Arquivo

Archive for the ‘Papa Francisco’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Em busca do que somos

Não podemos voltar ao passado, mas devemos tornar-nos aquilo que somos como pessoas. É o desafio permanente do cristão, tonar-se aquilo que é pelo batismo, filho amado de Deus. Estamos enxertados em Cristo, morremos com Ele e com Ele ressuscitamos novas criaturas, ajustando a nossa vida com a d’Ele e fazendo com que a nossa vontade esteja sincronizada com a d’Ele. É também essa a missão de Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). O discipulado consiste em O seguir. “Como O Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós” (Jo 20, 21), “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando” (Jo 15, 14).

Vamos iniciar um novo ano litúrgico e cada novo ano, seja civil, seja, neste caso, litúrgico, desafia-nos a avaliar o caminho percorrido e a traçar propósitos que nos façam avançar, confiantes, seguros e disponíveis para lidar com o dia a dia, com as suas adversidades e com as suas bênçãos, comprometendo-nos, mais e mais com aquilo que nos torna mais humanos, mais cristãos, comprometidos na transformação do mundo, o que passa pela nossa conversão. Parar é morrer. Mais vale, como muitas vezes nos tem dito o Papa Francisco acerca da Igreja, mais vale sair e ter um acidente do que ficar parado a ganhar mofo. É a nossa condição humana. É a nossa vocação cristã. No dizer de Blaise Pascal, “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Fomos criados por Deus para as alturas, para coisas grandiosas. A nossa condição humana pode transparecer egoísmo, mas a nossa identidade primeira, o primeiro amor, de Deus por cada um de nós, desafia-nos a acolher o Seu projeto: sermos felizes. Como disse o Santo Padre aos jovens: “Não fomos feitos para sonhar os feriados ou o fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo. Ele tornou-nos capazes de sonhar, para abraçar a beleza da vida. E as obras de misericórdia são as obras mais belas da vida”.

A nossa busca, incessante, é voltar, não atrás, mas a efetivar o que somos em potência, pela graça do Batismo. É sugestiva a música da dupla Carlos Tê/Rui Veloso: “Nunca voltes ao lugar / Onde já foste feliz / Nunca mais voltes à casa / Onde ardeste de paixão / Só encontrarás erva rasa / Por entre as lajes do chão / Nada do que por lá vires / Será como no passado / Não queiras reacender / Um lume já apagado / Por grande a tentação / Que te crie a saudade / Não mates a recordação / Que lembra a felicidade / Nunca voltes ao lugar / Onde o arco-íris se pôs / Só encontrarás a cinza / Que dá na garganta nós”.

A Nicodemos, Jesus responde precisamente: “Quem não nascer de novo, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3, 3.5). São elucidativas as palavras do Papa, no último domingo [ver homilia, página 7]: “A vida é o tempo das escolhas vigorosas, decisivas e eternas. Escolhas banais levam a uma vida banal; escolhas grandes tornam grande a vida. De facto, tornamo-nos naquilo que escolhemos, tanto no bem como no mal. Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos rancorosos; se escolhemos passar horas no telemóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, vamo-nos tornando dia a dia mais amáveis e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/03, n.º 4585, 24 de novembro de 2020

Editorial Voz de Lamego: Esquecer a morte é morrer

Atravessamos o mês de novembro, mês das almas. Iniciámo-lo com a Solenidade de Todos os Santos e com a Comemoração dos Fiéis Defuntos. Dois dias que nos falam especialmente do fim, mas também de um caminho que nos levará à presença definitiva junto de Deus.

São dias, ou um mês, em que o cemitério recebe mais visitas, ainda que haja quem o faça muitas vezes. Alguns porque ainda não conseguiram recompor-se da “partida”, outros, porque fizeram disso um ritual de luto, pois sabem que existiu uma história que as levou ali, mas não acaba ali. Pessoas que, mesmo recompostas, recordam e saúdam aqueles com quem construíram a vida e partem da visita ao cemitério com a certeza de que vida continua, com novas memórias, que não destroem as anteriores, mas que permitem viver com gratidão e firmeza.

A comemoração dos fiéis defuntos, em particular, recorda-nos da fragilidade e finitude; é oportunidade de gratidão para com aqueles que nos trouxeram à vida e nos legaram valores, nos introduziram na sociedade, nos enxertaram na fé. É um desafio a construirmos um mundo melhor, mais fraterno e saudável, para o “passarmos” aos nossos filhos e netos, para que também eles construam a história.

Aproveitando as memórias das redes socias, recuperamos uma intervenção do Papa Francisco, há pouco mais de um ano que nos faz refletir sobre a morte, sobre o fim. “É a morte que permite que a vida permaneça viva! É o fim que permite que uma história seja escrita, um quadro pintado, que dois corpos se abracem”. Mas o fim, alerta o Santo Padre, “não está só no final. Talvez devêssemos prestar atenção a cada pequeno fim da vida quotidiana. Não só no final da história, que nunca sabemos quando termina, mas no final de cada palavra, no final de cada silêncio, de cada página que se escreve. Só uma vida que é consciente deste instante que termina, torna este instante eterno”.

Quando visitamos um cemitério, quando participamos num funeral, quando vemos morrer aqueles que caminham ao nosso lado, mais facilmente nos lembramos que um dia também o nosso fim chegará. Lamentamos, tomamos consciência que há muitas coisas que não valem a pena. Mas passa o momento e voltamos aos nossos afazeres, preocupações e azáfamas.

Vale a pena prosseguir com a reflexão do Papa, que nos diz que a morte nos faz saber da impossibilidade de ser, compreender e englobar tudo, “é uma bofetada na nossa ilusão de omnipotência. Ensina-nos na vida a relacionarmo-nos com o mistério. A confiança de pular no vazio e perceber que não caímos, que não afundamos, que desde sempre e para sempre há Alguém ali para nos sustentar. Antes e depois do fim”. O mundo atual sacraliza a autonomia, a autossuficiência, a autorrealização, centra-nos em nós, faz-nos pensar que somos o fim, que não adianta pensar no final, o que faz com que vivamos como se fossemos os donos disto tudo, agindo como nos dá na real gana, sem pensarmos no fim. “Uma cultura que esquece a morte começa a morrer por dentro. Aquele que esquece a morte já começou a morrer. As três mortes que nos esvaziam a vida! A morte de cada instante. A morte do ego. E a morte de um mundo que dá lugar a um novo. Lembrai-vos, se a morte não tem a última palavra, é porque na vida aprendemos a morrer pelo outro”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/47, n.º 4582, 3 de novembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Fraternidade, fonte de liberdade e igualdade

Esta é uma das expressões do nosso Bispo, na missa crismal, no dia 5 de outubro, e que deu tom e cor à sua homilia, partindo da recente Carta Encíclica do Papa Francisco “Fratelli Tutti”, todos irmãos.

A receção ao documento do Papa vai-se fazendo, dentro e fora do âmbito da Igreja, com diferentes sublinhados e, como sempre, algumas polarizações. Ao nosso jornal também vão chegando algumas reflexões que incidem ou partem desta Carta.

São Francisco de Assis desafia-nos a tratar como irmãos o Sol, o mar, o vento, os passarinhos, e irmão de todos, a começar pelos pequeninos, pobres, doentes, abandonados, descartados, dos últimos, pois essa foi a opção de Jesus, essa há de ser a opção preferencial dos cristãos. Diz o Papa, “a fidelidade ao seu Senhor era proporcional ao amor que nutria pelos irmãos e irmãs”.

O nosso Bispo, na missa crismal e, no passado sábado, nas Jornadas Nacionais de Catequistas, sublinhou que a fraternidade é o sustentáculo da igualdade e da liberdade, sugerindo que ao tríptico da revolução francesa e do iluminismo deveria subtrair a fraternidade. E porquê? Porque se Deus foi retirado da equação, então não há como justificar, defender ou propor a fraternidade. Sem Deus, sem Pai, não há filhos! Se não temos um Pai comum, não podemos ser irmãos. A fraternidade supõe a filiação. Se não somos filhos, como é que poderemos ser irmãos, construir a fraternidade (comunidade de irmãos).

Claro que, sem fraternidade, a igualdade e a liberdade não têm um fundamento sólido, duradouro e definitivo. Com efeito, a fraternidade é o cimento da igualdade e da liberdade. Se não somos irmãos, porquê preocupar-nos com estranhos? Refira-se ainda assim que a sobrevivência do mundo depende de todos, o bem ou o mal que faço vai afetar o outro, vai decidir que o mundo é destruído ou se é contruído.

Do mesmo modo a liberdade. Se a liberdade se apoia em mim ou em ti, se se apoia nas normas de um país ou de uma ideologia, será uma liberdade a prazo, pois basta mudar a pessoa que tem mais poder para que também esta adquira outras feições. Sem a fraternidade, a lei do mais forte ganha terreno, manda quem pode.

“Como crentes, diz-nos o Papa, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo á fraternidade” (272).

D. António, por sua vez, salienta que a raiz da fraternidade e essência da família é o amor eterno e verdadeiro. E o lugar humana onde se manifesta a fraternidade é a família. “Os filhos, não deixando de ser diferentes na ordem do nascimento, da saúde, da inteligência, temperamento, sucesso, são iguais, e são iguais não obstante as suas acentuadas diferenças; são iguais, não em função do que são ou do que têm ou do que fazem, mas em função daquilo que lhes é dado e feito; são diferentes mas são iguais, são iguais não devido a isto que fazem, ao seu currículo e ao seu trabalho, mas devido ao amor dos seus pais, que os faz iguais, que os torna iguais”. E também em função do amor fontal de Deus Pai, somos filhos de Deus, filhos no Filho, é esse amor primeiro que que nos torna livres e iguais. Deus não tem netos nem sobrinhos. Somos todos irmãos, porque somos todos filhos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/46, n.º 4581, 27 de outubro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Eis-me aqui, envia-me

Este é o tema escolhido pelo Papa Francisco para sua Mensagem do Dia Mundial das Missões, no próximo domingo, 18 de outubro. (A mensagem encontra-se na página sete do jornal e na nossa página: http://www.diocese-lamego.pt).

O Senhor questiona: quem enviarei? «Eis-me aqui, envia-me» (Is 6, 8). É a resposta do Profeta Isaías, clarificador e resoluto, apesar do ambiente adverso.

O Santo Padre parte das tribulações e desafios que nos coloca a pandemia do covid-19, convocando-nos à esperança e ao compromisso solidário. A oração, diz-nos o Papa, abre-nos o coração aos outros, sintonizando-nos com o coração de Deus, que nos ama a todos. “Celebrar o Dia Mundial das Missões significa também reiterar que a oração, a reflexão e a ajuda material das vossas ofertas são oportunidades para participar ativamente na missão de Jesus na sua Igreja. A caridade manifestada nas coletas das celebrações litúrgicas do terceiro domingo de outubro tem por objetivo sustentar o trabalho missionário, realizado em meu nome pelas Obras Missionárias Pontifícias, que acodem às necessidades espirituais e materiais dos povos e das Igrejas de todo o mundo para a salvação de todos”.

Na cruz, Jesus realiza a Sua missão, revelando que Deus nos ama a todos e a cada um, pedindo-nos a disponibilidade para sermos enviados. “Por amor dos homens, Deus Pai enviou o Filho Jesus (cf. Jo 3, 16). Jesus é o Missionário do Pai: a sua Pessoa e a sua obra são, inteiramente, obediência à vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; 6, 38; 8, 12-30; Heb 10, 5-10). Por sua vez, Jesus – crucificado e ressuscitado por nós –, no Seu movimento de amor atrai-nos com o seu próprio Espírito, que anima a Igreja, torna-nos discípulos de Cristo e envia-nos em missão ao mundo e às nações”.

A missão deriva do amor de Deus. Deus, porque nos ama, é um Deus em movimento, em saída.

“Deus é sempre o primeiro a amar-nos e, com este amor, vem ao nosso encontro e chama-nos. A vida humana nasce do amor de Deus, cresce no amor e tende para o amor. Ninguém está excluído do amor de Deus e, no santo sacrifício de seu Filho Jesus na cruz, Deus venceu o pecado e a morte (cf. Rom 8, 31-39). Para Deus, o mal – incluindo o próprio pecado – torna-se um desafio para amar, e amar cada vez mais (cf. Mt 5, 38-48; Lc 23, 33-34). A Igreja, sacramento universal do amor de Deus pelo mundo, prolonga na história a missão de Jesus e envia-nos por toda a parte para que, através do nosso testemunho da fé e do anúncio do Evangelho, Deus continue a manifestar o seu amor e possa tocar e transformar corações, mentes, corpos, sociedades e culturas em todo o tempo e lugar”.

A concluir, parte da letra do Hino Outubro Missionário 2020, da Banda Jota: “Senhor… Envia-me a anunciar o Teu amor / Deixarei o meu egoísmo para partir / Serei um pedaço de Ti no outro / Serei um discípulo, irei servir / Uma mão cheia e aberta para dar / Serei um abraço a viver em missão / Procurarei o outro para Te encontrar / Deixarei que sejas Tu a viver em mim / SEREI UM SIM por dentro do Teu sim”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/44, n.º 4579, 13 de outubro de 2020

Fratelli Tutti

Na memória de São Francisco de Assis, o Papa Francisco presenteou-nos com a nova carta encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e a amizade social.

O primeiro capítulo retrata a sociedade atual: as novas formas de colonização cultural, a luta de interesses que coloca todos contra todos, a cultura do descarte de alimentos e de seres humanos, a injustiça de um modelo económico fundado no lucro, a cultura do conflito e do medo. O Papa Francisco faz ainda referência à tragédia que trespassa o nosso mundo, a pandemia do COVID-19, e a forma como desmascarou a nossa vulnerabilidade e a necessidade de pertença como irmãos; a falta de dignidade de que sofrem os migrantes e refugiados, entre muitos outros pontos interessantíssimos.

Numa das referências a São Francisco “escutou a voz de Deus, escutou a voz dos pobres, escutou a voz dos enfermos, escutou a voz da natureza. Transformou tudo isso num estilo de vida.” O Santo Padre sublinha que não devemos perder a capacidade de escuta!

Esta atitude de São Francisco consegue ser simples e complexa, antiga e tão atual, tão evidente, tão necessária no dia de hoje.

Não poderiam muitos males ser resolvidos e/ou minimizados se todos estivéssemos à escuta? Deus deu-nos dois ouvidos, mas insistimos em utilizar demasiado a única boca para debitar ideias e mais ideias. sem agir e sem perceber o que se passa em redor.

Não queremos ouvir para não ver, não sentir as dificuldades do outro. Se não tivermos conhecimento, não temos de fazer nada pelo outro, podemos continuar a nossa vida medíocre!

Parar e ouvir quem nos dirige a palavra é um sinal de respeito, mas mais ainda, quando ouvimos o silêncio e o sofrimento do outro, e da própria natureza. Quantas vezes nem paramos para nos ouvir a nós? Quantas vezes vivemos a correr iludidos num “mundo ideal”, que queremos mostrar aos outros, e não paramos para perceber quem somos, o que estamos aqui a fazer, e ter consciência de nós próprios?

Parar e ouvir! Simples! Mas nós, nem paramos, nem ouvimos. Parecia que estávamos a melhorar o nosso modo de ser com os acontecimentos da pandemia, mas rapidamente voltámos ao que éramos, quando é urgente viver um mundo novo, uma vida nova, e não voltar para o “normal doentio” a que estávamos presos, como diz o nosso Bispo na nova Carta Pastoral, ABRIR E SEMEAR SULCOS DE PAZ E ESPERANÇA.

É urgente viver em comunidade, como uma verdadeira comunidade! Nesse modo de viver, é imperativo saber escutar para poder ser ouvido! É urgente aprender a viver com fraternidade e amizade social, abrindo e semeando sulcos de paz e esperança.

Que possamos, brevemente, colher o fruto da nossa mudança, da nossa escuta.

Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 90/43, n.º 4578, 6 de outubro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Todos irmãos

“Fratelli tutti” é a terceira Carta Encíclica do Papa Francisco, assinada em Assis, no passado sábado, e disponibilizada neste domingo, 4 de outubro, dia em que a Igreja recorda a figura de São Francisco de Assis, de quem o Papa escolheu o nome para o seu pontificado e em quem se inspirou para escrever esta encíclica, de cariz social, tal como também se tinha inspirado para escrever a “Laudato Si’”, mais ambientada na ecologia.

Os pobres, os excluídos, as periferias geográficas mas sobretudo existenciais têm merecido uma atenção insistente no seu pontificado. No Conclave, que o elegeu como Papa, o primeiro a abraçá-lo, o Cardeal brasileiro Cláudio Hummes, confidenciou-lhe: não te esqueças dos pobres. Foi este desafio que levou o Papa argentino a escolher o nome de Francisco, sublinhando o despojamento do santo de Assis.

Uma sociedade onde há excluídos, onde há pobres, é uma sociedade desequilibrada, em tensão, com muito combustível para a revolta, para o conflito, para a explosão. O mundo técnico e científico fez avançar a humanidade, facilitando a vida das pessoas e das nações, tornando-nos vizinhos. Porém, como relembrou Bento XVI, (com os meios de comunicação social atuais) somos vizinhos, mas não irmãos. É a fraternidade e amizade (social) que o Papa Francisco pretende com esta encíclica e com todas as intervenções.

O título, como explica o Papa, foi retirado das “Admoestações” de São Francisco de Assis, Palavras “para se dirigir a todos os irmãos e irmãs e lhes propor uma forma de vida com sabor ao Evangelho” (1).

Como pano de fundo imediato, a pandemia do novo coronavírus e consequente Covid-19, que irrompeu de forma inesperada, precisamente quando o Santo Padre estava a escrever esta carta. A emergência sanitária acentuou muitas debilidades da sociedade. “A Covid-19 deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Por cima das várias respostas que deram os diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto”.

No dia 27 de março, no momento extraordinário de oração, numa tarde carregada de nuvens, numa praça de São Pedro levemente iluminada e soberbamente deserta, ecoaram, pela rádio, pela televisão e pelas redes sociais, a oração e a palavras do Papa, realçando o facto de estarmos no mesmo barco, como fôramos surpreendidos pela tempestade, numa interpelação renovada a confiar no Senhor, mas igualmente a agir solidariamente, procurando que ninguém ficasse, que ninguém fique, para trás, esquecido, relegado pela origem ou pela condição social.

Passado este tempo, é fácil de ver que nem tudo correu bem, apesar de tantos que se esforçaram, que se esmeraram para cuidar das pessoas e salvar vidas. A fila dos excluídos continua a aumentar, os refugiados continuam a ver adiado o futuro, os países pobres continuam a depender das migalhas que caem da mesa dos ricos e sendo obrigados a seguir as políticas dos dadores.

Em contrapartida “é possível desejar um planeta que garanta terra, teto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz, e não a estratégia insensata e míope de semear medo e desconfiança perante ameaças externas”.

A divulgação desta encíclica rapidamente se espalhou por todo o mundo. Cabe-nos agora fazer a sua receção, refletindo, como fazemos já na edição desta semana da Voz de Lamego, procurando torna-la consequente, fazendo com os desafios sejam concretizados e as “admoestações” não fiquem apenas no papel.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/43, n.º 4578, 6 de outubro de 2020

Jubileu da Terra: Recordar, regressar, repousar, restaurar e jubilar

Editorial da Voz de Lamego, edição de 8 de setembro de 2020

No dia 1 de setembro, celebrámos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, abrindo o Tempo da Criação que se conclui a 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. O tema escolhido para este ano, pela família ecuménica, foi um “Jubileu pela Terra”, no quinquagésimo aniversário do Dia da Terra. O Santo Padre, na sua Mensagem para este Dia Mundial, publicada/divulgada nesse mesmo dia, contextualiza: “Na Sagrada Escritura, o Jubileu é um tempo sagrado para recordar, regressar, repousar, restaurar e rejubilar”.

A mensagem completa está disponível, por exemplo, na página da nossa diocese: www.diocese-lamego.pt. Alguns sublinhados a partir dos verbos escolhidos pelo Papa:

RECORDAR. “O jubileu é tempo de graça para recordar a vocação primordial da criação: ser e prosperar como comunidade de amor… Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra”.

REGRESSAR. “O Jubileu é tempo de regresso a Deus nosso criador amoroso. Não é possível viver em harmonia com a criação, sem estar em paz com o Criador, fonte e origem de todas as coisas… o Jubileu convida-nos a pensar novamente nos outros, especialmente nos pobres e nos mais vulneráveis… o Jubileu é tempo para dar a liberdade aos oprimidos e a quantos estão acorrentados aos grilhões das várias formas de escravidão moderna, nomeadamente o tráfico de pessoas e o trabalho infantil. Além disso precisamos de voltar a ouvir a terra… Hoje, a voz da criação incita-nos, alarmada, a regressar ao lugar certo na ordem natural, lembrando-nos que somos parte, não patrões, da rede interligada da vida”.

REPOUSAR. “Durante o Jubileu, o Povo de Deus era convidado a repousar dos seus trabalhos habituais, para deixar que a terra se regenerasse e o mundo reentrasse na ordem. Hoje precisamos de encontrar estilos de vida équos e sustentáveis, que restituam à Terra o repouso que lhe cabe, vias de subsistência suficientes para todos, sem destruir os ecossistemas que nos sustentam. De algum modo a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis… Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores. Devemos examinar os nossos hábitos no uso da energia, no consumo, nos transportes e na alimentação”.

RESTAURAR. “O Jubileu é um tempo para restaurar a harmonia primordial da criação e para curar relações humanas comprometidas. Convida a restabelecer relações sociais equitativas, restituindo a cada um a sua liberdade e os bens próprios, e perdoando as dívidas dos outros. Por isso não devemos esquecer a história de exploração do Sul do planeta, que provocou um enorme deficit ecológico, devido principalmente à depredação dos recursos e ao uso excessivo do espaço ambiental comum para a eliminação dos resíduos. É o tempo duma justiça reparadora”.

REJUBILAR. “É uma alegria ver tantos jovens e comunidades, especialmente indígenas, na linha da frente para dar resposta à crise ecológica. Apelam por um Jubileu da Terra e um novo começo, cientes de que «as coisas podem mudar» (Laudato Si’, 13)… Continuemos a crescer na consciência de que todos moramos numa casa comum enquanto membros da mesma família!”

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/39, n.º 4574, 8 de setembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: De que adianta ir à Lua?

Todas as semanas disponibilizamos, na Voz de Lamego, palavras proferidas pelo Papa Francisco, contextualizando os momentos e os encontros. Nesta semana teremos oportunidade de ler e refletir, entre outras, as palavras que precederam e introduziram a oração mariana do Angelus, no passado sábado, 15 de agosto, na Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.

É a partir dessas palavras que desejo refletir convosco. Serão palavras incisivas se previamente estivermos dispostos a escutar, a meditar e a encontrar brechas na nossa vida que permitam encaixá-las com alegria. Como cristãos não nos cabe, primeiramente, dizer o que diz o Papa. É o próprio a dizê-lo a bispos e a padres, desafiando-nos, nas homilias, a falarmos do Evangelho, de Jesus Cristo, mostrando, com palavras, imagens, exemplos, a alegria de sermos cristãos, deixando-nos guiar pela postura de Jesus, pela Luz da fé, que conduz à verdade, nos faz ver os irmãos necessitados e abre o nosso coração à vivência das obras de misericórdia.

Porém, vale a pena fixar-nos na imagem que o Papa utilizou na alocução que precedeu o Angelus. Relembrou a frase dita quando o primeiro homem – Neil Armstrong – pisou a Lua: «Este é um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade». Era um marco importantíssimo para a história. Na altura, este acontecimento foi comparado à descoberta do caminho marítimo para a Índia, por parte dos portugueses, mormente com a figura de Vasco da Gama. A partir desta frase o Papa sublinhou um acontecimento maior: “Na Assunção de Maria ao Céu, celebramos uma conquista infinitamente maior. Nossa Senhora colocou os pés no paraíso: ela foi lá não só em espírito, mas também com o seu corpo. Este passo da pequena Virgem de Nazaré foi o grande salto, para frente, da humanidade”.

E conclui, dizendo: “De pouco adianta ir à lua se não vivermos como irmãos na Terra”. E poderíamos dizer nós, de que adianta amar o mundo inteiro, as pessoas, os animais e a natureza se não somos capazes de cuidar dos nossos familiares e dos vizinhos?

Vivemos um tempo diferente. Todos os tempos são diferentes, pois a vida não se repete, a história não volta atrás, o relógio não permite recuar o tempo. Não temos outro tempo que não seja o de hoje, o que Deus nos dá. O que passou é memória e raiz. O que está para vir é de esperança (e expetativa), mas deixa de o ser quando o alcançamos e/ou se chegarmos lá!

Temos de nos colocar à escuta, com os olhos do coração, para perscrutarmos a presença de Deus nos acontecimentos e, sobretudo, nos nossos irmãos, especialmente os que carregam o peso da idade e da solidão, da doença e do abandono, aqueles cujas vidas são desvalorizadas ou sacrificadas no altar da liberdade e da comodidade.

Concluímos com as palavras do Santo Padre, que salienta que Maria “coloca Deus como a primeira grandeza da vida. Daqui nasce o Magnificat, daqui nasce a alegria: não da ausência de problemas, que mais cedo ou mais tarde chegam, mas a alegria nasce da presença de Deus que nos ajuda e está perto de nós. Porque Deus é grande e olha para os pequenos. Somos a sua fraqueza de amor: Deus olha e ama os pequenos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: O Evangelho de Nazaré e de Lampedusa

Papa Francisco, presidiu à celebração da Santa Missa, em Lampedusa, a 8 de julho de 2013

Completaram-se sete anos desde que o Papa Francisco se deslocou a uma das periferias da Europa, à Ilha de Lampedusa, lugar de refúgio de milhares de pessoas que abandonaram a sua terra em busca de uma vida melhor, a fugir da guerra, da pobreza, da perseguição. A Ilha italiana é um dos pontos de entrada para a Europa; e um lugar para manter “isolados” do mundo os que se atrevem a embarcar para um futuro incerto.

A eleição do Papa Francisco, oriundo da Argentina, define por si só, uma periferia que é colocada no centro da Europa, no centro do mundo, da sociedade e da Igreja. O então Cardeal Jorge Mario Bergoglio agita as águas na intervenção que faz no conclave que viria a elegê-lo, mostrando que a Igreja, para ser fiel a Jesus Cristo, tem de se descentrar e ser Igreja em saída, indo às periferias, não apenas geográficas, mas sobretudo existenciais. Uma Igreja autorreferencial tende a adoecer, tornando-se inútil, anquilosada, desnecessária. A Igreja está para Cristo como a Lua para o Sol. A lua não tem luz própria, mas é um astro luminoso porque espelha e projeta a luz do Sol. Assim a Igreja, não se anuncia a si mesma, mas a Cristo e ao Seu Evangelho de amor. Cabe-lhe viver, seguir e testemunhar Jesus, tornando-O acessível a todos.

Após a eleição, Bergoglio escolheu, como patrono e referência, São Francisco de Assis. Os pobres, a identificação a Cristo pela pobreza e pelo despojamento, e as questões ambientais… programa do Papa Francisco, com o seu dinamismo latino, e, obviamente, a identidade da Igreja que quer estar onde Cristo deve estar, junto dos mais pobres.

Escolheu para primeira viagem apostólica, a 8 de julho de 2013, a Ilha de Lampedusa para se encontrar com os mais pobres dos pobres, pessoas sem teto, sem pátria, sem um futuro definido e, ao mesmo tempo, para rezar por todos quantos morreram a tentar passar o mar atlântico.

Palavras incisivas do Papa: “neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença… acostumamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é assunto nosso!  Foi-nos tirada a capacidade de chorar”. Pediu “perdão pela indiferença para com tantos irmãos e irmãs, perdão para aqueles que se acomodaram e se fecharam no seu próprio bem-estar, o que leva à anestesia do coração, perdão para aqueles que com suas decisões globais, criaram situações que levam a esses dramas”, para que o mundo tenha “a coragem de acolher aqueles que buscam uma vida melhor”.

Passaram sete anos. O Santo Padre assinalou o aniversário na passada quarta-feira, 8 de julho, na Eucaristia celebrada na Capela de Santa Marta, recordando a viagem como um desafio permanente contra a globalização da indiferença. Esta pandemia acentuou ainda mais as periferias, a pobreza, as desigualdades sociais, o isolamento dos mais vulneráveis… Em Nazaré, um carpinteiro, vive de forma simples, discreta e humilde, em família e em comunidade, até ao dia em que Se faz batizar, deixando-Se impelir pelo Espírito Santo, indo de terra em terra a anunciar a Boa Notícia da Salvação. Ninguém dava nada por Nazaré, mas é a partir daí que é lançada a semente do Reino de Deus. Será também da Galileia… que os apóstolos partem para outros mundos… De Lampedusa, mais uma etapa na revolução dos corações que se iniciou com Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Saudáveis num mundo doente?!

Em dois momentos, o Santo Padre interpelou a humanidade com esta expressão: não é possível mantermo-nos saudáveis num mundo doente!

Antes da bênção Urbi et Orbi (sobre a cidade e o mundo), no dia 27 de março, diante de uma majestosa praça de São Pedro vazia, o Papa colocava-nos a pensar: “Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.

Os momentos de crise levam-nos a refletir, sabendo que, passada a tempestade, logo continuaremos nos nossos afazeres e a ocupar-nos das nossas coisas. Nãos será muito diferente no período pós-pandemia. Porém, nada será igual, pois não é possível voltar ao antes e, por outro lado, o presente e o futuro carregam as perdas materiais e sobretudo humanas. Contudo, a esperança deve moldar-nos e a reflexão deve ajudar-nos a novos propósitos e compromissos. Haverá alguns que agirão de forma mais altruísta, o treino a que se sujeitaram e a alegria de terem contribuído para melhorar a vida de alguém ou mesmo salvado vidas, fazem-nos querer continuar. A reflexão pode ajudar outros a tomar consciência de que estamos no mesmo barco e que a tempestade atingiu a todos e se alguns escaparam entre os pingos podem ser apanhados em tempestades futuras, porque as consequências afetarão a todos, cultural e civilizacionalmente.

No dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, que se comemorou virtualmente a partir de Bogotá, na Colômbia, o Papa, em missiva enviada ao Presidente colombiano, voltou a insistir na indiferença de quem enterra a cabeça na areia: “A proteção do meio ambiente e o respeito pela biodiversidade do planeta são questões que nos afetam a todos. Não podemos fingir ser saudáveis ​​num mundo doente. As feridas infligidas à nossa mãe terra são feridas que também sangram em nós. Cuidar de ecossistemas exige um olhar para o futuro, que não se preocupe apenas com o momento imediato ou que busque um lucro rápido e fácil, mas que se preocupe com a vida e que busque a sua preservação para o benefício de todos”.

A visão da Igreja é holística, envolve toda a criação, pois toda a criação é dom de Deus confiada ao ser humano para cuidar. Excluir o ser humano para proteger a natureza, o ambiente, é uma lógica doente e infantil; por outro lado, a pessoa déspota em relação ao meio ambiente revela ignorância e estupidez. Só o ser humano é capaz de admirar e com-criar, louvando o Criador por esta obra sublime. O caminho é a ecologia integral. Proteger o ambiente sem prestar atenção aos mais desfavorecidos, aos explorados que não beneficiam dos frutos da criação, é hipocrisia fundamentalista. Proteger o ser humano é o primeiro passo para defender esta casa comum. Aliás, o conserto do mundo passa, inevitavelmente, pela conversão da pessoa.

“Ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo… Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade»”. Por mais que queiramos espiritualizar a fé…. Jesus encarnou, assumiu um corpo, veio ao mundo e é no mundo que nos salva!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/28, n.º 4563, 9 de junho de 2020