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Archive for the ‘Vida’ Category

Conselhos práticos para lidar com a dor crónica

Cerca de 37% da população portuguesa sofre de dor crónica.

14% dos portugueses têm dor crónica recorrente com intensidade moderada ou intensa.

A dor crónica atinge 1 em cada 3 portugueses, sendo a 2ª doença com maior prevalência em Portugal.

A dor é uma experiência individual e subjetiva que quando persiste após o período estimado para a recuperação normal de uma lesão passa a ser considerada crónica. A dor crónica afeta a qualidade de vida do doente e das famílias, não apenas devido à dificuldade ou incapacidade física, funcional e motora, mas também ao ter um grande impacto a nível pessoal e emocional, causando morbilidade, absenteísmo, dependência, ansiedade, afastamento social, fadiga, alterações do sono e apetite.

Segundo Ana Pedro, Presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), “retomar as atividades diárias, tanto pessoais como laborais, e realizar tarefas quotidianas para quem sofre de dor crónica pode ser bastante complicado e muitas vezes os doentes sentem-se frustrados por não conseguirem realizar tarefas simples (pelo menos, sem sentir dor) que em outrora realizavam quase inconscientemente”. 

Contudo, existem algumas dicas e conselhos práticos que os doentes podem seguir para atenuar os efeitos e condições da dor crónica em diversas situações do dia-a-dia:

Atividade física – o exercício físico ligeiro ou moderado é fundamental no dia-a-dia para aumentar a mobilidade e contrariar o sedentarismo, para além de ajudar o doente a sentir-se ativo e útil, diminuindo o tempo em que pensa na dor. Fazer exercício regularmente, como um passeio diário ou exercícios em casa, é uma boa solução, desde que o médico esteja informado e que aprove.

Levantar – ao sair da cama ou do sofá, deve-se virar de lado, baixar as pernas devagar para fora da cama/sofá, ao mesmo tempo que, com os braços apoiados, se impulsiona para cima. Depois, deve-se permanecer sentado durante alguns segundos e só depois levantar lentamente, ajudando com as mãos de ambos os lados do corpo. 

Dormir – muitas vezes, adormecer é a parte mais difícil para estes doentes, apesar do nosso corpo ter a tendência para se colocar na postura que nos é mais cómoda para aliviar a dor. Para ajudar neste processo, especialistas recomendam a utilização de almofadas cervicais e a mudança do colchão, no máximo, de 8 em 8 anos.

No trabalho – tendo em conta que passamos a maior parte do nosso tempo acordados a trabalhar, é fundamental adotar alguns hábitos no contexto de trabalho. Sentar numa cadeira ajustável com um bom apoio lombar para manter uma postura correta, colocar ao alcance da mão tudo aquilo que seja necessário para evitar levantar desnecessariamente, e levantar da cadeira de hora a hora e andar um pouco, são algumas medidas a tomar para evitar que a vida profissional seja afetada.

Acessórios – o uso de pentes de cabo longo para pentear o cabelo, de peças de roupa folgada e calçado cómodo, de calçadeiras compridas para o calçado e de acessórios que permitem calçar meias, é, também, essencial para facilitar estas tarefas. 

Para mais informações, contacte: ATREVIA Lisboa

Tel. 21 324 02 27 | M. 914 027 251; 914 027 407

Carina Monteiro, cmonteiro@atreia.com 

Marta Ribeiro, mribeiro@atrevia.com

Editorial da Voz de Lamego: A vida, a verdade, o amor e o bem

Portugal foi dos primeiros países a abolir a pena de morte e um dos primeiros a legalizar a eutanásia. Somos primeiros em muitas coisas, também na pobreza, nas desigualdades sociais e na corrupção.

Na passada sexta-feira, 29 de janeiro, em dias de tragédia nacional, o Parlamento português aprovou a lei que promove a eutanásia, invertendo o que é um direito inalienável, desde tempos imemoriáveis, remontando ao juramento de Hipócrates. A Declaração Universal dos Direitos Humanos consagra este direito, no Artigo 3.º: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.” A Constituição da República Portuguesa, diz, no Artigo 24.º: “1. A vida humana é inviolável.”

A vida é um direito antes dos direitos. Sem vida não há direitos.

Antes de ser direito, a vida é dom. A origem da vida não me cabe nem a mim nem a ti. O controlo sobre a própria vida tornou-se um direito narcisista: a minha vida só a mim diz respeito, o meu corpo, o que faço, o que como, o que visto e o que compro. Ninguém tem nada a ver com isso. Curiosamente, a nossa dependência aos outros é incontornável, na alimentação, no vestuário, na habitação…

Atenção, não podemos e não devemos menosprezar o sofrimento de uma pessoa concreta, ou de uma família, e as situações limite que vive. Há situações em que parece não haver saída, tal o sofrimento, a angústia, a incerteza e o medo do futuro. Porém, a nossa opção é deixá-la decidir se vive ou se morre, se deixa viver ou se mata? Afastamo-nos da pessoa quando ela mais precisa de nós, quando sofre? Ou, decidimos estar do lado dessa pessoa, ou família, escutá-la, fazendo-lhe sentir que não vamos embora, que estamos ali para ela?

Ao Estado compete assegurar a igualdade de direitos e garanti-los, assegurar a todos o direito à vida, à justiça e à habitação, à educação e aos cuidados de saúde, à igualdade de oportunidades e à liberdade de opinião e de circulação. Não lhe cabe a tutela da vida humana. Hoje, o Estado responsabiliza-se por antecipar a morte a pedido; amanhã, o pedido poderá ser obrigatório, até para criar mais vagas nos hospitais e racionalizar os recursos humanos.

Tantos profissionais que gastam a vida para cuidar e salvar o máximo de vidas. É uma tragédia. Os incêndios de 2017 chocaram-nos! As mortes diárias por COVID-19 já ultrapassam as três centenas. A pressão sobre os hospitais é imensa!

Sinal do Parlamento: facilitar a morte! Uma pessoa está a sofrer? O Serviço Nacional de Saúde ajuda-a a morrer? E para quando o acesso universal a cuidados continuados e paliativos?

Absoluto só Deus. A vida é um valor supremo, referencial para outros valores que pressupõe e exige. Ora vejamos: Jesus morre por amor, para que tenhamos vida abundante.  O filósofo Sócrates morre pela verdade. Martin Luther King e Mahatma Gandhi morrem pela liberdade e igualdade Os Apóstolos e os mártires morrem pela fé. Há pessoas que morrem ou são sacrificadas por serem honestas. Santa Teresa de Calcutá preencheu a sua vida a cuidar dos mais pobres e abandonados.

Ninguém, pelo menos para já, é obrigado a recorrer à eutanásia. A nós, cristãos cabe-nos cuidar, dar razões da nossa fé e da nossa esperança, amar e servir, acompanhar, não desistir de ninguém, ninguém deixar para trás, testemunhar a beleza e o sentido da vida, do início ao fim, não escondendo as dificuldades do caminho.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/12, n.º 4594, 2 de fevereiro de 2021

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Editorial da Voz de Lamego: A cultura do naufrágio no novo ano

O ano de 2020 ficou para trás! Ou talvez não! Tenho lido comentários estranhos a propósito: 2020 deveria ser um parêntesis, avançando de 2019 para 2021; deveria passar-se uma borracha para apagar o ano!

Apagar o passado não é possível, pois não somos máquinas computadorizadas. Querer apagar o passado, por causa de um acontecimento negativo, revela ingenuidade ou infantilismo. A memória torna-nos verdadeiramente humanos, na certeza de que vamos acumulando memórias de muitos acontecimentos e encontros, lugares e pessoas, nem sempre o que procurámos ou desejávamos, mas os que a vida ou, quem sabe, Deus colocou no meu e no teu caminho.

Numa nova etapa, num novo ano, misturam-se ansiedade e esperança, dúvidas e receios. Como será o que vem pela frente? Será que o mundo se tornará melhor e as pessoas mais humanas e solidárias? A nossa vida será risonha? É um misto de sentimentos e emoções que nos faz desejar este (re)começo! Mas, como em todas as dimensões da vida, não se apaga o que somos, o que vivemos, as adversidades que enfrentámos. Se assim fora, teríamos que começar do zero, sem memória nem conhecimentos, sem comodidades, e perderíamos tudo o que de bom nos sucedeu, as pessoas que encontrámos, o que nos fez crescer. Não é possível fazer tábua rasa de um ano ou de um mês. Somos também o que vivemos, somos as opções que fazemos, seremos o que somos com o que lhe juntarmos.

O Papa Francisco empresta-nos o conceito da cultura do naufrágio, acerca da educação, mas que se adequa também à nossa vida. “O náufrago enfrenta o desafio de sobreviver com criatividade. Ou espera que o venham resgatar ou dá início ao seu próprio resgate. Na ilha onde chega, tem de começar a construir uma palhota, para a qual pode utilizar as tábuas do barco afundado e, também elementos novos que encontra no lugar. O desafio de assumir o passado, ainda que já não flutue, e de utilizar as ferramentas que o presente oferece, tendo em vista o futuro”.

E prossegue na mesma linha: “Para educar é preciso ter em conta duas realidades: o quadro de segurança e a zona de risco. Não se pode educar apenas com base em quadros de segurança, nem apenas com base em zonas de risco; tem de haver uma proporção, não digo equilíbrio. Uma pessoa começa a caminhar quando nota o que lhe falta, porque se não lhe faltar qualquer coisa não caminha”.

É com esta criatividade e expectativa que damos novas cores, rostos e configuração à Voz de Lamego, com os seus 90 anos, feitos a 8 de novembro de 2020. Não apagamos o que somos, como jornal, ao serviço da diocese e da região, mas queremo-nos ainda mais próximos, mais ágeis, e sempre transparentes nos valores da vida, da verdade e do bem, na senda do humanismo cristão, a informar e a refletir, a desafiar e a debater. Contamos com todos. A cada um solicitamos a colaboração para chegarmos mais longe, a mais pessoas, leitores, assinantes e anunciantes. A sobrevivência da Voz de Lamego passa por aqui, por ti e por mim, e pela captação de novos amigos. Prosseguimos com alegria e com esperança. Muito obrigado por esta entreajuda, certos da bênção e do favor de Deus. Bom ano de 2021.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/08, n.º 4590, 5 de janeiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Em busca do que somos

Não podemos voltar ao passado, mas devemos tornar-nos aquilo que somos como pessoas. É o desafio permanente do cristão, tonar-se aquilo que é pelo batismo, filho amado de Deus. Estamos enxertados em Cristo, morremos com Ele e com Ele ressuscitamos novas criaturas, ajustando a nossa vida com a d’Ele e fazendo com que a nossa vontade esteja sincronizada com a d’Ele. É também essa a missão de Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). O discipulado consiste em O seguir. “Como O Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós” (Jo 20, 21), “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando” (Jo 15, 14).

Vamos iniciar um novo ano litúrgico e cada novo ano, seja civil, seja, neste caso, litúrgico, desafia-nos a avaliar o caminho percorrido e a traçar propósitos que nos façam avançar, confiantes, seguros e disponíveis para lidar com o dia a dia, com as suas adversidades e com as suas bênçãos, comprometendo-nos, mais e mais com aquilo que nos torna mais humanos, mais cristãos, comprometidos na transformação do mundo, o que passa pela nossa conversão. Parar é morrer. Mais vale, como muitas vezes nos tem dito o Papa Francisco acerca da Igreja, mais vale sair e ter um acidente do que ficar parado a ganhar mofo. É a nossa condição humana. É a nossa vocação cristã. No dizer de Blaise Pascal, “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Fomos criados por Deus para as alturas, para coisas grandiosas. A nossa condição humana pode transparecer egoísmo, mas a nossa identidade primeira, o primeiro amor, de Deus por cada um de nós, desafia-nos a acolher o Seu projeto: sermos felizes. Como disse o Santo Padre aos jovens: “Não fomos feitos para sonhar os feriados ou o fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo. Ele tornou-nos capazes de sonhar, para abraçar a beleza da vida. E as obras de misericórdia são as obras mais belas da vida”.

A nossa busca, incessante, é voltar, não atrás, mas a efetivar o que somos em potência, pela graça do Batismo. É sugestiva a música da dupla Carlos Tê/Rui Veloso: “Nunca voltes ao lugar / Onde já foste feliz / Nunca mais voltes à casa / Onde ardeste de paixão / Só encontrarás erva rasa / Por entre as lajes do chão / Nada do que por lá vires / Será como no passado / Não queiras reacender / Um lume já apagado / Por grande a tentação / Que te crie a saudade / Não mates a recordação / Que lembra a felicidade / Nunca voltes ao lugar / Onde o arco-íris se pôs / Só encontrarás a cinza / Que dá na garganta nós”.

A Nicodemos, Jesus responde precisamente: “Quem não nascer de novo, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3, 3.5). São elucidativas as palavras do Papa, no último domingo [ver homilia, página 7]: “A vida é o tempo das escolhas vigorosas, decisivas e eternas. Escolhas banais levam a uma vida banal; escolhas grandes tornam grande a vida. De facto, tornamo-nos naquilo que escolhemos, tanto no bem como no mal. Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos rancorosos; se escolhemos passar horas no telemóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, vamo-nos tornando dia a dia mais amáveis e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/03, n.º 4585, 24 de novembro de 2020

Editorial Voz de Lamego: Esquecer a morte é morrer

Atravessamos o mês de novembro, mês das almas. Iniciámo-lo com a Solenidade de Todos os Santos e com a Comemoração dos Fiéis Defuntos. Dois dias que nos falam especialmente do fim, mas também de um caminho que nos levará à presença definitiva junto de Deus.

São dias, ou um mês, em que o cemitério recebe mais visitas, ainda que haja quem o faça muitas vezes. Alguns porque ainda não conseguiram recompor-se da “partida”, outros, porque fizeram disso um ritual de luto, pois sabem que existiu uma história que as levou ali, mas não acaba ali. Pessoas que, mesmo recompostas, recordam e saúdam aqueles com quem construíram a vida e partem da visita ao cemitério com a certeza de que vida continua, com novas memórias, que não destroem as anteriores, mas que permitem viver com gratidão e firmeza.

A comemoração dos fiéis defuntos, em particular, recorda-nos da fragilidade e finitude; é oportunidade de gratidão para com aqueles que nos trouxeram à vida e nos legaram valores, nos introduziram na sociedade, nos enxertaram na fé. É um desafio a construirmos um mundo melhor, mais fraterno e saudável, para o “passarmos” aos nossos filhos e netos, para que também eles construam a história.

Aproveitando as memórias das redes socias, recuperamos uma intervenção do Papa Francisco, há pouco mais de um ano que nos faz refletir sobre a morte, sobre o fim. “É a morte que permite que a vida permaneça viva! É o fim que permite que uma história seja escrita, um quadro pintado, que dois corpos se abracem”. Mas o fim, alerta o Santo Padre, “não está só no final. Talvez devêssemos prestar atenção a cada pequeno fim da vida quotidiana. Não só no final da história, que nunca sabemos quando termina, mas no final de cada palavra, no final de cada silêncio, de cada página que se escreve. Só uma vida que é consciente deste instante que termina, torna este instante eterno”.

Quando visitamos um cemitério, quando participamos num funeral, quando vemos morrer aqueles que caminham ao nosso lado, mais facilmente nos lembramos que um dia também o nosso fim chegará. Lamentamos, tomamos consciência que há muitas coisas que não valem a pena. Mas passa o momento e voltamos aos nossos afazeres, preocupações e azáfamas.

Vale a pena prosseguir com a reflexão do Papa, que nos diz que a morte nos faz saber da impossibilidade de ser, compreender e englobar tudo, “é uma bofetada na nossa ilusão de omnipotência. Ensina-nos na vida a relacionarmo-nos com o mistério. A confiança de pular no vazio e perceber que não caímos, que não afundamos, que desde sempre e para sempre há Alguém ali para nos sustentar. Antes e depois do fim”. O mundo atual sacraliza a autonomia, a autossuficiência, a autorrealização, centra-nos em nós, faz-nos pensar que somos o fim, que não adianta pensar no final, o que faz com que vivamos como se fossemos os donos disto tudo, agindo como nos dá na real gana, sem pensarmos no fim. “Uma cultura que esquece a morte começa a morrer por dentro. Aquele que esquece a morte já começou a morrer. As três mortes que nos esvaziam a vida! A morte de cada instante. A morte do ego. E a morte de um mundo que dá lugar a um novo. Lembrai-vos, se a morte não tem a última palavra, é porque na vida aprendemos a morrer pelo outro”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/47, n.º 4582, 3 de novembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Regresso ao futuro

Não se regressa ao passado, mas pode revisitar-se. Regressar ao futuro não passa de um desejo de querer controlar o tempo, o espaço e a história. No imaginário cinematográfico e televisivo, surgiram filmes e séries que permitem o regresso ao passado, em que uma ou outra personagem aparece anos ou séculos antes, podendo modificar o futuro, mudando algumas engrenagens. A ida ao passado tem o propósito de corrigir, no passado, as situações presentes menos positivas, beneficiando uma pessoa, uma cidade ou um país. Mas ficou também no nosso imaginário o filme “Regresso ao Futuro”. A máquina do tempo abria essa possibilidade, mas o propósito de ir ao futuro era o mesmo de ir ao passado, neste caso, ver como se tinha desenrolado a vida, a história, as consequências futuras de determinados acontecimentos atuais, para que no regresso ao presente, a ação pudesse mudar o que não foi tão agradável para os próprios e para a humanidade.

É uma fartura ficcionada de regressos ao passado ou ao futuro. Mas, convenhamos, a vida é só uma, não tem voltas nem regressos temporais ou cronológicos; cabe-nos, a mim e a ti, hoje, aqui e agora, agir, decidir, fazer escolhas. A vida, em certo sentido, é linear, avança, não fica parada à espera que nos resolvamos ou que outros tomem as rédeas por nós, qual caudal de um rio que avança, mais rápido ou mais devagar, mais sereno ou mais tempestuoso, conforme a tipologia do terreno, a chuva que cai, a água que encontra, os obstáculos que surgem. Mas avança. Já dizia o velhinho na praça, o comboio não espera por ninguém! Quem chegou, chegou, quem não chegou fica em terra! Mas neste caso talvez fosse o barco e não o comboio!

Por experiência, vamos vendo que, por vezes, surgem novas oportunidades, que poderemos então aproveitar, mas podem também não surgir ou poderemos já não estar cá nós, então há que aproveitar o tempo atual. Quantas vezes à espera da melhor oportunidade, não adiamos o futuro que acabou por nunca chegar? E tornamo-nos amargurados com a vida e com os outros que realizaram sonhos e projetos, com sacrifícios e dores, mas tornaram-se pessoas felizes e sábias porque souberam viver o presente em cada presente!

O surto pandémico, do novo coronavírus, provoca-nos o sonho da espera, do adiamento, da expetativa. Quando em março, o país entrava em “paragem cardíaca”, no confinamento, em estado de emergência, que se foi renovando, bem pensávamos que no fim de maio, ou em pleno junho, ou talvez em finais de julho, ou quem sabe, em agosto, verão dos emigrantes e das festas, tudo estaria como dantes! Afinal, já vamos em meados de setembro e continuam a pairar sobre nós os cuidados, os números de infetados e as mortes, na expetativa confiante da criação de uma vacina segura e universal!

Não podemos voltar ao antes, mas também não podemos avançar para o futuro, ou suspender a vida até ver. Importa que avancemos, juntos, com todos os regressos possíveis, com todo o cuidado, mais do que nunca, respeitando o outro e o seu espaço. Como cristãos, cabe-nos cuidar. Cuidar também é salvar. Cuidar da segurança dos outros é responder ao chamamento de Jesus Cristo, tendo em atenção, sempre, em não deixar ninguém esquecido, em não deixar ninguém para trás ou excluído. Deus, a quem o futuro pertence, caminha connosco nas alegrias e nas adversidades.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/40, n.º 455, 15 de setembro de 2020

Amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas

Reportagem-entrevista de Andreia Gonçalves para a Voz de Lamego

O valor da amizade é incalculável. Mais ainda, quando atravessam a história e ultrapassam os 50 anos. Nem com as barreiras e pontes longínquas, as duas amigas que encontrei se perderam. Conheça esta história, que tem valor de joia rara. 

Alzira e Lurdes estão separadas por um oceano, a primeira vive e trabalha em Lamego, e a outra lá no país irmão, Brasil. Ambas filhas de portugueses, e nascidas em Angola. Foi em Luanda que viram nascer a amizade que seria para a vida. “Éramos vizinhas, morávamos na Vila Clotilde e estudávamos no Liceu Feminino que era uma referência muito forte da juventude da cidade de Luanda”, diz Lurdes com o seu sotaque doce que há anos recebeu de presente do país que a acolheu, a si e aos seus pais, quando os portugueses tiveram de abandonar as suas vidas, após 1974, e recomeçarem, onde quer que fosse, sem medo. Lurdes e Alzira lembram os tempos de meninas de Angola, com muita diversão, sorriso e calor. Ao chegarem do Liceu “reuníamo-nos no portão da minha casa e assim convivíamos com os amigos que também eram nossos vizinhos”. “Nas manhãs de domingo íamos à praia na Ilha de Luanda e à tarde às matinés no cinema em frente à Liga Nacional Africana ou ao Clube Transmontano onde havia uns bailes únicos”. Alzira acrescenta que “para não irmos sozinhas, a mãe da Lurdes e a minha irmã mais velha iam connosco, era engraçado, o pai dela tinha um táxi e então íamos todas no carro (a Lurdes, a mãe, a irmã, eu e minha irmã), ele deixava-nos lá e depois ia buscar-nos”.

A separação foi muito rápida e muito difícil, entre os 16 anos de uma e os 17 da outra, e não tínhamos muito tempo para pensar no que faríamos. Os sonhos derreteram-se rapidamente. “A minha família tinha a opção de vir para o Brasil ou ir para Portugal, mas por motivo de doença, o meu pai estava a padecer de cancro e precisaria morar num país tropical, decidimos vir para o Brasil” explica Lurdes.  

Para Alzira foi uma separação muito sentida! “Pois veio-me logo à cabeça que não nos íamos ver mais, que a nossa amizade ficava por ali, porque íamos para muito longe uma da outra, eu vinha para Portugal e a Lurdes para o Brasil. Tudo isto foi em 1975, portanto há 45 anos, para mim era impensável ir ao Brasil visitar a minha amiga, pois o Brasil não era logo ali ao lado… A mãe da minha amiga (que também era muito amiga da minha mãe) ainda queria que fôssemos todos para o Brasil com eles e começávamos lá uma vida nova. Mas tal não aconteceu, porque aqui em Portugal já tínhamos pelo menos uma casinha e uns terrenos, que por ironia do destino ou não, tínhamos herdado do meu avô paterno precisamente um ano antes quando viemos a Portugal de Graciosa, e as minhas tias e o meu avô quiseram aproveitar a estadia do meu pai para fazerem as partilhas, pois não tínhamos intenção de vir a Portugal tão depressa. Fizeram-se as partilhas e o meu avô faleceu uns meses a seguir.

Se não tivesse acontecido isso era provável que também fôssemos para o Brasil com eles.

Na altura da separação não me lembro de ter havido troca de direções, só sabíamos que eram de Loulé e que iam para o Brasil, e elas sabiam que os meus pais eram de Nagosa – Moimenta da Beira”, diz Alzira, relembrando o coração apertado da altura.

A separação de duas amigas foi inevitável, e havia a incerteza por toda a parte, contudo, continuaram durante anos a alimentar a amizade por carta, que atravessavam, o atlântico, nas datas mais marcantes como aniversário ou Natal. Foram precisos 25 anos, para que no ano 2000, as amigas pudessem viver um abraço, novamente, Encontraram-se em Lamego e descrevem este momento como mágico de enorme emotividade.

Agora, passaram os sessentas, e são as novas tecnologias que facilitam as comunicações. “No começo a Alzira não tinha Facebook mas trocámos e-mails, conversávamos pelo Skype e agora conversamos por WhatsApp, por Messenger, as nossas mães também conversam e a interação ficou muito fácil”.

Foi em 2010, que estiveram juntas pela última vez.  Mas, quando acabar a pandemia, Lurdes quer voar de novo até Portugal, porque quando a amizade é verdadeira “a distância não separa, as lembranças estão sempre vivas”.

Diz a filosofia chinesa que amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas: nenhuma tempestade consegue arrancar, então como não podemos nos visitar assiduamente usamos a tecnologia a favor da nossa amizade, referem as duas.

Uma união das meninas, que foram mães e que num pequeno nada partilharão ambas a experiência da nova etapa de Alzira, ser avó. Aí Lurdes já dará umas dicas!

Como foi a separação e para onde foram?

Foi uma separação muito sentida, pois veio-me logo à cabeça que não nos íamos ver mais, que a nossa amizade ficava por ali, porque íamos para muito longe uma da outra, eu vinha para Portugal e a Lurdes para o Brasil. Tudo isto foi em 1975, portanto há 45 anos, para mim era impensável ir ao Brasil visitar a minha amiga, pois o Brasil não era logo ali ao lado…

A mãe da minha amiga (que também era muito amiga da minha mãe) ainda queria que fôssemos todos para o Brasil com eles e começávamos lá uma vida nova. Mas tal não aconteceu, porque aqui em Portugal já tínhamos pelo menos uma casinha e uns terrenos, que por ironia do destino ou não, tínhamos herdado do meu avô paterno precisamente um ano antes quando viemos a Portugal de Graciosa, e as minhas tias e o meu avô quiseram aproveitar a estadia do meu pai para fazerem as partilhas, pois não tínhamos intenção de vir a Portugal tão depressa. Fizeram-se as partilhas e o meu avô faleceu uns meses a seguir.

Se não tivesse acontecido isso era provável que também fossemos para o Brasil com eles.

Na altura da separação não me lembro de ter havido troca de direções, só sabíamos que eram de Loulé e que iam para o Brasil, e elas sabiam que os meus pais eram de Nagosa – Moimenta da Beira.

Como mantiveram apesar de todas as condicionantes a vossa amizade?

Como já tinha dito elas sabiam que éramos de Nagosa, e numa aldeia a correspondência chega com facilidade a casa das pessoas, pois toda a gente se conhece, bastava o nome e a carta era entregue ao destinatário. Foi assim que recebia primeira carta da Lurdes (mas não foi logo, ainda se passaram uns anitos). Foi com muita alegria e emoção que recebi a carta e pensei logo “a Lurdes não me esqueceu”… E a partir daí fomos mantendo o contacto através de carta. Ainda nos escrevemos durante alguns anos.

Ela já veio a Portugal 2 vezes.

As novas tecnologias aproximaram-vos ainda mais?

Sim, sem dúvida, primeiro por e-mail e depois falava com ela através do Facebook da minha filha (eu não tenho Facebook) e agora pelo WhatsApp.

Quando estiveram juntas fisicamente pela última vez?

Não sei ao certo, talvez há 7 ou 8 anos.

Para quando o próximo abraço?

No início deste ano a minha amiga estava a pensar vir cá no verão para trazer a mãe, pois como a senhora já tem idade ela não queria que a mãe “morresse” sem vir à terra, mas com isto da pandemia do Covid-19 o desejo de vir a Portugal ficou adiado, por isso neste momento é difícil prever uma data.

O que é uma verdadeira amizade?

É aquela em que ambas as partes continuam a preocupar-se uma com a outra apesar da distância e sem segundas intenções.

E como se alimenta essa mesma amizade?

É tentar fazer com que a mesma não acabe, mantendo sempre o contacto através de qualquer meio.

in Voz de Lamego, ano 90/39, n.º 4574, 8 de setembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Ensaio sobre a cegueira

Não, não é a sugestão do livro de José Saramago, ainda que, pessoalmente, goste muito dos seus livros, mas, a sugerir, talvez começasse por recomendar “A Jangada de Pedra”, pela originalidade, pela criatividade e pela história que constrói unindo as duas pátrias da península ibérica. Mas não se trata de aconselhar esta leitura, mas de partir da cegueira a que a população fica sujeita. Em pouco tempo a cegueira espalha-se. As autoridades isolam (em quarentena) os que ficam cegos. É tão surpreendente que não é possível gerir um problema que se agudiza. As decisões iniciais até parecem sensatas. É necessário isolar todos os que ficam cegos, para evitar o contágio do resto da população. Os soldados, armados até aos dentes, garantem que ninguém sai, um manicómio vazio, devoluto, murado em todo o perímetro, rapidamente convertido em aquartelamento para a quarentena. Mas também os soldados e as autoridades acabam, sem se saber como, de ficar cegos. Só restará a mulher do primeiro cego, que mantém a visão. Em alguns momentos talvez também ela desejasse não ver o que fazem as pessoas quando sabem que os outros não estão a ver! José Saramago cria parábolas muitos sugestivas, sobre o mundo atual, em vários livros como, o já citado, “A Jangada de Pedra”, “A Caverna”, “A Viagem do Elefante”, “O Homem duplicado” ou “O Ensaio sobre a Lucidez”.

A pandemia provocada pelo novo corona vírus veio suscitar uma ampla reflexão. O Papa Francisco, no momento de oração extraordinário, a 27 de março, sublinha que não era possível viver de forma saudável num mundo doente. Doente pelo egoísmo, pela prepotência, pela discriminação racial, social, cultural, religiosa. Doente pela indiferença em relação aos pobres, às pessoas e povos que vivem na miséria. Doente no exacerbado consumismo e na exploração exaustiva dos recursos naturais, sem a solidariedade intergeracional necessária para a sobrevivência do planeta. Estamos no mesmo barco e a destruição deste a todos afetará, não apenas no futuro, mas já vislumbrável nos nossos dias. A pandemia mostra que pobres ou ricos, mais novos ou mais velhos, países desenvolvidos ou em desenvolvimento, todos podem ser contaminados. Claro que os cuidados de saúde continuam a depender em grande escala do poder económico e do desenvolvimento dos povos. Milhares de pessoas morrerão de fome antes da Covid19 ou derivado a esta mas sem que haja possibilidade de verificar tal casualidade.

Sairemos diferentes da pandemia!? Melhores ou piores. Em momentos extraordinários, vem ao de cima o melhor e/ou o pior de nós. Como se tem visto! Tantos voluntários… mas continua a haver comportamentos desonestos de quem se serve das situações de precaridade para esmagar o seu semelhante! Continuamos a assistir a contendas demolidoras, a politiquices de caserna, não se discutem medidas, medem-se os ganhos político-partidários e age-se em conformidade. Há tantas pessoas que continuam a ser esquecidas!

Deveremos aprender com as adversidades! Será que voltaremos mais maduros?

E, por falar em voltar… a provocação saramaguiana, quando ninguém nos vê, ou talvez apenas Deus ou nem Deus nos veja, seremos “metade de indiferença, metade de ruindade”! E a concluir: “penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”. Inspirado ou não, estas palavras encontramo-las no Evangelho, na cura do cego de nascença, em que Jesus sublinha que há muitos que, tendo vista, não veem, continuam a prosperar no seu pecado, morrendo e mantando!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/38, n.º 4573, 1 de setembro de 2020

Chegou agosto, e vem com tempo

O nosso jornal diocesano, Voz de Lamego, tem um grupo de cronistas que nos envolvem, desafiam, nos fazem refletir, com temáticas e sensibilidades variadas, e, como facilmente se pode verificar, apontam caminhos, rasgam horizontes, comprometem-nos com a vida, com o amor, com a beleza, com a justiça e a verdade, com a bondade e a caridade, comprometem-nos na construção de um mundo mais humano, fraterno, cristão. Esta semana, contamos com uma nova cronista, a Ana Carolina Fernandes, com a sugestão que se segue:

“Chegou agosto, e vem com tempo

Chegou em sobressalto, depois de um março agitado onde a nossa sensação de tempo foi alterada. Fomos obrigados a parar. A vida como a conhecíamos em agitação, rotinas definidas, horários estipulados e correrias diárias bloqueou e mexeu, mexeu com tudo aquilo que sempre tomámos por garantido.

Revirou o nosso calendário, insistiu para que a nossa agenda não comandasse os nossos dias e deu-nos tempo.

Deu-nos tempo, aquele que sempre pedimos.

Tirou-nos muitas coisas, mas será que todas essas coisas eram verdadeiramente essenciais?

Será que não nos trouxe coisas boas também?

Será que não nos ofereceu uma nova sensação de tempo?

Vivemos uma vida inteira, com a queixa constante que gostávamos de ter mais tempo. E esquecemos uma coisa: tempo é agora.

E se o tempo é agora, agosto é hoje. Chegou quente como o conhecíamos e repentino como não estávamos tão habituados, e diz-nos que podemos viver assim. Que os dias de azáfama podem abrandar, que é tempo para “estar”, num sentido de

“estar” que a correria do dia-a-dia não nos deixava conhecer.

É “sentir” agora, num “sentir” que estava habituado a preparar o dia a seguir.

É “ser” mais, num “ser” que só queria ser melhor.

E agora pode soar a cliché, mas se há algo de maravilhoso que toda esta mudança nos trouxe foi o tempo que sempre desejámos ter. E mais do que isso, é o tempo que precisávamos. E que finalmente chegou!

E agora?

Agora só cabe a cada um de nós saber vivê-lo da melhor forma.

Pode parecer difícil e até mesmo desafiante aprender a viver de forma mais branda, com a incerteza do que aí vem, com novos medos e tantos receios, mas se calhar era mesmo isto que faltava aos dias. Para que deixem de ser só dias e passem a ser os nossos dias, no nosso tempo.

Parámos. E ainda bem que houve algo que nos obrigou a parar.

E eu só desejo que o agosto 2020, marcado por ser tão diferente, seja esperança para melhores “agostos” que estão por vir.

Porque no final de contas, todos queremos cantar “Meu querido mês de agosto, por ti levo o ano inteiro a sonhar”. Que acordemos deste sonho, para continuar a viver a vida em tempos felizes.

Chegou agosto, e vem com o TEU tempo.”

Carolina Fernandes, fisioterapeuta,

in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Não há verão como antigamente

A vida nunca se repete. Sublinham os historiadores que há acontecimentos similares, ciclos completos que são preenchidos pela evolução e por grande crescimento económico e paz social, seguindo-se a crise, a conflitualidade e o aparente fim da história, a que sucede a reconciliação e crescimento e avanço civilizacional! É também essa a dialética hegeliana, em que o filósofo (Hegel) alemão analisava a história e a vida num constante ciclo: tese – antítese – síntese. Esta visão desafia-nos, em todo o caso, a ter os pés bem assentes no chão, uma vez que na bonança temos consciência que ainda não estamos no paraíso, fazendo-nos antecipar, preparar e precaver-nos, tanto quanto possível, dos conflitos que espreitam. Por outro lado, em tempos de crise, de tempestade e trevas, conhecendo a história e os seus ciclos, é possível relativizar as contradições, assumindo que as situações de crise são oportunidade de crescimento e de evolução e, simultaneamente, sabendo que não são para sempre, pois já vivemos momentos assim que ultrapassámos, então há que manter confiança e a certeza em dias muitos felizes que estão a chegar.

Para os cristãos, todos os tempos são preenchidos da presença graciosa de Deus e têm em si a boa semente para a qual nos cabe criar as condições para que frutifique em abundância, mesmo em ocasiões muito adversas. Porém, com a certeza de que estamos a caminho, somos peregrinos e que a nossa vida não se esgota na história e não fica limitada ao tempo cronológico. Pelo que nos cabe aproveitar bem todo o tempo, sem ficarmos à espera de termos outras oportunidades ou a extensão cronológica da vida! Faço hoje, vivo hoje, comprometo-me hoje, pois amanhã posso já não estar! Atravessamos uma tempestade? Com sofrimento e sacrifício? Sim, mas cientes que Deus continua a sustentar o mundo e que nos guiará ao futuro, aqui e na eternidade.

“À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”. Palavras do Papa Francisco, no dia 27 de março, depois de subir a esplanada, deserta, da Praça de São Pedro, sintonizando com os tempos que passam, mas, igualmente, sintonizado com a presença amorosa e fiel de Deus na vida do mundo.

Estamos em pleno verão e a tempestade pandémica continua a fazer estragos, a assustar, a alterar comportamentos e a deixar muitas pessoas para trás, umas a caírem do barco, outras já fora do mesmo!

As nossas aldeias, vilas e cidades enchiam-se de pessoas nesta altura do ano, com os “emigrantes” que regressavam do estrangeiro ou de outras zonas do país. É certo que há lugares novamente pejados de migrantes e de turistas, mas nada comparado a outros anos. As festas e romarias que motivavam também a presença dos nossos conterrâneos foram suspensas e/ou adiadas para melhores dias. E, mesmo que se realizem algumas, no estrito cumprimento das normas sanitárias para o tempo da pandemia, a espontaneidade da festa não permite a mesma descontração e familiaridade.

Mas como a vida não se repete, não percamos tempo a lamentar-nos, aproveitemo-lo para nos ligarmos ainda com mais qualidade à família e aos amigos e que o distanciamento físico não seja, nem agora nem no futuro, distanciamento social!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/35, n.º 4570, 11 de agosto de 2020

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