Editorial Voz de Lamego: Verdadeiramente este homem era justo

O centurião, ao ver o que se passava, exclamou, glorificando a Deus (Lc 23, 46-47).

Aparentemente, a história de Jesus, e a Sua vida entre nós, chegou ao fim!

Que é que terá visto, ouvido, sentido o centurião para dar glória a Deus logo depois de Jesus ter expirado?

Um desenlace anunciado pelo próprio Jesus, a entrega às mãos das autoridades religiosas e políticas, julgado e morto! Último suspiro! A violência a que foi sujeito, desde a prisão no horto das Oliveiras, à agressividade dos soldados, que O injuriam e n’Ele descarregam frustração e, chicoteando-O, a carregar a pesada Cruz, já com pouquíssimas forças, a crucifixão, a morte parece quase um alívio! Não há forças para mais. Ele sofre, mas quem está por perto, Maria e as outras mulheres, também sofrem. Não nos é possível imaginar a agonia de Nossa Senhora, pese embora a fé e a confiança em Deus. Será um misto de sentimentos, angústia pelo sofrimento que se expressa no rosto e no corpo de Jesus, Seu amado filho, nas tremuras e dificuldades em respirar, e, por outro lado, paz e esperança, sabendo que a morte nada é diante do poder de Deus, não é um termo, é passagem, é páscoa. Ela sabe, Ela sente, Ela confia que o Seu Filho, o Filho de Deus, morre (biologicamente) como ser humano, mas o Pai não O abandonará à morte, assisti-l’O-á, por ação do Seu Espírito, na Sua descida ao túmulo, para O ressuscitar.

Se a morte tivesse a última palavra, a história fixaria Jesus como uma memória a esquecer-se ao longo do tempo. Mas a história não acaba aqui. Não acaba na sexta-feira santa. O calvário é mais uma etapa, ainda que mais significativa e final, expressão última e plena da entrega de Jesus. A desolação dos discípulos, familiares e amigos, da gente simples da Galileia, há de dar lugar à luz e à alegria, à festa e à vida nova. Teremos que descer do morro, teremos que abandonar o lugar da morte, da desumanização, da injustiça e do pecado. E regressarmos à vida! À comunidade! Lá nos encontraremos com o Ressuscitado.

Pela madrugada, as mulheres… sempre mais cuidadosas nos pormenores, vão-se assegurar que o Corpo do Senhor, tanto quanto possível, receba os cuidados que a pressa de sexta-feira santa não permitiu. Num primeiro momento, nem pensam que serão incapazes de mover a pesada pedra que bloqueia a entrada do sepulcro. Agem antes de racionalizar as questões práticas. Não há tempo a perder, é o Mestre e, sobretudo, Amigo, que é preciso honrar. Depois, Deus há de prover! E Deus provém… o sepulcro está de portas abertas, como pôde ver Maria de Magdala, como podem testemunhar as mulheres, como podem verificar os discípulos, Pedro e o predileto, que podes ser tu e posso ser eu, se e quando despertarmos confiantes para o amor e a omnipotência de Deus.

Com as mulheres, com os discípulos, vamos ao lugar da morte! Ali, depois de horas densas e intensas, de enorme desolação, foi colocado o corpo de Jesus, desfigurado. Como se aproximava o sábado, pois o entardecer de sexta-feira, cultualmente, faz-nos entrar no grande sábado, não foi possível deixar o corpo de Jesus com os unguentos todos, que remetem para o respeito pelos mortos, para a amizade, para a vida que perdura, pelo menos, na memória agradecida. Cedinho, portanto, no primeiro dia da semana, novo dia, resplandecente de luz, de beleza e de vida, levantemo-nos, vamos nós também, e deixemo-nos envolver pelos sinais que estão ali, pelos sinais que Deus faz ver e sentir. Jesus não está ali! Ele precede-nos! Ele levantou-Se antes de nós chegarmos, ressuscitou! É tempo de desfazermos a ansiedade e o luto! Ele está vivo. Encontrámo-l’O, não no sepulcro, mas na Galileia, em Jerusalém, em Tabuaço e em Lamego, em Penude, na minha e na tua povoação, na Igreja e em casa, nas encruzilhadas da vida. É tempo de cantar e agradecer, é tempo de viver e anunciar a vida, a ternura, o amor, a compaixão. É tempo de fazer com que os destroços da morte se convertam em compromisso com a vida, agindo de tal forma, em palavras, gestos e obras, que prevaleça o diálogo e a verdade, a partilha e a comunhão, a solidariedade e a justiça, a bondade e a paz, a entreajuda solidária e a opção preferencial pelos mais desfavorecidos. Uma vez ressuscitados com Jesus, vivamos esta nova vida que nos identifica e compromete em amar a todos do jeito com que Deus nos ama, dando a Sua vida, em Jesus Cristo, até ao último fôlego. Levantemo-nos, é tempo de viver e testemunhar o Evangelho da Alegria e da Caridade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/23, n.º 4654, 20 de abril de 2022

Editorial Voz de Lamego: A maior semana da nossa fé

Vivemos a Semana Santa, a maior da nossa fé, não pela duração das horas ou dos dias, mas pela intensidade e pelo significado fundante da comunidade cristã. Jesus entrega a Sua vida por inteiro! Nem a morte tem poder de lhe colocar um termo, pois a vida emerge em plenitude na Sua ressurreição. Cada Eucaristia é Páscoa, na qual celebramos um mistério que nos faz contemporâneos de Jesus, pois Ele vive agora, no meio de nós, pela força do Espírito Santo, em Igreja. A cada ano, de forma mais solene, vivemos os acontecimentos que marcam o culminar da Sua vida história, em dinâmica de entrega.

A semana é santa, porque Jesus é o Santo de Deus! Vem de Deus e dá-nos Deus. Santifica-nos e envolve-nos no Seu mistério de amor e no Seu ministério de serviço. Jesus percorre connosco as diversas situações da vida. São Paulo faz uma síntese perfeita: “Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou”.

Ele está no meio de nós como quem serve; amando, sujeita-Se às mesmas circunstâncias finitas, frágeis, limitadas; caminha lado a lado, entra connosco na cidade, ouve as nossas preces e os nossos gritos, aceita o nosso louvor, as nossas oferendas e a nossa conversão, a nossa alegria e a nossa cobardia. A realeza de Jesus é despojada de poder, de riqueza, de exuberância.

O Rei aclamado por uma multidão entusiasta e feliz, no início da semana, dá lugar a um Rei coroado de espinhos, injuriado por uma multidão enraivecida e embrutecida. O tempo que decorre nas últimas horas é mais demorado, doloroso, tenebroso.

Oportunamente, Jesus avisa os discípulos. O Filho do homem vai ser entregue aos anciãos, vai ser julgado, condenado e morto! Durante aqueles instantes, o coração dos discípulos estremeceu… mas a vida continua, e foram esquecendo a sentença que pesava sobre a Sua cabeça!

Aproxima-se a Páscoa (judaica). Jesus manda preparar a ceia pascal. Em casa, à volta da mesa, numa refeição festiva, recordando as maravilhas que Deus realizou, através dos tempos, a favor do Seu povo, Jesus faz ver que tudo se precipitará para o fim! “Não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o reino de Deus”.

Os discípulos percebem que alguma coisa não está bem, mas ainda não sabem a dimensão das palavras de Jesus, que institui o memorial, antecipando, no repartir do pão e do vinho, a Sua permanência no meio de nós, depois da Sua morte e ascensão para Deus. Ouvem Jesus a dizer que entre eles está alguém cujas intenções não são concordes com o Seu projeto. A casa começa a desfazer-se. Um deles levanta-se da mesa e sai de casa. Doravante a casa fica vulnerável, exposta, as portas não são forçadas, abrem-se por dentro. A história de famílias, comunidades e povos! Os inimigos, mais perigosos, porque mais silenciosos, estão dentro, na família, na comunidade, no povo, e dentro de nós!

O Mestre clarifica de novo a opção pelo serviço: Eu estou no meio de vós para servir e dar a vida. A disputa não é pelo poder, mas pelo amor. Os nossos propósitos são testados pela realidade! A oração é a garantia da nossa comunhão com Deus, o contexto que nos permite querer o que Deus quer! Pela oração fortalecemos as nossas escolhas.

Até à Cruz, a postura de Jesus é constante, realizar a vontade de Deus, expressar o Seu amor por nós, apontar-nos o caminho do perdão, do serviço e da ternura de forma a construir fraternidade.

Qua a vivência da Semana Santa nos faça perceber que a vida se ganha, gastando-se por amor, no serviço uns aos outros, ao jeito de Jesus, nossa Páscoa e nossa Paz.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/22, n.º 4653, 13 de abril de 2022

Falecimento do Pai do Padre João Carlos

O Senhor, Deus de Bondade e de Misericórdia, chamou à Sua presença, para as moradas eternas, o Sr. José A. Morgado, pai do Padre João Carlos, Pró Vigário Geral da Diocese de Lamego e Cónego do Cabido da Sé.

D. António Couto, em seu nome e do presbitério de Lamego, manifesta as condolências ao reverendo Pe. João e aos seus familiares, neste momento de luto, unindo-se em oração, agradecendo o dom da vida, acolhido, vivido e devolvido, agora, em definitivo, ao Deus da vida, do tempo e da história. Sublinha, por outro lado, a certeza, que vem da fé, de que a vida não se esgota no termo temporal, mas se abre, pela misericórdia de Deus, à eternidade. Deus faz prevalecer a vida daqueles que n’Ele acreditaram e se deixaram conduzir pelas Suas palavras.

Na manhã de quinta-feira, 7 de abril, pelas 10h00, celebrar-se-á Missa Exequial pelo Sr. José Morgado, na Igreja Matriz de Castro Daire, seguindo-se o funeral no cemitério local.

Unidos em oração, na esperança da ressurreição, manifestamos os nossos sentimentos e comunhão ao Pe João Carlos, sua mãe e irmãos, e demais familiares. Que o Senhor dê o eterno descanso ao Sr. José e o conforto do Seu amor aos familiares e amigos.

Editorial Voz de Lamego: A vida… ninguém ma tira, sou Eu que a dou

Como darmos o que não nos pertence?

Ou como suprimirmos o que não podemos dar?

A vida… a vida não depende, na origem, de nós, é-nos dada! Também não a podemos retomar! Poderemos interrompê-la? Uma interrupção significaria que, posteriormente, poderia haver regresso. Se a recebemos, se a acolhemos, não nos cabe acabar o que não começamos! Em relação aos outros, muito menos, pois ninguém nos designou para assumirmos um papel que não é nosso, pois não somos autores da vida.

O quinto mandamento é taxativo e não tem vírgulas, nem acentuações, não se sujeita a interpretações. Direto: “Não matarás”. É uma ordem divina. Na formulação da catequese, explicita-se: “Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo)”. Infelizmente continuamos a matar e a causar dano uns aos outros. Jesus Cristo é crucificado em cada vítima, em cada pessoa faminta, perseguida, escravizada, em cada pessoa negociada, vendida, violentada e morta.

Jesus ensina-nos a formular o mandamento pela positiva: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo, ao jeito do Bom Samaritano que se faz próximo de quem está caído à beira do caminho, sem voz nem vez.

Na verdade, “o amor é a única maneira de compreender outro ser humano no fulcro mais íntimo da sua personalidade. Ninguém pode ter um conhecimento profundo e completo da essência do outro ser humano a menos que o ame. Por meio do seu amor, fica capacitado para ver os traços e as características essenciais da pessoa amada” (Viktor Frankl).

Viktor Frankl foi prisioneiro, durante quatro anos, nos campos de concentração nazi, durante a Segunda Guerra Mundial. Logo que libertado, enquanto psiquiatra, escreveu para pessoas com tendência para o desespero. “Vislumbrei então o significado do maior segredo que a poesia, o pensamento e as crenças dos seres humanos podem comunicar: a salvação dos homens consegue-se no amor e pelo amor. Compreendi como pode um homem a quem nada resta no mundo conhecer ainda assim a felicidade, mesmo que por breves instantes, na contemplação do ser amado”.

A segunda guerra mundial fez emergir a maldade e o egoísmo, a prepotência e a sobranceria, centrada, sobretudo, na liderança de Hitler. As nações uniram-se para evitar que se repetissem situações como as verificadas, de tortura, maus-tratos, escravização, mortes às dezenas e centenas de pessoas, enterradas em valas comuns. Foi o sonho de um homem, movido pela sede de poder ou, simplesmente, com os neurónios em curto-circuito! Como tem alertado o Papa Francisco, estamos na terceira guerra mundial, ainda que aos pedaços, em diferentes zonas do planeta, além da fome, do tráfico de órgãos e de pessoas, da multidão de refugiados, oriundos de diferentes países, a fugir da violência, da perseguição, por motivos políticos, económicos, étnicos e religiosos. A agressão violenta da Rússia ao país irmão, a Ucrânia, é mais um lamentável episódio que tende a repetir a mesma prepotência de Hitler, agora com outro nome, Vladimir Putin. A facilidade com que se tira a vida, justificando atos hediondos com palavras como defesa (preventiva) e libertação! Libertação de um povo que se sente livre e que não pediu para ser libertado.

Numa das páginas do Evangelho, Jesus clarifica: «Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho que tivesse a vida em Si mesmo» (Jo 5, 17-30). Só quem tem a vida em si mesmo, pode, de facto, dar a vida! «O Pai ama-me, porque dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de Mim, mas Eu a dou a Mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir» (Jo 10, 17-18.)

Analogamente, a vida dá-se, amando, gastando-a a favor dos outros. Quem guardar a vida para si, perdê-la-á e quem perder a vida, por Minha causa e do Evangelho, diz Jesus, ganhá-la-á (cf. Mt 10, 39; 16, 25).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/21, n.º 4652, 6 de abril de 2022

Editorial Voz de Lamego: Hoje não me apetece ir à Missa

Não me apetece ir à Missa!

A mim também não!

Mas nem tudo na vida tem a ver com desejos ou com apetites.

Eu vou à Missa quando me apetece. Para quê ir contrafeito? E trabalhar? Aí tem de ser… E ir à escola? Como não? Temos que ir!

Em todas as dimensões da vida, há momentos em que o desejo nos faz querer adiar, hesitar, arranjar alguma justificação para não ir…

Quando um bebé é pequenino, na maioria dos casos, tem um sono que não está sintonizado com os dos pais, nem com os horários noturnos. Por outro lado, uma constipação, alguma doença, um dente a nascer, fazem com que os pais estejam enlevados o tempo todo, não conseguindo dormir bem nem de noite nem de dia, pois o cérebro mantém-se ligado. Se o bebé chorar dez vezes durante a noite, a mãe ou o pai, ou à vez, hão de se levantar de todas as vezes para ir engalhar o menino, ver o que tem e ver se precisa de comer, de mudar a fralda ou simplesmente de sentir a presença materna/ paterna. Os pais levantam-se cinco vezes ou quinze vezes, não por prazer, desejo, não por gosto ou por vontade, mas fazem-no por amor, com sacrifício, cansados, ensonados e até irritadiços quando voltam a ouvir chorar o filho. Mas levantam-se por amor, uma obrigação que vem de dentro, que vem do coração. Fá-lo-ão com satisfação? Duvido!

Voltemos então à questão inicial. Não vou à Missa. Vou apenas quando me apetece. Quando não tenho que fazer. Ou iria se o horário fosse outro, mas este horário não me dá muito jeito. Trabalho toda a semana, o Domingo é o único dia que tenho para descansar e me levantar um pouco mais tarde. E ao sábado à tarde? Ao sábado é quando arrumamos a casa, vamos às compras ou é tempo para algum lazer, para caminhar, ver um filme, para ir até ao café estar com os amigos. Se tivesse mais tempo, eu ia à Missa. Vendo bem, estes argumentos são razoáveis, justos e defensáveis! Afinal, nós conseguimos arranjar justificações para o que não nos apetece fazer ou para compromissos a que ninguém nos obriga.

Não vou à Missa porque não gosto do padre. Não me identifico com as homilias que ele faz. Demora muito. Repete as mesmas coisas. Só fala do Evangelho, que já ouvimos antes. A Igreja precisa de evoluir, ficou parada no tempo. Há dias fui a uma Missa, a um casamento, e gostei. O padre era engraçado, falava bem, divertiu-nos bastante. Se todos os padres fossem assim, as igrejas estavam cheias, até eu ia mais vezes à Missa. Contou uma anedota que pôs toda a gente a rir. Assim vale a pena.

Já todos ouvimos estes argumentos. Uma e outra vez. E identificamo-nos com algumas destas explicações e até acrescentaríamos outras. É certo que o sacerdote não é simplesmente um autómato, a sua maneira de ser e de estar e de falar pode cativar mais ou fazer com que as pessoas se sintam acolhidas, reconhecidas, parte importante na celebração. Porém, a Eucaristia, como os demais sacramentos, não é obra do padre, não tem a ver com apetites ou desejos, ainda que os tenhamos, tem a ver com fé, com compromissos, tem a ver com amor. Por vezes, somos convidados e não nos apetece muito sair de casa ou apetecer-nos-ia estar noutro lugar, mas vamos por amizade, por consideração, por estima (ou por dever profissional). A Eucaristia é, antes de mais, um convite a que respondemos. É Deus que nos convoca. Convoca-nos através da Igreja, que também somos, mas é um convite. Se temos fé, acolhemos o convite. Se amamos a Deus de todo o coração vamos querer estar onde Ele nos quer, num espaço e num tempo em que nos reunimos como família, como assembleia. Trata-se de responder a um convite, no qual todos contamos, como filhos, como amigos de Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/20, n.º 4651, 30 de março de 2022

Faleceu o Ir Julião Gonçalves, natural da Diocese de Lamego

O Ir. Julião da Silva Gonçalves, filho de José Gonçalves e de Maria da Conceição da Silva, nasceu em S. Joaninho – Castro Daire, diocese de Lamego, no dia 23 de janeiro de 1930. Em setembro de 1947 pediu, por escrito, para ser admitido a Irmão na Congregação e foi aceite.

A 1 de outubro de 1947 deu entrada no seminário do Fraião – Braga, com aspirante a Irmão. Não se sentiu só: encontrou três conterrâneos que tinham vido de S. Joaninho.

Tinha boa saúde, bom comportamento e avançou para o Noviciado, no Fraião, onde veio a fazer a sua profissão religiosa a 9 de setembro de 1950, tomando o nome de Ambrósio.

Iniciou a sua missão como irmão espiritano no mesmo ano 1950, no Fraião, como cozinheiro e alfaiate. Em outubro de 1953 foi nomeado para a comunidade espiritana da Estrela-Lisboa, como adjunto do Procurador das Missões.

A 27 de outubro de 1959 respondeu a um pedido de servir novamente no Fraião como Alfaiate, função que exerceu apenas por um ano e regressou novamente para Lisboa a 23 de setembro de 1960, desta vez para os trabalhos de Alfaiate, Porteiro e Sacristão.

A 22 de setembro de 1964 foi-lhe pedido o serviço de porteiro e alfaiate no seminário de Viana do Castelo. E o irmão Silva correspondeu a este pedido por um ano e depois disto a Congregação pediu-lhe para sair para a missão ad extra.

A 15 de novembro de 1965, deixou Lisboa rumo a Angola a bordo do Navio “Índia”. O seu novo campo de trabalho missionário foi o colégio Espírito Santo de Nova Lisboa (hoje Huambo). O colégio Espírito Santo tinha cerca de 550 alunos e uma vintena de professores e o irmão Silva assumiu o trabalho de secretaria e tesouraria deste colégio. Foram 10 anos (1965-1975) de intenso trabalho, responsabilidade, formação, convivência e diálogo. Ficaram boas recordações nos corações de alunos e professores.

Em 1975, Angola proclama a sua independência e o tempo para fazer as malas foi escasso. O Ir. Silva fez parte de um grande êxodo em massa e uma vez em Portugal foi para a casa da família em São Joaninho. Depois de uma breve estadia na família, em 1976 voltou para Lisboa, onde trabalhou na animação missionária até 1980.

Em 1980 foi novamente nomeado procurador adjunto da Procuradoria em Lisboa, cargo que exerceu até 2020. Foram 40 anos de colaboração e apoio aos missionários e às missões, acolhendo quem chegava e apoiando quem partia, comprando e despachando em contentores ou por correio o que era pedido à Procuradoria. Pelas suas mãos passaram muitas encomendas para Luanda e outras paragens, de missões espiritanas e não espiritanas.

Esta azáfama foi abrandando em recursos humanos e materiais. Com 90 anos, o nosso Ir. Silva, para além das naturais limitações de audição e visão, continuava no seu posto de trabalho, fazendo alguns recados a pedido dos confrades de aquém e além-mar.

Em abril 2021, com os seus 91 anos de idade, na sequência de alguns sintomas, fez exames de saúde no Hospital de Lisboa e o resultado da biópsia concluiu: “Metástase de carcinoma de provável origem prostática”. A 7 de maio teve alta do hospital dos Capuchos, voltou para a comunidade espiritana da Estrela onde teve um acompanhamento personalizado de um técnico de saúde (porque não estava com capacidades de autonomia).

A 11 de agosto de 2021, foi transferido para a comunidade de Braga para continuar com a assistência médica e comunitária. Pouco tempo depois de chegar ao Lar Anima Una, os sinais de gratidão, alívio, serenidade e contentamento foram visíveis, embora a sua saúde fosse debilitada.

No dia 19 de março de 2022, dia de São José, foi internado no Hospital de Braga onde viria a falecer na madrugada do dia 23 de março 2022. Que Deus o tenha no Seu Reino.

Ao longo de 92 anos de vida, 72 foram de pertença à Congregação. Combateu o bom combate, terminou uma longa carreira, na fé e no serviço a Deus e aos irmãos.

Que o Senhor da Messe receba o seu fiel servidor.

O Maria Rainha das missões, dai-nos muitos e santos missionários.

Autor do Texto: Ir. Manuel Carmo Gomes, Missionário Espiritano, in ESPIRITANOS

O Ir. Manuel do Carmo é Missionário Espiritano

Missa de Exéquias, sexta-feira, 25 de março, em São Joanino, sua terra natal, onde irá a sepultar.

Editorial Voz de Lamego: Consagração da Ucrânia e da Rússia

No dia 25 de março, Solenidade da Anunciação do Senhor, sexta-feira, o Papa Francisco vai consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Para esta consagração, o Santo Padre pediu que os Bispos do mundo inteiro se unissem a ele. Esta consagração far-se-á durante a Celebração da Penitência, presidida pelo Papa, na Basília de São Pedro, pelas 17h00. Tendo em conta a diferença horário, pelas 16h00, no Santuário de Fátima, o enviado do Papa, cardeal Krajewski, esmoleiro pontifício, conjuntamente com os Bispos portugueses, fará este mesmo ato de entrega e consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria.

Na aparição de 13 de julho de 1917, Nossa Senhora pediu a consagração da Rússia ao Seu Imaculado Coração: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, registava Irmã Lúcia, falecida em 2005, nas suas “Memórias”.

Os Papas viriam a responder a este pedido. Pio XII, em 31 de outubro de 1942, consagrou o mundo inteiro, e, em 7 de julho de 1952, consagrou os povos da Rússia: “Assim como há alguns anos atrás consagramos o mundo ao Imaculado Coração da Virgem Mãe de Deus, agora, de forma muito especial, consagramos todos os povos da Rússia ao mesmo Imaculado Coração”.

Paulo VI renovou esta consagração, a 21 de novembro de 1964, na presença dos Padres do Concílio Vaticano II.

Por sua vez, o Papa João Paulo II compôs uma oração em forma de “Ato de entrega”, celebrado a 7 de junho de 1981, na Basílica de Santa Maria Maior. A 25 de março de 1984, na Praça São Pedro, em memória do Fiat pronunciado por Maria no momento da Anunciação, em união espiritual com todos os bispos do mundo, previamente “convocados”, João Paulo II confiou todos os povos ao Imaculado Coração de Maria: “E por isso, ó Mãe dos homens e dos povos, Tu que conheces todos os seus sofrimentos e todas as suas esperanças, Tu que sentes maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo contemporâneo, acolhe o nosso grito que, movido pelo Espírito Santo, dirigimos diretamente ao teu Coração: abraça com amor de Mãe e Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Te confiamos e consagramos, cheio de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos. De modo especial Te confiamos e consagramos aqueles homens e nações que têm necessidade particular desta entrega e consagração”.

No ano de 2000, foi revelada a terceira parte do segredo de Fátima. Tarcísio Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, comunicou à Igreja e ao mundo que a Irmã Lúcia, numa carta de 1989, tinha confirmado pessoalmente que este ato de consagração solene e universal correspondia ao que Nossa Senhora queria.

Diante da barbárie que Vladimir Putin impingiu à Ucrânia e ao mundo, o Papa Francisco convoca-nos à oração, por uns e por outros e por todos. Os nossos Bispos sintonizam-se, como expectável, com este desejo e iniciativa: “Por intercessão do Imaculado Coração de Maria, Rainha da Paz, continuemos a rezar pelo povo ucraniano, perseguido na sua terra e disperso pelo mundo, para que o Senhor atenda as nossas preces e os esforços das pessoas de boa vontade, e lhe conceda a paz e o regresso a suas casas”.

D. José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, sublinha que esta consagração “não é um gesto contra ninguém, os povos são muito mais dos que os seus governantes”. A bênção de Deus não exclui ninguém, Ele faz chover sobre bons e maus. Incluamo-nos, também nós, nesta consagração, para que a nossa vida seja promotora de vida e de paz.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/19, n.º 4650, 23 de março de 2022

Editorial Voz de Lamego: Cristo quer a tua ajuda para amar

Estamos a viver a Semana Nacional Cáritas, que prevê o peditório de rua, as ofertas nas Eucaristias do fim de semana e donativos online. O primeiro compromisso é da oração, pois esta alimenta a nossa vontade, purifica as nossas intenções, converte-nos à humildade, faz-nos irmãos uns dos outros, em Cristo Jesus.

D. José Traquina, Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, titula a mensagem para esta semana: Cáritas, o amor que transforma! “Sabemos que só o amor transforma. É Cáritas. Só o amor tem essa força, esse dinamismo que é capaz de transformar o mundo em que vivemos numa terra de paz, num mundo de irmãos”. Na mesma mensagem, a citação de algumas palavras do Papa Francisco, na Fratelli Tutti (n.º 224), dizendo-nos que ser formos amáveis, seremos capazes de «prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença. Este esforço, vivido dia a dia, é capaz de criar aquela convivência sadia que vence as incompreensões e evita os conflitos. O exercício da amabilidade não é um detalhe insignificante nem uma atitude superficial ou burguesa. Dado que pressupõe estima e respeito, quando se torna cultura numa sociedade, transforma profundamente o estilo de vida, as relações sociais».

Como título desta reflexão, escolhemos uma canção de Cesáreo Gabaráin, sacerdote espanhol e compositor de músicas para a liturgia. É uma melodia que facilmente fica no ouvido e cujas palavras vale a pena reter. “Cristo quer a tua ajuda para amar… / Não te importes da raça nem da cor da pele; / ama a todos como irmãos e faz o bem! / Ao que sofre e ao triste dá-lhe amor… / Ao humilde e ao pobre dá-lhe amor. / Ao que vive a teu lado dá-lhe amor… / Ao que vem de outra terra dá-lhe amor. / Ao que fala outra língua dá-lhe amor… / Ao que pensa diferente dá-lhe amor. / Ao amigo de sempre dá-lhe amor… / E ao que não te saúda dá-lhe amor”.

Nestes dias que atravessamos, a atualidade destas palavras é por demais evidente. Alguns crentes poderão questionar-se sobre a “utilidade” da fé e da oração. Não há uma resposta fácil à barbárie que acontece na Ucrânia, provocando um rasto de destruição, de mortandade, abrindo velhas feridas, semeando o ódio e o desejo de vingança que sobrevirá nas futuras gerações. A fé é um dom que amadurece com a oração, colocando a confiança na omnipotência e no amor de Deus, mas a que podemos opor a nossa vontade, o nosso poder, o nosso egoísmo. Deus criou-nos livres, confiou-nos o mundo, faz-nos irmãos. A Caim responsabiliza-o pela morte do irmão. Somos responsáveis uns pelos outros. Pertencemo-nos! Sempre que não ajudamos o outro, quando o tratamos como inimigo, quando não lhe prestamos ajuda, estamos a trair a nossa originalidade. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Muitas vezes usámo-l’O para justificar perseguições e morte!

Numa cidade foi bombardeada, durante a segunda guerra mundial, os habitantes descobriram, debaixo dos escombros, a estátua de Jesus Cristo bastante danificada. Repararam-na, menos as mãos, pois os danos eram irreversíveis. Entre eles, duas opções, contratar um escultor para refazer as mãos ou deixá-la sem mãos, ferida, imperfeita, incompleta! Prevaleceu esta opção, a estátua de Cristo permaneceu sem as mãos. Por baixo da imagem colocaram as seguintes palavras: “Vós sois minhas mãos”.

A Capela do Seminário de Lamego tem um crucifixo sem mãos e sem braços. Eu e tu somos os braços de Cristo para abraçar, as mãos para abençoar, para apoiar, para ajudar a levantar; a voz de Cristo para bendizer, para semear palavras de esperança e de paz; somos os pés de Jesus que se colocam a caminho, ao encontro de todos, sobretudo daqueles que continuam na berma, tristes, desalentados, excluídos, sedentos de quem os faça sentir vivos. Cristo precisa de ti para amar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/18, n.º 4649, 16 de março de 2022

Falecimento da Mãe do Padre João António

Os desígnios de Deus e a Sua hora nem sempre são coincidentes com os nossos. Na Sua benevolência e sabedoria, Deus, nosso Pai, chamou à Sua presença eterna, a D. Maria Teresa Teixeira, mãe do Padre João António Teixeira Pinheiro, Reitor do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios e Deão do Cabido da Sé de Lamego.

O Sr. Bispo, D. António, também em nome do presbitério de Lamego, manifesta a sua comunhão com o reverendo Pe. João e com os demais familiares e amigos, na certeza que o momento de luto se reveste de esperança na ressurreição dos mortos e da vida eterna. Nesta hora, a fé e a oração colocam-nos em sintonia com a glória de Deus, que em Cristo nos garante a eternidade na comunhão dos santos, como professamos no Credo.

A Eucaristia de corpo presente celebra-se hoje, 12 de março, pelas 15h00, na Igreja do Santuário dos Remédios. O cortejo fúnebre seguirá para São João de Fontoura, de onde é natural. Na Igreja paroquial também será celebrada Eucaristia, indo depois a sepultar.

Deus lhe dê o descanso eterno. Ao Pe. João e familiares, Deus lhes dê o conforto que vem da fé e a confiança firme na ressurreição.

Editorial Voz de Lamego: A paz que Eu vos deixo

O Papa Paulo VI convocou o mundo para celebrar o Dia Mundial da Paz: “Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o ‘Dia da Paz’, em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de janeiro de 1968. Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro”.

Ao longo do ano, existem dias mundiais, internacionais, dias dedicados a uma causa, para relembrar um acontecimento, para promover um valor, uma atitude, um compromisso. Estas comemorações existem para colmatar um défice, um esquecimento, alguma injustiça ou desigualdade. Mesmo que evoquem um acontecimento, têm o propósito de assinalar uma vitória, uma conquista para a humanidade ou para determinado povo, uma personalidade que marcou a história ou, em sentido contrário, para que não seja esquecido aquele dia, aquele acontecimento, aquela pessoa, para que não se caia no mesmo erro.

O Dia Internacional da Mulher, assinalado a 8 de março, alerta para as muitas desigualdades que ainda existem entre homens e mulheres, no trabalho e na lida doméstica, sendo também uma chamada de atenção para a violência doméstica em que a maioria das vítimas são mulheres. O Dia Mundial da Árvore, a 21 de junho, evidencia o cuidado a ter com o meio ambiente, com o excesso de poluição, com a desflorestação, com os incêndios, mostrando como o descuido da natureza a todos afeta. O Dia Mundial do Pobre, no penúltimo Domingo do Tempo Comum, remete para a opção preferencial dos mais pobres e que a erradicação da pobreza que continua a ser uma miragem, mas também um compromisso urgente, como se viu em tempo de pandemia, como se está a ver em tempo de guerra. São apenas alguns exemplos!

Se não houvesse guerra, não precisaríamos de um Dia Mundial da Paz ou um Dia Mundial da Não Violência, ou da Não discriminação. Mas, infelizmente, continuam a existir diferentes focos de guerra, em Cabo Delgado ou Myanmar, e, agora, entre a Rússia e a Ucrânia. A guerra traz o pior da humanidade, pela matança de pessoas, pelo rasto de tristeza e de luto que deixa, semeando ódios e desejo de vingança nas gerações mais novas, que deveriam estar a cultivar a paz, a fraternidade, uma vida saudável, com esperança no futuro. Por outro lado, os recursos usados por uma guerra serviriam muito para a erradicação da pobreza, mas no caso multiplicam-na exponencialmente.

Paulo VI enumera os muitos perigos que persistem: “da sobrevivência do egoísmo nas relações entre as nações… das violências, a que algumas populações podem ser arrastadas pelo desespero de não verem reconhecido e respeitado o próprio direito à vida e à dignidade humana… do recurso a terríveis armas exterminadoras, de que algumas potências dispõem… de fazer crer que as controvérsias internacionais não podem ser resolvidas pelos meios da razão, isto é, das negociações fundadas no direito, na justiça e na equidade, mas só por meio de forças aterradoras e exterminadoras”.

O compromisso pela paz há de corresponder ao empenho pelo desenvolvimento dos povos, à luta pela igualdade social, pela liberdade e pela justiça. Não basta não haver paz, é urgente que as pessoas, as famílias, os povos vivam em ambiente de segurança e lhes sejam assegurados direitos e garantias fundamentais, habitação, educação, cultura, saúde.

Diz Jesus aos seus discípulos: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; Eu não vo-la dou como a dá o mundo» (Jo 14, 27). A paz que nos vem de Jesus alicerça-se, não no egoísmo, mas no amor, não no poder, mas no serviço, não na violência, mas na ternura, não rivalidade, mas na compaixão, não na inveja, mas na partilha, não no ódio, mas na comunhão, não na força, mas na humildade! É este o caminho da verdadeira paz, a que brota do coração.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/17, n.º 4648, 9 de março de 2022