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Archive for the ‘Nossa Senhora’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Maio, mês de Maria e da vida

Este é um dos meses mais luminosos e preenchidos!

Maio fala-nos de primavera, de vida, de alegria, de festa, fala-nos de amor, de paixão; fala-nos de Páscoa; fala-nos de Maria e de São José; fala-nos do verde que floresce e das flores que despontam. Tudo nos fala de vida e de Maria. A primavera começa antes e termina depois, mas é maio que melhor nos fala de ressurgimento da vida e da multicolaridade da natureza.

Não podemos falar de maio sem falar do mês de Maria. É-lhe dedicado por inteiro. Mas logo de início, temos a memória litúrgica de São José Operário, no dia 1, e o Dia da Mãe, no primeiro Domingo, acontecimentos estritamente ligados a Maria.

São José é o guardião de Maria e de Jesus, e da Igreja. Com Maria, São José cuida de Jesus, dá-lhe um teto, um espaço para crescer, para aprender a vida, para se sentir aconchegado, amado, protegido.

Comemorar um Dia das Mães quando elas são mães todos os dias do ano, a todo o instante, suscita uma atenção redobrada ao que significa ser mãe. Desde que uma mulher sente o ventre a bulir, ou pressente a gravidez que se está a manifestar, não mais deixa de ser mãe. Até durante o sono! É um trabalho constante, sem pausas, e com muitos sobressaltos à mistura. Claro que a alegria de gerar um filho, e quando é desejado, por maioria de razão, ajuda a enfrentar o mundo, as adversidades, a passar vergonhas, a sujeitar-se a pedir pelos filhos ou a mendigar o carinho deles.

Maria é a cheia de graça. Deus achou-lhe graça e encheu-a da Sua graça, gerando Jesus. Mas cada mãe, a seu jeito, se enche de graça. Claro que há mães que geram no ventre, mas não geram no coração! Se gerarem também no coração, este dilatar-se-á e até as mais egoístas passam a descentrar-se de si para se darem totalmente ao fruto do seu ventre. Maria é exemplo do cuidado permanente, da atenção ao filho, presente nos momentos mais importantes na vida de Jesus, mas com o desprendimento suficiente para saber que o filho que nasceu das Suas entranhas não Lhe pertence, como em absoluto os filhos não pertencem aos pais, pelo menos na ordem da posse, eles têm vida própria e as mães sofrem quando percebem que têm de deixar os filhos trilhar os seus próprios caminhos. E, então, mesmo que os vejam sofrer ou ir pelo caminho errado, terão que renunciar ao comando materno.

Na terceira semana do mês, temos a Semana da Vida. É também o mês do coração. A vida e o amor. O amor que gera vida, que cuida, que se dá. O coração, talvez mais poeticamente, continua a ser o centro dos sentimentos, do amor, o epicentro da vida. Cuidar do coração é cuidar da vida. A melhor forma de cuidar da vida é amar, pois só o amor nos humaniza, nos irmana, só o amor dá calor, cor, beleza e sentido à vida. Quem ama despoja-se de si mesmo para se dar, para servir, para ser prestável. A pressa de Nossa Senhora, por ocasião da Visitação, é bem a expressão do amor em movimento, em correria, ao encontro de quem precisa.

Maria teve que passar por alguns encómios: uma gravidez misteriosa, a explicar; a fuga para o Egipto; a perda do Menino em Jerusalém; as insinuações sobre a sanidade de Jesus, o processo que Lhe levam o filho desta vida, mas em todas as situações prevaleceu o amor que tudo suporta, a fé que tudo alcança, uma imensa confiança em Deus, que garante vida, eternamente…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/25, n.º 4607, 4 de maio de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Como Maria, com o olhar fixo em Jesus

A alegria do Evangelho, a Boa Notícia, proclamada no primeiro dia da Semana, o Domingo de Páscoa, é que Cristo, Filho de Deus vivo, está no meio de nós. As trevas foram vencidas pela luz. O medo deu lugar à confiança. Da morte ressurgiu a vida. O Crucificado ressuscitou. O amor venceu o pecado e a desolação.

Estamos em plena Semana Santa. A liturgia destes dias faz-nos peregrinos do Calvário e da Cruz, do amor e da entrega de Jesus, da vida nova que vai surgir.

Antes da Páscoa, a sexta-feira santa. A sexta-feira só se percebe com a Luz que irradia do túmulo de Jesus. A Ressurreição surge depois da Cruz e faz-nos perceber que chegamos à vida quando a gastamos a favor dos outros.

Olhando para os discípulos, para Judas e para Pedro, para as mulheres, para Simão de Cirene, para Pilatos e autoridades judaicas, para uma multidão instigada pelos líderes religiosos, como é que nos vemos diante de Jesus? Se tivéssemos estado lá, naquela ocasião, poderíamos ser qualquer um. Fortalecidos pelo testemunho de muitos, pelo encontro com o Ressuscitado, pelo acolhimento de Jesus, vivo, nas comunidades que se fazem Igreja, Corpo de Cristo, por certo estamos mais preparados para Lhe responder.

Ao longo da história da Igreja, muitos foram testados na sua fé. A esta distância, seria fácil julgar aqueles que não tiveram a força suficiente para resistir às ameaças, à perseguição, à exclusão, à tortura. Perante tamanha violência, teremos que reconhecer que não sabemos se resistiríamos ou não. Mas muitos foram capazes de seguir Jesus até à Cruz, até à morte. Na atualidade, continua a haver muitos mártires, pessoas excluídas do emprego, da habitação, expulsas do seu país, a serem torturadas e mortas, mas ainda assim, a persistirem na fé cristã.

Jesus, no Horto das Oliveiras ou no Calvário, diante da violência que se aproxima e a que Se sujeita, confia no Pai. Faça-se o que Tu queres.

Com Maria aprendemos a responder ao projeto de Deus, acolhendo a Sua vida, deixando que Ele nos preencha com a Sua Graça. Mais visível ou mais discretamente, Maria está por perto de Jesus, gerando-O e dando-O ao mundo, nos primeiros passos, ensinando-O a falar e a andar, e a rezar, e, juntamente com São José, mostrando como é importante viver em família, respeitar as pessoas idosas, ajudar os vizinhos, participar dos momentos de festa e dos momentos de dor. Em Jerusalém, Maria e José colocam o Menino sob a proteção de Deus. Mais tarde, Maria participa na alegria das Bodas de Caná e intervém junto de Jesus. Durante a Sua vida pública, os evangelhos mostram-na preocupada com o que d’Ele se diz. Em tantas situações, percebe-se que Maria está com os discípulos e com outras mulheres. Também no caminho agreste, duro, pesado do Calvário, junto à cruz, de olhar firme e coração apertado, Ela permanece diante de Jesus, Filho de Deus, e Seu Filho muito amado. É Mãe que chora, por todas as mães que perdem os seus filhos, e, como discípula, acolhe a vontade de Deus. E qual a vontade de Deus? Que sejamos felizes, sabendo que a felicidade passa pelo amor, pela entrega confiante, pelo serviço aos irmãos, ainda que exija esforço, dedicação e sacrifícios. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer.

Fixemos o nosso olhar no de Jesus, permitindo que Ele nos guie da Cruz à eternidade, da morte à ressurreição, da sexta-feira da Paixão ao Domingo de Páscoa, das trevas à luz, da tristeza à alegria do reencontro, do desencanto à paz que Ele nos dá.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/20, n.º 4602, 30 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Maria adentra-nos no Advento

Quando esta edição ficar disponível para leitura, já teremos vivido um dos momentos mais emblemáticos da liturgia católica, a Solenidade da Imaculada Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal. Celebramo-la em pleno Advento. Preparamo-nos, liturgicamente, para a festa mais popular em todo o mundo, e não apenas em ambientes cristãos, o Natal de Jesus. A figura da Virgem Maria é incontornável, como o é também São José, ainda que ao longo dos anos tenha sido relegado para um papel muitíssimo secundário.

Desde os primeiros instantes, a Virgem Maria, Mãe de Jesus, tornou-se uma figura importantíssima para a Igreja e para os cristãos. Os discípulos perceberam, cedo, que Maria estivera sempre próxima de Jesus, desde a gestação até à morte, mas também uma presença autorizada nas primeiras “reuniões” dos discípulos após a morte de Jesus.

No alto da Cruz, Jesus revela que a Sua Mãe é também Mãe do discípulo amado, de todo o discípulo que O seguir por amor. Eis a tua Mãe, eis o teu filho. E dessa hora em diante, o discípulo recebeu-a em sua casa. Não é um discípulo, é cada discípulo amado, cada discípulo que se debruça sobre o peito de Jesus. Eu e tu. O discípulo amado não tem nome. Melhor, tem o nome de cada um de nós que segue Jesus, imitando-O, procurando, no dizer de São Paulo, que Ele viva em nós. A comunidade primitiva cumpre essa missão de acolher Maria como Mãe, em cada casa, em cada assembleia (= Igreja).

Ao longo da vida pública de Jesus, Maria é uma presença discreta, não se intromete, não ofusca a vida do Seu filho, confia, mas não se alheia d’Ele e por isso a vemos em situações mais críticas ou mais decisivas, nas Bodas de Canaã, intervindo, fazendo chegar a Jesus os pedidos das famílias dos noivos, apontando depois, para os servos, e para nós: fazei tudo o que Ele vos disser; quando se levantam vozes sobre a possível loucura de Jesus, Maria apresenta-se com outros familiares, para se assegurar que Ele está bem e, se necessário, acolhê-l’O de regresso a casa; junto à Cruz, ferida, mas firme, para dar forças ao Seu querido Filho. É fácil imaginar muitos outros momentos em que Nossa Senhora agiu com docilidade, sem chamar a atenção, em momentos de festa e de luto, no meio da multidão ou em casa, atarefada para acomodar Jesus e os Seus discípulos. E, como Mãe, sempre atenta e à espera de notícias sobre Jesus.

Maria adentra-nos no Advento, prepara-nos para o encontro com Jesus, inunda o nosso coração de festa, como de festa inundou o seio de Isabel e o coração de João Batista. Este, ainda dentro do ventre materno, salta de alegria pelo encontro, pela proximidade com o Salvador do mundo. Maria corre veloz pelas montanhas, como mensageira da paz, levando Jesus e as maravilhas que Deus opera nela e na humanidade. Quem está preenchido de festa, só pode extravasar de alegria. Cada um chora à sua maneira, mas a alegria tende a contagiar.  O sofrimento irmana-nos, pelo silêncio e pelo abraço, pelas lágrimas ou falta delas. A alegria, genuína, é sonora, expõe-nos diante do outro.

Perante o Anjo, Maria ensina-nos a rezar um sim que é chamamento eterno: faça-se segundo a tua Palavra. É esta a senha, a chave que nos faz ver Jesus, conhecer o Deus-connosco, e a dispormos o nosso coração para ser a manjedoura onde Jesus vai nascer, onde repousa a Luz do seu amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/05, n.º 4587,8 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: A minha alma engrandece o Senhor

– Ainda o apanhamos!

É a esperança de Carlos e de João da Ega quando avistam o “americano”. Apressam o passo – ainda o apanhamos – e, logo depois, lançam-se a correr a ver se ainda o apanham. É o final da emblemática obra d’ Os Maias, de Eça de Queirós. Esta esperança, de apanhar o “elétrico”, é sobretudo analogia em relação à vida. A vida torce-nos, tantas vezes, mas há sempre uma réstia de esperança e enquanto houver essa réstia, esse lampejo de luz, então é possível caminhar, apressar o passo, lutar um pouco mais. Como sói dizer-se, morremos, não quando o coração para e o cérebro se desliga, mas no momento em que perdemos toda a esperança.

A partir de sábado, 30 de maio, as celebrações comunitárias regressam em Portugal continental, ainda dentro do mês dedicado especialmente a Nossa Senhora, Mãe da Eucaristia, Mãe de Jesus. Com cuidados, com medos, precauções e afastamentos, mas, para muitos portugueses, é um momento de júbilo, tempo de recuperar parte da alegria, momentos que cadenciavam a vida. Por estes dias, tenho encontrado algumas pessoas que me vão dizendo isso mesmo: faz-nos falta a Missa, era um momento de sairmos de casa, de nos encontrarmos, de rezarmos em conjunto, o tempo até custa mais a passar, não sei o que parece…

Regressamos na Solenidade do Pentecostes, aniversário da Igreja, pois é a partir de então que os Apóstolos, destemidamente, anunciam o Evangelho e começam a cumprir o mandato de Cristo: ir e ensinar, batizar e fazer discípulos de todas as nações.

Maria é a Mãe da primeira Igreja que é Jesus. No Pentecostes surge a Igreja, mas sempre enxertada em Jesus, pois é o Seu Corpo, agora constituída de vários membros. Maria, como Mãe de Jesus, a primeira Igreja, é Mãe da Igreja que incorporam todos os discípulos do Seu filho Jesus. No início deste caminho está o seu “sim”: faça-se em mim segundo a Tua Palavra.

No alto da cruz, o próprio Jesus no-la dá por Mãe: eis aí o teu filho, eis aí a tua mãe. E como discípulos prediletos trazemos Maria para nossa casa, para a nossa vida ou, como se depreende, se ela não habita connosco é porque não somos filhos diletos do Deus altíssimo, irmãos de Jesus.

Se ela habita connosco, como com os primeiros, na comunidade primitiva, então teremos de verificar se a nossa vida e a nossa missão estão conformidade com a vida e a missão de Maria, para que ela se sinta realmente em casa.

Na Visitação, Maria ensina-nos a colocar a misericórdia de Deus ao centro. “A minha alma engrandece (glorifica) o Senhor”. Esta é a humildade de quem se deixa preencher pelo Espírito Santo e transparece a grandeza de Deus, o Seu poder e o Seu amor. Nas Bodas de Canaã, novamente a opção de Maria: “fazei o que Ele vos disser”. Maria vive descentrada de si, é a Igreja em saída, que não se vangloria por ser a Mãe, mas se regozija por ser discípula, por ser a serva do Senhor. Pergunte-se às mães de que forma são “servas” dos seus filhos! São-no por amor e opção, por vocação e missão. Por amor, somente por amor. Maria assume-se, também em relação a nós, como Mãe e como serva, intercedendo por nós: eles não têm vinho. Nossa Senhora da Alegria, rogai por nós.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/26, n.º 4561, 26 de maio de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Bendito é o fruto do teu ventre, Jesus

“A fragilidade humaniza a vida”, tematiza a vivência de mais uma Semana da Vida, proposta pela Igreja que caminha em Portugal, num contexto sui generis, de grande preocupação em defender, proteger e cuidar da vida, bem acentuada pela pandemia do novo coronavírus. Quem diria que aqueles que há poucos dias estavam apressados a legislar sobre direitos à morte estejam hoje a suspender direitos e liberdades a quem possa colocar em causa a saúde e a vida dos outros!

Para o cristão – seja onde for, na família, no desperto, na cultura, na política – é sempre oportuno a defesa e a promoção da vida, desde a sua conceção até à morte natural, não desistindo de encontrar respostas, ajudas, de comunicar esperança, de ser um apoio, privilegiando afetos e proximidade, aliviando a dor, procurando um sentido, mesmo que provisório, para continuar a viver bem. A morte boa não é uma opção de quem ama a vida, a opção é uma vida boa. Sem ser um valor absoluto, a vida é o primeiro dos direitos, é um valor fundante das liberdades, dos direitos e as garantias. Mais fácil é desistir. Cristão é confiar em Deus, entregar a Deus o esforço e a dedicação, e com Deus aliviar a carga que possa pesar sobre os demais.

A vida nem sempre é fácil. E há momentos em que as trevas são mais densas, como no tempo que atravessamos, mas nem por isso as pessoas ponderam desistir e, quando isso acontece nos outros, reclamam por vigilância, cuidado, respeito, responsabilidade pelos mais velhos, pelos que estão na linha da frente, na saúde, na alimentação, na manutenção da ordem, nas farmácias… respeito pelas normas! A liberdade, seja a 25 de abril ou a 25 de novembro, seja a 1 de maio ou a 10 de junho, não vai avante sem a discussão da responsabilidade e do compromisso de cuidarmos uns dos outros, mesmo que tentemos e consigamos arranjar exceções para nós!

Dentro da Semana da Vida, nos dias 12 e 13 de maio, haverá uma multidão de fiéis com os olhos colocados no Santuário de Fátima, que encherá de oração, de bênção e das intenções dos devotos, mas cuja presença física de milhares de pessoas, em nome da saúde de todos, no respeito pelas normas sanitárias e pelos avisos reiterados ao distanciamento social, contará com um número muito reduzido de pessoas, os celebrantes, funcionários do Santuário, os que ajudam na celebração e na transmissão da mesma para o mundo inteiro. A fé exige o serviço à vida, o cuidado pelos outros.

A vida nova que se gera em Isabel e que germina em Maria está envolvida no mistério de Deus. Isabel já tinha vivido tempo demais na desolação da infertilidade, mas Deus surpreende-a. Maria não sonhava com o que estava para vir, a alegria e o sofrimento atroz que a aguardariam, e Deus surpreende-a com um sonho, um projeto de vida que a envolve com a humanidade inteira.

Maria é a Senhora da esperança e da alegria, com ela Deus faz com que a humanidade seja enxertada no Seu sonho de amor e de paz, de bênção e de comunhão.

«Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre» (Lc 2, 42). Esta é a maior esperança e o fundamento de toda a alegria: Deus connosco. E luz para caminharmos neste tempo.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/24, n.º 4559, 12 de maio de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Por Maria a Jesus

Esta expressão – Per Mariam ad Iesum – sublinha como Maria nos aproxima de Jesus e nos conduz a Ele. Neste mês que lhe é particularmente dedicado, quase iniciando com o Dia das Mães, no primeiro Domingo de maio, Maria surge como Mãe que intercede por nós, nos impele para Jesus, nos comunica, através dos silêncios e das palavras, da presença e dos gestos, o Evangelho da ternura.

Numa família, a mãe tem essa missão especial de humanizar a casa e a família, de aproximar entre si os pais e os filhos e os irmãos. A maternidade, creio que é verificável em quase todas, predispõe as mulheres para uma atenção alargada aos outros, humanizando os relacionamentos. Uma vez mãe (é-o também em relação a outros filhos e na sintonia com outras mães), tem o olhar mais aguçado para as necessidades e a injustiças e uma prontidão maior para “reclamar” por justiça e verdade. Há nas mães uma capacidade imensa de reparar nos pormenores, observar tudo o que as rodeia, de forma peculiar as pessoas. Se de uma mulher se pode dizer isso, muito mais de uma mãe, pois aprendeu (desde sempre) a estar atenta aos filhos para ver por onde andam, para onde vão, que obstáculos têm por perto e se alguém é ameaça para eles ou, simplesmente, lançarem um olhar fulminante se alguém não os trata com delicadeza que merecem.

Temos muito a aprender com as mães, temos muito a aprender com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.

Não são muitos os textos do Novo Testamento que nos falam diretamente de Nossa Senhora, mas é possível sentirmo-nos próximos em cada instante em que nos é permitido vê-la e ouvi-la.

Logo na Anunciação podemos aprender algumas coisas com Nossa Senhora para melhorarmos, amadurecermos e, eventualmente corrigirmos a nossa direção como cristãos, priorizando com o que nos pode levar a encontrar Deus e, partindo da Sua graça, preenchermos a nossa vida de docilidade. Para escutar e perceber a voz do Anjo, Maria terá de ser alguém que faz silêncio. Não é, por certo, uma barata-tonta (os mais sensíveis desculpem-se a expressão), mas alguém capaz de se recolher, de rezar, de deixar que Deus fale nela e na sua vida. É uma mulher de oração e de coração. Alguém que escuta. Temos uma boca e dois ouvidos, para ouvirmos mais e falarmos menos. Quem muito fala até pode acertar muito, mas é possível, como sói dizer-se, que acerte pouco. Quem escuta, com o coração, torna-se sábio, não se precipita, não tem tendência para fazer juízos de valor precipitados, mas age pacientemente para que o trigo e o joio se revelem a seu tempo. Maria é uma pessoa inteligente: escuta, pondera, espera e coloca os dons que Deus lhe dá a funcionar. Não paralisa, decide, acolhe, aceita a vontade de Deus: faça-se em mim segundo a Tua palavra.

Ainda na Anunciação, podemos descortinar a docilidade, a pobreza, a pureza de Maria: Ave, cheia de Graça, o Senhor está contigo… Isto vale também para nós, na medida em que nos esvaziamos de nós, dos nossos egoísmos e demónios, e nos deixamos preencher pelo Espírito de Deus. Mais tarde Jesus há de dizer-nos: minha Mãe, minhas irmãs e meus irmãos são aqueles que escutam e fazem a vontade de Meu Pai que está nos Céus.

Pe. Manuel Gonçalves,

in Voz de Lamego, ano 90/23, n.º 4558, 5 de maio de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Deixai que o Menino chore

Como o Menino Jesus estava a chorar, São José terá dito a Nossa Senhora que era melhor dar-lhe uns açoites no rabo para que se calasse. A resposta de Maria é que deixem que o Menino chore porque Ele irá ter a sua conta de açoites, preanunciando as punhadas e as chicotadas que haveria levar em adulto, principalmente na aproximação ao Calvário. Une-se, nesta música antiga, originária dos monges de Coimbra, o Natal, a infância de Jesus, e a Paixão, os momentos de agressão para com Jesus. É este o contexto de uma música trabalhada e interpretada pelo “Bando Surunyo”, no concerto de Natal, na Igreja Matriz de Tabuaço.

Por ocasião do seu aniversário natalício, o Papa Francisco referiu-se a um presépio diferente: “Deixemos a mãe descansar”. Na representação, que rapidamente se tornou viral, Maria dorme enquanto José segura o Menino Jesus. Desta forma, o Santo Padre falava numa realidade concreta da família de Nazaré, mas também de muitas famílias, onde a ternura, a atenção e o cuidado predominam, onde o marido e a mulher se entreajudam nas lides domésticas. O nascimento de um filho, e os primeiros dias, e meses, altera por completo a vida em casa, multiplicando tarefas, acentuando o cansaço.

Deixar que o menino chore… nem sempre é fácil dizer não ao menino, contrariá-lo, deixar que chore, que faça birra, que caia e se suje, que brinque e tenha momentos em que não faz nada. Há, atualmente, uma necessidade imensa de preencher por completo a vida das crianças, não lhes dando tempo para pensar, para a espera paciente e também para momentos de rotina. Quer, dá-se-lhe; faz birra, cede-se-lhe; tem alguns momentos sem nada para fazer, passa-se-lhe o telemóvel para se ocupar. A agenda das crianças é tão preenchida que, por vezes, nem têm tempo para brincar: é preciso estudar, ir à natação, à música, ao Ballet, à dança, ao futebol. Uma correria constante. Há crianças começam a começar o stress!

No contexto que nos diz respeito mais diretamente, a catequese e a participação na Eucaristia, as crianças e adolescentes vão, e com gosto, se não houver um torneiro, uma competição, ou se as explicações forem noutro horário. Não estou a sugerir que a educação seja fácil. Os pais têm uma missão complexa e não é fácil encontrar equilíbrios. Não se pode deixar que as crianças decidam por elas o que fazer, mas também não se podem adultizar antes do tempo. A competividade pode ajudar no desenvolvimento, mas levada ao extremo gera conflito, comportamentos agressivos ou depressivos. Tem de se valorizar a tolerância, a diferença, a bondade. Tem de haver tempo para os jogos e as brincadeiras, para os intervalos, para a descontração.

Na passagem para um novo ano, vale a pena atender às palavras do Papa, para a ternura do Presépio e para a certeza que a vida (também nos propósitos) passa por pequenos gestos, concretos e reais. “Quem não é fiel no pouco, como se lhe pode confiar o muito?”

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/05, n.º 4540, 31 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Faz germinar em mim o Teu amor

Vivemos Advento, tempo de preparação para a celebração festiva do nascimento de Jesus. Tempo de graça e de salvação, em que o acontecer de Deus se traduz e concretiza no acontecer humano, pelo menos é isso que se deseja.

Neste caminho que percorremos – interiormente, mas sinalizado no ambiente que nos rodeia, luzes, arranjos natalícios e publicidade, e exteriormente, assim nos propomos, na prática do bem – somos envolvidos pela iniciativa de Deus, pela Sua graça infinita. Ele quer vir até nós, quer nascer em nós, quer frutificar em nós, ganhar raízes, habitar em nós, ficar connosco. Mas porque nos criou livres, não depende somente d’Ele, cabe-nos a nós acolher e responder ao Seu chamamento. Ele não pode entrar em nossa casa, mesmo que Se faça convidado, se não Lhe abrirmos a porta, se não O deixarmos entrar. Ele leva-nos a sério e respeita-nos, respeitando a nossa liberdade e as escolhas que fazemos.

Nesta iniciativa divina, Maria é escolhida desde sempre e desde sempre preparada para ser a Mãe do Filho do Deus Altíssimo. É este o mistério da sua Imaculada Conceição. Toda bela, toda pura, concebida sem sinal de pecado, para que n’Ela floresça o fruto do Espírito Santo. Por um lado, Deus que desce, diminuindo-Se para caber na humanidade, por outro lado, o melhor do ser humano na sua identidade original, imagem e semelhança de Deus. É neste encontro que Deus Se faz homem e que o homem poder ser divinizado em Jesus.

O privilégio de Maria é realizável também em nós, não na mesma dinâmica total, biológica e espiritual, mas na medida em que acolhamos a vontade de Deus como Ela o faz.

A iniciativa divina tem correspondência na resposta humana, na resposta de Maria. O Anjo vem da parte de Deus e surpreende Maria: “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo… encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e chamá-l’O-ás com o nome de Jesus… O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá. Por isso, o que é concebido santo será chamado filho de Deus”. A resposta de Maria não tarda, ainda que pause na surpresa do anúncio e no admirável mistério que está a acontecer: “faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 26-38)

Deus faz acontecer em nós, mas é preciso que O escutemos, que O acolhamos, que O procuremos, que O deixemos nascer em nós. Jesus nasce porque Maria diz “sim”. E, logo depois, ela dir-nos-á a condição para que o milagre aconteça em nós, para que a vida se realize na abundância: “O que Ele vos disser, fazei-o” (Jo 2, 5). Então, como o próprio Jesus o diz, se deixarmos que germine em nós o amor de Deus, na prática do bem, seremos verdadeiramente Seus discípulos, seremos verdadeiramente da Sua família (cf. Lc 8, 21).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/02, n.º 4537, 3 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Maria em caminho e em comunhão

Este sábado vai ser apresentado o Plano Pastoral da Diocese de Lamego para 2019/2020, com o logotipo que o ilustra, com a Carta Pastoral do nosso Bispo que o fundamenta e lhe dá conteúdo, com iniciativas, propostas e desafios que nos envolvem a todos. Um plano pastoral é aberto, orientador, traça caminhos, dá pistas, mas não resolve, não converte, não transforma se não houver vontade, se não se fizer caminho, se não se derem passos, não se abrirem os braços, se não houver coração, se não dermos as mãos!

O primeiro passo é a oração. Colocamo-nos diante de Deus, para O descobrimos como Pai, deixando que nos habite com a Sua graça e nos faça verdadeiramente irmãos. A oração predispõe-nos para a escuta da vontade de Deus, manifestável no diálogo sincero com os outros com os quais nos dispomos a caminhar.

Caminhar juntos. Não basta caminhar. Se cada um caminhar por si, sem se preocupar com os outros, com a direção que levam, com as dificuldades que carregam, com as quedas que os atrasam… e eles fizerem o mesmo connosco… podemos andar muito sem chegar a lado nenhum! Daí que ao caminho juntemos a comunhão. Uma pessoa sozinha nem para comer serve! Como dizia na passada quarta-feira o Papa, a vivacidade da Igreja nascente, com Pedro e os Apóstolos, tem a ver com o facto de terem deixado de se sentir sozinhos. Já não estão sós. Passaram a ser eles (o “nós” em andamento) e Espírito Santo, e assim testemunham com a alegria e destemor Jesus Cristo como Boa Nova para todos.

Caminhamos com os outros e em direção aos outros para lhes levarmos Cristo e a Sua mensagem de amor e de perdão, com o fito de reunir pessoas e fazer discípulos de todos os povos e nações. Fazemo-nos ao caminho para entrarmos em comunhão com os outros e com eles constituirmos o Povo de Deus.

Pelo caminho vamos encontrando fontes, estímulos, poços e poisos! A oração, a escuta e a reflexão da Palavra de Deus! O testemunho, a presença e a intercessão dos santos, dos que vivem na glória de Deus e dos santos ao pé da porta! Exultamos de alegria, porque Deus continua a mostrar o Seu rosto no rosto de muitas pessoas! E deveríamos perceber que o outro é rosto, no dizer de Levinas, que se impõe como presença, sinal e expressão do Totalmente Outro e sobre o qual não tenho domínio a não ser para acolher, amar e servir.

Um dos rostos que nunca pode faltar é o de Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Ela dá-nos o Caminho, dá-nos Jesus e, depois de nos dar Jesus, caminha connosco, exemplifica a missão e aponta a precedência: Fazei tudo o que Ele vos disser!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/40, n.º 4527, 24 de setembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Maria, modelo da Igreja em saída

“A Igreja negligencia algo que lhe é mandado se não louva Maria. Quando o louvor de Maria nela emudece, a Igreja afasta-se da palavra bíblica. Quando isso acontece também não louva a Deus de forma suficiente…. Maria foi uma dessas pessoas que se inserem de forma muito especial no nome de Deus, tanto que não O louvamos suficientemente quando A pomos de parte” (Cardeal Ratzinger / Bento XVI).

Em cada ano pastoral, Maria terá que ser, sempre, uma figura visivelmente presente. Ela ensina-nos a dizer sim, mesmo quando os nossos passos são vacilantes ou incertos. Ela dá-nos Jesus. Gera-O no seu sim e no seu ventre. Ela mostra-nos Jesus. Ela guia-nos para Jesus. Ela manda-nos obedecer a Jesus: Fazei tudo o que Ele vos disser. Com São José, ensina-nos a procurar Jesus, caso nos desencontremos d’Ele. Nos momentos de maior tensão, quando Jesus é acossado de variadas maneiras, Maria ensina-nos a persistência do caminho. Não se afasta. Vai para o meio da multidão. Segue Jesus de perto, mesmo que sujeita a injúrias ou ao destino do Filho. Prevalece a maternidade, a ligação umbilical, o amor, o sim a Deus. Hão de ter havido momentos em que Maria não podia mais: os maus tratos infligidos a Jesus, as agressões, o chorrilho de calúnias, o Seu corpo dilacerado pelas chicotadas, pelo peso da cruz e, para concluir, a crucifixão, em carne viva, quase irreconhecível… Maria, como Mãe, não vacilou, manteve-Se perto, como tantas Mães para as quais não há limites para protegerem os filhos ou respeitarem (em silêncio) as suas opções… E o reconhecimento vem também do alto da Cruz: eis o teu filho, eis a tua Mãe… e a partir dessa hora, o discípulo predileto recebeu-A em sua casa. Se queremos ser hoje os discípulos prediletos, já sabemos quem temos de levar/trazer para casa, e para a Igreja.

A Diocese de Lamego dá tom ao ano pastoral que se avizinha com o lema: Igreja em caminho e em comunhão. A dinâmica, de sempre, sublinhada nos últimos anos na diocese, e com insistência no magistério do Papa Francisco, faz-nos tomar consciência de somos Igreja em saída, que caminha ao encontro dos outros, sobretudo dos que estão nas margens sociais, religiosas, culturais, políticas e económicas, para com eles construirmos fraternidade, comunhão dos irmãos que reconhecem o mesmo Pai, assumindo-se como irmãos em Jesus Cristo. Maria é paradigma e modelo desta Igreja em saída para fomentar a comunhão: sai da sua vida calma para ser Mãe de Deus; apressa-se em ir em auxílio de Isabel, levando a alegria da salvação; nas Bodas de Canaã, sai da descrição de convidada para interceder pelos noivos; na Cruz, passa da sua casa para a casa de cada um de nós; depois da morte de Jesus, mantém a comunhão da comunidade, em oração e em espera.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/38, n.º 4525, 10 de setembro de 2019