Arquivo

Posts Tagged ‘Adoração dos Magos’

Editorial Voz de Lamego: Somos o que desejamos ser

“Deus quer, o homem sonha e a obra nasce” (Fernando Pessoa). Se nada desejamos nada alcançaremos. Dir-nos-á Blaise Pascal: “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Está inscrito no nosso íntimo este desejo de sermos mais, vivermos melhor, deixarmos marcas da nossa passagem pelo mundo. O homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito, constitutivamente limitado e finito, procura sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do corpo e do mundo. O desejo espicaça o nosso comprometimento na busca, na persistência e no envolvimento em diversas iniciativas, desafios e campanhas.

O Papa Francisco, na homilia da Epifania do Senhor, acentuou esta necessidade de desejo, de busca, de caminho, de resiliência diante dos obstáculos. É o desejo que alimenta a busca e o encontro com Jesus. O Santo Padre começou por citar o seu antecessor: os Magos eram «pessoas de coração inquieto (…); homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social (…); eram indagadores de Deus» (Bento XVI, 06/01/2013).

Mas de onde nasce esta inquietação que levou os Magos a peregrinar? Nasce do desejo, responde o Papa Francisco. “Desejar significa manter vivo o fogo que arde dentro de nós e nos impele a buscar mais além do imediato, mais além das coisas visíveis. É acolher a vida como um mistério que nos ultrapassa, como uma friesta sempre aberta que nos convida a olhar mais além, porque a vida não é «toda aqui», é também «noutro lugar». É como uma tela em branco que precisa de ser colorida. Um grande pintor, Van Gogh, escreveu que a necessidade de Deus o impelia a sair de noite para pintar as estrelas. Isto deve-se ao facto de Deus nos ter feito assim: empapados de desejo; orientados, como os Magos, para as estrelas. Somos aquilo que desejamos. Porque são os desejos que ampliam o nosso olhar e impelem a vida mais além: além das barreiras do hábito, além duma vida limitada ao consumo, além duma fé repetitiva e cansada, além do medo de arriscar, de nos empenharmos pelos outros e pelo bem. «A nossa vida – dizia Santo Agostinho – é uma ginástica do desejo» (Tratados sobre a primeira Carta de João, IV, 6)”.

Iniciámos um novo ano civil! Quando falamos em novo, falámos em propósitos, sonhos, desejos! Mas é possível que a meio do caminho vacilemos! É possível que tenhamos começado 2022 já cansados, nomeadamente em relação a rotinas quotidianas ou a esta pandemia que não mostra sinais de ceder. Ao longo da nossa vida podemos passar por momentos de embotamento, de desencanto e insensibilidade em relação às pessoas ou aos acontecimentos, negativos ou positivos. Deixamos de acreditar, colocamos em causa a bondade das pessoas, parece que o que dizemos e fazemos não faz diferença. Sinal e expressão que o desejo (por Deus) se esbateu, a fé adormeceu! É a vida! Faltou-nos o combustível? A oração? A escuta e meditação da Palavra de Deus? Algum acontecimento que nos deixou de rastos? No trabalho? Na família? Na sociedade?

Deixemo-nos guiar novamente pela reflexão do Santo Padre: “Debruçamo-nos demasiado sobre os mapas da terra, e esquecemo-nos de erguer o olhar para o céu… O desejo de Deus cresce se permanecermos diante de Deus. Porque só Jesus cura os desejos. De quê? Da ditadura das necessidades. Com efeito, o coração adoece quando os desejos coincidem apenas com as necessidades; ao passo que Deus eleva os desejos; purifica-os, cura-os, sanando-os do egoísmo e abrindo-nos ao amor por Ele e pelos irmãos. Por isso, não esqueçamos a Adoração: detenhamo-nos diante da Eucaristia, deixemo-nos transformar por Jesus. Como os Magos, levantemos a cabeça, ouçamos o desejo do coração, sigamos a estrela que Deus faz brilhar sobre nós… Sonhemos, procuremos, adoremos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/09, n.º 4640, 12 de janeiro de 2022

CURIOSIDADE E PERSEVERANÇA | Editorial Voz de Lamego

Three Kings Behold the Star of Bethlehem

Na edição da Voz de Lamego desta semana destaque de primeira página para o Centenário das Aparições aos três Pastorinhos, na Cova de Iria, com a promessa de que em próximos edições o Jornal diocesano, Voz de Lamego, vai apresentar textos enquadrando e explicando, refletindo, as Aparições.

No editorial, o Pe. Joaquim Dionísio, nosso Diretor, parte da solenidade da Epifania, para que nos deixemos guiar pela estrela, mas não desistamos, como eles não desistiram, mesmo quando não virmos a estrela…

CURIOSIDADE E PERSEVERANÇA

A solenidade da Epifania, popularmente conhecida como Festa dos Reis, coloca diante de nós a figura de uns Magos que, vivendo no oriente, se deixaram interpelar por uma estrela e partiram em busca de respostas.

A atenção e a curiosidade foram determinantes para verem além de si próprios. Na verdade, nem todos avistam estrelas. Isso é próprio de quem está atento, curioso e se interroga. Dito de outra maneira, quem não está cheio de si abre as janelas, vislumbra mais longe e procura. Aliás, enquanto crentes, somos simultaneamente convidados a viver a espera e provocados a ir em busca, entre um “já” e um “ainda não” que nos assegura e desinstala…

No caminho, os Magos deixam de ver a estrela. Quantas vezes o entusiasmo inicial esmorece ou desaparece? Como avançar quando se deixa de ver? Quem nos conduz na noite? A experiência mostra-nos que o caminho é feito de evidências e obscuridades, de confiança e de dúvida, de força e fragilidade. E temos consciência de que “A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho” (Francisco, Lumen Fidei, 57).

Contemplando os Magos, vemos como a estrela foi importante para desinstalar e motivar à caminhada, mas aprendemos também que o impulso inicial precisa da perseverança, determinante para reencontrar a estrela.

O encontro com o Menino permite aos Magos regressar por outro caminho. Depois das festas natalícias, após todo o entusiasmo na sua preparação e vivência, no início de um novo ano, não pode instalar-se agora a melancolia…

Importa continuar e perseverar na determinação em avançar. E, se for preciso, regressar por outro caminho!

in Voz de Lamego, ano 87/09, n.º 4394, 10 de janeiro de 2017