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Chegou agosto, e vem com tempo

O nosso jornal diocesano, Voz de Lamego, tem um grupo de cronistas que nos envolvem, desafiam, nos fazem refletir, com temáticas e sensibilidades variadas, e, como facilmente se pode verificar, apontam caminhos, rasgam horizontes, comprometem-nos com a vida, com o amor, com a beleza, com a justiça e a verdade, com a bondade e a caridade, comprometem-nos na construção de um mundo mais humano, fraterno, cristão. Esta semana, contamos com uma nova cronista, a Ana Carolina Fernandes, com a sugestão que se segue:

“Chegou agosto, e vem com tempo

Chegou em sobressalto, depois de um março agitado onde a nossa sensação de tempo foi alterada. Fomos obrigados a parar. A vida como a conhecíamos em agitação, rotinas definidas, horários estipulados e correrias diárias bloqueou e mexeu, mexeu com tudo aquilo que sempre tomámos por garantido.

Revirou o nosso calendário, insistiu para que a nossa agenda não comandasse os nossos dias e deu-nos tempo.

Deu-nos tempo, aquele que sempre pedimos.

Tirou-nos muitas coisas, mas será que todas essas coisas eram verdadeiramente essenciais?

Será que não nos trouxe coisas boas também?

Será que não nos ofereceu uma nova sensação de tempo?

Vivemos uma vida inteira, com a queixa constante que gostávamos de ter mais tempo. E esquecemos uma coisa: tempo é agora.

E se o tempo é agora, agosto é hoje. Chegou quente como o conhecíamos e repentino como não estávamos tão habituados, e diz-nos que podemos viver assim. Que os dias de azáfama podem abrandar, que é tempo para “estar”, num sentido de

“estar” que a correria do dia-a-dia não nos deixava conhecer.

É “sentir” agora, num “sentir” que estava habituado a preparar o dia a seguir.

É “ser” mais, num “ser” que só queria ser melhor.

E agora pode soar a cliché, mas se há algo de maravilhoso que toda esta mudança nos trouxe foi o tempo que sempre desejámos ter. E mais do que isso, é o tempo que precisávamos. E que finalmente chegou!

E agora?

Agora só cabe a cada um de nós saber vivê-lo da melhor forma.

Pode parecer difícil e até mesmo desafiante aprender a viver de forma mais branda, com a incerteza do que aí vem, com novos medos e tantos receios, mas se calhar era mesmo isto que faltava aos dias. Para que deixem de ser só dias e passem a ser os nossos dias, no nosso tempo.

Parámos. E ainda bem que houve algo que nos obrigou a parar.

E eu só desejo que o agosto 2020, marcado por ser tão diferente, seja esperança para melhores “agostos” que estão por vir.

Porque no final de contas, todos queremos cantar “Meu querido mês de agosto, por ti levo o ano inteiro a sonhar”. Que acordemos deste sonho, para continuar a viver a vida em tempos felizes.

Chegou agosto, e vem com o TEU tempo.”

Carolina Fernandes, fisioterapeuta,

in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Cuidar de idosos não é um trabalho… é uma prova de amor à vida

SILÊNCIO é a palavra que não deve existir quando se tem conhecimento de um idoso ser maltratado, seja de forma verbal ou física. É vergonhoso que num país como o nosso, com uma população tão envelhecida, se oiçam histórias em lares que já se ouviam há 40 anos atrás.
RESPEITO é o mínimo que se exige para quem passa o dia a trabalhar com um idoso.  Se conhece algum caso, POR FAVOR, DENUNCIE! Porque quem cala, consente. 

EDUCAÇÃO NUM LAR significa dizer bom dia e boa tarde, sempre, depois de bater à porta do quarto dos utentes. Ter a roupa preparada para o dia seguinte, com cores a combinar, porque a autoestima no idoso também existe.  Não é entrar por ali a dentro como se fosse o quintal de casa. Perguntar o que gostava de vestir, se posso levantá-lo e se permite que lhe faça a higiene, explicando, sempre, o que se está a fazer… Mais, NUNCA falar em tons agressivos ou a imitar desenhos animados, pois idoso não é bebé e odeia ser tratado como tal. Dar comida a uma pessoa na velhice não é enfiar as colheradas goela a baixo, é servir o utente com a maior dignidade. “Não fazer aos outros o que não gostavas que te fizessem a ti”. Água, mais do que comida, é de extrema importância para todos nós. Não se pode deixar desidratar. A substituição de água e chá devem ter horários e à noite não pode faltar! Carinho é uma coisa que se dá, mais do que com palavras, através de gestos. Mudar uma fralda ou ajudar na casa de banho não pode ser VIOLAR a privacidade, é aconchegar, fazer tudo com o máximo de cuidado e atenção, tapando as partes íntimas sempre que possível e não comprometer a estabilidade da pessoa que por si só já pensa que “dantes fazia isto sozinha, agora já não consigo”. Basta imaginar, como se VAI SENTIR no futuro quando lá chegar?

Formação e vocação, assim como um enfermeiro, um professor, um bombeiro, os profissionais dos lares que cuidam, diretamente, os seus utentes devem ter formação adequada e, acima de tudo, vocação por esta profissão que é desgastante e cansativa, mas muito compensadora para os que têm um bom coração.

VERDADE, ao verem as imagens do “Sexta às 9” imaginem como se sente a esposa daquele senhor que é maltratado, diariamente? MEDO é a palavra que define o coração daquela esposa, que passou uma vida a dois sem nunca imaginar que as frustrações das funcionárias do “lar”, para onde iriam no fim do seu ciclo de vida, fazer atos tão horrendos ao pai dos seus filhos.

DIGNIDADE até à morte. É um ato CRIMINOSO não conceder a todos os utentes de um lar, com ou sem demência, com ou sem problemas físicos, com ou sem família, a maior dignidade, enquanto humanos e pessoas que escreveram a história deste país.

Na escola que eu frequentei ensinaram-nos a dar a mão a um idoso na hora da morte, para que nem nesse momento não se sentisse sozinho e o medo do incerto não lhe atormentasse o coração. Palavras doces todos temos, vocação para algumas tarefas NÃO.

TRABALHAR POR DINHEIRO NÃO CHEGA.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/10, n.º 4545, 4 de fevereiro de 2020