Editorial Voz de Lamego: Estamos agora mais perto da salvação!

É a nossa esperança assente na fé que nos une a Jesus Cristo e, n’Ele, aos irmãos, constituídos em comunidade, em discípulos missionários. A Páscoa é oportunidade para amadurecermos e renovarmos a nossa fé, purificando-a do acessório, tradições, usos e costumes. Estes são beneméritos na medida em que nos ajudem a reaviar os acontecimentos do passado, tornando-os visualizáveis na atualidade.

O acontecimento da paixão redentora de Jesus, não é uma realidade do passado, é vivência real do nosso tempo. Jesus dá-Se, de novo, por ação do Espírito Santo, em Igreja. Ele veio! Ele vem e traz a eternidade até nós, faz-nos participar do banquete celeste. Na Cruz, Ele oferece-Se por mim e por ti, faz-nos irmãos, envolve-nos em família. Ressuscita e arrasta-nos para a vida divina; partilha a Sua vida, torna-Se um de nós, para nos fazer participantes da Sua vida. É o mistério maior da nossa fé. Estamos lá! Ele está ali, na Eucaristia, senta-Se connosco, fala para nós, interpela-nos, dá-nos o Seu corpo, a Sua vida por inteiro.

De forma mais solene, em cada ano, a Páscoa é um desafio que nos faz recuar no tempo, ao tempo da vida histórica de Jesus, mas sempre na certeza que não somos tanto nós que recuamos, mas é Ele que traz o passado até à nossa vida, fazendo-nos experimentar, no encontro d’Ele connosco, a Sua entrega filial. A hora é hoje. É hoje que Jesus está na Cruz, é hoje que Jesus sofre em cada irmão marginalizado, esquecido, violentando, em cada irmão espezinhado ou remetido para as periferias. Jesus continua a ser crucificado na criança que morre à fome, na mulher que é agredida, nas famílias destruídas pela guerra, ou em busca de pão, no jovem iludido nas dependências químicas, nos pobres sacrificados à economia.

É hoje que Jesus ressuscita e nos ressuscita nos propósitos e compromissos de O acolhermos, acolhendo, amando e servindo os irmãos. Aquilo que fizerdes ao mais pequenos dos irmãos é a Mim que o fazeis. Não há verdadeira Páscoa sem conversão ao coração de Cristo, que ama, consumindo-Se totalmente. Não há verdadeira Páscoa, transformação autêntica, se continuar a faltar tempo e lugar para os mais pequeninos, para os mais pobres e fragilizados. A Páscoa recria a criação, torna novas todas as coisas. Somos o Seu olhar, as Suas mãos que perdoam e abençoam, protegem e levantam, servem e ajudam.

Interpela-nos São Paulo: “Sabeis em que tempo vivemos: já é hora de acordardes do sono, pois a salvação está agora mais perto de nós do que quando começamos a acreditar. A noite adiantou-se e o dia está próximo. Despojemo-nos das trevas e revistamo-nos das armas da luz” (Rom 13, 11-12).

Há um ano vivemos uma Quaresma atípica! Como atípica também a deste ano. Há um ano, as celebrações comunitárias foram confinadas! Desta vez, a Quaresma iniciou em confinamento, mas em tempo útil regressámos à comunidade, ali onde a Igreja nasce, amadurece e se realiza. Claro que em cada Eucaristia está todo o povo, pois Deus, em Jesus, pelo Espírito Santo, dá-Se para todos, não para uma pessoa, por mais santa que pudesse ser. A oferenda é por todos, todos estão implicados na oração e no banquete, todos são benificiários do mistério pascal. Mas, na realidade sensível da nossa carne, sentimos urgência e necessidade de estarmos também fisicamente envolvidos, próximos dos outros ao ponto de lhes vermos os olhos e sentirmos o seu odor e os seus tremores!

Deixemo-nos envolver pela alegria da Páscoa que se aproxima, certos de estarmos mais perto… da salvação.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/19, n.º 4601, 23 de março de 2021

Editorial VL: São José, custódio de Maria, de Jesus e da Igreja

Há oito anos, o Papa Francisco escolhia o Dia de São José para iniciar o seu pontificado. Curiosamente, como o próprio sublinhou, onomástico de Bento XVI, cujo nome de batismo é José (Joseph).

Francisco quis colocar o seu pontificado sobre o cuidado de São José. Se José, com humildade e descrição, mas com firmeza, cuidou de Maria e de Jesus, também cuidará da Igreja.

Ao longo da história da Igreja, São José, embora acarinhado por ser o pai adotivo de Jesus, surgia quase como um figurante num filme, integrava o elenco mas sem se dar por ele. Justiça seja feita, nos últimos anos este quadro tem-se alterado.

Há 150 anos, o Beato Pio IX, com o Decreto Quemadmodum Deus, declarou São José como Padroeiro Universal da Igreja. Face à grande hostilidade, o Papa confiava a Igreja ao patrocínio de São José. Em 8 de dezembro último, o Papa Francisco, com a Carta Apostólica Patris Corde, convocou um ano especial dedicado a São José e que se prolonga até à próxima solenidade da Imaculada Conceição.

Diz-nos São João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Citado por Francisco, nesta homilia inaugural de pontificado).

O Evangelho é Jesus, a Sua vida e mensagem, a Sua morte e ressurreição. O quadro principal é o mistério pascal, as últimas horas da Sua vida terrena de Jesus, desembocando na Cruz, como oferenda total, e finalizando com a ressurreição, vida nova, à qual nos agrega, enviando-nos a anunciar esta alegre notícia ao mundo inteiro. Os demais livros do Novo Testamento mostram como Jesus está vivo e age pelos Seus discípulos em diversos contextos. Recuar à infância de Jesus não fez parte das cogitações dos evangelistas, ainda que São Lucas e São Mateus nos apresentem um ou outro episódio, sabendo que a preocupação não era escrever uma biografia, mas fixar por escrito o que, primeiramente, foi proclamado oralmente em pequenos grupos de pessoas. Pouco a pouco, a formação das comunidades e a necessidade de o testemunho oral não se esbater com a morte dos apóstolos.

O vislumbre sobre São José já nos diz muito. Discreto, é um homem justo, piedoso, trabalhador, disponível para escutar a Palavra de Deus e realizar os Seus sonhos para a humanidade. Comprometido com Maria, apercebendo-se que se achava grávida, sem a sua intervenção, pondera, mesmo aí, proteger Maria, fazendo recair sobre si o ónus do “abandono” familiar, salvaguardando-A de qualquer suspeita. Porém, Deus baralha-se os propósitos e desafia a envolver-Se no Seu mistério de amor.

O Papa Francisco apresenta-nos São José como custódio, com protetor de Nossa Senhor e do Menino Jesus. Como é que São José realiza esta guarda? “Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entende… Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida… é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/18, n.º 4600, 16 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Ao encontro de Abraão, da bênção e da paz

Por estes dias, de 5 a 8 de março, o Papa Francisco saiu, novamente, do Vaticano e deslocou-se ao Iraque, numa Viagem histórica, desejada por João Paulo II, mas só possível no pontificado atual. Tendo em conta o contexto sempre inseguro do Médio Oriente, tornou-se uma viagem com cuidados redobrados, acrescendo a isso o facto de estarmos a atravessar uma pandemia. Prevaleceu a vontade do Santo Padre e de todos quantos se empenharam nesta missão. Onde o Papa vai, vai com ele Jesus e o Evangelho, e uma mensagem de paz, de fraternidade e de bênção.

Um dos locais emblemáticos é a cidade de Ur, na Caldeia, atual Iraque, onde Abraão nasceu e viveu e de onde partiu para Canaã, respondendo ao chamamento de Deus. A figura de Abraão é incontornável para as três religiões (abraâmicas) monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Abraão é considerado o Pai da fé, por ter sido o primeiro, segundo a Bíblia, a acreditar num Deus único e pessoal. É uma herança comum. Há muitas mensagens e práticas que diferenciam os crentes das três grandes religiões, mas também há muitos pontos de contacto: a fé num Deus único, criador do Universo; o Patriarca Abraão, como pai na fé.

Abraão mostra que a prioridade da sua vida é Deus. Responde à Sua voz. Deixa a casa paterna, a pátria, sem saber para onde o Deus o guia, mas parte em total obediência e confiando totalmente no Senhor. Quando Deus lhe pede, como holocausto, o sacrifício do seu filho Isaac, Abraão, embora triste, porque era o filho da sua velhice, e que deveria perpetuar o nome e a descendência, não hesita, oferece-o a Deus. Se foi Deus quem lho concedeu, é a Deus que pertence.

Com Abraão, aprendemos que diante de Deus somos iguais. Não temos certificado de posse nem dos filhos, nem dos pais, nem do marido ou da esposa. Somos iguais. Somos filhos d’Ele, logo irmãos uns dos outros. Não temos direitos sobre os outros. Só Deus é Deus, só a Ele Lhe pertencemos realmente. E, porque Lhe pertencemos, não podemos ser escravizados nem instrumentalizados pelos outros e, da nossa parte, não podemos espezinhar ou desprezar os irmãos, porque o que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é a Ele que o fazemos.

Nem sequer a terra é nossa. Deus chama Abraão, promete-lhe uma descendência e uma terra. Mas tal como a descendência, também a terra que lhe é confiada não tem um certificado de posse, mas para cuidar e para que também a terra seja refúgio e sustento da sua descendência e de todos os povos. «Abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar… na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra». A voz de Deus faz-se ouvir: «Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças mal algum». Não matarás. Não levantarás a mão contra o teu irmão. Foi o pecado de Caim, o ciúme e a inveja, que levaram ao fratricídio, que destrói a fraternidade. A mensagem que o Papa levou ao Iraque, com ênfase a partir de Ur, é o da fraternidade. Somos irmãos. Somos filhos de Abraão na fé. Professamos a fé no mesmo Deus único e criador. A religião não pode ser fratricida. “Da terra do nosso pai Abraão, afirmamos que Deus é misericordioso e que a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão. Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. O Céu não se cansou da terra: Deus ama cada povo, cada uma das suas filhas e cada um dos seus filhos! Nunca nos cansemos de olhar para o céu, de olhar para estas estrelas… O sonho de Deus: que a família humana se torne hospitaleira e acolhedora para com todos os seus filhos; que, olhando o mesmo céu, caminhe em paz sobre a mesma terra”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/17, n.º 4599, 9 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: O amor que nos transforma e salva

O rosto da Igreja é a caridade, que é o rosto de Jesus, visualizável no rosto de cada irmão que sofre. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. Não há muito por onde escolher se quisermos ser na vida, e fiéis à nossa identidade batismal, o que somos de nome: cristãos.

Não há duas opções, uma por Cristo e outra pela caridade, pela atenção e cuidado ao nosso semelhante. A nossa opção é a de Jesus Cristo. Não Se valendo da Sua igualdade com Deus, assumiu a nossa condição humana, tornou-Se semelhante a nós. Fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza.

Vivemos a Semana Nacional Cáritas em plena pandemia. Se há um ano se fazia confinamento geral precisamente na Semana Cáritas, este ano já por cá andámos há algum tempo e iremos andar por mais algum. A concluir a semana, os ofertórios das Eucaristias vespertinas e dominicais realizavam-se a favor das nossas Cáritas diocesanas, receita importante para sobrevivência deste organismo eclesial e para ter ferramentas para o serviço dos mais pobres. Este ano as iniciativas são online, mas com o mesmo apelo à nossa contribuição, em prol dos mais desfavorecidos.

São 65 anos de Cáritas portuguesa, cuja a missão é ser rosto da Igreja, que por Sua vez é rosto e presença de Jesus Cristo no mundo. Como lema para este ano: “O amor que nos transforma e salva”.

É um caminho conversão permanente ao amor de Deus, manifestado e concretizado em plenitude em Jesus Cristo, que nos salva, nos transforma, nos preenche. Não podemos pregar Jesus Cristo e o Seu Evangelho se antes não estivermos convictos da Sua divindade, da Sua missão e do Seu amor por nós. Pregar, sem antes nos termos convertido, seria um contrassenso, seriam palavras ocas, banais, destinadas a serem levadas pelo vento, mesmo que Deus por essas palavras possa chegar a algum coração. Como lembrava São Paulo VI, o nosso tempo precisa de testemunhas mais do que de mestres, ou que sejam as duas coisas juntas, mestres e testemunhas.

Somos discípulos missionários. Não podemos ser apóstolos sem ser discípulos, aprendizes de Jesus, da Sua mensagem e do mistério pascal, expressão máxima do Seu amor pela humanidade. O verdadeiro discípulo quer imitar o Mestre dos Mestres e, por conseguinte, assume-se como Seu apóstolo.

O nosso olhar há de estar fixo em Jesus, o nosso coração e a nossa vida. Ao olharmos para Jesus, é clara a Sua opção preferencial pelos mais pobres. Todos têm lugar, pobres e ricos, homens e mulheres, crianças e idosos, publicanos e pecadores, estrangeiros, mas a opção de Jesus é pelos pequeninos. Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos, pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pelos homens.

É paradigmática a parábola do Bom Samaritano. Não esqueçamos a mensagem de Jesus, em todo o tempo, também nesta Semana Cáritas. Revemos Jesus no Bom Samaritano, Ele que não Se alheia dos nossos sofrimentos e necessidades, desce, encarna a humanidade, vê e aproxima-Se, faz-Se próximo e vê-nos por inteiro. Debruça-Se sobre nós, não como quem está num patamar superior, mas baixa-Se para nos ajudar, para nos elevar, para curar as nossas feridas, colocando-nos na Sua montada, como o Bom Pastor, pronto para dar a vida por nós. Sejamos como Ele, prontos a gastar-nos pelos outros, tornando-nos próximos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/16, n.º 4598, 2 de março de 2021

Semana Cáritas: mensagem do Presidente da República

Semana Nacional Cáritas – É o amor que transforma a vida

Editorial da Voz de Lamego: Quaresma: viagem de regresso a Deus

Há um ano entrávamos na Quaresma com esperança, renovando nas nossas comunidades apelos e caminhadas, desafios para momentos de oração, de reflexão, de vivência de um dos tempos litúrgicos mais densos, com tradições e símbolos tão ricos que envolvem até os mais afastados da vida comunitária. Por outro lado, a abundância do turismo religioso que traz mais vida a aldeias, vilas e cidades.

Pouco tempo depois, o reconhecimento e a mitigação da pandemia levar-nos-ia a alterar planos, a suspender celebrações comunitárias, a catequese, encontros de formação, celebrações dos sacramentos. Suspender, adiar e esperar por melhores dias. E, momentaneamente, esses dias chegaram depois de uma Quaresma que se converteu em quarentena, em confinamento, em isolamento, em distanciamento físico. Vivemos à espera, em teledistância, com poucos contactos físicos, sem beijos nem abraços, e sem apertos de mão. Gradualmente ganhámos confiança e fomos regressando, os que regressámos, pois alguns, desde março, ainda receiam dar algum passo (em falso) fora de casa.

À medida que o tempo avançou, do verão ao Natal, tudo parecia estar a voltar, muito devagar, mas havia grandes expectativas de que não faltaria muito para retomarmos projetos ou avançarmos com novas propostas, no nosso caso, propostas pastorais e envolvimento das comunidades. O Ano Pastoral 2020-2021 da Diocese foi pensado nesta perspetiva, com precaução, mas abrindo e semeando sulcos de paz e de esperança, colocando possibilidades sobre a mesa. Janeiro acabou com muitas das nossas ilusões. Voltámos a um confinamento generalizado pela elevada pressão no SNS, centenas de pessoas mortas em consequência da COVID-19, e multiplicação de contágios. Agora vamos com mais calma e ponderação, ainda que alguns não tenham entendido, ainda, que todos estamos sujeitos a ser contaminados e a colocar em perigo a própria e a vida dos outros.

A Quaresma deste ano pastoral tem, desde o início, as marcas da pandemia. As ilusões são menores, mas a esperança deve ser renovada constantemente. Adaptamo-nos às circunstâncias, cuidando uns dos outros, até onde é possível e recomendável, mas não podemos esperar infindamente, de braços cruzados, de corações fechados, com a vida suspensa. A Igreja Católica deu sinais de ser pessoa de bem e de confiança, assegurando a máxima segurança nas celebrações dentro dos edifícios ou ao ar livre.

Na quarta-feira de Cinzas, o Papa deixou-nos mais uma interpelação significativa, caracterizando a Quaresma como uma viagem de regresso a Deus. O tempo é-nos dado por Deus, e só Ele sabe o dia e a hora; a nós cabe “gerir”, viver, valorizar as oportunidades, potenciar os talentos. “Quantas vezes, atarefados ou indiferentes, Lhe dissemos: «Senhor, espera! Virei encontrar-Vos mais tarde… Hoje não posso, mas amanhã começarei a rezar e a fazer algo pelos outros». E assim dia após dia… Agora Deus lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas hoje é o tempo de regressar a Deus”.

Prosseguindo, o Papa lembra-nos que a Quaresma envolve a vida toda. A configuração a Jesus deve ser total. A Quaresma coloca-nos em êxodo, da escravidão para a liberdade, um regresso, como o filho pródigo, à casa paterna, à ternura e abraço do Pai. “É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso… Curai o meu coração. Voltemos a rezar ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do louvor, que queima as cinzas das lamúrias e da resignação”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/15, n.º 4597, 23 de fevereiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: «Vamos subir a Jerusalém…» (Mt 20, 18)

De forma decidida, Jesus avança para Jerusalém. Este trecho do Evangelho foi escolhido pelo Papa Francisco para a habitual mensagem da Quaresma, convidando a renovar a fé, a esperança e caridade.

Há alturas da vida que nos impelem à resiliência, a uma luta persistente e contínua.

Jesus caminha para morte?! Não, Jesus caminha para a vida, para a entrega, para o oferecimento da Sua vida, para que, eu e tu, tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Jesus quis morrer? Não, mas não Se desvia do Seu caminho para ser Caminho, Verdade e Vida. Em diversas ocasiões, Jesus retira-Se, com os discípulos, para outras localidades ou mantém-Se discreto para não irritar as autoridades ou grupos mais zelosos. Tudo tem a sua hora e Jesus, que, com o Pai e o Espírito Santo, é o Senhor do tempo e da história, não tem pressa em apressar a hora, tem pressa em apressar a ternura, a compaixão, o anúncio do Evangelho, amando e reabilitando, perdoando e curando.

Nas Bodas de Caná, Maria intervém e apressa a Hora de Jesus, por bons motivos, para ajudar os noivos e as suas famílias e lhes proporcionar uma festa feliz, descontraída e sem sobressaltos. Afinal, Deus é também o Senhor da festa e da alegria, da esperança e do futuro, da misericórdia e da carícia.

Logo depois da Anunciação, diz-nos São Lucas, Maria corre veloz pelas montanhas ao encontro da Sua prima Isabel, para a ajudar e para lhe comunicar a Boa Nova que é Jesus. É esta a pressa que nos deve tornar mais próximos uns dos outros, fazendo com que a fé que nos preenche nos faça viver preenchendo a vida de caridade e de esperança. Não esqueçamos o lema pastoral da nossa diocese para este ano (preenchido também) de pandemia: abrir e semear sulcos de paz e de esperança.

Em Nazaré, perante a ameaça de alguns, que O levam ao alto da colina, Jesus irrompe por entre eles e segue o Seu caminho. Sigamos com Ele. Não nos deixemos levar pela aragem das modas e das intrigas, das conspirações ou ameaças. Alerta-nos São Judas sobre os falsos profetas, que também o podemos ser: “São nuvens sem água arrastadas pelo vento; árvores de outono sem fruto… astros errantes para os quais está reservada para sempre a mais tenebrosa escuridão… são murmuradores, queixosos da sua sorte; da sua boca saem palavras pomposas, para adularem as pessoas, em vista do próprio interesse”.

O tempo da Quaresma é este renovado, intenso e permanente desafio da conversão, sair de mim ao encontro de Jesus, sem contornar as dificuldades, sem me deixar levar por uma qualquer profecia, sabendo que n’Ele e com Ele, Jerusalém surge como a hora da entrega, do serviço e do amor. Não há caminhos alternativos. Só o caminho da Cruz, da fé, da confiança em Deus, do serviço aos irmãos, é o caminho dos cristãos.

Fiquemos com as palavras do Santo Padre: “Viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens, nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai. Que Maria, Mãe do Salvador, fiel aos pés da cruz e no coração da Igreja, nos ampare com a sua solícita presença, e a bênção do Ressuscitado nos acompanhe no caminho rumo à luz pascal”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/14, n.º 4596, 16 de fevereiro de 2021

Conselhos práticos para lidar com a dor crónica

Cerca de 37% da população portuguesa sofre de dor crónica.

14% dos portugueses têm dor crónica recorrente com intensidade moderada ou intensa.

A dor crónica atinge 1 em cada 3 portugueses, sendo a 2ª doença com maior prevalência em Portugal.

A dor é uma experiência individual e subjetiva que quando persiste após o período estimado para a recuperação normal de uma lesão passa a ser considerada crónica. A dor crónica afeta a qualidade de vida do doente e das famílias, não apenas devido à dificuldade ou incapacidade física, funcional e motora, mas também ao ter um grande impacto a nível pessoal e emocional, causando morbilidade, absenteísmo, dependência, ansiedade, afastamento social, fadiga, alterações do sono e apetite.

Segundo Ana Pedro, Presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), “retomar as atividades diárias, tanto pessoais como laborais, e realizar tarefas quotidianas para quem sofre de dor crónica pode ser bastante complicado e muitas vezes os doentes sentem-se frustrados por não conseguirem realizar tarefas simples (pelo menos, sem sentir dor) que em outrora realizavam quase inconscientemente”. 

Contudo, existem algumas dicas e conselhos práticos que os doentes podem seguir para atenuar os efeitos e condições da dor crónica em diversas situações do dia-a-dia:

Atividade física – o exercício físico ligeiro ou moderado é fundamental no dia-a-dia para aumentar a mobilidade e contrariar o sedentarismo, para além de ajudar o doente a sentir-se ativo e útil, diminuindo o tempo em que pensa na dor. Fazer exercício regularmente, como um passeio diário ou exercícios em casa, é uma boa solução, desde que o médico esteja informado e que aprove.

Levantar – ao sair da cama ou do sofá, deve-se virar de lado, baixar as pernas devagar para fora da cama/sofá, ao mesmo tempo que, com os braços apoiados, se impulsiona para cima. Depois, deve-se permanecer sentado durante alguns segundos e só depois levantar lentamente, ajudando com as mãos de ambos os lados do corpo. 

Dormir – muitas vezes, adormecer é a parte mais difícil para estes doentes, apesar do nosso corpo ter a tendência para se colocar na postura que nos é mais cómoda para aliviar a dor. Para ajudar neste processo, especialistas recomendam a utilização de almofadas cervicais e a mudança do colchão, no máximo, de 8 em 8 anos.

No trabalho – tendo em conta que passamos a maior parte do nosso tempo acordados a trabalhar, é fundamental adotar alguns hábitos no contexto de trabalho. Sentar numa cadeira ajustável com um bom apoio lombar para manter uma postura correta, colocar ao alcance da mão tudo aquilo que seja necessário para evitar levantar desnecessariamente, e levantar da cadeira de hora a hora e andar um pouco, são algumas medidas a tomar para evitar que a vida profissional seja afetada.

Acessórios – o uso de pentes de cabo longo para pentear o cabelo, de peças de roupa folgada e calçado cómodo, de calçadeiras compridas para o calçado e de acessórios que permitem calçar meias, é, também, essencial para facilitar estas tarefas. 

Para mais informações, contacte: ATREVIA Lisboa

Tel. 21 324 02 27 | M. 914 027 251; 914 027 407

Carina Monteiro, cmonteiro@atreia.com 

Marta Ribeiro, mribeiro@atrevia.com

Editorial Voz de Lamego: Relação de confiança no cuidado dos doentes

Tema escolhido pelo Papa Francisco para o XXIX Dia Mundial do Doente, que celebramos, cada ano, a 11 de fevereiro, na memória de Nossa Senhora de Lurdes: «‘Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos’ (Mt 23, 8). A relação de confiança, na base do cuidado dos doentes».

A referência fundamental é Jesus e a Sua postura de vida. Com Ele deveremos sincronizar a nossa conduta na relação com os outros, na opção preferencial pelos mais pobres, os que se encontram em situação mais frágil e desfavorecida, como são, por exemplo os doentes. Jesus alertava para a hipocrisia daqueles que exigem aos outros comportamentos, mas que eles próprios não mexem uma palha para o cumprirem. Jesus tem a consciência que as palavras se enraízam no coração, se enraízam na vida e nos comprometem, no concreto, no serviço ao nosso semelhante. Como lembrava o Papa, no último domingo, só há uma situação em que é lícito olharmos as pessoas de cima para baixo, quando nos debruçamos para as ajudar a levantar-se. É o que Jesus faz em relação à sogra de Pedro, doente e com febre, toma-a pela mão e levanta-a. O mesmo faz com os outros doentes que se aproximam d’Ele (cf. Mc 1, 29-39).

Ao longo da Sua vida, Jesus estabelece uma relação de proximidade afetiva com todos os que encontra, sejam as multidões, os apóstolos e discípulos, sejam as pessoas mais frágeis marcadas pela doença, pela pobreza, pela exclusão motivada pela condição social/moral, pecadores e publicanos. Ele não olha para ti em conformidade com o teu cartão de cidadão, a tua origem, a tua pertença a um partido, a tua nacionalidade ou, mesmo religião, Ele olha para ti como irmão. É a dinâmica do Bom Samaritano, que vê, se aproxima para ver melhor, desce da sua montada, debruça-se para cuidar das feridas, levanta o a pessoa caída, coloca-a na sua montada, condu-la a um lugar de repouso e recuperação, assume as despesas do seu tratamento e mantém-se vigilante pelo seu estado de saúde (cf. Lc 10, 25-37).

Mais tarde ou mais cedo, tu e eu, todos passaremos, se ainda não estivemos nessa condição, pela situação de doentes. Ou tivemos/teremos algum familiar próximo a necessitar de cuidados de saúde, internamento, ou mesmo cuidados mais intensivos e/ou continuados. Como gostaríamos de ser tratados? Como gostaríamos que os nossos familiares fossem tratados? Certamente que responderíamos: com todo o respeito, atenção, cuidado.

A terapia da pessoa doente deve ter um carácter holístico, não se trata de intervir numa parte do corpo, mas na pessoa como um todo. Não há doenças, há pessoas doentes, o corpo, alma e espírito. Entre os que são tratados e aqueles que cuidam deverá haver uma relação personalizada, de confiança e respeito, de sinceridade e disponibilidade, colocando no centro a dignidade da pessoa doente. A referência, não é demais repeti-lo, é Jesus. “Assim o atesta muitas vezes o Evangelho quando mostra que as curas realizadas por Jesus nunca são gestos mágicos, mas fruto de um encontro, uma relação interpessoal, em que ao dom de Deus, oferecido por Jesus, corresponde a fé de quem o acolhe, como se resume nesta frase que Jesus repete com frequência: «A tua fé te salvou»”.

A atual pandemia acentuou vulnerabilidades e insuficiências dos sistemas de saúde, com descriminação negativa do acesso aos cuidados médicos por parte das pessoas mais frágeis e pobres. É tempo de refletir e de agir em prol da fraternidade inclusiva.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/13, n.º 4595, 9 de fevereiro de 2021