Arquivo

Archive for the ‘Liturgia’ Category

Editorial da Voz de Lamego: O encontro com o Senhor do Tempo

O tempo é uma espécie de espiral que se enlaça entre lutos e vidas novas, entre fins de ciclos que nos conduzem para novas situações e novos projetos. Com efeito, como seres humanos somos constituídos no tempo e inseridos no espaço, somos presente, enraizados no passado e impelidos para o futuro. As memórias solidificam o que somos e as capacidades que temos, permitem-nos caminhar entre as coisas boas que já fizemos, as menos boas que queremos e podemos evitar, para que na atualidade não sejamos fantasmas do que fomos. Por outro lado, como o amanhã pertence a Deus, olhamos para o futuro com esperança, pois Aquele que está no início também vai estar à nossa espera no final do caminho; Quem nos gerou para vida também garantirá que a nossa vida não se perde.

No final do ano litúrgico, particularmente nas parábolas de Jesus, que o Evangelho nos serve aos Domingos, somos colocados diante do Senhor do Tempo, como Juiz benevolente e Pai misericordioso.

No entretanto, sem Se ausentar, alheado e distante, Deus confia-nos o mundo, dá-nos o tempo, gratuitamente, os dons e os talentos, para que cuidemos uns dos outros e para administrarmos os bens da criação. A perspetiva não é o açambarcamento, mas a partilha que multiplica o que se dá! Como sublinha D. António Couto, o pecado dos primeiros pais não foi o comerem do fruto da árvore, mas o facto de o recolherem e o reterem só para si mesmos, sem deixar nada para outros. O que Deus dá não é para esconder, para guardar, mas para dividir. O que guardamos perde-se, o que damos multiplica-se.

No final da caminhada, Ele estará, como sempre, à nossa espera. Ajustamos contas, não com um estranho, mas com Alguém que nos conhece e que conhecemos. Precede-nos na vida e espera por nós para nos acolher na Sua habitação eterna.

O Reino de Deus é comparável a 10 virgens que esperam para receber e acompanhar o noivo ao banquete nupcial. Esperamos, não de braços cruzados, mas ativamente, vigilantes. Quem vai para mar prepara-se em terra. Parte do grupo prepara-se e leva azeite nas candeias e de reserva nas almotolias. As outras apostam na sorte: ou que o noivo venha cedo ou alguém possa ajudá-las caso fiquem sem azeite. Na verdade, somos responsáveis uns pelos outros. Mas há a responsabilidade pessoal, os outros não nos substituem, não vivem por nós. Deus não vive na nossa vez.

O reino de Deus é comparável àquele homem que partiu de viagem e confiou cinco talentos a um servo, dois a outro e um a outro. Os primeiros duplicaram o valor. O último, com medo, escondeu o talento, não produzindo. Não arriscou nada. O cristão é alguém que tem que arriscar. [Cf. Homilia do Papa Francisco no Dia Mundial dos Pobres, na página sete desta edição] O que nos é dado não é para devolver a Deus como Ele no-lo confiou, mas para o multiplicarmos, no cuidado por toda a criação, especialmente pela humanidade, e sobretudo na atenção privilegiada aos mais pobres, ao jeito de Jesus, traduzível na práticas das obras de misericórdia. No final seremos julgados pelo que fizemos aos mais pobres. É Jesus quem no-lo diz: o que fizeste aos mais pequeninos foi a Mim que o fizeste. A vida eterna começa em terra. O amanhã decide-se hoje, o final inicia-se na história e no tempo para que diante do Senhor do Tempo a nossa vida lhe seja entregue preenchida de amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/02, n.º 4584, 17 de novembro de 2020

Celebração da Vigília Pascal – Sé de Lamego – 11 de abril de 2020

No sábado santo, 11 de abril, o Senhor Bispo, D. António, presidiu, na Sé de Lamego, à Vigília Pascal deste ano de 2020 em que nos encontramos confinados a nossas casas em virtude da pandemia do COVID 19. A Eucaristia foi transmitida, via Facebook na página da Diocese em colaboração estreita com a Rádio Clube de Lamego.

Celebração da Paixão do Senhor – Sé de Lamego – 10 de abril de 2020

Na sexta-feira santa, teve lugar, na Sé de Lamego, a celebração da Paixão do Senhor, presidida pelo nosso Bispo, D. António, e transmitida pela rádio e via Facebook, pelas páginas da Diocese de Lamego e da Paróquia da Sé, seguindo a emissão da Rádio Clube de Lamego.

Editorial da Voz de Lamego: Uma Igreja em cada casa

Entrámos na Semana Maior da nossa fé. Estes eram dias de movimento, tempos de oração, de procissões, de encontro e de alegria interior. As igrejas compunham-se de gente devota. Mais ou menos expressivas, as celebrações apelavam e apelam ao recolhimento espiritual, à contemplação das últimas horas de Jesus, para culminar na Páscoa, com a Visita Pascal, anunciando a ressurreição de Cristo, de casa em casa, em todas as casas.

Como pároco, já ouvi, em forma de pergunta ou de lamentação: este ano não há Páscoa?! Sim, há Páscoa, pois não se deixa de celebrar a ressurreição de Jesus. Mas de um jeito muito diferente do habitual. Antes lamentávamos as igrejas vazias, mesmo quando tinham pessoas, agora efetivamente estão vazias. Todavia, também a Igreja procurou adaptar-se a estes tempos de confinamento caseiro, procurando que não se perca a ligação, a comunhão à comunidade, contando com a criatividade de muitos. Se antes, cada casa era chamada a ser Igreja doméstica, hoje, por maioria de razão, a Igreja é em cada casa, em cada família, pois é em cada casa que se reúne a família para rezar e aprofundar a fé e a esperança, vivendo a caridade.

Antes de chegarmos à Páscoa, à alegria da Ressurreição, há caminho a percorrer, há uma cruz a transportar, há um calvário a acolher, e tantas contrariedades a experimentar, especialmente neste tempo. A realidade pandémica do coronavírus paira como ameaça sobre todos, desafiando-nos, sempre, mas agora mais ainda, a cuidar uns dos outros, atendendo sobretudo às pessoas e famílias mais vulneráveis.

Vai ficar tudo bem!

A vida é um dom e uma bênção. Sempre! Mas, porque somos limitados e finitos, a vida pode complicar-se!

Vai ficar tudo bem!

O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus… vai ser morto… VAI FICAR TUDO BEM… três dias depois ressuscitará. A última palavra será da vida, do amor, da ressurreição, a última palavra será de Deus. Mas, porquanto, vivemos na penúltima palavra, estando sujeitos às coordenadas espácio-temporais e a lidar com as fragilidades, limitações e egoísmos uns dos outros.

Ao longo da Sua vida, Jesus não Se desvia do amor do Pai, traduzido em proximidade, cuidado e serviço a todos, preferencialmente aos últimos da sociedade. Instala-se uma revolução “silenciosa” de delicadeza, de ternura e de compaixão, de amor e perdão, de serviço e bondade. A luz, que é Jesus, ilumina e ofusca, desafia e provoca, clarifica o caminho e põe a descoberto a soberba, o egoísmo e a indiferença, expõe a maldade, as trevas e as maquinações. Se uns se sentem desafiados e envolvidos, outros sentem-se acossados e expostos! Olhamos para Jesus e olhamos para autoridades judaicas e não precisamos que nos deem explicações, são percetíveis as opções e a coerência de vida. E tal coerência gera irritação, ódio, e a necessidade urgente de apagar a chama que incendeia corações e vidas!

Vou partir… a vossa tristeza é inconsolável… mas vai ficar tudo bem… Eu voltarei e, então, a vossa alegria será completa!

Vai ficar tudo bem! É a certeza da Páscoa e de todas as páscoas que vamos experimentando, ainda que falte fazer caminho!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/19, n.º 4554, 7 de abril de 2020

Editorial da Voz de Lamego: vislumbra-se da Terra Prometida!

Na Quaresma, é-nos recordado a travessia do Povo de Israel e as suas tribulações pelo deserto. Quarenta horas, quarenta dias e quarenta noites, quaresma, quarentena! Quatrocentos anos pelo deserto, o tempo necessário para que uma geração dê lugar a outra, tempo de purgação, de extirpar pecado e as marcas da morte, da infinidade e da desconfiança.

A geração que entra na Terra Prometida não é a mesma que saiu do Egito, da escravidão, não é o povo que se voltou contra o seu Deus. Pelo caminho lento, duro, ziguezagueante, quase como a serpente que larga a pele para a substituir por outra, sinal de crescimento, assim uns vão passando o testemunho a outros, contando, de geração em geração, as maravilhas que o Senhor fez, apesar de todos os contratempos e desvios.

Também nós, que transcorremos o deserto, o isolamento social, uma quarentena, uma Quaresma mais longa e mais dura, não seremos os mesmos a entrar na Terra Prometida. Nem eu nem tu. Nem a sociedade. Nem a Igreja. Inevitavelmente seremos diferentes. Poderemos converter-nos ou tornar-nos cínicos. Converter-nos significará que o compromisso que assumimos como sociedade nesta crise se há solidificar na entreajuda. Cínicos, se a pandemia cristalizar os muros do medo, do egoísmo, da desconfiança e da indiferença. Nem tudo é branco ou preto, mas seja como for, como seres dotados de inteligência, no final teremos aprendido, amadurecido ou, pelo menos, envelhecido! Teremos aprendido a cuidar mais da higiene e uns dos outros e a saber que a ação individual tem implicações na sociedade. Muitas vezes ouvida, a expressão “estamos no mesmo barco” tornou-se por demais evidente. Levaremos tempo a esquecer que dependemos uns dos outros.

O Senhor Deus mostra a Moisés a terra da prometida e diz-Lhe: «Esta é a terra que jurei dar a Abraão, Isaac e Jacob. Dá-la-ei à vossa descendência. Viste-a com os teus olhos, mas não entrarás nela» (Dt 34, 1-4). Moisés não chegou a pisar a Terra Prometida, mas a alegria da proximidade permitiu-lhe morrer em paz, na esperança que a verdadeira promessa a encontraria em Deus e que cumpriu com a missão na qual foi revestido: guiar o Povo à Terra Prometida. Uma geração nova, amadurecida pela dureza do deserto, pelas adversidades do caminho, pelas perdas sofridas, pela resiliência em avançar, entrará finalmente na Terra Prometida. O risco agora é esquecerem tudo quanto o Senhor fez por eles, pois não fizeram a experiência da escravidão e subsequente libertação, através da liderança de Moisés.

Dentro da Quaresma, como preparação para a Páscoa, empreendemos uma quarentena, um caminho duro, adverso, contagioso. Tal como a Quaresma nos há de conduzir à Páscoa, a nossa Terra Prometida, que é Jesus Ressuscitado, também tudo faremos para que a quarentena nos permita ressuscitar como sociedade, fortalecida pela pandemia, renovada pela solidariedade. Não é demais dizê-lo: estamos no mesmo barco! Todos contam. Não deixemos ninguém para trás. Dependemos uns dos outros. Façamos o que está ao nosso alcance. A tempestade ainda decorre, a bonança há de chegar. Que a oração desperte para a comunhão e que a sabedoria que nos vem de Deus nos faça caminho com os irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/17, n.º 4552, 24 de março de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Deixai que o Menino chore

Como o Menino Jesus estava a chorar, São José terá dito a Nossa Senhora que era melhor dar-lhe uns açoites no rabo para que se calasse. A resposta de Maria é que deixem que o Menino chore porque Ele irá ter a sua conta de açoites, preanunciando as punhadas e as chicotadas que haveria levar em adulto, principalmente na aproximação ao Calvário. Une-se, nesta música antiga, originária dos monges de Coimbra, o Natal, a infância de Jesus, e a Paixão, os momentos de agressão para com Jesus. É este o contexto de uma música trabalhada e interpretada pelo “Bando Surunyo”, no concerto de Natal, na Igreja Matriz de Tabuaço.

Por ocasião do seu aniversário natalício, o Papa Francisco referiu-se a um presépio diferente: “Deixemos a mãe descansar”. Na representação, que rapidamente se tornou viral, Maria dorme enquanto José segura o Menino Jesus. Desta forma, o Santo Padre falava numa realidade concreta da família de Nazaré, mas também de muitas famílias, onde a ternura, a atenção e o cuidado predominam, onde o marido e a mulher se entreajudam nas lides domésticas. O nascimento de um filho, e os primeiros dias, e meses, altera por completo a vida em casa, multiplicando tarefas, acentuando o cansaço.

Deixar que o menino chore… nem sempre é fácil dizer não ao menino, contrariá-lo, deixar que chore, que faça birra, que caia e se suje, que brinque e tenha momentos em que não faz nada. Há, atualmente, uma necessidade imensa de preencher por completo a vida das crianças, não lhes dando tempo para pensar, para a espera paciente e também para momentos de rotina. Quer, dá-se-lhe; faz birra, cede-se-lhe; tem alguns momentos sem nada para fazer, passa-se-lhe o telemóvel para se ocupar. A agenda das crianças é tão preenchida que, por vezes, nem têm tempo para brincar: é preciso estudar, ir à natação, à música, ao Ballet, à dança, ao futebol. Uma correria constante. Há crianças começam a começar o stress!

No contexto que nos diz respeito mais diretamente, a catequese e a participação na Eucaristia, as crianças e adolescentes vão, e com gosto, se não houver um torneiro, uma competição, ou se as explicações forem noutro horário. Não estou a sugerir que a educação seja fácil. Os pais têm uma missão complexa e não é fácil encontrar equilíbrios. Não se pode deixar que as crianças decidam por elas o que fazer, mas também não se podem adultizar antes do tempo. A competividade pode ajudar no desenvolvimento, mas levada ao extremo gera conflito, comportamentos agressivos ou depressivos. Tem de se valorizar a tolerância, a diferença, a bondade. Tem de haver tempo para os jogos e as brincadeiras, para os intervalos, para a descontração.

Na passagem para um novo ano, vale a pena atender às palavras do Papa, para a ternura do Presépio e para a certeza que a vida (também nos propósitos) passa por pequenos gestos, concretos e reais. “Quem não é fiel no pouco, como se lhe pode confiar o muito?”

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/05, n.º 4540, 31 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Faz germinar em mim o Teu amor

Vivemos Advento, tempo de preparação para a celebração festiva do nascimento de Jesus. Tempo de graça e de salvação, em que o acontecer de Deus se traduz e concretiza no acontecer humano, pelo menos é isso que se deseja.

Neste caminho que percorremos – interiormente, mas sinalizado no ambiente que nos rodeia, luzes, arranjos natalícios e publicidade, e exteriormente, assim nos propomos, na prática do bem – somos envolvidos pela iniciativa de Deus, pela Sua graça infinita. Ele quer vir até nós, quer nascer em nós, quer frutificar em nós, ganhar raízes, habitar em nós, ficar connosco. Mas porque nos criou livres, não depende somente d’Ele, cabe-nos a nós acolher e responder ao Seu chamamento. Ele não pode entrar em nossa casa, mesmo que Se faça convidado, se não Lhe abrirmos a porta, se não O deixarmos entrar. Ele leva-nos a sério e respeita-nos, respeitando a nossa liberdade e as escolhas que fazemos.

Nesta iniciativa divina, Maria é escolhida desde sempre e desde sempre preparada para ser a Mãe do Filho do Deus Altíssimo. É este o mistério da sua Imaculada Conceição. Toda bela, toda pura, concebida sem sinal de pecado, para que n’Ela floresça o fruto do Espírito Santo. Por um lado, Deus que desce, diminuindo-Se para caber na humanidade, por outro lado, o melhor do ser humano na sua identidade original, imagem e semelhança de Deus. É neste encontro que Deus Se faz homem e que o homem poder ser divinizado em Jesus.

O privilégio de Maria é realizável também em nós, não na mesma dinâmica total, biológica e espiritual, mas na medida em que acolhamos a vontade de Deus como Ela o faz.

A iniciativa divina tem correspondência na resposta humana, na resposta de Maria. O Anjo vem da parte de Deus e surpreende Maria: “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo… encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e chamá-l’O-ás com o nome de Jesus… O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá. Por isso, o que é concebido santo será chamado filho de Deus”. A resposta de Maria não tarda, ainda que pause na surpresa do anúncio e no admirável mistério que está a acontecer: “faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 26-38)

Deus faz acontecer em nós, mas é preciso que O escutemos, que O acolhamos, que O procuremos, que O deixemos nascer em nós. Jesus nasce porque Maria diz “sim”. E, logo depois, ela dir-nos-á a condição para que o milagre aconteça em nós, para que a vida se realize na abundância: “O que Ele vos disser, fazei-o” (Jo 2, 5). Então, como o próprio Jesus o diz, se deixarmos que germine em nós o amor de Deus, na prática do bem, seremos verdadeiramente Seus discípulos, seremos verdadeiramente da Sua família (cf. Lc 8, 21).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/02, n.º 4537, 3 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Luz que recria o mundo

Nestes dias não faltam belíssimas reflexões sobre a Páscoa. A Voz de Lamego faz eco de algumas. Um dos momentos mais marcantes destes dias é a Vigília Pascal, pelos sinais e símbolos que nos fazem visualizar a história da salvação, com particular incidência no mistério da entrega confiante de Jesus ao Pai, por nós.

Luz, palavra, água e pão. A celebração inicia com a bênção do Lume Novo. A nossa Luz, sempre nova, é Jesus, morto e ressuscitado. Na Encíclica Lumen Fidei, em sintonia com Bento XVI, o Papa Francisco sublinha que a fé é sobretudo luz, ainda que haja momentos de grande sofrimento, em que a dúvida assola e a confiança fica abalada. Com efeito, “a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho… o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros” (n.º 57). As trevas podem ser imensas, mas basta a luz de um fósforo, de um isqueiro ou de um telemóvel, para nos conseguirmos mexer e avançar confiantes.

Há momentos que precisamos de uma palavra amiga, mas talvez precisemos de quem nos escute. Não resolve os nossos problemas, mas conforta-nos saber que alguém nos escuta e tenta compreender-nos. Para que as palavras não sejam vazias, a urgência da escuta. Nesta noite santíssima escutámos longamente a Palavra de Deus, perscrutamos a presença de Deus na história que nos encaminha para Jesus. A Quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna!

Água para o caminho. Quem bebe desta água, não volta a ter sede. Eu Sou a água viva. Tantas vezes em que um pouco de água fresca é o suficiente para equilibrar o nosso organismo, para tranquilizar a nossa sede, para nos dar forças para continuar a caminhar. A bênção da água, na Vigília Pascal, faz-nos recordar a água em que fomos batizados, a água que nos renova, tornando-nos novas criaturas. Senhor, dá-nos sempre dessa água! Um pouco de pão e de água. Eu Sou o Pão da vida. O Pão que Eu hei de dar é a Minha Carne. É um verdadeiro milagre Deus fazer-Se um de nós. Verdadeiro milagre que a morte seja superada pela vida, pela ressurreição. Milagre grandioso, que Jesus Se converta em Pão para se tornar alimento de muitos. Isto é o Meu Corpo, tomai e comei. É o Meu sangue, tomai e bebei!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/21, n.º 4507, 23 de abril de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Arrependimento e perdão

Iniciamos o tempo santo da Quaresma, através da qual nos preparamos para celebrar o mistério maior da nossa fé, a Páscoa do Senhor, tomando consciência do Amor com que Deus Se manifestou em Cristo para nossa salvação. “De Páscoa em Páscoa, diz-nos o Papa Francisco, na Sua mensagem para esta Quaresma, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo”.

Valerá a pena ler as mensagens do Papa e do nosso Bispo para esta Quaresma. Em todo o caso, gostaria de refletir convosco alguns dos pontos com que Francisco quer ajudar-nos a viver melhor este tempo de graça. Com efeito, diz o Papa, “a celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 14) é dom inestimável da misericórdia de Deus”.

A mensagem pontifícia parte da Carta aos Romanos (8, 19): “A criação encontra-se em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus”. O papa, uma vez mais, envolve toda a criação na vivência do mistério pascal. A mensagem foi assinada a 4 de outubro, festa litúrgica de São Francisco de Assis, que estendeu a fraternidade à natureza, aos animais, ao Sol e à Lua. São Paulo, por sua vez, ressalva que toda a criação beneficia da redenção operada por Jesus Cristo. O ser humano que vive como filho de Deus e se deixa guiar pelo Espírito Santo multiplicará na criação os frutos da graça recebida.

Pelo contrário, “quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como muito bem nos apraz… Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais”.

É necessário de passar da morte à vida e, partindo da consciência do pecado, predispormo-nos a acolher a santidade que nos é dada em Cristo. É preciso assumirmo-nos como filhos de Deus, “nova criação”, impelidos para este “parto” através da conversão, em que toda a criação é chamada a sair “da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus” (Rm 8, 21). Cabe-nos “fazer Páscoa” e “o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal”. Jejuar, orar e dar esmola, predispõe-nos a amar a Deus, no cuidado dos irmãos e da criação inteira.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/14, n.º 4500, 5 de março de 2019

Editorial Voz de Lamego: Sob a proteção da Imaculada Conceição

No dia 8 de dezembro, assinalamos a celebração festiva da Imaculada Conceição, Padroeira e Rainha de Portugal, fazendo sobressair a ligação afetiva dos portugueses à Virgem Imaculada.Como em tantas outras referências religiosas, culturais, políticas, com as novas gerações atenuam-se as pertenças e, por vezes, os motivos originários de uma tradição, de uma comemoração, a razão de ser de um feriado ou de um dia santo. O dia 8 e dezembro enraíza-se na história de Portugal e, claro, na identidade religiosa e cultural do povo português, mesmo com a vontade de alguns blocos quererem disfarçar, esconder, apagar tudo o que possa ter referências religiosas, excetuando nos momentos de aproximação eleitoral, onde é necessário não fazer muitas ondas.No dia 25 de março do ano de 1646, D. João IV, numa cerimónia solene, em Vila Viçosa, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, depunha a coroa a favor de Nossa Senhora. A partir de então o Rei não mais colocaria a coroa. Em contrapartida, a coroa era colocada num trono, ao lado do trono real, relembrando que Nossa Senhora da Conceição era a Padroeira e Rainha de Portugal.O Rei assinalava a forte devoção dos portugueses. Os acontecimentos que conduziram o país a recuperar a soberania, com a coroação de D. João IV, a 15 de dezembro de 1640, no Terreiro do Paço, estão fortemente ligados à devoção de Nossa Senhora. O Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira (São Nuno de Santa Maria), artífice da vitória de Portugal sobre os nossos vizinhos espanhóis, fundou a Igreja de Nossa Senhora do Castelo, em Vila Viçosa, oferecendo também a imagem de Nossa Senhora da Conceição.É uma devoção que vem de longe, sancionada em definitivo a 8 de dezembro de 1954, pelo Papa Pio IX, rodeado por 92 bispos, 54 arcebispos, 43 cardeais e uma imensa multidão, definiu como dogma de fé o grande privilégio da Virgem:“A doutrina que ensina que a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha de pecado original no primeiro instante de sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso, em atenção aos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, é revelada por Deus e por isso deve-se crer firme e constantemente por todos os fiéis”O projeto de Deus é concretizável pela resposta humana, por esta primeira resposta de Maria. Maria acolhe a Palavra de Deus e fá-la crescer no seu ventre e na sua vida.A condição para sermos morada do Deus altíssimo é imitar Maria, em humildade e prontidão para servir: realize-se em mim a Tua vontade. Vem, nasce em mim, ilumina-me com a Tua bondade, dá-me o Teu perdão, guia-me para Ti, faz-me reconhecer-Te e a amar-Te em cada irmão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/02, n.º 4488, 4 de dezembro de 2018