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Archive for the ‘Opinião’ Category

DIGNIDADE DA MULHER | Editorial Voz de Lamego | 6 d março d 2018

DIGNIDADE DA MULHER

Na próxima quinta-feira, dia 8, assinala-se mais um Dia Internacional da Mulher, para sublinhar o percurso feito na defesa e promoção da dignidade e igualdade e, em simultâneo, recordar que tal caminho está ainda atrasado em vários países do globo.

A comunicação social continua a divulgar situações em que as mulheres são exploradas, excluídas, violentadas, vítimas de tráfico, de exploração sexual, de trabalho escravo e mortas. Várias são ainda as sociedades onde mulher é sinónimo de sujeição e humilhação públicas, ficando impunes os culpados. Continuamente surgem notícias de mulheres sujeitas a agressões físicas e psicológicas, que carregam vidas de sofrimento ou que são assassinadas por maridos, companheiros ou namorados.

Por isso, assinalar este dia é recordar a importância de continuar a lutar pela dignidade e igualdade da mulher em todos os dias do ano.

Talvez por causa da proximidade da data, uma revista do Vaticano, distribuída conjuntamente com o jornal Observatore Romano, escreveu sobre religiosas que se doam ao serviço de bispos e cardeais e que não são devidamente reconhecidas e recompensadas pelo seu trabalho.

A revista apresenta diversas dessas situações, percebendo-se a tristeza das protagonistas por não se verem reconhecidas na sua dedicação ou até, por obediência, cumprirem uma missão algo distante da vocação e carisma professados e assumidos.

Mas esta deverá ser, também, uma oportunidade para alguns desses “príncipes da Igreja” tomarem consciência do quão distantes estão de praticar o que pregam, quer na forma como vivem quer na forma como tratam quem em casa os serve. Mesmo não sendo muitos, serão sempre demais.

A oportunidade da denúncia não se questiona, bem como a necessidade de mudanças para promover a mulher dentro da Igreja, tal como o assumiu, desde o início, o Papa Francisco.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/14, n.º 4451, 6 de março de 2018

INTERIORIDADE – ENCERRAMENTOS | Editorial Voz de Lamego | 16/01

INTERIORIDADE – ENCERRAMENTOS

Por estes dias foram várias as ocasiões em que se falou dos CTT (Correios), para informar que, em 2018, encerrarão alguns balcões e serão dispensados centenas de funcionários. Também não faltaram vozes de protesto, manifestações junto dos balcões a fechar, apelos aos governantes, testemunhos de quem vai perdendo o pouco que tem.

Recorde-se que o Estado alienou a empresa em 2014 (a concessão pode ser revertida até 2020), por recomendação da “troica”, e que os lucros se têm mantido. Mas se tais decisões são tomadas durante este período, como não será após 2020! Não se perspectivam melhorias.

Desta vez, os 22 encerramentos estão previstos, na sua maioria, para as zonas de Porto e Lisboa. Mas se o critério economicista imperar, é possível que se sigam alguns dos poucos balcões que ainda se mantêm na nossa região.

Mais uma vez, as populações são privadas de um serviço de proximidade, retirando-lhes qualidade de vida e aumentando o desconforto por permanecerem em zonas com pouca densidade populacional. Os que vão ficando têm que ir cada vez mais longe para obterem determinados serviços (saúde, banco, correio, pagamentos, reformas…).

A privatização deste serviço levou a esta situação, já que quem investe quer retirar dividendos do investimento feito. Acontece que, num país com povoamento e rendimentos tão assimétricos, nem sempre o lucro é possível. E é aí que o Estado deve intervir, para garantir igualdade de oportunidades. Se ao privado move o lucro, ao Estado incumbe não deixar ninguém para trás.

As populações do interior, sem expressividade para determinar eleições, maioritariamente idosas e sem capacidade reivindicativa vão-se conformando com estas estranhas medidas, que os afastam, cada vez mais, dos centros de decisão.

Apesar de pequeno, há regiões e populações do nosso país que continuam desconhecidas (esquecidas) por quem é mandatado para governar e servir todos.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/07, n.º 4444, 16 de janeiro de 2018

PATRONO- HUMANIDADE | Editorial Voz de Lamego | 9 de janeiro

PATRONO- HUMANIDADE

O Governo brasileiro proclamou D. Helder Câmara, antigo bispo de Olinda e Recife, “patrono dos direitos humanos”. A escolha, oportuna e justa diante da vida e missão episcopal do destemido bispo, poderá ser interesseira, numa tentativa de aproximação da hierarquia católica, bastante crítica da corrupção reinante.

Num tempo em que alguns saudosistas promovem bispos que se pavoneiam com grandes caudas e algumas notícias divulgam fraquezas de outros, será sempre oportuno recordar pastores como D. Hélder Câmara, que não vergaram diante da ditadura política nem da crítica injusta.

Nomeado bispo por Paulo VI, em 1964, participou no Concílio Vaticano II e destacou-se por convidar a Igreja a uma maior atenção ao social, dando o exemplo (pacto das catacumbas). Denunciou a ditadura do seu país, alertou o mundo para as perseguições e foi acusado de ser infiel ao Evangelho. Resignou quando atingiu os 75 anos, em 1985, e morreu em 1999, com 90 anos.

Quem o conheceu dizia que facilmente se enfastiava com a “pompa excessiva” e o alheamento da Igreja diante das questões sociais. A este propósito, disse um dia: “Quando dou de comer a um pobre, chamam-me santo. Mas quando digo que os pobres não têm que comer, chamam-me comunista”.

Numa das suas passagens pelo Seminário de Lamego, D. Manuel Martins, então bispo de Setúbal e também ele alvo de críticas por causa das denúncias sociais que fazia em defesa de muitos diocesanos, também citou aquele bispo brasileiro: “Ninguém deve pedir com chapéu na mão, aquilo a que tem direito de obter com o chapéu na cabeça”.

Longe das querelas partidárias ou escolhas interesseiras, o Evangelho defende e promove sempre a vida, a começar pelos mais fracos. E não faltam discípulos de Jesus Cristo, ontem e hoje, a protagonizar tais opções. Mas todos eles, mais do que publicamente louvados, merecem ser imitados.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/06, n.º 4443, 9 de janeiro de 2018

UM REPARO – ÁGUA

A falta de água começa a afectar fortemente a vida de muitos na nossa região, tal como relatado e ilustrado pela comunicação social. Desde há semanas (meses) que algumas populações dependem da água transportada pelos camiões-cisterna.

Há regiões no mundo com menos água do que nós, o que as levou a organizarem-se e a desenvolverem meios a preservarem e bem utilizarem. Comparativamente, no nosso país ainda há muita água, mas a diminuição da chuva e das reservas aquíferas começam a ter consequências e exigem medidas. Sem capacidade para armazenar no inverno, como assegurar água para o verão? Sem o cuidado e a atenção de todos os consumidores, como garantir uma boa utilização da água?

As recentes obras da albufeira de Alqueva mostram como o armazenamento e distribuição da água permite fixar populações e desenvolver o cultivo das terras. Quem quererá viver ou trabalhar numa terra que não tem abastecimento de água para consumo e para a agricultura? O investimento pode ser grande e moroso, mas os resultados compensarão. O problema estará, sobretudo, nas opções dos responsáveis políticos. Habituados a ciclos de curta duração (mandatos), preferem investir em algo mais rápido que permita uma reeleição, em vez de olharem para as gerações futuras. Por outro lado, ainda há freguesias (também no nosso concelho) que continuam, sem água ao domicílio, talvez porque o número de eleitores não tem grande influência!

A formação também é importante, já que os actos e opções de cada um têm influência na vida de todos. No fundo, trata-se de educar para a preservação da “casa comum”, tal como repetidamente lembrado pelo Papa Francisco.

A água é um bem essencial que tenderá a escassear, a ficar cada vez mais caro e que merece ser preservado. Não basta pedir chuva.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/51, n.º 4437, 21 de novembro de 2017

UM REPARO: talvez

A conhecida e muito divulgada cimeira tecnológica voltou a Lisboa, arrastando multidões, enchendo bares e hotéis e divulgando a cidade anfitriã. Em ambiente festivo e descontraído, ali se juntam especialistas, individualmente ou em grupo, que querem mostrar e vender produtos, bem como os empreendedores em busca de bons investimentos. Eis um evento mundial que arrasta muita gente e com repercussões na vida de milhões.

Não restam dúvidas sobre a sua oportunidade, nem se negam os benefícios que as novas realidades tecnológicas conferem à vida da humanidade que deles pode usufruir. Contudo, tal desenvolvimento, trazendo conforto e proveito, também apresenta riscos, nomeadamente para o mundo laboral.

O aparecimento de novas soluções tecnológicas vai tomando conta de muitos postos de trabalho e assim vai continuar. Há lugares extintos e profissões que, embora muito conceituadas nestes dias e segundo os estudiosos, correm sérios riscos de virem a desaparecer nos próximos anos, já que as máquinas poderão substituir os humanos nessas tarefas.

Talvez o futuro traga, também, novas profissões que permitam criar novos postos de trabalho.

Talvez reste ao homem mais tempo para contemplar e usufruir, em vez de transformar e produzir.

Talvez avance definitivamente a ideia de um rendimento de subsistência garantido que liberte do trabalho e garanta meios para consumir o que as máquinas produzem.

Talvez venhamos a contemplar um ser humano mais desocupado, o que pode não ser sinónimo de mais realizado.

Talvez se testemunhe mais solidão e mais depressões provocadas pela perda de sentido e pela ausência de razões para continuar.

Talvez se acentuem as desigualdades entre uns poucos que dominam e a maioria que luta para sobreviver.

Talvez as novidades tecnológicas permitam sonhar com um progresso contínuo, sem que tal signifique sempre um real avanço para a realização humana…

JD, in Voz de Lamego, ano 87/50, n.º 4436, 14 de novembro de 2017

UM REPARO: APOIOS

A chuva, ainda que pouca para as necessidades, foi suficiente para a descida da temperatura e para controlar a vaga de incêndios que assolou o país e deixou rastos de morte e destruição. No rescaldo da tragédia, o Presidente da República passou e, entre um abraço e outro, pediu a atenção do Governo para a situação, bem como celeridade na atribuição dos apoios. O Governo também passou e, pela voz de vários responsáveis, deixou palavras de estímulo e promessas de medidas e de verbas.

Entretanto, o tempo vai passando, o frio aproxima-se e muitos dos que tudo perderam ainda não foram contactados para eventuais ajudas. Enquanto isso, a atenção mediática volta-se para a discussão do orçamento, para uma das regiões de Espanha e uma ou outra notícia.

Por causa da pouca celeridade no reconhecer da situação de muitas vítimas e na atribuição dos prometidos apoios, Jerónimo de Sousa desafiava, ontem, os responsáveis governamentais a adoptarem o mesmo ritmo acelerado com que foram em auxílio de certos bancos e banqueiros. E não deixa de ser oportuno tal desafio. Se para uns há milhões, para as vítimas dos recentes incêndios não deveriam faltar os tostões.

Ainda bem que alguns políticos passam pelos locais, arrastando consigo grupos de jornalistas que dão visibilidade à paisagem destruída e voz às vítimas. Mas é necessário que pressionem os responsáveis após a passagem e incomodem os governantes.

As instituições locais vão ajudando, a partilha de bens minimiza a dor, as paróquias fazem peditórios, mas determinadas obras precisam de outros apoios.

Há famílias desesperadas, pequenas empresas que desapareceram, explorações agrícolas destruídas, animais sem alimento… à espera de respostas e de apoios para recomeçar ou continuar.

Os dias correm e só promessas não chegam para manter viva a esperança.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/49, n.º 4435, 7 de novembro de 2017

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UM REPARO: MUDANÇAS

 

Nos últimos dias não faltaram imagens e sons para mostrar a aflição, a dor, a destruição e a morte que os incêndios causaram na zona centro do país. O calor que se tem feito sentir, a ausência de chuva, o descuido de uns e a malvadez de outros podem explicar os muitos fogos de um só dia. Mas o elevado número de vítimas mortais continua a ser difícil de compreender e de aceitar.

O Presidente da República (PR), qual porta-voz de um povo atónito e sofrido, expressou o pesar comum diante de tamanho sofrimento, exigindo mudanças que evitem situações semelhantes. Todos o ouviram e compreenderam. Resta esperar que as consequências não se saldem por uma ou outra demissão, algumas promessas e o silêncio quando começarem as chuvas.

A propósito do referido discurso, uma nota para sublinhar a clareza desafiadora do PR, quando pediu aos políticos que olhem e ouçam as gentes que moram longe da capital e do centro do poder, sem capacidades para fazer barulho e reivindicar. É verdade que, em tempos de campanhas eleitorais, passam por aí, distribuem beijos e abraços e semeiam promessas, mas depois a memória é afectada pela distância.

Uma notícia recente apresentava a região da beira interior – não muito longe de nós – como aquela que, a nível europeu, tem a população mais envelhecida. Com a destruição provocada pelos incêndios, talvez o abandono dos mais novos se acentue. Agora ainda se diz que há idosos; daqui a alguns anos talvez se fale apenas de casas abandonadas e de silvas.

Para contrariar tal tendência serão precisos apoios que ajudem a ficar, leis que favoreçam o investimento, mudanças que permitam ficar e acreditar.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/47, n.º 4433, 24 de outubro 2017