Editorial Voz de Lamego: Ouvi o rumor dos Teus passos…

O ruído é tanto! A azáfama! Os afazeres e as preocupações! As ofertas e os desafios! São tantas as vozes! O “zapping” comunicacional está tão acelerado! A multiplicidade de plataformas políticas e culturais, extremismos e propostas redentoras, com cariz revolucionário e transformador, com originalidade revestida de um passado prepotente e autocrático, que dificulta ouvir a voz da consciência e o rumor dos passos no jardim. As cidades, as vilas e as aldeias, as nossas povoações de um interior cada vez mais despovoado e desértico, têm demasiado ruído, demasiadas distrações, à janela ou na rua, no ecrã do telemóvel ou do televisor! Quem é que nos diz a verdade? Qual a opinião que devemos seguir? Quem é que nos vai mesmo ajudar? Quem é que se importa com a nossa vida atual?

No décimo Domingo do Tempo Comum (ano B) foi-nos servido, como primeira leitura, o texto do livro dos Génesis que nos fala na queda dos primeiros pais, simbolizados/encorpados em Adão e Eva, e como, quando confrontados com os seus atos, passam as culpas. Tão mau como cair no remorso é cair no cinismo e na desculpabilização gratuita. Precisamos de amadurecer o nosso compromisso, de assumir os nossos atos e as nossas omissões. Eu e tu somos responsáveis pela saúde do mundo em que vivemos, admitindo que possa haver pessoas, grupos ou empresas que têm uma responsabilidade acrescida.

O texto de Génesis (3, 9-15) fala da nossa vida e da nossa história. Adão, que fizeste, onde estás? «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Eu não fiz nada, foi Eva? / Eva, que fizeste? Eu, eu não fiz nada, foi a serpente? E se perguntássemos à serpente ela diria que não teve nada a ver com o assunto, tinha sido a beleza apetitosa dos frutos da árvore! A culpa já não estaria numa decisão pessoal, mas estrutural ou, pelo menos, não estaria numa escolha consciente e deliberada, mas numa cedência irrefletida pela aparente bondade do fruto. Não seria desejo… o fruto é que estava a pedir para ser recolhido e comido! Uma parábola para outras situações da vida! Fiz isto, ou aquilo, mas não tenho culpa, ele/a estava a pedi-las, pôs-se a jeito, estava ali mesmo à mão de semear, se não fosse eu, seria outro! Se o fruto não se convertesse em furto (egoísta) resultaria em desperdício!

Há momentos em que já não vemos Deus, ofuscamos a Sua presença com os nossos apetites e manias. Mas o rumor dos Seus passos no jardim, na nossa vida, os sinais da Sua presença, continuam a fazer-se sentir. O pior mal, contudo, não está nos fracassos, mas na vergonha e no facto de escondermos o nosso rosto e o nosso coração do olhar amoroso de Deus, que nos santifica e nos ilumina. Por vergonha, não assumimos as nossas falhas e até envolvemos os outros nos nossos esquemas. Tantas situações em que arranjamos desculpas, justificações, distribuímos culpas pelos outros, sacudimos a água do capote!

Apesar das nossas dúvidas, incongruências, hesitações, afastamentos, Deus mantém o Seu amor por nós e não fecha nem portas nem janelas ao nosso regresso. Desde sempre a promessa: a descendência de Eva esmagará a cabeça da serpente! A promessa Deus encontra eco em Maria: eis a serva do Senhor, faça-se em mim a tua Palavra (Lc 1, 38). Somos família de Deus quando permitimos que a Sua graça nos preencha. «Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe» (Mc 3, 26). Perscrutemos os rumores dos passos do Senhor na nossa vida e deixemos que o Seu olhar nos toque a alma.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/30, n.º 4612, 8 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: É possível sorrir e, sorrindo, ser canalha?

É. É possível que aqueles que nos lisonjeiam na frente, atrás nos pintem com cores escurecidas! Prefiro não perder tempo com isso, sabendo que os verdadeiros amigos são um tesouro que nos estimam apesar das nossas limitações e pecados.

Voltamos, desta forma, à expressão lapidar de Shakespeare. Nem sempre os que te batem nas costas ou te aplaudem são os mesmos com os quais podes contar na adversidade.

Vejamos outra expressão também criada e popularizada pelo nosso dramaturgo, sobre a tragédia de Júlio César. “Até tu, Brutus?” No dia 15 de março do ano 44 a.C., o grande general Júlio César, autoproclamado ditador perpétuo de Roma, foi assassinado. Tinha-se tornado autocrata e tirano. 60 senadores perpetraram o homicídio. Logo que a reunião do senado começou, cercaram Júlio César e esfaquearam-no, com 23 facadas. Não se sabem as palavras que terá proferido com exatidão, mas é-lhe atribuído o lamento dirigido a Marcus Junius Brutus, filho da sua amante favorita e a quem tratava como amigo: “Também tu, criança?”. Contudo, os historiadores mais antigos parecem concordar que Júlio César não disse nada depois do primeiro golpe.

Shakespeare inspirou-se nesta frase para criar estoutra: “Até tu, Brutus, meu filho?” A admiração é também uma desilusão por ter sido traído por alguém que considerava filho. Depois da história e do teatro, deixemo-nos, agora, conduzir por Jesus, Aquele que ensina com autoridade, fazendo corresponder o que proclama com o que vive.

Nas disputas com alguns fariseus prevalece precisamente a crítica de Jesus àqueles que têm duas caras, exigindo o que não fazem. “Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não” (Mt 5, 37). E não deixar de sorrir… “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39). Não ter duas caras, ser coerente, procurar agir em conformidade com o que pensa. Quem não vive como pensa, acabará por pensar como vive (B. Pascal).

Vem novamente à colação o contraponto do Santo Padre, entre pecadores, que assim se reconhecem humildemente, abrindo-se à graça de Deus, e corruptos, que vivem na indiferença e no desprezo pelo seu semelhante.

José Luiz Silva, “Na calçada do Café São Luiz”, situa-nos entre o santo e o canalha. Os dois perdoam e os dois não sofrem.

“Há dois tipos de homem, capaz de perdoar 70 vezes 7: o santo e o canalha. Somente os dois serão capazes de dar a face direita depois de ter apanhado na face esquerda. Aquele pela humildade, este pela malandragem. Para o santo, esquecer é um gesto natural. Para o canalha também. O santo escuta desaforos, vai aos tribunais, recebe insultos e depois volta sorrindo, porque a sua força está dentro dele.

E o canalha? Justamente porque é destituído de qualquer força interior, desnutrido de qualquer dimensão ética, ele aceita tudo sorrindo. Seu sorriso, porém, é um misto de cinismo e desfibramento. O santo não sofre. O canalha também [não]. Para ambos tudo é passageiro e supérfluo… O canalha… Na hora de dizer sem estar dizendo, ou abraçar traindo, de sorrir denunciando, de convocar recusando, de oferecer retirando, de aderir explorando, de chorar sorrindo por dentro, de sorrir queimando de ódio. O canalha é o artesão da maldade… Ele consegue ter a cor do trigo, o farfalhar do trigo, mas ele é joio. Aproveita o vento que sopra e os raios do sol para também tornar-se cheio de vida. O santo é exigente com ele mesmo. O canalha é exigente com os outros”. O caminho do cristão é o da santidade. A sua opção é a de Jesus Cristo: em tudo procurar a vontade de Deus – amar, perdoar, cuidar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/29, n.º 4611, 1 de junho de 2021

32 anos da Rádio Clube de Lamego – Entrevista com Júlio Coelho

A Rádio Clube de Lamego celebrou o 32º aniversário, no dia 22 de maio.

 “Quando era aluno aqui do liceu de Lamego colaborava com, na altura jornal paroquial, Varanda do Douro, o pároco da região bateu-me à porta para eu começar a escrever com regularidade para o jornal. Todas as semanas mandava um artigo para publicação”

Júlio Coelho afirma que “o bichinho da comunicação” nunca o abandonou e acabou por ser o fundador e diretor da rádio, já lá vão 32 anos. Aquando da fundação, em 1989, estava Portugal a iniciar um processo evolutivo. Por esta altura eram grandes as mudanças quer na política, quer na sociedade e na economia, um processo que marcou as rádios locais, sem deixar a Rádio Clube de Lamego de fora. Nesta época eram muitas as rádios que emitiam clandestinamente, aqui surgiu o grande impulso dos rádios piratas, no entanto a Rádio Clube de Lamego já era uma rádio legal.

“A rádio tinha um programa denominado como “Serões da aldeia”, que foi o ponto revolucionário. Ainda não existiam novelas nem outros programas para as populações das aldeias, e nós, todas as quintas-feiras deslocávamo-nos a essas mesmas aldeias, normalmente às juntas de freguesia, para passarmos os serões com a população, população essa que, religiosamente, sintonizava o 97.0 para ter a nossa companhia nas noites de quinta-feira. “

A Rádio é descrita por quem lá trabalha como uma rádio de companhia e sobrevivência. Um meio de comunicação local que dá voz aos ouvintes desde 1989. O diretor é Júlio Coelho e para os mais antigos ouvintes ele era quem tinha “a voz de rádio”. Situada em Lamego esta é uma das rádios mais conhecida no Interior Norte português.

“A rádio tem vindo a crescer de ano para ano, não há dúvida nenhuma, muito por causa dos ouvintes e dos nossos anunciantes. Eles são os principais obreiros deste projeto de rádio do qual a cidade de Lamego se orgulha”.

A Rádio Clube de Lamego nunca se ficou apenas por ares lamecenses, considerando-se a rádio do Douro, Trás-os-Montes e Beiras, tendo ainda feito a cobertura de vários eventos no estrangeiro.

O ainda diretor da rádio contou à Voz de Lamego que em 1995, a Rádio clube de Lamego marcou presença no Parc des princes, em Paris. “O que motivou a nossa ida a terras francesas foi a cobertura do jogo entre Sporting Clube de Lamego e os Lusitanos de Saint-Maur, que antecedeu ao encontro grande, SL Benfica VS FC Porto, a contar para a supertaça”.

Atualmente, continuam a sair do país para fazer a cobertura de vários eventos como a Expourense, um evento ligado à gastronomia realizado, como o próprio nome indica, em Ourense, uma cidade no noroeste de Espanha.

Júlio Coelho mostrou também ter boas perspetivas quanto ao futuro da rádio: “Queremos continuar a ser aquilo que temos sido até agora, queremos ser um veículo transmissor de notícias, tudo para trazer a informação para os cidadãos Lamecenses. Vamos continuar a estar atentos a tudo o que se passa na região com o mesmo rigor que sempre marcou a rádio, e que colocou a mesma ao nível a que se encontra, com a credibilidade que tem, e também com a aceitação que tem por parte das autarquias, das populações e por parte das instituições.

1.       Quais seriam os principais capítulos da sua autobiografia?

Preocupação com o bem-estar da família e sociedade

2.       Se pudesse dominar uma habilidade, qual seria?

Futebol

3.       Quem é a sua maior inspiração?

Nossa Senhora dos Remédios/ Santo João Paulo II

4.       Se todos os trabalhos pagassem exatamente o mesmo, qual seria o seu?

Camionista de longo curso

5.       Uma aventura que gostasse de viver?

Salto de Paraquedas

6.       O que mais toma o seu tempo?

Agricultura e vinicultura

7.       Qual foi a melhor coisa que lhe aconteceu na vida?

Ter conhecido a minha mulher

8.       Quem o conhece melhor?

Mulher e filhos

9.       Mudaria alguma coisa em si?

Ter ainda mais atenção à sociedade de forma a conseguir ajudar os mais desfavorecidos

10.   Maior desejo?

Fim desta pandemia/ Fim das guerras e conflitos

in Voz de Lamego, ano 91/28, n.º 4610, 25 de maio de 2021

Editorial Voz de Lamego: É possível sorrir e, sorrindo, ser canalha!

Esta é um conhecida expressão de Shakespeare, na peça de teatro Hamlet. Desabafo? Crítica? Resignação? Ainda estou à procura de um significado mais clarividente e definitivo. O propósito aqui, contudo, é acentuar a importância de um sorriso e como este pode significar salvação, proximidade, acolhimento, como pode sancionar e transparecer a presença e o sorriso de Deus.

Há sorrisos para todos os gostos.

Um sorriso espontâneo traz saúde ao corpo e à alma, e pode irmanar-nos. O sorriso ilumina a pessoa, torna-a vulnerável, acessível, disponível diante da outra. É como o sol que desperta quem o recebe, animando-o e aquecendo-lhe o rosto e o dia.

Há sorrisos amarelos, de escárnio e de enfadonho, de cansaço (dos outros) e de desprezo, de indiferença e de sobranceria. Mas estes não fazem bem nem ao próprio, nem àquele a quem se destina.

Numa série de desenhos animados, Naruto, tropeçamos em sorrisos! “Sorrir é a melhor maneira de lidar com situações difíceis… Quando estás com alguém que gostas, sempre sorris… Um sorriso pode tirar-te de uma situação difícil, mesmo que seja falso”. Esta última frase aproxima-nos da expressão de Shakespeare. Um personagem é traído pelo sorriso da companheira de missão. Julgou que a piada que disse tinha provocado um sorriso, mas era um sorriso falso e na resposta levou um valente soco!

Eloquente são as milhentas provocações de Santa Teresa de Calcutá.

“Nunca estejais tristes. Sorri, pelo menos, cinco vezes por dia. Basta um sorriso, um bom-dia, um gesto de amizade. Fazei pequenas coisas com grande amor… É fácil sorrir às pessoas que estão fora da nossa casa. É fácil cuidar das pessoas que não se conhecem bem. É difícil ser sempre solícito e delicado e sorridente e cheio de amor em casa, com os familiares, dia após dia, especialmente quando estamos cansados e irritados. Todos nós temos momentos como estes e é precisamente então que Cristo vem ter connosco vestido de sofrimento… Talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir… A verdadeira santidade consiste em fazer a vontade de Deus com um sorriso”.

E com o sorriso a alegria.

“A alegria é oração, a alegria é força, a alegria é uma rede de amor. Quem dá com alegria dá muito mais. O melhor modo de mostrar gratidão a Deus e aos homens é aceitar tudo com alegria… Nada deve provocar-te tanta dor que te faça esquecer a alegria de Cristo ressuscitado… A alegria é a marca de uma pessoa generosa, humilde que se esquece de tudo, até de si mesma, e procura agradar a Deus em tudo o que faz. Frequentemente, a alegria esconde uma vida de sacrifício, uma contínua união com Deus… O amor é um fruto de todas as estações e ao alcance de todos”.

A Madre Teresa de Calcutá confidenciou que, por vezes, o seu coração estava demasiado dorido, por ver tanta miséria, mas, ainda assim, obrigava-se a sorrir, porque era dessa forma que o sorriso de Deus chegava às pessoas. Não se trata de fingir sorrisos, trata-se de uma escolha: sorrir em todas as circunstâncias, não pela disposição, mas pela atitude de missão em relação aos outros a quem devemos o sorriso de Deus.

“Fazei com que todo aquele que for ter convosco saia da vossa beira sentindo-se melhor. Todos devem ver a bondade no vosso rosto, nos vossos olhos, no vosso sorriso. A alegria transparece pelos olhos, manifesta-se quando falamos e caminhamos. Não pode permanecer encerrada dentro de nós. A alegria é contagiosa”. Sorri e no sorriso coloca a expressividade de um Deus que ama e se faz presente em ti e através de ti. Não te sufoques com lamentos…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/28, n.º 4610, 25 de maio de 2021

Editorial Voz de Lamego: Somos lápis nas mãos de Deus

Madre Teresa de Calcutá, a Mãe dos Pobres foi, durante muitos anos, uma voz que se fez ouvir a favor dos mais pobres entre os pobres. O propósito da sua vida: sair pelas ruas ao encontro dos mais pobres, crianças abandonadas, moribundos, leprosos, mães solteiras, para cuidar como se de Cristo se tratasse.

Pelo caminho, muitos contratempos, insinuações, críticas mordazes, dentro e fora da Igreja. Instalou-se, originalmente, num país e num contexto muito adverso, a Índia, em Calcutá, com as questões religiosas à mistura. O Hinduísmo e o carma. A pessoa sofre porque tem de sofrer, é porque cometeu pecados na vida anterior e tem de pagar por eles. Por outro lado, a sua ação mostrava uma cidade miserável, cheia de imundice, sem cuidados de saúde básicos nem qualquer sistema de educação que respondesse ao analfabetismo endémico.

Com o tempo, as Missionárias da Caridade espalharam-se pelo mundo inteiro. Depois de receber o Prémio Nobel da Paz ficou ainda mais conhecida, permitindo a implantação da congregação.

Quando lhe diziam que era necessário mais organização e coordenação, testemunhava a sua fé amadurecida num Deus providente e na necessidade de atender cada pessoa.

Não basta prover às necessidades básicas e imediatas, é necessário erradicar a pobreza e criar estruturas para que os países mais pobres tenham acesso à educação, à saúde, à habitação condigna, à alimentação. Porém, enquanto se pensa, se traçam metas e delineiam estratégias, não se podem deixar as crianças esfomeadas, desnutridas a morrer, ou os moribundos na berma da estrada. A Mãe dos Pobres nunca perdeu de vista a ajuda imediata e concreta aos mais necessitados.

Uma das suas expressões bem conhecidas: «Eu sou um lápis nas mãos de Deus. Ele usa-me para escrever o que quer. O lápis não tem nada a ver com tudo isto. O lápis só deve ser usado». Os sábios e os santos são feitos deste calibre. Os sábios sabem bem que têm muito a aprender e a caminhar. Os santos sabem bem que o bem neles realizado ou realizável tem outra origem e outro obreiro, o próprio Deus. Para isso, cada um de nós, a caminho da santidade, tem a missão de ser o lápis pelo qual Deus escreve. Ser ponte, ser instrumento, ser portador da Boa Nova, apalavrador da esperança, militante da paz, semeador de misericórdia! Esta consciência torna-nos humildes diante do muito que há pela frente e liberta-nos da presunção que, mais tarde ou mais cedo, nos conduziria ao desencanto ou à prepotência. Se Deus é Deus e se deixamos que Ele seja Deus, então não haverá lugar à desistência. Pode haver momentos mais tenebrosos. Também os houve na vida de Santa Teresa de Calcutá, como na vida de muitos santos, mas permaneceu indelevelmente marcada no coração a confiança em Deus e nos Seus desígnios insondáveis.

Na senda de Madre Teresa, podemos abraçar grandes causas, mas tudo começa aqui, agora, com quem bate à minha porta, com quem me encontro ao sair de casa (ou dentro de casa). É um movimento constante. Sem tréguas. O modo é o de Jesus Cristo. “Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho em todo o tempo” (Jo 5, 17-30).

No último Colégio de Arciprestes, o nosso Bispo, D. António, sublinhava precisamente este modo de ser e de agir. É necessária a programação, momentos específicos, mas antes e para além da programação, há o essencial, o paradigmático, que é Jesus. Fazem-se acentuações, que ajudam a refletir e a viver, mas o propósito é acolher, viver e testemunhar o Evangelho da alegria, tornando-o palpável e significativo para todos, no discurso e na vida, nas palavras e nas obras.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/27, n.º 4609, 18 de maio de 2021

Entrevista com o Presidente do Município de Castro Daire, Dr. Paulo Martins de Almeida

Desde janeiro, procurámos entrevistar os 14 Presidentes dos 14 Municípios incluídos no território da diocese de Lamego, e procurámos conhecer melhor as preocupações e desafios das autarquias. Finalizámos com o excelentíssimo Presidente da Câmara de Castro Daire, Dr. Paulo Martins de Almeida no primeiro mandato à frente deste município.

Economista de formação, com ligações profissionais à indústria farmacêutica, tem a sua primeira experiência como presidente da autarquia.

Voz de Lamego – A pandemia do novo coronavírus colocou-nos a todos em alerta. A resposta, como em tantas situações, passa pela intervenção local, em que o Presidente do Município tem um papel essencial, de coordenação e intervenção. Como tem vivido o concelho estes tempos? Principais necessidades e constrangimentos…

Paulo Almeida (CMCD) – Na verdade ninguém imaginaria que esta pandemia pudesse surgir e que, de um momento para outro, mudasse radicalmente as nossas vidas, com necessidade de adaptação a esta nova realidade.

A pandemia atingiu toda a comunidade e veio alterar significativamente o nosso quotidiano, pelo que se tornou o nosso foco nos últimos tempos. A proteção das pessoas e das nossas instituições passou a ser a nossa maior prioridade.

No respeitante à ação do Município de Castro Daire implementámos, desde o início da pandemia, em ação conjunta com os diversos elementos da Comissão Municipal de Proteção Civil, uma série de medidas com o objetivo de proteger as pessoas, nomeadamente os nossos munícipes. Desde logo achámos por bem encerrar as infraestruturas públicas de utilização coletiva e cancelámos todas as iniciativas, onde presumivelmente poderia existir maior concentração de pessoas, tornando o local de maior risco. Optámos também por restringir ao mínimo o acesso ao atendimento presencial dos nossos serviços, tornando-o possível apenas para casos inadiáveis e urgentes, privilegiando o atendimento telefónico e eletrónico, reforçando para isso a capacidade de resposta de atendimento telefónico, adaptando os serviços a esta nova realidade.

Apostámos também na higienização e desinfeção dos locais públicos com maior afluência de pessoas, onde existia um risco maior de contaminação e equipámos também 2 espaços para apoio e retaguarda em situação de emergência.

Reforçámos a nossa equipa da proteção civil e passámos a ter um trabalho diário com o intuito de fazer face aos diversos problemas inerentes a esta pandemia, permitindo-nos dar respostas atempadas e capazes de minimizar todos os problemas e constrangimentos.

VL – O impacto económico foi certamente notado nas empresas e nas famílias. Que medidas foram implementadas pelo Município para acorrer às diferentes situações e para minimizar os prejuízos e as dificuldades sentidas?

PA – Conscientes da realidade do nosso Concelho e das dificuldades que algumas famílias atravessavam, desde logo, o Município criou uma linha de apoio social ao domicílio. Um programa de intervenção social com o objetivo de suprir as várias necessidades básicas dos agregados familiares mais vulneráveis, garantindo o apoio psicológico aos munícipes, o acesso a medicação e aos bens de primeira necessidade. Procedemos à isenção do pagamento do consumo de água, saneamento e resíduos sólidos urbanos, bem como a isenção do pagamento de taxas de ocupação da via pública, publicidade, mercado e feira. Fizemos ainda a distribuição de máscaras comunitárias a toda a população

As empresas do concelho, principalmente o comércio tradicional, sofreram quebras elevadas originadas pela pandemia da COVID-19 e, sendo um setor vital para a economia do nosso concelho, apostámos na criação de algumas medidas de apoio que pudessem colmatar as dificuldades dos nossos agentes locais, que se viram obrigados a encerrar os estabelecimentos. Foram lançadas várias medidas de estímulo à compra no comércio local, nomeadamente concursos e distribuição de vales de desconto para compras no nosso comércio, que se revelaram medidas com impacto extremamente positivo para os agentes do setor, atenuando as dificuldades que passaram e continuam a passar, medida esta que também beneficiou os munícipes através dos descontos concedidos.

Garantimos também o apoio aos nossos agricultores e produtores locais, com o pagamento dos estímulos à produção, mesmo não tendo sida realizada a recriação da “Última Rota da Transumância” e a “FICA – Feira Industrial, Comercial e Agrícola de Castro Daire”.

VL – As IPSS´s de toda a região foram chamadas a prestar um apoio social decisivo à população, ao mesmo tempo que tiveram de cumprir apertadas medidas de segurança. Como foi a resposta das Instituições Sociais no Concelho? Que papel coube à Câmara?

PA – Foram momentos bastante complexos os que as nossas IPSS`s atravessaram, até porque, infelizmente, fomos dos concelhos do país mais afetados na primeira vaga.

O Município de Castro Daire acompanhou desde a primeira hora a evolução da situação e colaborou de forma ativa com a Autoridade de Saúde Local para salvaguardar o funcionamento das instituições, bem como a situação dos seus utentes e dos seus colaboradores. Uma das grandes dificuldades que as nossas instituições manifestaram foi a falta de EPI`s (Equipamentos de Proteção Individual). O Município de Castro Daire atendendo a esta necessidade, esteve ao lado de todas as instituições, nomeadamente no apoio financeiro, mas principalmente na doação de material. Foram investidos por parte do Município algumas centenas de milhares de euros em medidas de apoio para que estes agentes pudessem desenvolver o seu trabalho em condições recomendadas de operacionalidade e segurança. Foi um período bastante complicado, onde a autarquia fez um enorme esforço financeiro, visto que os preços dos materiais atingiram valores exorbitantes.

Além do apoio logístico e institucional tivemos também uma proximidade e acompanhamento constante junto das nossas IPSS`s, que facilitou a ajuda e a resolução dos seus problemas.

Aproveito para uma vez mais, expressar uma palavra de agradecimento a todos os profissionais que estiveram e continuam a estar na linha da frente, nomeadamente, os nossos bombeiros, profissionais de saúde, as forças de segurança, diretores e funcionários das IPSS`s, e funcionários municipais pelo seu enorme esforço e dedicação à causa pública, esses sim, são os verdadeiros heróis.

VL – O turismo, fundamental na nossa região, foi amplamente afetado, com um decréscimo acentuado no número de visitantes. A restauração, a hotelaria, pequenas empresas, produtos com a marca do Concelho, viram-se em grandes dificuldades. Foi adotada alguma medida especial para este setor e que expetativas tem para a atividade turística para o concelho em 2021?

PA – As empresas do concelho, principalmente o comércio tradicional, sofreram quebras elevadas originadas pela pandemia da COVID-19. Trata-se de mais um setor vital para a economia do nosso concelho. Após o primeiro confinamento, como já referi anteriormente, levámos a cabo o concurso “AQUI COMPRA! AQUI FICA!”, uma medida de apoio aos nossos comerciantes, onde foram distribuídos vários prémios, no valor total de cerca de 10.000,00€, prémios esses que teriam de ser descontados no comércio local. A isenção do pagamento das taxas de ocupação pública para o comércio e da fatura da água, foram também medidas de adotámos como forma de apoio.

Também na época natalícia, voltámos empenhados com mais uma medida de apoio aos nossos comerciantes, com a campanha denominada “(Des)contos de Natal”. Esta campanha contemplou atribuição de vales de desconto de 10% em todas as compras efetuadas no comércio local. O impacto desta medida originou compras de aproximadamente 300.000,00€ no nosso comércio, correspondendo a cerca de 22.000,00€ de vales de compra, montante que o município injetou na economia local ao abrigo desta medida.

Está também em curso, em parceria com diversos agentes turísticos, a criação de um conjunto de pacotes de oferta integrada neste setor. Esta aposta pretende divulgar e potenciar o território através da criação de uma marca e de uma oferta diferenciadora que fomente a procura de Castro Daire com a combinação dos vastos produtos turísticos e alavancando, desta maneira, o desenvolvimento económico do concelho.

VL – Nesse sentido, ainda, como é que foi a coordenação das medidas a implementar entre o poder local, bem no interior do país, e os organismos centrais? E já agora, a inserção na CIM Viseu Dão Lafões tem contribuído para uma resposta conjunta mais coordenada e eficiente?

PA – Compreendemos que esta pandemia foi um processo difícil para todos, onde incluímos naturalmente o Estado, representado pelo Governo da Nação, num processo diário e de grande exigência.

Naturalmente que gostaríamos que, em diversas situações, a coordenação com as autarquias, falo em particular do nosso município, tivesse sido mais efetiva e mais participada na construção da estratégia global.

De forma geral, tratou-se de um trabalho diário para assegurar o melhor para os nossos cidadãos e com o objetivo comum de promover o bem-estar de toda a comunidade. Incluo aqui também a CIM Viseu Dão Lafões, a qual coordenou várias posições do seu território, bem como a implementação de várias medidas transversais, sempre em defesa dos seus municípios e das suas gentes.

VL – A dinâmica dos municípios foi igualmente decisiva neste contexto. Mas, apesar dos constrangimentos, os projetos em curso continuaram. O que gostaria de ver concretizado até ao final deste mandato autárquico?

PA – Claro que enquanto Presidente do Município de Castro Daire gostaria que todos os projetos que temos em curso e para arrancar ficassem concluídos. Mas tenho a noção que é humanamente impossível que tal aconteça. São variados e de grande dimensão os projetos em curso no nosso território. Destaco a construção do Percurso de Piscinas Termais exteriores de água quente nas Termas do Carvalhal, o Pombeira Adventure Park, a Requalificação do Jardim Municipal de Castro Daire, a Requalificação da Escola Secundária, a Requalificação da Av. 25 de Abril na vila de Castro Daire, a Requalificação da Estrada Municipal de Cerdeiró entre Mões e a Freguesia de Moledo, a Requalificação do Parque de Campismo das Termas do Carvalhal, a Requalificação da Igreja da Ermida e dos seus acessos, entre outros. Estamos, ainda, a preparar um conjunto de candidaturas que vão desde a requalificação do nosso Centro de Saúde, da EB 1, 2, 3 de Castro Daire, uma 3ª fase da Escola Secundária, da Envolvente do Penedo de Lamas e da envolvente da Zona da Igreja da Ermida.

Todos estes projetos são de grande importância no desenvolvimento do nosso território, no futuro do nosso Concelho, com enorme impacto também na economia local. Destaco naturalmente o projeto das Piscinas Termais Exteriores de água quente, projeto inovador em Portugal continental e diferenciador no setor termal. Tenho a certeza que se trata de projeto importante para Castro Daire, mas também para toda a região.

O Pombeira Adventure Park é, também, um projeto com enormes potencialidades. Assente no turismo de natureza e na valorização de uma das nossas mais impressionantes riquezas naturais, este parque aventura trará novas valências e permitirá que estes recursos naturais sejam usufruídos por vários segmentos da população.

Claro que a requalificação do nosso Jardim Municipal da Vila de Castro Daire também é uma marca que pretendemos deixar. Tratando-se do coração da nossa Vila de Castro Daire, esta requalificação vai permitir dar uma imagem de modernidade e de inovação à própria Vila, contribuindo para a valorização da nossa imagem e daquilo que temos para oferecer.

Continuamos a investir na vertente de atratividade de investimento externo. Como tal, estamos a fechar o projeto para a criação de novos espaços industriais, nomeadamente com a criação da Zona Industrial da zona sul do concelho (Mamouros). Paralelamente, foi, recentemente, publicado em Diário da República a criação do Regulamento Fiscal e do Investimento, que contempla condições vantajosas em termos de descontos/isenções de IMT, IMI e derrama para quem investir em Castro Daire.

Outra vertente estratégica de investimento passa pela sustentabilidade ambiental. Estão em curso e em fase de finalização, investimentos em novas e modernas Estações de Tratamento de Águas residuais, superiores a 10.000.000,00€. Foi aumentada a nossa capacidade de separação de resíduos com a instalação de várias ilhas ecológicas e novos ecopontos com uma cobertura quase total das aldeias do concelho. Numa estratégia de sustentabilidade ambiental e, também, financeira, o Município de Castro Daire tem em processo de adjudicação uma empreitada com vista à substituição integral da iluminação pública para tecnologia eficiente – LED. Trata-se de um investimento de cerca de 2.500.000,00€, financiado por fundos comunitários e que, segundo a auditoria energética efetuada, irá traduzir-se numa poupança anual de cerca de 300.000,00€.

VL – Para alguém que visita o concelho, como o apresentaria? Que caraterísticas distintivas tem este território, do ponto de vista económico e empresarial, cultural e patrimonial?

PA – Castro Daire é um território de excelência, com uma identidade ímpar e genuína. É um território com grandes potencialidades e com muito para oferecer a quem nos visita. As Termas do Carvalhal, a Serra do Montemuro e o Rio Paiva, oferecem condições únicas e com inúmeras potencialidades, capazes de cativar públicos e fazer as delícias de quem nos visita.

A nossa Gastronomia, a nossa cultura, o nosso imenso património religioso e edificado, as nossas paisagens e os nossos percursos pedestres são mais algumas das razões que quase obrigam os turistas a virem conhecer o nosso território.

Não poderia deixar de referir dois eventos de referência, “A Última Rota da Transumância”, onde é possível vivenciar várias tradições e costumes das nossas aldeias serranas e a FICA – Feira, Industrial, Comercial e Agrícola, uma referência do concelho, onde é possível conhecer todos os nossos setores económicos.

Em termos empresariais, destacam-se alguns setores de atividade, nomeadamente, a extração e transformação de granitos, o setor florestal e transformação de madeiras, e estruturas metálicas. O setor agrícola e pecuário teve nos últimos anos um elevado crescimento, destacando-se, entre outros, o setor avícola e os frutos vermelhos.

Uma das características mais importante de Castro Daire e das nossas gentes que gosto sempre de realçar é a nossa hospitalidade. Gostamos de receber quem nos visita e sabemos demonstrá-lo de forma genuína!

VL – A população concelhia, a exemplo do que acontece em todo o interior português, envelhece e diminui. Que consequências se avizinham? Como contrariar o êxodo da população a que assistimos e favorecer a sua fixação entre nós? Como vê, a partir do lugar que ocupa, a situação do País? Tendo em conta também os tempos que se avizinham…

PA – É um problema transversal a toda a região do interior e Castro Daire não é exceção. No que concerne à responsabilidade da autarquia, temos vindo a adotar várias medidas para inverter esta problemática.

Em primeiro lugar são necessárias políticas que promovam a fixação de pessoas, que valorizem a qualidade de vida das nossas gentes e que possam contrariar esta tendência de perda de população e êxodo rural.

A aposta no setor turístico, a cativação de investimento privado que temos vindo a conseguir são os melhores exemplos desta estratégia de fixação de pessoas e de medidas que nos permitem ser otimistas em relação ao futuro do Concelho.

Apesar de este ser o maior desígnio dos autarcas do interior e a nossa principal missão, esta causa tem de ser mais do que isso. Esta causa tem de ser uma missão e um desígnio nacional. Só assim se conseguirá ser efetivo no cumprimento deste objetivo.

O Governo tem de ter este como um dos seus grandes objetivos, combater a desertificação de cerca de 80% do território e contrariar os problemas sociais, económicos e habitacionais de 20% do território, provocado pela concentração de pessoas. Só com uma estratégia integrada se alcançará o desenvolvimento sustentado e integrado do país.

VL – A menos de um ano do fim do atual mandato autárquico que balanço faz do trabalho realizado?

O atual mandato tem sido bastante difícil e de uma grande exigência perante as diversas adversidades vividas. Foram várias as situações que nos obrigaram a mudar o foco da estratégia a implementar e a deslocar os recursos disponíveis para a missão de “Salvar Vidas”. A nossa grande prioridade foi sempre a segurança e a saúde dos nossos munícipes. Logo no arranque do mandato fomos fustigados pelos enormes incêndios de outubro de 2017 e vários outros nos anos seguintes. Em dezembro de 2019, Castro Daire foi um dos concelhos mais afetados pelas tempestades Elsa e Fabien, que deixaram um rasto de destruição, prejuízos avultados e perdas de vidas humanas.  A pandemia da COVID-19, situação inesperada e de um impacto severo, condicionou fortemente a nossa ação, em que redirecionámos os nossos recursos e meios para o seu combate.

No entanto, apesar destas adversidades, foram vários e em diversas áreas os investimentos realizados ao longo deste mandato, com muitos finalizados, vários outros em curso e a serem contratualizados e outros a serem projetados.  

Neste período, devo salientar, a estabilização financeira, a elaboração de vários projetos fundamentais, uma forte interação com os vários organismos regionais e nacionais em busca de financiamentos externos, a elaboração de candidaturas a fundos comunitários, lançamento de concursos para a contratação pública e a implementação e realização dos investimentos. Temos a plena consciência que ainda existem vários projetos que necessitam ser implementados e é nesse sentido que continuaremos a trabalhar arduamente para o desenvolvimento do nosso concelho.

VL – Que mensagem de esperança e de estímulo gostaria de transmitir aos seus munícipes para este novo ano?

É um momento difícil aquele que vivemos, contudo não podemos desistir nem baixar os braços. Apesar das dificuldades que atravessamos, quero deixar um voto de esperança a todos os castrenses. Continuamos juntos nesta luta, pois só assim, com a união e cooperação de todos iremos certamente ultrapassar esta adversidade.

Nunca nos faltou a tenacidade e a força para enfrentarmos os problemas, ultrapassando todos os obstáculos. É com essa determinação que continuaremos a defender todos os Castrenses e a construir o futuro de cada um de nós.

Estamos Juntos a Construir o Futuro!

in Voz de Lamego, ano 91/26, n.º 4608, 11 de maio de 2021

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Voz de Lamego: Já chegámos à Lua… e agora?

No dia 20 de julho de 1969, o homem chegou à lua, sendo Neil Armstrong o primeiro a pisar o solo lunar. Os EUA mostraram o poderio económico e científico. “Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a Humanidade” – foi a frase escolhida por Neil Armstrong para descrever este momento. O mundo podia ver que a humanidade tinha atingido um patamar glorioso ao ponto de ultrapassar o perímetro terrestre.

Tantos avanços que por vezes é quase anedótico ver como todos os dias morrem milhares de pessoas subnutridas, à fome e à sede, e outras tantas que sobrevivem a custo, com doenças, no meio de conflitos, em busca de alimento em lixeiras, a mendigar migalhas aqui e além, a viverem debaixo da ponte, melhor, em nenhures, completamente desprotegidas, à mercê das condições atmosféricas e dos animais selvagens ou à mercê de gangues. Como é que chegámos tão longe e ainda temos vizinhos a lutar por uma casa, um trabalho, um rendimento que chegue para pagar a luz ou o aluguer da casa, ou a água, ou o gás?

No próximo Domingo, 16 de maio, na Festa da Ascensão do Senhor, comemoramos o 55.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Na Sua mensagem para este dia, de que já demos conta na Voz de Lamego, no início do ano, e disponível da página da Diocese (www.diocese-lamego.pt), o Santo Padre desafia-nos, em particular, aos meios de comunicação social, mas em geral a todos nós, a não ficarmos sentados à espera das notícias, das parangonas, para depois as partilharmos ou fazermos alarde das situações que desconhecemos por inteiro. É necessário gastar as solas do sábado, ir e ver (cf. Jo 1, 46), inteirar-se das situações de indigência. Diante de um ecrã todos os problemas são resolúveis ou, pelo menos, não nos tocam nem as mãos nem o coração. É necessário “ter o cheiro das ovelhas”, estar atentos a cada pessoa, a cada vizinho.

«A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. A razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade» (Bento XVI).

O convite do Papa Francisco é que a comunicação nos faça encontrar as pessoas onde estão, onde vivem, com as suas preocupações e dificuldades, como são, com a sua cultura e as suas tradições, as suas alegrias e esperanças, as suas dúvidas e os seus sonhos. Neste propósito, importa replicar também as “boas notícias” de quem faz o bem a favor de pessoas concretas e/ou de comunidades.  “É necessário sair da presunção cómoda do «já sabido» e mover-se, ir ver, estar com as pessoas, ouvi-las, recolher as sugestões da realidade, que nunca deixará de nos surpreender em algum dos seus aspetos. «Abre, maravilhado, os olhos ao que vires e deixa as tuas mãos cumular-se do vigor da seiva, de tal modo que os outros possam, ao ler-te, tocar com as mãos o milagre palpitante da vida»: aconselhava o Beato Manuel Lozano Garrido aos seus colegas jornalistas”.

Por outro lado, estamos em plena Semana da Vida (9 a 16 de maio), com o desafio: “A vida que nos toca, a vida que sempre cuidamos”. Cuidar da casa comum – um planeta que nos toca; cuidar da vida que nasce – tocar numa nova criatura; cuidar e educar os filhos – tocar o futuro das gerações; cuidar dos nossos jovens – tocar na escolha das vocações; cuidar dos nossos idosos – o passado também nos toca, e cuidar da família – os laços que se tocam. No Evangelho, Jesus toca as pessoas e cura-as. É essa também a missão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/26, n.º 4608, 11 de maio de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Maio, mês de Maria e da vida

Este é um dos meses mais luminosos e preenchidos!

Maio fala-nos de primavera, de vida, de alegria, de festa, fala-nos de amor, de paixão; fala-nos de Páscoa; fala-nos de Maria e de São José; fala-nos do verde que floresce e das flores que despontam. Tudo nos fala de vida e de Maria. A primavera começa antes e termina depois, mas é maio que melhor nos fala de ressurgimento da vida e da multicolaridade da natureza.

Não podemos falar de maio sem falar do mês de Maria. É-lhe dedicado por inteiro. Mas logo de início, temos a memória litúrgica de São José Operário, no dia 1, e o Dia da Mãe, no primeiro Domingo, acontecimentos estritamente ligados a Maria.

São José é o guardião de Maria e de Jesus, e da Igreja. Com Maria, São José cuida de Jesus, dá-lhe um teto, um espaço para crescer, para aprender a vida, para se sentir aconchegado, amado, protegido.

Comemorar um Dia das Mães quando elas são mães todos os dias do ano, a todo o instante, suscita uma atenção redobrada ao que significa ser mãe. Desde que uma mulher sente o ventre a bulir, ou pressente a gravidez que se está a manifestar, não mais deixa de ser mãe. Até durante o sono! É um trabalho constante, sem pausas, e com muitos sobressaltos à mistura. Claro que a alegria de gerar um filho, e quando é desejado, por maioria de razão, ajuda a enfrentar o mundo, as adversidades, a passar vergonhas, a sujeitar-se a pedir pelos filhos ou a mendigar o carinho deles.

Maria é a cheia de graça. Deus achou-lhe graça e encheu-a da Sua graça, gerando Jesus. Mas cada mãe, a seu jeito, se enche de graça. Claro que há mães que geram no ventre, mas não geram no coração! Se gerarem também no coração, este dilatar-se-á e até as mais egoístas passam a descentrar-se de si para se darem totalmente ao fruto do seu ventre. Maria é exemplo do cuidado permanente, da atenção ao filho, presente nos momentos mais importantes na vida de Jesus, mas com o desprendimento suficiente para saber que o filho que nasceu das Suas entranhas não Lhe pertence, como em absoluto os filhos não pertencem aos pais, pelo menos na ordem da posse, eles têm vida própria e as mães sofrem quando percebem que têm de deixar os filhos trilhar os seus próprios caminhos. E, então, mesmo que os vejam sofrer ou ir pelo caminho errado, terão que renunciar ao comando materno.

Na terceira semana do mês, temos a Semana da Vida. É também o mês do coração. A vida e o amor. O amor que gera vida, que cuida, que se dá. O coração, talvez mais poeticamente, continua a ser o centro dos sentimentos, do amor, o epicentro da vida. Cuidar do coração é cuidar da vida. A melhor forma de cuidar da vida é amar, pois só o amor nos humaniza, nos irmana, só o amor dá calor, cor, beleza e sentido à vida. Quem ama despoja-se de si mesmo para se dar, para servir, para ser prestável. A pressa de Nossa Senhora, por ocasião da Visitação, é bem a expressão do amor em movimento, em correria, ao encontro de quem precisa.

Maria teve que passar por alguns encómios: uma gravidez misteriosa, a explicar; a fuga para o Egipto; a perda do Menino em Jerusalém; as insinuações sobre a sanidade de Jesus, o processo que Lhe levam o filho desta vida, mas em todas as situações prevaleceu o amor que tudo suporta, a fé que tudo alcança, uma imensa confiança em Deus, que garante vida, eternamente…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/25, n.º 4607, 4 de maio de 2021

Editorial Voz de Lamego: Regresso às Igrejas… vazias!

É uma sensação que varre o pensamento de muitos cristãos durante a época dos confinamentos e da suspensão das celebrações comunitárias. O regresso não trouxe mais pessoas. Regressaram algumas. Algumas ainda estão a aguardar por melhores dias. Algumas ficaram satisfeitas por assistir do sofá ou até da cama. Outras perceberam que a Eucaristia dominical afinal nem fazia assim tanta falta: criam-se outras rotinas!

Não há Igrejas vazias! Espiritual, teologicamente falando! Diz-nos Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome Eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20). Onde está Jesus está a Igreja. Onde estão dois ou três em comunhão com Deus, Trindade Santíssima, está toda a Igreja, a gloriosa, dos que se encontram na eternidade de Deus, e a peregrina, dos que caminham na história e no tempo. Podemos olhar para o lado e não ver ninguém, mas os bancos das igrejas estão cheios de familiares e amigos que celebram connosco a vida divina.

Tomáš Halík preparou, gravou e divulgou, pela Internet, homilias na ausência de celebrações comunitárias na Paróquia Universitária de São Salvador, na República Checa, durante o todo o período da Páscoa, de quarta-feira de cinzas ao Pentecostes, de 2020. A este conjunto de homilias, em livro, deu o título: “O tempo das Igrejas vazias!”

Este sacerdote viveu na Igreja das profundezas, subjugada pela perseguição comunista, ordenado padre na clandestinidade, a celebrar Missa às escondidas, sozinho, ou acompanhado de uma pessoa ou de um casal. O tempo de igrejas vazias não o terá surpreendido tanto assim, mas foi oportunidade para dar lugar ao silêncio e à oração, à contemplação do mistério e à reflexão sobre o caminho percorrido, pela Igreja, e o caminho a percorrer, com as possibilidades que se abrem à Igreja e aos cristãos.

A pandemia pode dar lugar à desolação ou à pregação apocalíptica. E, pelos vistos, alguns voltaram a pregações medievais, provocando o medo, como se o medo obrigasse as pessoas a regressarem à Igreja.

As Igreja vazias devem preocupar-nos? Sim. Mas são também um desafio a darmos maiores razões da nossa fé, não no anúncio de um deus vingativo, mas na certeza confiante de um Deus misericordioso, que é Pai e Mãe, e que em Jesus Cristo abraça a história e o sofrimento humano, caminhando connosco.

Perante Igrejas cada vez mais vazias, resignação ou a tristeza?

Resignação: torna-se visível o que já vinha sucedendo, não há muito a fazer!

Tristeza: não conseguimos mostrar o bom Deus aos outros. E tantas pessoas que se conhecessem o amor de Deus poderiam ser bem mais felizes! Bento XVI relembrava-nos que a Igreja se expande pela atração, pela alegria com que se vive, se anuncia e se partilha a fé. Teremos de dar razões da nossa fé, em todos os momentos, nas situações favoráveis e adversas. Deus faz-Se presente na oração – rezemos mais; na Palavra proclamada e meditada – sacudamos o pó das nossas Bíblias; na vivência da Eucaristia, como remédio e alento para o caminho – não desperdicemos este alimento; no cuidado do irmão, no serviço aos mais frágeis – o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. As Igrejas vazias são oportunidade para sermos Igreja onde quer que nos encontremos, e em tudo o que fizermos. A Eucaristia, vivida com autenticidade, é o primeiro passo para a caridade.

Em 1992, o cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, profetizava o regresso à Igreja de minorias. Como no cristianismo primitivo, a Igreja, a partir de 12 apóstolos, pequeno rebanho, mas fermento que espalha com a alegria o Evangelho, sem medos, na certeza confiante de que é Jesus quem vai no leme!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/24, n.º 4606, 27 de abril de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Em menos de nada estaremos em maio!

E poderíamos estar em junho ou em dezembro. O importante é mesmo hoje, AGORA, viver, sentir, amar, servir, cuidar. Não amanhã, mas hoje. Não daqui a pouco, mas agora. O amanhã pertence a Deus. Ele deu-nos cada instante para darmos sentido à nossa vida e cuidarmos para que o mundo seja terra fértil, habitável, seja casa onde há espaço para todos, onde todos se sintam em segurança, amados, se sintam filhos, se assumam e tratem como irmãos.

Podemos esperar para depois? Claro que podemos! Mas se não chegarmos a maio? Se não chegarmos ao “depois”? Quando dermos conta, estaremos em dezembro!

No final de “Os Maias” (1888), obra prima de Eça de Queirós, num último fôlego, Carlos e João da Ega, esboçam uma réstia de esperança, misturada com um trago de resignação:

“– Lá vem um «americano», ainda o apanhamos. / – Ainda o apanhamos!

Os dois amigos lançaram o passo… – Ainda o apanhamos! / – Ainda o apanhamos!”.

O cristão é enformado pela alegria e pela esperança! A alegria de se saber amado e a esperança de saber que a vida é garantida pelo amor de Deus. Jesus desafia-nos a viver hoje. «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado» (Mt 6, 34). Conhecemos a expressão latina “Carpe Diem”, que desafia a viver o presente com uma dose de irreverência e descontração, temperada com a responsabilidade pelos outros. Não é um propósito egoísta de quem esgota a vida, destruindo-se e aos outros, mas de quem gasta a vida por amor.

Não esperemos que o amanhã chegue! Já é dia, é Páscoa. Este é o tempo que Deus coloca nas nossas mãos para vivermos.

Vale a pena recuperar, e meditar, no desafio de São João XXIII:

1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.

2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspeto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.

3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.

4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.

6. Somente hoje, realizarei uma boa ação e não o direi a ninguém.

7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.

8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exatamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.

10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

Conclusão: um propósito totalitário: “Quero ser bom, hoje, sempre, com todos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/23, n.º 4605, 20 de abril de 2021