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Archive for the ‘Papa Francisco’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Dai-lhes vós mesmos de comer

No próximo Domingo, 17 de novembro, viveremos o 3.º Dia Mundial do Pobre, proposta do Papa Francisco que se vai impondo paulatinamente. Teve alguns críticos, dentro e fora da Igreja, por uma compreensão superficial e errónea do que se pretenderia, a começar pela formulação da comemoração, pois poderia entender-se que se estava a cristalizar, a elogiar e a justificar a pobreza. Uma coisa é defender a pobreza como opção que envolve humildade, despojamento e serviço ao próximo, e que obviamente, também pode incluir a produção de riqueza para promover o emprego e a disponibilidade de bens para mais pessoas; outra coisa é a resignação diante da pobreza imposta, a miséria a que milhões de pessoas estão sujeitas. “O compromisso dos cristãos, na vida ordinária de cada dia, não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem tender a aumentar em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade”.

A propósito, a Madre Teresa de Calcutá era acusada de não pensar e não defender uma política de erradicação da pobreza na medida em que apostava na resposta imediata e concreta às situações que iam surgindo. Com o tempo, ficou claro que as políticas são importantes, e sobretudo quando têm efeitos práticos, mas não se pode virar as costas à situações do dia-a-dia. Enquanto se espera pela implementação das medidas as pessoas morrerem à fome e ao frio… O assistencialismo pode ser provisório, mas não pode ser desculpa para não ajudar, fazendo já o que é necessário e possível.

O Papa Francisco tem deixado claro o princípio da subsidiariedade: não deixar para os outros o que posso fazer, envolvendo outros em questões mais complexas, não deixar para amanhã o que posso resolver hoje. Incentivar o Estado e as estruturas centrais a resolver problemas mais complexos e crónicos, de forma sustentada, mas mantendo-nos, a mim e a ti, comprometidos com a pessoa que está à nossa beira. Com efeito, em diversas ocasiões, o Papa tem sido contundente em relação a governos e estruturas centrais, à política e economia, para um envolvimento mais efetivo e rápido ao grito dos pobres, dos desfavorecidos, daqueles que continuam a viver nas periferias existenciais. Os pobres clamam. Deus ouve a sua voz. Quem se recusa a escutar o grito dos excluídos, tapa os ouvidos, o coração, a Deus. Como não lembrar a expressão papal: “esta economia mata” ao colocar o foco nas percentagens de desenvolvimento e produtividade, nas estatísticas, nos ganhos das bolsas de valor, ainda que à custa dos pobres, pessoas e povos.

Na mensagem para esta terceira jornada o Papa não pode ser mais claro: “A numerosos grupos de pessoas, a crise económica não lhes impediu um enriquecimento tanto mais anómalo quando confrontado com o número imenso de pobres que vemos pelas nossas estradas e a quem falta o necessário, acabando por vezes humilhados e explorados… Passam os séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não ensinasse nada”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/47, n.º 4534, 12 de novembro de 2019

Mensagem do Papa para Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

«Deus viu que era coisa boa» (Gn 1, 25). Ao início da Bíblia, o olhar de Deus pousa-se ternamente sobre a criação. Desde a terra habitável até às águas que sustentam a vida, desde as árvores que dão fruto até aos animais que povoam a casa comum, tudo é benquisto aos olhos de Deus, que oferece a criação ao homem como dom precioso que deve guardar.

Desgraçadamente, a resposta humana ao dom recebido foi marcada pelo pecado, pelo fechamento na própria autonomia, pela avidez de possuir e explorar. Egoísmos e interesses fizeram deste lugar de encontro e partilha, que é a criação, um palco de rivalidades e confrontos. Assim, colocou-se em perigo o próprio ambiente: coisa boa aos olhos de Deus, torna-se coisa explorável nas mãos humanas. A degradação aumentou nas últimas décadas: a poluição constante, o uso incessante de combustíveis fósseis, a exploração agrícola intensiva, a prática de abater as florestas… estão a elevar as temperaturas globais para níveis preocupantes. O aumento da intensidade e frequência de fenómenos meteorológicos extremos e a desertificação do solo estão a colocar à prova os mais vulneráveis entre nós. A dissolução dos glaciares, a escassez de água, o menosprezo das bacias hidrográficas e a considerável presença de plástico e microplástico nos oceanos são factos igualmente preocupantes, que confirmam a urgência de intervenções não mais adiáveis. Criamos uma emergência climática, que ameaça gravemente a natureza e a vida, inclusive a nossa.

Na raiz de tudo, o fato de termos esquecido quem somos: criaturas à imagem de Deus (cf. Gn1, 26-27), chamadas a habitar como irmãos e irmãs a mesma casa comum. Não fomos criados para ser indivíduos que se assenhoreiam; fomos pensados e queridos no centro duma rede da vida constituída por milhões de espécies, amorosamente unidas por nosso intermédio ao Criador. É hora de redescobrir a nossa vocação de filhos de Deus, irmãos entre nós, guardiões da criação. É tempo de arrepender-se e converter-se, de voltar às raízes: somos as criaturas prediletas de Deus, que, na sua bondade, nos chama a amar a vida e a vivê-la em comunhão, conectados com a criação.

Por isso, convido veementemente os fiéis a dedicar-se à oração neste tempo que, partindo duma iniciativa oportunamente nascida em campo ecuménico, se configurou como Tempo da Criação: um período de oração mais intensa e de ação em benefício da casa comum, que tem início em 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e termina a 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. É ocasião para nos sentirmos ainda mais unidos aos irmãos e irmãs das várias confissões cristãs. Penso de modo particular nos fiéis ortodoxos que celebram, desde há trinta anos, este Dia de Oração. Sintamo-nos em sintonia profunda também com os homens e mulheres de boa vontade, conjuntamente chamados, no contexto da crise ecológica que tem a ver com todos, a promover a salvaguarda da rede da vida, de que fazemos parte.

Este é o tempo para voltar a habituarmo-nos a rezar imersos na natureza, onde espontaneamente nasce a gratidão a Deus criador. Dizia São Boaventura, cantor da sabedoria franciscana, que a criação é o primeiro «livro» que Deus abriu diante dos nossos olhos, para que, admirando a sua ordenada e maravilhosa variedade, fôssemos levados a amar e louvar o Criador (cf. Breviloquium, II, 5.11). Neste livro, cada criatura foi-nos dada como uma «palavra de Deus» (cf. Commentarius in librum Ecclesiastes, I, 2). No silêncio e na oração, podemos escutar a voz sinfónica da criação, que nos exorta a sair dos nossos fechamentos autorreferenciais, descobrindo-nos envolvidos pela ternura do Pai e felizes por partilhar os dons recebidos. Neste sentido, podemos dizer que a criação, rede da vida, lugar de encontro com o Senhor e entre nós, é «a rede social de Deus» (Francisco, Discurso às guias e aos escuteiros da Europa, 3 de agosto de 2019). Isto leva-nos a erguer um cântico de louvor cósmico ao Criador, como ensina a Escritura: «tudo o que germina na terra bendiga o Senhor; a Ele, a glória e o louvor eternamente!» (Dn 3, 76).

Este é o tempo para refletir sobre os nossos estilos de vida, verificando como muitas vezes são levianas e danosas as nossas decisões diárias em termos de comida, consumo, deslocação, utilização da água, da energia e de muitos bens materiais. Em demasia, nos estamos assenhoreando da criação. Optemos por mudar, assumir estilos de vida mais simples e respeitadores! É hora de abandonar a dependência dos combustíveis fósseis, empreendendo rápida e decididamente transições para formas de energia limpa e de economia sustentável e circular. E não esqueçamos de ouvir as populações indígenas, cuja sabedoria secular nos pode ensinar a viver melhor a relação com o meio ambiente.

Este é o tempo de empreender ações proféticas. Muitos jovens estão a fazer-se ouvir em todo o mundo, invocando decisões corajosas. Sentem-se dececionados com as demasiadas promessas não cumpridas, com compromissos assumidos e depois transcurados por interesses e conveniências parciais. Os jovens lembram-nos que a terra não é um bem para se dissipar, mas herança a transmitir; lembram-nos que esperar no amanhã não se reduz a um belo sentimento, mas é um dever que requer ações concretas hoje. A eles, devemos respostas verdadeiras, não palavras vazias; factos, não ilusões.

As nossas orações e os nossos apelos visam sobretudo sensibilizar os responsáveis políticos e civis. Penso de modo particular nos Governos que se vão reunir nos próximos meses para reiterar compromissos decisivos que orientem o planeta para a vida, em vez de o lançar para a morte. Vêm-me à mente as palavras que Moisés proclamou ao povo como uma espécie de testamento espiritual, antes de entrar na Terra Prometida: «Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência» (Dt 30, 19). São palavras proféticas, que poderemos aplicar a nós mesmos e à situação da nossa terra. Escolhamos a vida! Digamos não à avidez de consumos e aos delírios de omnipotência, caminhos de morte; tomemos percursos clarividentes, feitos de renúncias responsáveis hoje para garantir perspetivas de vida amanhã. Não cedamos às lógicas perversas dos lucros fáceis; pensemos no futuro de todos!

Neste sentido, reveste-se de particular importância a iminente Cúpula das Nações Unidas para a Ação Climática, durante a qual os Governos deverão mostrar vontade política de acelerar, drasticamente, as medidas para se alcançar o mais rápido possível o nível zero de emissões de gases com efeito estufa e conter o aumento médio da temperatura global em 1,5°C relativamente aos níveis pré-industriais, em consonância com os objetivos do Acordo de Paris. Além disso, no próximo mês de outubro, a Amazónia – cuja integridade encontra-se gravemente ameaçada – estará no centro da atenção duma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos. Aproveitemos estas oportunidades para responder ao clamor dos pobres e da terra!

Cada fiel cristão, cada membro da família humana pode contribuir para tecer, como um fio subtil mas único e indispensável, a rede da vida que a todos abraça. Sintamo-nos implicados e responsáveis por tomar a peito, com a oração e o compromisso, o cuidado da criação. Deus, amante da vida (cf. Sb 11, 26), nos dê a coragem de realizar o bem, sem esperar que sejam outros a começar, sem esperar que seja demasiado tarde.

Vaticano, 1 de setembro de 2019.

Papa Francisco

Editorial da Voz de Lamego: a realidade vista como poliedro

Uma visão holística da realidade. A vida não é branca ou preta, mas multicolor. Ou, como prefere o Papa Francisco, a realidade refletida através do poliedro, vários prismas, acentuações, lados, com o contributo de uns e de outros, na igual dignidade das pessoas e dos povos, a riqueza das diferenças que nos permite viver, aprender, crescer, incluir, respeitar o outro e dialogar com ele, não com sete pedras na mão, mas com a humildade e disponibilidade para aumentar o saber.

Não se trata de relativismo em que todas as verdades seriam iguais ou todos os valores equivalentes. Essa será sempre uma forma de renunciar a ter ideias próprias, abdicando das suas convicções. O diálogo com os outros é tanto mais honesto, mas também mais fácil, quanto maior a clareza dos princípios de cada interlocutor. Sem referências que orientem a nossa vida, a minha vida, não podemos procurar enriquecer-nos, pois não sabemos onde estamos, o que queremos, o que valida as minhas escolhas, o que pode enriquecer-me vindo dos outros, como podemos saber o que nos liga ou o que nos diferencia?

“Nenhum vento é favorável para quem não sabe para onde ir” (Séneca). Ou, como canta Amália Rodrigues, “Se não sabes aonde vais, porque teimas em correr”. Um pensamento líquido, diluído, gasoso, descomprometido, agrada a todos, não agrada a ninguém, não contesta ideias ou princípios, mas também não acrescenta valor, não contribui com uma visão própria, desenvolvendo os talentos a favor dos outros. Não nos basta não fazer o mal, importa (positivamente) fazer o bem, só assim caminhamos, só assim o mundo progride e avança e, dessa forma, poderemos contribuir para uma sociedade mais justa e mais sã, corrigindo erros e desvios, aproximando pessoas, procurando integrar os excluídos, combater a pobreza, dar passos em direção à paz. Nem tudo depende de nós, mas cabe-nos sempre uma quota de responsabilidade.

De sinal contrário, a prepotência, o endeusamento, e, consequentemente, a imposição das próprias ideias e convicções aos outros. O que, infelizmente, vai acontecendo. A realidade vista apenas a partir de um ângulo, de uma cor. Cresce a intolerância ideológica, religiosa, política. As redes sociais e os meios de comunicação social deveriam ser facilitadores do encontro de diferenças, da descoberta do outro, do enriquecimento mútuo, contudo, têm promovido a criação de grupos (alguns radicais, extremos, de direita ou de esquerda, religiosos ou políticos ou ideológicos, anárquicos ou nacionalistas) e as pessoas juntam-se ao que é igual, fecham-se em novos círculos, procurando impor e destruindo o que é diferente.

Entre as duas solenidades, Santíssima Trindade e Corpo de Deus, o mesmo sublinhado, um Corpo constituído por vários membros; Três Pessoas em sintonia de amor que formam comunhão perfeita…

Pe. Manuel Gonçalves, ,  in Voz de Lamego, ano 89/28, n.º 4515, 18 de junho de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Louvado sejas, Senhor!

Um dos documentos do Papa Francisco que mais surpreendeu, pela temática e pela urgência, e que continua a ser objeto de estudo, de reflexão e preocupação, dentro da Igreja, mas com boa aceitação em outros meios sociais e culturais, foi a Carta Encíclica Laudato si’, sobre o cuidado com a casa comum, casa de todos, que é o mundo que habitamos.

Já lá vão cinco anos. O Santo Padre parte da oração de São Francisco de Assis, que trata as diferentes criaturas como irmãs, num convite à fraternidade, estendida a toda a criação. “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”.

Ao louvor de São Francisco, logo o Papa manifesta, nos primeiros números, a urgência em refletir e repensar comportamentos. “Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos”.

A sensibilidade para o cuidado da natureza tem sido crescente. Ainda há pouco manifestações, por parte de estudantes, numa vintena de cidades portuguesas, lembrando que não há um planeta B. Dias dedicados à água, à terra, à árvore, ao ambiente… oportunidades para refletir na escassez de alguns recursos ou na exploração desenfreada (e egoísta) dos bens da terra. Pelas contas de alguns, nós consumimos até julho o que deveria chegar até ao fim do ano. Excesso de consumismo, sem esquecer que os nossos excessos não são compensados pela miséria de milhões de pessoas.

Ressalta na carta do Papa, e de demos nota na Voz de Lamego, aquando da sua publicação, a ecologia integral. O Papa não se posiciona em qualquer radicalismo extremista, partidarizando a defesa do ambiente, das plantas e dos animais, esquecendo as pessoas. O cuidado da casa contempla cuidado da pessoa, na defesa da vida, desde a gestação até à morte natural, a atenção ao grito dos pobres e ao desenvolvimento dos povos. De que adianta proteger o ambiente, se se matam as pessoas?!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/27, n.º 4514, 11 de junho de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Sem vida não há futuro

Parece ser uma daquelas charadas que vamos ouvindo. À primeira vista é uma verdade insofismável, aceitável por todos, ponto de partida para outras discussões, direitos e garantias. Obviamente que sem vida não há futuro, pois é a vida (vegetal, animal, humana) que garante o presente, mas também o futuro. Onde existe a morte não há futuro. Onde não existe fecundidade não há futuro. Onde as relações são destrutivas não há futuro. Onde as pessoas vivem numa cultura de morte, egocêntrica, agredindo-se, matando-se, manipulando, espezinhando o outro, não há futuro. Não há futuro se não formos capazes de acolher, defender, amar, promover a vida. A vida é o substrato, o fundamento e a razão de ser para haver leis que procuram proteger a sociedade, especialmente os mais frágeis!

Vivemos num mundo de contrastes! Paradoxos. Extremismos! Se não vejamos. A ciência e a tecnologia, a medicina, os meios de comunicação social, tornaram a vida mais fácil, aproximando-nos ou facilitando a proximidade das pessoas, apostando na qualidade de vida, na cura de doenças ou evitando-as, prevenindo, tornando mais cómoda a vida e mais democrático o acesso aos alimentos, à cultura, aos cuidados médicos.

O reverso da medalha: facilidade com que se tira uma vida, se manipulam as pessoas, se negoceia a saúde, os órgãos humanos, traficando-os, como a riqueza é concentrada, muitas vezes à custa da corrupção, nas mãos de uns poucos. Há países africanos (e infelizmente não apenas africanos) em que só as famílias dos que estão no poder vivem com a dignidade dos seres humanos, com excesso de recursos, que são retirados a quem mais precisa.

Aproxima-se a Semana da Vida, de 12 a 19 de maio, na terceira semana de maio, por opção do Episcopado Português, que em 1994 a instituiu, respondendo ao apelo do Papa João Paulo II.

O tema proposto para este ano: Há vida, há futuro.

No guião enviado aos párocos e às paróquias encontra-se o enquadramento nas palavras do Santo Padre: “A nossa identidade não é o bilhete de identidade que temos: a nossa identidade tem raízes e, ouvindo os idosos, nós encontramos as nossas raízes, como a árvore, que tem as próprias raízes para crescer, florescer e dar fruto. Se cortares as raízes da árvore, ela não crescerá, não produzirá frutos e talvez morra. Há uma poesia — eu disse-o muitas vezes — uma poesia argentina de um dos nossos grandes poetas, Bernárdez, que reza assim: «O que a árvore tem de florido, deriva daquilo que ela tem de enterrado». Mas não se deve ir às raízes para se fechar ali, como um conservador fechado, não”.

A cultura do descarte e da indiferença destroem o presente e o futuro. Este só é possível com a cultura da vida e do encontro.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/22, n.º 4509, 7 de maio de 2019

Editorial da Voz de Lamego – Isto escandaliza-vos? (Jo 6, 60)

Na passada quinta-feira, o Papa Francisco teve mais um gesto surpreendente e inusitado. Durante o encontro com líderes do Sudão do Sul, prostrou-se diante deles e beijou-lhe os pés. Comoveu os próprios, mas também o mundo.

Quando vi a notícia, não fiquei admirado, pois o Papa já nos tem surpreendido com outros gestos luminosos. Pensei de imediato: mais uma atitude a ser escrutinada pelos fariseus do nosso tempo, os levitas e doutores da Lei que passeiam pela Igreja, sem se sujar nem se misturarem com os mortais.

São João Paulo II, sempre que visitava um país pela primeira vez, ajoelhava-se e beijava o chão, gesto de humildade e de bênção para o território visitado. Este gesto faltou em Timor, então anexado à Indonésia, ainda que rezem as crónicas que o Papa iria beijar uma cruz colocada no solo, símbolo do sofrimento deste povo irmão, mas um pouco antes de chegar um soldado retirou a cruz.

Em quinta-feira santa, Jesus ajoelha-Se diante dos apóstolos e lava-lhes os pés. Gesto que repetimos, beijando também os pés. Pedro recrimina Jesus por lhe querer lavar os pés. Nem penses nunca coisa dessas! O servo é que lava os pés ao seu Senhor, não o contrário. Francisco antecipou e fez-nos ver a quinta-feira santa.

O Evangelho (LC 7, 36-50), apresenta o encontro de Jesus com uma mulher conhecida na cidade como pecadora. Um fariseu, Simão, tinha-O convidado para comer. Enquanto estava à mesa, veio uma mulher, com um frasco de alabastro com perfume. Chorando, lavou-Lhe os pés, com as lágrimas, enxugou-os com os cabelos e ungiu-os com perfume. É um gesto de intimidade, de humildade e de súplica. A esta mulher vale-lhe o perdão dos pecados, porque muito amou. Ao fariseu uma reprimenda: «…Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés…».

O Santo Padre tem consciência que não resolve todas as questões relacionadas com os conflitos que envolvem os sudaneses, mas sinaliza uma opção, reconhecendo o trabalho realizado e desafiando à firmeza na construção da paz e de um país justo.

“Nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Cor 22-23). Não é fácil agradar a gregos e a troianos e aqueles que o tentam, tal como Pilatos, lavando as mãos, não cumprem com a missão sublime de serem atores da história. Nem quentes nem frios, mornos, nem lá vou nem faço míngua. É curiosa a revelação de João acerca da Igreja de Laodiceia: “Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno – e não és frio nem quente – vou vomitar-te da minha boca” (Apo 3, 15-16).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/20, n.º 4506, 16 de abril de 2019

Editorial Voz de Lamego: dilatar o horizonte familiar

“A minha Mãe e os meus irmãos são estes: os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 21). A resposta de Jesus obriga a alargar o horizonte da família além dos laços sanguíneos. Jesus há de repreender os seus discípulos por quererem proibir um homem de expulsar demónios em Seu nome, porque não faziam parte do grupo! Os discípulos querem ter o exclusivo de Jesus. “Não o impeçais… quem não é contra nós, é a nosso favor” (Mc 9, 38-41).

Um dos assuntos do dia, nos meios de comunicação social, tem sido o nepotismo governamental. Claro que não é este nem o tempo nem o espaço para discutir a questão (pelo menos politicamente). Têm-se esgrimido argumentos e razões. Parece que mudam as cores, mas as práticas são idênticas, em maior ou menor proporção. Amigos e familiares vão tendo as portas escancaradas para assumirem cargos de responsabilidade, acompanhados por remunerações significativas. É possível que alguns tenham competência e façam um bom trabalho, mas haverá outros que só acedem a esses lugar pela amizade ou pelo parentesco. Não é exclusivo nem deste governo, nem do governo central. Também localmente isso acontece.

Mas cabe-nos perguntar? E como agiríamos nós? Estando num cargo de decisão e tendo que empregar, nomear ou escolher alguém para um lugar, quem escolheríamos? Um familiar? Um amigo? Um estranho? Alguém de quem não gostássemos muito? Optaríamos por uma pessoa da nossa confiança ou a pessoa mais competente para a tarefa a desempenhar?

Num momento de reflexão, a RFM (Rádio do Grupo Renascença), levantava precisamente esta questão. Aproveitando a oportunidade criada por esta polémica, importa interrogar-nos: como é que agimos nos grupos e movimentos eclesiais? “Nós amamos aqueles que são nossos, que são como nós, que se parecem connosco, que pensam como nós. Nós amamos os que nos amam e são bons para nós. Nós amamos aqueles que nos divertem e no lisonjeiam” (Cardeal O’Malley. Ver sugestão de leitura ao lado).

Quando uma pessoa é do nosso grupo, facilmente a elogiamos ou ao trabalho que realiza. Se pertence a outro grupo (eclesial), se não está no meu rol de amigos ou família, o que faz é só para se exibir ou não faz nada de jeito. Por certo, temos pessoas com as quais podemos contar e a quem podemos recorrer, sabendo que não nos vão deixar na mão. Mas seremos suficientemente criativos e despojados para confiarmos noutras pessoas, chamarmos mais gente, desafiarmos aqueles que vêm só esporadicamente?!

O desafio do Mestre da Vida é claro: ide por todo o mundo, fazei discípulos de todas as nações. Amai os vossos inimigos. O desafio do Papa Francisco é perentório: Igreja em saída, cristãos como o Bom Pastor em busca das ovelhas perdidas, preferência pelas periferias (existenciais).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/19, n.º 4505, 9 de abril de 2019