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“Nostra Aetate” e o diálogo com outras religiões

Bishops fill St. Peter's Basilica as Pope Paul VI presides over a meeting of the Second Vatican Council. (CNS photo/Catholic Press Photo) (Oct. 17, 2002) See VATICAN LETTER Dec. 2, 2011.

No cinquentenário das três declarações conciliares

Nostra Aetate

O ano de 2015 fica marcado pelo cinquentenário do encerramento do Concílio Vaticano II, de onde resultaram 16 documentos promulgados por Paulo VI: 4 constituições, 9 decretos e três declarações.

As constituições são documentos fundamentais e de grande dimensão, de referência doutrinal ou de disciplina e atuação pastoral; os decretos conciliares são documentos normativos, embora sustentados em doutrina cujos princípios enunciam; e as declarações, embora tenham como suporte uma sólida doutrina de base, constituem o enunciado da postura de Igreja sobre determinados temas, não exclusivos da Igreja Católica, mas transversais à sociedade e ao mundo.

Religiões não cristãs

A Nostra Aetate distribui-se por 5 pontos, sendo que o primeiro e o quinto servem respetivamente de enquadramento justificativo da declaração e de seu corolário.

Assim, o ponto 1 – “Laços comuns da humanidade e inquietação religiosa do homem;
a resposta das diversas religiões não-cristãs e sua relação com a Igreja
” – parte da verificação dos laços comuns que se estabelecem entre os diversos povos e em que ressalta a pertinente inquietação do homem sob a égide do transcendente. E o último enuncia o axioma da fraternidade universal e a postura da reprovação de toda a discriminação racial ou religiosa.

Já os pontos 2, 3 e 4 abordam em concreto algumas religiões não cristãs, respetivamente: o Hinduísmo e Budismo; a religião do Islão; e a religião judaica.

Sobre o hinduísmo, os padres conciliares declaram que nele: “Os homens perscrutam o mistério divino e exprimem-no com a fecundidade inexaurível dos mitos e os esforços da penetração filosófica, buscando a libertação das angústias da nossa condição quer por meio de certas formas de ascetismo, quer por uma profunda meditação, quer, finalmente, pelo refúgio amoroso e confiante em Deus”.

Em relação do budismo, dizem que nele: “Segundo as suas várias formas, reconhece-se a radical insuficiência deste mundo mutável e propõe-se o caminho pelo qual os homens, com espírito devoto e confiante, possam alcançar o estado de libertação perfeita ou atingir, pelos próprios esforços ou ajudados do alto a suprema iluminação”.

Quanto ao islão, a Igreja reconhece que os crentes adoram “o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração”.

E no respeitante ao judaísmo, a Igreja não esquece que ele constituiu a longa preparação para o cristianismo, que resulta da ação salvífica operada em Cristo, que nasceu no contexto da religião hebraica.

Por isso, a Igreja declara o seu respeito por estas religiões e propõe o estabelecimento de pontes de diálogo com os seus seguidores, no respeito pela consciência de cada um e na procura de soluções comuns para os problemas e anseios da humanidade, não deixando de expor com toda a clareza a sua proposta evangélica. Como corolário desta postura, a NA estriba no princípio da fraternidade universal a postura da reprovação de toda a discriminação racial ou religiosa (NA,5).

Leitura atualizada

O Pontífice faz uma leitura atualizada da NA, salientando os pontos seguintes: a crescente interdependência dos povos; a busca humana de um sentido da vida, do sofrimento, da morte, interrogações que sempre acompanham o nosso caminho; a origem e o destino comuns da humanidade; a unicidade da família humana; as religiões como busca de Deus ou do Absoluto, no contexto das várias etnias e culturas; e o olhar benévolo e atento da Igreja sobre as religiões: sem nada rejeitar do que nelas existe de belo e verdadeiro.

Depois, recorda que “a Igreja considera com estima os crentes de todas as religiões, apreciando o seu compromisso espiritual e moral”, e que, “aberta ao diálogo com todos”, preza, ao mesmo tempo, a sua fidelidade “às verdades em que crê, a começar por aquela segundo a qual a salvação oferecida a todos tem a sua origem em Jesus, único Salvador, e que o Espírito Santo está em ação, como fonte de paz e amor”.

E, de entre os numerosos eventos, iniciativas e relações institucionais ou pessoais com as religiões não cristãs ao longo destes últimos 50 anos, o Bispo de Roma destaca, pelo seu significado, o Encontro de Assis, de 27 de outubro de 1986.

A seguir, o Papa salientou a mudança operada nestes 50 anos nas relações entre cristãos e judeus, cristãos e muçulmanos.

Quanto aos judeus, reconhece que da indiferença e oposição se passou à postura da colaboração e benevolência e do mútuo conhecimento. Passou-se também “à redescoberta das raízes judaicas do cristianismo” e ao combate a “todas as formas de antissemitismo” e à “condenação de qualquer injúria, discriminação e perseguição que delas derivam”.

Também os muçulmanos, que adoram o Deus único, vivo e verdadeiro, “referem-se à paternidade de Abraão, veneram Jesus como profeta, honram a sua Virgem Mãe Maria, esperam o dia do juízo e praticam a oração, as esmolas e o jejum”.

E, sabendo que o mundo espera uma resposta comum dos crentes aos problemas que afligem as pessoas e os povos – “a paz, a fome e a miséria que afligem milhões de pessoas, a crise ambiental, a violência, em particular a cometida em nome da religião, a corrupção, a degradação moral, as crises da família, da economia, das finanças e sobretudo da esperança” – o Papa reconhece que “não temos receitas para estes problemas, mas dispomos de um recurso enorme: a oração”.

E, ante a difundida atitude de suspeita ou até de condenação das religiões por causa da violência e do terrorismo, Francisco considera que, embora “religião alguma esteja imune do risco de desvios fundamentalistas ou extremistas em indivíduos ou grupos”, se devem acolher “os valores positivos que elas vivem e propõem, e que constituem nascentes de esperança” na pessoa e no mundo.

Louro de Carvalho, in Voz de Lamego, ano 85/50, n.º 4337, 10 de novembro

BEATO PAULO VI: A IGREJA AO SERVIÇO DA HUMANIDADE

POPE-BEATIFICATION_

No passado domingo, em Roma, a Igreja beatificou o Papa Paulo VI. Sucedendo a João XXIII, que convocara o último Concílio, coube a Paulo VI conclui-lo e, mais difícil ainda, pô-lo em prática. Para muitos dos nossos leitores, este Papa é recordado com alegria, lembrando a sua vinda a Fátima (1967) ou as suas viagens (esteve nos cinco continentes). Outros o recordarão como alguém que, depois das expectativas decorrentes da novidade conciliar, protagonizou ensinamentos e decisões que pareceram anular tal abertura.

Homem do mundo

Todos nós olhamos para as viagens papais como algo normal, mas é importante dizer que Paulo VI foi o primeiro Papa a apanhar o avião para ir ao encontro do mundo. A audácia papal permitiu-lhe olhar o mundo tal como era realmente e não apenas a partir da Igreja. Um mundo que se transforma continuamente e que se apresenta com as suas conquistas, os seus riscos e as suas oportunidades.

Entre os gestos de Paulo VI, destaque para a sua visita às Nações Unidas. Em pleno Concílio, num tempo em que as viagens eram mais cansativas e demoradas, apanha o avião em Roma e, numa viagem relâmpago, vai até aos Estados Unidos da América e permanece 13 horas em Nova Iorque, discursando para o mundo na Assembleia das Nações Unidas. Uma breve presença marcada por um discurso ouvido com atenção e que serviu, também, para apresentar a Igreja como instituição “perita em humanidade”, companheira na caminhada, não apenas para estipular regras, mas também para partilhar os debates, os diálogos e as dificuldades da transformação do mundo.

A acção de Paulo VI pretende mostrar uma Igreja que não se limita a pregar uma espiritualidade desincarnada, mas implicada nas transformações da sociedade. Como uma instância de diálogo e não uma instância dominadora que julga, em diálogo e, em certa medida, ao serviço do mundo.

Homem do diálogo

Um dos seus conselheiros, o filósofo francês Jean Guitton, aconselhou a escrever uma Encíclica sobre a “verdade”, mas Paulo VI ofereceu ao mundo, no dia 06 de Agosto de 1964, a Encíclica “Ecclesiam Suam”, onde o Papa mostra uma Igreja que aprofunda a consciência que tem de si mesma e uma Igreja que se oferece ao mundo no diálogo.

Diante de um mundo que se afastava de Deus e da fé, encara a abertura da Igreja como forma de se aproximar dos que não crêem e dos que não confiam no discurso eclesial. E é esta mesma disposição para o diálogo e para a importância de saber estar no mundo que marca o último grande documento conciliar, a constituição Gaudium et Spes.

Neste particular, será importante também referir o singular encontro de Paulo VI com o Patriarca Atenágoras, em Jerusalém, há 50 anos. Uma data assinalada pelo Papa Francisco na sua recente viagem a Israel. Em perspectiva, o diálogo ecuménico, procurando reencontrar a unidade eclesial perdida e sempre desejada.

O espírito contestatário do Maio de 68 que, entretanto, chega a todo o lado exigiu-lhe perseverança, mas também decisões difíceis, nem sempre bem acolhidas. Os que com ele conviveram mais de perto dizem que sofreu por não ter sido compreendido, ao testemunhar as derivas, as caricaturas até, da abertura da Igreja diante do mundo.

Homem do concílio

Eleito quando o Concílio já tinha concretizado a sua primeira sessão, foi grande o seu papel na concretização e conclusão do mesmo. Morrera aquele que o convocara e instalara- se um certo desânimo perante o ritmo e a aparente indecisão quanto ao rumo a seguir. O aparecimento de Paulo VI imprime novo ardor e as suas orientações revelam-se preponderantes para o avançar e concluir dos trabalhos conciliares.

Todos são unânimes em aceitar a grande influência de Paulo VI em documentos conciliares fundamentais como são Lumen Gentium e, em particular, Gaudium et Spes. Este último mostra o compromisso da Igreja na sociedade, num diálogo desejado e permanente, e é, certamente, muito devedor da acção e ensinamento de Paulo VI, cuja visão sobre o assunto já havia sido apresentada na sua primeira encíclica.

Não restam dúvidas de que o concílio, reunião de todos os bispos, foi inspirado e assistido pelo Espírito, mas também sabemos como é fundamental a abertura humana para que o divino se manifeste e d’Ele seja instrumento. Num encontro com tão grande diversidade de personalidades, culturas e sensibilidades há um mesmo Espírito, mas há também necessidade de estabelecer linhas de actuação e consensos. Porque a história desta reunião magna não se resume aos dezasseis documentos aprovados e difundidos. Há também uma história intelectual dos bispos presentes, marcados por uma mentalidade e por uma formação bastante clássicas e que, graças ao contributo de especialistas e teólogos, se alterou e caminhou de encontro a uma sociedade em mudança.

in VOZ DE LAMEGO, 21 de outubro de 2014, n.º 4285, ano 84/47