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Archive for the ‘Opinião’ Category

Editorial Voz de Lamego: A paz que Eu vos deixo

O Papa Paulo VI convocou o mundo para celebrar o Dia Mundial da Paz: “Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o ‘Dia da Paz’, em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de janeiro de 1968. Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro”.

Ao longo do ano, existem dias mundiais, internacionais, dias dedicados a uma causa, para relembrar um acontecimento, para promover um valor, uma atitude, um compromisso. Estas comemorações existem para colmatar um défice, um esquecimento, alguma injustiça ou desigualdade. Mesmo que evoquem um acontecimento, têm o propósito de assinalar uma vitória, uma conquista para a humanidade ou para determinado povo, uma personalidade que marcou a história ou, em sentido contrário, para que não seja esquecido aquele dia, aquele acontecimento, aquela pessoa, para que não se caia no mesmo erro.

O Dia Internacional da Mulher, assinalado a 8 de março, alerta para as muitas desigualdades que ainda existem entre homens e mulheres, no trabalho e na lida doméstica, sendo também uma chamada de atenção para a violência doméstica em que a maioria das vítimas são mulheres. O Dia Mundial da Árvore, a 21 de junho, evidencia o cuidado a ter com o meio ambiente, com o excesso de poluição, com a desflorestação, com os incêndios, mostrando como o descuido da natureza a todos afeta. O Dia Mundial do Pobre, no penúltimo Domingo do Tempo Comum, remete para a opção preferencial dos mais pobres e que a erradicação da pobreza que continua a ser uma miragem, mas também um compromisso urgente, como se viu em tempo de pandemia, como se está a ver em tempo de guerra. São apenas alguns exemplos!

Se não houvesse guerra, não precisaríamos de um Dia Mundial da Paz ou um Dia Mundial da Não Violência, ou da Não discriminação. Mas, infelizmente, continuam a existir diferentes focos de guerra, em Cabo Delgado ou Myanmar, e, agora, entre a Rússia e a Ucrânia. A guerra traz o pior da humanidade, pela matança de pessoas, pelo rasto de tristeza e de luto que deixa, semeando ódios e desejo de vingança nas gerações mais novas, que deveriam estar a cultivar a paz, a fraternidade, uma vida saudável, com esperança no futuro. Por outro lado, os recursos usados por uma guerra serviriam muito para a erradicação da pobreza, mas no caso multiplicam-na exponencialmente.

Paulo VI enumera os muitos perigos que persistem: “da sobrevivência do egoísmo nas relações entre as nações… das violências, a que algumas populações podem ser arrastadas pelo desespero de não verem reconhecido e respeitado o próprio direito à vida e à dignidade humana… do recurso a terríveis armas exterminadoras, de que algumas potências dispõem… de fazer crer que as controvérsias internacionais não podem ser resolvidas pelos meios da razão, isto é, das negociações fundadas no direito, na justiça e na equidade, mas só por meio de forças aterradoras e exterminadoras”.

O compromisso pela paz há de corresponder ao empenho pelo desenvolvimento dos povos, à luta pela igualdade social, pela liberdade e pela justiça. Não basta não haver paz, é urgente que as pessoas, as famílias, os povos vivam em ambiente de segurança e lhes sejam assegurados direitos e garantias fundamentais, habitação, educação, cultura, saúde.

Diz Jesus aos seus discípulos: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; Eu não vo-la dou como a dá o mundo» (Jo 14, 27). A paz que nos vem de Jesus alicerça-se, não no egoísmo, mas no amor, não no poder, mas no serviço, não na violência, mas na ternura, não rivalidade, mas na compaixão, não na inveja, mas na partilha, não no ódio, mas na comunhão, não na força, mas na humildade! É este o caminho da verdadeira paz, a que brota do coração.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/17, n.º 4648, 9 de março de 2022

Os vencedores desta guerra

Não há grande debate para se fazer nesta altura. Um país que invade outro, soberano, autónomo, com uma História e Cultura próprias não tem qualquer desculpa. Nesta guerra, todos sabemos em que lado temos de estar. Sem qualquer arrogância ou prepotência, não há qualquer forma de desculpar a nefasta decisão da Rússia em invadir a Ucrânia. O tal país soberano.

Toda a atitude miserável de Putin só revela o desprezo que tem pela Humanidade e o profundo ardor no estômago que ainda sente quando se lembra da desagregação da União Soviética, nos anos 1990. O senhor Bashar-al-Assad, [inserir algo concreto] da Síria, disse que a invasão de Putin procura “corrigir a História”. Gabo o sentido de humor do dirigente sírio, que consegue dizer isto sem se engasgar naquele bigode ternurento. Mas nem só de História vive o Homem. O PCP português, com uma desfaçatez inebriante, capaz de deixar qualquer eleitor com a face mais do que ruborizada, escreveu que a NATO e os EUA são os principais responsáveis da situação que vivemos. Um dia encontrar-nos-emos nestas linhas a falar sobre a morte do PCP, que certamente não ouviu os pregos no caixão das últimas eleições legislativas.

Estas reações, da Síria e do PCP – que são apenas e só pequeníssimos exemplos – não ajudam a tranquilizar o ambiente, que neste momento é de grande ansiedade e incerteza. Sobre os movimentos geopolíticos e militares, confesso que apenas assisto e aprendo. Ainda assim, sinto-me tentado a destacar duas linhas de pensamento, que me parecem cruciais nesta altura.

A primeira diz respeito a uma hipocrisia generalizada da Europa. Sim, da Europa. De nós, europeus. De uma forma comovente e francamente ternurenta, são muitos os países do Velho Continente que têm já em marcha campanhas de acolhimento de refugiados, já para não mencionar as várias manifestações de apoio nas ruas e movimentações de envio de alimentos e mantimentos para as fronteiras próximas da Ucrânia. Durante anos e anos vimos imagens destas nas ruas da Síria, Irão, Iraque e sempre fomos mais reticentes em receber essas populações. Mas agora levantamos as portas sem hesitar. E bem, claro. Imagine sentir o som das sirenes, os mísseis a sobrevoar o seu prédio. Fugir estaria logo na sua mente.

Depois, a experiência da pandemia mostrou-nos de forma muito clara que nem sempre o argumento “isso é muito longe daqui” é bom conselheiro. Em meia dúzia de meses, a covid -19 chegou a Portugal, em pouquíssimas semanas, a variante Omicron saltou do Botswana e foi dominante em Portugal. Esta guerra traz outros vírus, seguramente. Mas que ninguém pense que as imagens da angústia ficam apenas em Kiev.

Fábio Ribeiro, Professor Universitário,

in Voz de Lamego, ano 92/16, n.º 4647, 2 de março de 2022

Editorial Voz de Lamego: Uma alavanca e um ponto de apoio

Vivemos um tempo especial, um tempo novo, um tempo diferente! Porque o tempo é sempre novo e sempre especial, se assim fizermos com que a nossa vida seja diferente e se renove em tudo quanto sonhamos, dizemos e fazemos.

Como cristãos, a novidade vem do Evangelho, é-nos dada por Jesus. Pelo Batismo, tornamo-nos novas criaturas, não para um momento, não para cristalizarmos no passado (ou no início da vida cristã), mas para que novos sejam os Céus e a Terra, constantemente, contando connosco, com o nosso empenho e compromisso na transformação do mundo que habitamos.

Por certo já todos ouvimos falar em “alavancar”! É uma palavra que muitos utilizam para justificar investimentos, explicar políticas e opções económicas. Em tempo de campanha eleitoral é possível que venham ao de cima as alavancagens e também os apoios.

Quais serão as alavancas que nos tornarão um país mais próspero? Os investimentos? Os impostos? As empresas? As famílias? O rigor ou a criatividade? O engenho do povo português ou os fundos da União Europeia? Quem sabe, talvez todas as alavancas serão úteis ou proveitosas, se bem geridas e a favor dos mais desfavorecidos para beneficiar a todos!

O trabalho e compromisso de cada português, a solidariedade social, económica e cultural, a honestidade serão o apoio incontornável para que as alavancas não sejam desperdiçadas ou sirvam apenas para os mesmos de sempre.

“Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio e levantarei o mundo”. Esta é uma expressão conhecida de Arquimedes e que hoje nos serve de “alavanca” para refletirmos no nosso (ponto de) apoio e nas alavancas que temos para sermos verdadeiramente irmãos.

O apoio, o centro, a referência é Jesus Cristo! Quando Ele deixa de ser o nosso apoio, deixamos de ter chão ou substituímo-lo por outros apoios, mais materiais ou mais pessoais, colocando alguma pessoa no Seu lugar ou colocando-nos a nós como referência. Sobrevirá o egoísmo ou a idolatria. E ansiedade, o medo, a prepotência! Se o nosso apoio, o fundamento e a luz da nossa vida é o que temos, nunca estaremos satisfeitos, estaremos sempre à procura de mais, a qualquer custo, independentemente do que tenhamos que fazer, mesmo que pisando os outros. Não se trata da ambição em melhorarmos a nossa vida e daqueles por quem somos responsáveis. A ambição com conta, peso e medida é uma alavanca para a criação de riqueza, beneficiando os próprios e os outros. Se o padeiro não tivesse qualquer tipo de ambição, produzir pão com qualidade e escoá-lo para prover ao seu sustento e da família, investindo e contratando pessoas, então ele deixar-se-ia ficar na cama ou iria para a padaria apenas quando lhe desse na real gana!

Se nos pusermos ao centro… seremos a nossa luz e a luz dos outros! A última bolacha do pacote! Quem não reconhecer o nosso brilho merecer-nos-á desprezo e indiferença, pomo-lo à margem ou agiremos por forma a prejudicá-lo. Se pusermos outra pessoa no centro… tudo exigiremos e tudo esperaremos… até nos desiludirmos! Somos limitados e finitos! Um filho desilude-se com o pai perfeito no dia em que percebe que o pai também erra, também adoece, também se esquece de um momento importante. Esperar tudo dos outros é fonte de ansiedade, o que nos conduzirá à desolação.

Se Jesus for o nosso ponto de apoio, a força motriz da nossa vida, não corremos o risco de sairmos defraudados, nem na história nem na eternidade. As alavancas que nos mantêm focados em Jesus Cristo são a oração, a Palavra de Deus, escutada, meditada e vivida, os que caminham connosco, a Igreja, a vivência dos sacramentos, o compromisso social, a prática da caridade. Com Jesus, não corremos o risco da indiferença, do desprezo ou da idolatria em relação ao nosso semelhante, pois tudo faremos para cumprir HOJE o que Ele nos manda: amar, perdoar e servir!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/11, n.º 4642, 26 de janeiro de 2022

Editorial Voz de Lamego: Levantai-vos! Vamos… seguir a Estrela

Na Epifania do Senhor, a liturgia da Palavra apresenta-nos um grupo de Magos que vem do Oriente (cf. Mt 2, 1-12). Vêm de longe, dos confins da terra, guiados por uma estrela. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O».

Os Magos são buscadores de Deus. Há quem se afaste de Deus através dos estudos. Há quem, pela ciência, se encontra com o Criador, o Senhor que faz belas todas as coisas. Os magos deixam-se surpreender por aquela estrela. Sabem que é diferente. O Rui Veloso, numa magnífica canção, diz que já não há estrelas! Mas a verdade é que continua a haver estrelas. Algumas guiam-nos para Belém, outras guiam-nos para ninguém.

Há quem tenha a graça de encontrar Deus, através da família e/ou do ambiente em que nasceu e cresceu, por meio de algum acontecimento impactante, na oração intensa, na sinceridade da procura. Há quem já tenha ouvido falar d’Ele. Aquela estrela despertou os Magos e fez com que eles se pusessem a caminho. Esta é a atitude que deveremos imitar: estar atentos aos sinais que vêm de Deus; discernir sobre as estrelas para seguirmos as que nos levam a Jesus; coloquemo-nos a caminho. Talvez muitos tenham visto a estrela, mas só os magos se puseram a caminho. Herodes, por exemplo, deixou-se ficar na segurança e no conforto do Palácio.

Por outro lado, sejamos também estrelas para os outros, pelas palavras e pela vida, facilitemos o seu caminho para Jesus, deixemos que a luz do alto resplandeça através de nós.

Um homem tinha um cavalo que ficou cego e, por conseguinte, se tornou-se inútil. Que fez este homem? Comprou outro cavalo e colocou-lhe uns guizos que passaram a servir de orientação para o cavalo cego. Assim, quando eram horas de ir para a padraria, o cavalo cego seguia o cavalo com os sinos. Quando era hora de recolher, a mesma coisa. O dono não desistiu do cavalo só porque agora já não tinha a mesma “utilidade”. Assim procede Deus connosco, coloca “estrelas” que nos guiam ou “cavalos com guizos”. Outras vezes teremos que ser nós as “estrelas” ou os cavalos com guizos que ajudam outros a orientar-se e seguir por caminhos que levem a Jesus.

Vivemos num mundo, hoje mais do que no passado, em que os desafios são vários e as propostas são milhentas, algumas revestidas a ouro, mas que escondem egoísmo, maldade e jogos de poder. Há que saber discernir e para tal o primeiro passo é a oração, a invocação do Espírito Santo.

A alegria dos Magos redobra quando veem a estrela a fixar-se onde se encontra o Menino. Entram em casa e veem o Menino, com Maria, Sua Mãe. Prostram-se diante d’Ele e adoram-n’O, abrem os seus tesouros e dão-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Deus não nos pede o impossível, pede-nos o melhor de nós. Os Magos dão o melhor que têm, os seus tesouros. Não guardam para si o que pertence ao Senhor. Os presentes têm também um simbolismo que fazem reconhecer a realeza, a divindade e a humanidade (mortalidade) d’Aquele Menino.

O encontro com Jesus faz-nos regressar à vida com outra alma. Como os Pastores, também os Magos voltam para os seus afazeres, mas regressam por outro caminho. Nada será como antes. Isto diz-nos respeito. A alegria já é imensa quando as estrelas nos falam, apontam, nos mostram Jesus! A alegria há de preencher-nos por inteiro no encontro com Jesus. Este encontro há gerar vida nova na vida de todos os dias, na opção firme pela verdade, pelo bem, pelo serviço, pelo amor ao nosso semelhante.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/08, n.º 4639, 5 de janeiro de 2022

Editorial: Levantai-vos! Vamos… a Belém!

Depois da Anunciação, Maria levantou-se e partiu apressadamente para a montanha em direção a uma cidade de Judá, ao encontro de Isabel, para a ajudar, carregando no seu ventre o Salvador do Mundo. É a presença de Jesus, Filho de Deus, que torna leve e célere a pressa de Maria. Jesus não é um peso que carregamos, Ele carrega-nos e alivia a nossa cruz com o Seu amor, ainda que tenhamos de fazer a nossa parte!

Mais tarde, José levanta-se e, sem delongas, pega em Maria e no Menino e vai para o Egito. A agilidade de José vem-lhe do amor e da fé. Até de noite o Senhor o inspira e lhe mostra a necessidade de fazer escolhas que permitam cuidar do Menino e de Sua Mãe.

Anos mais tarde, Maria e José voltam atrás porque sentem o peso da ausência de Jesus. Quando prosseguimos sem Jesus a nossa vida torna-se pesada ou mesmo insuportável. O mundo precisa de notícias boas e da Boa Notícia da salvação. Maria contagia Isabel e João Batista porque n’Ela está o Senhor da Alegria, Jesus.

O lema da nossa diocese – Levantai-vos! Vamos! – obriga-nos a seguir Jesus, no momento da tormenta, mas sabendo que a Cruz é apenas mais uma etapa no caminho. A Cruz é essencial para os cristãos, enquanto expressão do amor levado até às últimas consequências, mas ainda assim não é a cereja no topo do bolo, é um prelúdio do que vem: a vida, a ressurreição, a eternidade no coração de Deus. Deus faz-Se um de nós e faz-nos participantes da Sua vida divina. Encarna para nos ressuscitar!

Sozinhos podemos perder-nos no caminho! Então prossigamos em comunidade. Não basta estar juntos, é necessário a comunhão solidária, o diálogo, a oração, colocando Deus ao centro. É Ele que nos mantém ligados, a caminhar juntos. A Igreja, que vive em processo sinodal, é fundada à imagem da Santíssima Trindade. Deus é Pai e é Filho e é Espírito Santo. Harmonia perfeita, sem confusão. A sinodalidade compromete-nos trinitariamente a promover as diferenças, valorizando o que nos enriquece mutuamente e limando as arestas que nos ferem reciprocamente.

Na região de Belém, uns pastores, que pernoitavam e guardavam os seus rebanhos, são surpreendidos pelo Anjo do Senhor, que lhes diz: «Não tenhais medo! Eis que vos anuncio uma boa nova, que será uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um salvador que é Cristo Senhor. E isto será para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em panos e deitada numa manjedoura».

Os pastores são pessoas simples, estão habituados à dureza dos dias e das noites. Vivem com pouco. Pobres entre os pobres. Vivem atentos a tudo o que os rodeia, a ameaças que venham do campo ou dos ladrões. Não podem perder nenhuma ovelha. Se tal acontecesse teriam que prestar contas aos donos dos rebanhos e veriam reduzidos os meios de subsistência. Confiam uns nos outros, auxiliam-se nas adversidades, protegendo-se e aos rebanhos. Serão uma bela imagem do Pastor que estão prestes a conhecer!

Logo que os Anjos se afastaram para o céu, os pastores disseram: «Vamos até Belém, vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer». O evangelista sublinha que eles foram com pressa. Confiaram nas palavras do anjo e no cântico celestial. Não há tempo a perder. É urgente partir. Encontram Maria, José e a criança deitada numa manjedoura. Logo dão a conhecer o que o anjo lhes tinha dito a respeito daquele menino. E quando regressam fazem o mesmo, glorificam e louvam a Deus (cf. Lc 2, 8-21).

Neste tempo de Natal, deixemos que ressoe em nós a ternura do Menino-Deus. Partamos. Vamos. Até Belém. Até Jesus. Não O percamos de vista! Anunciemo-l’O com alegria, descubramo-lo nas manjedouras deste tempo, nos recantos do mundo, nas nossas famílias e na vizinhança. Vale a pena partir se O levarmos connosco!

Santo e abençoado Natal.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/07, n.º 4638, 22 de dezembro de 2021

Editorial: Quando Jesus passar, eu quero estar no meu lugar

Estar no nosso lugar, título da canção do Pe. Zezinho, não é estar parado, à espera, com os braços cruzados, deixando que a vida se cumpra, que o mundo melhore, que o tempo seja favorável para nos comprometermos uns com os outros. Estar no meu lugar, estarmos no nosso lugar, implica movimento, empenho, compromisso com a nossa condição de cristãos, seguindo Jesus e imitando-O.

A descansar ou a trabalhar, na escola ou em casa, estar no meu lugar significa dar o melhor de mim, vivendo, em prol dos outros.

A vida de Jesus, como a nossa, é feita de encontros, e desencontros! O anúncio da Boa Nova é essencial e faz-se de palavras e gestos, de abraços e de obras. Na vida de Jesus há lugar para todos. Queiramos nós!

Quando Jesus passava, João Batista estava a batizar! No seu lugar, portanto! E Jesus, identificando-Se connosco, fez-Se batizar (cf. Mt 3, 13-17). “Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos” e chamou-os: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens”. Depois viu outros dois irmãos e também os chamou (cf. Mt 4, 18-22). E eles seguiram-n’O. Estavam no lugar certo para que Jesus os encontrasse! E, passando palavra, outros se juntam a Jesus.

Os encontros multiplicam-se. Jesus vai ao encontro da pessoa ou deixa-se encontrar! Nicodemos interpela-O (cf. Jo 3, 1-21), com o desejo de viver inflamado por aquele amor. No Poço de Jericó, a Samaritana está no que pensava ser o seu lugar, a tirar água do poço, mas depois percebe que talvez o seu lugar seja outro e que a sua vida pode ser saciada com outra água (cf. Jo 4, 1- 41).

São Mateus, Levi, está na banca a cobrar impostos. Aparentemente está onde deve estar e é aí que Jesus, ao passar, o provoca: Segue-Me (cf. Mt 9, 9-13). Zaqueu, por sua vez, procura ver Jesus que atravessava a cidade de Jericó. Chefe de publicanos, deixa o seu lugar para se aproximar e ver Jesus. Na verdade, é Jesus quem o vê e o desafia a sair do seu lugar para O acolher em sua casa e na sua vida (cf. Lc 19, 1-10).

Quando Jesus se aproximava de Jericó, um cego de nascença, à beira do caminho, chama por Ele. Jesus devolve-lhe a vista, fortalece a sua fé e o cego, que agora vê, segue-O. O encontro com Jesus leva-o por outros caminhos!

Em lugares desaconselhados, talvez, algumas mulheres encontram-se com Jesus! No meio da multidão, uma mulher, com um fluxo de sangue, fá-l’O parar, expondo-se, sujeitando-se ao escárnio, mas logo é acolhida e salva por Ele (cf. Mc 5, 25-34); para os lados de Tiro e de Sídon, uma mulher, cananeia, grita por compaixão e Jesus atende-a (cf. Mt 15, 21-28); perto da cidade de Naim, uma viúva, que vai a enterrar o seu filho único, é encontrada por Ele que lhe devolve o seu bem mais precioso (cf. Lc 7, 11-17); em casa de Simão, um reconhecido fariseu, uma mulher, deslocada do seu lugar, lava-Lhe os pés com as suas lágrimas, enxuga-lhos e derrama sobre Ele um perfume de alto preço, e obtém o perdão dos seus muitos pecados (cf. Lc 7, 26-50); mulher apanhada em flagrante adultério é levada a Jesus para que Ele a condene, num desfecho em que Jesus, perdoando-a, lhe diz para prosseguir por outros lugares (cf. 8. 1- 11)!

Junto à Cruz, no lugar que devem estar, Maria, sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria de Magdala, e o discípulo amado (cf. Jo 19, 25-27). Mas também o bom ladrão está no lugar certo para ser salvo por Jesus e passar a outro lugar: hoje estarás comigo no Paraíso (cf. Lc 39-43)! E nós, já nos colocamos a jeito para que Jesus passe na nossa vida?

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/03, n.º 4634, 24 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: E da discussão nasce a luz

Em diferentes ocasiões, o Papa Francisco tem proposto a cultura do encontro, que passa, obviamente, pela cultura do diálogo. Nesta época de globalização, tornamo-nos vizinhos, mas longe estamos de ser irmãos. Corremos o sério risco de nos ligarmos a todo o mundo, mas sem nenhuma ligação que nos humanize e irmane, nos responsabilize pelos que vivem à nossa beira, quanto mais pelos que estão longe da vista e do coração. A pandemia fez-nos chegar mais longe, ver mais coisas e mais pessoas, mas parece que em definitivo nos separou da vida, dos cheiros e dos sabores, dos sofrimentos e necessidades dos outros!

À fraternidade desejada contrapõe-se a globalização da indiferença. Em tempo real, vemos as desgraças que se espalham pelo mundo fora, a miséria, os conflitos familiares, intergeracionais, a corrupção, a guerra, a ameaça, o terrorismo, a violência extrema. O nosso olhar, e sobretudo o nosso coração, habitua-se a estas situações, algumas macabras, mas que já não têm a força de nos chocar. É como quem vive perto da Igreja… por mais alto que o sino toque já não desperta. O cérebro acostuma-se aos odores, aos sons, às imagens! E adormece!

Contra a indiferença, apontando para Jesus Cristo, o Papa propõe a fraternidade. Em Cristo, reconhecemo-nos como irmãos, tendo um mesmo Pai que a todos ama como filhos. A referência constante há de ser Jesus que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. A Sua opção preferencial é pelos mais pobres da sociedade, os excluídos social, cultural e até religiosamente. A pandemia acrescentou pobreza à existente, em sociedades desenvolvidas, mas empobrecendo os países mais pobres. Pelo menos ficou em maior evidência a pobreza e a miséria para responder a esta catástrofe. Exemplo disso é o número reduzido de vacinação anticovid nos países terceiro-mundistas.

Como sublinhou o Papa Francisco, no 5.º Dia Mundial dos Pobres, “a humanidade progride, a humanidade desenvolve-se, mas os pobres estão sempre connosco, há sempre pobres e neles está presente Cristo”.

Não há tempos favoráveis, todo o tempo pode ser abençoado e oportunidade de empenho na transformação do mundo e das estruturas existentes para as colocar ao serviço de todos, mas especialmente dos que vivem nas periferias. Também a Igreja é chamada a esta conversão permanente. Um fazer-se que demora o tempo de uma vida, de cada vida, da vida de todos nós!

O adágio popular que intitula esta reflexão é uma interpelação constante na Igreja e à Igreja, mas de forma mais concreta nas diferentes fases do Sínodo dos Bispos, 2021-2023, que visa aprofundar a sinodalidade da Igreja, auscultando, discutindo, acolhendo propostas. A ideia não é apresentar um documento final irrepreensível, mas colocar os cristãos a refletir formas de participar mais ativamente na vida da Igreja, tornando-nos a todos mais corresponsáveis, em missão, partilhando das preocupações e dos anseios do Evangelho para este tempo. Como dizia uma santa senhora, na paróquia de Tabuaço, em Igreja importa mais que muitos façam pouco do que poucos façam muito ou façam tudo. É importante que todos se sintam responsáveis, chamados e enviados.

Este é mais um tempo favorável à discussão, enformada pela luz que vem do Pai, que nos traz Jesus, e que se expande no tempo por ação do Espírito Santo que sopra onde quer… e naqueles que Lhe permitem a inspiração! Tempo de diálogo e de escuta, não para diluir a verdade ou as convicções, mas para nos abrirmos aos outros. Três ações que se interligam, segundo o Papa Francisco: encontrar, porque o encontro muda a vida; escutar as perguntas, as preocupações, as esperanças de cada Igreja; discernir o que Deus quer dizer à Igreja e qual a direção para onde Ele nos quer conduzir.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/02, n.º 4633, 17 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: As maravilhas de uma vida plena

Por estes dias, assistimos a um extraordinário exercício de passa-culpas em relação ao chumbo do Orçamento de Estado (OE). Curiosamente, diga-se, que o debate foi pouco clarificador, centrando-se prolixamente a sopesar dividendos de uma anunciada crise política, justificando as opções partidárias e encontrando a culpa (nos outros) pelo chumbo do mesmo.

Deixamos o debate político-partidária para quem tem essa missão, obrigação e esse mandato, mas fica a sensação, em todo o processo, que não se pensou no interesse do país, mas no acautelar das mais valias partidárias em futuras eleições, fossem imediatas, que parece que todos os partidos queriam, e igualmente que ninguém admite ter querido, fosse no futuro, cumprindo o calendário normal.

Depois do chumbo do OE, continuaram as acusações, desculpas, justificações, passa-culpas e a campanha eleitoral regressou em pleno. Até, pasme-se, ouvimos sugestões de que os mesmos poderiam fazer outro orçamento (se no entender de quem o fez, este era o melhor orçamento, como fazer uma segunda versão? Um segundo orçamento seria pior que o primeiro ou se havia possibilidade de melhorar o atual, num hipotético novo orçamento, bastava aprovar o atual e melhorá-lo onde fosse possível!) e depois logo se veria se um orçamento travestido teria possibilidades de aprovação ou se seria novamente chumbado pelos mesmos que chumbaram este! Empurrava-se o problema? Mudava o orçamento (seria incompetência do governo) ou mudava o voto de algum partido (seria incoerência)? Adiante…

Na iminência da dissolução da Assembleia da República, regressou a pressa em discutir a “eutanásia”, ganhando, agora, prioridade sobre o OE e sobre o país. Imaginamos o exercício intelectual (que nos parece desonesto): fomos eleitos, temos o aval do povo para decidirmos o que quisermos, vamos fazê-lo rapidamente, antes que o Parlamento seja dissolvido e a seguir não nos elejam para fazer o que nos propusemos fazer! Independentemente dos argumentos político-partidários que possam usar-se para concretizar a lei, esta pressa contraria a democracia, pois limita o debate, apressa uma solução com medo de quê os mesmos que os elegeram [os atuais deputados] não voltem a escolhê-los novamente. Tivemos mais que tempo, contávamos continuar a ter, mas já que no-lo vão tirar, vamos gastar o que temos, a desbaratar, até para mostrar que afinal tínhamos ideias e projetos! Num contexto diferente, mas que ilustra estas situações, a parábola de Jesus sobre o administrador infiel, que, ao ser despedido e para se salvaguardar, encontra forma de compensar os devedores do seu patrão, para que eles lhe assegurem um futuro promissor (cf. Lc 16, 1-8).

Tão engraçado: em março o Presidente da República vetou o decreto de legalização da morte medicamente assistida. Ainda será possível gerar maiorias para esta iniciativa! Toca a despachar, pois a seguir, se a composição do parlamento se alterar, recorreriam a outro expediente, ao referendo, caso não conseguissem, então, fazer aprovar essas alterações, e não seria tão certo! Curioso! Poderiam ter aproveitado o tempo para promover medidas de combate à pobreza, à melhoria dos cuidados de saúde, preparando investimentos nos cuidados continuados e paliativos, no acesso dos mais desfavorecidos à cultura, à educação (nos dois confinamentos, as crianças, adolescentes e jovens do interior foram os mais penalizados, por falta de meios, ou acesso tardio aos mesmos, ou por falta de Internet fiável), a refletir e sobretudo implementar medidas de combate à exclusão social, ao abandono escolar, às desigualdades sociais, ao repovoamento do território, a melhorar serviços de resposta social, melhorando a vida dos mais idosos, criando, tanto quanto possível, mais oportunidades de sociabilização e inclusão, apostando a sério no apoio à natalidade e à infância… Como dizia Confúcio, “Porquê, preocupar-nos com a morte? A vida tem tantas coisas que temos de resolver primeiro…”.

Relembra, para nos fixarmos no debate, o médico Luís Paulino Pereira (in Vida Plena, da Paulus Editora): “não é justo, nem razoável, nem aceitável do ponto de vista moral, que para acabar com o sofrimento se acabe também com a vida de um ser humano”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/49, n.º 4631, 3 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Jonas foi lançado ao mar

Estaremos ainda no mesmo barco?

Há mais de um ano, em 27 de março de 2020, o Papa Francisco subia a praça do São Pedro, num momento extraordinário de oração, lançando diversos desafios. Estamos todos no mesmo barco, sob uma tempestade que a todos surpreendeu. A pandemia do novo coronavírus colocou a descoberto muitas fragilidades. “A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades… Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos”.

Desta pandemia sairemos melhores ou piores, mas não iguais. A esperança é que esta tempestade nos fizesse sentir verdadeiramente irmãos, para que todos se sentissem em casa, no mesmo barco, sob o mesmo céu e a caminhar sobre o mesmo chão. Havia quem profetizasse um tempo novo, em que tudo seria diferente, exultando a certeza de que ficaria tudo bem. Exultaram os ambientalistas (desencarnados da vida), pois o ambiente tornou-se mais respirável. Alguns (quase) sugeriram que o ser humano está a mais na terra!

Há muito tempo…

Deus chama Jonas e envia-o à grande cidade de Nínive, uma terra estrangeira, para dizer aos seus habitantes que estão à beira da destruição. Jonas hesita e segue, de barco, noutra direção, pouco interessado no destino dessa cidade. Abate-se uma grande tormenta e os tripulantes lançam sortes para saber de quem é a culpa, que recai em Jonas. Pegam nele e deitam-no ao mar. E a tempestade acalmou. Jonas acabará por cumprir a missão a que estava chamado por Deus e anuncia a necessidade de conversão.

Jonas tornou-se pesado. Não tanto do corpo, mas da consciência. Para ele, Nínive ser destruída ou salva seria igual. Não se lembra que o chão é o mesmo e estão debaixo do mesmo Céu. Também aqui a imagem do barco é sugestiva. Alguns pensarão que a desgraça dos outros não os atinge ou que sucesso alheio fere a sua paz. Na verdade, Jonas ficou irritado quando verifica que a cidade não foi destruída, pois os seus habitantes souberam mudar de vida!

“O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança” (Papa Francisco).

Se estamos no mesmo barco, cuidemos para que não se afunde. Passado mais de um ano, e quando as coisas parecem encaminhar-se para a bonança, nomeadamente com a vacinação, olhamos para o lado e vemos que alguns estão em belos camarotes, protegidos do sol e da chuva e com seguranças à porta; outros estão no convés a espreguiçar-se à espera de serem servidos; outros estão no porão a trabalhar no duro, alguns foram lançados borda fora, excluídos, por se recear que o barco tivesse peso a mais!

Ao tempo de Jesus, ouvimos por estes dias, com poucos recursos, cinco pães e dois peixes, é possível alimentar muitas pessoas. O milagre da multiplicação revela-se na partilha. No nosso tempo, a multiplicação é facilitada pela ciência e pela técnica, não faltam recursos, mas há muitas pessoas a morrer à fome, a mendigar uma côdea de pão, sem casa, sem acesso nem à educação nem à saúde. Não falta a multiplicação, nem o excesso, falta a solidariedade.

Quando uma pessoa passa privações, vendo a opulência dos vizinhos, mais tarde ou mais cedo vai sentir inveja, revolta, e vai perceber que talvez não esteja a usufruir daquilo a que tem direito pelo trabalho ou pelas riquezas do solo que habita. Um país (ou continente) por vacinar, vai promover a replicação dos contágios…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/37, n.º 4619, 28 de julho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Pobres sempre os tereis

As palavras de Jesus nada têm de resignação ou demissão, pelo contrário, revelando tristeza, são uma crítica e um desafio ao compromisso sério e concreto. Somos responsáveis uns pelos outros e sobretudo pelos mais pequeninos. A opção preferencial pelos mais pobres não é um verbo de encher, é um compromisso que radica nas palavras e na vida de Jesus. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis (cf. Mt 25, 40). Não se trata de transformar as pedras em pão, mas de fazer com que o pão de cada dia seja multiplicado e partilhado para que chegue a todos. E, se somos filhos do mesmo Pai, cabe-nos agir, sempre, como irmãos, procurando que a ninguém falte o necessário (cf. Atos 2, 45; 4, 34-35).

Esta aldeia global democratizou modas e estilos de vida, esbateu diferenças culturais, mas também incentivou grupos e povos a agir pela liberdade e pelos direitos humanos fundamentais. Globalizou-se o bem e o mal, numa mistura nem sempre benéfica para as populações mais vulneráveis. Como tem referido o Papa Francisco, os meios de comunicação social e as redes sociais, em vez de levarem à afirmação da identidade pessoal, social, religiosa, integrando as diferenças e a multiculturalidade, conduzem, muitas vezes, à segregação, na procura do que é idêntico, a integrar grupos (sectários) que pensam da mesma forma, a fechar-se e radicalizar-se ainda mais.

Pobres sempre os tereis… Não basta encher os lábios de propósitos ou simplesmente responsabilizar os outros por situações de carência e de miséria. Ao aproximar-se o final da Sua vida, Jesus encontra-se em casa de Marta, Maria e Lázaro. E como Maria tivesse ungido os Seus pés com uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, Judas Iscariotes, e por certo os outros discípulos, murmura contra tal desperdício (cf. Jo 12, 8). Jesus re-situa as opções e prioridades.

Há pessoas que subestimam a riqueza “material” da Igreja, alienável a favor dos pobres! Sem aprofundarmos essa temática, que tem várias vertentes, seria de perguntar se essas pessoas, que olham para esta riqueza material, cultural, arquitetónica, alguma vez se predispuseram a fazer a parte que lhes compete e se exigem o mesmo a governantes, a multimilionários, pessoas e empresas com capital incalculável!

Há bens que não se podem alienar, mas, por outro lado, esses bens, bem geridos, ajudam a criar e/ou manter estruturas de apoio aos mais pobres. O Papa Francisco afirma que os museus do Vaticano permitem receitas para ajudar os “mendigos” de Roma e responder a solicitações que chegam de todo o mundo.

Sei, por experiência própria, como pároco, que aqueles que colaboram com a Igreja e no “adorno” dos seus edifícios, são os primeiros a cooperar em campanhas solidárias, muitas vezes como aquela viúva do Evangelho que deu, não apenas do que lhe sobrava, mas do que lhe fazia falta para viver (cf. Mc 12, 41-44).

As responsabilidades podem ser diferentes, conforme as possibilidades, o poder económico-financeiro, a capacidade de influência sobre entidades, grupos, governos, multinacionais, mas ninguém pode excluir-se deste compromisso de atender às necessidades dos mais vulneráveis.

Não basta dizer aos outros que é preciso fazer alguma coisa, cabe a cada um, inserido em grupos e/ou comunidades, agir, comprometer-se.

Pobres sempre os tereis e se conseguirdes vê-los e ajudá-los… melhor! Dai-lhes vós mesmos de comer. Adorar a Deus e amá-l’O sobre todas as coisas implica-nos com todos os Seus filhos, com todos os nossos irmãos, não nos isola nem espiritualiza!

Em Portugal como na Europa, mais de 70 % da população adulta já está vacinada, pelo menos com uma dose, contra a COVID-19… em África, 3%… As migalhas dos países mais ricos ainda não saíram das suas mesas fartas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/36, n.º 4618, 21 de julho de 2021