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Rita Gomes, natural de Tabuaço, vence competição internacional

Rita Gomes em entrevista à Andreia Gonçalves para a Voz de Lamego

Os tempos mudaram, e as competições de canto passaram acontecer online.

Rita Gomes, de Tabuaço, acaba de vencer o Star Rain Cup, representando Portugal num concurso internacional de canto, da associação internacional online “Star Rain Cup Spring – season 2020”, organizado pela associação alemã MTV BERLIM. Venceu com pontuação máxima.

Rita, explica-nos como tudo aconteceu…

Este foi um concurso internacional online, organizado pela associação alemã MTV BERLIM, onde competiram diversos artistas de vários países diferentes.

A convite do meu professor de canto, o grande Professor Joaquim Caetano, tive a oportunidade de concorrer. Como era online, não exigia uma performance em direto, mas sim o envio de um tema. Escolhi o tema “Love by Grace” da fabulosa cantora Lara Fabian, não só pela beleza inerente da canção, mas também pelo sentimento forte que esta transmite. Tive a felicidade e a sorte de ver o meu trabalho reconhecido e de, para além de a ser a grande vencedora do concurso, conseguir a pontuação máxima possível de todo o concurso. Devo admitir-te que, dado grande grau de exigência do concurso e a qualidade dos participantes, que fiquei muito surpreendida e contente pelo desfecho.

O sonho dá muito trabalho, certo?

Sem qualquer tipo de dúvida! Trabalho e dedicação!

Desde sempre tive o sonho da música, tendo desde pequenina investido nesse campo, ainda que não diretamente no canto, mas na parte da formação musical e na aprendizagem de instrumentos musicais.

Há uns anos decidi que seria importante iniciar aulas de canto com o objetivo de poder melhorar a minha capacidade vocal, conservar as minhas cordas vocais e fazer uma gestão responsável da sua utilização.

O trabalho não fica pelas aulas de canto, uma vez que, como estou envolvida em vários projetos musicais diferentes, passa muito pela necessidade de ensaiar com frequência e ter a capacidade de trabalhar, desenvolver e melhorar competências vocais em casa.

É um trabalho que me leva a despender de muito tempo, mas, como tão bem diz o ditado, “quem corre por gosto, não cansa”. De qualquer forma, se não envolvesse trabalho o sabor das vitórias não seria vivido com tanta intensidade.

No ano passado também participaste numa competição internacional. Como foi?

Sim! Na verdade, esta é a minha terceira participação em concursos além-fronteiras. Em 2018, fui representar Portugal num concurso em Tenerife, onde arrecadei o prémio “Voz da Europa”. Em 2019, fui a Itália, não fiquei no pódio, mas recebi 2 convites/bolsas para poder ir cantar ao Egipto e à Rússia. Devo admitir-te que é a fascinante a qualidade que encontramos nestes concursos

És mestre em farmácia pela faculdade de Coimbra. Mas, o sonho é a música?

Sou licenciada em Farmácia Biomédica, sou Mestre em Farmacologia Aplicada e encontro-me presentemente a trabalhar na área dos Ensaios Clínicos. Tanto a área da saúde como a área da música me fascinam. E espero conseguir continuar a conciliar ambas. Desde sempre que faço uma grande ginástica com os meus horários para conseguir dar 100% de mim em ambas as áreas. Felizmente, sou uma pessoa extremamente pró-ativa e dedicada, o que sempre me permitiu não descurar uma área em função da outra. Gosto de pensar que sou multifacetada e acho, muito sinceramente, que não conseguiria viver sem trabalhar nas duas áreas. É caso para dizer que tenho 2 amores.

Rita, a banda que tu integras permite-te ganhar muita experiência. A escola de palco é também importante?

Super importante. Não apenas numa perspetiva de crescimento vocal e profissional, mas também pessoal. Sinto que cresci muito, em todos os aspetos, com a banda. Aprendi a superar-me em muitos aspetos e fiquei surpreendida com a minha capacidade de adaptação. É importante ressalvar que tenho uma equipa fantástica ao meu lado e que, sem eles, nada seria possível.

Quem são as tuas referências musicais?

Celine Dion, Whitney Houston, Mariza, Aurea!

Como te vês daqui a 10 anos?

Não gosto de fazer planos a longo prazo. Gosto de viver o presente e aproveitar o que a vida me dá! Mas espero continuar a cantar, e evoluir cada vez mais.

Ter uma família que apoia este teu talento inato, torna o caminho mais aberto é facilitado?

Sou abençoada com uma família que para além de me amar acima de tudo, me apoia em todas as decisões que eu tomo. São os primeiros a aplaudir as minhas vitórias e a suportar-me quando as coisas correm menos bem. O suporte familiar é fundamental, é meio caminho andado para que as coisas corram bem. Acho que é todo esse apoio que me dá forças para continuar a lutar para ser cada vez melhor e me superar a cada dia.

Um álbum é algo que consideras fazer a curto prazo?

Sinceramente é um sonho que tenho desde sempre! Esperemos que em breve o possa concretizar

SABIA QUE:

Desde pequena que a música está presente na vida da Rita, tendo dado os primeiros passos aos oito anos quando teve aulas de formação musical, violino, guitarra e piano.
Aos onze anos de idade, após me ter sagrado vencedora de um concurso de karaoke, organizado em Tabuaço, pelo Hugo Miguel, surge o primeiro convite relacionado com o canto, para fazer parte da orquestra ligeira de Moimenta da Beira na qual permaneceu durante 5 anos.
Passou por vários projetos musicais, bandas de garagem, tunas académicas, que não só enriqueceram o seu percurso musical e pessoal como também a ajudaram a desenvolver armas para o futuro.
Atualmente, integra uma banda musical chamada SPS Band, a orquestra ligeira da Banda de Música de Sendim, canta em casamentos, faz noites de fados, concertos acústicos e apresentações a solo.
Para aumentar os seus conhecimentos práticos e teóricos ingressou no projeto “Pauta musical”, que tem como objetivo criar estrelas e dar-lhes as ferramentas necessárias para as ajudar a ter uma carreira musical.
Ambiciona conseguir lançar um CD de originais num futuro próximo.

in Voz de Lamego, ano 90/29, n.º 4564, 16 de junho de 2020

Entrevista da Andreia Gonçalves ao fotógrafo Paulo Chaves

De Tarouca ao National Geographic

Um fotógrafo tem sempre uma maneira diferente de ver o mundo. Muitas vezes essa sensibilidade é trazida desde a infância ou de alguém que nos leva a descobrir essa paixão. Paulo Chaves vive em Tarouca, mas espalha o seu talento pelo mundo.

Paulo, quando foi a primeira vez, de que se lembre, ter fotografado algo ou alguém?

Descobri a fotografia já no secundário quando tive a disciplina de Jornalismo, onde o meu grande amigo Padre Matias, com o seu grande poder de comunicação e discurso cativante, me mostrou o mundo da comunicação e em especial a fotografia. Indicou-me o caminho para olhar o mundo com outros olhos, tentar captar a essência das coisas que nos rodeiam, muitas delas nem nos apercebemos da sua existência se não pararmos para as admirar e registar através da lente.

Passar momentos na câmara escura a revelar o que fotografamos é simplesmente uma escola para a vida. Agora é tudo mais fácil, nesta era digital, mas para mim a verdadeira escola da fotografia ainda é o rolo fotográfico, obriga a pensar a fotografia e ponderar todos os parâmetros técnicos e no fundo tentar criar algo que fique na memória.

Por essa grande influência que o Padre Matias teve nessa minha descoberta e pela grande amizade que nos une, no lançamento do meu primeiro livro fotográfico só podia o convidar a ele para fazer uma apresentação do livro.

Voltando à pergunta, se me lembro da primeira vez que fotografei algo ou alguém, sinceramente não me lembro, talvez porque não terá saído nada de jeito (risos) ou porque o que fotografei não teria grande interesse, agora o que me lembro bem foi de fazer as fotografias do primeiro jornal que foi publicado na Escola Secundária de Tarouca, no âmbito da disciplina de Jornalismo, essas sim lembro-me e claro guardo ainda um exemplar desse jornal.

Qual foi a viagem que mais o marcou?

A viagem que mais me marcou foi sem dúvida a primeira viagem que fiz à Suíça, onde os meus pais trabalhavam. Um grupo de pais juntaram-se e organizaram uma viagem de férias para os seus filhos na Suíça onde eles trabalhavam, foi sem dúvida uma viagem inesquecível, primeiro por estar com os meus pais, que só via de 9 em 9 meses, conhecer onde eles trabalhavam e claro descobrir as belezas daquele lugar, ainda hoje estou com vontade de repetir essa viagem, quem sabe um dia.

Se não estivesse ligado à fotografia talvez…

Senão estivesse ligado à fotografia talvez… a perceção da vida fosse muito diferente. Depois dessa fase na escola que me “apresentou” à fotografia ela ficou durante muitos e longos anos adormecida, claro que ia fotografando, mas nada de muito intenso. A minha atividade na música como técnico de som não deixava grande tempo para fotografias, exceto registar os momentos ao vivo das bandas onde trabalhava, mas pouco mais que isso e claro as normais fotos de família.

Foram cerca de 15 anos a percorrer os caminhos de Portugal em que a máquina muitas vezes me acompanhava, mas sem tempo para parar e fazer aquele clique de algum lugar bonito, a paragem só mesmo em frente ao palco e aí fazia o gosto ao dedo.

Em 2013 deixei de ser técnico de som (se é que alguma vez se deixa de ser), o bichinho continua cá e de vez em quando faço alguns trabalhos mas não com a intensidade do passado, e isso abriu definitivamente as portas para abraçar a fotografia, claro que na altura era só um passatempo, de certa maneira para fazer esquecer as saudades das correrias do verão a andar terra em terra a animar as festas, mas esse passatempo ficou com o passar do tempo cada vez mais sério e sem dúvida que fez mudar a minha vida.

Como se sente num mundo cada vez mais de aparências? Onde ganha força o fotógrafo e a fotografia?

Infelizmente cada vez mais o mundo é feito de aparências, onde o real e o irreal se misturam muitas vezes, chegando ao ponto de não se conseguirem distinguir. Eu tento sempre mostrar a realidade das coisas, seja numa fotografia de paisagem, monumento ou numa sessão fotográfica (se as rugas estão lá é porque fazem parte da vida, da história dessa pessoa). É claro que eu por opção prefiro mostrar o que de belo tem o mundo, principalmente as belezas do nosso país, mas também conheço muitas coisas que nada têm de belo, essas prefiro não fotografar, talvez também eu ajude um pouco neste mundo de aparências.

O nosso olhar das coisas é refletido a maior parte das vezes pelas nossas vivências, podemos não nos dar conta disso no primeiro momento, mas a nossa escolha de como retratar determinado assunto está intimamente ligado às nossas experiências e como vemos o mundo que nos rodeia e claro que eu não fujo à regra.

Neste mundo, invadido pelas novas tecnologias, qualquer pessoa pode fazer fotografias, mas existe uma grande diferença entre fotografia e imagem, ou seja, qualquer um pode fazer fotografia, seja com uma máquina fotográfica ou um smartphone, eu também faço muitas fotografias, mas fazer imagens é outra coisa, fazer algo que desperte os sentimentos às pessoas e não só aquela que fez determinada foto e a quem foi retratado, fazer uma imagem que perdure no tempo, resumindo, fazer arte, esse é o grande objetivo de um fotógrafo. Como já alguém disse, “se na minha vida fizer 3 ou 4 grandes imagens sou um fotógrafo realizado”, e é mesmo isso, tentar atingir a perfeição a todos os níveis. Pode perguntar-me se já fiz alguma dessas fotos, acho que já fiz uma, mas daqui a uns anos posso achar que afinal ainda não a fiz.

Essa é a força do fotógrafo, procurar o clique perfeito, mesmo nas coisas mais imperfeitas da vida que nos rodeia e através dessas imagens enviar uma mensagem que pode ter tanto significado hoje como daqui a 100 anos.

Findo a resposta a essa pergunta com o pensamento que sempre me guia no dia-a-dia de fotógrafo, “a minha melhor foto será a que fizer amanhã”.

Como fotógrafo os prémios atraem ou são apenas mais uma motivação para continuar a trabalhar com paixão?

Considero que os prémios são sempre uma motivação, dão força para continuar no caminho que escolhi, mas não são, nem de longe, o mais importante para continuar a fazer o que faço.

Publico uma ínfima parte do que faço nas redes sociais, Facebook e Instagram e, não raras vezes, no meio de centenas de comentários há alguns que me chamam especialmente à atenção, quando pessoas escrevem, por exemplo, que uma foto ou vídeo que publiquei lhes provocou lágrimas de alegria por voltar a ver aquele lugar onde foi feliz na sua infância, na igreja onde se casaram há 50 anos, ou quantos brasileiros, com raízes portuguesas, me agradecem por ter publicado uma foto da terra de seus avós que nunca visitaram, isso sim é uma grande motivação para continuar a fazer o que faço.

Existe um comentário que várias vezes aparece nas redes sociais às minhas fotos que é “as suas fotografias têm alma”, de tudo o que posso ouvir, este é o maior elogio que posso receber, significa que o que mostrei despertou sentimentos a outra pessoa, seja de alegria ou tristeza, mas certamente algo que a fez recordar algo ou motivação para conhecer esse lugar.

Quais os prémios que leva no currículo?

Ao longo dos anos tenho colecionado vários prémios, principalmente, o Prémio Anim’arte – Produção Artística Fotografia, ou seja, o fotógrafo do ano 2018 no Distrito de Viseu, uma distinção que muito me orgulha por ser escolhido por um vasto júri como o fotógrafo do ano.

Foi um prémio que me deixou muito feliz por ver o meu trabalho reconhecido em prol da divulgação da cultura e património português e sem dúvida um grande alento para continuar.

As fotografias que apresenta nas suas páginas correm o Mundo. Isso preocupa-o?

Não, muito pelo contrário, eu incito mesmo as pessoas que me seguem que as partilhem pelo mundo. As fotos que eu publico nas redes sociais são 99% de belezas do nosso Portugal e se as publico é para que as pessoas as vejam e quantas mais as virem melhor, quem conhece pode recordar esse momento e quem não conhece pode sentir vontade de vir a conhecer e é esse o meu principal objetivo, como algumas pessoas dizem, “você faz mais a título gratuito por divulgar os nossos monumentos do que aqueles que são pagos para o fazerem”, infelizmente muitas dessas pessoas têm toda a razão, vá lá que muitos Municípios dão valor ao que eu e muitos outros fazem para divulgar os encantos do nosso país, mas outros existem que não dão valor nenhum e ainda não se aperceberam do poder das redes sociais na divulgação dos seus territórios.

Por exemplo, uma foto que publiquei há alguns anos e que teve mais de um milhão de partilhas, sim um milhão, e esse Município nem uma palavra se dignou dizer, não foi para isso que eu a publiquei, mas que ficava agradado isso ficava, essa imagem acabou por ser publicada na revista National Geographic.

Mas voltando à pergunta, muito me alegra que as minhas fotos corram o mundo, é sinal que estou no bom caminho a mostrar o que de belo existe no nosso país.

Que preocupações leva quando vai fotografar?

Se as baterias estão carregadas e os cartões estão nas máquinas (risos).

Agora um pouco mais a sério, embora o que disse seja uma realidade, tento sempre preparar com antecedência qualquer deslocação que faça, procurando informações do lugar que vou fotografar, quer sejam outras imagens que podem servir de inspiração ou quanto mais não seja saber como lá chegar, e acreditem que muitos dos lugares que visito é preciso mesmo muita preparação para chegar a esses destinos, muitas vezes desconhecidos do grande público ou mesmo das pessoas perto dos locais que não lhes dão grande importância ou mesmo não os reconhecem como sendo interessantes.

No trabalho que desenvolvo há já dois anos para as Aldeias Históricas de Portugal, onde já se podem contar mais de 7000 fotos e centenas de vídeos obriga-me a preparar com antecedência um roteiro do que vou fazer e quando, sim porque a hora a que determinado lugar é fotografado é determinante para a qualidade do trabalho.

Outra preocupação é a segurança, porque todos os cuidados são importantes, principalmente na fotografia de paisagem onde, às vezes para se tentar conseguir a foto perfeita, podemos colocar a nossa integridade física em risco, e acreditem que nenhuma foto vale a pena nesse sentido, infelizmente existem pessoas que já não estão entre nós por causa dessas situações, primeiro a segurança.

Que história gostaria de contar a uma turma de crianças sobre as aventuras para alcançar uma foto que marcou a sua vida?

A resposta a essa pergunta segue no caminho do final da resposta anterior. Podia contar às crianças a história por detrás de uma das fotos que fiz no concelho de Lamego, especificamente na Barragem do Varosa. Há uns anos atrás, a referida barragem estava vazia deixando à luz do dia uma ponte medieval que está sempre submersa, fui lá visitar com a intenção de a fotografar, mas como seria de esperar o fundo da barragem sem água estava um perfeito lamaçal, e tendo em atenção a minha segurança, não a fui fotografar. Falei com um amigo fotógrafo, apaixonado pela natureza, que se deslocou, desde Lisboa, para vir comigo fotografar esse lugar e assim ser mais seguro do que andar lá sozinho e em boa hora o fiz. Estávamos nós no meio desse lamaçal com água pelo joelho, quando, sem que nada o fizesse esperar, simplesmente me afundei quase até à cintura nessa lama e se não fosse o meu colega as coisas não teriam sido fáceis de resolver, no final ficou essa memória de que devemos ter os máximos cuidados e se possível acompanhados por alguém e claro uma foto fantástica que partilho com vocês e que sei que trouxe muitas recordações a muita gente que pensava que nunca mais veria essa ponte onde muitos se banharam na infância e onde outros iam lavar a sua roupa.

E se lhe pedisse para me mostrar uma foto que me fizesse conhecer Portugal, qual seria?

Isso para mim é simples, o sorriso dos nossos idosos, a sua alegria de viver, o apego às suas raízes, às suas terras e histórias, é tão bom poder ouvir as suas histórias, recordar outros tempos e ouvir falar da sua terra com muito amor e um brilho nos olhos, e no final poder tirar-lhes uma foto que irá ficar sempre marcada pela conversa que tivemos.

O que o encanta no nosso património cultural?

A sua história, porque conhecendo a nossa história ficamos a conhecermo-nos melhor a nós próprios, seja um monumento, uma tradição ou as nossas gentes e esse é a nossa maior riqueza, tudo o resto perde a sua importância.

Se pudesse fotografar algo no planeta o que seria e porquê?

Existem tantas coisas belas para fotografar no nosso planeta, tantas paisagens de rara beleza, e para isso só o nosso país daria para uma vida. Tantos monumentos e tradições por todo este planeta para registar e assimilar as suas histórias, mas existe algo que para mim está acima disso tudo que é a minha família, em especial os meus pais, esposa e filha e poder estar sempre cá para lhes poder tirar fotografias, porque se puder fazer isso é porque eles estão cá e eu também, e não existe nada mais importantes para fotografar do que isso.

in Voz de Lamego, ano 90/21, n.º 4556, 21 de abril de 2020

A casa, a descoberta de um novo Mundo

Fica em casa! Foi a expressão mais ouvida e lida desde o primeiro momento em que se percebeu que havia um inimigo invisível. As primeiras horas geraram ansiedade, nos portugueses, mas aos poucos, vamos percebendo que, afinal, há muito para descobrir e fazer entre quatro paredes.

Alexandra Teixeira vive em Valdigem e trabalha num lar. Até dia 7 de abril está por casa e fará parte da próxima equipa de trabalho para substituir a equipa que há muito faz de tudo para assegurar o bem-estar dos idosos. Alexandra conta-nos: “estou tão habituada a trabalhar, que me senti muito mal nos primeiros dias. Fui mesmo às lágrimas, pela ansiedade e o tédio de estar em casa. Mas tive que dar a volta à situação e programei algo de diferente, diariamente, com o meu neto. Estou a gostar porque há muito que não tinha tempo para nada e agora até experimento receitas novas, cuido das minhas plantas e brinco imenso com o meu netinho” diz a jovem avó. Ainda ressalva que “são momentos únicos com mais afetos, mais amor… uma união maior porque estamos obrigados a estar juntos e temos tempo para estarmos juntos à mesa”.

Paula Teixeira é educadora de infância e natural de Moimenta da Beira. Diz estar “tranquila a passar tempo com a família”. Aproveita para fazer o que muitos portugueses fazem, por estes dias, arrumar tudo aquilo na correria do dia-a-dia não dava tempo. Sendo educadora, mãe de três filhos e dedicada ao trabalho que desenvolve com paixão e dedicação. Paula acrescenta “ainda aproveito para orientar as minhas atividades para os próximos tempos. E peço aos pais para deixarem as crianças serem elas mesmas e felizes com muitas brincadeiras”.

Esmeraldina Correia vive numa aldeia pertencente ao concelho da Meda e mostra o que sente: “Tenho que encarar a minha quarentena, porque estar em casa é o melhor para mim e para os meus. Apesar da preocupação com tudo isto tudo que se está a passar… estar em casa é uma missão que todos devemos cumprir para o nosso bem”. Quanto ao que faz dentro de casa, Esmeraldina, que é apaixonada por música, diz que divide o tempo entre as limpezas, o exercício físico e a televisão.

Leandro Sarmento é de Tarouca e estudante de comunicação em Viseu. “Estar em casa nesta quarentena não custa nada, visto que é para o bem da saúde pública. O pior mesmo são as questões a nível profissional como a nível escolar. No meu caso, o Covid-19 está a dificultar um pouco. Sou finalista do ensino superior, está a ser difícil conseguir gerir a situação a nível de estágio e mesmo de findar o curso. Com as aulas online conseguimos acompanhar a matéria, mas ao mesmo tempo não conseguimos ser avaliados da mesma forma como se a pandemia não existisse, o que pode dificultar o término do curso”. Mas há outra questão que se levanta porque o Leandro também se dedica à música: “Estamos a ver o verão em risco devido a esta situação. No meu grupo, o Varosa, já não se ensaia há um mês e este tempo poderia fazer a diferença, mas com esta situação toda também assistimos ao cancelamento de espetáculos, ou seja, todos os esforços que vínhamos a fazer já desde outubro de 2019 como o deslocamento para ensaios e todo o trabalho feito para esta nova época está a ir pelo ‘cano a baixo’. Mas a quarentena não é o pior, de todo. O pior é o que acarreta tudo isto daqui para a frente”.

O jovem termina com uma simples frase dita por Rodrigo Guedes de Carvalho: “Aos nossos avós foi-lhes pedido para irem para a guerra, a nós pedem-nos para estar em casa no sofá”. Apelo que as pessoas não saiam de casa, pois não custa nada. Mesmo que saiam, que tomem as devidas precauções, pois o que se está a passar não é brincadeira nenhuma. Saúde para todos” desejou.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/18, n.º 4553, 31 de março de 2020

A carta que um autista me ditou…

Olá, eu sou o António! Dizem que eu sou diferente! Mas o que é isso de ser diferente? Não conheço ninguém igual a outro alguém, por isso parto do pressuposto que somos todos iguais, e todos diferentes ao mesmo tempo. Não sou de grandes falas, contudo digo muito nos meus silêncios, nem todos chegam ao meu coração, mas ao vosso acredito que também não… 

O meu mundo é preenchido por pessoas, as emocionalmente cegas, surdas, e as que falam demais… e as outras, poucas que escolhi para me cobrirem no frio que se faz lá fora. Na escola passo o meu tempo entre pincéis, telas e tintas, gosto de cores e de vida. Gosto de Surf e da água fria que encontra o meu rosto no mar. Também gosto de cavalos…  mesmo, assim há quem desconfie das minhas capacidades e olhe para mim com ar desconfiado… Há tanta gente que diz segredos à minha frente… Só porque eu gosto de olhar para o chão e estar cabisbaixo, acham que não oiço, (risos)! 

Para além da minha mãe, conheço alguém que lê as cartas que escrevo, através das minhas pinturas e por isso, deixo que me abrace e que me passe a mão no rosto. O calor das mãos dela vai direto ao meu coração. Nunca perguntei a idade, mas também para quê? O amor não escolhe idades… que tonto… Estou  aqui a falar de amor. Nem sei o que isso é, pensam os parvos! Porque amor… qualquer autista sente.

Essa amiga da minha mãe é a única que não fala para mim, como se eu fosse um bebé. As palavras dela não ganham diminutivos no final… E isso, faz-me bem. Os outros vêm falar com um rapaz de vinte anos, como se eu andasse no infantário e por isso esfrego o cabelo sem parar, sem explicação, é o meu jeito!

A minha amiga faz bolas de folhas para reciclar, e atira-me e eu devolvo. Nunca lhe disse uma palavra, não é que não goste dela… Eu sou assim… Sou eu… Faz parte de mim. Mas, dou-lhe muitos sorrisos e sei que isso a compensa. Bem vistas as coisas, uma vez ela ouviu o meu grito,  contudo foi apenas para a proteger. Ela estava lá em casa um pouco assustada. Andei da esquerda para a direita e vice-versa, repetidamente, ansioso, por vê-la sorrir de novo. Nem tive vontade de comer nada. Assim que ela veio à cozinha buscar mais pão, o meu cão, que amo, fez um barulho estranho. Fiquei tão desesperado que gritei com ele… Ele percebeu o meu som, e ela derramou lágrimas, pelo meu gesto. As mulheres também choram por tudo! 

Ganhei um abraço muito especial nesse dia… e ela tinha-me ganho desde o primeiro momento. 

Sou um rapaz normal, nem ondas nem marés me assustam. Tenho um mundo só meu, e sei quem quero que a ele pertença. 

No cantinho direito inferior da tela…

O meu nome…

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/14, n.º 4549, 3 de março de 2020

Coronavírus – o que realmente precisamos de saber

Os mass media mundiais falam, diariamente, do Corona vírus e mostram números assustadores. Os que morrem, aqui e ali, os infetados com números gordos. Até o grande Carnaval de Veneza deixou de acontecer, como forma de prevenção à não propagação do vírus e os jornais não têm mais assunto do que os casos já registados em Itália.

A Europa que já viu os primeiros casos a chegarem e têm mesmo de ter as autoridades sanitárias a trabalhar para que o surto possa ser disseminado, através dos aeroportos.

Contudo é preciso explicar aquilo que ninguém se dá ao trabalho, porque não se ganham audiências a explicar, mas sim a amedrontar e deixar o Mundo em pânico. 

Que o coronavírus infeta alguns animais, talvez já saiba, tais como: aves, morcegos, porcos e até camelos. Alguns deles só infetam aves e mamíferos. Os vírus vão sofrendo mutações e por isso chegaram aos humanos. O que talvez desconheça é que não é a primeira vez que os Coronavírus se propagam ao ser humano, já tinha surgido, em 2002 na Ásia, e em 2013 no Oriente Médio outras variações.

O que se sente quando uma pessoa está contaminada? Muitas pessoas podem ter uma infeção que não se diferencia de um resfriado, e ter sintomas como tosse, cansaço, congestão nasal, entre outros. Que com descanso e medicação para tratar os sintomas e ainda hidratação, facilmente resolve a situação.

Quadros respiratórios mais baixos, que afetem os brônquios levam então a pneumonias que vão necessitar de medicação mais forte.

Porque o número de mortos na China nos faz alarmar? Até, agora, não são conhecidos dados das condições de saúde e de vida de todos os que faleceram se encontravam. Os dados que consegui apurar através do estudo divulgado pelo Centro Chinês de Prevenção e Controlo de doenças demonstra que o índice de mortalidade é de 2, 3%, e cai abaixo do 1% quando se chega a faixa etária entre os 30 e os 40 anos.

Zhong Nanshan, especialista da Comissão Nacional de Saúde na China afirma que os pacientes podem melhorar ” se contarem com um bom apoio médico, tratamento e estando bem nutridos”. No caso do 2019-nCov, ainda não há relato de infeção sintomática em crianças ou adolescentes.

Há algum medicamento específico para eliminar este vírus? Não. Porque é uma mutação recente.

Quanto ao Português que se encontrava no navio mais falado do Mundo, neste momento, o único que sabemos contrair a doença, foi transportado, na terça feira, dia 24 de fevereiro, para o hospital para receber cuidados médicos. Daqui os votos de boa recuperação.

Quanto aos produtos que viajam da China para o todos os Países, incluindo o nosso, não apresentam segundo os especialistas em infeções, nenhum risco para a saúde pública.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/13, n.º 4548, 26 de fevereiro de 2020

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Entrevista com o Comandante dos Bombeiros de Moimenta da Beira

“Os bombeiros precisam que lhes seja reconhecido o seu trabalho”

José Requeijo, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moimenta da Beira, é entrevistado por Andreia Gonçalves para o nosso jornal.

José Requeijo herdou do pai, não só o nome, como a vocação para se tornar bombeiro. O ídolo deixou-lhe um legado e ensinamentos que o orientam até hoje. O comandante dos Bombeiros Voluntários de Moimenta da Beira diz que “quando a sirene toca o primeiro pensamento é que alguém sem nome, sem cor, sem credo, sem posição política, precisa de ajuda” e por isso é preciso fazer de tudo para salvar vidas….

José Requeijo é, hoje, comandante dos bombeiros voluntários de Moimenta da Beira. Se recuar no tempo o que andaria a fazer há 40 anos atrás?

Bom, 40 anos atrás, foi há muito tempo era eu uma criança, muito jovem ainda, que iniciava o meu percurso escolar na escola primária, talvez na quarta classe, no entanto  já vivia o ambiente dos bombeiros pela mão do meu pai que me leva a fardar para a inauguração de um veiculo de combate a incêndios, do mais moderno que havia na região, que ficou famoso pelo nome “Jipão”, um Land Rover com motor a gasolina e que era o primeiro equipado com bomba acopolada e tanque de água de 400 litros, máquina fantástica. Um momento marcante que, ainda, hoje recordo com nostalgia.

O seu pai foi e continua a ser uma referência. Sente a responsabilidade de ser o filho do anterior comandante José Requeijo? Que ensinamentos traz, sempre, consigo?

O meu pai é a minha referência, a minha estrelinha orientadora, o meu conselheiro, o meu ídolo e continua a ser o meu companheiro. Claro, que sentir e verificar, no dia-a-dia que continua a ser uma referência nos bombeiros e, após tantos anos da sua morte, acresce-me, ainda, mais responsabilidade e em permanência, pela sua memória pela sua personalidade e pelos ensinamentos que me deixou. Não raros são os dias que me vejo a pensar em como ele resolveria ou como abordaria determinada situação, os ensinamentos e os seus conselhos são permanentes e diários. Revejo-me muito nele, muitas das minhas decisões são conselhos e aprendizagem desses momentos.

O que é mais difícil para um comandante, lutar pela vida dos outros ou lidar com a morte de alguém?

Difícil separar a dificuldade das duas, pois a ambiguidade da vida e da morte estão intimamente ligadas à nossa missão dos bombeiros. E se por um lado o nosso objetivo primeiro é a salvaguarda da vida, o que nos faz empenhar e aplicar todo o nosso conhecimento, esforço pessoal e profissionalismo, por outro lado e por natureza o ser humano não está preparado para lidar com a morte, muito menos um Comandante que reside num concelho pequeno e conhece toda a população. Sou colocado em situações sensíveis e delicadas que vão para além da função que desempenho tendo que, na maioria das vezes, lidar com sentimentos pessoais e relações próximas que elevam o patamar de tratamento emocional e psicólogo muito forte. Contudo todos estes anos vão-me dando alguma experiência para poder lidar e enfrentar situações desta complexidade. Ler mais…

Violência no namoro em estado de alerta

Jovens universitários foram questionados sobre comportamentos violentos no namoro e, num espectro de mais de 6000 inquiridos, um terço admite já ter vivido pelo menos um ato violento.

As redes sociais servem para difamar ou chantagear o parceiro. E ver o telemóvel do outro num ato de desconfiança é uma realidade já vivida pelos jovens! Agressões físicas, violência psicológica e sexual são outras duras realidades que os jovens de hoje, cerca de metade dos inquiridos, também já conhecem.

Na análise do último estudo realizado em Portugal, dado a conhecer no dia 13 de fevereiro, concluímos que a violência praticada e sofrida nas relações de namoro, entre universitários, a psicológica é a mais cometida, cerca de 21,3% das mulheres e 17,3% dos homens declararam que já foram culpados, criticados, insultados e difamados.

No que diz respeito a ameaças, gritos ou comportamentos como partir objetos e rasgar a roupa, 14,7% das mulheres dizem já ter sofrido tais atos e 6,9% dos homens inquiridos também. 

Outro dado revelado é que 12,9% das mulheres (contra 9% dos homens) dizem já terem sido ameaçados ou chantageadas através das novas tecnologias. 

Contudo, 4,5% das mulheres e 2,9% dos homens disseram terem sido vítimas de ameaças de morte ou ferimentos ligeiros.

As “crenças de género mais conservadoras” estão, diz o estudo, na base das agressões. E neste seguimento 27,9% dos homens e 12,7% das mulheres concordam que algumas situações de violência doméstica são provocadas pelas mulheres. Mais, ainda é o facto de 6,1% das mulheres e 12% dos homens concordarem que as mulheres sofrem violência numa relação e não saem dela porque gostam de sofrer. 

Outro dos dados preocupantes é que 16,8% dos homens concordam que o ciúme é uma prova de amor. E apenas 34% das mulheres também.

Há 9 % de inquiridos que defendem que a mulher deveria ser responsável pela família. 

Mafalda Ferreira, autora deste estudo, que Portugal conheceu no fim de semana passado, não tem dúvidas que “as crenças estão enraizadas e são mais difíceis de desconstruir quando as pessoas estão na idade adulta. Daí que seja mesmo importante investir na educação para a igualdade de género desde muito cedo”.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/12, n.º 4547, 18 de fevereiro de 2020

Reportagem: Ana Margarida na Guiné Bissau durante um mês

“Respirei fundo e tentei rezar, mas preferi ter uma conversa franca com Deus”  

REPORTAGEM: Andreia Gonçalves

A Ana Margarida foi voluntária, durante um mês, na Guiné Bissau. Uma experiência única tendo em conta o que viu e que viveu. Sem fogão, nem frigorífico, nem banheira, trouxe-nos o coração e a alma cheios de motivos para querer regressar. Afinal, o que move e nos salva verdadeiramente é o amor.

As horas passaram e a aventura ia começar. Ana Margarida ia apanhar o avião para viver uma experiência única, “sentia-me incrivelmente calma, tinha aquela certeza absoluta de que tudo iria correr bem”, embora soubesse que ir passar um mês à Guiné não era nada parecido com o que vivera até hoje… 

Acompanhada pelos pais, a jovem, licenciada em direito, embarcou em busca de uma realização, de uma missão que já sonhara há mais de uma década.

“Eu fiz escala em Lisboa, só quando cheguei ao avião com destino a Bissau é que pensei ‘Sou mesmo louca! Um dia quando tiver filhos vou sofrer tanto!’” disse, de sorriso rasgado.

Quando o avião levantou voo “foi uma sensação tão intensa, tão boa, é das melhores sensações que já senti nestes 24 anos de vida! Durante a viagem tive um flashback de tudo o que me levou até África, até à Guiné Bissau, respirei fundo e tentei rezar, mas preferi ter uma conversa franca com Deus. A conversa mais séria, mais intensa e mais bonita que tive com Deus foi naquele avião”. A conversa entre a Ana e Deus é secreta, mas certamente mágica e encorajadora porque é a prova máxima que existiu foco e fé nesta viagem.

“Cheguei a Bissau por volta das 22h (a mesma hora de Portugal), quando o Comissário comunicou que estávamos quase a aterrar… não havia luzes nenhumas! Totalmente escuro. Só me ri e pensei: começamos bem! Ainda bem que trouxe lanterna”.

A jovem portuguesa desceu do avião e o calor no rosto despertou-a: a novidade estava mesmo ali, a tocar a sua pele, o casaco de penas já não era mais necessário, tendo em conta que estávamos no início de janeiro. O coração que aquece com atos humanos não teve tempo de esfriar: “Tive uma receção incrível. Alguns miúdos da escola, foram buscar-me ao aeroporto! A ida para ‘casa’ foi o primeiro choque”.

No percurso, pelo qual a Ana e os miúdos faziam a viagem até à aldeia, havia, para além de pouca iluminação, estradas cheias de buracos, casas feitas de latão, pessoas na rua a dançar. Mal eu sabia o que ainda estava para ver/descobrir!”

Seguido do descanso, o contacto com os meninos guineenses. “Foram o melhor desta experiência! Desde a noite que cheguei até à noite que vim embora estiveram sempre comigo!”

Com o passar das horas e de sorriso sempre rasgado, a Ana começou por ver as reais necessidades a nível de vestuário e material escolar (que são muitas) de cada menino pertencente à escola para onde foi direcionada. 

“De forma ponderada não entreguei roupa e material escolar na primeira semana para perceber quem é que realmente precisava. Entreguei somente escovas e pastas de dentes para assegurar que a partir daquele dia, todos podiam ter uma boa higiene oral! Receber uma escova e uma pasta para nós parece uma coisa banal, mas para eles é uma alegria imensa! Essa foi a primeira bofetada que a vida me deu!” – afirmou a voluntária. 

A partir da segunda semana, foi entregando a alguns miúdos que tinham mesmo necessidade de material escolar e alguma roupa. Mas, o episódio mais marcante, e que a Ana Margarida não esquecerá, aconteceu na sua turma do 4º ano, onde ajudava a professora titular da turma. De forma a incentivar os miúdos a terem um bom desempenho escolar havia presentes. “Ofereci uma t-shirt nova, que tinha etiqueta, a um menino, passado um tempo os miúdos avisaram-me que ele estava a chorar. Fui junto dele e perguntei-lhe o que é que se passava para estar a chorar e aí o meu coração gelou e ficou do tamanho de uma ervilha”. Foram estas as palavras que ouviu: “Professora Ana, eu nunca tinha recebido roupa nova. Hoje foi a primeira vez!””.

Com todos estes corações pequeninos a palpitarem, a acarinharem a nova professora “adaptei-me facilmente ao ritmo de África”. É mesmo aquela máxima “Primeiro estranha-se, depois entranha-se! O mais difícil foi ver as condições de vida tão precárias das pessoas, a falta de acesso à saúde, à educação! Foi duro mesmo!”

Quando se dirigia a casa para descansar pensava “que dia incrível!… mas também tive outros dias em que me deitei a pensar ‘o que é que eu posso fazer para resolver isto?! Tenho de fazer alguma coisa, mas não sei o quê’”. A impotência perante um sistema onde o acesso ao que, para nós, é o mais básico, é muito difícil e cai como um murro no estômago para os que vivem de perto esta realidade.

Ir até ao mercado de Bandim, onde toda a gente olhava para a voluntária, por ser branca “às vezes sentia-me um OVNI com aqueles olhares indiscretos”, algo que com o passar dos dias foi passando. “As pessoas africanas são fantásticas, têm a arte de bem receber! Como eu estava sozinha numa casa, todos os dias me perguntavam se tinha dormido bem ou se precisava de alguma coisa! Sempre que eu passava nas ruas do bairro, as crianças diziam-me todas ‘olá’ ou gritavam felizes ‘branco!’.  No mercado encontram-se pessoas a vender roupa usada, pedaços de carne, (nunca vi tanta mosca junta), peixe, fruta e produtos hortícolas. Vacas a passearem na estrada como se nada fosse”.

Durante este mês, Ana Margarida não se deu conta de que os dias começavam mais cedo do que aquilo que ela sempre gostou, que o banho era feito num balde, que também servia para limpar o chão e que, afinal e entre brincadeiras e as aulas, os dias foram passando rapidamente. O carinho que recebeu foi o mesmo que deu e em dois tempos arranjou “filhos de África” para cuidar, crianças que sem família foram despertar no coração da voluntária um amor incondicional. 

A maior e dolorosa dor de Ana foi perceber que o hospital não é um lugar seguro, nem é para servir todos os que precisam de cuidados, que não há máquinas para detetar problemas de saúde e por isso as pessoas, simplesmente, perdem a vida, assim, no meio do nada. Só os que têm poder financeiro conseguem ser atendidos e isso causa revolta e faz valorizar o que nós temos como garantido.  

Até o esparguete que lhe foi enchendo o estômago se tornou o manjar doce dos deuses, junto à lareira que os seus meninos lhe faziam, diariamente, para cozinhar. 

A Guiné Bissau não foi o destino de férias, foi a mais pura e dura realidade que a Ana Margarida conheceu até hoje. Mas, fica a certeza, por tudo que nos conta, que se sente realizada e com um sentimento de “dever cumprido”. Afinal esteve sempre protegida pelo amor dos seus “três filhos” que por lá encontrou, pelo carinho dos guineenses, pelos vestidos que lhe costuraram com as mãos de engenho. E que, por mais que tenha visto pessoas acampadas fora do hospital com o intuito de poderem ser consultadas, ou em macas perdidas no tempo, nunca a palavra arrependimento lhe passou pela cabeça. 

Regressou a Portugal com a vontade de “fugir” de novo, onde foi tão feliz e onde teve um anjo da guarda, sempre por perto, “o meu avô”. Porque na vida há coisas que não se explicam. Sentem-se!

in Voz de Lamego, ano 90/11, n.º 4546, 11 de fevereiro de 2020

Cuidar de idosos não é um trabalho… é uma prova de amor à vida

SILÊNCIO é a palavra que não deve existir quando se tem conhecimento de um idoso ser maltratado, seja de forma verbal ou física. É vergonhoso que num país como o nosso, com uma população tão envelhecida, se oiçam histórias em lares que já se ouviam há 40 anos atrás.
RESPEITO é o mínimo que se exige para quem passa o dia a trabalhar com um idoso.  Se conhece algum caso, POR FAVOR, DENUNCIE! Porque quem cala, consente. 

EDUCAÇÃO NUM LAR significa dizer bom dia e boa tarde, sempre, depois de bater à porta do quarto dos utentes. Ter a roupa preparada para o dia seguinte, com cores a combinar, porque a autoestima no idoso também existe.  Não é entrar por ali a dentro como se fosse o quintal de casa. Perguntar o que gostava de vestir, se posso levantá-lo e se permite que lhe faça a higiene, explicando, sempre, o que se está a fazer… Mais, NUNCA falar em tons agressivos ou a imitar desenhos animados, pois idoso não é bebé e odeia ser tratado como tal. Dar comida a uma pessoa na velhice não é enfiar as colheradas goela a baixo, é servir o utente com a maior dignidade. “Não fazer aos outros o que não gostavas que te fizessem a ti”. Água, mais do que comida, é de extrema importância para todos nós. Não se pode deixar desidratar. A substituição de água e chá devem ter horários e à noite não pode faltar! Carinho é uma coisa que se dá, mais do que com palavras, através de gestos. Mudar uma fralda ou ajudar na casa de banho não pode ser VIOLAR a privacidade, é aconchegar, fazer tudo com o máximo de cuidado e atenção, tapando as partes íntimas sempre que possível e não comprometer a estabilidade da pessoa que por si só já pensa que “dantes fazia isto sozinha, agora já não consigo”. Basta imaginar, como se VAI SENTIR no futuro quando lá chegar?

Formação e vocação, assim como um enfermeiro, um professor, um bombeiro, os profissionais dos lares que cuidam, diretamente, os seus utentes devem ter formação adequada e, acima de tudo, vocação por esta profissão que é desgastante e cansativa, mas muito compensadora para os que têm um bom coração.

VERDADE, ao verem as imagens do “Sexta às 9” imaginem como se sente a esposa daquele senhor que é maltratado, diariamente? MEDO é a palavra que define o coração daquela esposa, que passou uma vida a dois sem nunca imaginar que as frustrações das funcionárias do “lar”, para onde iriam no fim do seu ciclo de vida, fazer atos tão horrendos ao pai dos seus filhos.

DIGNIDADE até à morte. É um ato CRIMINOSO não conceder a todos os utentes de um lar, com ou sem demência, com ou sem problemas físicos, com ou sem família, a maior dignidade, enquanto humanos e pessoas que escreveram a história deste país.

Na escola que eu frequentei ensinaram-nos a dar a mão a um idoso na hora da morte, para que nem nesse momento não se sentisse sozinho e o medo do incerto não lhe atormentasse o coração. Palavras doces todos temos, vocação para algumas tarefas NÃO.

TRABALHAR POR DINHEIRO NÃO CHEGA.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/10, n.º 4545, 4 de fevereiro de 2020

Márcio Pereira: ambiciono sucesso, não a fama

Entrevista para a Voz de Lamego conduzida por Andreia Gonçalves

Márcio Pereira, natural da Penedono, é um cantor nacional, que já deu a conhecer o seu talento, voz e estilo próprio no primeiro álbum. Arrojado, aposta em vídeos para o lançamento das suas músicas e nos palcos não deixa ninguém indiferente.

Márcio, tens uma imagem forte e uma voz que marca. O que talvez poucos saibam é que, para além de arquiteto, também és professor de dança. Conta-nos tudo!

É verdade. Além de cantor sou também arquiteto e instrutor de zumba. Apesar de estar no mundo da música desde muito novo, foi no final do meu mestrado que surgiu a ideia/oportunidade de gravar o meu primeiro single. Desde aí, a minha carreira evoluiu naturalmente, obrigando-me a deixar a arquitetura em stand-by. Felizmente tenho conseguido conciliar com as aulas de Zumba, embora com um horário bem mais reduzido. Mas a vida é mesmo assim. Cada experiência no seu devido tempo e amanhã tudo pode mudar. Portanto todas as portas estão em aberto.

As rádios passam as tuas músicas, as televisões dão-te muitas possibilidades para te mostrares ao país. Gosta da exposição a que estás sujeito?

Tenho noção de que a minha música chega a muitas pessoas diariamente e a televisão leva também a minha imagem. Mas, para já, não sinto que esteja exposto nem que seja reconhecido em qualquer lugar. Acontece pontualmente o que para já é pacificamente suportável. Sinceramente tenho algum receio do mediatismo pois considero-me uma pessoa bastante reservada. No bom português, adoro estar no meu canto. Ainda recentemente uma grande artista portuguesa expôs a sua situação publicamente, o que acaba por mostrar às pessoas que os músicos também são pessoas “normais”. Por outro lado, a fama é o preço do sucesso. Ambiciono sucesso, não a fama.

Uma das tuas características é que tu não te iludes. Tens os pés assentes na terra. Isso faz de ti um sonhador com peso e medida em relação ao mundo musical?

Sem dúvida. Não vivo obcecado em fazer por fazer ou fazer porque tenho que ter sucesso naquele momento.

Todas as minhas músicas, todos os meus trabalhos surgem no tempo que eu acho que deve ser e quando tenho possibilidades para o fazer. Nunca devemos dar um passo maior do que a perna. Sou feliz a fazer o que gosto desta forma e quem gostar de mim irá certamente esperar e, acima de tudo, respeitar o meu tempo.

Obviamente não posso negar, gostava de dar muito mais a quem me ouve e me segue, mas nos dias que correm apresentar algo com qualidade não é fácil. E quem gosta de mim não merece algo “assim-assim”.

A vida é uma constante aprendizagem e na música não é exceção. Depois de algum tempo decides viver novas experiências, outras produções, outras composições, outro produtor. Como é que tudo aconteceu e como está a ser esta nova experiência?

Minha amiga, Andreia, obviamente teria que ser contigo que iria falar disto publicamente pela primeira vez. É verdade. Depois de muito tempo a gravar com o meu amigo Jorge do Carmo, resolvi experimentar algo novo, diferente. Como tu sabes, surgiu tudo muito naturalmente, como em tudo na minha carreira. Uma amiga incentivou-me a conhecer e gravar algo com uma das pessoas que foi uma referência durante a minha infância. Que por sua vez trouxe para a minha vida um profissional e ser humano fantástico. Não vou referir o nome, vou antes deixar em aberto pois quero surpreender todos os que seguem e ouvem o meu trabalho. Quero expressões de admiração no dia que a minha página oficial publicar “este é o novo single do Márcio Pereira”. Acho que vou conseguir, não concordas?

Claro que sim, concordo e confio. Já agora, para quando está marcada a estreia desses novos temas?

Infelizmente esta é uma questão que não te consigo responder. Por mim teria sido ontem. Mas todo este processo de publicação de um novo single não depende apenas e só de mim. Mas prometo que durante fevereiro ou início de março todos irão poder conhecer o meu novo trabalho.

Para além da tua carreira a solo, geres uma banda, os SPS. Como tem sido fazer estrada com essa família que tu escolheste?

É fantástico. A banda SPS é o meu projeto de criança. Comecei com 15, 16 anos. E tem vindo a crescer a um ritmo alucinante. Juntos este mês tivemos 6 espetáculos. É um complemento fantástico ao “Márcio Pereira-artista” e juntos temos imenso para oferecer ao público. E cada vez mais iremos trabalhar para surpreender. Convido todos os leitores a pesquisar nas redes sociais “SPS band”. Sigam esta equipa e a mim também para estarem sempre a par das novidades. Mas o principal convite é mesmo para virem assistir aos nossos espetáculos.

Este ano de 2020, começou com espetáculos que têm acontecido todos os fins de semana. O ano promete a nível de trabalho. Certo?

No seguimento no que referi atrás, sim, promete. Temos imensos espetáculos, imensas propostas para este ano. Tem sido uma verdadeira loucura. Mas o público é sempre tão fantástico que a palavra cansaço não existe no nosso dicionário. Por isso certamente nos iremos encontrar por aí.

Deixa-me apenas, antes de acabar esta entrevista, agradecendo-te a ti, Andreia, pela amizade, e ao jornal Voz de Lamego pela oportunidade e a todos os leitores, fãs e amigos por todo o carinho que alimenta esta minha força para continuar. Sejam felizes!

in Voz de Lamego, ano 90/08, n.º 4543, 21 de janeiro de 2020