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Editorial da Voz de Lamego: Estamos a viver a crédito

Dito assim, sem outros acrescentos, já é uma expressão que preocupa e alerta, ainda que seja uma situação recorrente. O recurso ao crédito, amplamente publicitado, desafia a cumprir com todos os desejos: quer, não pode pagar? não se preocupe, diga quanto quer e rapidamente aprovamos o seu crédito! Vivemos a crédito e a prestações! Sem com isso desvalorizar esta ferramenta da banca e de outras empresas, facilitando a vida das pessoas e permitindo-lhes uma vida mais cómoda. Por exemplo, antigamente, um casal construía a casa no fim da vida ou conforme ia tendo possibilidades! Pouco usufruía dela, somente os filhos! Hoje podem usufruir da aplicação do seu trabalho e do seu esforço. Como em tudo, convém atender às letras pequeninas e ponderar as possibilidades, dando sempre uma margem de folga para o caso de alguma coisa correr menos bem!

Porém, não é acerca deste crédito que quero refletir convosco nesta semana, mas no crédito em relação aos recursos naturais do planeta. No ano passado, foi batido o record, a 29 de julho, e que seria alcançável este ano não fora a pandemia do novo coronavírus. Os recursos naturais para este ano esgotaram-se no dia 21 de agosto. O dia 22 de agosto foi assinalado como o Dia da Sobrecarga da Terra. Estamos a viver a crédito. O orçamento anual foi esgotado! A organização internacional Global Footprint Network (GFN) sublinha que este ano a sobrecarga foi retardada, em três semanas, devido à pandemia, o que levou à “diminuição da extração de madeira (-8,4%) e das emissões de CO2 (-14,5%) resultantes da combustão de combustíveis fósseis” que “são os principais motores por detrás da mudança histórica de trajetória”. Refere a GFN que “a pandemia de Covid-19 fez com que a pegada ecológica da humanidade se contraísse, demonstrando que é possível mudar os padrões de consumo de recursos num curto período de tempo. No entanto, a verdadeira sustentabilidade, a que possibilita que todos prosperem na Terra, apenas poderá ser alcançada através da planificação e não da catástrofe”.

A humanidade gasta cerca de 60% a mais dos recursos que é possível renovar. É como se tivéssemos à disposição 1,6 planetas! Em Portugal, os recursos naturais disponíveis para 2020 foram esgotados a 25 de maio (dados calculados antes da pandemia). Desde o dia 26 de maio, estamos a viver a crédito, com os recursos de 2021! Em Portugal precisaríamos de 2,5 planetas para sermos ecologicamente sustentáveis!

Preocupante! E se pensarmos nos países mais pobres de África, da Ásia e da América Latina, mais preocupante ainda, pois os países ricos gastam em excesso os próprios recursos e o desses países. Se estes consumissem da mesma maneira, então os recursos naturais esgotariam muito antes da primeira metade do ano.

Segundo a associação portuguesa Zero, o défice ecológico global começou em 1970 e, neste momento, serão precisos 18 anos terrestres para corrigir este défice. Se em cada ano se reduzisse em cinco dias o défice, o deve-haver estaria equilibrado em 2050! Um orçamento equilibrado garante o futuro, o nosso e o dos nossos vindouros!

Isto deve fazer questionar o estilo de vida que levamos e a forma como vivemos a solidariedade entre gerações, a nossa e as futuras, e a solidariedade entre (países) ricos e (países) pobres. Vamos ver se a vacina anti-covid chega igualmente aos mais pobres!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/37, n.º 4572, 25 de agosto de 2020