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Archive for the ‘Opinião’ Category

Editorial Voz de Lamego – A salvação não se nega a ninguém

parcerias

Expressão popular que sublinha a ligação mínima entre as pessoas quando a relação, mais próxima, mais pessoal, mais familiar, se quebrou. O vínculo de confiança e cumplicidade foi quebrado, mas não o que está na base da convivência social, humana e cristã.

Nas nossas aldeias, nas pessoas de mais idade, existe esta prática, esta consciência que “Bom dia” ou “Boa tarde” é o mínimo para uma pessoa decente, para uma pessoa de bem. O outro pode até não responder, fazer de conta, virar a cara para o lado, responder torto, dizer algum palavrão, mas a minha consciência leva-me a cumprimentá-la de qualquer jeito, mesmo que continue a desejar-me mal. E logo se acrescenta que essa é uma atitude cristã. O cristão não pode andar de costas voltadas para o outro.

Num primeiro momento, muitas vezes, é difícil cumprimentar o outro, ainda que a correr!

“Não lhe falo, não fala para mim, mas dou-lhe sempre a salvação, a salvação não se nega a ninguém. Primeiro não me respondia, agora já vai respondendo. Mas mesmo que não me respondesse, continuava a dar-lhes a salvação. Nós não somos animais. Temos contas a dar a Deus e Deus não quer que andemos de candeias às avessas. Claro que não seremos amigos, pelo menos como dantes. O que ela me fez não se faz a ninguém, nem ao pior inimigo! Mexer com a minha família, com o meu bom nome, isso é que não, mas não lhe quero mal, desejo para ela o que desejo para mim e para os meus. E se a visse numa valeta não deixaria de lhe deitar a mão. Não, nem pensar. Deus me livre! Seria o/a primeiro/a ajudar. Afinal, somos cristãos, somos irmãos. Foi isso que aprendi na doutrina. Foi isso que os meus pais sempre me ensinaram. Ajudar, fazer o bem sem olhar a quem e dar sempre a salvação. A salvação, a salvação não se nega a ninguém, a ninguém, mesmo que custe e que tenhamos que engolir em seco!”.

O estilo de Jesus vai ainda mais longe. Perdoar 70×7, perdoar sempre. Procurar reconciliar-se com quem nos fez mal e não apenas a quem fizemos mal. Perdoar é divino. Há quem diga que Jesus, na Cruz, teve essa dificuldade e por isso pede ao Pai que lhes perdoe, pois não sabem o que fazem”! Ele por agora ainda não consegue perdoar-lhes! Do Papa Francisco um apelo semelhante: se não conseguires ainda perdoar a tal pessoa, reza por ela, para que aos poucos Deus dilate o teu coração.

Uns dias depois do início do novo ano pastoral… se a salvação não se nega a ninguém, então o compromisso (obrigatório) de levarmos a salvação a toda a gente!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 88/43, n.º 4480, 9 de outubro de 2018

Editorial Voz de Lamego: Somos insubstituíveis…

Ninguém é insubstituível. De insubstituíveis está o cemitério cheio!

Hoje, porém, gostava de refletir convosco outra máxima, que não contradiz a anterior, mas ajuda-nos a perceber que cada um de nós é parte essencial para a transformação da sociedade e da Igreja: ninguém é substituível. Somos insubstituíveis!

De um ponto de vista de tarefas, numa empresa, num grupo escolar, na Igreja, nos diversos grupos eclesiais, as pessoas são, até certo ponto, substituíveis. O equívoco é quando alguém se coloca numa perspetiva de sobranceria, endeusando-se. Se não for eu, ninguém faz e, se alguém faz, faz mal, não fica nada de jeito. Eu é que sei. Ora, isto não se verifica e o tempo ajuda a clarificar, pois surgirá alguém que faz com mais esmero e mais beleza. Todos conhecemos exemplos concretos. Alguém imprescindível numa comunidade, fazendo-se esperar, para que todos percebam que nada se faz sem ele. Por birra, ou para verificar a sua tese, deixou e as coisas não deixaram de se fazer. É quase como numa equipa de futebol, lesiona-se um jogador e outro aproveita a oportunidade para brilhar.

Mas onde é que somos insubstituíveis? Como pessoas, não há ninguém igual a nós. Somos únicos e irrepetíveis e, portanto, insubstituíveis. De um ponto de vista cristão, somos imagem e semelhança de Deus. Cada um de nós. Eu e tu. Em nenhuma circunstância somos redutíveis a outro. Ainda que vivêssemos apenas uns segundos, a nossa vida não seria em vão, uns segundos e já teríamos cumprido a vontade de Deus, deixando marcas em alguém!

Num momento em que a Diocese embarca num novo ano pastoral é tempo de renovarmos a nossa esperança, a nossa alegria, o nosso compromisso e tornarmo-nos imprescindíveis, não para tirarmos o lugar a alguém, não por acharmos que sem nós não há caminho, mas na certeza que Deus nos chama, que Cristo conta connosco. E cada um de nós pode fazer a diferença. O que eu não fizer, alguém o fará. Mas se eu o fizer vou pôr em andamento a minha identidade cristã. Todos somos necessários. Em Igreja, ninguém está a mais, mesmo que, aqui e além, a engrenagem esteja enferrujada, porque alguém se coloca à parte ou acima, emperre para se fazer notar mais um pouco! Em Igreja somos sempre poucos. Havendo alguém que não está, que não ajuda, que não esbanja os seus talentos a favor de todos, estaremos, inevitavelmente em défice, pois Deus conta com todos, comigo e contigo!

Não somos substituíveis uns pelos outros. Precisamos de todos. Precisamos uns dos outros. Não podemos chegar a casa do Pai deixando um irmão para trás. O nosso pai não é Jacob, é o próprio Deus!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 88/42, n.º 4479, 2 de outubro de 2018

Editorial: Responsabilidade pessoal e estruturas de pecado

Deve-se, creio eu, a João Paulo II a nomenclatura de “estruturas de pecado”, sem escamotear a responsabilidade pessoal. A ética de João Paulo II é, na verdade, personalista. Crescendo numa época em que se manifestou o nacional-socialismo e, posteriormente, o comunismo marxista será fácil perceber que há estruturas, grupos, movimentos que favorecem e potenciam o pecado, a corrupção, o abuso, o controlo de quem está hierarquicamente abaixo, fazendo lóbi ou controlando meios de comunicação social, criando a opinião pública que se deseja…

Porém, a responsabilização de uma estrutura terá que ser individuado, com rostos e pessoas concretas. Ao longo da história, muitas foram as situações em que o todo absorveu a responsabilidade pessoal e desculpabilizou os que efetivamente agiram num ou noutro sentido. Por outro lado, a escravização de pessoas com a justificação de beneficiar o grupo, o partido e, hipoteticamente, o bem comum. Na prática, em diferentes regimes totalitários, o bem comum era sobretudo o bem das elites, governantes e militares. As pessoas do povo eram como os peões no xadrez, importantes mas facilmente sacrificáveis, desde que se mantivesse o regime!

Quando Hitler gizou o seu império, o controlo pela força, pelo medo, pela persuasão doutrinária, um dos objetivos foi eliminar o povo judeu, enquanto povo. Os judeus não precisavam de ter cometido algum crime, bastava que fossem judeus. Depois da segunda guerra mundial houve, numa primeira fase, a tentação de julgar os alemães como povo. Porém, cedo se optou por responsabilizar cada pessoa envolvida, com o respetivo grau de envolvimento.

Ao tempo de Jesus, havia uma certa responsabilidade parental, familiar, por um lado, e de cada grupo ou de todo o povo, por outro. Apresentam-Lhe um leproso, um cego, um surdo, um coxo, e logo Lhe perguntam: quem pecou, ele ou os pais? Jesus responde claramente que não se trata de herança do pecado (pessoal).

No livro do Génesis, o relato da criação diz-nos que Deus criou os animais terrestres, as aves do Céu, os animais marinhos, mas só o ser humano é criado à Sua imagem e semelhança, com a mesma capacidade de amar e ser amado, e apto a responder-Lhe. Daí a igualdade e semelhança. Verdadeiramente só respondemos a quem é semelhante a nós. O Homem está só e Deus dá-lhe uma auxiliar semelhante, da mesma carne.

A resposta (responsabilidade) só é possível em relação a alguém que está no mesmo patamar. O Homem – masculino e feminino – responde pelo seu semelhante, e perante Deus que o criou à Sua imagem e semelhança, e lhe confiou toda a criação, tornando-o também responsável por ela.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 88/41, n.º 4478, 25 de setembro de 2018

Editorial Voz de Lamego: os cristãos e as redes sociais

Ide e anunciai o Evangelho a toda criatura. As últimas palavras de Jesus têm de ser, inevitavelmente, comprometedoras. Para mim e para ti. Para cada um de nós que se assume cristão, seguidor, imitador de Jesus Cristo. Em toda a parte, em todas as circunstâncias, somos cristãos, trazemos a marca de Cristo que nos habita pelo Seu Espírito de Amor e de Verdade.

A Diocese, sob o impulso do nosso Bispo e a insistência do Papa Francisco, tem procurado tomar consciência deste dever em transparecer Jesus. Nas diferentes esferas da vida pessoal, familiar e profissional, na política, na cultura e no desporto, com o grupo de amigos ou em tempo de férias, o cristão terá que confrontar a sua vida, a sua postura, as suas palavras, os seus gestos, com a postura e a vida de Jesus.

Não deixo de ser cristão quanto enveredo pela vida político-partidária. Não deixo de ser cristão quando inicio um trabalho ou abro uma empresa. Não deixo de ser cristão por me tornar músico ou artista de televisão. Não deixo de ser cristão por ser patrão ou por ser empregado.

Pela mesma razão, não deixo de ser quem sou porque tenho presenças nas redes sociais, nos meios de comunicação social. Quando “assistimos” a um casamento ou batizado, vemos muitos que entram mudos e saem calados. Corrijo, entram a falar e saem a falar, mas durante a celebração estão a assistir como a um jogo de futebol. Alguns não estão familiarizados com as celebrações, outros, e essa é a admiração maior, optam por não responder por vergonha, acanhamento, por “respeitos” humanos.

O mesmo acontece nas redes sociais. Muitos perdem a noção de que são cristãos-católicos. O mundo digital há de ser oportunidade para aproximar pessoas e comunidades e não espaço para a fofoca, para a crítica destrutiva, para as calúnias, as suspeições. Os meios de comunicação social trazem-nos notícias de toda a espécie. As redes sociais multiplicam as notícias, através das partilhas, dos gostos, dos comentários. Como cristãos (e como cidadãos) deveríamos primeiramente verificar a fonte e a veracidade do que partilhamos.

Temos assistido às chamadas “fake news” (notícias falsas) acerca do Papa e da Igreja. E muitos de nós fazem o papel de sacristãos (sem ofensa para os verdadeiros) e rapidamente multiplicamos as insinuações, os boatos, as injúrias! O mal deve ser denunciado. Mas os profetas não se ficam pelo lodo e propõem a cura pelo bem, pela verdade e pela justiça, projetando caminhos de esperança nas pessoas e no mundo a que Deus nos envia. Há tantas coisas positivas para divulgar, anunciar e partilhar! Na paróquia, na diocese, na Igreja, na aldeia e na cidade! Para quê contribuirmos para semear o caos?!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 88/39, n.º 4476, 11 de setembro de 2018

DESTINO DO PATRIMÓNIO | Editorial Voz de Lamego | 17.julho.2018

DESTINO DO PATRIMÓNIO

Nos últimos dois dias de novembro, decorrerá, no Vaticano, um congresso internacional para debater o destino a dar às igrejas que deixem de estar afectas ao culto das comunidades católicas.

A desertificação humana de muitas regiões, o abandono da prática religiosa e a escassez de clero têm levado ao encerramento e abandono de igrejas e locais de culto. E o que se passa noutros países vem a caminho, sobretudo do interior português, cada vez mais idoso e vazio. Mas não será apenas uma questão de utilização; também a sua preservação está em jogo.

Por muito que nos entristeça, as nossas comunidades, por si só, não terão possibilidade de assumir todos os encargos que um tal património arquitectónico exige. Se até há pouco tempo a comunidade se movimentava para conseguir meios que lhe permitissem construir e preservar, agora esperam-se orientações para reutilizar os espaços, já que a diminuição das comunidades e das ofertas não será suficiente para tudo.

E é aqui que entra a necessidade de garantir financiamento. A par do contributo dos fiéis, dos peditórios e ofertas, privadas ou de dinheiros públicos, será preciso pensar na forma de conseguir algum apoio junto de quantos visitam e usufruem de tal património. Trata-se de garantir meios para a sua preservação.

E o que acontecerá aos imóveis com limitado interesse turístico ou que estejam fora dos circuitos a visitar?

O assunto não é novo, a solução encontrada em alguns países europeus pode não ser a melhor, mas existe a vontade de debater e encontrar critérios que salvaguardem o valor de símbolo espiritual, cultural e social dos imóveis no seio da comunidade.

Certamente que aparecerão propostas e soluções. Mas tudo isto nos recorda que somos um povo que caminha na história e que devemos encontrar respostas para as diferentes circunstâncias.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/33, n.º 4470, 17 de julho de 2018

ENCERRAMENTO E PROXIMIDADE | Editorial Voz de Lamego

ENCERRAMENTO E PROXIMIDADE

O balcão da Caixa Geral de Depósitos, no Desterro, à entrada de Lamego, foi encerrado. Depois de termos visto o mesmo na Praça de Comércio, agora um outro, ficando apenas o da Avenida 5 de outubro, onde é difícil estacionar e o atendimento demorado.

Mas a situação poderá ser ainda mais complicada noutras zonas do país.

Lá se vai o serviço de proximidade, o serviço com rosto humano. Desta vez foi o banco estatal, aquele que os portugueses vão ajudando a sustentar. Somos importantes para “aguentar” as dívidas e pagar pelos erros de gestores pagos principescamente, mas já não somos assim tão importantes para um serviço próximo e eficiente.

É verdade que há muitos serviços que podem ser feitos a partir das ligações de internet, mas muitos dos clientes deste banco não sabe o que é isso e preferem um encontro com alguém que atenda, escute, aconselhe, clarifique, resolva… Os menos capazes continuam a ser deixados para trás.

Percebemos o que está em jogo: os balcões tenderão a diminuir, os lugares de trabalho deixarão de existir, a despesa com funcionários e instalações serão reduzidas, os lucros aumentarão, os gestores receberão generosos prémios… E tudo isso à custa de uma menor presença em locais cada vez mais vazios e menos atractivos para viver.

O interior, cada vez mais desertificado, tende a ser olhado de quatro em quatro anos e, diga-se, com reduzida atenção. Os seus votos já não decidem maiorias. Será também, por isso, que o sucessivo encerramento de serviços não faz parte das agendas política e mediática, mais ocupadas com o futuro da geringonça, os cães em restaurantes, a mudança de sexos aos 16 anos, na legalização da eutanásia…

O interior, ou a “província” como alguns dizem, não pode apenas ficar com silêncio e ar puro!

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/32, n.º 4469, 10 de julho de 2018

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FALAR DE FUTEBOL | Editorial Voz de Lamego | 3 de julho de 2018

FALAR DE FUTEBOL

Será uma banalidade dizer que o futebol (sobretudo falado) ocupa um lugar destacado no panorama português. E não foi apenas agora por causa da participação do país no campeonato do mundo. Um qualquer visitante, não familiarizado e não avisado desta tendência lusa, questionar-se-á sobre as prioridades, os objectivos ou as dificuldades do nosso povo.

Exaustivamente e não isentos de “clubite”, comentadores e analistas debruçam-se sobre as perspectivas, os resultados, as intrigas e, claro, o trabalho dos árbitros. Certamente que o assunto tem e merece o seu lugar. Mas a vida dos jovens que precisam saber as notas, dos professores em luta pelos seus direitos, dos doentes em lista de espera, do atrasado em investimentos, da desertificação do interior, das políticas de natalidade, etc, também merecem vez e voz.

Noutros países europeus, onde o fervor clubístico não é menor e o amor à selecção nacional não se questiona, não se gastam tantas horas em análises sobre o que já não volta e em debates acalorados, protagonizados por comentadores pagos para o efeito. E é graças a todo este destaque que alguns dirigentes adquirem estatuto de figuras públicas e os seus actos motivam contínuos debates.

Talvez o interesse seja passageiro e, em breve, tudo volte ao normal. E o normal será, porventura, divulgar e promover o desporto e os desportistas, dar protagonismo aos seus executantes e debater sadiamente assuntos relacionados, sem ofuscar a realidade mais vasta em que a vida da sociedade acontece.

Poder-se-á dizer que só vê quem quer e que só alimenta a conversa quem está interessado. E é verdade.

Será, então, de esperar que, quando consumidores e adeptos derem conta de que nada disto resolve os seus problemas, tudo volte ao seu lugar e à importância devida. Continuarão a falar do assunto, mas relativizando-o.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/31, n.º 4468, 3 de julho de 2018