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Archive for the ‘Vida’ Category

Pe. Inocêncio António Dias Fernandes | 1945-2022

O Senhor Deus, Pai de bondade infinita, chamou à Sua presença eterna, a 23 de julho, do corrente ano de 2022, o nosso irmão, Pe. Inocêncio António Dias, aos 77 anos. Viveu os últimos tempos marcado pelo cancro e pelos diversos tratamentos. Natural de Paipenela, no concelho da Mêda, nasceu a 4 de julho de 1945. Filho de Luís Augusto Fernandes e de Maria Isabel Dias da Cruz.

Foi ordenado diácono, na Capela do Seminário de Lamego, a 4 de novembro de 1968 e sacerdote, na Sé Catedral, pelas mãos do então Bispo da Diocese, D. João da Silva Campos Neves, a 31 de julho de 1969.

Tendo frequentado os dois seminários, o menor e o maior, depois de ordenado foi nomeado pároco de Lazarim e Meijinhos, a 15 de outubro de 1969; a 12 de janeiro de 1991, foi nomeado administrador paroquial de Lalim; a 4 de outubro de 2000, foi nomeado pároco de Bigorne e do Mezio, e a 16 de outubro de 2003, foi nomeado pároco de Melcões, no Arciprestado de Lamego.

D. António Couto, e com ele todo o presbitério diocesano, manifesta a suas condolências a familiares e amigos, agradece a sua vida e o seu ministério sacerdotal, confia-o nas mãos de Deus e à Sua misericórdia infinita, certo da ressurreição dos mortos e da vida eterna

A celebração de Missa, de corpo presente, será nesta Domingo, 24 de julho, pelas 18h30, em Meijinhos, presidida pelo nosso Bispo D. António. No final da Eucaristia, irá a sepultar no cemitério local.

Antes, pelas 16h00, haverá também Missa na Igreja da Graça.

Deus lhe dê o descanso eterno.

Falecimento do Diácono Luís Cardoso

O Senhor Deus, Pai de Misericórdia, chamou à eternidade do Diácono Permanente, Luís Cardoso, natural de São Martinho de Mouros, Resende, onde nasceu a 5 de março de 1938, vindo a falecer aos 84 anos, a 14 de julho de 2022. Foi ordenado diácono em 28 de julho de 2001, colaborando em diversas paróquias de Cinfães e de Resende.

A celebração das Exéquias está marcada para sábado, pelas 10h00, na Igreja Matriz de São Martinho de Mouros, seguindo-se o funeral no cemitério local.

D. António Couto, Bispo de Lamego, em seu nome e do presbitério e diocese de Lamego, endereça as suas condolências à família e amigos, confiando na misericórdia benevolente de Deus para Quem e em Quem todos vivem.

Confiamos a Deus o reverendo Diácono Luís Cardoso.

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Editorial Voz de Lamego: A vida, a vinha e o vinho (generoso)

A diocese de Lamego é território de bons vinhos, não estivéssemos numa das regiões demarcadas mais antigas e mais conhecidas. Vinho generoso (tratado, fino, do Porto), que deu fama à região, mas também vinhos de mesa, brancos e tintos, vinho espumante. O pão não pode faltar à mesa dos portugueses, nem o vinho pode faltar às festas de verão, e das outras estações do ano, a casamentos e batizados, a aniversários. Mesmo com a proliferação de outras bebidas, o vinho continua a ser como que a base para as festas dos adultos!

Na Bíblia, a vida futura (o reino de Deus) é comparada a um banquete: “Sobre este monte, o Senhor do Universo há de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos” (Is 25, 6).

No Evangelho de São João, o início da vida pública de Jesus acontece nas Bodas de Caná. Maria, Sua Mãe, é convidada. Jesus e os discípulos também estão entre os convidados. A determinada altura, Maria dá-se conta que está a faltar um dos ingredientes indispensáveis para a festa, e vai dizê-lo a Jesus: “Não têm vinho”. Na aparente relutância de Jesus, a confiança de Maria que vai ter com os serventes e lhes diz: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Jesus manda que encham de água seis talhas, destinadas à purificação dos judeus, e manda que distribuam… a água transformada em vinho (Jo 2, 1-12). E o vinho é de primeira apanha! É possível fazer vinho sem uvas, mas não sem água! A qualidade e a abundância do vinho, fruto da bênção e da ação de Jesus é também antecipação e sinal de outra transformação: o vinho que se transformará no Seu sangue, abundância da vida nova e da Sua presença entre nós ao longo do tempo.

Que tem a ver o vinho com a vida? Muito! Além de nos convocar para a festa e para a partilha, ajuda-nos a perceber as relações entre as pessoas, também no seio dos casais, das famílias e da comunidade. A não ser alguém já “viciado”, a bebida é um convite à confraternização, à cumplicidade. A bebida desinibe e, não sendo em excesso, coloca as pessoas mais à vontade. Sendo vinho generoso, a amadurecer num pipo, precisa da vigilância do “vinhateiro”, que vai acrescentando mais vinho para não correr o risco de um dia encontrar o pipo seco! Assim, na vida, precisamos de ir acrescentando momentos, celebrações, encontros, amizade, para não ficarmos perdidos, sozinhos, a definhar! Precisamos dos outros e da sua companhia!

Por outro lado, quando o vinho, sobretudo em garrafa ou garrafão, é agitado, é necessário deixar que assente. A vida também precisa de tempos de repouso, paragem, reflexão, para que a turbulência (e as dificuldades) de momento não ofusquem a serenidade, o sentido e a confiança no futuro e nas pessoas. E, tal como vinho, a vida também precisa de respirar. Respirar e expirar o odor de Cristo, o sopro do Espírito.

A imagem da vinha está também muito presente na Sagrada Escritura. Isaías narra o cântico de amor à vinha, que é a casa de Israel, com todos os cuidados que Deus teve com ela: lavrou-a, limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas, protegeu-a, erguendo uma torre ao centro e um lagar, vedou-a. O natural é que viesse a dar uvas, mas só deu agraços (cf. Is 5,1-7; Sl 79). Jesus utiliza a mesma imagem para falar do Reino de Deus.

O relacionamento num casal, na família, na comunidade, com os amigos precisa de ser cuidado em todo o tempo… é como a vinha, logo que acaba a vindima começa um novo ciclo: a poda e a empa, o despampar, a atenção ao “choro” das vides, às doenças que podem acontecer, ao clima, aos vários tratamentos, a poda em verde, tirando alguns ramos que não interessam e, posteriormente, cortar alguns cachos em excesso, potenciando a qualidade dos que ficam. Na vida precisamos deste cuidado permanente, para que o decorrer do tempo e as dificuldades não destruam o amadurecer do fruto…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/34, n.º 4665, 6 de julho de 2022

Editorial Voz de Lamego: Neutralidade

Vivemos tempos conturbados. A guerra da Rússia contra a Ucrânia e contra a democracia é só mais um episódio lamentável da cultura da morte, disseminada em guerras, tráfico de pessoas, escravização, trabalho/exploração infantil, fome, prevalência de elites sobre povos inteiros, subjugando-os pela força, ameaça, julgamentos sumários, exílio, perseguição e morte.

A Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada com o propósito de evitar as guerras entre nações, procurando também salvaguardar o direito à autodeterminação de cada povo, no respeito pelas leis, pelos Direitos Humanos fundamentais. Apesar dos propósitos, as guerras continuam a multiplicar-se e, no caso presente, a Rússia, com direito de veto, impede qualquer posicionamento mais firme da ONU, além da ameaça nuclear que pesa sobre a Europa.

Uma das palavras que se tem ouvido muito ultimamente é o da neutralidade. A Ucrânia tinha-se mantido neutra, face a ameaças russas de fazer o que acabou por fazer, invasão e agressão militar. A possível entrada na UE e na NATO foram sendo adiadas. Por sua vez, a Finlândia e a Suécia mantiveram-se, igualmente, neutros face a qualquer conflito internacional. Por um lado, nos conflitos poderiam ser mediadores de paz e reconciliação e, por outro lado, garantiriam que não seriam invadidos ou arrastados para algum conflito internacional. O Portugal de Salazar assumiu essa política de neutralidade, durante a segunda guerra mundial, o que lhe permitiu aprofundar o comércio com ambos os lados, ainda que não tivesse evitado a pobreza de muitos portugueses e a escassez de bens alimentares.

À Ucrânia de nada valeu a dita neutralidade. A Finlândia e a Suécia perceberam que a neutralidade mantida nos últimos 50 anos não era garantia para a paz e integridade territorial face ao que aconteceu com a Ucrânia, pelo que já fizeram o pedido de adesão à Nato, o que implicará investimento militar, mas também a certeza que, em caso de conflito com a Rússia e seus parceiros, terão a solidariedade e intervenção militar dos povos que constituem a Aliança (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Deixemos a dimensão mais política, para nos fixarmos no compromisso cristão perante a cultura da morte, a pobreza, a violência, sendo que, em nenhum momento, deixamos de ser “políticos”! Um cristão não pode colocar-se na perspetiva de Pilatos, não pode lavar as mãos face à mentira, às injustiças. O cristão tem de tomar partido. Não importa se é de direita ou esquerda ou do centro, se é progressista ou conservador, tem de ser, acima de tudo, cristão, imitando, em tudo, em todos as situações, Jesus Cristo, colocando-se, sempre, do lado dos mais desfavorecidos. Não é uma escolha entre outras. É a única escolha possível para um cristão. Não podemos lavar as mãos e tornarmo-nos indiferentes ao sofrimento.

Mas como dizia antes, mesmo quem objete a política, não deixa de ser político e será bom que os cristãos também se empenhem na vida política (e partidária), não com o ensejo de usufruir das melhores regalias, mas com o propósito firme de ajudar a melhorar a vida das pessoas e das comunidades.

O Papa Francisco fala da política como uma arte, como um alto serviço à humanidade, quer para atender às necessidades das pessoas, quer para construir pontes de diálogo e de paz. Com efeito, “somos chamados a viver o encontro político como um encontro fraterno, especialmente com aqueles que estão menos de acordo connosco”. Devemos tratar o outro “como um verdadeiro irmão, um filho amado de Deus” o que, por vezes, implica “uma mudança de olhar sobre o outro” e “um acolhimento incondicional e respeito à sua pessoa, sobretudo, para com os que não concordam connosco”. O santo Padre prossegue, dizendo que “se essa mudança de coração não ocorrer, a política corre o risco de se transformar num confronto muitas vezes violento para fazer triunfar as próprias ideias, em busca de interesses particulares e não do bem comum. Não se pode fazer política com a ideologia”.

O cristão não é neutro e nem todas as escolhas são razoáveis… Razoável, para o cristão, é viver ao jeito de Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/29, n.º 4660, 1 de junho de 2022

Editorial Voz de Lamego: Só se vive uma vez!

Em meados dos anos 90, do século e milénio passados, um duo espanhol, Azucar Moreno, popularizou-se com este tema: Sólo se vive una vez! Deixamos o ritmo para quem o tiver, e partirmos deste desafio que perpassa na letra desta canção, cheia de vida. “Apaga o televisor… dá marcha ao coração… Se te importa o que dirão e se te querem enrolar, lembra-te bem: só se vive uma vez… Se te querem amargar com problemas… não te deixes convencer: só se vive uma vez”.

Saímos da Semana da Vida (8 a 15 de maio), num indelével convite a acolher, amar, proteger a vida, cuidar dos mais frágeis, as crianças e os idosos, os pobres e as pessoas portadoras de deficiência. Nestes dois meses de guerra, imposta pela Rússia à Ucrânia, multiplicam-se as pobrezas, gerando órfãos, pais que veem os filhos morrer, filhos que deixam os pais para trás, sem esperança de os voltarem a ver, mulheres cujos maridos, companheiros, namorados, noivos estão na linha da frente. Uma guerra gera orfandade e viuvez, gera luto e tristeza, e desolação, medo e vontade de vingança. Os estragos atuais terão reflexo nas próximas gerações. Os edifícios construir-se-ão, os corações levarão muito mais tempo e as famílias, muitas delas, ficarão destroçadas para sempre.

Neste cenário preocupante, o desafio a viver é mais premente. Se nunca sabemos a nossa hora, num contexto de guerra, que pode alargar-se a toda a Europa ou a todo o mundo, a incerteza agudiza-se. A fé, também neste caso, ajuda-nos a relativizar, sem desvalorizar o pecado da violência, da agressão gratuita, dos assassinos em massa em prol do poder, do controlo, da supremacia de uma ideologia ou de um país ou de um líder. A fé garante-nos que a vida não acaba com a morte e que também o tempo de morte e de trevas passará. A história mostra-nos longos períodos de guerra e de embotamento face à duração da mesma. Porém, para quem é agredido, violado, torturado, perseguido, expulso de sua casa, para quem é morto, ferido, ou vê os seus a serem feridos e mortos, não será o tempo a curar, a repor, a compensar, ainda que amenize a dor ou mesmo o desejo de vingança. Nas perdas humanas, só a fé garante a esperança na vida eterna, a certeza de novo reencontro, sem o qual a vida fica a meio, deficitária, por completar.

Se nós soubéssemos que amanhã já não estávamos (fisicamente) por cá, talvez acelerássemos algumas tarefas e compromissos, para deixarmos resolvido, para vivermos. Como não sabemos, também não o devemos adiar, pois o futuro só a Deus pertence. Ele dá-nos o tempo atual como presente para desfrutarmos, para vivermos, para construirmos um mundo fraterno, que seja casa de todos e para todos. Há quem não viva hoje à espera de viver o amanhã, de melhores dias e melhores circunstâncias que não chegam ou quando chegam já é demasiado tarde.

Jesus, numa página da Sua vida (histórica), tranquiliza os Seus discípulos, desafiando-os: «Não vos preocupeis com o amanhã, porque o amanhã preocupar-se-á consigo próprio. A cada dia bastam os seus males».

Mas atenção, não se trata de despreocupação ou de demissão, mas de compromisso e empenho em viver e em cuidar da vida, das pessoas, do mundo que é a nossa casa. Diz-nos Jesus, numa parábola: «A terra de um homem rico deu uma boa colheita. E discutia consigo próprio, dizendo: “Que hei de fazer, dado que não tenho onde recolher os meus frutos?”. Disse, então: “Vou fazer assim: destruirei os meus celeiros e edificarei uns maiores; lá recolherei todo o grão e os meus bens. E direi à minha alma: “Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos: descansa, come, bebe e regala-te!”. Mas Deus disse-lhe: “Insensato! Esta noite a tua vida ser-te-á reclamada. O que preparaste, para quem será?”. Assim acontece àquele que acumula para si e não se torna rico diante de Deus».

Se conjugarmos os dois textos, vivamos hoje, sem adiamentos, empenhados em sermos bênção e casa uns dos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/27, n.º 4658, 18 de maio de 2022

Falecimento do Pai do Padre João Carlos

O Senhor, Deus de Bondade e de Misericórdia, chamou à Sua presença, para as moradas eternas, o Sr. José A. Morgado, pai do Padre João Carlos, Pró Vigário Geral da Diocese de Lamego e Cónego do Cabido da Sé.

D. António Couto, em seu nome e do presbitério de Lamego, manifesta as condolências ao reverendo Pe. João e aos seus familiares, neste momento de luto, unindo-se em oração, agradecendo o dom da vida, acolhido, vivido e devolvido, agora, em definitivo, ao Deus da vida, do tempo e da história. Sublinha, por outro lado, a certeza, que vem da fé, de que a vida não se esgota no termo temporal, mas se abre, pela misericórdia de Deus, à eternidade. Deus faz prevalecer a vida daqueles que n’Ele acreditaram e se deixaram conduzir pelas Suas palavras.

Na manhã de quinta-feira, 7 de abril, pelas 10h00, celebrar-se-á Missa Exequial pelo Sr. José Morgado, na Igreja Matriz de Castro Daire, seguindo-se o funeral no cemitério local.

Unidos em oração, na esperança da ressurreição, manifestamos os nossos sentimentos e comunhão ao Pe João Carlos, sua mãe e irmãos, e demais familiares. Que o Senhor dê o eterno descanso ao Sr. José e o conforto do Seu amor aos familiares e amigos.

Editorial Voz de Lamego: A vida… ninguém ma tira, sou Eu que a dou

Como darmos o que não nos pertence?

Ou como suprimirmos o que não podemos dar?

A vida… a vida não depende, na origem, de nós, é-nos dada! Também não a podemos retomar! Poderemos interrompê-la? Uma interrupção significaria que, posteriormente, poderia haver regresso. Se a recebemos, se a acolhemos, não nos cabe acabar o que não começamos! Em relação aos outros, muito menos, pois ninguém nos designou para assumirmos um papel que não é nosso, pois não somos autores da vida.

O quinto mandamento é taxativo e não tem vírgulas, nem acentuações, não se sujeita a interpretações. Direto: “Não matarás”. É uma ordem divina. Na formulação da catequese, explicita-se: “Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo)”. Infelizmente continuamos a matar e a causar dano uns aos outros. Jesus Cristo é crucificado em cada vítima, em cada pessoa faminta, perseguida, escravizada, em cada pessoa negociada, vendida, violentada e morta.

Jesus ensina-nos a formular o mandamento pela positiva: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo, ao jeito do Bom Samaritano que se faz próximo de quem está caído à beira do caminho, sem voz nem vez.

Na verdade, “o amor é a única maneira de compreender outro ser humano no fulcro mais íntimo da sua personalidade. Ninguém pode ter um conhecimento profundo e completo da essência do outro ser humano a menos que o ame. Por meio do seu amor, fica capacitado para ver os traços e as características essenciais da pessoa amada” (Viktor Frankl).

Viktor Frankl foi prisioneiro, durante quatro anos, nos campos de concentração nazi, durante a Segunda Guerra Mundial. Logo que libertado, enquanto psiquiatra, escreveu para pessoas com tendência para o desespero. “Vislumbrei então o significado do maior segredo que a poesia, o pensamento e as crenças dos seres humanos podem comunicar: a salvação dos homens consegue-se no amor e pelo amor. Compreendi como pode um homem a quem nada resta no mundo conhecer ainda assim a felicidade, mesmo que por breves instantes, na contemplação do ser amado”.

A segunda guerra mundial fez emergir a maldade e o egoísmo, a prepotência e a sobranceria, centrada, sobretudo, na liderança de Hitler. As nações uniram-se para evitar que se repetissem situações como as verificadas, de tortura, maus-tratos, escravização, mortes às dezenas e centenas de pessoas, enterradas em valas comuns. Foi o sonho de um homem, movido pela sede de poder ou, simplesmente, com os neurónios em curto-circuito! Como tem alertado o Papa Francisco, estamos na terceira guerra mundial, ainda que aos pedaços, em diferentes zonas do planeta, além da fome, do tráfico de órgãos e de pessoas, da multidão de refugiados, oriundos de diferentes países, a fugir da violência, da perseguição, por motivos políticos, económicos, étnicos e religiosos. A agressão violenta da Rússia ao país irmão, a Ucrânia, é mais um lamentável episódio que tende a repetir a mesma prepotência de Hitler, agora com outro nome, Vladimir Putin. A facilidade com que se tira a vida, justificando atos hediondos com palavras como defesa (preventiva) e libertação! Libertação de um povo que se sente livre e que não pediu para ser libertado.

Numa das páginas do Evangelho, Jesus clarifica: «Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho que tivesse a vida em Si mesmo» (Jo 5, 17-30). Só quem tem a vida em si mesmo, pode, de facto, dar a vida! «O Pai ama-me, porque dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de Mim, mas Eu a dou a Mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir» (Jo 10, 17-18.)

Analogamente, a vida dá-se, amando, gastando-a a favor dos outros. Quem guardar a vida para si, perdê-la-á e quem perder a vida, por Minha causa e do Evangelho, diz Jesus, ganhá-la-á (cf. Mt 10, 39; 16, 25).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/21, n.º 4652, 6 de abril de 2022

Faleceu o Ir Julião Gonçalves, natural da Diocese de Lamego

O Ir. Julião da Silva Gonçalves, filho de José Gonçalves e de Maria da Conceição da Silva, nasceu em S. Joaninho – Castro Daire, diocese de Lamego, no dia 23 de janeiro de 1930. Em setembro de 1947 pediu, por escrito, para ser admitido a Irmão na Congregação e foi aceite.

A 1 de outubro de 1947 deu entrada no seminário do Fraião – Braga, com aspirante a Irmão. Não se sentiu só: encontrou três conterrâneos que tinham vido de S. Joaninho.

Tinha boa saúde, bom comportamento e avançou para o Noviciado, no Fraião, onde veio a fazer a sua profissão religiosa a 9 de setembro de 1950, tomando o nome de Ambrósio.

Iniciou a sua missão como irmão espiritano no mesmo ano 1950, no Fraião, como cozinheiro e alfaiate. Em outubro de 1953 foi nomeado para a comunidade espiritana da Estrela-Lisboa, como adjunto do Procurador das Missões.

A 27 de outubro de 1959 respondeu a um pedido de servir novamente no Fraião como Alfaiate, função que exerceu apenas por um ano e regressou novamente para Lisboa a 23 de setembro de 1960, desta vez para os trabalhos de Alfaiate, Porteiro e Sacristão.

A 22 de setembro de 1964 foi-lhe pedido o serviço de porteiro e alfaiate no seminário de Viana do Castelo. E o irmão Silva correspondeu a este pedido por um ano e depois disto a Congregação pediu-lhe para sair para a missão ad extra.

A 15 de novembro de 1965, deixou Lisboa rumo a Angola a bordo do Navio “Índia”. O seu novo campo de trabalho missionário foi o colégio Espírito Santo de Nova Lisboa (hoje Huambo). O colégio Espírito Santo tinha cerca de 550 alunos e uma vintena de professores e o irmão Silva assumiu o trabalho de secretaria e tesouraria deste colégio. Foram 10 anos (1965-1975) de intenso trabalho, responsabilidade, formação, convivência e diálogo. Ficaram boas recordações nos corações de alunos e professores.

Em 1975, Angola proclama a sua independência e o tempo para fazer as malas foi escasso. O Ir. Silva fez parte de um grande êxodo em massa e uma vez em Portugal foi para a casa da família em São Joaninho. Depois de uma breve estadia na família, em 1976 voltou para Lisboa, onde trabalhou na animação missionária até 1980.

Em 1980 foi novamente nomeado procurador adjunto da Procuradoria em Lisboa, cargo que exerceu até 2020. Foram 40 anos de colaboração e apoio aos missionários e às missões, acolhendo quem chegava e apoiando quem partia, comprando e despachando em contentores ou por correio o que era pedido à Procuradoria. Pelas suas mãos passaram muitas encomendas para Luanda e outras paragens, de missões espiritanas e não espiritanas.

Esta azáfama foi abrandando em recursos humanos e materiais. Com 90 anos, o nosso Ir. Silva, para além das naturais limitações de audição e visão, continuava no seu posto de trabalho, fazendo alguns recados a pedido dos confrades de aquém e além-mar.

Em abril 2021, com os seus 91 anos de idade, na sequência de alguns sintomas, fez exames de saúde no Hospital de Lisboa e o resultado da biópsia concluiu: “Metástase de carcinoma de provável origem prostática”. A 7 de maio teve alta do hospital dos Capuchos, voltou para a comunidade espiritana da Estrela onde teve um acompanhamento personalizado de um técnico de saúde (porque não estava com capacidades de autonomia).

A 11 de agosto de 2021, foi transferido para a comunidade de Braga para continuar com a assistência médica e comunitária. Pouco tempo depois de chegar ao Lar Anima Una, os sinais de gratidão, alívio, serenidade e contentamento foram visíveis, embora a sua saúde fosse debilitada.

No dia 19 de março de 2022, dia de São José, foi internado no Hospital de Braga onde viria a falecer na madrugada do dia 23 de março 2022. Que Deus o tenha no Seu Reino.

Ao longo de 92 anos de vida, 72 foram de pertença à Congregação. Combateu o bom combate, terminou uma longa carreira, na fé e no serviço a Deus e aos irmãos.

Que o Senhor da Messe receba o seu fiel servidor.

O Maria Rainha das missões, dai-nos muitos e santos missionários.

Autor do Texto: Ir. Manuel Carmo Gomes, Missionário Espiritano, in ESPIRITANOS

O Ir. Manuel do Carmo é Missionário Espiritano

Missa de Exéquias, sexta-feira, 25 de março, em São Joanino, sua terra natal, onde irá a sepultar.

Falecimento da Mãe do Padre João António

Os desígnios de Deus e a Sua hora nem sempre são coincidentes com os nossos. Na Sua benevolência e sabedoria, Deus, nosso Pai, chamou à Sua presença eterna, a D. Maria Teresa Teixeira, mãe do Padre João António Teixeira Pinheiro, Reitor do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios e Deão do Cabido da Sé de Lamego.

O Sr. Bispo, D. António, também em nome do presbitério de Lamego, manifesta a sua comunhão com o reverendo Pe. João e com os demais familiares e amigos, na certeza que o momento de luto se reveste de esperança na ressurreição dos mortos e da vida eterna. Nesta hora, a fé e a oração colocam-nos em sintonia com a glória de Deus, que em Cristo nos garante a eternidade na comunhão dos santos, como professamos no Credo.

A Eucaristia de corpo presente celebra-se hoje, 12 de março, pelas 15h00, na Igreja do Santuário dos Remédios. O cortejo fúnebre seguirá para São João de Fontoura, de onde é natural. Na Igreja paroquial também será celebrada Eucaristia, indo depois a sepultar.

Deus lhe dê o descanso eterno. Ao Pe. João e familiares, Deus lhes dê o conforto que vem da fé e a confiança firme na ressurreição.

Editorial Voz de Lamego: Sem vida própria!

Há pessoas que não têm vida própria, vivem a vida dos outros, em função dos outros, agindo, não segundo as próprias convicções, mas na tentativa, vã, de agradar a uma pessoa, a um grupo, ou, pelo menos, com a preocupação exacerbada de não desiludir. Isto não é viver, no sentido mais autêntico do que entendemos por viver: desenvolver dons e talentos, orientar a vida pelas convicções que se cultivam, aprofundam e amadurecem ao longo do tempo, criando pontes de diálogo e laços de amizade e proximidade, deixando marcas no mundo, a começar pelas pessoas, marcas de bondade e de amor.

Vamos por partes. “Não ter vida própria” tem, pelo menos, duas dimensões distintas ou duas leituras diferentes. Quando a pessoa gasta a sua vida em prol da família, dos amigos, da comunidade, quando vive, mais, em função do trabalho, não é necessariamente algo mau. Alguém não tem vida própria, porque não tem tempo para si mesmo, mas ocupa-a a tratar dos outros, dos filhos, ou dos pais, ou a trabalhar para o sustento e a comodidade da família, ou envolvida em atividades de voluntariado (além da profissão e das lides de casa). Há sempre um “senão”. É necessário que diferentes dimensões da vida sejam preenchidas: o trabalho, o descanso, a família, a festa, a confraternização, o lazer, o voluntariado. Os pais trabalham tanto que não têm tempo para acompanhar os filhos, ir ver deles à escola, terem tempo de qualidade juntos, poderem brincar com os filhos, escutá-los, contar-lhes uma história… talvez possam estar a desperdiçar um tempo precioso que não volta mais. Compreende-se! As necessidades dos filhos, a habitação, a alimentação, encargos e mais encargos e trabalhos precários e mal remunerados, cujos patrões não têm em conta o agregado familiar, mas o indivíduo-trabalhador desligado do seu contexto social, económico e familiar. Mas como os próprios reconhecem, mais tarde, não acompanharam o crescimento dos filhos e, na atualidade, já não se compreendem mutuamente e, agora, são os filhos que não têm tempo nem disponibilidade, pois têm pressa de viver as suas vidas.

Valorizar a família implica ter tempo para estar em casa e amadurecer a cumplicidade entre os seus membros. O trabalho é essencial se englobar o descanso, a festa, as celebrações familiares. E será ainda mais essencial se predispuser a pessoa e a família para o voluntariado e para a envolvência na vida da comunidade. Isto vale para a interação com a sociedade como vale para a pertença à comunidade eclesial.

“Sabeis quem vive somente graças aos outros? Os vírus. Os vírus não têm vida própria, têm de se agarrar a alguém”. É uma frase de uma série televisiva – DOC – baseada em factos reais: um médico italiano que perde as memórias de 12 anos e quando volta a exercer, mudando de hospital, como que recomeçando a vida profissional.

Sem vida própria! Num sentido negativo, quando uma pessoa vive em função do que os outros pensam ou dependente do sucesso ou do fracasso dos outros para se sentir feliz e realizada. Há na natureza alguns exemplos curiosos, como o cuco. Este procura o ninho de outra ave, coloca lá o seu ovo, deitando fora um dos outros ovos. O ovo é semelhante em cor e tamanho, pelo que a ave não nota o engodo. A cria do cuco nasce primeiro e a ave-mãe cuida dela como se fosse sua. O cuco bebé, por outro lado, lança fora os outros ovos, para ser o único a receber a comida. A ave-proprietária do ninho não se dá conta do engano, mesmo quando o cuco fica maior do que ela.

Qual é a nossa opção: viver como o cuco ou procurar viver a própria vida?

Como cristãos, a opção é viver ao jeito de Jesus, acolhendo a vida como dom, gastando-a com os outros, construindo fraternidade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/13, n.º 4644, 9 de fevereiro de 2022

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