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Editorial Voz de Lamego: A cultura do encontro na educação

Mais um ano escolar! Mais oportunidades de encontro, de amadurecimento, de crescimento. Mais um ano de diálogo, de compromisso e de desafio.

Para quem entra pela primeira vez, a escola pode assustar. Será mais difícil para os pais do que para as crianças, sobretudo nos meios maiores. Separar-se dos filhos, confiá-los a outras pessoas, colocá-los num meio estranho, provoca ansiedade e medo. Será que o filho/a se vai adaptar? Como vai lidar com os outros? Como é que cuidarão dele/a?

Para quem regressa, se as coisas correram mal, pode acentuar-se a animosidade para com a escola e para com pessoas que fazem a escola. Se correram bem, haverá possibilidades de ainda correrem melhor. Reencontro de amigos, regresso a um ambiente que se tornou familiar e que se converteu na segunda ou, até mesmo, na primeira casa.

O gosto pela aprendizagem será sempre um estímulo. Por essa razão hoje se fala tanto em “motivação”. Tantas as ofertas, as propostas, que a escola aparece como estorvo ou enfado! Sem secundarizar o efeito das redes sociais! Em todos os ambientes, o telemóvel tornou-se uma necessidade patológica: desligar, colocar em silêncio, arrumar na mochila, para não haver a tentação de ver se há notificações… Para muitos é um drama!

A escola absorve-nos cada vez mais. Parece que a vida toda se resolve à volta da escola. Positiva e negativamente. Positivamente quando é inclusiva, quando é promotora da cultura, da comunidade, da partilha e da solidariedade, quando ajuda à integração das pessoas, preparando-as para a vida, para o mercado do trabalho, mas sempre e sobretudo para que aqueles que, num tempo são mais “aprendizes”, se tornem verdadeiramente autores de uma sociedade mais justa e fraterna, num mundo mais saudável. Negativamente, quando a seleção e a competividade, levadas ao extremo, servem para excluir, criando muros entre bons e maus. Premeie-se o mérito, mas sem esquecer a pessoa, o seu contexto familiar e social, as suas dificuldades e potencialidades e/ou as suas insuficiências, procurando não deixar ninguém para trás. Não é fácil. É um desafio para toda a comunidade educativa (que inclui a escola, a família, o ambiente geográfico e social, os parceiros, empresas e autarquias, Igreja, associações e movimentos).

Servindo-nos das palavras do Papa Francisco, a escola tem o grave dever de promover a cultura do encontro, na inclusão e respeito das diferenças. Diz o Papa: é preciso “cooperar para formar jovens abertos e que se interessam pela realidade que os circunda, capazes de cuidado e ternura… estimular nos alunos a abertura ao outro como rosto, como pessoa, como irmão e irmã que deve ser conhecido e respeitado, com a sua história, as suas qualidades e defeitos, riquezas e limites”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/39, n.º 4526, 18 de setembro de 2019

Apontamento social: Educação e Escolha

The concept of choosing a future profession. Icons education. Silhouette of a boy with a laptop surrounded by icons of education.

Confesso que o meu envolvimento nesta questão é só como contribuinte. Não sou aluna nem Professora, não tenho filhos nem netos a estudar e não possuo qualquer interesse económico ou outro em qualquer estabelecimento privado de ensino. Mas pago impostos e gosto de saber em que é gasto parte do que ganho com o meu trabalho. Dito isto, vamos analisar o que se passa:

  • Há estabelecimentos privados que recebem apoios estatais para receber alunos, quaisquer alunos, da área correspondente;
  • Tanto quanto sei, recebem por turma um valor aproximado ao que essa turma gastaria no ensino público;
  • Tanto quanto sei, a maioria tem boas condições para receber esses alunos, o que não é certo no ensino público em que as escolas que receberam chão de mármore e candeeiros do Arquiteto Siza Vieira andam a par com as que não têm pavilhão para atividades desportivas e/ou chove nas salas de aula;
  • Não vejo nos media pais/alunos de estabelecimentos privados a protestar porque não há Professores a tempo, porque o Professor falta muito pois adoeceu e não foi substituído, porque não há auxiliares, porque as salas são muito frias, porque as turmas estão sobrecarregadas ou porque não há Professores de apoio para o ensino especial;
  • Tanto quanto sei, os alunos que entram para o ensino privado com este tipo de contrato com o Estado vêm da Central de Matrículas da zona, pelo que as turmas são muito heterogéneas, têm filhos de classe média, alta, famílias necessitadas, crianças e jovens institucionalizados…e ninguém paga. Parece-me bem mais justo e democrático que o sistema de distribuição de bolsas de estudo pelo Estado a alunos em colégios privados, tão pouco fiscalizado, criando situações em que, no mesmo estabelecimento de ensino uns paguem e outros não, quando muitos dos que recebem bolsas exibem sinais exteriores de riqueza que tornam muito suspeita a necessidade desse apoio… Suponho que este segundo caso é um bem pior “assalto” ao bolso do contribuinte.
  • Tanto quanto sei, vários diretores de escolas públicas já disseram que estão sobrelotados; apesar disso, alguns deles disponibilizaram-se para receber mais alguns se forem feitas obras para os acolher! Não será solução se afinal vamos gastar mais dinheiro em obras!
  • Tanto quanto sei, o desemprego gerado pelos cortes nas comparticipações será significativo num setor que já tem muitos desempregados, e não é linear que esses empregos transitem para o setor público – pelos antecedentes será mais fácil imaginar mais horas para os professores já empregues e mais alunos por turma; afinal a ideia é economizar, certo?
  • Tanto quanto sei, os alunos parecem gostar das suas escolas e os pais de os lá ter. Será que isto não é importante? A quem incomoda esta situação?

Após esta pequena reflexão a minha conclusão é que o problema, para certas pessoas, está na gestão! É privada! O Estado não mete o “tentáculo”! E digo eu, pela confusão que se vê no ensino público a cada arrancar dum novo ano letivo isso não será uma mais-valia?! E não poupará, afinal, o dinheiro do contribuinte?

I.M., in Voz de Lamego, ano 86/31, n.º 4367, 14 de junho de 2016

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