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Archive for the ‘Vida’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Regresso ao futuro

Não se regressa ao passado, mas pode revisitar-se. Regressar ao futuro não passa de um desejo de querer controlar o tempo, o espaço e a história. No imaginário cinematográfico e televisivo, surgiram filmes e séries que permitem o regresso ao passado, em que uma ou outra personagem aparece anos ou séculos antes, podendo modificar o futuro, mudando algumas engrenagens. A ida ao passado tem o propósito de corrigir, no passado, as situações presentes menos positivas, beneficiando uma pessoa, uma cidade ou um país. Mas ficou também no nosso imaginário o filme “Regresso ao Futuro”. A máquina do tempo abria essa possibilidade, mas o propósito de ir ao futuro era o mesmo de ir ao passado, neste caso, ver como se tinha desenrolado a vida, a história, as consequências futuras de determinados acontecimentos atuais, para que no regresso ao presente, a ação pudesse mudar o que não foi tão agradável para os próprios e para a humanidade.

É uma fartura ficcionada de regressos ao passado ou ao futuro. Mas, convenhamos, a vida é só uma, não tem voltas nem regressos temporais ou cronológicos; cabe-nos, a mim e a ti, hoje, aqui e agora, agir, decidir, fazer escolhas. A vida, em certo sentido, é linear, avança, não fica parada à espera que nos resolvamos ou que outros tomem as rédeas por nós, qual caudal de um rio que avança, mais rápido ou mais devagar, mais sereno ou mais tempestuoso, conforme a tipologia do terreno, a chuva que cai, a água que encontra, os obstáculos que surgem. Mas avança. Já dizia o velhinho na praça, o comboio não espera por ninguém! Quem chegou, chegou, quem não chegou fica em terra! Mas neste caso talvez fosse o barco e não o comboio!

Por experiência, vamos vendo que, por vezes, surgem novas oportunidades, que poderemos então aproveitar, mas podem também não surgir ou poderemos já não estar cá nós, então há que aproveitar o tempo atual. Quantas vezes à espera da melhor oportunidade, não adiamos o futuro que acabou por nunca chegar? E tornamo-nos amargurados com a vida e com os outros que realizaram sonhos e projetos, com sacrifícios e dores, mas tornaram-se pessoas felizes e sábias porque souberam viver o presente em cada presente!

O surto pandémico, do novo coronavírus, provoca-nos o sonho da espera, do adiamento, da expetativa. Quando em março, o país entrava em “paragem cardíaca”, no confinamento, em estado de emergência, que se foi renovando, bem pensávamos que no fim de maio, ou em pleno junho, ou talvez em finais de julho, ou quem sabe, em agosto, verão dos emigrantes e das festas, tudo estaria como dantes! Afinal, já vamos em meados de setembro e continuam a pairar sobre nós os cuidados, os números de infetados e as mortes, na expetativa confiante da criação de uma vacina segura e universal!

Não podemos voltar ao antes, mas também não podemos avançar para o futuro, ou suspender a vida até ver. Importa que avancemos, juntos, com todos os regressos possíveis, com todo o cuidado, mais do que nunca, respeitando o outro e o seu espaço. Como cristãos, cabe-nos cuidar. Cuidar também é salvar. Cuidar da segurança dos outros é responder ao chamamento de Jesus Cristo, tendo em atenção, sempre, em não deixar ninguém esquecido, em não deixar ninguém para trás ou excluído. Deus, a quem o futuro pertence, caminha connosco nas alegrias e nas adversidades.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/40, n.º 4574, 15 de setembro de 2020

Amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas

Reportagem-entrevista de Andreia Gonçalves para a Voz de Lamego

O valor da amizade é incalculável. Mais ainda, quando atravessam a história e ultrapassam os 50 anos. Nem com as barreiras e pontes longínquas, as duas amigas que encontrei se perderam. Conheça esta história, que tem valor de joia rara. 

Alzira e Lurdes estão separadas por um oceano, a primeira vive e trabalha em Lamego, e a outra lá no país irmão, Brasil. Ambas filhas de portugueses, e nascidas em Angola. Foi em Luanda que viram nascer a amizade que seria para a vida. “Éramos vizinhas, morávamos na Vila Clotilde e estudávamos no Liceu Feminino que era uma referência muito forte da juventude da cidade de Luanda”, diz Lurdes com o seu sotaque doce que há anos recebeu de presente do país que a acolheu, a si e aos seus pais, quando os portugueses tiveram de abandonar as suas vidas, após 1974, e recomeçarem, onde quer que fosse, sem medo. Lurdes e Alzira lembram os tempos de meninas de Angola, com muita diversão, sorriso e calor. Ao chegarem do Liceu “reuníamo-nos no portão da minha casa e assim convivíamos com os amigos que também eram nossos vizinhos”. “Nas manhãs de domingo íamos à praia na Ilha de Luanda e à tarde às matinés no cinema em frente à Liga Nacional Africana ou ao Clube Transmontano onde havia uns bailes únicos”. Alzira acrescenta que “para não irmos sozinhas, a mãe da Lurdes e a minha irmã mais velha iam connosco, era engraçado, o pai dela tinha um táxi e então íamos todas no carro (a Lurdes, a mãe, a irmã, eu e minha irmã), ele deixava-nos lá e depois ia buscar-nos”.

A separação foi muito rápida e muito difícil, entre os 16 anos de uma e os 17 da outra, e não tínhamos muito tempo para pensar no que faríamos. Os sonhos derreteram-se rapidamente. “A minha família tinha a opção de vir para o Brasil ou ir para Portugal, mas por motivo de doença, o meu pai estava a padecer de cancro e precisaria morar num país tropical, decidimos vir para o Brasil” explica Lurdes.  

Para Alzira foi uma separação muito sentida! “Pois veio-me logo à cabeça que não nos íamos ver mais, que a nossa amizade ficava por ali, porque íamos para muito longe uma da outra, eu vinha para Portugal e a Lurdes para o Brasil. Tudo isto foi em 1975, portanto há 45 anos, para mim era impensável ir ao Brasil visitar a minha amiga, pois o Brasil não era logo ali ao lado… A mãe da minha amiga (que também era muito amiga da minha mãe) ainda queria que fôssemos todos para o Brasil com eles e começávamos lá uma vida nova. Mas tal não aconteceu, porque aqui em Portugal já tínhamos pelo menos uma casinha e uns terrenos, que por ironia do destino ou não, tínhamos herdado do meu avô paterno precisamente um ano antes quando viemos a Portugal de Graciosa, e as minhas tias e o meu avô quiseram aproveitar a estadia do meu pai para fazerem as partilhas, pois não tínhamos intenção de vir a Portugal tão depressa. Fizeram-se as partilhas e o meu avô faleceu uns meses a seguir.

Se não tivesse acontecido isso era provável que também fôssemos para o Brasil com eles.

Na altura da separação não me lembro de ter havido troca de direções, só sabíamos que eram de Loulé e que iam para o Brasil, e elas sabiam que os meus pais eram de Nagosa – Moimenta da Beira”, diz Alzira, relembrando o coração apertado da altura.

A separação de duas amigas foi inevitável, e havia a incerteza por toda a parte, contudo, continuaram durante anos a alimentar a amizade por carta, que atravessavam, o atlântico, nas datas mais marcantes como aniversário ou Natal. Foram precisos 25 anos, para que no ano 2000, as amigas pudessem viver um abraço, novamente, Encontraram-se em Lamego e descrevem este momento como mágico de enorme emotividade.

Agora, passaram os sessentas, e são as novas tecnologias que facilitam as comunicações. “No começo a Alzira não tinha Facebook mas trocámos e-mails, conversávamos pelo Skype e agora conversamos por WhatsApp, por Messenger, as nossas mães também conversam e a interação ficou muito fácil”.

Foi em 2010, que estiveram juntas pela última vez.  Mas, quando acabar a pandemia, Lurdes quer voar de novo até Portugal, porque quando a amizade é verdadeira “a distância não separa, as lembranças estão sempre vivas”.

Diz a filosofia chinesa que amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas: nenhuma tempestade consegue arrancar, então como não podemos nos visitar assiduamente usamos a tecnologia a favor da nossa amizade, referem as duas.

Uma união das meninas, que foram mães e que num pequeno nada partilharão ambas a experiência da nova etapa de Alzira, ser avó. Aí Lurdes já dará umas dicas!

Como foi a separação e para onde foram?

Foi uma separação muito sentida, pois veio-me logo à cabeça que não nos íamos ver mais, que a nossa amizade ficava por ali, porque íamos para muito longe uma da outra, eu vinha para Portugal e a Lurdes para o Brasil. Tudo isto foi em 1975, portanto há 45 anos, para mim era impensável ir ao Brasil visitar a minha amiga, pois o Brasil não era logo ali ao lado…

A mãe da minha amiga (que também era muito amiga da minha mãe) ainda queria que fôssemos todos para o Brasil com eles e começávamos lá uma vida nova. Mas tal não aconteceu, porque aqui em Portugal já tínhamos pelo menos uma casinha e uns terrenos, que por ironia do destino ou não, tínhamos herdado do meu avô paterno precisamente um ano antes quando viemos a Portugal de Graciosa, e as minhas tias e o meu avô quiseram aproveitar a estadia do meu pai para fazerem as partilhas, pois não tínhamos intenção de vir a Portugal tão depressa. Fizeram-se as partilhas e o meu avô faleceu uns meses a seguir.

Se não tivesse acontecido isso era provável que também fossemos para o Brasil com eles.

Na altura da separação não me lembro de ter havido troca de direções, só sabíamos que eram de Loulé e que iam para o Brasil, e elas sabiam que os meus pais eram de Nagosa – Moimenta da Beira.

Como mantiveram apesar de todas as condicionantes a vossa amizade?

Como já tinha dito elas sabiam que éramos de Nagosa, e numa aldeia a correspondência chega com facilidade a casa das pessoas, pois toda a gente se conhece, bastava o nome e a carta era entregue ao destinatário. Foi assim que recebia primeira carta da Lurdes (mas não foi logo, ainda se passaram uns anitos). Foi com muita alegria e emoção que recebi a carta e pensei logo “a Lurdes não me esqueceu”… E a partir daí fomos mantendo o contacto através de carta. Ainda nos escrevemos durante alguns anos.

Ela já veio a Portugal 2 vezes.

As novas tecnologias aproximaram-vos ainda mais?

Sim, sem dúvida, primeiro por e-mail e depois falava com ela através do Facebook da minha filha (eu não tenho Facebook) e agora pelo WhatsApp.

Quando estiveram juntas fisicamente pela última vez?

Não sei ao certo, talvez há 7 ou 8 anos.

Para quando o próximo abraço?

No início deste ano a minha amiga estava a pensar vir cá no verão para trazer a mãe, pois como a senhora já tem idade ela não queria que a mãe “morresse” sem vir à terra, mas com isto da pandemia do Covid-19 o desejo de vir a Portugal ficou adiado, por isso neste momento é difícil prever uma data.

O que é uma verdadeira amizade?

É aquela em que ambas as partes continuam a preocupar-se uma com a outra apesar da distância e sem segundas intenções.

E como se alimenta essa mesma amizade?

É tentar fazer com que a mesma não acabe, mantendo sempre o contacto através de qualquer meio.

in Voz de Lamego, ano 90/39, n.º 4574, 8 de setembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Ensaio sobre a cegueira

Não, não é a sugestão do livro de José Saramago, ainda que, pessoalmente, goste muito dos seus livros, mas, a sugerir, talvez começasse por recomendar “A Jangada de Pedra”, pela originalidade, pela criatividade e pela história que constrói unindo as duas pátrias da península ibérica. Mas não se trata de aconselhar esta leitura, mas de partir da cegueira a que a população fica sujeita. Em pouco tempo a cegueira espalha-se. As autoridades isolam (em quarentena) os que ficam cegos. É tão surpreendente que não é possível gerir um problema que se agudiza. As decisões iniciais até parecem sensatas. É necessário isolar todos os que ficam cegos, para evitar o contágio do resto da população. Os soldados, armados até aos dentes, garantem que ninguém sai, um manicómio vazio, devoluto, murado em todo o perímetro, rapidamente convertido em aquartelamento para a quarentena. Mas também os soldados e as autoridades acabam, sem se saber como, de ficar cegos. Só restará a mulher do primeiro cego, que mantém a visão. Em alguns momentos talvez também ela desejasse não ver o que fazem as pessoas quando sabem que os outros não estão a ver! José Saramago cria parábolas muitos sugestivas, sobre o mundo atual, em vários livros como, o já citado, “A Jangada de Pedra”, “A Caverna”, “A Viagem do Elefante”, “O Homem duplicado” ou “O Ensaio sobre a Lucidez”.

A pandemia provocada pelo novo corona vírus veio suscitar uma ampla reflexão. O Papa Francisco, no momento de oração extraordinário, a 27 de março, sublinha que não era possível viver de forma saudável num mundo doente. Doente pelo egoísmo, pela prepotência, pela discriminação racial, social, cultural, religiosa. Doente pela indiferença em relação aos pobres, às pessoas e povos que vivem na miséria. Doente no exacerbado consumismo e na exploração exaustiva dos recursos naturais, sem a solidariedade intergeracional necessária para a sobrevivência do planeta. Estamos no mesmo barco e a destruição deste a todos afetará, não apenas no futuro, mas já vislumbrável nos nossos dias. A pandemia mostra que pobres ou ricos, mais novos ou mais velhos, países desenvolvidos ou em desenvolvimento, todos podem ser contaminados. Claro que os cuidados de saúde continuam a depender em grande escala do poder económico e do desenvolvimento dos povos. Milhares de pessoas morrerão de fome antes da Covid19 ou derivado a esta mas sem que haja possibilidade de verificar tal casualidade.

Sairemos diferentes da pandemia!? Melhores ou piores. Em momentos extraordinários, vem ao de cima o melhor e/ou o pior de nós. Como se tem visto! Tantos voluntários… mas continua a haver comportamentos desonestos de quem se serve das situações de precaridade para esmagar o seu semelhante! Continuamos a assistir a contendas demolidoras, a politiquices de caserna, não se discutem medidas, medem-se os ganhos político-partidários e age-se em conformidade. Há tantas pessoas que continuam a ser esquecidas!

Deveremos aprender com as adversidades! Será que voltaremos mais maduros?

E, por falar em voltar… a provocação saramaguiana, quando ninguém nos vê, ou talvez apenas Deus ou nem Deus nos veja, seremos “metade de indiferença, metade de ruindade”! E a concluir: “penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”. Inspirado ou não, estas palavras encontramo-las no Evangelho, na cura do cego de nascença, em que Jesus sublinha que há muitos que, tendo vista, não veem, continuam a prosperar no seu pecado, morrendo e mantando!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/38, n.º 4573, 1 de setembro de 2020

Chegou agosto, e vem com tempo

O nosso jornal diocesano, Voz de Lamego, tem um grupo de cronistas que nos envolvem, desafiam, nos fazem refletir, com temáticas e sensibilidades variadas, e, como facilmente se pode verificar, apontam caminhos, rasgam horizontes, comprometem-nos com a vida, com o amor, com a beleza, com a justiça e a verdade, com a bondade e a caridade, comprometem-nos na construção de um mundo mais humano, fraterno, cristão. Esta semana, contamos com uma nova cronista, a Ana Carolina Fernandes, com a sugestão que se segue:

“Chegou agosto, e vem com tempo

Chegou em sobressalto, depois de um março agitado onde a nossa sensação de tempo foi alterada. Fomos obrigados a parar. A vida como a conhecíamos em agitação, rotinas definidas, horários estipulados e correrias diárias bloqueou e mexeu, mexeu com tudo aquilo que sempre tomámos por garantido.

Revirou o nosso calendário, insistiu para que a nossa agenda não comandasse os nossos dias e deu-nos tempo.

Deu-nos tempo, aquele que sempre pedimos.

Tirou-nos muitas coisas, mas será que todas essas coisas eram verdadeiramente essenciais?

Será que não nos trouxe coisas boas também?

Será que não nos ofereceu uma nova sensação de tempo?

Vivemos uma vida inteira, com a queixa constante que gostávamos de ter mais tempo. E esquecemos uma coisa: tempo é agora.

E se o tempo é agora, agosto é hoje. Chegou quente como o conhecíamos e repentino como não estávamos tão habituados, e diz-nos que podemos viver assim. Que os dias de azáfama podem abrandar, que é tempo para “estar”, num sentido de

“estar” que a correria do dia-a-dia não nos deixava conhecer.

É “sentir” agora, num “sentir” que estava habituado a preparar o dia a seguir.

É “ser” mais, num “ser” que só queria ser melhor.

E agora pode soar a cliché, mas se há algo de maravilhoso que toda esta mudança nos trouxe foi o tempo que sempre desejámos ter. E mais do que isso, é o tempo que precisávamos. E que finalmente chegou!

E agora?

Agora só cabe a cada um de nós saber vivê-lo da melhor forma.

Pode parecer difícil e até mesmo desafiante aprender a viver de forma mais branda, com a incerteza do que aí vem, com novos medos e tantos receios, mas se calhar era mesmo isto que faltava aos dias. Para que deixem de ser só dias e passem a ser os nossos dias, no nosso tempo.

Parámos. E ainda bem que houve algo que nos obrigou a parar.

E eu só desejo que o agosto 2020, marcado por ser tão diferente, seja esperança para melhores “agostos” que estão por vir.

Porque no final de contas, todos queremos cantar “Meu querido mês de agosto, por ti levo o ano inteiro a sonhar”. Que acordemos deste sonho, para continuar a viver a vida em tempos felizes.

Chegou agosto, e vem com o TEU tempo.”

Carolina Fernandes, fisioterapeuta,

in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Não há verão como antigamente

A vida nunca se repete. Sublinham os historiadores que há acontecimentos similares, ciclos completos que são preenchidos pela evolução e por grande crescimento económico e paz social, seguindo-se a crise, a conflitualidade e o aparente fim da história, a que sucede a reconciliação e crescimento e avanço civilizacional! É também essa a dialética hegeliana, em que o filósofo (Hegel) alemão analisava a história e a vida num constante ciclo: tese – antítese – síntese. Esta visão desafia-nos, em todo o caso, a ter os pés bem assentes no chão, uma vez que na bonança temos consciência que ainda não estamos no paraíso, fazendo-nos antecipar, preparar e precaver-nos, tanto quanto possível, dos conflitos que espreitam. Por outro lado, em tempos de crise, de tempestade e trevas, conhecendo a história e os seus ciclos, é possível relativizar as contradições, assumindo que as situações de crise são oportunidade de crescimento e de evolução e, simultaneamente, sabendo que não são para sempre, pois já vivemos momentos assim que ultrapassámos, então há que manter confiança e a certeza em dias muitos felizes que estão a chegar.

Para os cristãos, todos os tempos são preenchidos da presença graciosa de Deus e têm em si a boa semente para a qual nos cabe criar as condições para que frutifique em abundância, mesmo em ocasiões muito adversas. Porém, com a certeza de que estamos a caminho, somos peregrinos e que a nossa vida não se esgota na história e não fica limitada ao tempo cronológico. Pelo que nos cabe aproveitar bem todo o tempo, sem ficarmos à espera de termos outras oportunidades ou a extensão cronológica da vida! Faço hoje, vivo hoje, comprometo-me hoje, pois amanhã posso já não estar! Atravessamos uma tempestade? Com sofrimento e sacrifício? Sim, mas cientes que Deus continua a sustentar o mundo e que nos guiará ao futuro, aqui e na eternidade.

“À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”. Palavras do Papa Francisco, no dia 27 de março, depois de subir a esplanada, deserta, da Praça de São Pedro, sintonizando com os tempos que passam, mas, igualmente, sintonizado com a presença amorosa e fiel de Deus na vida do mundo.

Estamos em pleno verão e a tempestade pandémica continua a fazer estragos, a assustar, a alterar comportamentos e a deixar muitas pessoas para trás, umas a caírem do barco, outras já fora do mesmo!

As nossas aldeias, vilas e cidades enchiam-se de pessoas nesta altura do ano, com os “emigrantes” que regressavam do estrangeiro ou de outras zonas do país. É certo que há lugares novamente pejados de migrantes e de turistas, mas nada comparado a outros anos. As festas e romarias que motivavam também a presença dos nossos conterrâneos foram suspensas e/ou adiadas para melhores dias. E, mesmo que se realizem algumas, no estrito cumprimento das normas sanitárias para o tempo da pandemia, a espontaneidade da festa não permite a mesma descontração e familiaridade.

Mas como a vida não se repete, não percamos tempo a lamentar-nos, aproveitemo-lo para nos ligarmos ainda com mais qualidade à família e aos amigos e que o distanciamento físico não seja, nem agora nem no futuro, distanciamento social!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/35, n.º 4570, 11 de agosto de 2020

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Música: Vidas suspensas pela pandemia

Por Andreia Gonçalves

A música é a arte que inspira o mundo. E neste momento estamos privados de festas e romarias, de concertos e arraiais. A vida de muitos está suspensa e é por isso que o :Voz de Lamego foi perceber o que vai na alma das vozes daqueles que fariam das festas o seu sustento financeiro e realização pessoal até ao final do verão.

Tiago Sousa – vocalista

Vocalista dos “Império Douro”, músico e um dos fundadores dos “Guitarras D’ouro”.

Tudo parou mas eu consegui tirar pontos positivos mesmo dentro deste problema todo, tive tempo para compor, escrever, dedicar-me mais a fazer originais, também aproveitar pra estudar mais um pouco a guitarra.

Mas como é óbvio sinto falta do palco. Todo este cenário deixa- me um pouco triste, porque a música é uma arte que transporta muito sentimento para as pessoas quer na alegria quer na tristeza. E este tempo sem haver concertos deixa um vazio enorme.

Com as devidas regras e se toda a gente se proteger, corretamente, penso que as coisas poderão começar, novamente, a curto prazo, a andar. Não sabemos como vai ser o futuro mas temos de manter a esperança.

Márcio Pereira – cantor

Nos meses de março e abril a media seria de 13 concertos agendados. E de um dia para o outro a pandemia COVID-19 cancelou todos eles sem sequer estarmos à espera. Numa questão de horas, dias estes cancelamos propagaram-se para maio, junho, julho, agosto. E assim se perdeu a esperança de qualquer tipo de trabalho na área da música nesta época que se adivinhava tao rica na minha carreira.

Inicialmente a sensação foi de calma como se de umas ferias se tratasse. Mas rapidamente o sentimento passou a desespero. Tanto pela falta de dinheiro como por falta de trabalho, pois não se sabe quando poderei voltar á minha rotina normal.

No entanto foram saindo leis que nos dão alternativas ou soluções (dizem eles) mas não deixa de ser uma luz ao fundo do túnel. O segredo? Não desistir, persistir e acima de tudo readaptarmo-nos à nova realidade da forma mais profissional possível.  O futuro? É a questão mais incerta que tenho neste momento. Tudo pode acontecer como não acontecer.

Filipe Sequeira – Cantor, vocalista kmusic e locutor de rádio

A pandemia veio prejudicar completamente o meio artístico. Um ano que prometia ser dos melhores, mas do dia pra noite, conseguiu ser dos piores. Ficamos todos sem trabalho, investimentos que ficaram sem efeitos, e tudo o que preparamos para este ano foi em vão.

Mesmo com todas essas dificuldades, eu continuei a trabalhar, e 2020, será dos anos especiais. Já me encontro em estúdio, com o José Carlos Monteiro, a gravar os meus primeiros singles. Com parceria do Zezito, onde já lançamos dois temas em conjunto, até um deles, gravamos um vídeo-clip na cidade de lamego.

Não será a pandemia que me irá assustar, porque tenho esperança, que para o ano, podermos voltar aos palcos e mostrar a nossa boa disposição. E dar ao público o carinho que nos merece. Sempre foi assim, e continuará a ser. Até porque a esperança é sempre a última a morrer.

Fábio Abrunhosa – Banda SPS – técnico de som

Depois que começou esta pandemia, vi tudo a ser adiado, todos os espetáculos que tinha.  Mas com o passar do tempo, os espetáculos foram mesmo, cancelados, é claro não sabia quando isto acabaria….

Em termos financeiros, aquele extra que estava à espera e que já tinha destino, desapareceu.

Depois há́ a outra parte que é não pode mos estar juntos, pois tivemos muito tempo em confinamento.

Agora já́ é um bocadinho diferente.

A vida “artística”, não é só́ espetáculos!

É o convívio, o publico, a adrenalina, a confusão, a pressa para ter tudo pronto.

E que agora não se sente há́, sensivelmente, 4 meses.

Rúben Rodrigues – Empresário e técnico de som Grupo Arkádia

De facto, fora os espetáculos que representam 60% a 80% do meu suporte financeiro tenho um pequeno espaço comercial ligado, também, à música…  Resumindo, em poucas palavras, fui afetado em 100%.

Pois, não há espetáculos, não há vendas, não há “som” para fazer, parei completamente, sendo empresário em nome individual, nem ajudas sequer foi possível ou existem sequer.

 Com esta pandemia fiquei sem espetáculos e sem vendas, pois não se consegue vender nem instrumentos nem acessórios não havendo “música”… é isto reduzido ao que estamos neste momento a passar.

Contudo sempre com esperança que dias melhores virão e que o mais breve possível se consiga recompor tudo…

in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

Portugal meu canto – reportagem com Paulo Paradela

Andreia Gonçalves em reportagem sobre Paulo Paradela, que se encontra em Salvador da Baía, no Brasil

Paulo Paradela é um cantor natural da cidade de Lamego.

Feitas as contas tem seis álbuns de originais, o último dos quais um “best off” e fez também oito participações especiais noutros álbuns. Tudo começou no concurso de imitações “Chuva de Estrelas”, e depois no “Big Show Sic”, onde os distritos de Vila Real e Viseu torciam pelo intérprete, de voz intensa, afinada e melodiosa e “nossa”. As rádios também ajudaram no caminho de Paulo Paradela. E muitos foram os espetáculos, atuações e karaokes que o cantor realizou, através da empresa, que constituiu, para viver da música, há mais de duas décadas.

Agora, o cantor português é bandeira da cidade lamecense e um agente promotor da música portuguesa, e do nosso país, em Salvador da Baía, no Brasil. Confinado nesta fase, com as três filhas e a esposa fisioterapeuta, continua a história de amor lá do outro lado do oceano, que já conta mais de duas décadas. Teve a ideia de “cantar na varanda para os meus vizinhos para lhes dar um pouco de alegria. A ideia foi bem aceite e depois de alguns diretos para as minhas redes sociais, na varanda de casa, decidi continuar dentro de casa onde a qualidade do som era bem melhor”. O último dos quais este sábado (11/07) onde Paulo interpretou “os originais para que as pessoas desfrutem das músicas da minha autoria. Tenho tido feedback de tanta gente, dado entrevistas a rádios de países latinos, como por exemplo, Colômbia e isso faz-me estar em contacto com o mundo e promover a minha arte”.

Já foram muitos os espetáculos realizados no Brasil, através do consulado português, gabinete português de leitura, atuações de música ao vivo em restaurantes e festas privadas.

Quer regressar ao nosso país, pois diz ter saudades da família e dos amigos e quer que a filha mais velha frequente uma faculdade em Portugal. Até lá faltam dois anos de aventura no país descoberto por Pedro Álvares Cabral. “Salvador tem uma grande herança dos portugueses, na construção e ornamentação da cidade, a talha dourada das igrejas, entre outras coisas mas é um país completamente diferente”. E salienta que ” quem vai de férias não conhece o país real, onde a desigualdade social é abissal”. 

“Portugal meu canto” é um espetáculo preparado para ser apresentado no Teatro Ribeiro Conceição, em Lamego, mas adiado desde março último. Contudo, o cantor acredita: “quando isto passar voltarei a dar vida a este espetáculo de alma e coração”.

in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

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COVID-19: Testemunho de Ana Catarina Fernandes – Fisioterapeuta

Sou fisioterapeuta. Gosto de cuidar, do toque, do carinho e gosto muito de estar junto dos mais velhos. Acompanhei, e vivo, a realidade de ser fisioterapeuta num Lar de Idosos, naquele que também é o meu Lar. A minha casa. E pela primeira vez, durante estes meses, tive medo de cuidar. Dizendo melhor, tive medo de não os conseguir proteger. De um vírus que chega sem avisar, que não nos dá tempo de preparação e não nos ensina como devemos agir. Deste maldito vírus que tanto medo nos deixa. Que nos impede de tocar, de abraçar, que nos dá uma distância social de segurança e diz que nos devemos proteger “estando longe”.

“Estamos longe, para podermos estar todos juntos daqui a uns tempos”, dizia aos meus utentes, em jeito de justificar o porque de não poderem receber visitas, de não poderem sair do quarto, de verem as suas rotinas alteradas… dizia eu, como se fosse assim tão simples. Como se não custasse “estar longe”, dos filhos dos irmãos, dos netos. Como se fosse fácil de perceber o porque de terem de passar os dias confinados aos quartos. Como se fosse confortável que todos à sua volta circulassem com máscara, viseira, toca, luvas. Como se fosse assim tão simples entender, que nesta fase da vida, tenham de estar afastados para estarem protegidos. E foi aqui que percebi, eles são os verdadeiros heróis.

Pela resiliência com que aceitaram estes tempos. Pela forma como vivem a mudança. E foi aqui que senti, que não podia ter medo. E (re)descobri o porque de gostar tanto de estar e trabalhar junto dos mais velhos. Têm sabedoria e amor no olhar, sorriem com os olhos e veem muito para além das máscaras que temos na cara. Já viveram uma vida inteira e estão a ensinar-nos como devemos viver o NOVO dia-a-dia.

Ensinam-nos que devemos parar, que temos de aprender a valorizar mais, a agradecer mais e a ser mais. Que cada dia é um NOVO começo. Que tem de haver tempo, para estar, para sentir e para viver.

Ensinam-me todos os dias, sorriem-me todos os dias e eu? Eu fui abençoada com a sorte de fazer parte do NOVO dia-a-dia deles. De viver estes tempos com eles, no nosso Lar.

Hoje, passados estes meses, continuo a fazer o que mais gosto: a cuidar. Desejo que eles ainda possam viver muitos NOVOS dias junto daqueles que mais amam. E agradeço por me terem deixado tirar lições tão bonitas destes tempos tão difíceis que vivemos. Juntos.

Ana Carolina Fernandes, Fisioterapeuta / Cáritas Diocesana de Coimbra

in Voz de Lamego, ano 90/32, n.º 4567, 7 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Qual a prioridade do país?

Até há pouco, a prioridade era defender a vida, custasse o que custasse. Fechámos escolas, bares, fábricas, concelhos, igrejas, proibimos visitas a lares, ajuntamentos na rua, participação em velórios e funerais, visitas aos hospitais, à cadeia. Era necessário fazer tudo para proteger os mais vulneráveis.

A prioridade foi zelar pela vida. Horas e horas gastas por médicos e enfermeiros e outro pessoal auxiliar para evitar a morte de pessoas com COVID-19, expondo-se, mas com o intuito único e sublime de cuidar da vida.

Na tempestade, o melhor das pessoas vem ao de cima, mas manifesta-se igualmente o pior.

Houve e continua a haver verdadeiros heróis… muitos no anonimado, que abriram as portas e foram ao encontro dos mais desprotegidos, a levar mantimentos ou medicamentos, e assegurando-se que não haveria pessoas esquecidas.

Agora que a pandemia parece mais controlada, mesmo que todos os dias surjam surpresas desagradáveis, o Parlamento traz-nos a temática da eutanásia como uma urgência em facilitar a morte e ajudar a morrer… até aqui havia que evitar a morte a tudo o custo… agora que já morrem menos pessoas, há que facilitar a morte, independentemente dos motivos, ou mesmo sem motivos. Até agora… não desistir de ninguém… agora que as contas estão mais equilibradas, para quê gastar recursos e energias para acompanhar aqueles que vivem em situações mais difíceis?

Para aqueles que veem a história como um eterno retorno, bem podemos dizer que a civilização parece estar a regredir até ao tempo dos faraós, dos reis e das rainhas, e dos imperadores, em que a vida valia conforme o estrato social, o género ou a idade, o poder ou o dinheiro… A vida de alguns valia pouco ou nada: escravos, mulheres, crianças, pessoas portadoras de deficiência ou simplesmente doentes, podiam ser excluídas da sociedade, maltratadas e até mortas, sem que houvesse necessidade de prestar contas… ainda há alguns países assim…

O cristianismo valorizou a vida, não a qualquer custo, mas enformada pela verdade e pelo amor, pela filiação divina. Somos filhos amados de Deus. Eu e tu. Todos. A criança, a mulher, o escravo, o grego, o chinês. Todos, sem exceção. O enfermo, o leproso, o estrangeiro. O que a todos une e identifica é a filiação divina, a dignidade de cada um, e a sua insubstituibilidade.

O direito à vida tornou-se essencial para qualquer sociedade. Foi um salto qualitativo na civilização. O direito à morte… significa que se abdica do direito à vida, por qualquer motivo ou mesmo que não haja motivo nenhum.

Será esta uma prioridade do país? Consigo coligir algumas prioridades: empregabilidade, produtividade, acesso facilitado aos cuidados de saúde, para as pessoas idosas e com menos recursos; recuperar a economia, promover uma efetiva justiça social… erradicar a pobreza; aumento significativo do ordenado mínimo nacional; pagamento do trabalho doméstico para mães/pais que optem ficar em casa a cuidar/educar os filhos, política de natalidade abrangente…

A despenalização, liberalização e promoção da eutanásia, como antes o aborto, será uma questão de dias… pois mesmo que no Parlamento não houvesse uma maioria para levar à prática esta lei, contra os estudiosos, os médicos, contra a filosofia, far-se-iam tantos referendos quantos fossem precisos até conseguirem outra maioria…

Contudo, como cidadãos e como cristãos só temos uma prioridade: amar e servir, cuidar, defender, proteger e celebrar a vida, não desistir de ninguém, não deixar ninguém para trás; salvar, curar, sarar… é a nossa missão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/30, n.º 4565, 23 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: As cores da (in)tolerância…

Somos tolerantes. Intolerantes são os outros. Ou talvez sejamos as duas coisas, dependendo dos temas com que nos deparamos!

Existam pessoas, preenchidas de humildade e sabedoria, com a elasticidade generosa para acolher e respeitar os outros, mesmo divergindo, e capazes de integrar, aprendendo, as diferenças, como riqueza e não como estorvo ou sombra!

Quando nos autocaracterizamos, somos humildes, tolerantes, frontais… e ninguém nos dá lições de moralidade, lealdade, honestidade.

Os maiores teóricos da liberdade foram os maiores ditadores… à esquerda e à direita! Hitler, Mussolini, Lenine… Bolsonaro? Países em que imperou o fascismo ou o comunismo… Portugal, Itália, Rússia, China… e ninguém lhes poderia (então) dizer que eram ditadores… pois estavam a defender os direitos dos seus povos!

No dia 25 de maio morreu George Floyd, afro-americano, depois de um polícia de Minneapolis se ter ajoelhado sobre o seu pescoço, durante oito minutos e quarenta e seis segundos, enquanto estava deitado de bruços na estrada e a dizer que não conseguia respirar. De imediato se multiplicaram as manifestações contra o racismo, o abuso de poder e a descriminação. Pena foi, novamente, que algumas minorias extremistas se apropriassem da causa, como se não dissesse respeito a todos.

Um erro… não se corrige com outro. A violência não se corrige com violência, apenas a multiplica. Se a um excesso se responde com outro, o que resulta é destruição.

As manifestações integram muitas pessoas que nada têm a ver com as causas que as provocam. É lamentável. As boas intenções de uns são adulteradas pela inconsciência, burrice e oportunismo de outros. As diversas manifestações antirracistas, relevantes e oportunas, são ensombradas e perdem o sentido quando se escolhe o caminho da violência e do desrespeito pelos outros. Há cristãos que se converteram a movimentos religiosos e queriam reescrever a pertença religiosa, apagando o registo do batismo, quase como quando um relacionamento termina e se rasgam as fotografias… como se dessa forma também a memória fosse apagada.

Como portugueses talvez tivéssemos de criar um tribunal para julgar Afonso Henriques e os reis que lhe sucederam. Talvez tivéssemos que queimar livros, romances e poemas, rasgar fotos, desgravar sons e películas… talvez precisássemos de destruir praças e monumentos e não apenas colocar-lhes outros nomes!

A história enraíza-nos no que somos, assumindo que os nossos antepassados fizeram coisas boas e outras menos boas, o que também nos acontece e aos nossos contemporâneos. Porém, não nos cabe tanto julgar ou mesmo destruir a história, sabendo que se tivéssemos vivido nesses tempos poderíamos ter sido as vítimas ou os vilões! Quem o poderá saber?!

Sem renegarmos as nossas raízes, cabe-nos construir hoje a história, contribuir para um mundo mais solidário e fraterno, lançando novas raízes que integrem e incluam solidariamente os que seguem no mesmo barco que nós. Do passado, poderemos sempre colher lições… para não cairmos nos erros que destroem, e possamos avançar e progredir num caminho de humanização e integração…

Regressemos às cores da (in)tolerância. Seremos tolerantes quando deixamos andar e não queremos saber do outro?

Seremos tolerantes quanto respeitamos desde que não nos chateiem, não nos incomodem, não nos calquem os calcanhares e não nos cheguem mostarda ao nariz?

Sou tolerante… com os meus amigos e desde que não divirjam e/ou sejam da minha cor clubística, da minha área político-partidária, pertençam à minha religião!!!

O caminho da tolerância é aceitação do outro, com as suas qualidades e fragilidades, respeitando-o como pessoa, amando e cuidando.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/29, n.º 4564, 16 de junho de 2020