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Archive for the ‘Papa Francisco’ Category

Editorial Voz de Lamego: Levantai-vos! Vamos!

No ano 2022, Portugal vai receber as Jornadas Mundiais da Juventude. O tema geral está escolhido para que possam ser elaboradas também as catequeses de preparação. No dia 11 de fevereiro, foi assinada a Mensagem do Papa para a Jornada Mundial da Juventude deste ano. “O tema da JMJ de Lisboa será: «Maria levantou-Se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39). Nos dois anos que precedem o Encontro, pensei em refletir juntamente convosco sobre outros dois textos bíblicos: «Jovem, Eu te digo, levanta-te! (cf. Lc 7, 14)», em 2020, e «Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste! (cf. At 26, 16)», em 2021. Como podeis ver, o verbo comum aos três temas é levantar-se”.

“Igreja em saída” é uma expressão muito utilizada pelo atual Papa Francisco, sensibilidade já manifestada enquanto Cardeal em Buenos Aires: “É fundamental que os católicos – tanto os clérigos como os leigos – saiamos ao encontro das pessoas. Uma vez dizia-me um sacerdote muito sábio que estamos diante de uma situação totalmente oposta à da parábola do pastor, que tinha noventa e nove ovelhas no curral e foi procurar a ovelha perdida; nós temos uma no curral e noventa e nove que não vamos buscar”. Eleito a 13 de março de 2013, há 7 anos, o Santo Padre não cessa de desafiar-nos a sair, a tomar a iniciativa de ir ao encontro do outro. A Igreja tem de deixar de ser autorreferencial para levar Jesus às periferias existenciais. «Prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, caída num acidente, que uma Igreja doente por fechamento! Ide para fora, saí!». 

Em diversos momentos, o Papa tem convidado os jovens, a menos jovens, a levantar-se do sofá, a usar com equilíbrio as novas tecnologias, para que estas não sejam empecilho para o encontro pessoal com outros jovens e com pessoas mais velhas, e deixem espaço com o convívio, para o envolvimento em causas como a luta pela paz e pela justiça ou a proteção do meio ambiente.

No Evangelho, melhor, durante a sua vida pública, Jesus coloca-Se e coloca-nos em dinâmica de movimento. Com efeito, Jesus avança entre povoações, por aldeias e cidades, ficando o tempo necessário para se encontrar com as pessoas da localidade, curando os enfermos, expulsando os espíritos impuros, falando na sinagoga, em dia de sábado… Ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, encontra-nos no caminho, junto ao poço de Jacob, na outra margem, ou a caminho de Emaús, e faz-nos avançar. “Vamos a outra parte, às povoações vizinhas, a fim de proclamar aí também, pois foi para isso que Eu saí”. (Mc 1, 38). Jesus vive em saída, de junto do Pai para junto de nós, e “saindo” do mundo, levar-nos-á ao Pai. Sigamo-l’O!

No monte da transfiguração, Jesus diz a Pedro, Tiago e João, a mim e a ti: Levantai-vos, não temais. No horto das Oliveiras, quando se aproximam as últimas horas, Jesus volta a despertar-nos da letargia: Levantai-vos! Vamos! (Mt 26, 46). Faça-se a Tua vontade! Não fujamos da Cruz, expressão de amor sem medida e de entrega, e logo chegaremos à Páscoa!

Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/15, n.º 4550, 10 de março de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Deus ressuscita-nos das nossas cinzas

Na mitologia grega, e também noutras culturas, existia uma ave, a Fénix, que ao morrer entrava em autocombustão e ressurgia (ressuscitava) das cinzas. Um pássaro grande, semelhante à águia ou ao falcão, capaz transportar no seu dorso um animal do tamanho de um elefante. Duraria uns 500 anos, segundo uns, ou mesmo 97200 anos, segundo outros, antes de morrer em chamas. Pássaro colorido em tons de vermelho, roxo e amarelo, fazendo lembrar o sol ou o fogo, os olhos azuis a brilharem como safiras. Ressurge das cinzas ainda mais forte para um nova e longa vida. É símbolo da imortalidade e do renascimento espiritual.

No início do cristianismo, a Fénix foi também associada a Cristo, morto e ressuscitado.

Mas esqueçamos por ora a fénix e voltemos o nosso olhar para Jesus. Novamente. Sempre. É Ele que nos traz aqui a estas páginas, para através delas sermos, também nós, eu e tu, portadores de uma Notícia, sempre Nova: Deus tanto nos ama que nos confia o Seu filho amado e, n’Ele, revela que este amor não tem limites, vai até à Cruz, gastando-se totalmente por nós. E um amor assim não perece, porque nos liga, nos faz permanecer, nos faz sobreviver às limitações. Jesus apresenta-Se no meio dos Seus, vivo, ressuscitado. É este o mistério maior da nossa fé, que em cada ano acentuamos solenizando, pela Páscoa, mas que nos faz viver como cristãos do Domingo, a Páscoa semanal na Eucaristia, traduzindo e concretizando o Domingo em todos os dias e circunstâncias. Somos filhos da Luz, da Ressurreição e da Vida nova que Cristo nos dá, fazendo-nos participantes da Sua vida divina, por ação do Espírito Santo.

Estamos dentro da Quaresma, como caminho que nos conduz à Páscoa. Um caminho que iniciou na Quarta-feira de cinzas, precisamente com a cerimónia da imposição das cinzas, um gesto significativo que nos irmana, pois somos filhos da mesma terra. Como nos recordava o Papa Francisco, na belíssima Homilia proferida em Quarta-feira de Cinzas, somos pó, pó da terra e ao pó havemos de voltar. O pó é nada! Mas somos pó amado por Deus. O Senhor insufla o sopro de vida neste pó e chama-nos à vida. “Somos um pó preciso, destinado a viver para sempre. Somos a terra sobre a qual Deus estendeu o Seu céu, o pó contém os Seus sonhos. Somos a esperança de Deus, o Seu tesouro, a Sua glória”.

Por outro lado, prosseguia o Santo Padre, “a cinza pousa nas nossas testas, para que, nos corações, se acenda o fogo do amor. Com efeito, somos cidadãos do céu”. Há muita poeira que teremos que sacudir, muito pó que destrói, que aniquila e desumaniza! Não esqueçamos as nossas raízes, a nossa identidade. “Somos cidadãos do Céu. E o amor a Deus e ao próximo é o passaporte para o Céu; é o nosso passaporte”. O fogo do amor de Deus há de consumir a cinza do nosso pecado. “Deixemo-nos reconciliar, para viver como filhos amados, pecadores perdoados, doentes curados, viandantes acompanhados. Para amar, deixemo-nos amar; deixemo-nos erguer, para caminhar rumo à meta – à Páscoa. Teremos a alegria de descobrir que Deus nos ressuscita das nossas cinzas”. E aqui termina o mito, aqui vislumbra-se o amor de Deus que nos ressuscita!

Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/14, n.º 4549, 3 de março de 2020

Pe. Miguel Peixoto – Um permanente sinal admirável

Pode parecer um pouco extemporâneo falar sobre a carta apostólica Admirabile signum (As) do Papa Francisco depois do dia 25 de dezembro e, de facto, é se nos fixarmos uma dimensão meramente cronológica da nossa realidade. Contudo, enquanto crentes olhamos para a representação da natividade de Jesus e nela vemos a possibilidade de aprofundar o mistério da incarnação do Verbo de Deus, associando-nos ao gesto do Santo Padre, quando tornou pública mais uma das suas reflexões, desta vez sobre o significado e valor do Presépio.

O tempo e o espaço ganham, assim, uma outra dimensão quando os percebemos numa perspetiva kairológica, pois, o aqui e agora da nossa vida passam a ser um oportuno momento único, porque envolvidos pela presença de Deus. Se Deus sempre esteve presente na história da humanidade, a sua presença torna-se incarnada no nascimento de Jesus, mostrando-nos, com a nossa própria carne, que Deus não é uma ilusão ou uma fábula, mas ser real que, mesmo existindo desde sempre, quis incarnar na nossa realidade.

É, na verdade, no contexto da incarnação do Verbo que devemos ler a carta Admirabile signum, compreendendo que a sua representação, no presépio, se torna “como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura” (As 1).

O presépio torna-se sinal admirável, não só porque continua a suscitar a admiração de quem o contempla, mas porque nos guia na contemplação do mistério em que uma das pessoas do único Deus, o Filho, continua em tudo a ser Deus na fragilidade e simplicidade de uma criança, de um ser humano e comove-nos porque manifesta a ternura de Deus. Ler mais…

Editorial Voz de Lamego: De Greta Thunberg à ecologia integral

Por estes dias a questão do ambiente tem preenchido páginas e páginas de jornais, têm-se multiplicado as partilhas, os comentários, têm-se extremado posições, colocando-nos na lógica mais tradicional da contraposição, da exclusão e do fundamentalismo. Porém, a questão ecológica não pode deixar de estar presente no quotidiano. Mais que os intervenientes, importa, a meu ver, a mensagem veiculada.

Os holofotes têm estado direcionados para Greta, jovem sueca, de 16 anos. As suas intervenções na Suécia, na ONU, em Lisboa, na manifestação de Madrid, têm permitido que a questão ambiental não saia das primeiras páginas, dos telejornais, das redes sociais. Saliente-se, desde logo, o aproveitamento político, quando as suas palavras insistem na falta de vontade política em alterar a pegada ecológica. Veja-se que líderes partidários estiveram na chegada a Lisboa. E a propósito, veja-se também quem interveio na manifestação das forças de segurança. De um lado o PAN, do outro lado o CHEGA.

Por outro lado, outra visão, mais trumpista (os EUA, com Ronald Trump, não têm qualquer interesse em respeitar acordos que restrinjam a poluição atmosférica ou a utilização exaustiva de recursos naturais, desde que momentaneamente a indústria americana se sobreponha e abafe qualquer concorrência), defende que a natureza, por si só, é autorregenrativa e, portanto, não é necessário fazer correções no caminho que se está a trilhar. Neste sentido, ataca-se a mensageira.

Greta Thunberg também me pareceu burguesa e exageradamente revoltada. Com os comentários e reflexões que fui lendo e escutando, e vendo algumas das suas intervenções equilibradas, como em Lisboa, apercebi-me que seria mais relevante a mensagem que veicula, mas também os debates que tem provocado.

É importante ler também e escutar os que não concordam com Greta e com outros movimentos mais verdes, se é que de verdes têm alguma coisa. Como em tudo na vida, os extremismos, os excessos e os exclusivismos precisam de ser purificados. Como não lembrar quando um reitor proibiu a carne de vaca na universidade! Será que ele se desloca a pé? Medidas de propaganda por si só, me parece, não surtem efeito, quando muito acentuam fanatismos. Só porque acho que a comida vegetariana é mais saudável, terei o direito de obrigar os outros a serem vegetarianos? O equilíbrio, o bom senso, a quantidade, como alguém dizia. Há tantas formas de nos comprometermos com o ambiente.

Mas não basta ser defensores do ambiente, se continuarmos a criar fossos e muros entre ricos e pobres, a descartar os mais frágeis, a eliminar os que não têm voz ou não têm força suficiente, a excluir os que professam outra ideologia ou outra fé. A ecologia, no dizer do Papa Francisco, terá de ser integral, abrangendo todo o homem e o homem todo. Há países em que é crime destruir as “ovas”, mas é legal o aborto ou a eutanásia, a pedido, em qualquer situação ou por qualquer motivo!

Para quê termos uma bela floresta se não tivermos pessoas que a contemplem?

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/03, n.º 4538, 10 de dezembro de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Dai-lhes vós mesmos de comer

No próximo Domingo, 17 de novembro, viveremos o 3.º Dia Mundial do Pobre, proposta do Papa Francisco que se vai impondo paulatinamente. Teve alguns críticos, dentro e fora da Igreja, por uma compreensão superficial e errónea do que se pretenderia, a começar pela formulação da comemoração, pois poderia entender-se que se estava a cristalizar, a elogiar e a justificar a pobreza. Uma coisa é defender a pobreza como opção que envolve humildade, despojamento e serviço ao próximo, e que obviamente, também pode incluir a produção de riqueza para promover o emprego e a disponibilidade de bens para mais pessoas; outra coisa é a resignação diante da pobreza imposta, a miséria a que milhões de pessoas estão sujeitas. “O compromisso dos cristãos, na vida ordinária de cada dia, não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem tender a aumentar em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade”.

A propósito, a Madre Teresa de Calcutá era acusada de não pensar e não defender uma política de erradicação da pobreza na medida em que apostava na resposta imediata e concreta às situações que iam surgindo. Com o tempo, ficou claro que as políticas são importantes, e sobretudo quando têm efeitos práticos, mas não se pode virar as costas à situações do dia-a-dia. Enquanto se espera pela implementação das medidas as pessoas morrerem à fome e ao frio… O assistencialismo pode ser provisório, mas não pode ser desculpa para não ajudar, fazendo já o que é necessário e possível.

O Papa Francisco tem deixado claro o princípio da subsidiariedade: não deixar para os outros o que posso fazer, envolvendo outros em questões mais complexas, não deixar para amanhã o que posso resolver hoje. Incentivar o Estado e as estruturas centrais a resolver problemas mais complexos e crónicos, de forma sustentada, mas mantendo-nos, a mim e a ti, comprometidos com a pessoa que está à nossa beira. Com efeito, em diversas ocasiões, o Papa tem sido contundente em relação a governos e estruturas centrais, à política e economia, para um envolvimento mais efetivo e rápido ao grito dos pobres, dos desfavorecidos, daqueles que continuam a viver nas periferias existenciais. Os pobres clamam. Deus ouve a sua voz. Quem se recusa a escutar o grito dos excluídos, tapa os ouvidos, o coração, a Deus. Como não lembrar a expressão papal: “esta economia mata” ao colocar o foco nas percentagens de desenvolvimento e produtividade, nas estatísticas, nos ganhos das bolsas de valor, ainda que à custa dos pobres, pessoas e povos.

Na mensagem para esta terceira jornada o Papa não pode ser mais claro: “A numerosos grupos de pessoas, a crise económica não lhes impediu um enriquecimento tanto mais anómalo quando confrontado com o número imenso de pobres que vemos pelas nossas estradas e a quem falta o necessário, acabando por vezes humilhados e explorados… Passam os séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não ensinasse nada”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/47, n.º 4534, 12 de novembro de 2019

Mensagem do Papa para Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

«Deus viu que era coisa boa» (Gn 1, 25). Ao início da Bíblia, o olhar de Deus pousa-se ternamente sobre a criação. Desde a terra habitável até às águas que sustentam a vida, desde as árvores que dão fruto até aos animais que povoam a casa comum, tudo é benquisto aos olhos de Deus, que oferece a criação ao homem como dom precioso que deve guardar.

Desgraçadamente, a resposta humana ao dom recebido foi marcada pelo pecado, pelo fechamento na própria autonomia, pela avidez de possuir e explorar. Egoísmos e interesses fizeram deste lugar de encontro e partilha, que é a criação, um palco de rivalidades e confrontos. Assim, colocou-se em perigo o próprio ambiente: coisa boa aos olhos de Deus, torna-se coisa explorável nas mãos humanas. A degradação aumentou nas últimas décadas: a poluição constante, o uso incessante de combustíveis fósseis, a exploração agrícola intensiva, a prática de abater as florestas… estão a elevar as temperaturas globais para níveis preocupantes. O aumento da intensidade e frequência de fenómenos meteorológicos extremos e a desertificação do solo estão a colocar à prova os mais vulneráveis entre nós. A dissolução dos glaciares, a escassez de água, o menosprezo das bacias hidrográficas e a considerável presença de plástico e microplástico nos oceanos são factos igualmente preocupantes, que confirmam a urgência de intervenções não mais adiáveis. Criamos uma emergência climática, que ameaça gravemente a natureza e a vida, inclusive a nossa.

Na raiz de tudo, o fato de termos esquecido quem somos: criaturas à imagem de Deus (cf. Gn1, 26-27), chamadas a habitar como irmãos e irmãs a mesma casa comum. Não fomos criados para ser indivíduos que se assenhoreiam; fomos pensados e queridos no centro duma rede da vida constituída por milhões de espécies, amorosamente unidas por nosso intermédio ao Criador. É hora de redescobrir a nossa vocação de filhos de Deus, irmãos entre nós, guardiões da criação. É tempo de arrepender-se e converter-se, de voltar às raízes: somos as criaturas prediletas de Deus, que, na sua bondade, nos chama a amar a vida e a vivê-la em comunhão, conectados com a criação.

Por isso, convido veementemente os fiéis a dedicar-se à oração neste tempo que, partindo duma iniciativa oportunamente nascida em campo ecuménico, se configurou como Tempo da Criação: um período de oração mais intensa e de ação em benefício da casa comum, que tem início em 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e termina a 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. É ocasião para nos sentirmos ainda mais unidos aos irmãos e irmãs das várias confissões cristãs. Penso de modo particular nos fiéis ortodoxos que celebram, desde há trinta anos, este Dia de Oração. Sintamo-nos em sintonia profunda também com os homens e mulheres de boa vontade, conjuntamente chamados, no contexto da crise ecológica que tem a ver com todos, a promover a salvaguarda da rede da vida, de que fazemos parte.

Este é o tempo para voltar a habituarmo-nos a rezar imersos na natureza, onde espontaneamente nasce a gratidão a Deus criador. Dizia São Boaventura, cantor da sabedoria franciscana, que a criação é o primeiro «livro» que Deus abriu diante dos nossos olhos, para que, admirando a sua ordenada e maravilhosa variedade, fôssemos levados a amar e louvar o Criador (cf. Breviloquium, II, 5.11). Neste livro, cada criatura foi-nos dada como uma «palavra de Deus» (cf. Commentarius in librum Ecclesiastes, I, 2). No silêncio e na oração, podemos escutar a voz sinfónica da criação, que nos exorta a sair dos nossos fechamentos autorreferenciais, descobrindo-nos envolvidos pela ternura do Pai e felizes por partilhar os dons recebidos. Neste sentido, podemos dizer que a criação, rede da vida, lugar de encontro com o Senhor e entre nós, é «a rede social de Deus» (Francisco, Discurso às guias e aos escuteiros da Europa, 3 de agosto de 2019). Isto leva-nos a erguer um cântico de louvor cósmico ao Criador, como ensina a Escritura: «tudo o que germina na terra bendiga o Senhor; a Ele, a glória e o louvor eternamente!» (Dn 3, 76).

Este é o tempo para refletir sobre os nossos estilos de vida, verificando como muitas vezes são levianas e danosas as nossas decisões diárias em termos de comida, consumo, deslocação, utilização da água, da energia e de muitos bens materiais. Em demasia, nos estamos assenhoreando da criação. Optemos por mudar, assumir estilos de vida mais simples e respeitadores! É hora de abandonar a dependência dos combustíveis fósseis, empreendendo rápida e decididamente transições para formas de energia limpa e de economia sustentável e circular. E não esqueçamos de ouvir as populações indígenas, cuja sabedoria secular nos pode ensinar a viver melhor a relação com o meio ambiente.

Este é o tempo de empreender ações proféticas. Muitos jovens estão a fazer-se ouvir em todo o mundo, invocando decisões corajosas. Sentem-se dececionados com as demasiadas promessas não cumpridas, com compromissos assumidos e depois transcurados por interesses e conveniências parciais. Os jovens lembram-nos que a terra não é um bem para se dissipar, mas herança a transmitir; lembram-nos que esperar no amanhã não se reduz a um belo sentimento, mas é um dever que requer ações concretas hoje. A eles, devemos respostas verdadeiras, não palavras vazias; factos, não ilusões.

As nossas orações e os nossos apelos visam sobretudo sensibilizar os responsáveis políticos e civis. Penso de modo particular nos Governos que se vão reunir nos próximos meses para reiterar compromissos decisivos que orientem o planeta para a vida, em vez de o lançar para a morte. Vêm-me à mente as palavras que Moisés proclamou ao povo como uma espécie de testamento espiritual, antes de entrar na Terra Prometida: «Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência» (Dt 30, 19). São palavras proféticas, que poderemos aplicar a nós mesmos e à situação da nossa terra. Escolhamos a vida! Digamos não à avidez de consumos e aos delírios de omnipotência, caminhos de morte; tomemos percursos clarividentes, feitos de renúncias responsáveis hoje para garantir perspetivas de vida amanhã. Não cedamos às lógicas perversas dos lucros fáceis; pensemos no futuro de todos!

Neste sentido, reveste-se de particular importância a iminente Cúpula das Nações Unidas para a Ação Climática, durante a qual os Governos deverão mostrar vontade política de acelerar, drasticamente, as medidas para se alcançar o mais rápido possível o nível zero de emissões de gases com efeito estufa e conter o aumento médio da temperatura global em 1,5°C relativamente aos níveis pré-industriais, em consonância com os objetivos do Acordo de Paris. Além disso, no próximo mês de outubro, a Amazónia – cuja integridade encontra-se gravemente ameaçada – estará no centro da atenção duma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos. Aproveitemos estas oportunidades para responder ao clamor dos pobres e da terra!

Cada fiel cristão, cada membro da família humana pode contribuir para tecer, como um fio subtil mas único e indispensável, a rede da vida que a todos abraça. Sintamo-nos implicados e responsáveis por tomar a peito, com a oração e o compromisso, o cuidado da criação. Deus, amante da vida (cf. Sb 11, 26), nos dê a coragem de realizar o bem, sem esperar que sejam outros a começar, sem esperar que seja demasiado tarde.

Vaticano, 1 de setembro de 2019.

Papa Francisco

Editorial da Voz de Lamego: a realidade vista como poliedro

Uma visão holística da realidade. A vida não é branca ou preta, mas multicolor. Ou, como prefere o Papa Francisco, a realidade refletida através do poliedro, vários prismas, acentuações, lados, com o contributo de uns e de outros, na igual dignidade das pessoas e dos povos, a riqueza das diferenças que nos permite viver, aprender, crescer, incluir, respeitar o outro e dialogar com ele, não com sete pedras na mão, mas com a humildade e disponibilidade para aumentar o saber.

Não se trata de relativismo em que todas as verdades seriam iguais ou todos os valores equivalentes. Essa será sempre uma forma de renunciar a ter ideias próprias, abdicando das suas convicções. O diálogo com os outros é tanto mais honesto, mas também mais fácil, quanto maior a clareza dos princípios de cada interlocutor. Sem referências que orientem a nossa vida, a minha vida, não podemos procurar enriquecer-nos, pois não sabemos onde estamos, o que queremos, o que valida as minhas escolhas, o que pode enriquecer-me vindo dos outros, como podemos saber o que nos liga ou o que nos diferencia?

“Nenhum vento é favorável para quem não sabe para onde ir” (Séneca). Ou, como canta Amália Rodrigues, “Se não sabes aonde vais, porque teimas em correr”. Um pensamento líquido, diluído, gasoso, descomprometido, agrada a todos, não agrada a ninguém, não contesta ideias ou princípios, mas também não acrescenta valor, não contribui com uma visão própria, desenvolvendo os talentos a favor dos outros. Não nos basta não fazer o mal, importa (positivamente) fazer o bem, só assim caminhamos, só assim o mundo progride e avança e, dessa forma, poderemos contribuir para uma sociedade mais justa e mais sã, corrigindo erros e desvios, aproximando pessoas, procurando integrar os excluídos, combater a pobreza, dar passos em direção à paz. Nem tudo depende de nós, mas cabe-nos sempre uma quota de responsabilidade.

De sinal contrário, a prepotência, o endeusamento, e, consequentemente, a imposição das próprias ideias e convicções aos outros. O que, infelizmente, vai acontecendo. A realidade vista apenas a partir de um ângulo, de uma cor. Cresce a intolerância ideológica, religiosa, política. As redes sociais e os meios de comunicação social deveriam ser facilitadores do encontro de diferenças, da descoberta do outro, do enriquecimento mútuo, contudo, têm promovido a criação de grupos (alguns radicais, extremos, de direita ou de esquerda, religiosos ou políticos ou ideológicos, anárquicos ou nacionalistas) e as pessoas juntam-se ao que é igual, fecham-se em novos círculos, procurando impor e destruindo o que é diferente.

Entre as duas solenidades, Santíssima Trindade e Corpo de Deus, o mesmo sublinhado, um Corpo constituído por vários membros; Três Pessoas em sintonia de amor que formam comunhão perfeita…

Pe. Manuel Gonçalves, ,  in Voz de Lamego, ano 89/28, n.º 4515, 18 de junho de 2019