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Archive for the ‘Papa Francisco’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Quaresma: viagem de regresso a Deus

Há um ano entrávamos na Quaresma com esperança, renovando nas nossas comunidades apelos e caminhadas, desafios para momentos de oração, de reflexão, de vivência de um dos tempos litúrgicos mais densos, com tradições e símbolos tão ricos que envolvem até os mais afastados da vida comunitária. Por outro lado, a abundância do turismo religioso que traz mais vida a aldeias, vilas e cidades.

Pouco tempo depois, o reconhecimento e a mitigação da pandemia levar-nos-ia a alterar planos, a suspender celebrações comunitárias, a catequese, encontros de formação, celebrações dos sacramentos. Suspender, adiar e esperar por melhores dias. E, momentaneamente, esses dias chegaram depois de uma Quaresma que se converteu em quarentena, em confinamento, em isolamento, em distanciamento físico. Vivemos à espera, em teledistância, com poucos contactos físicos, sem beijos nem abraços, e sem apertos de mão. Gradualmente ganhámos confiança e fomos regressando, os que regressámos, pois alguns, desde março, ainda receiam dar algum passo (em falso) fora de casa.

À medida que o tempo avançou, do verão ao Natal, tudo parecia estar a voltar, muito devagar, mas havia grandes expectativas de que não faltaria muito para retomarmos projetos ou avançarmos com novas propostas, no nosso caso, propostas pastorais e envolvimento das comunidades. O Ano Pastoral 2020-2021 da Diocese foi pensado nesta perspetiva, com precaução, mas abrindo e semeando sulcos de paz e de esperança, colocando possibilidades sobre a mesa. Janeiro acabou com muitas das nossas ilusões. Voltámos a um confinamento generalizado pela elevada pressão no SNS, centenas de pessoas mortas em consequência da COVID-19, e multiplicação de contágios. Agora vamos com mais calma e ponderação, ainda que alguns não tenham entendido, ainda, que todos estamos sujeitos a ser contaminados e a colocar em perigo a própria e a vida dos outros.

A Quaresma deste ano pastoral tem, desde o início, as marcas da pandemia. As ilusões são menores, mas a esperança deve ser renovada constantemente. Adaptamo-nos às circunstâncias, cuidando uns dos outros, até onde é possível e recomendável, mas não podemos esperar infindamente, de braços cruzados, de corações fechados, com a vida suspensa. A Igreja Católica deu sinais de ser pessoa de bem e de confiança, assegurando a máxima segurança nas celebrações dentro dos edifícios ou ao ar livre.

Na quarta-feira de Cinzas, o Papa deixou-nos mais uma interpelação significativa, caracterizando a Quaresma como uma viagem de regresso a Deus. O tempo é-nos dado por Deus, e só Ele sabe o dia e a hora; a nós cabe “gerir”, viver, valorizar as oportunidades, potenciar os talentos. “Quantas vezes, atarefados ou indiferentes, Lhe dissemos: «Senhor, espera! Virei encontrar-Vos mais tarde… Hoje não posso, mas amanhã começarei a rezar e a fazer algo pelos outros». E assim dia após dia… Agora Deus lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas hoje é o tempo de regressar a Deus”.

Prosseguindo, o Papa lembra-nos que a Quaresma envolve a vida toda. A configuração a Jesus deve ser total. A Quaresma coloca-nos em êxodo, da escravidão para a liberdade, um regresso, como o filho pródigo, à casa paterna, à ternura e abraço do Pai. “É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso… Curai o meu coração. Voltemos a rezar ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do louvor, que queima as cinzas das lamúrias e da resignação”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/15, n.º 4597, 23 de fevereiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: «Vamos subir a Jerusalém…» (Mt 20, 18)

De forma decidida, Jesus avança para Jerusalém. Este trecho do Evangelho foi escolhido pelo Papa Francisco para a habitual mensagem da Quaresma, convidando a renovar a fé, a esperança e caridade.

Há alturas da vida que nos impelem à resiliência, a uma luta persistente e contínua.

Jesus caminha para morte?! Não, Jesus caminha para a vida, para a entrega, para o oferecimento da Sua vida, para que, eu e tu, tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Jesus quis morrer? Não, mas não Se desvia do Seu caminho para ser Caminho, Verdade e Vida. Em diversas ocasiões, Jesus retira-Se, com os discípulos, para outras localidades ou mantém-Se discreto para não irritar as autoridades ou grupos mais zelosos. Tudo tem a sua hora e Jesus, que, com o Pai e o Espírito Santo, é o Senhor do tempo e da história, não tem pressa em apressar a hora, tem pressa em apressar a ternura, a compaixão, o anúncio do Evangelho, amando e reabilitando, perdoando e curando.

Nas Bodas de Caná, Maria intervém e apressa a Hora de Jesus, por bons motivos, para ajudar os noivos e as suas famílias e lhes proporcionar uma festa feliz, descontraída e sem sobressaltos. Afinal, Deus é também o Senhor da festa e da alegria, da esperança e do futuro, da misericórdia e da carícia.

Logo depois da Anunciação, diz-nos São Lucas, Maria corre veloz pelas montanhas ao encontro da Sua prima Isabel, para a ajudar e para lhe comunicar a Boa Nova que é Jesus. É esta a pressa que nos deve tornar mais próximos uns dos outros, fazendo com que a fé que nos preenche nos faça viver preenchendo a vida de caridade e de esperança. Não esqueçamos o lema pastoral da nossa diocese para este ano (preenchido também) de pandemia: abrir e semear sulcos de paz e de esperança.

Em Nazaré, perante a ameaça de alguns, que O levam ao alto da colina, Jesus irrompe por entre eles e segue o Seu caminho. Sigamos com Ele. Não nos deixemos levar pela aragem das modas e das intrigas, das conspirações ou ameaças. Alerta-nos São Judas sobre os falsos profetas, que também o podemos ser: “São nuvens sem água arrastadas pelo vento; árvores de outono sem fruto… astros errantes para os quais está reservada para sempre a mais tenebrosa escuridão… são murmuradores, queixosos da sua sorte; da sua boca saem palavras pomposas, para adularem as pessoas, em vista do próprio interesse”.

O tempo da Quaresma é este renovado, intenso e permanente desafio da conversão, sair de mim ao encontro de Jesus, sem contornar as dificuldades, sem me deixar levar por uma qualquer profecia, sabendo que n’Ele e com Ele, Jerusalém surge como a hora da entrega, do serviço e do amor. Não há caminhos alternativos. Só o caminho da Cruz, da fé, da confiança em Deus, do serviço aos irmãos, é o caminho dos cristãos.

Fiquemos com as palavras do Santo Padre: “Viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens, nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai. Que Maria, Mãe do Salvador, fiel aos pés da cruz e no coração da Igreja, nos ampare com a sua solícita presença, e a bênção do Ressuscitado nos acompanhe no caminho rumo à luz pascal”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/14, n.º 4596, 16 de fevereiro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Relação de confiança no cuidado dos doentes

Tema escolhido pelo Papa Francisco para o XXIX Dia Mundial do Doente, que celebramos, cada ano, a 11 de fevereiro, na memória de Nossa Senhora de Lurdes: «‘Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos’ (Mt 23, 8). A relação de confiança, na base do cuidado dos doentes».

A referência fundamental é Jesus e a Sua postura de vida. Com Ele deveremos sincronizar a nossa conduta na relação com os outros, na opção preferencial pelos mais pobres, os que se encontram em situação mais frágil e desfavorecida, como são, por exemplo os doentes. Jesus alertava para a hipocrisia daqueles que exigem aos outros comportamentos, mas que eles próprios não mexem uma palha para o cumprirem. Jesus tem a consciência que as palavras se enraízam no coração, se enraízam na vida e nos comprometem, no concreto, no serviço ao nosso semelhante. Como lembrava o Papa, no último domingo, só há uma situação em que é lícito olharmos as pessoas de cima para baixo, quando nos debruçamos para as ajudar a levantar-se. É o que Jesus faz em relação à sogra de Pedro, doente e com febre, toma-a pela mão e levanta-a. O mesmo faz com os outros doentes que se aproximam d’Ele (cf. Mc 1, 29-39).

Ao longo da Sua vida, Jesus estabelece uma relação de proximidade afetiva com todos os que encontra, sejam as multidões, os apóstolos e discípulos, sejam as pessoas mais frágeis marcadas pela doença, pela pobreza, pela exclusão motivada pela condição social/moral, pecadores e publicanos. Ele não olha para ti em conformidade com o teu cartão de cidadão, a tua origem, a tua pertença a um partido, a tua nacionalidade ou, mesmo religião, Ele olha para ti como irmão. É a dinâmica do Bom Samaritano, que vê, se aproxima para ver melhor, desce da sua montada, debruça-se para cuidar das feridas, levanta o a pessoa caída, coloca-a na sua montada, condu-la a um lugar de repouso e recuperação, assume as despesas do seu tratamento e mantém-se vigilante pelo seu estado de saúde (cf. Lc 10, 25-37).

Mais tarde ou mais cedo, tu e eu, todos passaremos, se ainda não estivemos nessa condição, pela situação de doentes. Ou tivemos/teremos algum familiar próximo a necessitar de cuidados de saúde, internamento, ou mesmo cuidados mais intensivos e/ou continuados. Como gostaríamos de ser tratados? Como gostaríamos que os nossos familiares fossem tratados? Certamente que responderíamos: com todo o respeito, atenção, cuidado.

A terapia da pessoa doente deve ter um carácter holístico, não se trata de intervir numa parte do corpo, mas na pessoa como um todo. Não há doenças, há pessoas doentes, o corpo, alma e espírito. Entre os que são tratados e aqueles que cuidam deverá haver uma relação personalizada, de confiança e respeito, de sinceridade e disponibilidade, colocando no centro a dignidade da pessoa doente. A referência, não é demais repeti-lo, é Jesus. “Assim o atesta muitas vezes o Evangelho quando mostra que as curas realizadas por Jesus nunca são gestos mágicos, mas fruto de um encontro, uma relação interpessoal, em que ao dom de Deus, oferecido por Jesus, corresponde a fé de quem o acolhe, como se resume nesta frase que Jesus repete com frequência: «A tua fé te salvou»”.

A atual pandemia acentuou vulnerabilidades e insuficiências dos sistemas de saúde, com descriminação negativa do acesso aos cuidados médicos por parte das pessoas mais frágeis e pobres. É tempo de refletir e de agir em prol da fraternidade inclusiva.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/13, n.º 4595, 9 de fevereiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Gastar as solas dos sapatos

Provocante desafio do Papa Francisco na mensagem para o 55.º Dia Mundial das Comunicações Sociais (disponível: www.diocese-lamego.pt), comemorado na Solenidade da Ascensão do Senhor ao Céu, este ano a 16 de maio, e divulgada na memória litúrgica de São Francisco de Sales, a 24 de janeiro.

O tema é clarividente: «‘Vem e verás’ (Jo 1, 46). Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são». Com efeito, “para poder contar a verdade da vida que se faz história (cf. Mensagem do 54.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2020), é necessário sair da presunção cómoda do «já sabido» e mover-se, ir ver, estar com as pessoas, ouvi-las, recolher as sugestões da realidade, que nunca deixará de nos surpreender em algum dos seus aspetos”.

“Jornais de fotocópia” é outra expressão forte do Papa que alerta para o risco de se fazerem jornais, noticiários de televisão, rádio e websites substancialmente iguais, feitos diante de um ecrã, sem ir ao encontro de pessoas e de acontecimentos, secundarizando as entrevistas e a investigação, numa troca de informação pré-fabricada, autorreferencial. O contraponto é sair e ir ao encontro das pessoas, procurar as suas histórias, ver em primeira mão, olhos nos olhos, sem filtros.

É fundamental promover a cultura do encontro, gastar as solas dos sapatos, pôr-se a caminho. Ir e ver. Vinde e vede (Jo 1, 39), diz Jesus àqueles que O querem conhecer. “A fé cristã começa assim; e comunica-se assim: com um conhecimento direto, nascido da experiência, e não por ouvir dizer”.

O desafio é comunicar, encontrando as pessoas onde estão, como são, conhecê-las no concreto, com os seus sofrimentos e com os seus sonhos e projetos. Paulo de Tarso, diz-nos o Papa, se vivesse no nosso tempo usaria o e-mail e as redes sociais para comunicar, mas atrai os seus contemporâneos pela sua fé, esperança e caridade.

A palavra é importante, Jesus é a Palavra de Deus que encarna, fazendo-Se um de nós e deixando-Se ver, ouvir e tocar. Com Ele, a comunicação faz-se pelas palavras, mas é essencial o olhar, o tom de voz, os gestos, o toque, a carícia. Na comunicação nada substitui o encontro pessoal, o ir e ver, experimentar, contar as histórias concretas, sublinhar as histórias positivas. É crucial também neste tempo da pandemia, verificar as expetativas e a realidade da vacinação e da cura nas aldeias tão recônditas da Ásia, América Latina e África. Ir e ver e não apenas observar à distância sem conferir a veracidade das notícias que nos vendem. Os mais indigentes correm o sério risco de ficar novamente esquecidos, na vacinação e nos apoios.

“Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, pelas informações que damos, pelo controlo que podemos conjuntamente exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade: a ir, ver e partilhar”.

A oração do Papa, a finalizar a Sua Mensagem:

“Senhor, ensinai-nos a sair de nós mesmos, / e partir à procura da verdade. / Ensinai-nos a ir e ver, / ensinai-nos a ouvir, / a não cultivar preconceitos, / a não tirar conclusões precipitadas. / Ensinai-nos a ir aonde não vai ninguém, / a reservar tempo para compreender, / a prestar atenção ao essencial, / a não nos distrairmos com o supérfluo, / a distinguir entre a aparência enganadora e a verdade. / Concedei-nos a graça de reconhecer as vossas moradas no mundo / e a honestidade de contar o que vimos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/11, n.º 4593, 26 de janeiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: A cultura do naufrágio no novo ano

O ano de 2020 ficou para trás! Ou talvez não! Tenho lido comentários estranhos a propósito: 2020 deveria ser um parêntesis, avançando de 2019 para 2021; deveria passar-se uma borracha para apagar o ano!

Apagar o passado não é possível, pois não somos máquinas computadorizadas. Querer apagar o passado, por causa de um acontecimento negativo, revela ingenuidade ou infantilismo. A memória torna-nos verdadeiramente humanos, na certeza de que vamos acumulando memórias de muitos acontecimentos e encontros, lugares e pessoas, nem sempre o que procurámos ou desejávamos, mas os que a vida ou, quem sabe, Deus colocou no meu e no teu caminho.

Numa nova etapa, num novo ano, misturam-se ansiedade e esperança, dúvidas e receios. Como será o que vem pela frente? Será que o mundo se tornará melhor e as pessoas mais humanas e solidárias? A nossa vida será risonha? É um misto de sentimentos e emoções que nos faz desejar este (re)começo! Mas, como em todas as dimensões da vida, não se apaga o que somos, o que vivemos, as adversidades que enfrentámos. Se assim fora, teríamos que começar do zero, sem memória nem conhecimentos, sem comodidades, e perderíamos tudo o que de bom nos sucedeu, as pessoas que encontrámos, o que nos fez crescer. Não é possível fazer tábua rasa de um ano ou de um mês. Somos também o que vivemos, somos as opções que fazemos, seremos o que somos com o que lhe juntarmos.

O Papa Francisco empresta-nos o conceito da cultura do naufrágio, acerca da educação, mas que se adequa também à nossa vida. “O náufrago enfrenta o desafio de sobreviver com criatividade. Ou espera que o venham resgatar ou dá início ao seu próprio resgate. Na ilha onde chega, tem de começar a construir uma palhota, para a qual pode utilizar as tábuas do barco afundado e, também elementos novos que encontra no lugar. O desafio de assumir o passado, ainda que já não flutue, e de utilizar as ferramentas que o presente oferece, tendo em vista o futuro”.

E prossegue na mesma linha: “Para educar é preciso ter em conta duas realidades: o quadro de segurança e a zona de risco. Não se pode educar apenas com base em quadros de segurança, nem apenas com base em zonas de risco; tem de haver uma proporção, não digo equilíbrio. Uma pessoa começa a caminhar quando nota o que lhe falta, porque se não lhe faltar qualquer coisa não caminha”.

É com esta criatividade e expectativa que damos novas cores, rostos e configuração à Voz de Lamego, com os seus 90 anos, feitos a 8 de novembro de 2020. Não apagamos o que somos, como jornal, ao serviço da diocese e da região, mas queremo-nos ainda mais próximos, mais ágeis, e sempre transparentes nos valores da vida, da verdade e do bem, na senda do humanismo cristão, a informar e a refletir, a desafiar e a debater. Contamos com todos. A cada um solicitamos a colaboração para chegarmos mais longe, a mais pessoas, leitores, assinantes e anunciantes. A sobrevivência da Voz de Lamego passa por aqui, por ti e por mim, e pela captação de novos amigos. Prosseguimos com alegria e com esperança. Muito obrigado por esta entreajuda, certos da bênção e do favor de Deus. Bom ano de 2021.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/08, n.º 4590, 5 de janeiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: São José, com coração de Pai

São José está estreitamente ligado à economia da salvação. No passado dia 8 de dezembro, completaram-se 150 anos da proclamação de São José como Padroeiro da Igreja Católica, feita pelo Beato Pio IX, em 8 de dezembro de 1870. Face a esta efeméride, o Papa Francisco convocou um ano para refletir especialmente sobre São José e o seu papel na vida da Igreja e dos cristãos, como exemplo de um homem simples e discreto. Ele passaria ao lado dos grandes títulos de jornais, tal como tantos homens e mulheres que no anonimato transformaram e continuam a transformar o mundo com o seu compromisso, optando pelo bem e pela verdade, prosseguindo a justiça e a paz, no serviço aos irmãos e no cuidado para com os mais desfavorecidos.

Ao convocar o Ano de São José (de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021), o Papa brindou-nos com uma Carta Apostólica, Patris Corde (Com o coração de Pai), enquadrando a importância de São José, como Pai adotivo de Jesus, esposo da Virgem Maria, Padroeiro dos operários, invocado para uma tranquila e boa morte, confiando-nos à Sua intercessão nas contrariedades da vida, imitando-O na delicadeza, na fidelidade à vontade de Deus, na escuta atenta do Senhor, no cuidado decidido de Jesus e de Nossa Senhora.

“Os meus antecessores aprofundaram a mensagem contida nos poucos dados transmitidos pelos Evangelhos para realçar ainda mais o seu papel central na história da salvação: o Beato Pio IX declarou-o «Padroeiro da Igreja Católica», o Venerável Pio XII apresentou-o como «Padroeiro dos operários»; e São João Paulo II, como «Guardião do Redentor». O povo invoca-o como «padroeiro da boa morte»”.

“Na parte inferior [do brasão do Papa Francisco], estão a estrela e a flor de nardo. A estrela, segundo a antiga tradição heráldica, simboliza a Virgem Maria, mãe de Cristo e da Igreja; a flor de nardo indica são José, padroeiro da Igreja universal. Com efeito, na tradição iconográfica hispânica, são José é representado com um ramo de nardo na mão. Colocando estas imagens no seu brasão, o Papa pretendeu expressar a sua devoção particular à Virgem Santíssima e a São José”.

O Santo Padre iniciou o pontificado no dia de São José, a 19 de março de 2013. Por outro lado, tem uma imagem de São José a dormir e, como já explicou, quando tem um problema ou dificuldade escreve num papelinho e coloca debaixo da imagem, para que São José sonhe e reze por essa dificuldade.

Nesta Carta Apostólica, o Papa apresenta, de forma mais sistematizada, as suas reflexões sobre São José, meditadas ao longo do tempo. A partir de vários títulos, apresenta-nos São José e desafia-nos a imitá-l’O: Pai amado; Pai de ternura; Pai na obediência; Pai no acolhimento; Pai com coragem criativa; Pai trabalhador, e Pai na sombra.

“A grandeza de São José consiste no facto de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus. Dia após dia, José via Jesus crescer «em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52). Como o Senhor fez com Israel, assim ele ensinou Jesus a andar, segurando-O pela mão: era para Ele como o pai que levanta o filho contra o seu rosto, inclinava-se para Ele a fim de Lhe dar de comer (cf. Os 11, 3-4). Jesus viu a ternura de Deus em José: «Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem» (Sal 103, 13)”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/06, n.º 4588, 15 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Antes e para lá da pandemia

Sim, não é só para lá do orçamento que há mais vida, também antes e para lá da pandemia. Como está à vista, a pandemia veio tornar mais difícil a vida de empresas e de famílias, desequilibrar orçamentos e perigar as bolsas de valores, pôr à prova a resiliência de muitos e a agilidade dos governantes, exigir investimentos na saúde e na investigação. Como sublinhou o Papa Francisco, no dia 27 de março, a pandemia pôs a descoberto muitas fragilidades e a impossibilidade de continuarmos a ser saudáveis num mundo doente.

Há uma multidão imensa de pobres, de excluídos, de refugiados, de vítimas de violência doméstica ou de guerrilhas; crianças exploradas e esquecidas; mulheres com ventres esventrados e violados; famílias impedidas de o serem; crentes perseguidos e expulsos de empregos, das suas casas e dos seus países; crianças sem teto, sem pão, sem acesso à educação; tráfico de pessoas e de órgãos humanos; trabalho escravo, exploração sexual; descarte das pessoas que incomodam ou já não são úteis, tal como no nazismo. Tudo isto já existia antes da pandemia. O novo coronavírus fez parar o mundo ou, pelo menos, abrandá-lo, ao ponto de o ambiente estar agora mais saudável. E, no entanto, havia pessoas que morriam à fome e continua a haver muitas mais pessoas a morrer à fome.

A revista Além-Mar costuma presentar-nos com números e com percentagens que nos permitem ver rapidamente o quão longe estamos da fraternidade. No mês novembro, por exemplo, um estudo sobre o saneamento básico no mundo. É espantoso. Existem 2,3 milhões de pessoas sem saneamento básico. 297 000 crianças com menos de 5 anos que morrem todos os anos por falta de água potável e saneamento básico; 2 000 milhões de pessoas que usam água potável de fonte contaminada com fezes; 1 500 milhões de pessoas em todo o mundo que usam o serviços de saúde sem saneamento básico; 673 milhões de pessoas em todo o mundo que ainda praticam a defecação a céu aberto; 432 000 mortes anuais por diarreia provocada pela falta de saneamento; 1/3 fração de escolas em todo o mundo que não têm serviços de saneamento básico; é 20 vezes maior a probabilidade de crianças morrerem nos países em conflito devido à falta de saneamento básico do que devido à violência; 45% da população mundial tem acesso a uma gestão segura de saneamento básico em casa e 17% nos campos de refugiados.

Eis a população sem acesso a condições básicas de saneamento por zonas geográficas: 106 milhões na América Latina; 695 milhões na África subsariana; 176 milhões no Sudoeste asiático; 953 milhões no Sul da Ásia, e 337 milhões no Este asiático. São números, é certo, mas números de pessoas com nome, com rosto, com desejo de viver, mas sem muitas expetativas que não seja sobreviver mais um dia. E se avançássemos umas páginas na referida publicação, Além-Mar encontraríamos números sobre a exploração (escrava) do cobalto. Há um caminho longo a percorrer.

Entramos no caminho de preparação para o Natal. É um tempo de especial sensibilidade social. Sem esquecermos os de perto, podemos também ajudar os de longe. Por todos, diz o povo, não custa nada. Entre outras, duas campanhas solidárias, que já trouxemos à Voz de Lamego: 10 Milhões de Estrelas – Um gesto pela paz, da Cáritas, e a campanha do Banco Alimentar contra a Fome, na recolha de alimentos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/04, n.º 4586, 2 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Em busca do que somos

Não podemos voltar ao passado, mas devemos tornar-nos aquilo que somos como pessoas. É o desafio permanente do cristão, tonar-se aquilo que é pelo batismo, filho amado de Deus. Estamos enxertados em Cristo, morremos com Ele e com Ele ressuscitamos novas criaturas, ajustando a nossa vida com a d’Ele e fazendo com que a nossa vontade esteja sincronizada com a d’Ele. É também essa a missão de Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). O discipulado consiste em O seguir. “Como O Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós” (Jo 20, 21), “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando” (Jo 15, 14).

Vamos iniciar um novo ano litúrgico e cada novo ano, seja civil, seja, neste caso, litúrgico, desafia-nos a avaliar o caminho percorrido e a traçar propósitos que nos façam avançar, confiantes, seguros e disponíveis para lidar com o dia a dia, com as suas adversidades e com as suas bênçãos, comprometendo-nos, mais e mais com aquilo que nos torna mais humanos, mais cristãos, comprometidos na transformação do mundo, o que passa pela nossa conversão. Parar é morrer. Mais vale, como muitas vezes nos tem dito o Papa Francisco acerca da Igreja, mais vale sair e ter um acidente do que ficar parado a ganhar mofo. É a nossa condição humana. É a nossa vocação cristã. No dizer de Blaise Pascal, “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Fomos criados por Deus para as alturas, para coisas grandiosas. A nossa condição humana pode transparecer egoísmo, mas a nossa identidade primeira, o primeiro amor, de Deus por cada um de nós, desafia-nos a acolher o Seu projeto: sermos felizes. Como disse o Santo Padre aos jovens: “Não fomos feitos para sonhar os feriados ou o fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo. Ele tornou-nos capazes de sonhar, para abraçar a beleza da vida. E as obras de misericórdia são as obras mais belas da vida”.

A nossa busca, incessante, é voltar, não atrás, mas a efetivar o que somos em potência, pela graça do Batismo. É sugestiva a música da dupla Carlos Tê/Rui Veloso: “Nunca voltes ao lugar / Onde já foste feliz / Nunca mais voltes à casa / Onde ardeste de paixão / Só encontrarás erva rasa / Por entre as lajes do chão / Nada do que por lá vires / Será como no passado / Não queiras reacender / Um lume já apagado / Por grande a tentação / Que te crie a saudade / Não mates a recordação / Que lembra a felicidade / Nunca voltes ao lugar / Onde o arco-íris se pôs / Só encontrarás a cinza / Que dá na garganta nós”.

A Nicodemos, Jesus responde precisamente: “Quem não nascer de novo, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3, 3.5). São elucidativas as palavras do Papa, no último domingo [ver homilia, página 7]: “A vida é o tempo das escolhas vigorosas, decisivas e eternas. Escolhas banais levam a uma vida banal; escolhas grandes tornam grande a vida. De facto, tornamo-nos naquilo que escolhemos, tanto no bem como no mal. Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos rancorosos; se escolhemos passar horas no telemóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, vamo-nos tornando dia a dia mais amáveis e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/03, n.º 4585, 24 de novembro de 2020

Editorial Voz de Lamego: Esquecer a morte é morrer

Atravessamos o mês de novembro, mês das almas. Iniciámo-lo com a Solenidade de Todos os Santos e com a Comemoração dos Fiéis Defuntos. Dois dias que nos falam especialmente do fim, mas também de um caminho que nos levará à presença definitiva junto de Deus.

São dias, ou um mês, em que o cemitério recebe mais visitas, ainda que haja quem o faça muitas vezes. Alguns porque ainda não conseguiram recompor-se da “partida”, outros, porque fizeram disso um ritual de luto, pois sabem que existiu uma história que as levou ali, mas não acaba ali. Pessoas que, mesmo recompostas, recordam e saúdam aqueles com quem construíram a vida e partem da visita ao cemitério com a certeza de que vida continua, com novas memórias, que não destroem as anteriores, mas que permitem viver com gratidão e firmeza.

A comemoração dos fiéis defuntos, em particular, recorda-nos da fragilidade e finitude; é oportunidade de gratidão para com aqueles que nos trouxeram à vida e nos legaram valores, nos introduziram na sociedade, nos enxertaram na fé. É um desafio a construirmos um mundo melhor, mais fraterno e saudável, para o “passarmos” aos nossos filhos e netos, para que também eles construam a história.

Aproveitando as memórias das redes socias, recuperamos uma intervenção do Papa Francisco, há pouco mais de um ano que nos faz refletir sobre a morte, sobre o fim. “É a morte que permite que a vida permaneça viva! É o fim que permite que uma história seja escrita, um quadro pintado, que dois corpos se abracem”. Mas o fim, alerta o Santo Padre, “não está só no final. Talvez devêssemos prestar atenção a cada pequeno fim da vida quotidiana. Não só no final da história, que nunca sabemos quando termina, mas no final de cada palavra, no final de cada silêncio, de cada página que se escreve. Só uma vida que é consciente deste instante que termina, torna este instante eterno”.

Quando visitamos um cemitério, quando participamos num funeral, quando vemos morrer aqueles que caminham ao nosso lado, mais facilmente nos lembramos que um dia também o nosso fim chegará. Lamentamos, tomamos consciência que há muitas coisas que não valem a pena. Mas passa o momento e voltamos aos nossos afazeres, preocupações e azáfamas.

Vale a pena prosseguir com a reflexão do Papa, que nos diz que a morte nos faz saber da impossibilidade de ser, compreender e englobar tudo, “é uma bofetada na nossa ilusão de omnipotência. Ensina-nos na vida a relacionarmo-nos com o mistério. A confiança de pular no vazio e perceber que não caímos, que não afundamos, que desde sempre e para sempre há Alguém ali para nos sustentar. Antes e depois do fim”. O mundo atual sacraliza a autonomia, a autossuficiência, a autorrealização, centra-nos em nós, faz-nos pensar que somos o fim, que não adianta pensar no final, o que faz com que vivamos como se fossemos os donos disto tudo, agindo como nos dá na real gana, sem pensarmos no fim. “Uma cultura que esquece a morte começa a morrer por dentro. Aquele que esquece a morte já começou a morrer. As três mortes que nos esvaziam a vida! A morte de cada instante. A morte do ego. E a morte de um mundo que dá lugar a um novo. Lembrai-vos, se a morte não tem a última palavra, é porque na vida aprendemos a morrer pelo outro”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/47, n.º 4582, 3 de novembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Fraternidade, fonte de liberdade e igualdade

Esta é uma das expressões do nosso Bispo, na missa crismal, no dia 5 de outubro, e que deu tom e cor à sua homilia, partindo da recente Carta Encíclica do Papa Francisco “Fratelli Tutti”, todos irmãos.

A receção ao documento do Papa vai-se fazendo, dentro e fora do âmbito da Igreja, com diferentes sublinhados e, como sempre, algumas polarizações. Ao nosso jornal também vão chegando algumas reflexões que incidem ou partem desta Carta.

São Francisco de Assis desafia-nos a tratar como irmãos o Sol, o mar, o vento, os passarinhos, e irmão de todos, a começar pelos pequeninos, pobres, doentes, abandonados, descartados, dos últimos, pois essa foi a opção de Jesus, essa há de ser a opção preferencial dos cristãos. Diz o Papa, “a fidelidade ao seu Senhor era proporcional ao amor que nutria pelos irmãos e irmãs”.

O nosso Bispo, na missa crismal e, no passado sábado, nas Jornadas Nacionais de Catequistas, sublinhou que a fraternidade é o sustentáculo da igualdade e da liberdade, sugerindo que ao tríptico da revolução francesa e do iluminismo deveria subtrair a fraternidade. E porquê? Porque se Deus foi retirado da equação, então não há como justificar, defender ou propor a fraternidade. Sem Deus, sem Pai, não há filhos! Se não temos um Pai comum, não podemos ser irmãos. A fraternidade supõe a filiação. Se não somos filhos, como é que poderemos ser irmãos, construir a fraternidade (comunidade de irmãos).

Claro que, sem fraternidade, a igualdade e a liberdade não têm um fundamento sólido, duradouro e definitivo. Com efeito, a fraternidade é o cimento da igualdade e da liberdade. Se não somos irmãos, porquê preocupar-nos com estranhos? Refira-se ainda assim que a sobrevivência do mundo depende de todos, o bem ou o mal que faço vai afetar o outro, vai decidir que o mundo é destruído ou se é contruído.

Do mesmo modo a liberdade. Se a liberdade se apoia em mim ou em ti, se se apoia nas normas de um país ou de uma ideologia, será uma liberdade a prazo, pois basta mudar a pessoa que tem mais poder para que também esta adquira outras feições. Sem a fraternidade, a lei do mais forte ganha terreno, manda quem pode.

“Como crentes, diz-nos o Papa, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo á fraternidade” (272).

D. António, por sua vez, salienta que a raiz da fraternidade e essência da família é o amor eterno e verdadeiro. E o lugar humana onde se manifesta a fraternidade é a família. “Os filhos, não deixando de ser diferentes na ordem do nascimento, da saúde, da inteligência, temperamento, sucesso, são iguais, e são iguais não obstante as suas acentuadas diferenças; são iguais, não em função do que são ou do que têm ou do que fazem, mas em função daquilo que lhes é dado e feito; são diferentes mas são iguais, são iguais não devido a isto que fazem, ao seu currículo e ao seu trabalho, mas devido ao amor dos seus pais, que os faz iguais, que os torna iguais”. E também em função do amor fontal de Deus Pai, somos filhos de Deus, filhos no Filho, é esse amor primeiro que que nos torna livres e iguais. Deus não tem netos nem sobrinhos. Somos todos irmãos, porque somos todos filhos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/46, n.º 4581, 27 de outubro de 2020