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Archive for the ‘Papa Francisco’ Category

Editorial Voz de Lamego: O Papa e o cansaço

No passado sábado, 4 de junho, o Santo Padre recebeu um grupo de 160 crianças, que participaram no “Comboio das Crianças”, algumas a viverem em situação de fragilidade pessoal e/ou social. Entre elas, também crianças ucranianas. O encontro com o Papa permitiu um diálogo muito expressivo. Uma das crianças, Catherine, perguntou-lhe se era cansativo ser Papa. Antes, um outro menino, Edgar, perguntou como se sentia sendo Papa. A resposta é clarificadora: “O importante, em qualquer profissão em que a vida nos coloca, é que nunca deixemos de ser nós próprios… como pessoa, se tenho este trabalho, devo tentar fazê-lo da maneira mais humilde e mais de acordo com minha personalidade, sem tentar fazer coisas que sejam estranhas a quem eu sou”.

Veio então a pergunta sobre o cansaço. O Papa respondeu dizendo que qualquer tarefa que realizamos tem uma parte de fadiga, de esforço, sublinhando, por exemplo, que ser pai e mãe é também um trabalho que exige esforço, dedicação, é um trabalho árduo. Porém, “Deus dá força para carregar as próprias fadigas” e é preciso realizá-las “com honestidade, com sinceridade e com trabalho”.

Nem todo o cansaço é igual. Pode ser mais físico ou mais espiritual. Pode ser consequência do esforço ou do desencanto em relação ao trabalho, à vida. Depois de uma jornada de apostolado, Jesus convoca os seus discípulos para o descanso: «vinde a sós para um lugar deserto e descansai um pouco». Na verdade, conclui o evangelista, “eram tantos os que chegavam e partiam que eles nem tinham tempo para comer” (Mc 6, 31).

É bem conhecido o episódio em que Jesus entra em casa de Marta, que se atarefa para Lhe proporcionar, a Ele e aos apóstolos, uma boa refeição, aprimorando o espaço para que possam também descansar. A sua irmã, Maria, senta-se aos Seus pés e escuta a Sua palavra. Perante esta atitude, Marta reclama a Jesus da inação da irmã. Jesus, então, responde-lhe: «Marta, Marta, estás preocupada e alvoroçada com muitas coisas, mas uma só é necessária. Maria escolheu a parte boa, que não lhe será tirada» (Lc 10, 38-42).

Aos discípulos, a ti e a mim, Jesus dir-nos-á para procurarmos, primeiro, o Reino de Deus e a sua justiça, concluindo: «Não vos preocupeis com o amanhã, porque o amanhã preocupar-se-á consigo próprio. A cada dia bastam os seus males» (Mt 6, 33-34). O ideal, e o compromisso, assenta na busca de equilíbrios, entre o descanso, a festa, a descontração e o esforço, trabalho e mesmo sacrifício. Fica sempre mais fácil se, o que fazemos e vivemos, for feito e vivido com gosto, convicção, por amor.

As dificuldades físicas do Papa Francisco e, certamente, como aconteceu com Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, muitos assuntos sensíveis a refletir, rezar e resolver, têm-se tornado evidentes. Víamos o Papa a caminhar com dificuldade, ultimamente temo-lo visto em cadeira de rodas. A pergunta, a que nos referimos, fixa-se mais na missão que no estado físico, mas a resposta abrange a pessoa como um todo e neste caso a pessoa do Papa. Nas dificuldades e contratempos, a certeza que Deus dá a força para resistir, lutar, para prosseguir e, por conseguinte, temos visto o Papa presente, a intervir, a rezar, a rir, a interagir, com a convicção de que todos os momentos são oportunos para expressar a bondade de Jesus Cristo.

«Vinde a Mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e Eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas vidas, pois o Meu sugo é suave e a minha carga é leve» (Mt 11, 28-30). Quando faltarem as forças, confiemo-nos a Jesus, pedindo-Lhe que venha em auxílio das nossas fraquezas.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/30, n.º 4661, 8 de junho de 2022

Editorial Voz de Lamego: Consagração da Ucrânia e da Rússia

No dia 25 de março, Solenidade da Anunciação do Senhor, sexta-feira, o Papa Francisco vai consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Para esta consagração, o Santo Padre pediu que os Bispos do mundo inteiro se unissem a ele. Esta consagração far-se-á durante a Celebração da Penitência, presidida pelo Papa, na Basília de São Pedro, pelas 17h00. Tendo em conta a diferença horário, pelas 16h00, no Santuário de Fátima, o enviado do Papa, cardeal Krajewski, esmoleiro pontifício, conjuntamente com os Bispos portugueses, fará este mesmo ato de entrega e consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria.

Na aparição de 13 de julho de 1917, Nossa Senhora pediu a consagração da Rússia ao Seu Imaculado Coração: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, registava Irmã Lúcia, falecida em 2005, nas suas “Memórias”.

Os Papas viriam a responder a este pedido. Pio XII, em 31 de outubro de 1942, consagrou o mundo inteiro, e, em 7 de julho de 1952, consagrou os povos da Rússia: “Assim como há alguns anos atrás consagramos o mundo ao Imaculado Coração da Virgem Mãe de Deus, agora, de forma muito especial, consagramos todos os povos da Rússia ao mesmo Imaculado Coração”.

Paulo VI renovou esta consagração, a 21 de novembro de 1964, na presença dos Padres do Concílio Vaticano II.

Por sua vez, o Papa João Paulo II compôs uma oração em forma de “Ato de entrega”, celebrado a 7 de junho de 1981, na Basílica de Santa Maria Maior. A 25 de março de 1984, na Praça São Pedro, em memória do Fiat pronunciado por Maria no momento da Anunciação, em união espiritual com todos os bispos do mundo, previamente “convocados”, João Paulo II confiou todos os povos ao Imaculado Coração de Maria: “E por isso, ó Mãe dos homens e dos povos, Tu que conheces todos os seus sofrimentos e todas as suas esperanças, Tu que sentes maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo contemporâneo, acolhe o nosso grito que, movido pelo Espírito Santo, dirigimos diretamente ao teu Coração: abraça com amor de Mãe e Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Te confiamos e consagramos, cheio de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos. De modo especial Te confiamos e consagramos aqueles homens e nações que têm necessidade particular desta entrega e consagração”.

No ano de 2000, foi revelada a terceira parte do segredo de Fátima. Tarcísio Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, comunicou à Igreja e ao mundo que a Irmã Lúcia, numa carta de 1989, tinha confirmado pessoalmente que este ato de consagração solene e universal correspondia ao que Nossa Senhora queria.

Diante da barbárie que Vladimir Putin impingiu à Ucrânia e ao mundo, o Papa Francisco convoca-nos à oração, por uns e por outros e por todos. Os nossos Bispos sintonizam-se, como expectável, com este desejo e iniciativa: “Por intercessão do Imaculado Coração de Maria, Rainha da Paz, continuemos a rezar pelo povo ucraniano, perseguido na sua terra e disperso pelo mundo, para que o Senhor atenda as nossas preces e os esforços das pessoas de boa vontade, e lhe conceda a paz e o regresso a suas casas”.

D. José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, sublinha que esta consagração “não é um gesto contra ninguém, os povos são muito mais dos que os seus governantes”. A bênção de Deus não exclui ninguém, Ele faz chover sobre bons e maus. Incluamo-nos, também nós, nesta consagração, para que a nossa vida seja promotora de vida e de paz.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/19, n.º 4650, 23 de março de 2022

Editorial Voz de Lamego: Peregrinos da esperança

No ano de 1300, o Papa Bonifácio VIII instituiu o Ano Santo, evocando mais um centenário do nascimento de Jesus, segundo o calendário gregoriano. Posteriormente, em 1350, assumiu a dinâmica bíblica, passando o Jubileu a assinalar-se a cada cinquenta anos, por decisão do Papa Clemente VI. Por sua vez, o Papa Paulo II, com uma Bula de 1470, houve por bem determinar que os jubileus se celebrassem a cada vinte e cinco anos. O Jubileu de 2025 será o 27.º Jubileu Ordinário na História da Igreja. Tem havido outros anos santos extraordinários como o Ano da Fé ou, o mais recente, Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

Para este próximo Ano Santo, o Papa Francisco escolheu como tema: “Peregrinos da Esperança”. Com efeito, a vivência da fé, a vocação e missão cristãs, colocam-nos em modo de alegria e de esperança, confiando, com firmeza e clarividência, num Deus que nos é próximo, que caminha connosco e nos garante vida em abundância, no tempo e até à eternidade. A esperança como virtude teologal apoia-se nas promessas de Deus, sancionadas, comunicadas e plenizadas na vida de Jesus Cristo. O mistério da Encarnação traz Deus até nós, não como um estranho, mas entranhando-Se na humanidade e na história. Deus, não apenas nos procura, mas vem ao nosso encontro; não apenas Se insinua, mas deixa-Se ver; não apenas fica perto, mas faz-Se um de nós. É Deus connosco num momento determinado da história. Não é uma ideia abstrata! É Pessoa que enfrenta as fragilidades e as limitações do tempo e do espaço e da condição biológica. Não Se fica pelo difuso e universal, mas concretiza a Sua misericórdia e o Seu amor, em Jesus Cristo, no encontro com pessoas, de carne e osso, com os seus dramas e esperanças, com os seus sofrimentos e os seus sonhos. Jesus partilha a vida connosco. Vive no meio de nós. Carrega em Si os dramas da humanidade. Ensina-nos a humanizar as nossas opções, cumprindo e testemunhando, pela humanização, pela ternura e compaixão, os desígnios de Deus para nós.

No caminho de preparação, viveu-se o Jubileu da Misericórdia, diz o Papa, pois permitiu-nos “redescobrir toda a força e ternura do amor misericordioso do Pai a fim de, por nossa vez, sermos testemunhas do mesmo”.

Entretanto, o mundo foi surpreendido pela pandemia que modificou o nosso modo de viver, fazendo-nos tocar “o drama da morte na solidão, a incerteza e o caráter provisório da existência”. Fomos limitados em muitas liberdades pessoais, familiares, comunitárias; encerraram igrejas, escolas, fábricas, lojas, locais dedicados ao lazer. O sofrimento tornou-se mais visível, o medo, a dúvida e a perplexidade. Os homens e as mulheres da ciência rapidamente encontraram medicamentos de forma a superar a pandemia. Em Carta dirigida ao Arcebispo Rino Fisichella, o Papa manifesta confiança que “a epidemia possa ser superada e o mundo volte a ter os seus ritmos de relações pessoais e de vida social”. Mas avisa: “Tudo isto será possível se formos capazes de recuperar o sentido de fraternidade universal, se não fecharmos os olhos diante do drama da pobreza crescente… que as vozes dos pobres sejam escutadas”.

Uma das características dos jubileus, na Bíblia, era a restituição de bens e da liberdade. Os bens voltavam às famílias de origem, permitindo uma nova distribuição, e as dívidas dos que tinham sido feitos escravos ficavam sanadas, recuperando a liberdade. Por outro lado, o descanso da própria terra!

É tempo de renovar a esperança, de rezar a vida, de agradecer as oportunidades; é tempo de olhar o futuro com o coração aberto e a certeza que Deus nos ama e nos acompanha e fortalece a nossa opção pela verdade e pela caridade. É tempo de abrir as portas, escutar os corações, partilhar os sonhos, colocar os dons a render, condividir os sofrimentos e as alegrias. Parafraseando o Santo Padre, não deixemos que nos roubem a esperança! Construamos um mundo onde todos se sintam irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/14, n.º 4645, 16 de fevereiro de 2022

Editorial Voz de Lamego: Escutar com o ouvido do coração

Foi apresentada a Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se comemora no Domingo anterior à Solenidade de Pentecostes, em Portugal, no Domingo da Ascensão de Jesus, no passado 24 de janeiro. Neste dia, a Igreja faz a memória de São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas e daí que seja o dia marcado, em cada ano, para a apresentação da mensagem papal.

O Santo Padre escolheu como tema: “Escutar com o ouvido do coração”. Não se trata de um processo meramente biológico, mas é algo que envolve a pessoa toda. “A escuta não significa apenas uma perceção acústica, mas está essencialmente ligada à relação dialogal entre Deus e a humanidade. O «shema’ Israel – escuta, Israel» (Dt 6, 4) – as palavras iniciais do primeiro mandamento do Decálogo – é continuamente lembrado na Bíblia, a ponto de São Paulo afirmar que «a fé vem da escuta» (Rm 10, 17). De facto, a iniciativa é de Deus, que nos fala, e a ela correspondemos escutando-O; e mesmo este escutar fundamentalmente provém da sua graça, como acontece com o recém-nascido que responde ao olhar e à voz da mãe e do pai”.

Temos dificuldade em escutar, tal é também a multiplicação de ruído, mas a escuta continua a ser essencial para acolhermos o outro, para nos entendermos, para estreitarmos os laços que nos unem. Uma sociedade saudável terá de ser uma sociedade em que as pessoas se escutam mutuamente, debatendo, dialogando, fazendo propostas, acolhendo o contributo dos outros, escutando não apenas aqueles que nos são favoráveis, mas também os demais. “Estamos a perder a capacidade de ouvir a pessoa que temos à nossa frente, tanto na teia normal das relações quotidianas como nos debates sobre os assuntos mais importantes da convivência civil”.

Podemos usar a audição para espiar e, posteriormente, expor. “De facto, uma tentação sempre presente, mas que neste tempo da social web parece mais assanhada, é a de procurar saber e espiar, instrumentalizando os outros para os nossos interesses”.

Podemos fazer ouvidos de mercador, ouvindo o clamor dos pobres, mas fazendo de conta de que não é connosco. A comunicação, como a informação, precisa da escuta atenta e dialogante, procurando estabelecer pontes. Durante a pandemia, tem prevalecido muita desinformação, caindo-se numa infodemia, demasiada informação que veicula notícias falsas, através da suspeição, criando dúvidas e esquecendo as evidências.

O Santo Padre convida novamente a escutar as pessoas, vítimas da pandemia, da pobreza, da exclusão, migrantes e refugiados, conhecer e contar as suas as histórias. Assim haveria uma consciência mais apurada da realidade e seria mais fácil responder-lhes, indo ao encontro das suas necessidades.

“A escuta corresponde ao estilo humilde de Deus. Deus que sempre Se revela comunicando-Se livremente, e, por outro, o homem, a quem é pedido para sintonizar-se, colocar-se à escuta.  No fundo, a escuta é uma dimensão do amor. Só quem acolhe a Palavra com o coração «bom e virtuoso» e A guarda fielmente é que produz frutos de vida e salvação (cf. Lc 8, 15)”.

Não é possível comunicar sem escuta. Há diálogos que não o são de verdade, como quando esperamos que o outro fale para, depois, impormos o nosso ponto de vista, sem verdadeiramente escutar e sem possibilidade de fazer pontes, de nos aproximarmos reciprocamente.

O que vale para a sociedade, vale por maioria de razão para a Igreja. Estamos em processo sinodal, em que a escuta será essencial. Com efeito, “a comunhão não é o resultado de estratégias e programas, mas edifica-se na escuta mútua entre irmãos e irmãs”. O desafio é a escutarmos com o ouvido de Deus. O Papa cita o teólogo Dietrich Bonhöffer, para relevar que “quem não sabe escutar o irmão, bem depressa deixará de ser capaz de escutar o próprio Deus”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/12, n.º 4643, 2 de fevereiro de 2022

Editorial Voz de Lamego: Somos o que desejamos ser

“Deus quer, o homem sonha e a obra nasce” (Fernando Pessoa). Se nada desejamos nada alcançaremos. Dir-nos-á Blaise Pascal: “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Está inscrito no nosso íntimo este desejo de sermos mais, vivermos melhor, deixarmos marcas da nossa passagem pelo mundo. O homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito, constitutivamente limitado e finito, procura sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do corpo e do mundo. O desejo espicaça o nosso comprometimento na busca, na persistência e no envolvimento em diversas iniciativas, desafios e campanhas.

O Papa Francisco, na homilia da Epifania do Senhor, acentuou esta necessidade de desejo, de busca, de caminho, de resiliência diante dos obstáculos. É o desejo que alimenta a busca e o encontro com Jesus. O Santo Padre começou por citar o seu antecessor: os Magos eram «pessoas de coração inquieto (…); homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social (…); eram indagadores de Deus» (Bento XVI, 06/01/2013).

Mas de onde nasce esta inquietação que levou os Magos a peregrinar? Nasce do desejo, responde o Papa Francisco. “Desejar significa manter vivo o fogo que arde dentro de nós e nos impele a buscar mais além do imediato, mais além das coisas visíveis. É acolher a vida como um mistério que nos ultrapassa, como uma friesta sempre aberta que nos convida a olhar mais além, porque a vida não é «toda aqui», é também «noutro lugar». É como uma tela em branco que precisa de ser colorida. Um grande pintor, Van Gogh, escreveu que a necessidade de Deus o impelia a sair de noite para pintar as estrelas. Isto deve-se ao facto de Deus nos ter feito assim: empapados de desejo; orientados, como os Magos, para as estrelas. Somos aquilo que desejamos. Porque são os desejos que ampliam o nosso olhar e impelem a vida mais além: além das barreiras do hábito, além duma vida limitada ao consumo, além duma fé repetitiva e cansada, além do medo de arriscar, de nos empenharmos pelos outros e pelo bem. «A nossa vida – dizia Santo Agostinho – é uma ginástica do desejo» (Tratados sobre a primeira Carta de João, IV, 6)”.

Iniciámos um novo ano civil! Quando falamos em novo, falámos em propósitos, sonhos, desejos! Mas é possível que a meio do caminho vacilemos! É possível que tenhamos começado 2022 já cansados, nomeadamente em relação a rotinas quotidianas ou a esta pandemia que não mostra sinais de ceder. Ao longo da nossa vida podemos passar por momentos de embotamento, de desencanto e insensibilidade em relação às pessoas ou aos acontecimentos, negativos ou positivos. Deixamos de acreditar, colocamos em causa a bondade das pessoas, parece que o que dizemos e fazemos não faz diferença. Sinal e expressão que o desejo (por Deus) se esbateu, a fé adormeceu! É a vida! Faltou-nos o combustível? A oração? A escuta e meditação da Palavra de Deus? Algum acontecimento que nos deixou de rastos? No trabalho? Na família? Na sociedade?

Deixemo-nos guiar novamente pela reflexão do Santo Padre: “Debruçamo-nos demasiado sobre os mapas da terra, e esquecemo-nos de erguer o olhar para o céu… O desejo de Deus cresce se permanecermos diante de Deus. Porque só Jesus cura os desejos. De quê? Da ditadura das necessidades. Com efeito, o coração adoece quando os desejos coincidem apenas com as necessidades; ao passo que Deus eleva os desejos; purifica-os, cura-os, sanando-os do egoísmo e abrindo-nos ao amor por Ele e pelos irmãos. Por isso, não esqueçamos a Adoração: detenhamo-nos diante da Eucaristia, deixemo-nos transformar por Jesus. Como os Magos, levantemos a cabeça, ouçamos o desejo do coração, sigamos a estrela que Deus faz brilhar sobre nós… Sonhemos, procuremos, adoremos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/09, n.º 4640, 12 de janeiro de 2022

Editorial Voz de Lamego: E da discussão nasce a luz

Em diferentes ocasiões, o Papa Francisco tem proposto a cultura do encontro, que passa, obviamente, pela cultura do diálogo. Nesta época de globalização, tornamo-nos vizinhos, mas longe estamos de ser irmãos. Corremos o sério risco de nos ligarmos a todo o mundo, mas sem nenhuma ligação que nos humanize e irmane, nos responsabilize pelos que vivem à nossa beira, quanto mais pelos que estão longe da vista e do coração. A pandemia fez-nos chegar mais longe, ver mais coisas e mais pessoas, mas parece que em definitivo nos separou da vida, dos cheiros e dos sabores, dos sofrimentos e necessidades dos outros!

À fraternidade desejada contrapõe-se a globalização da indiferença. Em tempo real, vemos as desgraças que se espalham pelo mundo fora, a miséria, os conflitos familiares, intergeracionais, a corrupção, a guerra, a ameaça, o terrorismo, a violência extrema. O nosso olhar, e sobretudo o nosso coração, habitua-se a estas situações, algumas macabras, mas que já não têm a força de nos chocar. É como quem vive perto da Igreja… por mais alto que o sino toque já não desperta. O cérebro acostuma-se aos odores, aos sons, às imagens! E adormece!

Contra a indiferença, apontando para Jesus Cristo, o Papa propõe a fraternidade. Em Cristo, reconhecemo-nos como irmãos, tendo um mesmo Pai que a todos ama como filhos. A referência constante há de ser Jesus que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. A Sua opção preferencial é pelos mais pobres da sociedade, os excluídos social, cultural e até religiosamente. A pandemia acrescentou pobreza à existente, em sociedades desenvolvidas, mas empobrecendo os países mais pobres. Pelo menos ficou em maior evidência a pobreza e a miséria para responder a esta catástrofe. Exemplo disso é o número reduzido de vacinação anticovid nos países terceiro-mundistas.

Como sublinhou o Papa Francisco, no 5.º Dia Mundial dos Pobres, “a humanidade progride, a humanidade desenvolve-se, mas os pobres estão sempre connosco, há sempre pobres e neles está presente Cristo”.

Não há tempos favoráveis, todo o tempo pode ser abençoado e oportunidade de empenho na transformação do mundo e das estruturas existentes para as colocar ao serviço de todos, mas especialmente dos que vivem nas periferias. Também a Igreja é chamada a esta conversão permanente. Um fazer-se que demora o tempo de uma vida, de cada vida, da vida de todos nós!

O adágio popular que intitula esta reflexão é uma interpelação constante na Igreja e à Igreja, mas de forma mais concreta nas diferentes fases do Sínodo dos Bispos, 2021-2023, que visa aprofundar a sinodalidade da Igreja, auscultando, discutindo, acolhendo propostas. A ideia não é apresentar um documento final irrepreensível, mas colocar os cristãos a refletir formas de participar mais ativamente na vida da Igreja, tornando-nos a todos mais corresponsáveis, em missão, partilhando das preocupações e dos anseios do Evangelho para este tempo. Como dizia uma santa senhora, na paróquia de Tabuaço, em Igreja importa mais que muitos façam pouco do que poucos façam muito ou façam tudo. É importante que todos se sintam responsáveis, chamados e enviados.

Este é mais um tempo favorável à discussão, enformada pela luz que vem do Pai, que nos traz Jesus, e que se expande no tempo por ação do Espírito Santo que sopra onde quer… e naqueles que Lhe permitem a inspiração! Tempo de diálogo e de escuta, não para diluir a verdade ou as convicções, mas para nos abrirmos aos outros. Três ações que se interligam, segundo o Papa Francisco: encontrar, porque o encontro muda a vida; escutar as perguntas, as preocupações, as esperanças de cada Igreja; discernir o que Deus quer dizer à Igreja e qual a direção para onde Ele nos quer conduzir.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/02, n.º 4633, 17 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Levantai-vos! Vamos! Caminhemos juntos!

O tema escolhido pelo nosso Bispo e proposto a toda a Diocese de Lamego – Levantai-vos! Vamos! (Mt 26, 46) – coloca-nos em pleno mistério pascal. Depois da Ceia, no Jardim das Oliveiras, Jesus ora, uma e outra vez, para que Se faça a vontade do Pai, apesar do sofrimento que se entrevê, aquela hora tenebrosa que se vislumbra e que Ele sente na pele, no corpo, na alma. Os discípulos adormecem. É noite! Jesus desperta-os, uma e outra vez, e finalmente chama-os.

Ele está com eles, Ele está sempre connosco. Não estamos sós, não caminhamos sozinhos. O chamamento é claro: Levantai-vos! Vamos. Mesmo quando Jesus nos diz: Ide, é um “ide” em que Ele vai connosco. Ide, eu estarei convosco até ao fim dos tempos!

Após a ressurreição, ainda não inteiramente anunciada, no caminho de Emaús, Jesus faz-Se ouvir e faz-Se ver. Iam dois discípulos, desanimados, cabisbaixos, quase a murmurar, desencantados com o que tinha sucedido naqueles dias. Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Perceber-se-á que Ele é o caminho. Eles regressavam para se refugiar em casa; Jesus anuncia-Se, caminha com eles, entra com eles em casa e senta-Se com eles à mesa e, depois da bênção e da distribuição do pão, deixam de O ver. (cf. Lc 24, 13-35). Quando deixam de O ver, exteriormente, já Jesus os habita interiormente! Já não necessitam dos olhos físicos, mas do coração e, por conseguinte, a noite deixa de amedrontar, pois logo se levantam e regressam a Jerusalém, à comunidade dos discípulos.

Um Plano Pastoral aponta metas e vivências, faz-nos assentar os pés no chão para que aos ideais juntemos momentos, instantes, celebrações, encontros, tempos de oração e de reflexão, de formação e convívio. Não é possível traduzir a vida, o amor, se não por gestos, abraços, comunicação, sorrisos, pelas lágrimas e pelas palavras, na entreajuda, na prática das obras de misericórdia (corporais e espirituais), no respirar das bem-aventuranças, na atualização concreta dos Dez Mandamentos, sintetizados e explicitados no mandamento novo do amor: amais-vos uns aos outros como Eu vos amei.

A Diocese não é uma ilha, como o não são as paróquias, os movimentos, as associações, departamentos, serviços ou comissões. Estamos inseridos num país, a Igreja em Portugal, e no mundo, a Igreja Universal, procurando que haja valores, princípios, orientações e até linhas programáticas comuns. A este propósito vale a pena relembrar que estamos em Sínodo, convocado pelo Papa Francisco e inaugurado no fim de semana de 9 e 10 de outubro, no Vaticano, e na maioria das dioceses do mundo, no dia 17 de outubro.

O Sínodo dos Bispos 2021-2023 é um caminho que nos convida a todos, na escuta e no diálogo, na oração e na reflexão, para que, chegados a outubro de 2023, o caminho que percorremos em conjunto, com as dúvidas e interrogações levantadas, com as propostas e orientações sugeridas, possam ser debatidas, para que: o que a todos diz respeito seja por todos rezado e refletido. O tema do Sínodo: “Por uma Igreja Sinodal, comunhão, participação, missão”. Concluía o Pe. Diamantino Alvaíde, na admonição inicial, na Eucaristia de abertura do Sínodo, na Sé de Lamego: “Para uma Igreja sinodal: o Papa Francisco conta com a nossa comunhão; a Igreja espera a nossa participação, e Deus pede a nossa missão”.

No ano de 2023, realizar-se-ão as Jornadas Mundiais da Juventude, em Portugal, com o centro em Lisboa. O lema escolhido pelo Papa: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39) está, de algum modo presente no lema pastoral da nossa diocese. Por sua vez, o Movimento da Mensagem de Fátima servir-se-á de um lema semelhante: “Levanta-te! És testemunha do que viste!”

Levantemo-nos! Vamos! Jesus vai connosco!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/48, n.º 4630, 27 de outubro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Igreja em sínodo, Igreja à escuta

No passado sábado, 9 de outubro, o Papa Francisco deu início à XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sob o tema: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. O sublinhado do Papa Francisco: “As assembleias do Sínodo revelaram-se um instrumento válido para o conhecimento recíproco entre os bispos, a oração comum, o confronto leal, aprofundamento da doutrina cristã, reforma das estruturas eclesiásticas, promoção da atividade pastoral em todo o mundo”.

Durante o seu pontificado realizaram-se duas assembleias sinodais sobre a Família (2014 e 2015), uma assembleia dedicada aos jovens (2018) e um sínodo especial para a Amazónia (2019), e agora sobre a sinodalidade da Igreja.

Vale a pena reler algumas passagens da reflexão do Papa na abertura do Sínodo.

Três palavras chaves: comunhão, participação, missão. “Comunhão e missão são expressões teológicas que designam – e é bom recordá-lo – o mistério da Igreja. O Concílio Vaticano II esclareceu que a comunhão exprime a própria natureza da Igreja e, ao mesmo tempo, afirmou que a Igreja recebeu «a missão de anunciar e instaurar o reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra» (Lumen gentium, 5)… a terceira palavra: participação. Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos meio abstratos, se não se cultiva uma práxis eclesial que se exprima em ações concretas de sinodalidade em cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um”.

Três riscos: formalismo, intelectualismo, imobilismo. “O primeiro é o risco do formalismo. Pode-se reduzir um Sínodo a um evento extraordinário, mas de fachada, precisamente como se alguém ficasse a olhar a bela fachada duma igreja sem nunca entrar nela… Porque às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o «patrão da barraca» e não o pastor de toda uma Igreja que está a avançar…Um segundo risco é o do intelectualismo (da abstração, a realidade vai para um lado e nós, com as nossas reflexões, vamos para outro): transformar o Sínodo numa espécie de grupo de estudo, com intervenções cultas mas alheias aos problemas da Igreja e aos males do mundo; uma espécie de «falar por falar», onde se pensa de maneira superficial e mundana, alheando-se da realidade do santo Povo de Deus… Por fim, pode haver a tentação do imobilismo: dado que «se fez sempre assim» – esta afirmação “fez-se sempre assim” é um veneno na vida da Igreja –, é melhor não mudar. O risco é que, no fim, se adotem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16). Por isso, é importante que o caminho sinodal seja verdadeiramente tal, que seja um processo em desenvolvimento; envolva, em diferentes fases e a partir da base, as Igrejas locais, num trabalho apaixonado e encarnado, que imprima um estilo de comunhão e participação orientado para a missão”.

Três oportunidades. “A primeira é encaminhar-nos para uma Igreja sinodal (1): um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar. Depois o Sínodo oferece-nos a oportunidade de nos tornarmos Igreja da escuta (2): fazer uma pausa dos nossos ritmos, controlar as nossas ânsias pastorais para pararmos a escutar. Escutar o Espírito na adoração e na oração…. uma Igreja da proximidade. O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Deus sempre agiu assim. Se não chegarmos a esta Igreja da proximidade com atitudes de compaixão e ternura, não seremos Igreja do Senhor… uma Igreja que não se alheie da vida, mas cuide das fragilidades e pobrezas do nosso tempo, curando as feridas e sarando os corações dilacerados com o bálsamo de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/46, n.º 4628, 13 de outubro de 2021

Editorial Voz de Lamego: rumo a um nós cada vez maior

Este é o lema escolhido pelo Papa Francisco para o 107.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que se comemora no próximo Domingo, 26 de setembro. Logo a abrir o santo Padre retoma as palavras da carta encíclica Fratelli tutti (todos irmãos): «Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. No fim, oxalá já não existam “os outros”, mas apenas um “nós”» (n. 35). Daí a escolha do tema: «Rumo a um nós cada vez maior», indicando claramente um horizonte para o nosso caminho comum neste mundo.

Os últimos países visitados pelo Papa, Hungria e Eslováquia, foram mais uma oportunidade, nas intervenções e nos gestos, para sublinhar a importância de acolher os outros, no diálogo ecuménico e inter-religioso, na criação de espaço físico e afetivo para receber migrantes e refugiados. A Hungria, na verdade, é um dos países que não recebe refugiados, numa política de fechamento. Na homilia da Eucaristia de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional, o Papa sublinhou, sem reticências: “Deixemos que Jesus, Pão vivo, cure os nossos fechamentos e nos abra à partilha: nos cure da nossa rigidez e de nos fecharmos em nós mesmos, nos livre da escravidão paralisante da defesa da nossa imagem e nos inspire a segui-l’O para onde Ele nos quer conduzir. E não para onde quero eu”.

A mudança de regime no Afeganistão provocou nova onda de refugiados. Muitos foram os que abandonaram o país com medo de ser amordaçados, presos, mortos. Uns por motivos políticos, outros por terem colaborado com o anterior governo e/ou com as forças internacionais, além das mulheres que estudaram e entraram no mercado de trabalho. Nesta semana, Portugal acolheu mais oitenta afegãos, na maioria atletas da equipa de futebol feminino e seus familiares, perfazendo cento e setenta oito refugiados afegãos em território nacional.

A Bíblia está preenchida de saídas, fugas, refúgio, expulsão e perseguição. O segundo livro da Bíblia tem precisamente o título de “Êxodo”, saída, narrando a opressão que os judeus sofreram no Egito, para onde emigraram à procura de melhores condições de vida, ao tempo do patriarca José. Este episódio é narrado no livro que abre a Bíblia, Génesis, e que coloca também em evidência a itinerância de Abraão que, chamado por Deus, sai da sua terra e fixa em Canaã.

Com efeito, o Povo da Aliança tornou-se emigrante no Egito. Moisés liderará o êxodo, a libertação da escravidão para a terra da promessa. Séculos mais tarde, o povo será forçado a sair do seu território num exílio que constituiu uma enorme provação à fé e à identidade nacional.

No próximo Domingo, o Evangelho faz-nos questionar a nossa pertença e o grau de abertura aos outros. Os apóstolos encontram um homem a expulsar demónios em nome de Jesus e procuram impedi-lo porque não fazia parte do grupo. A resposta de Jesus é clarificadora: “Não o proibais… Quem não é contra nós é por nós” (Mc 9, 38-48). Os apóstolos querem tomar posse do nome de Jesus e fechar o círculo, para que ninguém entre! Jesus tem ideias diferentes: para fazer o bem não é preciso um rótulo. O Espírito de Deus sopra onde quer.

Diz-nos o Santo Padre: “Na realidade, estamos todos no mesmo barco e somos chamados a empenhar-nos para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira. Por isso aproveito a ocasião deste Dia Mundial para lançar um duplo apelo a caminharmos juntos rumo a um nós cada vez maior, dirigindo-me em primeiro lugar aos fiéis católicos e depois a todos os homens e mulheres da terra”.

No mesmo barco, mas infelizmente o número de excluídos continua a aumentar. Veja-se a questão da vacinação nos países desenvolvimentos e países terceiro-mundistas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/43, n.º 4625, 22 de setembro de 2021

Editorial VL: São José, custódio de Maria, de Jesus e da Igreja

Há oito anos, o Papa Francisco escolhia o Dia de São José para iniciar o seu pontificado. Curiosamente, como o próprio sublinhou, onomástico de Bento XVI, cujo nome de batismo é José (Joseph).

Francisco quis colocar o seu pontificado sobre o cuidado de São José. Se José, com humildade e descrição, mas com firmeza, cuidou de Maria e de Jesus, também cuidará da Igreja.

Ao longo da história da Igreja, São José, embora acarinhado por ser o pai adotivo de Jesus, surgia quase como um figurante num filme, integrava o elenco mas sem se dar por ele. Justiça seja feita, nos últimos anos este quadro tem-se alterado.

Há 150 anos, o Beato Pio IX, com o Decreto Quemadmodum Deus, declarou São José como Padroeiro Universal da Igreja. Face à grande hostilidade, o Papa confiava a Igreja ao patrocínio de São José. Em 8 de dezembro último, o Papa Francisco, com a Carta Apostólica Patris Corde, convocou um ano especial dedicado a São José e que se prolonga até à próxima solenidade da Imaculada Conceição.

Diz-nos São João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Citado por Francisco, nesta homilia inaugural de pontificado).

O Evangelho é Jesus, a Sua vida e mensagem, a Sua morte e ressurreição. O quadro principal é o mistério pascal, as últimas horas da Sua vida terrena de Jesus, desembocando na Cruz, como oferenda total, e finalizando com a ressurreição, vida nova, à qual nos agrega, enviando-nos a anunciar esta alegre notícia ao mundo inteiro. Os demais livros do Novo Testamento mostram como Jesus está vivo e age pelos Seus discípulos em diversos contextos. Recuar à infância de Jesus não fez parte das cogitações dos evangelistas, ainda que São Lucas e São Mateus nos apresentem um ou outro episódio, sabendo que a preocupação não era escrever uma biografia, mas fixar por escrito o que, primeiramente, foi proclamado oralmente em pequenos grupos de pessoas. Pouco a pouco, a formação das comunidades e a necessidade de o testemunho oral não se esbater com a morte dos apóstolos.

O vislumbre sobre São José já nos diz muito. Discreto, é um homem justo, piedoso, trabalhador, disponível para escutar a Palavra de Deus e realizar os Seus sonhos para a humanidade. Comprometido com Maria, apercebendo-se que se achava grávida, sem a sua intervenção, pondera, mesmo aí, proteger Maria, fazendo recair sobre si o ónus do “abandono” familiar, salvaguardando-A de qualquer suspeita. Porém, Deus baralha-se os propósitos e desafia a envolver-Se no Seu mistério de amor.

O Papa Francisco apresenta-nos São José como custódio, com protetor de Nossa Senhor e do Menino Jesus. Como é que São José realiza esta guarda? “Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entende… Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida… é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/18, n.º 4600, 16 de março de 2021