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Posts Tagged ‘Ecologia integral’

Editorial da Voz de Lamego: Saudáveis num mundo doente?!

Em dois momentos, o Santo Padre interpelou a humanidade com esta expressão: não é possível mantermo-nos saudáveis num mundo doente!

Antes da bênção Urbi et Orbi (sobre a cidade e o mundo), no dia 27 de março, diante de uma majestosa praça de São Pedro vazia, o Papa colocava-nos a pensar: “Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.

Os momentos de crise levam-nos a refletir, sabendo que, passada a tempestade, logo continuaremos nos nossos afazeres e a ocupar-nos das nossas coisas. Nãos será muito diferente no período pós-pandemia. Porém, nada será igual, pois não é possível voltar ao antes e, por outro lado, o presente e o futuro carregam as perdas materiais e sobretudo humanas. Contudo, a esperança deve moldar-nos e a reflexão deve ajudar-nos a novos propósitos e compromissos. Haverá alguns que agirão de forma mais altruísta, o treino a que se sujeitaram e a alegria de terem contribuído para melhorar a vida de alguém ou mesmo salvado vidas, fazem-nos querer continuar. A reflexão pode ajudar outros a tomar consciência de que estamos no mesmo barco e que a tempestade atingiu a todos e se alguns escaparam entre os pingos podem ser apanhados em tempestades futuras, porque as consequências afetarão a todos, cultural e civilizacionalmente.

No dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, que se comemorou virtualmente a partir de Bogotá, na Colômbia, o Papa, em missiva enviada ao Presidente colombiano, voltou a insistir na indiferença de quem enterra a cabeça na areia: “A proteção do meio ambiente e o respeito pela biodiversidade do planeta são questões que nos afetam a todos. Não podemos fingir ser saudáveis ​​num mundo doente. As feridas infligidas à nossa mãe terra são feridas que também sangram em nós. Cuidar de ecossistemas exige um olhar para o futuro, que não se preocupe apenas com o momento imediato ou que busque um lucro rápido e fácil, mas que se preocupe com a vida e que busque a sua preservação para o benefício de todos”.

A visão da Igreja é holística, envolve toda a criação, pois toda a criação é dom de Deus confiada ao ser humano para cuidar. Excluir o ser humano para proteger a natureza, o ambiente, é uma lógica doente e infantil; por outro lado, a pessoa déspota em relação ao meio ambiente revela ignorância e estupidez. Só o ser humano é capaz de admirar e com-criar, louvando o Criador por esta obra sublime. O caminho é a ecologia integral. Proteger o ambiente sem prestar atenção aos mais desfavorecidos, aos explorados que não beneficiam dos frutos da criação, é hipocrisia fundamentalista. Proteger o ser humano é o primeiro passo para defender esta casa comum. Aliás, o conserto do mundo passa, inevitavelmente, pela conversão da pessoa.

“Ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo… Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade»”. Por mais que queiramos espiritualizar a fé…. Jesus encarnou, assumiu um corpo, veio ao mundo e é no mundo que nos salva!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/28, n.º 4563, 9 de junho de 2020

Editorial Voz de Lamego: De Greta Thunberg à ecologia integral

Por estes dias a questão do ambiente tem preenchido páginas e páginas de jornais, têm-se multiplicado as partilhas, os comentários, têm-se extremado posições, colocando-nos na lógica mais tradicional da contraposição, da exclusão e do fundamentalismo. Porém, a questão ecológica não pode deixar de estar presente no quotidiano. Mais que os intervenientes, importa, a meu ver, a mensagem veiculada.

Os holofotes têm estado direcionados para Greta, jovem sueca, de 16 anos. As suas intervenções na Suécia, na ONU, em Lisboa, na manifestação de Madrid, têm permitido que a questão ambiental não saia das primeiras páginas, dos telejornais, das redes sociais. Saliente-se, desde logo, o aproveitamento político, quando as suas palavras insistem na falta de vontade política em alterar a pegada ecológica. Veja-se que líderes partidários estiveram na chegada a Lisboa. E a propósito, veja-se também quem interveio na manifestação das forças de segurança. De um lado o PAN, do outro lado o CHEGA.

Por outro lado, outra visão, mais trumpista (os EUA, com Ronald Trump, não têm qualquer interesse em respeitar acordos que restrinjam a poluição atmosférica ou a utilização exaustiva de recursos naturais, desde que momentaneamente a indústria americana se sobreponha e abafe qualquer concorrência), defende que a natureza, por si só, é autorregenrativa e, portanto, não é necessário fazer correções no caminho que se está a trilhar. Neste sentido, ataca-se a mensageira.

Greta Thunberg também me pareceu burguesa e exageradamente revoltada. Com os comentários e reflexões que fui lendo e escutando, e vendo algumas das suas intervenções equilibradas, como em Lisboa, apercebi-me que seria mais relevante a mensagem que veicula, mas também os debates que tem provocado.

É importante ler também e escutar os que não concordam com Greta e com outros movimentos mais verdes, se é que de verdes têm alguma coisa. Como em tudo na vida, os extremismos, os excessos e os exclusivismos precisam de ser purificados. Como não lembrar quando um reitor proibiu a carne de vaca na universidade! Será que ele se desloca a pé? Medidas de propaganda por si só, me parece, não surtem efeito, quando muito acentuam fanatismos. Só porque acho que a comida vegetariana é mais saudável, terei o direito de obrigar os outros a serem vegetarianos? O equilíbrio, o bom senso, a quantidade, como alguém dizia. Há tantas formas de nos comprometermos com o ambiente.

Mas não basta ser defensores do ambiente, se continuarmos a criar fossos e muros entre ricos e pobres, a descartar os mais frágeis, a eliminar os que não têm voz ou não têm força suficiente, a excluir os que professam outra ideologia ou outra fé. A ecologia, no dizer do Papa Francisco, terá de ser integral, abrangendo todo o homem e o homem todo. Há países em que é crime destruir as “ovas”, mas é legal o aborto ou a eutanásia, a pedido, em qualquer situação ou por qualquer motivo!

Para quê termos uma bela floresta se não tivermos pessoas que a contemplem?

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/03, n.º 4538, 10 de dezembro de 2019

Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum

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CUIDADO com A CRIAÇÃO

No primeiro dia deste mês fomos convidados a viver o Dia Mundial de Oração pela Criação, prolongando a temática até ao próximo dia 04 de outubro. E, no sentido de sensibilizar o mundo para a defesa do planeta, o Papa Francisco escreveu uma mensagem, que intitulou “Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum”. Aqui ficam algumas passagens e a indicação que a mensagem se encontra disponível em www.diocese-lamego.pt.

“A terra clama…

Com esta Mensagem, renovo o diálogo com «cada pessoa que habita neste planeta» sobre os sofrimentos que afligem os pobres e a devastação do meio ambiente. Deus deu-nos de presente um exuberante jardim, mas estamos a transformá-lo numa poluída vastidão de «ruínas, desertos e lixo». Não podemos render-nos ou ficar indiferentes perante a perda da biodiversidade e a destruição dos ecossistemas, muitas vezes provocadas pelos nossos comportamentos irresponsáveis e egoístas. «Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer».

O planeta continua a aquecer, em parte devido à atividade humana: o ano de  2015 foi o ano mais quente de que há registo e, provavelmente, o ano de 2016 sê-lo-á ainda mais. Isto provoca secura, inundações, incêndios e acontecimentos meteorológicos extremos cada vez mais graves. As mudanças climáticas contribuem também para a dolorosa crise  dos  migrantes forçados.  Os pobres do mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os mais vulneráveis e já sofrem os seus efeitos.

Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos «tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres» e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada e célere. Ler mais…

CRIAÇÃO E INDIFERENÇA | Editorial Voz de Lamego | 24 de maio

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O destaque de primeira página da edição da Voz de Lamego desta semana vai para a XXXI Jornada Diocesana da Juventude, realizada na Santa Helena, na Zona Pastoral de Tarouca, e para o 3.º Encontro de EMRC da Diocese de Lamego que se realizou na cidade de Lamego. No interior do Jornal Diocesano podem encontrar-se o desenvolvimento das notícias, ilustradas com imagens.

Muitas outras notícias da Diocese e da região merecem atenção, bem assim como os textos de reflexão.

O Pe. Joaquim Dionísio, nosso Diretor, no Editorial opta por refletir sobre a chamada de atenção do Papa Francisco para o cuidado da natureza, que começa no cuidado com o nosso semelhante. Sublinhe-se que muitas vezes os defensores dos animais esquecem o cuidado à família e aos vizinhos… além da equiparação dos animais de estimação aos filhos, nomeadamente no que diz respeito aos benefícios de IRS…

CRIAÇÃO E INDIFERENÇA

O relato da Criação oferecido pelo primeiro livro da bíblia  diz-nos que, a coroar toda a obra, Deus criou o homem e a mulher, dando-lhes o encargo de zelar por tudo. Daí que todas as criaturas sejam merecedoras de atenção e cuidados, a começar pelos seres humanos mais desprotegidos. E nem sempre assim acontece!

A este propósito, no passado dia 14, durante uma Audiência Geral e a propósito do conceito de “piedade”, o Papa questionou o exagerado desvelo de alguns diante dos seus animais de estimação face ao esquecimento a que votam os seus semelhantes: “quantas vezes vemos gente que cuida de gatos e de cachorros e depois deixa sem ajuda o vizinho ou vizinha que passa fome!”.

Na sua encíclica “Laudato si”, Francisco sublinha que o poder humano tem limites e que é contrário à dignidade humana fazer sofrer inutilmente os animais e dispor indiscriminadamente das suas vidas, classificando como errado ver nos outros seres vivos objectos que podem ser submetidos ao domínio arbitrário do ser humano.

Mas o olhar atento e o oportuno cuidado para os animais não podem substituir a proximidade com os irmãos. O que está mal não é o tratamento devido àqueles, mas a indiferença diante destes, já que a presença de algum animal de estimação não dispensa o relacionamento com o seu semelhante. O que está mal não é poder apresentar, em sede de IRS, as despesas com animais, mas a sua quase equiparação às despesas com filhos. No meio da contínua “febre legislativa”, o mal não é legislar para proteger os animais, mas o esquecer-se de promover e defender a vida humana…

A palavra do Papa convida a uma hierarquização de princípios e de valores que presidam a hábitos e opções onde a indiferença humana seja excluída.

in Voz de Lamego, ano 86/25, n.º 4364, 24 de maio de 2016