, 10 de novembro de 2020

PAPA FRANCISCO e o convite a abrir-se aos milagres do amor

papa-filadelfia

Na homilia proferida na Missa do encerramento do VIII Encontro Mundial das Famílias, em Filadélfia, no domingo passado, na qual participaram mais de um milhão de fiéis, o Papa exortou os cristãos e as famílias, em particular, a abrirem-se aos milagres do amor, acreditando na ação de Deus que “ultrapassa a burocracia” e os “círculos restritos” e quer que “todos os seus filhos tomem parte na festa do Evangelho”.

O Santo Padre afirmou que Jesus nos diz para não colocarmos obstáculos ao que é bom, mas, pelo contrário, devemos ajudar a crescer. E essa é a “obra do Espírito”, viver a santidade e a felicidade dos pequenos gestos: b“São gestos de mãe, de avó, de pai, de avô, de filho. São gestos de ternura, de afeto, de compaixão. Gestos, como o prato quente de quem espera para jantar, como o café da manhã de quem sabe acompanhar o levantar na alvorada. São gestos familiares. É a bênção antes de dormir, e o abraço ao regressar duma jornada de trabalho. O amor exprime-se em pequenas coisas, na atenção mínima ao quotidiano e que fazem com que a vida tenha sempre sabor de casa. A fé cresce, quando é vivida e plasmada pelo amor. Por isso, as nossas famílias, as nossas casas são autênticas igrejas domésticas: são o lugar ideal onde a fé se torna vida e a vida cresce na fé.”

“Quem dera que cada um de nós se abrisse aos milagres do amor a bem de todas as famílias do mundo, para assim podermos superar o escândalo dum amor mesquinho e desconfiado, fechado em si mesmo, sem paciência com os outros! Deixo-vos uma pergunta: “Na minha casa grita-se ou fala-se com amor e ternura? É uma boa maneira para medir o nosso amor.”

Reintegração moral e social

Após o encontro com os Bispos que participam do VIII Encontro Mundial das Famílias em Filadélfia, provenientes de diversos países, o Santo Padre visitou a Prisão Curram-Fromhold, a maior de Filadélfia, com quase dois mil e 800 detidos. O Papa foi recebido pelos responsáveis da penitenciária e pelo capelão, que o acompanharam até o salão, onde estavam reunidos 100 detidos.

O Papa disse visitar aquela prisão como pastor, mas sobretudo como irmão, para rezar com eles e encorajá-los. Por isso, citou a passagem evangélica do lava-pés, um nobre gesto de serviço, de humildade, de vida. Jesus procura curar as nossas feridas, as nossas chagas, a nossa solidão. Ele vem ao nosso encontro para nos dar a vida, a dignidade de filhos de Deus, a fé e a esperança. Na nossa vida, continuou o Pontífice, precisamos sempre de ser purificados e encorajados. Neste período de detenção, de modo particular, é necessária uma mão que ajude a reintegração social, desejada por todos: reclusos, famílias, funcionários, políticas sociais e educativas. Uma reintegração que beneficia e eleva o nível moral de todos. E concluiu: “Quero encorajá-los a manter esta atitude entre vocês e entre todas as pessoas, que de alguma maneira fazem parte deste Instituto. Sejam artífices de oportunidades, artífices de novos caminhos. Todos temos que ser purificados. Despertemo-nos para a solidariedade. Fixemos os olhos em Jesus que nos lava os pés: Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Que a força do seu amor e da sua Ressurreição seja sempre um meio para a vida nova”.

É bom ter sonhos e lutar por eles

Francisco visitou, na sexta-feira, a escola Nossa Senhora Rainha dos Anjos, no bairro do Harlem, em Nova Iorque. Quase 300 crianças receberam o Papa Francisco, que fez um breve discurso. Ao chegar, o Papa brincou: “peço desculpas se ‘roubo’ alguns minutos da aula”. A maioria dos alunos é de filhos de imigrantes latino-americanos e de afro-americanos. “Explicaram-me que uma das bonitas características desta escola – e deste trabalho – é que alguns alunos vieram de outros lugares, até mesmo de outros países”, disse Francisco ao incentivar a vida da grande família que se forma na escola. Ao recordar o reverendo Martin Luther King, cujo nome identifica uma rua próxima à escola, o Papa lembrou da frase imortalizada pelo pastor evangélico: “Eu tenho um sonho”. E concluiu: É bom ter sonhos e lutar por eles. Onde há sonhos, há alegria, aí sempre está Jesus, sempre”.

Superar crise ambiental e social

Depois do histórico discurso no Congresso dos Estados Unidos, em Washington, na sexta-feira o Papa Francisco cumpriu mais uma etapa marcante desta sua viagem ao discursar na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. Diante de mais de 170 chefes de Estado e de governo, do Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, o Pontífice definiu a sua visita como uma continuação daquelas realizadas por seus predecessores: Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Francisco reconheceu o esforço das Nações Unidas em dar uma resposta jurídica e política às complexas situações mundiais. “Apesar de serem muitos os problemas graves por resolver, todavia é seguro e evidente que, se faltasse toda esta atividade internacional, a humanidade poderia não ter sobrevivido ao uso descontrolado das suas próprias potencialidades”, constatou o Papa.

O Pontífice falou ainda dos órgãos com capacidade executiva real, como o Conselho de Segurança e Organismos Financeiros Internacionais. Estes, todavia, devem velar pelo desenvolvimento sustentável dos países, e não sufocá-los com sistemas de crédito que levam as populações a maior pobreza, exclusão e dependência. “Dar a cada um o que lhe é devido, segundo a definição clássica de justiça, significa que nenhum indivíduo ou grupo humano se pode considerar omnipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais.”

Todo o discurso de Francisco foi inspirado nas reflexões propostas em sua Encíclica Laudato si. O Papa reforçou dois direitos: o direito à existência da natureza e os direitos da pessoa humana. “Qualquer dano ao meio ambiente é um dano à humanidade. (…) O abuso e a destruição do meio ambiente aparecem associados com um processo ininterrupto de exclusão. Na verdade, uma ambição egoísta e ilimitada de poder e bem-estar material leva tanto a abusar dos meios materiais disponíveis, como a excluir os fracos e os menos hábeis. A exclusão económica e social é uma negação total da fraternidade humana e um atentado gravíssimo aos direitos humanos e ao ambiente.”

As mulheres na vida da Igreja

É certo que a Igreja nos Estados Unidos tem dado muita atenção à catequese e à educação, mas permanece de pé o desafio de construir alicerces sólidos e promover um sentido de colaboração e responsabilidade compartilhada quando se programa o futuro das paróquias e instituições. E sem descurar a autoridade espiritual, há que valorizar todos os dons que o Espírito concede à Igreja – insistiu Francisco, dizendo que, de modo particular,  isto “significa valorizar a contribuição imensa que as mulheres, leigas e consagradas, deram e continuam a dar à vida das nossas comunidades”.

in Voz de Lamego, ano 85/44, n.º 4331, 29 de setembro

Papa FRANCISCO quer proposta positiva sobre a família e o matrimónio

El papa Francisco habla en el Encuentro Mundial de Familias, en Filadelfia, el sábado 26 de septiembre de 2015. (Foto AP/Matt Rourke, Pool)

Encontro das famílias

O Papa pediu, em Filadélfia, um discurso católico mais centrado na proposta positiva sobre a família, em particular junto dos jovens, que vivem num “medo inconsciente” do matrimónio e da vida conjugal. “Enganar-nos-íamos se interpretássemos a desafeição, que a cultura do mundo atual tem pelo matrimónio e a família, só em termos de puro e simples egoísmo. Há muitos que adiam o matrimónio à espera das condições ideais de bem-estar e, entretanto, a vida é consumida, sem sabor”, afirmou, num encontro com cerca de 300 bispos católicos que participam no 8.º Encontro Mundial das Famílias (EMF), na capela do Seminário de São Carlos Borromeu, em Filadélfia.

A uma semana de dar início a uma nova assembleia do Sínodo dos Bispos, Francisco pediu que os responsáveis católicos concentrem energias “não tanto para explicar uma vez e outra os defeitos da condição atual e os valores do cristianismo”, mas como sobretudo para “convidar com audácia os jovens a ser ousados na opção do matrimónio e da família”.

O Papa admitiu que a cultura contemporânea “empurra e convence os jovens a não formar uma família”, seja por falta de meios, seja por excesso de recursos e comodismo. “A cultura atual parece incentivar as pessoas para entrarem na dinâmica de não se prender a nada nem a ninguém. Não confiar, nem fiar-se”, acrescentou.

Francisco alertou para a tendência, também a nível religioso, de “correr atrás da última tendência”, assumindo que vive um “difícil período de transição”, por causa da “profunda transformação do contexto atual, que incide sobre a cultura social – e lamentavelmente também legal – dos laços familiares”, atingindo crentes e não-crentes. “Indo atrás do que «me agrada», olhando ao aumento do número de «seguidores» numa rede social qualquer, as pessoas seguem a proposta oferecida por esta sociedade contemporânea. Uma solidão com medo do compromisso, numa busca frenética de sentir-se reconhecido”, assinalou.

Face a uma cultura que adquiriu uma “dinâmica competitiva” e transformou a sociedade numa “imensa vitrina multicultural, atenta apenas aos gostos de alguns «consumidores»”, a Igreja não pode “condenar” os jovens por terem crescido neste contexto. “Devemos anematizá-los porque vivem neste mundo? Será necessário ouvirem da boca dos seus pastores frases como estas: «dantes era melhor», «o mundo está um desastre e, se continuar assim, não sabemos como iremos acabar»?”, questionou.

O Papa disse que este discurso de lamento “parece um tango argentino”, desafiando os bispos a, pelo contrário, “procurar, acompanhar, erguer, curar as feridas” dos dias de hoje. “Atrevo-me a dizer que uma das principais pobrezas ou raízes de muitas situações contemporâneas é a solidão radical a que se vêem forçadas muitas pessoas”, insistiu.

Francisco recordou que, sem famílias, a Igreja não existiria, elogiando todos os que, mesmo nas mais “duras provas”, honram as suas promessas e guardam a fé. “Deus nos conceda o dom de uma nova proximidade entre a família e a Igreja. A família é o nosso aliado, a nossa janela aberta para o mundo, a evidência duma bênção irrevogável de Deus”, concluiu o Papa.

in Voz de Lamego, ano 85/44, n.º 4331, 29 de setembro