Arquivo

Posts Tagged ‘Autismo’

A carta que um autista me ditou…

Olá, eu sou o António! Dizem que eu sou diferente! Mas o que é isso de ser diferente? Não conheço ninguém igual a outro alguém, por isso parto do pressuposto que somos todos iguais, e todos diferentes ao mesmo tempo. Não sou de grandes falas, contudo digo muito nos meus silêncios, nem todos chegam ao meu coração, mas ao vosso acredito que também não… 

O meu mundo é preenchido por pessoas, as emocionalmente cegas, surdas, e as que falam demais… e as outras, poucas que escolhi para me cobrirem no frio que se faz lá fora. Na escola passo o meu tempo entre pincéis, telas e tintas, gosto de cores e de vida. Gosto de Surf e da água fria que encontra o meu rosto no mar. Também gosto de cavalos…  mesmo, assim há quem desconfie das minhas capacidades e olhe para mim com ar desconfiado… Há tanta gente que diz segredos à minha frente… Só porque eu gosto de olhar para o chão e estar cabisbaixo, acham que não oiço, (risos)! 

Para além da minha mãe, conheço alguém que lê as cartas que escrevo, através das minhas pinturas e por isso, deixo que me abrace e que me passe a mão no rosto. O calor das mãos dela vai direto ao meu coração. Nunca perguntei a idade, mas também para quê? O amor não escolhe idades… que tonto… Estou  aqui a falar de amor. Nem sei o que isso é, pensam os parvos! Porque amor… qualquer autista sente.

Essa amiga da minha mãe é a única que não fala para mim, como se eu fosse um bebé. As palavras dela não ganham diminutivos no final… E isso, faz-me bem. Os outros vêm falar com um rapaz de vinte anos, como se eu andasse no infantário e por isso esfrego o cabelo sem parar, sem explicação, é o meu jeito!

A minha amiga faz bolas de folhas para reciclar, e atira-me e eu devolvo. Nunca lhe disse uma palavra, não é que não goste dela… Eu sou assim… Sou eu… Faz parte de mim. Mas, dou-lhe muitos sorrisos e sei que isso a compensa. Bem vistas as coisas, uma vez ela ouviu o meu grito,  contudo foi apenas para a proteger. Ela estava lá em casa um pouco assustada. Andei da esquerda para a direita e vice-versa, repetidamente, ansioso, por vê-la sorrir de novo. Nem tive vontade de comer nada. Assim que ela veio à cozinha buscar mais pão, o meu cão, que amo, fez um barulho estranho. Fiquei tão desesperado que gritei com ele… Ele percebeu o meu som, e ela derramou lágrimas, pelo meu gesto. As mulheres também choram por tudo! 

Ganhei um abraço muito especial nesse dia… e ela tinha-me ganho desde o primeiro momento. 

Sou um rapaz normal, nem ondas nem marés me assustam. Tenho um mundo só meu, e sei quem quero que a ele pertença. 

No cantinho direito inferior da tela…

O meu nome…

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/14, n.º 4549, 3 de março de 2020

Editorial Voz de Lamego: Jean Vanier

Nasceu em Genebra, em 10 de setembro de 1928, filho de pais canadenses. Foi ficial da Marinha, primeiro britânica, depois canadense. Em 1950, desiste da carreira militar e começa a estudar teologia e filosofia. Sente-se atraído pelo Evangelho. Tornou-se professor na Universidade de Toronto, mas abandona a carreira universitária. Descobre que a sua verdadeira vocação é encontrar Jesus nas pessoas mais fracas e mais abandonadas. Em 1964 funda a Arca e em 1971 contribui para o nascimento do movimento “Foi et Lumiere” (Fé e Luz). Faleceu a 7 de maio, há oito dias.

A “Arca” é uma comunidade que acolhe pessoas com necessidades especiais, com 150 Centros espalhados por todo o mundo. Um dos seus livros, que li, falava de “Adam”, uma criança com autismo profundo, com o qual era muito difícil comunicar, pelo menos através de linguagem verbal. Adam era um desafio e um compromisso. O seu silêncio, um apelo à paciência e à escuta, ao serviço e à delicadeza. Mais do que Adam se adaptar à comunidade, os “cuidadores” é que tinha que se aproximar, perceber e acolher as suas dificuldades. Para lá da linguagem verbal, prevalecia a linguagem dos afetos, da ternura e da meiguice, visível no olhar, no sorriso, na festa com que acolhia Jean Vanier.

O Papa Francisco, na Viagem Apostólica à Bulgária e à Macedónia, não deixou de o propor como exemplo de humanidade, de fé e de serviço. Jean Vanier “trabalhava pelos mais pobres, pelos mais descartados, também por aqueles que no ventre de sua mãe foram sentenciados à morte – às vezes tenta-se convencer os seus pais a tirá-los e não deixá-los nascer. Ele acolheu-os e deu sua vida. Que Jean Vanier permaneça um exemplo para todos nós, que nos ajude do Céu… Na semana passada telefonei-lhe, ouviu-me, mas mal conseguia falar. Quero expressar a minha gratidão por este testemunho, um homem que soube ler a eficiência cristã do mistério da morte, da Cruz, da doença. Do mistério daqueles que no mundo que são descartados. Trabalhou não somente pelos últimos, mas também por aqueles que antes de nascer tem a possibilidade de serem condenados à morte. Ele gastou sua vida assim. Graças a ele e graças a Deus por nos ter dado um homem de tão grande testemunho”.

Tinha 90 anos e estava canceroso. Jean Vanier sobre a sua fragilidade: “Minha esperança e minha oração é que, quando chegar momento de fraqueza, eu possa aceitar e regozijar-me por tudo o que me foi dado. A vida humana começa e termina em fragilidade. Ao longo de nossas vidas somos ávidos por segurança e dependentes de ternura”.

Em Portugal vivemos a Semana da Vida. Este é um belíssimo testemunho de alguém que amou e cuidou da vida humana, na atenção aos mais frágeis. As palavras são sancionadas pela vida.

Pe. Manuel Gonçalves,  in Voz de Lamego, ano 89/23, n.º 4510, 14 de maio de 2019