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Archive for the ‘Solenidades’ Category

Tabuaço preparou e viveu festa em honra da Padroeira

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Imaculada Conceição

“É fácil ser Deus. Difícil é ser homem.”

Esta foi uma das citações, entre algumas passagens bíblicas e outras tantas “estórias”, que o Rev.º Padre Joaquim Proença Dionísio, convidado do nosso Pároco Padre Manuel Gonçalves, usou para prender a atenção dos paroquianos que, deixando o conforto das suas casas, participaram na novena da Nossa Senhora da Conceição.

Como não podia deixar de ser, o nevoeiro, que é presença habitual nestes dias, não impediu que durante nove noites as pessoas se reunissem para rezar e ouvir palavras sábias saídas do coração do orador.

Ao nono dia ouvi alguém dizer: – Podíamos prolongar a novena que continuaríamos a ouvir o Sr. Padre da mesma maneira, com o mesmo entusiasmo.

E Maria esteve sempre nas nossas orações. Ela é e continuará a ser o nosso modelo de mulher e de mãe. A sua maternidade é o princípio e fundamento de todas as grandezas de Maria: cada um dos privilégios que lhe foram concedidos são consequência da sua eleição para Mãe de Deus.

Como Mulher, aceitando a missão de ser mãe, vivendo na santidade do seu exemplo, usando a suavidade das suas consolações, vendo a eficácia das suas preces, envolvendo-se no seu manto de humildade. Como Mãe, sabia que o seu Filho estava destinado a percorrer um caminho nem sempre fácil. Participou e colaborou com Ele duma maneira muito próxima porque entendeu a Sua missão.

Também cada cristão é chamado a participar nessa vivência, a dignificar-se e aproximar-se cada vez mais do modelo de Jesus. Na comunidade, na vizinhança, no trabalho e muito especialmente na família.

“Seguir, conhecer, confiar”.

Não O vemos, não O tocamos, mas sabemos que Ele está presente e nos ouve. Saber ouvir é uma virtude. Será que nos tempos que correm sabemos ouvir? Sabemos agradecer? Sabemos pedir desculpa? Sabemos perdoar?

“Perdoar liberta!”

Estamos sempre a tempo de desenvolver atitudes de Fé e de viver os seus mistérios. A tolerância, o respeito e a compreensão são valores que devemos cultivar. Mais ainda porque neste momento vivemos tempos de intolerância e fanatismos exacerbados que levam milhares, senão milhões de pessoas em todo o mundo, a um estado de sofrimento tal que não nos devem deixar indiferentes.

Depois de nove dias de reflexão propostos pelo Sr. Padre Joaquim Dionísio, eis que os fiéis enchem a igreja de Tabuaço para a celebração em honra da Nossa Senhora da Conceição. O corpo de Bombeiros e a Banda de Sendim deram maior brilho à procissão que percorreu algumas ruas da vila com o andor de Nossa Senhora.

Os paroquianos de Tabuaço ficam à espera duma próxima visita do Sr. Padre Joaquim Dionísio, com a alegria de quem ficou com o coração cheio.

M. Cidália P. Santos, in Voz de Lamego, ano 87/06, n.º 4391, 13 de dezembro de 2016

Homilia de D. António Couto nas Ordenações Diaconais – 20/11/2016

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A ORDEM NOVA DO AMOR

  1. Amados irmãos e irmãs, a nossa Diocese de Lamego vive, neste dia 20 de novembro de 2016, um excesso de celebrações, um excesso de celebração, um condensado de júbilo, que começo por recordar: a) celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo; b) celebramos o Aniversário da Dedicação da nossa Igreja Catedral; c) celebramos a Ordenação de três Diáconos, o Ângelo Fernando, o Diogo André e o Luís Rafael; d) celebramos o Encerramento do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia.
  1. A Solenidade de Nosso Jesus Cristo, Rei do Universo, traz-nos o domínio novo do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor, que é Primeiro e Último (cf. Apocalipse 1,8). É Primeiro e será ainda Último, fazendo de tudo o resto «segundo» e «penúltimo». Na verdade, entre o Primeiro e o Último, que é o domínio do modo do Amor, instala-se o segundo e o penúltimo, que é o domínio do modo velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem, que é o modo do Amor, é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem, como o modo do Amor, não começou, portanto. O que começou foi o mal, que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania, mesquinhez, e prepotência!

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Terminaram as Festas da Cidade | Lamego 2016

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A cidade verde engalanou-se das mais diversas cores para festejar a sua Padroeira, Nossa Senhora dos Remédios. Entre os dias 25 de agosto e 09 de Setembro, um programa diversificado proporcionou momentos de encontro, de fé, de alegria e diversão. Afinal, a festa faz parte da vida e festejar é próprio do ser humano.

Com maior ou menor criatividade, mais ou menos ruas iluminadas, maior ou menor orçamento, mais ou menos trânsito, a meio ou no final da semana, com mais ou menos gente, as festas decorrem nos espaços habituais e contemplam momentos religiosos, culturais, recreativos e desportivos. O som dos grupos musicais e das bandas, o troar dos foguetes, os sons dos vendedores ambulantes, os grupos folclóricos e as concertinas, as conversas animadas e o riso contagiante, etc, animaram todos quantos aqui residem ou por aqui passaram vindos das mais diversas partes do país.

O comércio urbano beneficia destes dias e dos milhares de pessoas que sempre compram algo para levar ou se sentam para beber e comer alguma coisa. Em algumas partes da cidade, a exemplo do que acontece noutras cidades, há bares onde se exagera no consumo de álcool e onde nem sempre se questiona a idade dos consumidores. Alguns incidentes ocorridos nos últimos tempos ilustram o grau de violência a que se pode chegar quando o consumo de bebidas alcoólicas se descontrola.

A comunicação social marcou presença e a divulgação da cidade, da região, das gentes e das tradições chegou mais longe. E com os modernos meios de comunicação também ajudam a chegar mais longe em tempo record.

Estão de parabéns todos quantos se esforçaram por preparar as festas da cidade em 2016, sabendo que o ideal está sempre mais adiante. Certamente que os preparativos para as festas do próximo ano vão começar em breve. Mas isso será o trabalho de alguns que, daqui a um ano, trará oportunidade de festa a todos.

JD, in Voz de Lamego, ano 86/42, n.º 4378, 13 de setembro de 2016

Solenidade de São Sebastião | Homilia de D. António Couto

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SOLENIDADE DE SÃO SEBASTIÃO

  1. A nossa Igreja de Lamego está hoje em festa, porque celebra jubilosamente o seu Padroeiro principal, São Sebastião, e dele recebe a necessária proteção e a suprema lição da dádiva da vida. Jesus Cristo foi a sua verdadeira razão de viver… e de morrer. A sua LUZ foi intensa, o seu TESTEMUNHO imenso e descarado no meio da cidade ensonada e coroada pelos ídolos. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte, não se pode apagar o horizonte, não se acende uma LUZ para a colocar debaixo da ponte. De qualquer lugar se via, em qualquer lugar se via, que Sebastião trazia Cristo a arder no coração. Não o escondia. Por isso, o imperador romano, Diocleciano, quis fazer desaparecer este soldado de Cristo. Por isso, o fez morrer na grande perseguição desencadeada nos primeiros anos do século IV. Mas já o bom perfume do fiel soldado de Cristo se tinha espalhado pelo mundo inteiro, e frutificava em novas comunidades, de acordo com o célebre aforismo de Tertuliano: «Sangue de mártires, semente de cristãos». E frutificava cada vez mais, sobretudo em circunstâncias difíceis, quando a fome, a peste e a guerra assolavam as populações.
  1. Acorda, Lamego, não tenhas medo! Coragem! Tem confiança! Ele chama-te! E diz-te, na página de hoje do Evangelho (Mateus 10,28-33), que vales mais do que muitos passarinhos. Do menor para o maior: se Deus, nosso Pai, cuida da vida dos passarinhos, que não trabalham nem ceifam, com quanto mais carinho cuidará de nós! Como a vida do Mártir São Sebastião, também a nossa está segura nas mãos de Deus (cf. Sabedoria 3,1), tatuada nas palmas das mãos de Deus (cf. Isaías 49,16). Como a dos sete jovens irmãos Macabeus e a do velhinho Eleazar, de 90 anos, como nos mostra hoje a história edificante e exemplar do Segundo Livro dos Macabeus, Capítulos 6 e 7. Portanto, levanta-te, Lamego, Igreja amada, acariciada, não abandonada (cf. Isaías 62).
  1. E a lição da Primeira Carta de São Pedro (3,14-17), também hoje escutada, ensina-nos bem: «Estai sempre prontos, preparados, para dar, a quem vos pedir, a razão da esperança que há em vós» (1 Pedro 3,15. Dá-se a razão, como se dá o pão. Sem argumentação. Mas com a mão e o coração. Não é em vão que a lição da Carta de São Pedro diz «razão» com o termo grego lógos. Está bom de ver que o lógos bíblico não é nada nosso, não são os nossos raciocínios teóricos e abstratos, fáceis, que não doem. A razão que somos chamados a dar não é um objeto do nosso pensamento, mas uma PESSOA a nós dada: Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido de Maria, «feito Homem como nós e que veio habitar no meio de nós» (João 1,14). É Ele a razão, o Lógos, «pelo qual tudo foi feito, e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Estar prontos, preparados, para dar a razão, o lógos, da nossa esperança, é estar prontos a dar a este mundo Jesus Cristo!
  1. De resto, amados irmãos e irmãs, é de Jesus Cristo que nós precisamos e de que este mundo precisa. É Jesus Cristo que as pessoas nos pedem. Foi Jesus Cristo que São Sebastião deu ao mundo no seu tempo. É Jesus Cristo que São Sebastião, Padroeiro da nossa Diocese, nos entrega hoje. Não como um valor a conservar e guardar com todas as cautelas em alguma gaveta ou cofre-forte. Mas para nós o entregarmos generosamente aos nossos irmãos. Quando celebramos um mártir, não sobra lugar para o acidental. É Jesus Cristo que um mártir tem nos olhos e no coração. É esta herança do essencial, sem estratégias ou malabarismos, que recebemos do nosso Padroeiro.
  1. Jovem soldado, jovem mártir, São Sebastião, ensina a tua Igreja de Lamego, que proteges, a estar sempre pronta, preparada e diligente para dar Jesus Cristo aos nossos irmãos que no-lo pedem.

Fui Eu, o Senhor, que te chamei, Sebastião,

E te enviei a tirar água com alegria

Das fontes da salvação.

Tomei-te pela mão

E modelei-te,

Coloquei-te

Como aliança do povo,

Como luz das nações

E dos corações.

Vai, de casa em casa, ó aguadeiro da paz e da bondade,

Dessedenta o meu povo ressequido,

Tu és o meu servo eleito e querido,

Amado,

Consagrado,

Tu és meu!

Vai, ergue bem alto esta lumieira,

E alumia

De alegria

A terra inteira.

E quando chegares ao fim,

Volta ao começo.

Recomeça!

Que a tua paz corra como um rio,

Como um fio de luz,

Como um desafio,

De pavio em pavio,

De mão em mão,

De coração em coração.

A tua missão,

Sebastião,

É ser clarão,

E entregar a luz

De Jesus

A cada irmão. Ámen

Lamego, 20 de janeiro de 2016, Solenidade de São Sebastião,

Padroeiro principal da nossa Diocese

+ António, vosso bispo e irmão

SÃO SEBASTIÃO, PADROEIRO PRINCIPAL DA DIOCESE DE LAMEGO

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Celebrámos, neste dia 20 de janeiro, na nossa Diocese de Lamego, a solenidade do Padroeiro principal, mártir São Sebastião, o bom soldado de Cristo. O patrono escolhido deverá ser uma referência que inspire a viver o Evangelho na identificação com Jesus Cristo, morto e ressuscitado.

Quando uma terra e/ou uma comunidade escolhe um patrono isso deve-se ao seu carisma e à vontade de seguir a sua determinação e o exemplo da sua vida. Os santos mártires ganharam uma enorme projeção nas comunidades cristãs dos primeiros séculos e pelos séculos seguintes.

É nesta perspetiva que São Sebastião, Santa Eufémia, Santa Inês, Santa Luzia, São Vicente, diácono, Santa Bárbara, se impõem por todo o mundo cristão, pelo testemunho de fidelidade ao Evangelho, a Jesus Cristo, arriscando a própria vida. Foi também uma forma de catequizar as comunidades, pregar através de exemplos concretos.

A vida de São Sebastião, naquilo que a tradição assimilou e transmitiu, é um exemplo como a fé ajuda a ultrapassar os obstáculos da vida e como o cristão se pode santificar nas mais diversas profissões e/ou ocupações. Mais forte que tudo é o amor a Deus.

Descendente de uma família nobre, terá nascido em Narbona, sul de França, em meados do século III. Segundo a maioria dos estudiosos, os seus pais eram de Milão, onde cresceu até se mudar para Roma. Mas também há quem defenda que o pai era natural de Narbona e Sebastião tenha nascido em Milão.

Em nome da religião enveredou por uma carreira militar, para desse modo defender os cristãos que sofriam uma terrível perseguição. As suas qualidades são amplamente elogiadas: figura imponente, prudência, bondade, bravura, era estimado pela nobreza e respeitado por todos.

De Milão, o jovem soldado deslocou-se para Roma, onde a perseguição era mais intensa e feroz, para testemunhar a fé e defender os cristãos.

O imperador Diocleciano, reconhecendo nele a valentia e desconhecendo a sua religião, nomeou-o capitão general da Guarda Pretoriana. Animava os condenados para que se mantivessem firmes e fiéis a Jesus Cristo.

Primeiro cai nas graças do imperador, logo a defesa da fé cristã e a intercessão pelos cristãos perseguidos desencadeiam a sua morte. Cada novo mártir que surgia tornava-se um alento e um desafio para Sebastião. Foi denunciado por Fabiano, então Governador Romano. Diocleciano acusou-o de ingratidão. Foi cravado por flechas, até o julgarem morto.

A iconografia é muito plástica a seu respeito, inconfundível. São Sebastião é representado com o corpo pejado com várias setas, e surge preso a um tronco de árvore.

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Entretanto uma jovem, de nome Irene (santa Irene?) passou e verificou que ainda estava vivo. Levou-o para casa e curou-lhe as feridas. Ainda não completamente restabelecido, mas já com algumas forças e persistência voltou junto do imperador para defender os cristãos, condenando-lhe a impiedade e injustiça.

Diocleciano mandou que fosse chicoteado até à morte e depois deitado à Cloaca Máxima, o lugar mais imundo de Roma. O corpo foi recuperado e sepultado nas catacumbas da Via Ápia. Faleceu a 20 de janeiro de 288, ou 300.

Logo após o seu martírio começou a ser venerado como santo.

Testemunhou a fé, com coragem e alegria, a partir da sua vida, como jovem soldado, cristão. Daqui se conclui que a santidade é possível em qualquer trabalho, em qualquer vocação, em qualquer compromisso humano.

O tempo e o ambiente em que vivemos não é de perseguição declarada aos cristãos, mas a nossa tarefa não é mais fácil que a de São Sebastião. A sua fé confrontou-se com a perseguição, ajudando aqueles que estavam próximos de desanimar.

Quantas vezes nos deixamos contagiar por um contexto, por valores e leis contrários à fé que professamos? Quantas oportunidades para nos afirmarmos cristãos? Quantas formas de perseguição aos valores que defendemos? Quantos cristãos precisam que os animemos na sua fé, na sua caminhada espiritual?!

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Vale a pena ler e meditar um texto de SANTO AMBRÓSIO sobre o Salmo 118, apresentando São Sebastião como testemunha fiel de Cristo, e que é hoje apresentado na Liturgia das Horas:

Testemunha fiel de Cristo

É necessário passar por muitas tribulações para entrar no reino de Deus. As muitas perseguições correspondem muitas provações: onde há muitas coroas de vitória tem de ter havido muitos combates. É bom para ti que haja muitos perseguidores, pois entre tantas perseguições mais facilmente encontrarás o modo de ser coroado.

Consideremos o exemplo do mártir Sebastião, que hoje celebramos.

Nasceu em Milão. Talvez o perseguidor já se tivesse afastado, ou talvez ainda não tivesse vindo a este lugar, ou seria mais condescendente. De qualquer modo, Sebastião compreendeu que aqui, ou não haveria luta, ou ela seria insignificante.

Partiu para Roma, onde grassavam severas perseguições por causa da fé; aí foi martirizado, isto é, aí foi coroado. Deste modo, ali onde tinha chegado como hóspede, encontrou a morada da imortalidade eterna. Se não houvesse mais que um perseguidor, talvez este mártir não tivesse sido coroado.

Mas o pior é que os perseguidores não são só aqueles que se veem: há também os que não se veem, e estes são muito mais numerosos.

Assim como um único rei perseguidor emitia muitos decretos de perseguição, e desse modo havia diversos perseguidores em cada uma das cidades ou das províncias, também o diabo envia muitos servos seus a mover perseguições, não apenas no exterior, mas dentro da alma de cada um.

Destas perseguições foi dito: Todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrem perseguição. E disse ‘todos’, não excluiu nenhum. Quem poderia na verdade ser excetuado, quando o próprio Senhor suportou os tormentos das perseguições?

Quantos há que, em segredo, todos os dias são mártires de Cristo e dão testemunho do Senhor Jesus! Conheceu esse martírio aquele apóstolo e testemunha fiel de Cristo, que disse: Esta é a nossa glória e o testemunho da nossa consciência.

FONTES:

Secretariado Nacional da Liturgia;

J. H. BARROS DE OLIVEIRA (2003). Santos de todos os Tempos, Apelação: Paulus Editora

Homilia de D. António Couto na solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

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SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, RAINHA DA PAZ

  1. Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2016, tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, articulada com o Dia Mundial da Paz.
  1. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.
  1. É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus mandou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Nesta linha breve e densa aparece compendiado o mistério da Incarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada, nossa mãe na fé e na esperança. Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza.
  1. O Evangelho deste Dia de Maria (Lucas 2,16-21) guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria guardava (synetêrei) todas estas Palavras (tà rhêmata), compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, guardava todas estas Palavras, compondo-as no seu coração». Há, portanto, o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto de todos, e há também o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta qualificada de Maria. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar com ternura todas estas Palavras que acontecem e não esquecem. O verbo guardar implica atenção carinhosa, como quem leva em suas mãos uma coisa preciosa. Este guardar atencioso e carinhoso não é um ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração.
  2. O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a organizar, para melhor saborear e entender. É como quem compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida toda a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria.
  3. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 49.º Dia Mundial da Paz que se celebra, e o Papa Francisco apôs-lhe o tema «Vence a indiferença e conquista a paz». O tema é imenso, e atinge-nos a todos, pastores e fiéis leigos, em cheio, pois todos estamos imersos no lodaçal da indiferença, talvez a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo soturno. Na verdade, nesta «noite do mundo» em que domina o princípio da necrofilia, a nefasta atração pela morte, tudo nos aparece sem rosto e sem rumo. Só com fumo. É preciso, portanto, abrir os olhos, dar asas aos nossos sonhos belos, dar as mãos e ter a coragem de recomeçar. Que não nos fechemos no mundo egocêntrico, egolátrico e autorreferencial da hipertrofia do «eu» que pensa que se basta a si mesmo, e não precisa de nada nem de ninguém. Contra a sedução das ideologias, que não salvam ninguém, de reduzir o mundo a três dimensões – comprimento, largura e altura –, anulando o horizonte de Deus, o Papa Francisco exorta ainda a família, a escola, a política, os media a remarem juntos para construir novas atitudes e novas relações estáveis e felizes, assentes na gratuidade, na fraternidade e no amor, novos cenários que proporcionem que chegue a todos os homens o mundo belo que Deus a todos reparte dia após dia. E é sempre bom lembrar que a justiça é o sabor que vem de Deus, e a paz não é a paz romana, assente no poder das armas, nem a paz do judaísmo palestinense, assente nos acordos entre as partes. A paz é um Dom de Deus! A paz é Jesus! Portanto, mais do que conquistá-la, é preciso recebê-la. Recebê-la e dá-la.
  1. De Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Nm 6,24-26).
  1. Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.
  1. Mãe de Deus, Senhora da Alegria, Mãe igual ao Dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de Janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.
  1. Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre sob o olhar de Deus, sempre também a olhar por Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste sempre que Deus também é pequenino. Amor, mais Amor, mais Amor. Nenhuma indiferença te habitava. Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»! Por isso, nós te proclamamos «Bem-aventurada»!
  1. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, nos abençoe também.

Que Deus nos abençoe e nos guarde,

Que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

Que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

Cheios de amor, de paz e de alegria,

Que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

E nos ponha no caminho de Maria.

Desça de mansinho o orvalho do céu,

Desça de mansinho à nossa terra lavrada,

Chuva cristalizada em sementes de paz e de amor,

Desça de mansinho e germine o Salvador.

Ele é a nossa paz.

Acolhe-o, como Maria, no regaço,

Acerta por Ele o pulsar do coração,

E corre sobre este chão de terra lavrada,

Semeada de paz e de pão.

Vai, minha irmã, meu irmão,

Sonha e dança sobre este chão cheio de céu,

Corre, como Maria, sobre os montes,

Vence a apatia,

Bebe as fontes,

Anuncia a paz,

Rasga horizontes,

Abraça os estilhaços,

Refaz as pontes.

Não cedas nunca à indiferença:

É uma doença que mata o coração.

Vence-a,

Afaga rosto a rosto,

Mão a mão,

Irmão a irmão.

E não te esqueças

Da paz e do perdão.

Nossa Senhora da Paz,

Ensina-nos como se faz. Amém.

Igreja Catedral de Lamego, 1 de Janeiro de 2016, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e Dia Mundial da Paz.

+ António, vosso bispo e irmão

NATAL: Manifestação da misericórdia de Deus

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«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9, 1). Esta afirmação do profeta Isaías abre a liturgia da Palavra da noite de Natal. É assim que se apresenta ao mundo o nascimento do Salvador: uma luz que ilumina as trevas e que enche de esperança aqueles que a contemplam.

O Natal é luz. É uma irrupção da luz de Deus neste nosso mundo cheio de trevas. Trevas exteriores: violências, guerras, ódios, irmãos que não se perdoam, não se falam, não convivem, não se aceitam mutuamente.

E trevas interiores: ressentimentos, mágoas, abandono da oração, da confissão, da missa dominical, da formação cristã, das obras de misericórdia, da preocupação pelos que temos ao nosso lado.

Neste Ano Santo da Misericórdia, somos chamados a olhar para o “sinal” do Natal ― «um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12) ― como uma das manifestações mais maravilhosas da misericórdia de Deus para connosco.

Precisamos voltar a contemplar o mistério do nosso Deus que Se faz uma criança para que nos aproximemos d’Ele cheios de confiança.

Este mistério de misericórdia é, como diz o Papa Francisco, fonte de alegria, de serenidade e de paz. Três dons que o nosso coração anseia! E que, no meio da correria do dia-a-dia, parecem cada vez mais difíceis de alcançar.

Fomento desejos concretos de me aproximar de Deus neste Natal? De abrir as portas do meu coração para que Ele possa entrar? De estar mais atento àqueles que estão ao meu lado?

Que a luz deste Natal ilumine de verdade as nossas almas! Que o Menino Jesus encontre em cada um de nós um coração bondoso e aberto! Um coração que Ele possa encher de misericórdia para com todos aqueles que nos rodeiam!

 

Pe. Rodrigo Lynce de Faria, in Voz de Lamego, ano 85/55, n.º 4343, 22 de dezembro