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Editorial Voz de Lamego: Neutralidade

Vivemos tempos conturbados. A guerra da Rússia contra a Ucrânia e contra a democracia é só mais um episódio lamentável da cultura da morte, disseminada em guerras, tráfico de pessoas, escravização, trabalho/exploração infantil, fome, prevalência de elites sobre povos inteiros, subjugando-os pela força, ameaça, julgamentos sumários, exílio, perseguição e morte.

A Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada com o propósito de evitar as guerras entre nações, procurando também salvaguardar o direito à autodeterminação de cada povo, no respeito pelas leis, pelos Direitos Humanos fundamentais. Apesar dos propósitos, as guerras continuam a multiplicar-se e, no caso presente, a Rússia, com direito de veto, impede qualquer posicionamento mais firme da ONU, além da ameaça nuclear que pesa sobre a Europa.

Uma das palavras que se tem ouvido muito ultimamente é o da neutralidade. A Ucrânia tinha-se mantido neutra, face a ameaças russas de fazer o que acabou por fazer, invasão e agressão militar. A possível entrada na UE e na NATO foram sendo adiadas. Por sua vez, a Finlândia e a Suécia mantiveram-se, igualmente, neutros face a qualquer conflito internacional. Por um lado, nos conflitos poderiam ser mediadores de paz e reconciliação e, por outro lado, garantiriam que não seriam invadidos ou arrastados para algum conflito internacional. O Portugal de Salazar assumiu essa política de neutralidade, durante a segunda guerra mundial, o que lhe permitiu aprofundar o comércio com ambos os lados, ainda que não tivesse evitado a pobreza de muitos portugueses e a escassez de bens alimentares.

À Ucrânia de nada valeu a dita neutralidade. A Finlândia e a Suécia perceberam que a neutralidade mantida nos últimos 50 anos não era garantia para a paz e integridade territorial face ao que aconteceu com a Ucrânia, pelo que já fizeram o pedido de adesão à Nato, o que implicará investimento militar, mas também a certeza que, em caso de conflito com a Rússia e seus parceiros, terão a solidariedade e intervenção militar dos povos que constituem a Aliança (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Deixemos a dimensão mais política, para nos fixarmos no compromisso cristão perante a cultura da morte, a pobreza, a violência, sendo que, em nenhum momento, deixamos de ser “políticos”! Um cristão não pode colocar-se na perspetiva de Pilatos, não pode lavar as mãos face à mentira, às injustiças. O cristão tem de tomar partido. Não importa se é de direita ou esquerda ou do centro, se é progressista ou conservador, tem de ser, acima de tudo, cristão, imitando, em tudo, em todos as situações, Jesus Cristo, colocando-se, sempre, do lado dos mais desfavorecidos. Não é uma escolha entre outras. É a única escolha possível para um cristão. Não podemos lavar as mãos e tornarmo-nos indiferentes ao sofrimento.

Mas como dizia antes, mesmo quem objete a política, não deixa de ser político e será bom que os cristãos também se empenhem na vida política (e partidária), não com o ensejo de usufruir das melhores regalias, mas com o propósito firme de ajudar a melhorar a vida das pessoas e das comunidades.

O Papa Francisco fala da política como uma arte, como um alto serviço à humanidade, quer para atender às necessidades das pessoas, quer para construir pontes de diálogo e de paz. Com efeito, “somos chamados a viver o encontro político como um encontro fraterno, especialmente com aqueles que estão menos de acordo connosco”. Devemos tratar o outro “como um verdadeiro irmão, um filho amado de Deus” o que, por vezes, implica “uma mudança de olhar sobre o outro” e “um acolhimento incondicional e respeito à sua pessoa, sobretudo, para com os que não concordam connosco”. O santo Padre prossegue, dizendo que “se essa mudança de coração não ocorrer, a política corre o risco de se transformar num confronto muitas vezes violento para fazer triunfar as próprias ideias, em busca de interesses particulares e não do bem comum. Não se pode fazer política com a ideologia”.

O cristão não é neutro e nem todas as escolhas são razoáveis… Razoável, para o cristão, é viver ao jeito de Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/29, n.º 4660, 1 de junho de 2022

Editorial da Voz de Lamego: Em menos de nada estaremos em maio!

E poderíamos estar em junho ou em dezembro. O importante é mesmo hoje, AGORA, viver, sentir, amar, servir, cuidar. Não amanhã, mas hoje. Não daqui a pouco, mas agora. O amanhã pertence a Deus. Ele deu-nos cada instante para darmos sentido à nossa vida e cuidarmos para que o mundo seja terra fértil, habitável, seja casa onde há espaço para todos, onde todos se sintam em segurança, amados, se sintam filhos, se assumam e tratem como irmãos.

Podemos esperar para depois? Claro que podemos! Mas se não chegarmos a maio? Se não chegarmos ao “depois”? Quando dermos conta, estaremos em dezembro!

No final de “Os Maias” (1888), obra prima de Eça de Queirós, num último fôlego, Carlos e João da Ega, esboçam uma réstia de esperança, misturada com um trago de resignação:

“– Lá vem um «americano», ainda o apanhamos. / – Ainda o apanhamos!

Os dois amigos lançaram o passo… – Ainda o apanhamos! / – Ainda o apanhamos!”.

O cristão é enformado pela alegria e pela esperança! A alegria de se saber amado e a esperança de saber que a vida é garantida pelo amor de Deus. Jesus desafia-nos a viver hoje. «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado» (Mt 6, 34). Conhecemos a expressão latina “Carpe Diem”, que desafia a viver o presente com uma dose de irreverência e descontração, temperada com a responsabilidade pelos outros. Não é um propósito egoísta de quem esgota a vida, destruindo-se e aos outros, mas de quem gasta a vida por amor.

Não esperemos que o amanhã chegue! Já é dia, é Páscoa. Este é o tempo que Deus coloca nas nossas mãos para vivermos.

Vale a pena recuperar, e meditar, no desafio de São João XXIII:

1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.

2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspeto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.

3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.

4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.

6. Somente hoje, realizarei uma boa ação e não o direi a ninguém.

7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.

8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exatamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.

10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

Conclusão: um propósito totalitário: “Quero ser bom, hoje, sempre, com todos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/23, n.º 4605, 20 de abril de 2021

RELEVÂNCIA E PRESENÇA | Editorial Voz de Lamego | 5 de junho de 2018

RELEVÂNCIA E PRESENÇA

A recente votação parlamentar “adiou” a legalização da eutanásia, já que os seus promotores não descansarão enquanto não puderem inscrever mais esse “avanço” na legislação portuguesa. Tal como na questão do aborto, o tema voltará à ordem do dia e os “arautos do progresso” inscreverão mais essa página na história lusa.

A este propósito, e a par dos defensores de tal prática, muitas foram os portugueses que se fizeram ouvir apelando ao “não”. E se noutros tempos caberia, maioritariamente, aos bispos e padres tal apelo, a verdade é que se ouviram outras vozes e se viram outros rostos nas manifestações concretizadas. O facto mostra que a Igreja cresceu, dando vez e voz a quem não é ministro ordenado, proporcionando aos fiéis leigos afirmarem-se como sujeitos.

Num tempo marcado pelo fim da cristandade e consequente perda de relevância da Igreja no debate público, saúda-se e sublinha-se a aparição de vozes formadas e informadas que enriquecem o debate e, de alguma forma, podem colmatar a ausência da hierarquia, tantas vezes ignorada pelos grandes meios de comunicação.

A Igreja sabe e assume que a perda de relevância no debate, a ausência do convite ou a invisibilidade a que, involuntariamente, é muitas vezes votada em nada diminuem a sua determinação em permanecer fiel ao Senhor, cumprindo a missão de anunciar o Evangelho, servir a humanidade e ser “sacramento de salvação”.

Porque enquanto a Igreja estiver disponível para servir, acolher, escutar, ocupar-se dos mais frágeis, marcar presença nos lugares não cobiçados… a Igreja permanecerá.

É verdade que a Igreja pode ter perdido a relevância de outros tempos, mas para ser fiel Àquele que a fez nascer será sempre mais importante estar presente, promovendo e defendendo a dignidade de todos.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/27, n.º 4464, 5 de junho de 2018

Ainda a propósito da eutanásia: Direito a morrer?

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Ninguém pode negar aos outros o direito a morrer. Não aprovar a eutanásia é tirar às pessoas a liberdade de serem elas a decidir sobre a sua própria vida.

Quem não quiser pedir a eutanásia, por motivos religiosos, não o faça. Mas, por favor, não tire a liberdade aos outros. A lei não pode continuar a negar às pessoas o direito a uma morte digna.

Será que isto é mesmo assim?

É uma visão muito simplista de tudo aquilo que está em jogo.

E também o é o argumento tantas vezes esgrimido de que somente aqueles que acreditam em Deus são contra a eutanásia. Os argumentos contra a legalização do suicídio assistido não são religiosos — são profundamente humanos!

Pensemos com calma: que consequências trará a legalização da eutanásia ao modo de tratar os idosos, os doentes terminais, os pobres, os deficientes e, em geral, os frágeis da sociedade?

Com a aprovação de uma lei deste tipo, aqueles que são frágeis e optem pela vida correm o grande risco de serem considerados uns egoístas. Podem ser vistos como um fardo que rouba a felicidade àqueles que têm de cuidar deles.

Porque não nos enganemos: uma lei que permita a eutanásia de algum modo incentiva os idosos a tirarem a própria vida. Fá-los pensar, num momento em que mais necessitam do apoio dos seus familiares, que estão a mais e que são somente um peso inútil.

Manter a ilegalidade da eutanásia é o melhor modo de proteger os vulneráveis da sociedade. A lei, se o é de verdade, deve sempre proteger a vida e amparar os mais vulneráveis, porque são eles que necessitam de protecção.

Ao aprovar uma lei destas, o direito à morte acaba por converter-se, para muitas pessoas frágeis, no dever de morrer.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

in Voz de Lamego, ano 86/32, n.º 4368, 21 de junho de 2016

Matar… ou deixar morrer… ou ajudar a morrer

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DE VEZ EM QUANDO… 

No passado dia 06 do mês corrente de Fevereiro, o Movimento “Direito a morrer com dignidade” apresentou no Porto um manifesto a defender a eutanásia e o suicídio medicamente assistido, assinado por 110 cidadãos. Nesse manifesto, o Movimento defende a despenalização e regulamentação da morte medicamente assistida em Portugal e o direito de as pessoas, em pleno uso das suas faculdades mentais, mas perante um sofrimento profundo ou uma doença incurável, terem a liberdade de escolha, ou seja, a liberdade de decidirem morrer e de pedirem que as matem.

O referido manifesto veio trazer de novo para a ribalta da comunicação e para o campo da discussão, o problema da eutanásia.

Logo a seguir, no dia 15, a jornalista Fátima Campos Ferreira trouxe o tema para debate no programa “Prós e Contras”, programa que eu acompanhei com todo o interesse e atenção.

No dia 15 deste mês, reunido em Fátima, o “Conselho Permanente do Episcopado Português” (desta vez apareceu e funcionou) veio tornar claro que a Igreja defende e afirma que a vida humana é algo sagrado e inviolável que “tem sempre a mesma dignidade, em todas as suas fases, independentemente das circunstâncias, quer externas quer internas”. O cardeal patriarca de Lisboa dissera uns tempos antes que “entrar por aí (pela despenalização da eutanásia, tornando-a legal e livre),é entrar numa porta perigosa, de futuro imprevisível”. De facto, depois de se legalizar a matança de crianças inocentes, pretende-se agora legalizar a matança dos doentes terminais, e depois, podem seguir-se mais coisas…e assim se conseguir a “pureza e a sanidade total” da raça, ao jeito da limpeza de Hitler, da purga de Estaline e de outros semelhantes a eles.

O “Código Deontológico dos Médicos”, publicado em Diário da República a 13 de Janeiro de 2009, proíbe a todos os membros da Ordem “a ajuda ao suicídio, à eutanásia e à distanásia”. Ler mais…

EUTANÁSIA : ERRO DELES… ou meu.

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Um grupo de pessoas que dizem ser importantes (???) da nossa sociedade reuniu-se para apresentar um manifesto a favor da eutanásia.

Ao ouvir a notícia pelos meios de Comunicação Social, confesso que fiquei indignado. Não imaginava que pessoas “importantes” – há quem diga que são intelectuais – viessem apresentar ao País que o que os move é o favorecimento da morte. País miserável este se se deixar arrastar por personalidades com semelhante “ importância” e semelhante “ intelectualidade”.

Gostaria de ver personalidades a pugnar pelo direito `a vida (não pelo direito à morte), a promover reuniões e congressos acerca de como viver dignamente e quanto mais tempo melhor! Que houvesse cientistas e que fossem incentivados por mais pessoas cultas (que não estas, obviamente) no sentido de tentarem descobrir a eliminação de mais doenças e de mais anos de vida! Isso sim. Agora, aparecerem-nos “ pessoas cultas”, cuja cultura que nos apresentam é a defesa para que as pessoas se matem ou deixem matar …, que passem bem, muito obrigado. Tais pessoas só podem caminhar para a derrota definitiva, mesmo que neste tempo histórico haja quem lhe bata palmas, satisfazendo o seu ego.

Reduzir o ser humano a um simples objecto, ou seja, coisificar o ser humano, não ter uma visão de transcendência, é tudo, menos cultura digna desse nome, ou então é cultura nivelada por baixo, ao sabor de consensos. Pior, perder a vergonha de considerarem o ser humano submetido a leis de grupo e negando-se o Direito e os direitos da pessoa humana, em geral, é alarmante. Ler mais…

RADICALIDADE E VIDA | Editorial Voz de Lamego | 24 de novembro

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A edição desta semana da Voz de Lamego dá destaque, a partir da primeira página, ao compromisso com os mais pobres, com a intervenção da Cáritas Portuguesa, que se reuniu em Conselho Geral, e à campanha do Banco Alimentar contra a Fome.

No interior, entre notícias, reflexões, eventos, espaço para a Visita Pastoral de D. António Couto à Paróquia de Santo Adrião de Cabaços, na Zona Pastoral de Moimenta da Beira, entrevista com o Padre Marcos Alvim, que no sábado apresenta um novo álbum musical,  intitulado “Tu Senhor” e muitos outros motivos de interesse, com o propósito de aproximar pessoas e comunidades.

Para início de leitura, o Editorial com a referência aos atentados de Paris feitas em nome da religião ou de uma suposta vida radical. O Pe. Joaquim Dionísio contrapõe a vida radical de Jesus Cristo que não mata nem destrói mas que dá a vida para que tenhamos vida em abundância:

RADICALIDADE E VIDA

Os recentes atentados de Paris, os relatos e imagens que da cidade-luz nos chegam e os consequentes comentários têm marcado os últimos dias. E pelo mundo fora, exceptuando quem apoia tal prática (terroristas), todos são unânimes na condenação do acto e defensores de medidas que impossibilitem novos atentados.

Os jovens autores da barbárie são descritos como “radicais”, no sentido em que alteraram drasticamente o seu comportamento, adoptando atitudes bruscas que os tornaram intransigentes e extremistas. Neste cenário, “radical” é o que protagoniza actos violentos contra o seu semelhante em nome do Islão.

Mas o islamismo apreendido, assumido e defendido por estes terroristas é, sobretudo, um movimento radical que recusa a modernidade e a liberdade e se identifica mais com um totalitarismo que anseia e se bate por regular a sociedade em nome de uma religião que se apresenta como via única de redenção.

Em oposição a esta forma de ser e de estar aparecem referências aos “muçulmanos moderados”, compreendidos como seguidores pacíficos do Islão, integrados na sociedade ocidental, que cumprem os seus deveres e respeitam a ordem social vigente.

Mas talvez não chegue ser moderado. Será preciso também, por exemplo, denunciar certos pregadores violentos que, nas mesquitas onde orientam o culto, fomentam ódios e desrespeitam valores e princípios ou denunciar o aliciamento e recrutamento de jovens que se tornam vítimas e potenciais terroristas. É preciso fazer mais para travar esta deriva totalitarista e fundamentalista.

No Evangelho encontramos apelos à radicalidade, entendida como conversão feita pela raiz, sem cálculos e hesitações. Nesse sentido, para Jesus Cristo, discípulo radical é aquele que, livre e conscientemente, opta sem reservas por Deus e avança, decidida e responsavelmente, pelo caminho do bem até à doação de si mesmo pela vida do outro.

in Voz de Lamego, ano 85/52, n.º 4339, 24 de novembro

À conversa com o Diácono Fabrício Pinheiro

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No próximo dia 05 de julho, primeiro domingo do mês, às 16h00, o nosso bispo ordenará sacerdotes os diáconos Fabrício e Valentim. Para os conhecermos melhor, aqui ficam algumas palavras dos que se preparam para integrar o presbitério diocesano.

1- Para os nossos leitores, quem é o Diác. Fabrício Pinheiro?

O Diácono Fabrício Pinheiro sou eu mesmo (sorrindo). Um rapaz feliz e cheio de energia, que cresceu numa família cristã onde aprendeu valores humanos e de fé. Foi isso que me ajudou a crescer na vida e na vocação.

Sou um jovem de apenas 24 anos de idade, mas com um desejo constante de anunciar a Palavra e a pessoa de Jesus Cristo sem qualquer medo.

Para alguns que já me conhecem, durante as férias sempre tive um trabalho um pouco “invulgar”. Trabalhei alguns anos numa fábrica de pirotecnia e por todos os lados que passei, e foram muitos, nunca tive vergonha de assumir aquilo que era. Sempre me identificava como seminarista. Com isto comecei a ficar conhecido como o “padre fogueteiro”. Isto apenas para dizer que nunca tive vergonha de me identificar com Aquele em quem acredito.

Entrei na aventura de Cristo em 2005 no Seminário Menor de Resende e, hoje, permaneço nessa aventura, depois de 10 anos de estudos, com o desejo de servir cada vez mais e melhor este Senhor que me deu a vida e o dom da vocação.

Sou de Cristo sou feliz!

2- Como tem sido o teu estágio pastoral?

É difícil responder. Todo o serviço pastoral destes quatro anos foi diferente. Mas, não minto, que o deste ano, no Seminário Menor de Resende, marcou essa diferença.

Quando fui para o Seminário, em setembro passado, pensava para comigo: “Ah valha-me Deus e Nossa Senhora onde é que estes ‘senhores’ me foram meter!”. Porém, o tempo foi passando e a amizade entre a comunidade ia crescendo. Tanto da equipa formadora (excelentes amigos) como dos “meus meninos” (é deste modo que eu os vejo, pois penso que de algum modo me sinto responsável pela orientação de vida que, independentemente, cada um tome) trago um exemplo de vida, de família, com os seus momentos menos bons, como em todas as famílias, mas que não deixa nunca de ser família. É, também, nesta capacidade de ser família, de fazer família que eu quero viver de forma total e feliz o dom da Vocação que Deus me deu.

3- A partir da experiência entretanto conseguida, como vês a formação recebida no Seminário e na Faculdade de Teologia?

A formação é, sem dúvida, muito importante. Os valores como a educação, o bem-fazer das coisas, o respeito mútuo, o saber construir comunidade/família, são valores que nos ajudam a crescer, a sabermos olhar a vida de um modo diferente.

Se hoje sou o que sou devo-o ao Seminário, pois foi uma casa que me ajudou a ser um jovem que gosta de viver e de ser feliz, fazendo os outros felizes.

Quanto à Faculdade de Teologia muito teria para dizer mas o espaço do jornal é curto demais (sorrindo). Mas posso dizer que foram anos muito bem passados, onde através dos livros e da oração feita sobre os mesmos, foi um tempo no qual aprofundei o meu conhecimento teológico (estudo sobre Deus) de uma forma, desculpem a expressão, fantástica, com as suas dificuldades e exigências, mas que com empenho e interesse tudo se consegue alcançar. Na Faculdade fiz muitos e bons amigos que conservarei para toda a vida. Formarem-nos faz-nos ser as pessoas felizes que somos. Estudar faz-nos crescer. Ambos ajudam-nos a viver e a olhar para o mundo de uma forma diferente.

4- Uma palavra para os nossos seminaristas e aos que estão a pensar entrar no seminário?

Apenas dizer-lhes que não tenham medo. Cristo ama-vos. Ama-nos a todos pois todos somos filhos. É certo que pelo caminho aparecem muitas “pedras”, contudo cada pedra deve ser um degrau para subirmos em direção à meta.

Recordo aquele cântico “Te amarei Senhor! Te amarei Senhor! Eu só encontro a paz e a alegria bem perto de Ti”. Não tenho a menor dúvida deste amor cheio de paz e de alegria que o Senhor tem por cada um de nós. Por isso, a ti que O segues ou queres seguir não tenhas medo porque Ele está contigo. Entra na aventura de Cristo! O dom da Vocação não é teu nem meu, mas é d’Ele. Por isso deixa que seja Ele a guiar os teus passos.

in Voz de Lamego, n.º 4320, ano 85/33, de 30 de junho de 2015

OUSAR RESPONDER | Editorial Voz de Lamego | 21 de abril de 2015

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A edição desta semana da Voz de Lamego abre com destaque para os trágicos acontecimentos do Mediterrâneo, com centenas de pessoas a tentar chegar à Europa, à procura de uma vida melhor, também vítimas do tráfico e da ganância, daqueles que com promessas fáceis colocam estas centenas pessoas na rota dos naufrágios, que já matarem milhares de pessoas.

Destaque nas páginas centrais para a Visita Pastoral de D. António Couto à Paróquia de Vila Nova de Souto d’ El Rei (Arneirós), no Arciprestado de Lamego, nesta semana de Oração pelas Vocações, de que o Editorial faz eco. Muitos outros temas, reflexões, notícias, acontecimentos próximos.

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 52.º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES: Aqui.

Para ambientar a leitura desta edição, o Editorial do seu Diretor, Pe. Joaquim Dionísio.

OUSAR RESPONDER

A 52.ª Semana de Oração pelas Vocações, sob o tema “Seguir Jesus, Caminho de Beleza, Vocação & Santidade”, começou antes de ontem. Uma iniciativa anual que data de 1964 e que, desde 1971, termina no IV Domingo de Páscoa, também conhecido como Domingo do Bom Pastor.

Uma iniciativa que convida à reflexão: quando falamos de “vocação” falamos dessa realidade que toca todo o ser humano no mais íntimo da sua liberdade. A vocação, no quadro da vida cristã, é um apelo único e pessoal de Deus, inscrito em cada homem por Ele criado. E todos são convidados a responder-lhe na liberdade do amor, em vista da própria felicidade.

Mas uma iniciativa que apela, também, à oração: para que a liberdade humana, esclarecida e estimulada pela ação do Espírito Santo, descubra o seu caminho.

Por outro lado, e neste contexto, falar de vocações é fazer referência a todos quantos se consagraram de forma particular ao serviço da Igreja que peregrina no mundo, aos religiosos e ministros ordenados que, ao longo dos séculos, foram chamados e enviados. Contemplando a missão protagonizada e o serviço prestado, como não louvar e agradecer, ontem como hoje, tais vidas?

E mesmo se a grande maioria não consta da lista eclesial dos santos, não é tema de livros biográficos ou não está retratada em monumentos humanos, como não agradecer os inumeráveis dons e frutos de santidade?

Apesar dos limites e fragilidades, das dificuldades e do sofrimento na diversidade de vocações assumidas, como não sublinhar tantas vidas doadas de forma discreta e eficiente? Quantos testemunhos protagonizados com alegria e serenidade, em plena disponibilidade e gratuidade?

Por isso, Senhor, aos que chamas para continuar a aventura, concede-lhes discernimento e confiança, para que ousem responder ao Teu apelo e avancem firmemente, servindo todos os que encontram no caminho.

in Voz de Lamego, n.º 4310, ano 85/23, de 21 de abril de 2015

A pastoral vocacional é a vocação da pastoral | Igreja que chama

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A evangelização é a razão de ser da Igreja. Eis uma afirmação sempre repetida e uma prática sempre assumida. No nosso contexto, em virtude de fenómenos como o do indiferentismo religioso, do ateísmo e do secularismo sublinha-se, sem cessar, a necessidade de uma nova evangelização capaz de assegurar uma fé límpida e profunda, dando sentido ao nascer, ao viver, ao sofrer e ao morrer.

A partir de textos e documentos publicados, a Comissão Diocesana das Vocações e Ministérios procurará contribuir para a missão evangelizadora comum, nomeadamente através do ângulo da pastoral vocacional. Porque uma evangelização que se reclama de “nova” não pode dispensar uma “pastoral vocacional nova”, atendendo ao contexto onde se insere e desenvolve.

Neste particular, facilmente nos apercebemos de que o contexto sócio-cultural em que nos inserimos é diversificado, causando alguma confusão e dificuldades nas opções, já que as solicitações são muitas. Vivemos numa cultura pluralista, ambivalente, “politeísta” e neutra, onde o modelo antropológico parece ser o do “homem sem vocação”.

Por outro lado, a pastoral vocacional é a própria acção pastoral de toda a Igreja (Pastores dabo vobis 34), já que a vocação é o coração da nova evangelização, um objectivo primário da acção eclesial: evidencia o chamamento universal de Deus. Porque o fundamento da pastoral vocacional será ajudar todos a descobrir o significado da existência humana. Daí o título desta contribuição, emprestado do documento final do Congresso sobre as Vocações para o Sacerdócio e a Vida Consagrada, realizado em Roma, em 1997, intitulado “Novas Vocações para uma Nova Europa”, onde afirma que “ a pastoral vocacional é a vocação da pastoral hoje” (n.º 26), convidando a Igreja a “vocacionalizar toda a pastoral”.

No tempo do “homem sem vocação”, importa anunciar a certeza de que não somos um acaso nem seres sem uma meta final a atingir. E desenvolver uma cultura da vocação é oportunidade para concretizar a gratidão, acolher o mistério, assumir a incompletude do homem, abrir-se ao transcendente, disponibilizar-se para se deixar chamar por um outro, confiar em si e no próximo, ser livre diante do dom recebido e ter capacidade para sonhar e desejar (NVNE, 13).

A Igreja é uma comunidade vocacional (chamados), tal como deixa a entender o próprio nome (assembleia convocada) onde, por sua vez, todos são capazes de anunciar e convidar. Todos são chamados e todos chamam.

Por isso, falar de pastoral vocacional é falar da vida de todos os baptizados: chamados que chamam.

Comissão Diocesana Vocações e Ministérios,

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4299, ano 85/12, de 3 de fevereiro de 2015