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Jubileu da Terra: Recordar, regressar, repousar, restaurar e jubilar

Editorial da Voz de Lamego, edição de 8 de setembro de 2020

No dia 1 de setembro, celebrámos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, abrindo o Tempo da Criação que se conclui a 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. O tema escolhido para este ano, pela família ecuménica, foi um “Jubileu pela Terra”, no quinquagésimo aniversário do Dia da Terra. O Santo Padre, na sua Mensagem para este Dia Mundial, publicada/divulgada nesse mesmo dia, contextualiza: “Na Sagrada Escritura, o Jubileu é um tempo sagrado para recordar, regressar, repousar, restaurar e rejubilar”.

A mensagem completa está disponível, por exemplo, na página da nossa diocese: www.diocese-lamego.pt. Alguns sublinhados a partir dos verbos escolhidos pelo Papa:

RECORDAR. “O jubileu é tempo de graça para recordar a vocação primordial da criação: ser e prosperar como comunidade de amor… Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra”.

REGRESSAR. “O Jubileu é tempo de regresso a Deus nosso criador amoroso. Não é possível viver em harmonia com a criação, sem estar em paz com o Criador, fonte e origem de todas as coisas… o Jubileu convida-nos a pensar novamente nos outros, especialmente nos pobres e nos mais vulneráveis… o Jubileu é tempo para dar a liberdade aos oprimidos e a quantos estão acorrentados aos grilhões das várias formas de escravidão moderna, nomeadamente o tráfico de pessoas e o trabalho infantil. Além disso precisamos de voltar a ouvir a terra… Hoje, a voz da criação incita-nos, alarmada, a regressar ao lugar certo na ordem natural, lembrando-nos que somos parte, não patrões, da rede interligada da vida”.

REPOUSAR. “Durante o Jubileu, o Povo de Deus era convidado a repousar dos seus trabalhos habituais, para deixar que a terra se regenerasse e o mundo reentrasse na ordem. Hoje precisamos de encontrar estilos de vida équos e sustentáveis, que restituam à Terra o repouso que lhe cabe, vias de subsistência suficientes para todos, sem destruir os ecossistemas que nos sustentam. De algum modo a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis… Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores. Devemos examinar os nossos hábitos no uso da energia, no consumo, nos transportes e na alimentação”.

RESTAURAR. “O Jubileu é um tempo para restaurar a harmonia primordial da criação e para curar relações humanas comprometidas. Convida a restabelecer relações sociais equitativas, restituindo a cada um a sua liberdade e os bens próprios, e perdoando as dívidas dos outros. Por isso não devemos esquecer a história de exploração do Sul do planeta, que provocou um enorme deficit ecológico, devido principalmente à depredação dos recursos e ao uso excessivo do espaço ambiental comum para a eliminação dos resíduos. É o tempo duma justiça reparadora”.

REJUBILAR. “É uma alegria ver tantos jovens e comunidades, especialmente indígenas, na linha da frente para dar resposta à crise ecológica. Apelam por um Jubileu da Terra e um novo começo, cientes de que «as coisas podem mudar» (Laudato Si’, 13)… Continuemos a crescer na consciência de que todos moramos numa casa comum enquanto membros da mesma família!”

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/39, n.º 4574, 8 de setembro de 2020

Mensagem do Papa para Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

«Deus viu que era coisa boa» (Gn 1, 25). Ao início da Bíblia, o olhar de Deus pousa-se ternamente sobre a criação. Desde a terra habitável até às águas que sustentam a vida, desde as árvores que dão fruto até aos animais que povoam a casa comum, tudo é benquisto aos olhos de Deus, que oferece a criação ao homem como dom precioso que deve guardar.

Desgraçadamente, a resposta humana ao dom recebido foi marcada pelo pecado, pelo fechamento na própria autonomia, pela avidez de possuir e explorar. Egoísmos e interesses fizeram deste lugar de encontro e partilha, que é a criação, um palco de rivalidades e confrontos. Assim, colocou-se em perigo o próprio ambiente: coisa boa aos olhos de Deus, torna-se coisa explorável nas mãos humanas. A degradação aumentou nas últimas décadas: a poluição constante, o uso incessante de combustíveis fósseis, a exploração agrícola intensiva, a prática de abater as florestas… estão a elevar as temperaturas globais para níveis preocupantes. O aumento da intensidade e frequência de fenómenos meteorológicos extremos e a desertificação do solo estão a colocar à prova os mais vulneráveis entre nós. A dissolução dos glaciares, a escassez de água, o menosprezo das bacias hidrográficas e a considerável presença de plástico e microplástico nos oceanos são factos igualmente preocupantes, que confirmam a urgência de intervenções não mais adiáveis. Criamos uma emergência climática, que ameaça gravemente a natureza e a vida, inclusive a nossa.

Na raiz de tudo, o fato de termos esquecido quem somos: criaturas à imagem de Deus (cf. Gn1, 26-27), chamadas a habitar como irmãos e irmãs a mesma casa comum. Não fomos criados para ser indivíduos que se assenhoreiam; fomos pensados e queridos no centro duma rede da vida constituída por milhões de espécies, amorosamente unidas por nosso intermédio ao Criador. É hora de redescobrir a nossa vocação de filhos de Deus, irmãos entre nós, guardiões da criação. É tempo de arrepender-se e converter-se, de voltar às raízes: somos as criaturas prediletas de Deus, que, na sua bondade, nos chama a amar a vida e a vivê-la em comunhão, conectados com a criação.

Por isso, convido veementemente os fiéis a dedicar-se à oração neste tempo que, partindo duma iniciativa oportunamente nascida em campo ecuménico, se configurou como Tempo da Criação: um período de oração mais intensa e de ação em benefício da casa comum, que tem início em 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e termina a 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. É ocasião para nos sentirmos ainda mais unidos aos irmãos e irmãs das várias confissões cristãs. Penso de modo particular nos fiéis ortodoxos que celebram, desde há trinta anos, este Dia de Oração. Sintamo-nos em sintonia profunda também com os homens e mulheres de boa vontade, conjuntamente chamados, no contexto da crise ecológica que tem a ver com todos, a promover a salvaguarda da rede da vida, de que fazemos parte.

Este é o tempo para voltar a habituarmo-nos a rezar imersos na natureza, onde espontaneamente nasce a gratidão a Deus criador. Dizia São Boaventura, cantor da sabedoria franciscana, que a criação é o primeiro «livro» que Deus abriu diante dos nossos olhos, para que, admirando a sua ordenada e maravilhosa variedade, fôssemos levados a amar e louvar o Criador (cf. Breviloquium, II, 5.11). Neste livro, cada criatura foi-nos dada como uma «palavra de Deus» (cf. Commentarius in librum Ecclesiastes, I, 2). No silêncio e na oração, podemos escutar a voz sinfónica da criação, que nos exorta a sair dos nossos fechamentos autorreferenciais, descobrindo-nos envolvidos pela ternura do Pai e felizes por partilhar os dons recebidos. Neste sentido, podemos dizer que a criação, rede da vida, lugar de encontro com o Senhor e entre nós, é «a rede social de Deus» (Francisco, Discurso às guias e aos escuteiros da Europa, 3 de agosto de 2019). Isto leva-nos a erguer um cântico de louvor cósmico ao Criador, como ensina a Escritura: «tudo o que germina na terra bendiga o Senhor; a Ele, a glória e o louvor eternamente!» (Dn 3, 76).

Este é o tempo para refletir sobre os nossos estilos de vida, verificando como muitas vezes são levianas e danosas as nossas decisões diárias em termos de comida, consumo, deslocação, utilização da água, da energia e de muitos bens materiais. Em demasia, nos estamos assenhoreando da criação. Optemos por mudar, assumir estilos de vida mais simples e respeitadores! É hora de abandonar a dependência dos combustíveis fósseis, empreendendo rápida e decididamente transições para formas de energia limpa e de economia sustentável e circular. E não esqueçamos de ouvir as populações indígenas, cuja sabedoria secular nos pode ensinar a viver melhor a relação com o meio ambiente.

Este é o tempo de empreender ações proféticas. Muitos jovens estão a fazer-se ouvir em todo o mundo, invocando decisões corajosas. Sentem-se dececionados com as demasiadas promessas não cumpridas, com compromissos assumidos e depois transcurados por interesses e conveniências parciais. Os jovens lembram-nos que a terra não é um bem para se dissipar, mas herança a transmitir; lembram-nos que esperar no amanhã não se reduz a um belo sentimento, mas é um dever que requer ações concretas hoje. A eles, devemos respostas verdadeiras, não palavras vazias; factos, não ilusões.

As nossas orações e os nossos apelos visam sobretudo sensibilizar os responsáveis políticos e civis. Penso de modo particular nos Governos que se vão reunir nos próximos meses para reiterar compromissos decisivos que orientem o planeta para a vida, em vez de o lançar para a morte. Vêm-me à mente as palavras que Moisés proclamou ao povo como uma espécie de testamento espiritual, antes de entrar na Terra Prometida: «Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência» (Dt 30, 19). São palavras proféticas, que poderemos aplicar a nós mesmos e à situação da nossa terra. Escolhamos a vida! Digamos não à avidez de consumos e aos delírios de omnipotência, caminhos de morte; tomemos percursos clarividentes, feitos de renúncias responsáveis hoje para garantir perspetivas de vida amanhã. Não cedamos às lógicas perversas dos lucros fáceis; pensemos no futuro de todos!

Neste sentido, reveste-se de particular importância a iminente Cúpula das Nações Unidas para a Ação Climática, durante a qual os Governos deverão mostrar vontade política de acelerar, drasticamente, as medidas para se alcançar o mais rápido possível o nível zero de emissões de gases com efeito estufa e conter o aumento médio da temperatura global em 1,5°C relativamente aos níveis pré-industriais, em consonância com os objetivos do Acordo de Paris. Além disso, no próximo mês de outubro, a Amazónia – cuja integridade encontra-se gravemente ameaçada – estará no centro da atenção duma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos. Aproveitemos estas oportunidades para responder ao clamor dos pobres e da terra!

Cada fiel cristão, cada membro da família humana pode contribuir para tecer, como um fio subtil mas único e indispensável, a rede da vida que a todos abraça. Sintamo-nos implicados e responsáveis por tomar a peito, com a oração e o compromisso, o cuidado da criação. Deus, amante da vida (cf. Sb 11, 26), nos dê a coragem de realizar o bem, sem esperar que sejam outros a começar, sem esperar que seja demasiado tarde.

Vaticano, 1 de setembro de 2019.

Papa Francisco

Um reparo: Tempo da Criação

Há dois anos o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial de Oração pela Salvaguarda da Criação e apontou o primeiro dia de setembro como data propícia. Nas palavras que então dirigiu ao mundo, afirmou que esta Jornada anual “oferecerá a cada um dos crentes e das comunidades a preciosa oportunidade de renovar a adesão pessoal à vocação de guardiões da criação, dando graças a Deus pela maravilhosa obra que Ele confiou ao nosso cuidado e invocando a Sua ajuda para a protecção da criação e a sua misericórdia diante dos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos”.

Mas mais do que um dia, o Papa propõe-nos um Tempo da Criação, que se prolonga desde o dia 01 de setembro até ao dia 04 de Outubro, data em que o calendário litúrgico recorda e celebra a figura de S. Francisco de Assis, um apaixonado pela criação que podemos imitar.

Como facilmente se compreende, o objectivo desta iniciativa será despertar o mundo para esta realidade, levando-o a adoptar uma atitude respeitadora e responsável diante da criação. E se o apelo se dirige a todos, assume particular ênfase quando dirigido aos que ocupam lugares de governação e de decisão, convidando-os a escutar o grito da terra e dos pobres, as grandes vítimas dos desequilíbrios ecológicos.

O cuidado da “casa comum” ocupará, cada vez mais, a atenção do mundo, deixando de ser assunto apenas de alguns. Nesse sentido, o texto papal da “Laudato Si” tenderá a fixar a atenção de todos, já que o convite para uma “ecologia integral” é global.

Os recursos disponíveis não são inesgotáveis e as consequências de certos hábitos são muito nefastas para uma natureza com dificuldades em regenerar-se ao mesmo ritmo com que é atingida.

Nestes dias, com gestos simples ou decisões discretas, somos convidados a contemplar a natureza e a agir em sua defesa.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/41, n.º 4426, 5 de setembro 2017

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO

Mensagem conjunto do Papa Francisco e do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I

A narração da criação oferece-nos uma visão panorâmica do mundo. A Sagrada Escritura revela que, «no princípio», Deus designou a humanidade como cooperadora na guarda e proteção do ambiente natural. Ao início, como lemos no Génesis (2, 5), «ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar». A terra foi-nos confiada como dom sublime e como herança, cuja responsabilidade todos compartilhamos até que, «no fim», todas as coisas no céu e na terra sejam restauradas em Cristo (cf. Ef 1, 10). A dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente interligadas com a solicitude por toda a criação.

«No período intermédio», porém, a história do mundo apresenta uma situação muito diferente. Revela-nos um cenário moralmente decadente, onde as nossas atitudes e comportamentos para com a criação ofuscam a vocação de ser cooperadores de Deus. A nossa tendência a romper os delicados e equilibrados ecossistemas do mundo, o desejo insaciável de manipular e controlar os limitados recursos do planeta, a avidez de retirar do mercado lucros ilimitados: tudo isto nos alienou do desígnio original da criação. Deixamos de respeitar a natureza como um dom compartilhado, considerando-a, ao invés, como posse privada. O nosso relacionamento com a natureza já não é para a sustentar, mas para a subjugar a fim de alimentar as nossas estruturas.

As consequências desta visão alternativa do mundo são trágicas e duradouras. O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.

Por isso, unidos pela mesma preocupação com a criação de Deus e reconhecendo que a terra é um bem dado em comum, convidamos ardorosamente todas as pessoas de boa vontade a dedicar, no dia 1 de setembro, um tempo de oração pelo ambiente. Nesta ocasião, desejamos elevar uma ação de graças ao benévolo Criador pelo magnífico dom da criação e comprometer-nos a cuidar dele e preservá-lo para o bem das gerações futuras. Sabemos que, no fim de contas, é em vão que nos afadigamos, se o Senhor não estiver ao nosso lado (cf. Sal 126/127), se a oração não estiver no centro das nossas reflexões e celebrações. Na verdade, um dos objetivos da nossa oração é mudar o modo como percebemos o mundo, para mudar a forma como nos relacionamos com o mundo. O fim que nos propomos é ser audazes em abraçar, nos nossos estilos de vida, uma maior simplicidade e solidariedade.

A quantos ocupam uma posição de relevo em âmbito social, económico, político e cultural, dirigimos um apelo urgente a prestar responsavelmente ouvidos ao grito da terra e a cuidar das necessidades de quem está marginalizado, mas sobretudo a responder à súplica de tanta gente e apoiar o consenso global para que seja sanada a criação ferida. Estamos convencidos de que não poderá haver uma solução genuína e duradoura para o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas, sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade compartilhada e capaz de prestar contas do seu agir, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço.

 

Do Vaticano e do Fanar, 1 de setembro de 2017.

Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu