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Archive for the ‘Papa Francisco’ Category

Editorial Voz de Lamego: Somos o que desejamos ser

“Deus quer, o homem sonha e a obra nasce” (Fernando Pessoa). Se nada desejamos nada alcançaremos. Dir-nos-á Blaise Pascal: “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Está inscrito no nosso íntimo este desejo de sermos mais, vivermos melhor, deixarmos marcas da nossa passagem pelo mundo. O homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito, constitutivamente limitado e finito, procura sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do corpo e do mundo. O desejo espicaça o nosso comprometimento na busca, na persistência e no envolvimento em diversas iniciativas, desafios e campanhas.

O Papa Francisco, na homilia da Epifania do Senhor, acentuou esta necessidade de desejo, de busca, de caminho, de resiliência diante dos obstáculos. É o desejo que alimenta a busca e o encontro com Jesus. O Santo Padre começou por citar o seu antecessor: os Magos eram «pessoas de coração inquieto (…); homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social (…); eram indagadores de Deus» (Bento XVI, 06/01/2013).

Mas de onde nasce esta inquietação que levou os Magos a peregrinar? Nasce do desejo, responde o Papa Francisco. “Desejar significa manter vivo o fogo que arde dentro de nós e nos impele a buscar mais além do imediato, mais além das coisas visíveis. É acolher a vida como um mistério que nos ultrapassa, como uma friesta sempre aberta que nos convida a olhar mais além, porque a vida não é «toda aqui», é também «noutro lugar». É como uma tela em branco que precisa de ser colorida. Um grande pintor, Van Gogh, escreveu que a necessidade de Deus o impelia a sair de noite para pintar as estrelas. Isto deve-se ao facto de Deus nos ter feito assim: empapados de desejo; orientados, como os Magos, para as estrelas. Somos aquilo que desejamos. Porque são os desejos que ampliam o nosso olhar e impelem a vida mais além: além das barreiras do hábito, além duma vida limitada ao consumo, além duma fé repetitiva e cansada, além do medo de arriscar, de nos empenharmos pelos outros e pelo bem. «A nossa vida – dizia Santo Agostinho – é uma ginástica do desejo» (Tratados sobre a primeira Carta de João, IV, 6)”.

Iniciámos um novo ano civil! Quando falamos em novo, falámos em propósitos, sonhos, desejos! Mas é possível que a meio do caminho vacilemos! É possível que tenhamos começado 2022 já cansados, nomeadamente em relação a rotinas quotidianas ou a esta pandemia que não mostra sinais de ceder. Ao longo da nossa vida podemos passar por momentos de embotamento, de desencanto e insensibilidade em relação às pessoas ou aos acontecimentos, negativos ou positivos. Deixamos de acreditar, colocamos em causa a bondade das pessoas, parece que o que dizemos e fazemos não faz diferença. Sinal e expressão que o desejo (por Deus) se esbateu, a fé adormeceu! É a vida! Faltou-nos o combustível? A oração? A escuta e meditação da Palavra de Deus? Algum acontecimento que nos deixou de rastos? No trabalho? Na família? Na sociedade?

Deixemo-nos guiar novamente pela reflexão do Santo Padre: “Debruçamo-nos demasiado sobre os mapas da terra, e esquecemo-nos de erguer o olhar para o céu… O desejo de Deus cresce se permanecermos diante de Deus. Porque só Jesus cura os desejos. De quê? Da ditadura das necessidades. Com efeito, o coração adoece quando os desejos coincidem apenas com as necessidades; ao passo que Deus eleva os desejos; purifica-os, cura-os, sanando-os do egoísmo e abrindo-nos ao amor por Ele e pelos irmãos. Por isso, não esqueçamos a Adoração: detenhamo-nos diante da Eucaristia, deixemo-nos transformar por Jesus. Como os Magos, levantemos a cabeça, ouçamos o desejo do coração, sigamos a estrela que Deus faz brilhar sobre nós… Sonhemos, procuremos, adoremos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/09, n.º 4640, 12 de janeiro de 2022

Editorial Voz de Lamego: E da discussão nasce a luz

Em diferentes ocasiões, o Papa Francisco tem proposto a cultura do encontro, que passa, obviamente, pela cultura do diálogo. Nesta época de globalização, tornamo-nos vizinhos, mas longe estamos de ser irmãos. Corremos o sério risco de nos ligarmos a todo o mundo, mas sem nenhuma ligação que nos humanize e irmane, nos responsabilize pelos que vivem à nossa beira, quanto mais pelos que estão longe da vista e do coração. A pandemia fez-nos chegar mais longe, ver mais coisas e mais pessoas, mas parece que em definitivo nos separou da vida, dos cheiros e dos sabores, dos sofrimentos e necessidades dos outros!

À fraternidade desejada contrapõe-se a globalização da indiferença. Em tempo real, vemos as desgraças que se espalham pelo mundo fora, a miséria, os conflitos familiares, intergeracionais, a corrupção, a guerra, a ameaça, o terrorismo, a violência extrema. O nosso olhar, e sobretudo o nosso coração, habitua-se a estas situações, algumas macabras, mas que já não têm a força de nos chocar. É como quem vive perto da Igreja… por mais alto que o sino toque já não desperta. O cérebro acostuma-se aos odores, aos sons, às imagens! E adormece!

Contra a indiferença, apontando para Jesus Cristo, o Papa propõe a fraternidade. Em Cristo, reconhecemo-nos como irmãos, tendo um mesmo Pai que a todos ama como filhos. A referência constante há de ser Jesus que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. A Sua opção preferencial é pelos mais pobres da sociedade, os excluídos social, cultural e até religiosamente. A pandemia acrescentou pobreza à existente, em sociedades desenvolvidas, mas empobrecendo os países mais pobres. Pelo menos ficou em maior evidência a pobreza e a miséria para responder a esta catástrofe. Exemplo disso é o número reduzido de vacinação anticovid nos países terceiro-mundistas.

Como sublinhou o Papa Francisco, no 5.º Dia Mundial dos Pobres, “a humanidade progride, a humanidade desenvolve-se, mas os pobres estão sempre connosco, há sempre pobres e neles está presente Cristo”.

Não há tempos favoráveis, todo o tempo pode ser abençoado e oportunidade de empenho na transformação do mundo e das estruturas existentes para as colocar ao serviço de todos, mas especialmente dos que vivem nas periferias. Também a Igreja é chamada a esta conversão permanente. Um fazer-se que demora o tempo de uma vida, de cada vida, da vida de todos nós!

O adágio popular que intitula esta reflexão é uma interpelação constante na Igreja e à Igreja, mas de forma mais concreta nas diferentes fases do Sínodo dos Bispos, 2021-2023, que visa aprofundar a sinodalidade da Igreja, auscultando, discutindo, acolhendo propostas. A ideia não é apresentar um documento final irrepreensível, mas colocar os cristãos a refletir formas de participar mais ativamente na vida da Igreja, tornando-nos a todos mais corresponsáveis, em missão, partilhando das preocupações e dos anseios do Evangelho para este tempo. Como dizia uma santa senhora, na paróquia de Tabuaço, em Igreja importa mais que muitos façam pouco do que poucos façam muito ou façam tudo. É importante que todos se sintam responsáveis, chamados e enviados.

Este é mais um tempo favorável à discussão, enformada pela luz que vem do Pai, que nos traz Jesus, e que se expande no tempo por ação do Espírito Santo que sopra onde quer… e naqueles que Lhe permitem a inspiração! Tempo de diálogo e de escuta, não para diluir a verdade ou as convicções, mas para nos abrirmos aos outros. Três ações que se interligam, segundo o Papa Francisco: encontrar, porque o encontro muda a vida; escutar as perguntas, as preocupações, as esperanças de cada Igreja; discernir o que Deus quer dizer à Igreja e qual a direção para onde Ele nos quer conduzir.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/02, n.º 4633, 17 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Levantai-vos! Vamos! Caminhemos juntos!

O tema escolhido pelo nosso Bispo e proposto a toda a Diocese de Lamego – Levantai-vos! Vamos! (Mt 26, 46) – coloca-nos em pleno mistério pascal. Depois da Ceia, no Jardim das Oliveiras, Jesus ora, uma e outra vez, para que Se faça a vontade do Pai, apesar do sofrimento que se entrevê, aquela hora tenebrosa que se vislumbra e que Ele sente na pele, no corpo, na alma. Os discípulos adormecem. É noite! Jesus desperta-os, uma e outra vez, e finalmente chama-os.

Ele está com eles, Ele está sempre connosco. Não estamos sós, não caminhamos sozinhos. O chamamento é claro: Levantai-vos! Vamos. Mesmo quando Jesus nos diz: Ide, é um “ide” em que Ele vai connosco. Ide, eu estarei convosco até ao fim dos tempos!

Após a ressurreição, ainda não inteiramente anunciada, no caminho de Emaús, Jesus faz-Se ouvir e faz-Se ver. Iam dois discípulos, desanimados, cabisbaixos, quase a murmurar, desencantados com o que tinha sucedido naqueles dias. Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Perceber-se-á que Ele é o caminho. Eles regressavam para se refugiar em casa; Jesus anuncia-Se, caminha com eles, entra com eles em casa e senta-Se com eles à mesa e, depois da bênção e da distribuição do pão, deixam de O ver. (cf. Lc 24, 13-35). Quando deixam de O ver, exteriormente, já Jesus os habita interiormente! Já não necessitam dos olhos físicos, mas do coração e, por conseguinte, a noite deixa de amedrontar, pois logo se levantam e regressam a Jerusalém, à comunidade dos discípulos.

Um Plano Pastoral aponta metas e vivências, faz-nos assentar os pés no chão para que aos ideais juntemos momentos, instantes, celebrações, encontros, tempos de oração e de reflexão, de formação e convívio. Não é possível traduzir a vida, o amor, se não por gestos, abraços, comunicação, sorrisos, pelas lágrimas e pelas palavras, na entreajuda, na prática das obras de misericórdia (corporais e espirituais), no respirar das bem-aventuranças, na atualização concreta dos Dez Mandamentos, sintetizados e explicitados no mandamento novo do amor: amais-vos uns aos outros como Eu vos amei.

A Diocese não é uma ilha, como o não são as paróquias, os movimentos, as associações, departamentos, serviços ou comissões. Estamos inseridos num país, a Igreja em Portugal, e no mundo, a Igreja Universal, procurando que haja valores, princípios, orientações e até linhas programáticas comuns. A este propósito vale a pena relembrar que estamos em Sínodo, convocado pelo Papa Francisco e inaugurado no fim de semana de 9 e 10 de outubro, no Vaticano, e na maioria das dioceses do mundo, no dia 17 de outubro.

O Sínodo dos Bispos 2021-2023 é um caminho que nos convida a todos, na escuta e no diálogo, na oração e na reflexão, para que, chegados a outubro de 2023, o caminho que percorremos em conjunto, com as dúvidas e interrogações levantadas, com as propostas e orientações sugeridas, possam ser debatidas, para que: o que a todos diz respeito seja por todos rezado e refletido. O tema do Sínodo: “Por uma Igreja Sinodal, comunhão, participação, missão”. Concluía o Pe. Diamantino Alvaíde, na admonição inicial, na Eucaristia de abertura do Sínodo, na Sé de Lamego: “Para uma Igreja sinodal: o Papa Francisco conta com a nossa comunhão; a Igreja espera a nossa participação, e Deus pede a nossa missão”.

No ano de 2023, realizar-se-ão as Jornadas Mundiais da Juventude, em Portugal, com o centro em Lisboa. O lema escolhido pelo Papa: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39) está, de algum modo presente no lema pastoral da nossa diocese. Por sua vez, o Movimento da Mensagem de Fátima servir-se-á de um lema semelhante: “Levanta-te! És testemunha do que viste!”

Levantemo-nos! Vamos! Jesus vai connosco!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/48, n.º 4630, 27 de outubro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Igreja em sínodo, Igreja à escuta

No passado sábado, 9 de outubro, o Papa Francisco deu início à XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sob o tema: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. O sublinhado do Papa Francisco: “As assembleias do Sínodo revelaram-se um instrumento válido para o conhecimento recíproco entre os bispos, a oração comum, o confronto leal, aprofundamento da doutrina cristã, reforma das estruturas eclesiásticas, promoção da atividade pastoral em todo o mundo”.

Durante o seu pontificado realizaram-se duas assembleias sinodais sobre a Família (2014 e 2015), uma assembleia dedicada aos jovens (2018) e um sínodo especial para a Amazónia (2019), e agora sobre a sinodalidade da Igreja.

Vale a pena reler algumas passagens da reflexão do Papa na abertura do Sínodo.

Três palavras chaves: comunhão, participação, missão. “Comunhão e missão são expressões teológicas que designam – e é bom recordá-lo – o mistério da Igreja. O Concílio Vaticano II esclareceu que a comunhão exprime a própria natureza da Igreja e, ao mesmo tempo, afirmou que a Igreja recebeu «a missão de anunciar e instaurar o reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra» (Lumen gentium, 5)… a terceira palavra: participação. Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos meio abstratos, se não se cultiva uma práxis eclesial que se exprima em ações concretas de sinodalidade em cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um”.

Três riscos: formalismo, intelectualismo, imobilismo. “O primeiro é o risco do formalismo. Pode-se reduzir um Sínodo a um evento extraordinário, mas de fachada, precisamente como se alguém ficasse a olhar a bela fachada duma igreja sem nunca entrar nela… Porque às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o «patrão da barraca» e não o pastor de toda uma Igreja que está a avançar…Um segundo risco é o do intelectualismo (da abstração, a realidade vai para um lado e nós, com as nossas reflexões, vamos para outro): transformar o Sínodo numa espécie de grupo de estudo, com intervenções cultas mas alheias aos problemas da Igreja e aos males do mundo; uma espécie de «falar por falar», onde se pensa de maneira superficial e mundana, alheando-se da realidade do santo Povo de Deus… Por fim, pode haver a tentação do imobilismo: dado que «se fez sempre assim» – esta afirmação “fez-se sempre assim” é um veneno na vida da Igreja –, é melhor não mudar. O risco é que, no fim, se adotem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16). Por isso, é importante que o caminho sinodal seja verdadeiramente tal, que seja um processo em desenvolvimento; envolva, em diferentes fases e a partir da base, as Igrejas locais, num trabalho apaixonado e encarnado, que imprima um estilo de comunhão e participação orientado para a missão”.

Três oportunidades. “A primeira é encaminhar-nos para uma Igreja sinodal (1): um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar. Depois o Sínodo oferece-nos a oportunidade de nos tornarmos Igreja da escuta (2): fazer uma pausa dos nossos ritmos, controlar as nossas ânsias pastorais para pararmos a escutar. Escutar o Espírito na adoração e na oração…. uma Igreja da proximidade. O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Deus sempre agiu assim. Se não chegarmos a esta Igreja da proximidade com atitudes de compaixão e ternura, não seremos Igreja do Senhor… uma Igreja que não se alheie da vida, mas cuide das fragilidades e pobrezas do nosso tempo, curando as feridas e sarando os corações dilacerados com o bálsamo de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/46, n.º 4628, 13 de outubro de 2021

Editorial Voz de Lamego: rumo a um nós cada vez maior

Este é o lema escolhido pelo Papa Francisco para o 107.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que se comemora no próximo Domingo, 26 de setembro. Logo a abrir o santo Padre retoma as palavras da carta encíclica Fratelli tutti (todos irmãos): «Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. No fim, oxalá já não existam “os outros”, mas apenas um “nós”» (n. 35). Daí a escolha do tema: «Rumo a um nós cada vez maior», indicando claramente um horizonte para o nosso caminho comum neste mundo.

Os últimos países visitados pelo Papa, Hungria e Eslováquia, foram mais uma oportunidade, nas intervenções e nos gestos, para sublinhar a importância de acolher os outros, no diálogo ecuménico e inter-religioso, na criação de espaço físico e afetivo para receber migrantes e refugiados. A Hungria, na verdade, é um dos países que não recebe refugiados, numa política de fechamento. Na homilia da Eucaristia de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional, o Papa sublinhou, sem reticências: “Deixemos que Jesus, Pão vivo, cure os nossos fechamentos e nos abra à partilha: nos cure da nossa rigidez e de nos fecharmos em nós mesmos, nos livre da escravidão paralisante da defesa da nossa imagem e nos inspire a segui-l’O para onde Ele nos quer conduzir. E não para onde quero eu”.

A mudança de regime no Afeganistão provocou nova onda de refugiados. Muitos foram os que abandonaram o país com medo de ser amordaçados, presos, mortos. Uns por motivos políticos, outros por terem colaborado com o anterior governo e/ou com as forças internacionais, além das mulheres que estudaram e entraram no mercado de trabalho. Nesta semana, Portugal acolheu mais oitenta afegãos, na maioria atletas da equipa de futebol feminino e seus familiares, perfazendo cento e setenta oito refugiados afegãos em território nacional.

A Bíblia está preenchida de saídas, fugas, refúgio, expulsão e perseguição. O segundo livro da Bíblia tem precisamente o título de “Êxodo”, saída, narrando a opressão que os judeus sofreram no Egito, para onde emigraram à procura de melhores condições de vida, ao tempo do patriarca José. Este episódio é narrado no livro que abre a Bíblia, Génesis, e que coloca também em evidência a itinerância de Abraão que, chamado por Deus, sai da sua terra e fixa em Canaã.

Com efeito, o Povo da Aliança tornou-se emigrante no Egito. Moisés liderará o êxodo, a libertação da escravidão para a terra da promessa. Séculos mais tarde, o povo será forçado a sair do seu território num exílio que constituiu uma enorme provação à fé e à identidade nacional.

No próximo Domingo, o Evangelho faz-nos questionar a nossa pertença e o grau de abertura aos outros. Os apóstolos encontram um homem a expulsar demónios em nome de Jesus e procuram impedi-lo porque não fazia parte do grupo. A resposta de Jesus é clarificadora: “Não o proibais… Quem não é contra nós é por nós” (Mc 9, 38-48). Os apóstolos querem tomar posse do nome de Jesus e fechar o círculo, para que ninguém entre! Jesus tem ideias diferentes: para fazer o bem não é preciso um rótulo. O Espírito de Deus sopra onde quer.

Diz-nos o Santo Padre: “Na realidade, estamos todos no mesmo barco e somos chamados a empenhar-nos para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira. Por isso aproveito a ocasião deste Dia Mundial para lançar um duplo apelo a caminharmos juntos rumo a um nós cada vez maior, dirigindo-me em primeiro lugar aos fiéis católicos e depois a todos os homens e mulheres da terra”.

No mesmo barco, mas infelizmente o número de excluídos continua a aumentar. Veja-se a questão da vacinação nos países desenvolvimentos e países terceiro-mundistas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/43, n.º 4625, 22 de setembro de 2021

Editorial VL: São José, custódio de Maria, de Jesus e da Igreja

Há oito anos, o Papa Francisco escolhia o Dia de São José para iniciar o seu pontificado. Curiosamente, como o próprio sublinhou, onomástico de Bento XVI, cujo nome de batismo é José (Joseph).

Francisco quis colocar o seu pontificado sobre o cuidado de São José. Se José, com humildade e descrição, mas com firmeza, cuidou de Maria e de Jesus, também cuidará da Igreja.

Ao longo da história da Igreja, São José, embora acarinhado por ser o pai adotivo de Jesus, surgia quase como um figurante num filme, integrava o elenco mas sem se dar por ele. Justiça seja feita, nos últimos anos este quadro tem-se alterado.

Há 150 anos, o Beato Pio IX, com o Decreto Quemadmodum Deus, declarou São José como Padroeiro Universal da Igreja. Face à grande hostilidade, o Papa confiava a Igreja ao patrocínio de São José. Em 8 de dezembro último, o Papa Francisco, com a Carta Apostólica Patris Corde, convocou um ano especial dedicado a São José e que se prolonga até à próxima solenidade da Imaculada Conceição.

Diz-nos São João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Citado por Francisco, nesta homilia inaugural de pontificado).

O Evangelho é Jesus, a Sua vida e mensagem, a Sua morte e ressurreição. O quadro principal é o mistério pascal, as últimas horas da Sua vida terrena de Jesus, desembocando na Cruz, como oferenda total, e finalizando com a ressurreição, vida nova, à qual nos agrega, enviando-nos a anunciar esta alegre notícia ao mundo inteiro. Os demais livros do Novo Testamento mostram como Jesus está vivo e age pelos Seus discípulos em diversos contextos. Recuar à infância de Jesus não fez parte das cogitações dos evangelistas, ainda que São Lucas e São Mateus nos apresentem um ou outro episódio, sabendo que a preocupação não era escrever uma biografia, mas fixar por escrito o que, primeiramente, foi proclamado oralmente em pequenos grupos de pessoas. Pouco a pouco, a formação das comunidades e a necessidade de o testemunho oral não se esbater com a morte dos apóstolos.

O vislumbre sobre São José já nos diz muito. Discreto, é um homem justo, piedoso, trabalhador, disponível para escutar a Palavra de Deus e realizar os Seus sonhos para a humanidade. Comprometido com Maria, apercebendo-se que se achava grávida, sem a sua intervenção, pondera, mesmo aí, proteger Maria, fazendo recair sobre si o ónus do “abandono” familiar, salvaguardando-A de qualquer suspeita. Porém, Deus baralha-se os propósitos e desafia a envolver-Se no Seu mistério de amor.

O Papa Francisco apresenta-nos São José como custódio, com protetor de Nossa Senhor e do Menino Jesus. Como é que São José realiza esta guarda? “Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entende… Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida… é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/18, n.º 4600, 16 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Ao encontro de Abraão, da bênção e da paz

Por estes dias, de 5 a 8 de março, o Papa Francisco saiu, novamente, do Vaticano e deslocou-se ao Iraque, numa Viagem histórica, desejada por João Paulo II, mas só possível no pontificado atual. Tendo em conta o contexto sempre inseguro do Médio Oriente, tornou-se uma viagem com cuidados redobrados, acrescendo a isso o facto de estarmos a atravessar uma pandemia. Prevaleceu a vontade do Santo Padre e de todos quantos se empenharam nesta missão. Onde o Papa vai, vai com ele Jesus e o Evangelho, e uma mensagem de paz, de fraternidade e de bênção.

Um dos locais emblemáticos é a cidade de Ur, na Caldeia, atual Iraque, onde Abraão nasceu e viveu e de onde partiu para Canaã, respondendo ao chamamento de Deus. A figura de Abraão é incontornável para as três religiões (abraâmicas) monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Abraão é considerado o Pai da fé, por ter sido o primeiro, segundo a Bíblia, a acreditar num Deus único e pessoal. É uma herança comum. Há muitas mensagens e práticas que diferenciam os crentes das três grandes religiões, mas também há muitos pontos de contacto: a fé num Deus único, criador do Universo; o Patriarca Abraão, como pai na fé.

Abraão mostra que a prioridade da sua vida é Deus. Responde à Sua voz. Deixa a casa paterna, a pátria, sem saber para onde o Deus o guia, mas parte em total obediência e confiando totalmente no Senhor. Quando Deus lhe pede, como holocausto, o sacrifício do seu filho Isaac, Abraão, embora triste, porque era o filho da sua velhice, e que deveria perpetuar o nome e a descendência, não hesita, oferece-o a Deus. Se foi Deus quem lho concedeu, é a Deus que pertence.

Com Abraão, aprendemos que diante de Deus somos iguais. Não temos certificado de posse nem dos filhos, nem dos pais, nem do marido ou da esposa. Somos iguais. Somos filhos d’Ele, logo irmãos uns dos outros. Não temos direitos sobre os outros. Só Deus é Deus, só a Ele Lhe pertencemos realmente. E, porque Lhe pertencemos, não podemos ser escravizados nem instrumentalizados pelos outros e, da nossa parte, não podemos espezinhar ou desprezar os irmãos, porque o que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é a Ele que o fazemos.

Nem sequer a terra é nossa. Deus chama Abraão, promete-lhe uma descendência e uma terra. Mas tal como a descendência, também a terra que lhe é confiada não tem um certificado de posse, mas para cuidar e para que também a terra seja refúgio e sustento da sua descendência e de todos os povos. «Abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar… na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra». A voz de Deus faz-se ouvir: «Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças mal algum». Não matarás. Não levantarás a mão contra o teu irmão. Foi o pecado de Caim, o ciúme e a inveja, que levaram ao fratricídio, que destrói a fraternidade. A mensagem que o Papa levou ao Iraque, com ênfase a partir de Ur, é o da fraternidade. Somos irmãos. Somos filhos de Abraão na fé. Professamos a fé no mesmo Deus único e criador. A religião não pode ser fratricida. “Da terra do nosso pai Abraão, afirmamos que Deus é misericordioso e que a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão. Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. O Céu não se cansou da terra: Deus ama cada povo, cada uma das suas filhas e cada um dos seus filhos! Nunca nos cansemos de olhar para o céu, de olhar para estas estrelas… O sonho de Deus: que a família humana se torne hospitaleira e acolhedora para com todos os seus filhos; que, olhando o mesmo céu, caminhe em paz sobre a mesma terra”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/17, n.º 4599, 9 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Quaresma: viagem de regresso a Deus

Há um ano entrávamos na Quaresma com esperança, renovando nas nossas comunidades apelos e caminhadas, desafios para momentos de oração, de reflexão, de vivência de um dos tempos litúrgicos mais densos, com tradições e símbolos tão ricos que envolvem até os mais afastados da vida comunitária. Por outro lado, a abundância do turismo religioso que traz mais vida a aldeias, vilas e cidades.

Pouco tempo depois, o reconhecimento e a mitigação da pandemia levar-nos-ia a alterar planos, a suspender celebrações comunitárias, a catequese, encontros de formação, celebrações dos sacramentos. Suspender, adiar e esperar por melhores dias. E, momentaneamente, esses dias chegaram depois de uma Quaresma que se converteu em quarentena, em confinamento, em isolamento, em distanciamento físico. Vivemos à espera, em teledistância, com poucos contactos físicos, sem beijos nem abraços, e sem apertos de mão. Gradualmente ganhámos confiança e fomos regressando, os que regressámos, pois alguns, desde março, ainda receiam dar algum passo (em falso) fora de casa.

À medida que o tempo avançou, do verão ao Natal, tudo parecia estar a voltar, muito devagar, mas havia grandes expectativas de que não faltaria muito para retomarmos projetos ou avançarmos com novas propostas, no nosso caso, propostas pastorais e envolvimento das comunidades. O Ano Pastoral 2020-2021 da Diocese foi pensado nesta perspetiva, com precaução, mas abrindo e semeando sulcos de paz e de esperança, colocando possibilidades sobre a mesa. Janeiro acabou com muitas das nossas ilusões. Voltámos a um confinamento generalizado pela elevada pressão no SNS, centenas de pessoas mortas em consequência da COVID-19, e multiplicação de contágios. Agora vamos com mais calma e ponderação, ainda que alguns não tenham entendido, ainda, que todos estamos sujeitos a ser contaminados e a colocar em perigo a própria e a vida dos outros.

A Quaresma deste ano pastoral tem, desde o início, as marcas da pandemia. As ilusões são menores, mas a esperança deve ser renovada constantemente. Adaptamo-nos às circunstâncias, cuidando uns dos outros, até onde é possível e recomendável, mas não podemos esperar infindamente, de braços cruzados, de corações fechados, com a vida suspensa. A Igreja Católica deu sinais de ser pessoa de bem e de confiança, assegurando a máxima segurança nas celebrações dentro dos edifícios ou ao ar livre.

Na quarta-feira de Cinzas, o Papa deixou-nos mais uma interpelação significativa, caracterizando a Quaresma como uma viagem de regresso a Deus. O tempo é-nos dado por Deus, e só Ele sabe o dia e a hora; a nós cabe “gerir”, viver, valorizar as oportunidades, potenciar os talentos. “Quantas vezes, atarefados ou indiferentes, Lhe dissemos: «Senhor, espera! Virei encontrar-Vos mais tarde… Hoje não posso, mas amanhã começarei a rezar e a fazer algo pelos outros». E assim dia após dia… Agora Deus lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas hoje é o tempo de regressar a Deus”.

Prosseguindo, o Papa lembra-nos que a Quaresma envolve a vida toda. A configuração a Jesus deve ser total. A Quaresma coloca-nos em êxodo, da escravidão para a liberdade, um regresso, como o filho pródigo, à casa paterna, à ternura e abraço do Pai. “É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso… Curai o meu coração. Voltemos a rezar ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do louvor, que queima as cinzas das lamúrias e da resignação”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/15, n.º 4597, 23 de fevereiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: «Vamos subir a Jerusalém…» (Mt 20, 18)

De forma decidida, Jesus avança para Jerusalém. Este trecho do Evangelho foi escolhido pelo Papa Francisco para a habitual mensagem da Quaresma, convidando a renovar a fé, a esperança e caridade.

Há alturas da vida que nos impelem à resiliência, a uma luta persistente e contínua.

Jesus caminha para morte?! Não, Jesus caminha para a vida, para a entrega, para o oferecimento da Sua vida, para que, eu e tu, tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Jesus quis morrer? Não, mas não Se desvia do Seu caminho para ser Caminho, Verdade e Vida. Em diversas ocasiões, Jesus retira-Se, com os discípulos, para outras localidades ou mantém-Se discreto para não irritar as autoridades ou grupos mais zelosos. Tudo tem a sua hora e Jesus, que, com o Pai e o Espírito Santo, é o Senhor do tempo e da história, não tem pressa em apressar a hora, tem pressa em apressar a ternura, a compaixão, o anúncio do Evangelho, amando e reabilitando, perdoando e curando.

Nas Bodas de Caná, Maria intervém e apressa a Hora de Jesus, por bons motivos, para ajudar os noivos e as suas famílias e lhes proporcionar uma festa feliz, descontraída e sem sobressaltos. Afinal, Deus é também o Senhor da festa e da alegria, da esperança e do futuro, da misericórdia e da carícia.

Logo depois da Anunciação, diz-nos São Lucas, Maria corre veloz pelas montanhas ao encontro da Sua prima Isabel, para a ajudar e para lhe comunicar a Boa Nova que é Jesus. É esta a pressa que nos deve tornar mais próximos uns dos outros, fazendo com que a fé que nos preenche nos faça viver preenchendo a vida de caridade e de esperança. Não esqueçamos o lema pastoral da nossa diocese para este ano (preenchido também) de pandemia: abrir e semear sulcos de paz e de esperança.

Em Nazaré, perante a ameaça de alguns, que O levam ao alto da colina, Jesus irrompe por entre eles e segue o Seu caminho. Sigamos com Ele. Não nos deixemos levar pela aragem das modas e das intrigas, das conspirações ou ameaças. Alerta-nos São Judas sobre os falsos profetas, que também o podemos ser: “São nuvens sem água arrastadas pelo vento; árvores de outono sem fruto… astros errantes para os quais está reservada para sempre a mais tenebrosa escuridão… são murmuradores, queixosos da sua sorte; da sua boca saem palavras pomposas, para adularem as pessoas, em vista do próprio interesse”.

O tempo da Quaresma é este renovado, intenso e permanente desafio da conversão, sair de mim ao encontro de Jesus, sem contornar as dificuldades, sem me deixar levar por uma qualquer profecia, sabendo que n’Ele e com Ele, Jerusalém surge como a hora da entrega, do serviço e do amor. Não há caminhos alternativos. Só o caminho da Cruz, da fé, da confiança em Deus, do serviço aos irmãos, é o caminho dos cristãos.

Fiquemos com as palavras do Santo Padre: “Viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens, nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai. Que Maria, Mãe do Salvador, fiel aos pés da cruz e no coração da Igreja, nos ampare com a sua solícita presença, e a bênção do Ressuscitado nos acompanhe no caminho rumo à luz pascal”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/14, n.º 4596, 16 de fevereiro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Relação de confiança no cuidado dos doentes

Tema escolhido pelo Papa Francisco para o XXIX Dia Mundial do Doente, que celebramos, cada ano, a 11 de fevereiro, na memória de Nossa Senhora de Lurdes: «‘Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos’ (Mt 23, 8). A relação de confiança, na base do cuidado dos doentes».

A referência fundamental é Jesus e a Sua postura de vida. Com Ele deveremos sincronizar a nossa conduta na relação com os outros, na opção preferencial pelos mais pobres, os que se encontram em situação mais frágil e desfavorecida, como são, por exemplo os doentes. Jesus alertava para a hipocrisia daqueles que exigem aos outros comportamentos, mas que eles próprios não mexem uma palha para o cumprirem. Jesus tem a consciência que as palavras se enraízam no coração, se enraízam na vida e nos comprometem, no concreto, no serviço ao nosso semelhante. Como lembrava o Papa, no último domingo, só há uma situação em que é lícito olharmos as pessoas de cima para baixo, quando nos debruçamos para as ajudar a levantar-se. É o que Jesus faz em relação à sogra de Pedro, doente e com febre, toma-a pela mão e levanta-a. O mesmo faz com os outros doentes que se aproximam d’Ele (cf. Mc 1, 29-39).

Ao longo da Sua vida, Jesus estabelece uma relação de proximidade afetiva com todos os que encontra, sejam as multidões, os apóstolos e discípulos, sejam as pessoas mais frágeis marcadas pela doença, pela pobreza, pela exclusão motivada pela condição social/moral, pecadores e publicanos. Ele não olha para ti em conformidade com o teu cartão de cidadão, a tua origem, a tua pertença a um partido, a tua nacionalidade ou, mesmo religião, Ele olha para ti como irmão. É a dinâmica do Bom Samaritano, que vê, se aproxima para ver melhor, desce da sua montada, debruça-se para cuidar das feridas, levanta o a pessoa caída, coloca-a na sua montada, condu-la a um lugar de repouso e recuperação, assume as despesas do seu tratamento e mantém-se vigilante pelo seu estado de saúde (cf. Lc 10, 25-37).

Mais tarde ou mais cedo, tu e eu, todos passaremos, se ainda não estivemos nessa condição, pela situação de doentes. Ou tivemos/teremos algum familiar próximo a necessitar de cuidados de saúde, internamento, ou mesmo cuidados mais intensivos e/ou continuados. Como gostaríamos de ser tratados? Como gostaríamos que os nossos familiares fossem tratados? Certamente que responderíamos: com todo o respeito, atenção, cuidado.

A terapia da pessoa doente deve ter um carácter holístico, não se trata de intervir numa parte do corpo, mas na pessoa como um todo. Não há doenças, há pessoas doentes, o corpo, alma e espírito. Entre os que são tratados e aqueles que cuidam deverá haver uma relação personalizada, de confiança e respeito, de sinceridade e disponibilidade, colocando no centro a dignidade da pessoa doente. A referência, não é demais repeti-lo, é Jesus. “Assim o atesta muitas vezes o Evangelho quando mostra que as curas realizadas por Jesus nunca são gestos mágicos, mas fruto de um encontro, uma relação interpessoal, em que ao dom de Deus, oferecido por Jesus, corresponde a fé de quem o acolhe, como se resume nesta frase que Jesus repete com frequência: «A tua fé te salvou»”.

A atual pandemia acentuou vulnerabilidades e insuficiências dos sistemas de saúde, com descriminação negativa do acesso aos cuidados médicos por parte das pessoas mais frágeis e pobres. É tempo de refletir e de agir em prol da fraternidade inclusiva.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/13, n.º 4595, 9 de fevereiro de 2021