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Archive for the ‘Opinião’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Fraternidade, fonte de liberdade e igualdade

Esta é uma das expressões do nosso Bispo, na missa crismal, no dia 5 de outubro, e que deu tom e cor à sua homilia, partindo da recente Carta Encíclica do Papa Francisco “Fratelli Tutti”, todos irmãos.

A receção ao documento do Papa vai-se fazendo, dentro e fora do âmbito da Igreja, com diferentes sublinhados e, como sempre, algumas polarizações. Ao nosso jornal também vão chegando algumas reflexões que incidem ou partem desta Carta.

São Francisco de Assis desafia-nos a tratar como irmãos o Sol, o mar, o vento, os passarinhos, e irmão de todos, a começar pelos pequeninos, pobres, doentes, abandonados, descartados, dos últimos, pois essa foi a opção de Jesus, essa há de ser a opção preferencial dos cristãos. Diz o Papa, “a fidelidade ao seu Senhor era proporcional ao amor que nutria pelos irmãos e irmãs”.

O nosso Bispo, na missa crismal e, no passado sábado, nas Jornadas Nacionais de Catequistas, sublinhou que a fraternidade é o sustentáculo da igualdade e da liberdade, sugerindo que ao tríptico da revolução francesa e do iluminismo deveria subtrair a fraternidade. E porquê? Porque se Deus foi retirado da equação, então não há como justificar, defender ou propor a fraternidade. Sem Deus, sem Pai, não há filhos! Se não temos um Pai comum, não podemos ser irmãos. A fraternidade supõe a filiação. Se não somos filhos, como é que poderemos ser irmãos, construir a fraternidade (comunidade de irmãos).

Claro que, sem fraternidade, a igualdade e a liberdade não têm um fundamento sólido, duradouro e definitivo. Com efeito, a fraternidade é o cimento da igualdade e da liberdade. Se não somos irmãos, porquê preocupar-nos com estranhos? Refira-se ainda assim que a sobrevivência do mundo depende de todos, o bem ou o mal que faço vai afetar o outro, vai decidir que o mundo é destruído ou se é contruído.

Do mesmo modo a liberdade. Se a liberdade se apoia em mim ou em ti, se se apoia nas normas de um país ou de uma ideologia, será uma liberdade a prazo, pois basta mudar a pessoa que tem mais poder para que também esta adquira outras feições. Sem a fraternidade, a lei do mais forte ganha terreno, manda quem pode.

“Como crentes, diz-nos o Papa, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo á fraternidade” (272).

D. António, por sua vez, salienta que a raiz da fraternidade e essência da família é o amor eterno e verdadeiro. E o lugar humana onde se manifesta a fraternidade é a família. “Os filhos, não deixando de ser diferentes na ordem do nascimento, da saúde, da inteligência, temperamento, sucesso, são iguais, e são iguais não obstante as suas acentuadas diferenças; são iguais, não em função do que são ou do que têm ou do que fazem, mas em função daquilo que lhes é dado e feito; são diferentes mas são iguais, são iguais não devido a isto que fazem, ao seu currículo e ao seu trabalho, mas devido ao amor dos seus pais, que os faz iguais, que os torna iguais”. E também em função do amor fontal de Deus Pai, somos filhos de Deus, filhos no Filho, é esse amor primeiro que que nos torna livres e iguais. Deus não tem netos nem sobrinhos. Somos todos irmãos, porque somos todos filhos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/46, n.º 4581, 27 de outubro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Stayaway Covid

Foi apresentado o Orçamento de Estado para o ano de 2021, num contexto difícil para Portugal e para o mundo, com um horizonte de futuro condicionado pela pandemia do novo coronavírus. Não me cabe a mim, nem é este o lugar para tal, discutir as virtualidades ou as limitações orçamentais. Há outros que o farão com muito mais fundamento, ainda que sempre prevaleça a janela de onde falam, refletem, discutem.

Entrou em vigor, na passada quinta-feira, 15 de outubro, o Estado de Calamidade. Duas medidas sobressaíram de imediato: o uso obrigatório de máscara nos espaços onde/quando não for possível manter a distância física de dois metros e a “obrigatoriedade” da aplicação “Stayaway Covid”. Instalei a referida aplicação logo que ficou disponível para o sistema operativo do meu telemóvel. Era uma recomendação. Poderá passar a ser uma obrigação, pelo menos no contexto escolar e profissional. Pensei que era mais difícil usar a máscara durante um dia inteiro, mas para meu espanto, afinal a aplicação pode pôr em causa a privacidade! E até, por momentos, deixámos de falar no Orçamento de Estado, uma ferramenta para as pessoas e famílias, para as empresas, com todas as incertezas quanto à evolução epidemiológica.

A aplicação, mesmo como recomendação, depende do bom uso da mesma, não isenta de outras responsabilidades e compromissos, como o distanciamento físico, o uso de máscara (em muitos contextos), a expressão dos afetos, os comportamentos em ambientes com algumas/muitas pessoas. A privacidade é um direito. Há pessoas que expõem as suas vidas ao segundo, o que estão a fazer, o que comem, o que vestem, que marcas usam, onde estão; opinam sobre tudo, sobre todos, valorizam as niquices e desvalorizam o que é essencial para os outros. Mas algo que é “imposto” para o bem de todos, faz esquecer que a nossa vida já está exposta de mil maneiras, que nos impõem valores, princípios e modas, através de leis, aprovadas quando ninguém está a ver, através de campanhas de des-informação, spots publicitários, direitos de antena, comentário nos órgãos de comunicação social. Como não evocar o episódio dos pais que acharam oportuno intervir na educação dos filhos, recusando o conteúdo de uma disciplina… e como logo se levantaram vozes, campanhas, acusações contra os pais por se oporem, pelo direito que têm a escolher a edução para os filhos, a um conteúdo específico…

Vem-me à lembrança outro episódio, este bíblico. O general Naaman é estimado pelo seu rei e pelo povo da Síria, é valente e robusto, mas tem lepra. Guiam-no até ao profeta Eliseu, que lhe manda dizer, por um mensageiro, que vá banhar-se sete vezes no rio Jordão. Começa a contestação: Porque é que Eliseu não se dignou recebê-lo pessoalmente? E porquê lavar-se no rio Jordão e não num rio do seu país? A resposta dos servos de Naaman é clarificadora: «Meu pai, mesmo que o profeta te tivesse mandado uma coisa difícil, não a deveria fazer? Quanto mais, agora, ao dizer-te: ‘lava-te e ficarás curado’» (2Reis 5, 1-23). Difícil seria voltarmos a estar confinados em casa! Usar uma aplicação, para o bem de todos, quando usamos dezenas de aplicações que recolhem dados sobre os nossos gostos, lugares que visitamos, pessoas com quem nos cruzamos… e o OE lá vai sub-repticiamente sendo discutido, com aprovação garantida, faltando apenas saber que dividendos políticos vão ter os diferentes partidos… estamos a discutir a bola… uma aplicação… e enquanto os “lázaros” continuam a pelear por algumas migalhas que caem da mesa da opulência e da indiferença…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/45, n.º 4580, 20 de outubro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Estamos a viver a crédito

Dito assim, sem outros acrescentos, já é uma expressão que preocupa e alerta, ainda que seja uma situação recorrente. O recurso ao crédito, amplamente publicitado, desafia a cumprir com todos os desejos: quer, não pode pagar? não se preocupe, diga quanto quer e rapidamente aprovamos o seu crédito! Vivemos a crédito e a prestações! Sem com isso desvalorizar esta ferramenta da banca e de outras empresas, facilitando a vida das pessoas e permitindo-lhes uma vida mais cómoda. Por exemplo, antigamente, um casal construía a casa no fim da vida ou conforme ia tendo possibilidades! Pouco usufruía dela, somente os filhos! Hoje podem usufruir da aplicação do seu trabalho e do seu esforço. Como em tudo, convém atender às letras pequeninas e ponderar as possibilidades, dando sempre uma margem de folga para o caso de alguma coisa correr menos bem!

Porém, não é acerca deste crédito que quero refletir convosco nesta semana, mas no crédito em relação aos recursos naturais do planeta. No ano passado, foi batido o record, a 29 de julho, e que seria alcançável este ano não fora a pandemia do novo coronavírus. Os recursos naturais para este ano esgotaram-se no dia 21 de agosto. O dia 22 de agosto foi assinalado como o Dia da Sobrecarga da Terra. Estamos a viver a crédito. O orçamento anual foi esgotado! A organização internacional Global Footprint Network (GFN) sublinha que este ano a sobrecarga foi retardada, em três semanas, devido à pandemia, o que levou à “diminuição da extração de madeira (-8,4%) e das emissões de CO2 (-14,5%) resultantes da combustão de combustíveis fósseis” que “são os principais motores por detrás da mudança histórica de trajetória”. Refere a GFN que “a pandemia de Covid-19 fez com que a pegada ecológica da humanidade se contraísse, demonstrando que é possível mudar os padrões de consumo de recursos num curto período de tempo. No entanto, a verdadeira sustentabilidade, a que possibilita que todos prosperem na Terra, apenas poderá ser alcançada através da planificação e não da catástrofe”.

A humanidade gasta cerca de 60% a mais dos recursos que é possível renovar. É como se tivéssemos à disposição 1,6 planetas! Em Portugal, os recursos naturais disponíveis para 2020 foram esgotados a 25 de maio (dados calculados antes da pandemia). Desde o dia 26 de maio, estamos a viver a crédito, com os recursos de 2021! Em Portugal precisaríamos de 2,5 planetas para sermos ecologicamente sustentáveis!

Preocupante! E se pensarmos nos países mais pobres de África, da Ásia e da América Latina, mais preocupante ainda, pois os países ricos gastam em excesso os próprios recursos e o desses países. Se estes consumissem da mesma maneira, então os recursos naturais esgotariam muito antes da primeira metade do ano.

Segundo a associação portuguesa Zero, o défice ecológico global começou em 1970 e, neste momento, serão precisos 18 anos terrestres para corrigir este défice. Se em cada ano se reduzisse em cinco dias o défice, o deve-haver estaria equilibrado em 2050! Um orçamento equilibrado garante o futuro, o nosso e o dos nossos vindouros!

Isto deve fazer questionar o estilo de vida que levamos e a forma como vivemos a solidariedade entre gerações, a nossa e as futuras, e a solidariedade entre (países) ricos e (países) pobres. Vamos ver se a vacina anti-covid chega igualmente aos mais pobres!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/37, n.º 4572, 25 de agosto de 2020

A revolução liberal duzentos anos depois

No dia em que se assinalam 200 anos da revolução liberal, 24 de agosto, crónica do reverendo Pe. Joaquim Correia Duarte:

Muitos de nós conhecemos, na cidade do Porto, o “Campo 24 de Agosto”.

O nome pretende recordar e lembrar um dos grandes acontecimentos que marcaram para sempre a nossa história coletiva: a revolução liberal de 24 de Agosto de 1820.

O local, que antes se chamou Mijavelhas, Poço das Patas e Campo Grande, só foi batizado com este nome por edital da Câmara, em 1 de agosto de 1860.

Não foi aí que eclodiu a citada revolta, mas sim no Campo de Santo Ovídeo, hoje Praça da República.

Foi nesse dia e neste último local que a guarnição militar do Porto, doutrinada e impelida pelo Sinédrio, desembainhou as espadas e apontou os mosquetes, para proclamar extinto o antigo regime, absolutista, e implantado o novo regime, constitucional.

Pretendia-se ultrapassar a situação de um país pobre e devastado pelas invasões francesas, excluir da gestão do reino o domínio da Inglaterra na pessoa do General Beresford, fazer regressar a Portugal o rei ausente no Brasil, implementar no país o regime saído da revolução francesa, assentando teoricamente na igualdade de direitos de todos os cidadãos, na separação e na divisão de poderes – legislativo, executivo e judiciário – e tornando a lei, já não a vontade do soberano como no despotismo esclarecido, mas o resultado da vontade do povo, declarada e expressa pelos seus representantes nas Cortes.

Essa mudança de regime, que veio trazer a Portugal tantos oportunismos, tantos sofrimentos, tantas divisões e perseguições partidárias, tantos expatriados, e tantos prejuízos (basta referir a guerra civil que dividiu os portugueses ao longo de tantos anos, a extinção das ordens religiosas e a partilha dos seus bens pelos apaniguados do novo regime) trouxe também consigo as primeiras eleições para a escolha dos deputados às Cortes, em 1821, e a elaboração da primeira Constituição, no ano seguinte.

Por detrás de toda esta mudança, estavam as doutrinas iluministas do último quartel do século XVIII defendidas e propaladas pela maçonaria, e as ideias jacobinas trazidas pelas invasões francesas, difundidas entre os novos intelectuais em pasquins volantes, e discutidas nos cafés e nos botequins de vilas e cidades.

A presidir a tudo isto, e a mobilizar as tropas sem as quais nada lhes seria possível, estava o Sinédrio: um grupo de doze burgueses portuenses, a cujo movimento se aliaram alguns comandantes militares do norte, e ainda, D. Frei Francisco de São Luís, que veio a ser mais tarde patriarca de Lisboa, mais conhecido por Cardeal Saraiva.

Entre esses doze burgueses, havia um resendense, Manuel Borges Carneiro, de seu nome.

Nascido na Casa das Cotas, em Cimo de Resende, em 2 de novembro de 1774 e batizado na igreja da paróquia em 17 do mesmo mês, formou-se em Cânones em Coimbra e vivia no Porto nessa ocasião, já que, no início de 1820, fora nomeado Juiz Desembargador da Comarca da Relação do Porto.

Foi ele um dos grandes mentores da revolução liberal e também um dos grandes redatores da primeira Constituição Portuguesa, votada nas Cortes em 1821 e aprovada com a data de 23 de setembro de 1822.

Borges Carneiro era um dos deputados mais escutados nas assembleias das Cortes.

Um escritor italiano no exílio, presente em alguns debates, escreveu sobre ele: “Depois de Fernandes Tomás, levantou-se um orador mais alto em estatura do que ele, pouco rápido a falar, mas impetuoso, quase irresistível nas ideias. Ouvi então murmurar nas galerias o nome de Borges Carneiro. Esse deputado entusiasma frequentemente o auditório, porque as suas moções são sempre ousadas e vêm ao encontro das paixões populares”.

Infelizmente, o homem acabou por morrer cedo, e mal.

Com a ascensão de D. Miguel ao trono, foi preso em Lisboa em 15 de Agosto de 1828 e acabou por morrer de peste na Torre do Castelo de S. Julião da Barra cinco anos depois, apenas com 59 anos de vida, tendo sido sepultado na esplanada do mesmo castelo, como se de um simples animal se tratasse.

São assim as revoluções.

São assim as glórias deste mundo.

Passados duzentos anos, continua a haver na sociedade portuguesa integralistas, legitimistas, monárquicos e republicanos do coração.

O que importa é que todos nos respeitemos, que o país progrida, que todos vejam reconhecidos os seus direitos, que a ninguém falte o necessário, e que todos sejamos felizes.

Chegou agosto, e vem com tempo

O nosso jornal diocesano, Voz de Lamego, tem um grupo de cronistas que nos envolvem, desafiam, nos fazem refletir, com temáticas e sensibilidades variadas, e, como facilmente se pode verificar, apontam caminhos, rasgam horizontes, comprometem-nos com a vida, com o amor, com a beleza, com a justiça e a verdade, com a bondade e a caridade, comprometem-nos na construção de um mundo mais humano, fraterno, cristão. Esta semana, contamos com uma nova cronista, a Ana Carolina Fernandes, com a sugestão que se segue:

“Chegou agosto, e vem com tempo

Chegou em sobressalto, depois de um março agitado onde a nossa sensação de tempo foi alterada. Fomos obrigados a parar. A vida como a conhecíamos em agitação, rotinas definidas, horários estipulados e correrias diárias bloqueou e mexeu, mexeu com tudo aquilo que sempre tomámos por garantido.

Revirou o nosso calendário, insistiu para que a nossa agenda não comandasse os nossos dias e deu-nos tempo.

Deu-nos tempo, aquele que sempre pedimos.

Tirou-nos muitas coisas, mas será que todas essas coisas eram verdadeiramente essenciais?

Será que não nos trouxe coisas boas também?

Será que não nos ofereceu uma nova sensação de tempo?

Vivemos uma vida inteira, com a queixa constante que gostávamos de ter mais tempo. E esquecemos uma coisa: tempo é agora.

E se o tempo é agora, agosto é hoje. Chegou quente como o conhecíamos e repentino como não estávamos tão habituados, e diz-nos que podemos viver assim. Que os dias de azáfama podem abrandar, que é tempo para “estar”, num sentido de

“estar” que a correria do dia-a-dia não nos deixava conhecer.

É “sentir” agora, num “sentir” que estava habituado a preparar o dia a seguir.

É “ser” mais, num “ser” que só queria ser melhor.

E agora pode soar a cliché, mas se há algo de maravilhoso que toda esta mudança nos trouxe foi o tempo que sempre desejámos ter. E mais do que isso, é o tempo que precisávamos. E que finalmente chegou!

E agora?

Agora só cabe a cada um de nós saber vivê-lo da melhor forma.

Pode parecer difícil e até mesmo desafiante aprender a viver de forma mais branda, com a incerteza do que aí vem, com novos medos e tantos receios, mas se calhar era mesmo isto que faltava aos dias. Para que deixem de ser só dias e passem a ser os nossos dias, no nosso tempo.

Parámos. E ainda bem que houve algo que nos obrigou a parar.

E eu só desejo que o agosto 2020, marcado por ser tão diferente, seja esperança para melhores “agostos” que estão por vir.

Porque no final de contas, todos queremos cantar “Meu querido mês de agosto, por ti levo o ano inteiro a sonhar”. Que acordemos deste sonho, para continuar a viver a vida em tempos felizes.

Chegou agosto, e vem com o TEU tempo.”

Carolina Fernandes, fisioterapeuta,

in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Não há verão como antigamente

A vida nunca se repete. Sublinham os historiadores que há acontecimentos similares, ciclos completos que são preenchidos pela evolução e por grande crescimento económico e paz social, seguindo-se a crise, a conflitualidade e o aparente fim da história, a que sucede a reconciliação e crescimento e avanço civilizacional! É também essa a dialética hegeliana, em que o filósofo (Hegel) alemão analisava a história e a vida num constante ciclo: tese – antítese – síntese. Esta visão desafia-nos, em todo o caso, a ter os pés bem assentes no chão, uma vez que na bonança temos consciência que ainda não estamos no paraíso, fazendo-nos antecipar, preparar e precaver-nos, tanto quanto possível, dos conflitos que espreitam. Por outro lado, em tempos de crise, de tempestade e trevas, conhecendo a história e os seus ciclos, é possível relativizar as contradições, assumindo que as situações de crise são oportunidade de crescimento e de evolução e, simultaneamente, sabendo que não são para sempre, pois já vivemos momentos assim que ultrapassámos, então há que manter confiança e a certeza em dias muitos felizes que estão a chegar.

Para os cristãos, todos os tempos são preenchidos da presença graciosa de Deus e têm em si a boa semente para a qual nos cabe criar as condições para que frutifique em abundância, mesmo em ocasiões muito adversas. Porém, com a certeza de que estamos a caminho, somos peregrinos e que a nossa vida não se esgota na história e não fica limitada ao tempo cronológico. Pelo que nos cabe aproveitar bem todo o tempo, sem ficarmos à espera de termos outras oportunidades ou a extensão cronológica da vida! Faço hoje, vivo hoje, comprometo-me hoje, pois amanhã posso já não estar! Atravessamos uma tempestade? Com sofrimento e sacrifício? Sim, mas cientes que Deus continua a sustentar o mundo e que nos guiará ao futuro, aqui e na eternidade.

“À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”. Palavras do Papa Francisco, no dia 27 de março, depois de subir a esplanada, deserta, da Praça de São Pedro, sintonizando com os tempos que passam, mas, igualmente, sintonizado com a presença amorosa e fiel de Deus na vida do mundo.

Estamos em pleno verão e a tempestade pandémica continua a fazer estragos, a assustar, a alterar comportamentos e a deixar muitas pessoas para trás, umas a caírem do barco, outras já fora do mesmo!

As nossas aldeias, vilas e cidades enchiam-se de pessoas nesta altura do ano, com os “emigrantes” que regressavam do estrangeiro ou de outras zonas do país. É certo que há lugares novamente pejados de migrantes e de turistas, mas nada comparado a outros anos. As festas e romarias que motivavam também a presença dos nossos conterrâneos foram suspensas e/ou adiadas para melhores dias. E, mesmo que se realizem algumas, no estrito cumprimento das normas sanitárias para o tempo da pandemia, a espontaneidade da festa não permite a mesma descontração e familiaridade.

Mas como a vida não se repete, não percamos tempo a lamentar-nos, aproveitemo-lo para nos ligarmos ainda com mais qualidade à família e aos amigos e que o distanciamento físico não seja, nem agora nem no futuro, distanciamento social!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/35, n.º 4570, 11 de agosto de 2020

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Editorial da Voz de Lamego: As cores da (in)tolerância…

Somos tolerantes. Intolerantes são os outros. Ou talvez sejamos as duas coisas, dependendo dos temas com que nos deparamos!

Existam pessoas, preenchidas de humildade e sabedoria, com a elasticidade generosa para acolher e respeitar os outros, mesmo divergindo, e capazes de integrar, aprendendo, as diferenças, como riqueza e não como estorvo ou sombra!

Quando nos autocaracterizamos, somos humildes, tolerantes, frontais… e ninguém nos dá lições de moralidade, lealdade, honestidade.

Os maiores teóricos da liberdade foram os maiores ditadores… à esquerda e à direita! Hitler, Mussolini, Lenine… Bolsonaro? Países em que imperou o fascismo ou o comunismo… Portugal, Itália, Rússia, China… e ninguém lhes poderia (então) dizer que eram ditadores… pois estavam a defender os direitos dos seus povos!

No dia 25 de maio morreu George Floyd, afro-americano, depois de um polícia de Minneapolis se ter ajoelhado sobre o seu pescoço, durante oito minutos e quarenta e seis segundos, enquanto estava deitado de bruços na estrada e a dizer que não conseguia respirar. De imediato se multiplicaram as manifestações contra o racismo, o abuso de poder e a descriminação. Pena foi, novamente, que algumas minorias extremistas se apropriassem da causa, como se não dissesse respeito a todos.

Um erro… não se corrige com outro. A violência não se corrige com violência, apenas a multiplica. Se a um excesso se responde com outro, o que resulta é destruição.

As manifestações integram muitas pessoas que nada têm a ver com as causas que as provocam. É lamentável. As boas intenções de uns são adulteradas pela inconsciência, burrice e oportunismo de outros. As diversas manifestações antirracistas, relevantes e oportunas, são ensombradas e perdem o sentido quando se escolhe o caminho da violência e do desrespeito pelos outros. Há cristãos que se converteram a movimentos religiosos e queriam reescrever a pertença religiosa, apagando o registo do batismo, quase como quando um relacionamento termina e se rasgam as fotografias… como se dessa forma também a memória fosse apagada.

Como portugueses talvez tivéssemos de criar um tribunal para julgar Afonso Henriques e os reis que lhe sucederam. Talvez tivéssemos que queimar livros, romances e poemas, rasgar fotos, desgravar sons e películas… talvez precisássemos de destruir praças e monumentos e não apenas colocar-lhes outros nomes!

A história enraíza-nos no que somos, assumindo que os nossos antepassados fizeram coisas boas e outras menos boas, o que também nos acontece e aos nossos contemporâneos. Porém, não nos cabe tanto julgar ou mesmo destruir a história, sabendo que se tivéssemos vivido nesses tempos poderíamos ter sido as vítimas ou os vilões! Quem o poderá saber?!

Sem renegarmos as nossas raízes, cabe-nos construir hoje a história, contribuir para um mundo mais solidário e fraterno, lançando novas raízes que integrem e incluam solidariamente os que seguem no mesmo barco que nós. Do passado, poderemos sempre colher lições… para não cairmos nos erros que destroem, e possamos avançar e progredir num caminho de humanização e integração…

Regressemos às cores da (in)tolerância. Seremos tolerantes quando deixamos andar e não queremos saber do outro?

Seremos tolerantes quanto respeitamos desde que não nos chateiem, não nos incomodem, não nos calquem os calcanhares e não nos cheguem mostarda ao nariz?

Sou tolerante… com os meus amigos e desde que não divirjam e/ou sejam da minha cor clubística, da minha área político-partidária, pertençam à minha religião!!!

O caminho da tolerância é aceitação do outro, com as suas qualidades e fragilidades, respeitando-o como pessoa, amando e cuidando.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/29, n.º 4564, 16 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: novo normal?!

Em novas situações emerge um novo vocabulário. É recorrente ouvirmos: “pandemia”, “distanciamento social”, “confinamento” e “desconfinamento”, “higienização”… entre outras!

Depois de uma grande tempestade, que desejamos? Regressar à normalidade, a uma normalidade possível, pois que nunca será igual, porque se perderam bens e, nalgumas situações, se feriram ou morreram pessoas, além do susto que pode gerar outra atitude: medo patológico (ainda que provisório) ou mudança das prioridades, sabendo que a vida (terrena) não é para sempre.

Em absoluto, mesmo quando não há tempestades, vamos despindo várias camadas e assumindo outras que nos fazem avançar, renovando as opções, normalizando as alterações e as novidades, numa espécie de espiral, integrando, debaixo da pele, o que nos acontece e, eventualmente, permitindo-nos estar mais preparados para outras situações.

Sob o reinado da Covid-19, já não se fala em regressar à normalidade, mas em assumir um novo normal, a tal normalidade possível, ajustando comportamentos e compromissos, sem esperar pelo controlo do novo corona vírus, mas convivendo com ele e não deixando de viver, de trabalhar, de confiar.

Em absoluto, nunca é possível voltar atrás, repetir os momentos, sejam negativos, que dispensamos, sejam positivos, que desejamos. A vida não se repete. “Nunca voltes ao lugar onde já fostes feliz”, como nos recorda, cantando, Rui Veloso, “Só encontrarás erva rasa / Por entre as lajes do chão / Nada do que por lá vires / Será como no passado / Não queiras reacender / Um lume já apagado”. Obviamente que a nossa memória emocional nos levará a recriar situações e momentos que nos fizerem bem e até podem, de facto, levar-nos a viver em dinâmica de bênção. Assim como assim, no entanto, estamos a avançar e não a repetir o passado, esse só podemos confiá-lo a Deus e mantê-lo na memória: se fomos felizes, podemos voltar a sê-lo. Temos pistas do que nos faz sentir em casa!

“Novo normal”. São duas palavras que me sugerem “conversão”, não como uma atitude pontual e definitiva, pode acontecer, mas como constante da nossa vida. Com efeito, precisamos de nos adaptar a novas situações, ora mais compassadas, ora mais urgentes, mas ainda assim, a vida continua, sempre nova, nunca se repete, não é igual para todos, nem todos ficarão bem, e os que ficarem bem, não ficarão em simultâneo ou na mesma medida. Numa perspetiva cristã, bem, bem, absolutamente bem, vamos ficar quando os nossos dias na terra estiverem cumpridos e Deus nos chamar a habitar eternamente com Ele. Estaremos a caminho de estar bem se confiarmos em Deus e nos “treinarmos” a amar, cuidar e servir…

Já aqui sugerimos, como leitura, “O desafio da normalidade”, do médico José Maria Cabral. É curioso, como buscamos tanto a novidade! Estamos com as antenas ligadas para vermos que modas vão surgir e como adaptarmos o penteado, a roupa, ou até a linguagem… e agora buscamos a normalidade. Por outras palavras, para voarmos precisamos de estar enraizados e certos de que poderemos voltar a poisar em chão seguro. A própria novidade assenta no que somos, temos e vivemos, só é novo comparado com o que já vimos ou experimentámos. Para nós cristãos, o normal é estarmos firmes pela fé e pela esperança, mas, sempre novo, a docilidade ao Espírito de Deus, abertos à ao futuro, para, hoje e a cada instante, renovarmos e concretizarmos o amor que nos liga aos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/27, n.º 4562, 2 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Cruzámo-nos a subir e a descer

As pessoas que encontro ao subir serão as mesmas que encontrarei ao descer. É uma expressão luminosa do Papa Francisco sobre os valores que aprendeu em casa com os pais: a humildade, respeito pelos outros, bondade para com todos.

Quando foi eleito Bispo, e depois Cardeal, procurou manter a mesma proximidade com todos, misturando-se entre o povo que lhe foi sendo confiado e, na grande metrópole de Buenos Aires, tratou de ter o cheiro das ovelhas, expressão que usa frequentemente. Proximidade com os sacerdotes e proximidade com os fiéis leigos. Na residência episcopal, recebia pessoalmente as visitas e oferecia-lhes um chá, bolos e, se necessário, cozinhava para “os convidados”. Ainda hoje, quando recebe alguém na Casa de Santa Marta faz do mesmo modo. Curioso quando, pela primeira vez, o vimos, como Papa a subir as escadas do avião, com a sua mala na mão, ou outros gestos similares, como ir pagar a conta do hotel onde esteve hospedado durante o conclave ou telefonar, sem intermediários, para várias pessoas.

A imagem é muito sugestiva. Imaginamos a vida como uma escada. Vamos subindo degraus. Passamos por algumas pessoas, enquanto estamos a subir, outras ficam para trás ou estão a descer. Mas haverá um momento em que nós estamos a descer, na mó debaixo, e vemos as mesmas pessoas, a subir. É uma imagem pragmática. Se hoje estamos bem, devemos lembrar-nos dos que estão mal ou menos bem, pois um dia podemos nós estar mal e eles bem e como gostaríamos que nos tratassem, quando estamos a descer ou estamos em baixo, assim os tratemos quando estamos nós em cima e eles em baixo. De algum modo corresponde à regra de outro: o que queres que te façam a ti, fá-lo tu aos outros. Como não lembrar a parábola de Jesus sobre o pobre Lázaro e o rico avarento. A vida eterna inicia-se no tempo presente, o que fizermos agora tem repercussão amanhã.

Se antes isto era verdade, agora faz ainda mais sentido. Estamos todos no mesmo barco, com um sublinhado importante, há alguns que continuem a ter mais ferramentas e melhores condições socioeconómicas para viver este tempo de “paragem” e os tempos que lhe seguirão. Os mais vulneráveis, em todas as situações, são os primeiros a sucumbir e sofrer a fustigação da tempestade. Porém, como temos visto, há momentos que não adianta ter uma fortuna, pois o vírus e a morte chegam de mansinho sem olharem para a marca de roupa ou do carro estacionado na garagem.

Por outro lado, havia muitas pessoas que estavam bem na vida, a viver sem grandes sobressaltos, mas esta pandemia revirou as suas vidas, sem contar o que estará para vir. A propalada expressão “vai ficar tudo bem” tem muito que se lhe diga. Tem o mérito de invocar a esperança, mas não mais do que isso, pois para alguns estão aí dias de grande caristia, de maior sofrimento e de incerteza. Pensemos, como se viu na crise económica, num casal com dois ou três filhos, com a casa para pagar e a universidade, com dois ordenados acima da média, de repente um deles ou os dois ficam desempregados!

Não deixemos ninguém para trás. Façamos o que está ao nosso alcance. Somos responsáveis uns pelos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/21, n.º 4556, 21 de abril de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Uma Igreja em cada casa

Entrámos na Semana Maior da nossa fé. Estes eram dias de movimento, tempos de oração, de procissões, de encontro e de alegria interior. As igrejas compunham-se de gente devota. Mais ou menos expressivas, as celebrações apelavam e apelam ao recolhimento espiritual, à contemplação das últimas horas de Jesus, para culminar na Páscoa, com a Visita Pascal, anunciando a ressurreição de Cristo, de casa em casa, em todas as casas.

Como pároco, já ouvi, em forma de pergunta ou de lamentação: este ano não há Páscoa?! Sim, há Páscoa, pois não se deixa de celebrar a ressurreição de Jesus. Mas de um jeito muito diferente do habitual. Antes lamentávamos as igrejas vazias, mesmo quando tinham pessoas, agora efetivamente estão vazias. Todavia, também a Igreja procurou adaptar-se a estes tempos de confinamento caseiro, procurando que não se perca a ligação, a comunhão à comunidade, contando com a criatividade de muitos. Se antes, cada casa era chamada a ser Igreja doméstica, hoje, por maioria de razão, a Igreja é em cada casa, em cada família, pois é em cada casa que se reúne a família para rezar e aprofundar a fé e a esperança, vivendo a caridade.

Antes de chegarmos à Páscoa, à alegria da Ressurreição, há caminho a percorrer, há uma cruz a transportar, há um calvário a acolher, e tantas contrariedades a experimentar, especialmente neste tempo. A realidade pandémica do coronavírus paira como ameaça sobre todos, desafiando-nos, sempre, mas agora mais ainda, a cuidar uns dos outros, atendendo sobretudo às pessoas e famílias mais vulneráveis.

Vai ficar tudo bem!

A vida é um dom e uma bênção. Sempre! Mas, porque somos limitados e finitos, a vida pode complicar-se!

Vai ficar tudo bem!

O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus… vai ser morto… VAI FICAR TUDO BEM… três dias depois ressuscitará. A última palavra será da vida, do amor, da ressurreição, a última palavra será de Deus. Mas, porquanto, vivemos na penúltima palavra, estando sujeitos às coordenadas espácio-temporais e a lidar com as fragilidades, limitações e egoísmos uns dos outros.

Ao longo da Sua vida, Jesus não Se desvia do amor do Pai, traduzido em proximidade, cuidado e serviço a todos, preferencialmente aos últimos da sociedade. Instala-se uma revolução “silenciosa” de delicadeza, de ternura e de compaixão, de amor e perdão, de serviço e bondade. A luz, que é Jesus, ilumina e ofusca, desafia e provoca, clarifica o caminho e põe a descoberto a soberba, o egoísmo e a indiferença, expõe a maldade, as trevas e as maquinações. Se uns se sentem desafiados e envolvidos, outros sentem-se acossados e expostos! Olhamos para Jesus e olhamos para autoridades judaicas e não precisamos que nos deem explicações, são percetíveis as opções e a coerência de vida. E tal coerência gera irritação, ódio, e a necessidade urgente de apagar a chama que incendeia corações e vidas!

Vou partir… a vossa tristeza é inconsolável… mas vai ficar tudo bem… Eu voltarei e, então, a vossa alegria será completa!

Vai ficar tudo bem! É a certeza da Páscoa e de todas as páscoas que vamos experimentando, ainda que falte fazer caminho!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/19, n.º 4554, 7 de abril de 2020