Arquivo

Posts Tagged ‘Andreia Gonçalves’

Reportagem: Ana Margarida na Guiné Bissau durante um mês

“Respirei fundo e tentei rezar, mas preferi ter uma conversa franca com Deus”  

REPORTAGEM: Andreia Gonçalves

A Ana Margarida foi voluntária, durante um mês, na Guiné Bissau. Uma experiência única tendo em conta o que viu e que viveu. Sem fogão, nem frigorífico, nem banheira, trouxe-nos o coração e a alma cheios de motivos para querer regressar. Afinal, o que move e nos salva verdadeiramente é o amor.

As horas passaram e a aventura ia começar. Ana Margarida ia apanhar o avião para viver uma experiência única, “sentia-me incrivelmente calma, tinha aquela certeza absoluta de que tudo iria correr bem”, embora soubesse que ir passar um mês à Guiné não era nada parecido com o que vivera até hoje… 

Acompanhada pelos pais, a jovem, licenciada em direito, embarcou em busca de uma realização, de uma missão que já sonhara há mais de uma década.

“Eu fiz escala em Lisboa, só quando cheguei ao avião com destino a Bissau é que pensei ‘Sou mesmo louca! Um dia quando tiver filhos vou sofrer tanto!’” disse, de sorriso rasgado.

Quando o avião levantou voo “foi uma sensação tão intensa, tão boa, é das melhores sensações que já senti nestes 24 anos de vida! Durante a viagem tive um flashback de tudo o que me levou até África, até à Guiné Bissau, respirei fundo e tentei rezar, mas preferi ter uma conversa franca com Deus. A conversa mais séria, mais intensa e mais bonita que tive com Deus foi naquele avião”. A conversa entre a Ana e Deus é secreta, mas certamente mágica e encorajadora porque é a prova máxima que existiu foco e fé nesta viagem.

“Cheguei a Bissau por volta das 22h (a mesma hora de Portugal), quando o Comissário comunicou que estávamos quase a aterrar… não havia luzes nenhumas! Totalmente escuro. Só me ri e pensei: começamos bem! Ainda bem que trouxe lanterna”.

A jovem portuguesa desceu do avião e o calor no rosto despertou-a: a novidade estava mesmo ali, a tocar a sua pele, o casaco de penas já não era mais necessário, tendo em conta que estávamos no início de janeiro. O coração que aquece com atos humanos não teve tempo de esfriar: “Tive uma receção incrível. Alguns miúdos da escola, foram buscar-me ao aeroporto! A ida para ‘casa’ foi o primeiro choque”.

No percurso, pelo qual a Ana e os miúdos faziam a viagem até à aldeia, havia, para além de pouca iluminação, estradas cheias de buracos, casas feitas de latão, pessoas na rua a dançar. Mal eu sabia o que ainda estava para ver/descobrir!”

Seguido do descanso, o contacto com os meninos guineenses. “Foram o melhor desta experiência! Desde a noite que cheguei até à noite que vim embora estiveram sempre comigo!”

Com o passar das horas e de sorriso sempre rasgado, a Ana começou por ver as reais necessidades a nível de vestuário e material escolar (que são muitas) de cada menino pertencente à escola para onde foi direcionada. 

“De forma ponderada não entreguei roupa e material escolar na primeira semana para perceber quem é que realmente precisava. Entreguei somente escovas e pastas de dentes para assegurar que a partir daquele dia, todos podiam ter uma boa higiene oral! Receber uma escova e uma pasta para nós parece uma coisa banal, mas para eles é uma alegria imensa! Essa foi a primeira bofetada que a vida me deu!” – afirmou a voluntária. 

A partir da segunda semana, foi entregando a alguns miúdos que tinham mesmo necessidade de material escolar e alguma roupa. Mas, o episódio mais marcante, e que a Ana Margarida não esquecerá, aconteceu na sua turma do 4º ano, onde ajudava a professora titular da turma. De forma a incentivar os miúdos a terem um bom desempenho escolar havia presentes. “Ofereci uma t-shirt nova, que tinha etiqueta, a um menino, passado um tempo os miúdos avisaram-me que ele estava a chorar. Fui junto dele e perguntei-lhe o que é que se passava para estar a chorar e aí o meu coração gelou e ficou do tamanho de uma ervilha”. Foram estas as palavras que ouviu: “Professora Ana, eu nunca tinha recebido roupa nova. Hoje foi a primeira vez!””.

Com todos estes corações pequeninos a palpitarem, a acarinharem a nova professora “adaptei-me facilmente ao ritmo de África”. É mesmo aquela máxima “Primeiro estranha-se, depois entranha-se! O mais difícil foi ver as condições de vida tão precárias das pessoas, a falta de acesso à saúde, à educação! Foi duro mesmo!”

Quando se dirigia a casa para descansar pensava “que dia incrível!… mas também tive outros dias em que me deitei a pensar ‘o que é que eu posso fazer para resolver isto?! Tenho de fazer alguma coisa, mas não sei o quê’”. A impotência perante um sistema onde o acesso ao que, para nós, é o mais básico, é muito difícil e cai como um murro no estômago para os que vivem de perto esta realidade.

Ir até ao mercado de Bandim, onde toda a gente olhava para a voluntária, por ser branca “às vezes sentia-me um OVNI com aqueles olhares indiscretos”, algo que com o passar dos dias foi passando. “As pessoas africanas são fantásticas, têm a arte de bem receber! Como eu estava sozinha numa casa, todos os dias me perguntavam se tinha dormido bem ou se precisava de alguma coisa! Sempre que eu passava nas ruas do bairro, as crianças diziam-me todas ‘olá’ ou gritavam felizes ‘branco!’.  No mercado encontram-se pessoas a vender roupa usada, pedaços de carne, (nunca vi tanta mosca junta), peixe, fruta e produtos hortícolas. Vacas a passearem na estrada como se nada fosse”.

Durante este mês, Ana Margarida não se deu conta de que os dias começavam mais cedo do que aquilo que ela sempre gostou, que o banho era feito num balde, que também servia para limpar o chão e que, afinal e entre brincadeiras e as aulas, os dias foram passando rapidamente. O carinho que recebeu foi o mesmo que deu e em dois tempos arranjou “filhos de África” para cuidar, crianças que sem família foram despertar no coração da voluntária um amor incondicional. 

A maior e dolorosa dor de Ana foi perceber que o hospital não é um lugar seguro, nem é para servir todos os que precisam de cuidados, que não há máquinas para detetar problemas de saúde e por isso as pessoas, simplesmente, perdem a vida, assim, no meio do nada. Só os que têm poder financeiro conseguem ser atendidos e isso causa revolta e faz valorizar o que nós temos como garantido.  

Até o esparguete que lhe foi enchendo o estômago se tornou o manjar doce dos deuses, junto à lareira que os seus meninos lhe faziam, diariamente, para cozinhar. 

A Guiné Bissau não foi o destino de férias, foi a mais pura e dura realidade que a Ana Margarida conheceu até hoje. Mas, fica a certeza, por tudo que nos conta, que se sente realizada e com um sentimento de “dever cumprido”. Afinal esteve sempre protegida pelo amor dos seus “três filhos” que por lá encontrou, pelo carinho dos guineenses, pelos vestidos que lhe costuraram com as mãos de engenho. E que, por mais que tenha visto pessoas acampadas fora do hospital com o intuito de poderem ser consultadas, ou em macas perdidas no tempo, nunca a palavra arrependimento lhe passou pela cabeça. 

Regressou a Portugal com a vontade de “fugir” de novo, onde foi tão feliz e onde teve um anjo da guarda, sempre por perto, “o meu avô”. Porque na vida há coisas que não se explicam. Sentem-se!

in Voz de Lamego, ano 90/11, n.º 4546, 11 de fevereiro de 2020

Cuidar de idosos não é um trabalho… é uma prova de amor à vida

SILÊNCIO é a palavra que não deve existir quando se tem conhecimento de um idoso ser maltratado, seja de forma verbal ou física. É vergonhoso que num país como o nosso, com uma população tão envelhecida, se oiçam histórias em lares que já se ouviam há 40 anos atrás.
RESPEITO é o mínimo que se exige para quem passa o dia a trabalhar com um idoso.  Se conhece algum caso, POR FAVOR, DENUNCIE! Porque quem cala, consente. 

EDUCAÇÃO NUM LAR significa dizer bom dia e boa tarde, sempre, depois de bater à porta do quarto dos utentes. Ter a roupa preparada para o dia seguinte, com cores a combinar, porque a autoestima no idoso também existe.  Não é entrar por ali a dentro como se fosse o quintal de casa. Perguntar o que gostava de vestir, se posso levantá-lo e se permite que lhe faça a higiene, explicando, sempre, o que se está a fazer… Mais, NUNCA falar em tons agressivos ou a imitar desenhos animados, pois idoso não é bebé e odeia ser tratado como tal. Dar comida a uma pessoa na velhice não é enfiar as colheradas goela a baixo, é servir o utente com a maior dignidade. “Não fazer aos outros o que não gostavas que te fizessem a ti”. Água, mais do que comida, é de extrema importância para todos nós. Não se pode deixar desidratar. A substituição de água e chá devem ter horários e à noite não pode faltar! Carinho é uma coisa que se dá, mais do que com palavras, através de gestos. Mudar uma fralda ou ajudar na casa de banho não pode ser VIOLAR a privacidade, é aconchegar, fazer tudo com o máximo de cuidado e atenção, tapando as partes íntimas sempre que possível e não comprometer a estabilidade da pessoa que por si só já pensa que “dantes fazia isto sozinha, agora já não consigo”. Basta imaginar, como se VAI SENTIR no futuro quando lá chegar?

Formação e vocação, assim como um enfermeiro, um professor, um bombeiro, os profissionais dos lares que cuidam, diretamente, os seus utentes devem ter formação adequada e, acima de tudo, vocação por esta profissão que é desgastante e cansativa, mas muito compensadora para os que têm um bom coração.

VERDADE, ao verem as imagens do “Sexta às 9” imaginem como se sente a esposa daquele senhor que é maltratado, diariamente? MEDO é a palavra que define o coração daquela esposa, que passou uma vida a dois sem nunca imaginar que as frustrações das funcionárias do “lar”, para onde iriam no fim do seu ciclo de vida, fazer atos tão horrendos ao pai dos seus filhos.

DIGNIDADE até à morte. É um ato CRIMINOSO não conceder a todos os utentes de um lar, com ou sem demência, com ou sem problemas físicos, com ou sem família, a maior dignidade, enquanto humanos e pessoas que escreveram a história deste país.

Na escola que eu frequentei ensinaram-nos a dar a mão a um idoso na hora da morte, para que nem nesse momento não se sentisse sozinho e o medo do incerto não lhe atormentasse o coração. Palavras doces todos temos, vocação para algumas tarefas NÃO.

TRABALHAR POR DINHEIRO NÃO CHEGA.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/10, n.º 4545, 4 de fevereiro de 2020

Márcio Pereira: ambiciono sucesso, não a fama

Entrevista para a Voz de Lamego conduzida por Andreia Gonçalves

Márcio Pereira, natural da Penedono, é um cantor nacional, que já deu a conhecer o seu talento, voz e estilo próprio no primeiro álbum. Arrojado, aposta em vídeos para o lançamento das suas músicas e nos palcos não deixa ninguém indiferente.

Márcio, tens uma imagem forte e uma voz que marca. O que talvez poucos saibam é que, para além de arquiteto, também és professor de dança. Conta-nos tudo!

É verdade. Além de cantor sou também arquiteto e instrutor de zumba. Apesar de estar no mundo da música desde muito novo, foi no final do meu mestrado que surgiu a ideia/oportunidade de gravar o meu primeiro single. Desde aí, a minha carreira evoluiu naturalmente, obrigando-me a deixar a arquitetura em stand-by. Felizmente tenho conseguido conciliar com as aulas de Zumba, embora com um horário bem mais reduzido. Mas a vida é mesmo assim. Cada experiência no seu devido tempo e amanhã tudo pode mudar. Portanto todas as portas estão em aberto.

As rádios passam as tuas músicas, as televisões dão-te muitas possibilidades para te mostrares ao país. Gosta da exposição a que estás sujeito?

Tenho noção de que a minha música chega a muitas pessoas diariamente e a televisão leva também a minha imagem. Mas, para já, não sinto que esteja exposto nem que seja reconhecido em qualquer lugar. Acontece pontualmente o que para já é pacificamente suportável. Sinceramente tenho algum receio do mediatismo pois considero-me uma pessoa bastante reservada. No bom português, adoro estar no meu canto. Ainda recentemente uma grande artista portuguesa expôs a sua situação publicamente, o que acaba por mostrar às pessoas que os músicos também são pessoas “normais”. Por outro lado, a fama é o preço do sucesso. Ambiciono sucesso, não a fama.

Uma das tuas características é que tu não te iludes. Tens os pés assentes na terra. Isso faz de ti um sonhador com peso e medida em relação ao mundo musical?

Sem dúvida. Não vivo obcecado em fazer por fazer ou fazer porque tenho que ter sucesso naquele momento.

Todas as minhas músicas, todos os meus trabalhos surgem no tempo que eu acho que deve ser e quando tenho possibilidades para o fazer. Nunca devemos dar um passo maior do que a perna. Sou feliz a fazer o que gosto desta forma e quem gostar de mim irá certamente esperar e, acima de tudo, respeitar o meu tempo.

Obviamente não posso negar, gostava de dar muito mais a quem me ouve e me segue, mas nos dias que correm apresentar algo com qualidade não é fácil. E quem gosta de mim não merece algo “assim-assim”.

A vida é uma constante aprendizagem e na música não é exceção. Depois de algum tempo decides viver novas experiências, outras produções, outras composições, outro produtor. Como é que tudo aconteceu e como está a ser esta nova experiência?

Minha amiga, Andreia, obviamente teria que ser contigo que iria falar disto publicamente pela primeira vez. É verdade. Depois de muito tempo a gravar com o meu amigo Jorge do Carmo, resolvi experimentar algo novo, diferente. Como tu sabes, surgiu tudo muito naturalmente, como em tudo na minha carreira. Uma amiga incentivou-me a conhecer e gravar algo com uma das pessoas que foi uma referência durante a minha infância. Que por sua vez trouxe para a minha vida um profissional e ser humano fantástico. Não vou referir o nome, vou antes deixar em aberto pois quero surpreender todos os que seguem e ouvem o meu trabalho. Quero expressões de admiração no dia que a minha página oficial publicar “este é o novo single do Márcio Pereira”. Acho que vou conseguir, não concordas?

Claro que sim, concordo e confio. Já agora, para quando está marcada a estreia desses novos temas?

Infelizmente esta é uma questão que não te consigo responder. Por mim teria sido ontem. Mas todo este processo de publicação de um novo single não depende apenas e só de mim. Mas prometo que durante fevereiro ou início de março todos irão poder conhecer o meu novo trabalho.

Para além da tua carreira a solo, geres uma banda, os SPS. Como tem sido fazer estrada com essa família que tu escolheste?

É fantástico. A banda SPS é o meu projeto de criança. Comecei com 15, 16 anos. E tem vindo a crescer a um ritmo alucinante. Juntos este mês tivemos 6 espetáculos. É um complemento fantástico ao “Márcio Pereira-artista” e juntos temos imenso para oferecer ao público. E cada vez mais iremos trabalhar para surpreender. Convido todos os leitores a pesquisar nas redes sociais “SPS band”. Sigam esta equipa e a mim também para estarem sempre a par das novidades. Mas o principal convite é mesmo para virem assistir aos nossos espetáculos.

Este ano de 2020, começou com espetáculos que têm acontecido todos os fins de semana. O ano promete a nível de trabalho. Certo?

No seguimento no que referi atrás, sim, promete. Temos imensos espetáculos, imensas propostas para este ano. Tem sido uma verdadeira loucura. Mas o público é sempre tão fantástico que a palavra cansaço não existe no nosso dicionário. Por isso certamente nos iremos encontrar por aí.

Deixa-me apenas, antes de acabar esta entrevista, agradecendo-te a ti, Andreia, pela amizade, e ao jornal Voz de Lamego pela oportunidade e a todos os leitores, fãs e amigos por todo o carinho que alimenta esta minha força para continuar. Sejam felizes!

in Voz de Lamego, ano 90/08, n.º 4543, 21 de janeiro de 2020

Jaime Gouveia: viagem do Historiador pelo passado, presente e futuro

Entrevista para a Voz de Lamego conduzida por Andreia Gonçalves

Jaime Ricardo Gouveia é natural de Leomil, Moimenta da Beira. Tem 17 livros publicados, é atualmente investigador do Centro de História da Sociedade e da Cultura da Universidade de Coimbra, professor convidado na mesma instituição e professor credenciado da pós-graduação da Universidade Federal do Amazonas, no Brasil.

Ganhou o prémio “Calouste Gulbenkian”, atribuído pela Academia Portuguesa da História, pelo seu livro, “A quarta porta do inferno. A vigilância e disciplinamento da luxúria clerical no espaço luso-americano (1640 – 1750)”, resultante da tese de doutoramento defendida no Instituto Universitário Europeu de Florença, Itália, em outubro de 2012.

Como surgiu a escolha deste tema para a sua tese de doutoramento e quais as conclusões mais pertinentes que conseguiu comprovar com esta investigação?

Surgiu na sequência da vontade em prosseguir e expandir cronológica e tematicamente a minha dissertação de mestrado intitulada “O Sagrado e o Profano em Choque no Confessionário. O delito de solicitação no Tribunal da Inquisição. Portugal, 1551-1700”. As conclusões desta tese, também publicada em livro, incitaram-me a investigar, no doutoramento, um problema pertinente do ponto de vista historiográfico, através de um enfoque comparativo entre Portugal e o Brasil. Tratou-se de conhecer quais os mecanismos de justiça (episcopal e inquisitorial) utilizados no período compreendido entre 1640 e 1750 para vigiar e disciplinar o clero. A investigação foi conduzida numa instituição internacional com uma bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros e outra da Fundação Para a Ciência e Tecnologia, usando bibliografia produzida neste campo de estudos e uma profunda, criteriosa e exaustiva recolha de fontes primárias, grande parte das quais inéditas, e depositadas em diversos arquivos existentes nos dois lados do Atlântico. Entre as várias conclusões a que cheguei com este trabalho, destaco a refutação de um argumento durante muito tempo dominante, segundo o qual entre os séculos XVI e XVIII predominou na América Portuguesa um padrão quase livre de comportamento sexual e moral dos clérigos e dos leigos, devido ao facto de as autoridades eclesiásticas que os deviam instruir, vigiar e punir se terem demitido propositadamente dessa função, atitude estimulada pela coroa visando a atração de colonos e o incremento da procriação. Concluiu-se que isto não é verdade. Tanto em Portugal como no Brasil (e deste ponto de vista a realidade colonial não foi sui generis) a Igreja Católica pôs em marcha um conjunto de políticas de vigilância e disciplinamento para salvar os seus ministros da luxúria, a quarta das portas que segundo o célebre Afonso Liguori dava acesso ao Inferno.  

“Marte contra Minerva”, outra obra sua, remete-nos para o germinar das ideias republicanas em Moimenta da Beira até aos nossos dias, com acolhimento preferencial das lutas, debates, polémicas e embates entre republicanos e monárquicos. Porquê a escolha deste título e qual a importância de estudar esses embates no concelho moimentense?

Este livro surgiu da ideia de comemorar o primeiro centenário de um acontecimento decisivo na nossa história, a Implantação da República, nascida do embate entre a guerra sangrenta das armas (Marte) e a guerra diplomática (Minerva). Trata-se de um processo com os seus desatinos, mas que teve o condão de transformar em cidadão o súbdito de antanho. Este livro procurou perceber como se deu essa transição complexa, polémica, cheia de incidências e de onde emergem diversos protagonistas em Moimenta da Beira, um concelho que ao ser constituído sede de círculo eleitoral assumiu protagonismo regional. Para reconstituir toda essa trama política recuei até ao período das invasões francesas no sentido de detetar a germinação e ulterior difusão de determinados ideais revolucionários que moldariam o republicanismo enquanto processo em marcha. Ao contrário do que acontecia no panorama nacional, em Moimenta da Beira esse republicanismo tinha mais obreiros do que teóricos. Apesar de este estudo ter sido inserido num momento comemorativo, o olhar que se encetou sobre essas personagens locais não se destinou, como por vezes erradamente acontece, a crivá-las de sátiras ou incensá-las de louvores, destinou-se apenas a reconstituir e compreender a sua ação. É para isso que serve a História.

Porque estamos a falar de Moimenta da Beira, investigou sobre todos os pelourinhos do concelho e daí nasceu um livro que ficará para a história da Vila. Com este estudo ajudou na reconstrução de uma réplica do pelourinho de Moimenta da Beira, há muito desaparecido. Conte-nos como tudo aconteceu… Ler mais…

Menina da Rádio em entrevista à Voz de Lamego

Andreia Gonçalves conduziu a entrevista a Manuela Cardoso, Locutora da Rádio Clube de Lamego

Manuela Cardoso é dona de uma voz inconfundível e uma das grandes referências da rádio, na região. Trinta anos dedicados aos ouvintes traz-lhe uma enorme satisfação profissional e pessoal. Uma mulher apaixonada pelo seu trabalho, que gosta igualmente de viajar e conhecer outras culturas. Uma entrevista EXCLUSIVA, ao nosso jornal, para falar de comunicação e de momentos marcantes de 2019.

Quase 30 anos de rádio Manuela. Que balanço merece esta profissão pela qual é, verdadeiramente, apaixonada?

Trabalhar na rádio é algo tão belo, como tu sabes! O balanço não podia ser mais que positivo. Há sempre os momentos altos e outros menos bons, mas estes últimos foram os que me fizeram pensar, como se fossem pedrinhas, que são úteis para melhorar aquilo que está mal. São essas pedras que vão sendo necessárias para construir o castelo, o meu castelo. Por isso, o balanço é verdadeiramente positivo, passados estes 30 anos de rádio.

O teu pai é o responsável pelo despertar desta paixão. O que diz o professor Júlio Coelho por partilhar com ele este amor pela rádio?

Esta pergunta é difícil e deveria ser feita ao meu pai, porque é o responsável por esta minha paixão. O meu pai não é de verbalizar muito e, em termos de rádio, e daquilo que eu faço na rádio, ele tem uma forma especial de expressar o que lhe vai na alma. Essa forma é o olhar.  Eu sinto a felicidade e a satisfação que sente, relativamente, ao meu trabalho através de um olhar.

Quando termino uma entrevista e um programa eu olho para ele e entendo que ele gostou do que ouviu, e esse olhar diz tudo! Talvez seja mais fácil para ele elogiar-me em conversas com outros, para mim, diretamente, não usa as palavras e não precisa…

O aquário continua a ser o seu local de eleição. Que tipo de programa ainda lhe falta fazer na Rádio Clube de Lamego?

Nos primeiros anos de rádio, eu achei engraçado usar o termo “aquário, e como sou do signo peixes e porque me sinto filha de peixe, achei que poderia usar sempre… e assim comecei os meus programas “Deste aquário vamos ao programa da manhã ou da tarde”. O aquário vai ser, sempre, o meu local de eleição.

Eu já fiz de tudo, nestes 30 anos, programas de música, discos pedidos, informação e entrevistas. Relembro, aqui, o velhinho cantinho infantil, que me dava muita satisfação, pois eu fazia as vozes dos personagens das histórias que eu própria contava, fazia questões, explicava temáticas. Gostava de o voltar a fazer, contudo penso que as nossas crianças vivem, agora, uma ligação às novas tecnologias que o programa teria de ser adaptado e nunca igual ao que fiz há 20 anos. 

Relativamente a um novo programa, tenho uma ideia de fazer dos ouvintes os locutores. E quem sabe, um dia, o possa concretizar, sendo eu a ajudante e os ouvintes se tornarem locutores…  não conheço ninguém que o tenha imaginado e acredito seria um bom desafio.

O auditório tem sempre uma ligação com o locutor que fala, diariamente, para ele. Sendo este bastante diversificado. Tens sentido que as pessoas continuam à espera da edição dos discos como há anos atrás?  Sentes que há pessoas sozinhas a quem tu fazes companhia? 

Obviamente, que sinto que cada vez mais as pessoas estão à espera dos discos pedidos, por incrível que possa parecer. Uma hora já é pouco, e penso que poderia alargar-se para 2 horas.

Na rádio não temos concorrência, por isso este é um programa que deve ser sempre feito.

Somos, realmente, a companhia de muitas pessoas que vivem sós e isoladas, mas também de outras que têm família em casa mas que não dispensam os programas de rádio que lhes fazem companhia ao longo da maior parte das horas do dia. Ler mais…

O Rei às nossas mesas

Chega a esta altura e, ao fechar os olhos, e ao imaginar a sua próxima Ceia de Natal, a tradição portuguesa surge de imediato no seu imaginário. Na noite de 24 de dezembro, noite de consoada, temos de ter, nas nossas travessas, o nosso bacalhau.  

Para descobrir porque é que o bacalhau faz parte da nossa tradição temos de recuar até a Idade Média. Os cristãos faziam jejum, nas principais festas católicas, quer no Natal, quer na Páscoa, e o bacalhau era o “peixe” mais barato, logo mais acessível a todas as famílias.

Mesmo, quando o jejum por altura do Natal desaparece, a tradição de comer bacalhau persiste, até aos dias de hoje, e não acontece, apenas, no nosso país, pois os nossos emigrantes levaram com eles o rei salgado das nossas mesas.

A Voz de Lamego quis saber se a tradição ainda é o que era e fomos perguntar às pessoas. Hugo Borges, de 34 anos, diz que “o bacalhau está sempre na mesa, embora cozinhado de duas formas. O cozido para a maioria das pessoas da minha família e o bacalhau com broa, para os mais jovens, onde me incluo”. António, 50 anos, lembra-se desde criança de ter o bacalhau e o polvo na mesa de casa, “é uma tradição que se manteve, mesmo após o casamento e o nascimento do meu filho, até hoje”.  Maria Sequeira, 22 anos, gosta de bacalhau e “se tivesse uma ceia de Natal sem ele, não seria a mesma coisa”, refere a jovem, de sorriso rasgado.

Portugal é o maior consumidor de bacalhau do mundo, sendo responsável por 25% do consumo global. Por isso, no dia 24 de dezembro, em vários países, em fusos horários diferentes, portugueses em Portugal e emigrados terão na mesa bacalhau, com certeza, espalhadas as raízes da nossa tradição.

Os maiores especialistas deixam a dica que se o bacalhau for demolhado mole, não demolha tão bem, tem de ter cor de palha.

Neste Natal, já sabemos, dentro de dias, teremos bacalhau cozido com batatas e couves, temperado com azeite da nossa região.

Demolhar…

Saiba que para demolhar de forma correta o bacalhau deve: Lavar o bacalhau em água fria corrente para retirar o excesso de sal à superfície; colocar num recipiente com água fria (a menos de 8ºC), com a pele virada para cima e totalmente coberto pela água; reservar o bacalhau, de preferência no frigorífico, para manter a água bem fria durante 24 ou 36 horas, de acordo com a grossura das postas; renove a água até 3 vezes por dia.

Valor nutritivo:

O bacalhau é um peixe com baixo teor de gordura (0,1% da DDR por 100g), rico em proteína de alto valor biológico, com quantidades apreciáveis em vitamina D, fósforo, potássio e magnésio. O bacalhau é particularmente rico em selénio, que integra diversas enzimas com capacidades de proteção das células do organismo contra os radicais livres de oxigénio responsáveis.

Apesar de demolhado, podemos verificar que o bacalhau ainda apresenta quantidades relativamente elevadas de sal (cerca de 3g por 100g), pelo que a adição de sal durante a confeção se torna desnecessária.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/04, n.º 4539, 17 de dezembro de 2019

Entrevista de Andreia Gonçalves a Catarina Narciso, Mrs. Portugal

“PARA MIM O NATAL SIGNIFICA FAMÍLIA”

Entrevista conduzida por Andreia Gonçalves

A Miss Viseu 2019, Catarina Narciso, de 27 anos, foi eleita, no início deste mês, na Gala Final da Miss Queen Portugal “Mrs. Portugal”. Foi um presente de Natal antecipado?

Sem dúvida. Foi o melhor presente que me poderiam dar! Será algo que ficará para sempre na minha memória.

A Catarina é açoriana e vem ganhar um concurso de beleza a Viseu. Como surgiu esta oportunidade?

Sou natural dos Açores, vim para Coimbra tirar a minha licenciatura e no seguimento do estágio vim para Viseu, durante um mês, e foi uma cidade que me cativou desde o primeiro momento. Para além disso, o amor da minha vida é de Viseu e algumas das minhas melhores amigas. Após terminar o curso ainda fui um ano para os Açores, no entanto tinha deixado uma parte de mim em Viseu. Lutei, regressei e com o incentivo do Diretor do Grupo Peixoto, Nuno Peixoto, decidi inscrever-me no concurso Miss Viseu 2019. Acabei por ganhar o título e assim realizei um sonho de menina. tornar um sonho em realidade.

Quais são as expectativas da nossa Mrs. Queen Portugal para a representação que fará do nosso País, no próximo ano, na Malásia?

As expectativas são muito altas, pois para alem de querer superar-me quero honrar o nosso país, a minha cidade e todas as pessoas que confiaram e confiam no meu trabalho. Acho que essa é a melhor forma de agradecimento a todas as pessoas que me apoiam diariamente. Quero por isso vencer e trazer para Portugal, e mais concretamente para Viseu, um motivo de orgulho.

Qual é o seu objetivo mais ambicioso para a carreira de modelo?

Neste momento já estou a realizar um dos meus objetivos, que era conseguir ganhar um título que me levasse a poder representar Portugal, internacionalmente. A partir daí um dos principais objetivos é ficar bem classificada e conseguir levar Portugal o mais longe possível. Outro objetivo pessoal é poder ser a Voz das Mulheres e poder representar a nossa força e capacidade de luta.

Certamente que tem princípios que a guiam neste percurso. O que pode aconselhar a jovens que sonham com o difícil mundo da moda?

Antes de mais gostava de explicar a diferença entre ser Miss e ser modelo de passerelle. Apesar de haver uma associação entre ambas, o conceito e o objetivo são distintos. De forma abreviada, uma modelo “utiliza” o seu corpo e o seu desfile para dar visibilidade a uma marca, um produto. Já uma Miss, “utiliza” a sua visibilidade, a sua voz, a sua postura, conhecimentos, entre outros para tornar este um mundo melhor. A busca pela Mulher que possa servir como referência na sociedade atual em campos diversos tais como defesa ambiental, das causas sociais e da promoção da saúde. A Embaixadora Portuguesa em todo o Mundo. Dito isto, para além de gostar mesmo muito deste mundo e de tudo que o envolve, o facto de podermos aplicar a nossa “Beleza pelo Bem” torna-o ainda mais especial, poder representar a Mulher, a sua força, é um orgulho para mim. Eu aconselho a todas as meninas que tenham o sonho de serem a cara e a voz de uma causa, a deixarem o medo de lado e a inscreverem-se, por exemplo no concurso Miss Viseu 2020, cujas inscrições já estão abertas. Aproveito para lhes dizer sejam fortes e acreditem que é possível tornar todos os nossos sonhos realidade.

Quem lhe dá a maior motivação para continuar, com garra e determinação, neste percurso?

A minha família é essencial, o meu companheiro, os meus amigos e a minha agência, Grupo Peixoto. São pessoas que me motivam imenso e que me ajudam a ter confiança fazendo com que acredite que tudo é possível. Devo dizer que ter o apoio de pessoas que não me conhecem pessoalmente, também me motiva. Encoraja-me receber mensagens das pessoas com palavras simpáticas e de incentivo.

Como estamos nesta época tão especial. Qual é o significado do Natal para si?

Para mim o natal significa família, acima de tudo. Estar com a minha família, estarmos todos juntos e criarmos momentos para a posterioridade. A vida passa demasiado rápida e se não aproveitarmos esses momentos, mas tarde iremos arrepender-nos.

Qual foi o presente de Natal que mais gostou de receber, quando era criança?

Um presente em específico não tenho, pois tanto eu como a minha irmã nunca fomos de pedir muito e ficávamos felizes por qualquer coisa que nos dessem. Da infância o que mais recordo, e o que mais gostávamos, era de ouvir o sininho do Pai Natal, pois aí sabíamos que “ele” estava em nossa casa a deixar as nossas prendinhas.

O que faz parte da sua tradicional ceia de Natal?

O camarão e o bacalhau não pode faltar, no entanto não gosto de bacalhau e então fazem sempre um “prato especial” para mim, que costuma ser lombo assado com batata-doce. A minha avó é apaixonada pela arte de cozinhar, então temos uma mesa sempre muito bem recheada. Ter os meus sobrinhos pequenos torna a noite de natal ainda mais mágica, pois “obriga-nos” a criar o ambiente para a chegada do Pai Natal. É para mim uma noite muito feliz.

Imagine que tinha o poder de cuidar do nosso País por um ano. Quais seriam os seus raios de ação e porquê?

Na minha opinião, pequenos gestos fazem a diferença!

A base de tudo está na Educação, é fundamental ensinar as crianças a cuidar do nosso planeta,

nomeadamente, a reciclar, a não deitar lixo para o chão. Campanhas de sensibilização, organizar grupos para limpar praias, florestas, criar mais pontos com ecopontos, fornecer a todos os residentes caixotes de lixo de reciclagem. Acredito que desta forma não haveria desculpas para não reciclar. Poderíamos também criar alternativas ao plástico, algo que já estamos a fazer, o caso do uso de sacos de pano, garrafas reutilizáveis, entre outros, mas com mais força, ainda.

Contudo e devido ao fator do nosso país ser muito afetado pelos incêndios, é importante, na minha opinião, investir na plantação de árvores e claro tendo sempre em conta as espécies mais recomendadas para o determinado solo que será reflorestado, bem como, a identificação do clima e altitude. Mas se cada um de nós pensar nos seus atos e corrigir algo que está a fazer de forma incorreta, acredito que já estaremos a fazer a diferença, pois somos uma comunidade e cada um de nós, fazendo o seu papel, terá um futuro melhor.

in Voz de Lamego, ano 90/04, n.º 4539, 17 de dezembro de 2019