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Archive for the ‘Liturgia’ Category

Editorial Voz de Lamego: Somos o que desejamos ser

“Deus quer, o homem sonha e a obra nasce” (Fernando Pessoa). Se nada desejamos nada alcançaremos. Dir-nos-á Blaise Pascal: “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Está inscrito no nosso íntimo este desejo de sermos mais, vivermos melhor, deixarmos marcas da nossa passagem pelo mundo. O homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito, constitutivamente limitado e finito, procura sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do corpo e do mundo. O desejo espicaça o nosso comprometimento na busca, na persistência e no envolvimento em diversas iniciativas, desafios e campanhas.

O Papa Francisco, na homilia da Epifania do Senhor, acentuou esta necessidade de desejo, de busca, de caminho, de resiliência diante dos obstáculos. É o desejo que alimenta a busca e o encontro com Jesus. O Santo Padre começou por citar o seu antecessor: os Magos eram «pessoas de coração inquieto (…); homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social (…); eram indagadores de Deus» (Bento XVI, 06/01/2013).

Mas de onde nasce esta inquietação que levou os Magos a peregrinar? Nasce do desejo, responde o Papa Francisco. “Desejar significa manter vivo o fogo que arde dentro de nós e nos impele a buscar mais além do imediato, mais além das coisas visíveis. É acolher a vida como um mistério que nos ultrapassa, como uma friesta sempre aberta que nos convida a olhar mais além, porque a vida não é «toda aqui», é também «noutro lugar». É como uma tela em branco que precisa de ser colorida. Um grande pintor, Van Gogh, escreveu que a necessidade de Deus o impelia a sair de noite para pintar as estrelas. Isto deve-se ao facto de Deus nos ter feito assim: empapados de desejo; orientados, como os Magos, para as estrelas. Somos aquilo que desejamos. Porque são os desejos que ampliam o nosso olhar e impelem a vida mais além: além das barreiras do hábito, além duma vida limitada ao consumo, além duma fé repetitiva e cansada, além do medo de arriscar, de nos empenharmos pelos outros e pelo bem. «A nossa vida – dizia Santo Agostinho – é uma ginástica do desejo» (Tratados sobre a primeira Carta de João, IV, 6)”.

Iniciámos um novo ano civil! Quando falamos em novo, falámos em propósitos, sonhos, desejos! Mas é possível que a meio do caminho vacilemos! É possível que tenhamos começado 2022 já cansados, nomeadamente em relação a rotinas quotidianas ou a esta pandemia que não mostra sinais de ceder. Ao longo da nossa vida podemos passar por momentos de embotamento, de desencanto e insensibilidade em relação às pessoas ou aos acontecimentos, negativos ou positivos. Deixamos de acreditar, colocamos em causa a bondade das pessoas, parece que o que dizemos e fazemos não faz diferença. Sinal e expressão que o desejo (por Deus) se esbateu, a fé adormeceu! É a vida! Faltou-nos o combustível? A oração? A escuta e meditação da Palavra de Deus? Algum acontecimento que nos deixou de rastos? No trabalho? Na família? Na sociedade?

Deixemo-nos guiar novamente pela reflexão do Santo Padre: “Debruçamo-nos demasiado sobre os mapas da terra, e esquecemo-nos de erguer o olhar para o céu… O desejo de Deus cresce se permanecermos diante de Deus. Porque só Jesus cura os desejos. De quê? Da ditadura das necessidades. Com efeito, o coração adoece quando os desejos coincidem apenas com as necessidades; ao passo que Deus eleva os desejos; purifica-os, cura-os, sanando-os do egoísmo e abrindo-nos ao amor por Ele e pelos irmãos. Por isso, não esqueçamos a Adoração: detenhamo-nos diante da Eucaristia, deixemo-nos transformar por Jesus. Como os Magos, levantemos a cabeça, ouçamos o desejo do coração, sigamos a estrela que Deus faz brilhar sobre nós… Sonhemos, procuremos, adoremos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/09, n.º 4640, 12 de janeiro de 2022

Editorial Voz de Lamego: Levantai-vos! Vamos… seguir a Estrela

Na Epifania do Senhor, a liturgia da Palavra apresenta-nos um grupo de Magos que vem do Oriente (cf. Mt 2, 1-12). Vêm de longe, dos confins da terra, guiados por uma estrela. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O».

Os Magos são buscadores de Deus. Há quem se afaste de Deus através dos estudos. Há quem, pela ciência, se encontra com o Criador, o Senhor que faz belas todas as coisas. Os magos deixam-se surpreender por aquela estrela. Sabem que é diferente. O Rui Veloso, numa magnífica canção, diz que já não há estrelas! Mas a verdade é que continua a haver estrelas. Algumas guiam-nos para Belém, outras guiam-nos para ninguém.

Há quem tenha a graça de encontrar Deus, através da família e/ou do ambiente em que nasceu e cresceu, por meio de algum acontecimento impactante, na oração intensa, na sinceridade da procura. Há quem já tenha ouvido falar d’Ele. Aquela estrela despertou os Magos e fez com que eles se pusessem a caminho. Esta é a atitude que deveremos imitar: estar atentos aos sinais que vêm de Deus; discernir sobre as estrelas para seguirmos as que nos levam a Jesus; coloquemo-nos a caminho. Talvez muitos tenham visto a estrela, mas só os magos se puseram a caminho. Herodes, por exemplo, deixou-se ficar na segurança e no conforto do Palácio.

Por outro lado, sejamos também estrelas para os outros, pelas palavras e pela vida, facilitemos o seu caminho para Jesus, deixemos que a luz do alto resplandeça através de nós.

Um homem tinha um cavalo que ficou cego e, por conseguinte, se tornou-se inútil. Que fez este homem? Comprou outro cavalo e colocou-lhe uns guizos que passaram a servir de orientação para o cavalo cego. Assim, quando eram horas de ir para a padraria, o cavalo cego seguia o cavalo com os sinos. Quando era hora de recolher, a mesma coisa. O dono não desistiu do cavalo só porque agora já não tinha a mesma “utilidade”. Assim procede Deus connosco, coloca “estrelas” que nos guiam ou “cavalos com guizos”. Outras vezes teremos que ser nós as “estrelas” ou os cavalos com guizos que ajudam outros a orientar-se e seguir por caminhos que levem a Jesus.

Vivemos num mundo, hoje mais do que no passado, em que os desafios são vários e as propostas são milhentas, algumas revestidas a ouro, mas que escondem egoísmo, maldade e jogos de poder. Há que saber discernir e para tal o primeiro passo é a oração, a invocação do Espírito Santo.

A alegria dos Magos redobra quando veem a estrela a fixar-se onde se encontra o Menino. Entram em casa e veem o Menino, com Maria, Sua Mãe. Prostram-se diante d’Ele e adoram-n’O, abrem os seus tesouros e dão-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Deus não nos pede o impossível, pede-nos o melhor de nós. Os Magos dão o melhor que têm, os seus tesouros. Não guardam para si o que pertence ao Senhor. Os presentes têm também um simbolismo que fazem reconhecer a realeza, a divindade e a humanidade (mortalidade) d’Aquele Menino.

O encontro com Jesus faz-nos regressar à vida com outra alma. Como os Pastores, também os Magos voltam para os seus afazeres, mas regressam por outro caminho. Nada será como antes. Isto diz-nos respeito. A alegria já é imensa quando as estrelas nos falam, apontam, nos mostram Jesus! A alegria há de preencher-nos por inteiro no encontro com Jesus. Este encontro há gerar vida nova na vida de todos os dias, na opção firme pela verdade, pelo bem, pelo serviço, pelo amor ao nosso semelhante.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/08, n.º 4639, 5 de janeiro de 2022

Editorial: Levantai-vos! Vamos… a Belém!

Depois da Anunciação, Maria levantou-se e partiu apressadamente para a montanha em direção a uma cidade de Judá, ao encontro de Isabel, para a ajudar, carregando no seu ventre o Salvador do Mundo. É a presença de Jesus, Filho de Deus, que torna leve e célere a pressa de Maria. Jesus não é um peso que carregamos, Ele carrega-nos e alivia a nossa cruz com o Seu amor, ainda que tenhamos de fazer a nossa parte!

Mais tarde, José levanta-se e, sem delongas, pega em Maria e no Menino e vai para o Egito. A agilidade de José vem-lhe do amor e da fé. Até de noite o Senhor o inspira e lhe mostra a necessidade de fazer escolhas que permitam cuidar do Menino e de Sua Mãe.

Anos mais tarde, Maria e José voltam atrás porque sentem o peso da ausência de Jesus. Quando prosseguimos sem Jesus a nossa vida torna-se pesada ou mesmo insuportável. O mundo precisa de notícias boas e da Boa Notícia da salvação. Maria contagia Isabel e João Batista porque n’Ela está o Senhor da Alegria, Jesus.

O lema da nossa diocese – Levantai-vos! Vamos! – obriga-nos a seguir Jesus, no momento da tormenta, mas sabendo que a Cruz é apenas mais uma etapa no caminho. A Cruz é essencial para os cristãos, enquanto expressão do amor levado até às últimas consequências, mas ainda assim não é a cereja no topo do bolo, é um prelúdio do que vem: a vida, a ressurreição, a eternidade no coração de Deus. Deus faz-Se um de nós e faz-nos participantes da Sua vida divina. Encarna para nos ressuscitar!

Sozinhos podemos perder-nos no caminho! Então prossigamos em comunidade. Não basta estar juntos, é necessário a comunhão solidária, o diálogo, a oração, colocando Deus ao centro. É Ele que nos mantém ligados, a caminhar juntos. A Igreja, que vive em processo sinodal, é fundada à imagem da Santíssima Trindade. Deus é Pai e é Filho e é Espírito Santo. Harmonia perfeita, sem confusão. A sinodalidade compromete-nos trinitariamente a promover as diferenças, valorizando o que nos enriquece mutuamente e limando as arestas que nos ferem reciprocamente.

Na região de Belém, uns pastores, que pernoitavam e guardavam os seus rebanhos, são surpreendidos pelo Anjo do Senhor, que lhes diz: «Não tenhais medo! Eis que vos anuncio uma boa nova, que será uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um salvador que é Cristo Senhor. E isto será para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em panos e deitada numa manjedoura».

Os pastores são pessoas simples, estão habituados à dureza dos dias e das noites. Vivem com pouco. Pobres entre os pobres. Vivem atentos a tudo o que os rodeia, a ameaças que venham do campo ou dos ladrões. Não podem perder nenhuma ovelha. Se tal acontecesse teriam que prestar contas aos donos dos rebanhos e veriam reduzidos os meios de subsistência. Confiam uns nos outros, auxiliam-se nas adversidades, protegendo-se e aos rebanhos. Serão uma bela imagem do Pastor que estão prestes a conhecer!

Logo que os Anjos se afastaram para o céu, os pastores disseram: «Vamos até Belém, vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer». O evangelista sublinha que eles foram com pressa. Confiaram nas palavras do anjo e no cântico celestial. Não há tempo a perder. É urgente partir. Encontram Maria, José e a criança deitada numa manjedoura. Logo dão a conhecer o que o anjo lhes tinha dito a respeito daquele menino. E quando regressam fazem o mesmo, glorificam e louvam a Deus (cf. Lc 2, 8-21).

Neste tempo de Natal, deixemos que ressoe em nós a ternura do Menino-Deus. Partamos. Vamos. Até Belém. Até Jesus. Não O percamos de vista! Anunciemo-l’O com alegria, descubramo-lo nas manjedouras deste tempo, nos recantos do mundo, nas nossas famílias e na vizinhança. Vale a pena partir se O levarmos connosco!

Santo e abençoado Natal.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/07, n.º 4638, 22 de dezembro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Como Maria, com o olhar fixo em Jesus

A alegria do Evangelho, a Boa Notícia, proclamada no primeiro dia da Semana, o Domingo de Páscoa, é que Cristo, Filho de Deus vivo, está no meio de nós. As trevas foram vencidas pela luz. O medo deu lugar à confiança. Da morte ressurgiu a vida. O Crucificado ressuscitou. O amor venceu o pecado e a desolação.

Estamos em plena Semana Santa. A liturgia destes dias faz-nos peregrinos do Calvário e da Cruz, do amor e da entrega de Jesus, da vida nova que vai surgir.

Antes da Páscoa, a sexta-feira santa. A sexta-feira só se percebe com a Luz que irradia do túmulo de Jesus. A Ressurreição surge depois da Cruz e faz-nos perceber que chegamos à vida quando a gastamos a favor dos outros.

Olhando para os discípulos, para Judas e para Pedro, para as mulheres, para Simão de Cirene, para Pilatos e autoridades judaicas, para uma multidão instigada pelos líderes religiosos, como é que nos vemos diante de Jesus? Se tivéssemos estado lá, naquela ocasião, poderíamos ser qualquer um. Fortalecidos pelo testemunho de muitos, pelo encontro com o Ressuscitado, pelo acolhimento de Jesus, vivo, nas comunidades que se fazem Igreja, Corpo de Cristo, por certo estamos mais preparados para Lhe responder.

Ao longo da história da Igreja, muitos foram testados na sua fé. A esta distância, seria fácil julgar aqueles que não tiveram a força suficiente para resistir às ameaças, à perseguição, à exclusão, à tortura. Perante tamanha violência, teremos que reconhecer que não sabemos se resistiríamos ou não. Mas muitos foram capazes de seguir Jesus até à Cruz, até à morte. Na atualidade, continua a haver muitos mártires, pessoas excluídas do emprego, da habitação, expulsas do seu país, a serem torturadas e mortas, mas ainda assim, a persistirem na fé cristã.

Jesus, no Horto das Oliveiras ou no Calvário, diante da violência que se aproxima e a que Se sujeita, confia no Pai. Faça-se o que Tu queres.

Com Maria aprendemos a responder ao projeto de Deus, acolhendo a Sua vida, deixando que Ele nos preencha com a Sua Graça. Mais visível ou mais discretamente, Maria está por perto de Jesus, gerando-O e dando-O ao mundo, nos primeiros passos, ensinando-O a falar e a andar, e a rezar, e, juntamente com São José, mostrando como é importante viver em família, respeitar as pessoas idosas, ajudar os vizinhos, participar dos momentos de festa e dos momentos de dor. Em Jerusalém, Maria e José colocam o Menino sob a proteção de Deus. Mais tarde, Maria participa na alegria das Bodas de Caná e intervém junto de Jesus. Durante a Sua vida pública, os evangelhos mostram-na preocupada com o que d’Ele se diz. Em tantas situações, percebe-se que Maria está com os discípulos e com outras mulheres. Também no caminho agreste, duro, pesado do Calvário, junto à cruz, de olhar firme e coração apertado, Ela permanece diante de Jesus, Filho de Deus, e Seu Filho muito amado. É Mãe que chora, por todas as mães que perdem os seus filhos, e, como discípula, acolhe a vontade de Deus. E qual a vontade de Deus? Que sejamos felizes, sabendo que a felicidade passa pelo amor, pela entrega confiante, pelo serviço aos irmãos, ainda que exija esforço, dedicação e sacrifícios. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer.

Fixemos o nosso olhar no de Jesus, permitindo que Ele nos guie da Cruz à eternidade, da morte à ressurreição, da sexta-feira da Paixão ao Domingo de Páscoa, das trevas à luz, da tristeza à alegria do reencontro, do desencanto à paz que Ele nos dá.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/20, n.º 4602, 30 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Quaresma: viagem de regresso a Deus

Há um ano entrávamos na Quaresma com esperança, renovando nas nossas comunidades apelos e caminhadas, desafios para momentos de oração, de reflexão, de vivência de um dos tempos litúrgicos mais densos, com tradições e símbolos tão ricos que envolvem até os mais afastados da vida comunitária. Por outro lado, a abundância do turismo religioso que traz mais vida a aldeias, vilas e cidades.

Pouco tempo depois, o reconhecimento e a mitigação da pandemia levar-nos-ia a alterar planos, a suspender celebrações comunitárias, a catequese, encontros de formação, celebrações dos sacramentos. Suspender, adiar e esperar por melhores dias. E, momentaneamente, esses dias chegaram depois de uma Quaresma que se converteu em quarentena, em confinamento, em isolamento, em distanciamento físico. Vivemos à espera, em teledistância, com poucos contactos físicos, sem beijos nem abraços, e sem apertos de mão. Gradualmente ganhámos confiança e fomos regressando, os que regressámos, pois alguns, desde março, ainda receiam dar algum passo (em falso) fora de casa.

À medida que o tempo avançou, do verão ao Natal, tudo parecia estar a voltar, muito devagar, mas havia grandes expectativas de que não faltaria muito para retomarmos projetos ou avançarmos com novas propostas, no nosso caso, propostas pastorais e envolvimento das comunidades. O Ano Pastoral 2020-2021 da Diocese foi pensado nesta perspetiva, com precaução, mas abrindo e semeando sulcos de paz e de esperança, colocando possibilidades sobre a mesa. Janeiro acabou com muitas das nossas ilusões. Voltámos a um confinamento generalizado pela elevada pressão no SNS, centenas de pessoas mortas em consequência da COVID-19, e multiplicação de contágios. Agora vamos com mais calma e ponderação, ainda que alguns não tenham entendido, ainda, que todos estamos sujeitos a ser contaminados e a colocar em perigo a própria e a vida dos outros.

A Quaresma deste ano pastoral tem, desde o início, as marcas da pandemia. As ilusões são menores, mas a esperança deve ser renovada constantemente. Adaptamo-nos às circunstâncias, cuidando uns dos outros, até onde é possível e recomendável, mas não podemos esperar infindamente, de braços cruzados, de corações fechados, com a vida suspensa. A Igreja Católica deu sinais de ser pessoa de bem e de confiança, assegurando a máxima segurança nas celebrações dentro dos edifícios ou ao ar livre.

Na quarta-feira de Cinzas, o Papa deixou-nos mais uma interpelação significativa, caracterizando a Quaresma como uma viagem de regresso a Deus. O tempo é-nos dado por Deus, e só Ele sabe o dia e a hora; a nós cabe “gerir”, viver, valorizar as oportunidades, potenciar os talentos. “Quantas vezes, atarefados ou indiferentes, Lhe dissemos: «Senhor, espera! Virei encontrar-Vos mais tarde… Hoje não posso, mas amanhã começarei a rezar e a fazer algo pelos outros». E assim dia após dia… Agora Deus lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas hoje é o tempo de regressar a Deus”.

Prosseguindo, o Papa lembra-nos que a Quaresma envolve a vida toda. A configuração a Jesus deve ser total. A Quaresma coloca-nos em êxodo, da escravidão para a liberdade, um regresso, como o filho pródigo, à casa paterna, à ternura e abraço do Pai. “É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso… Curai o meu coração. Voltemos a rezar ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do louvor, que queima as cinzas das lamúrias e da resignação”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/15, n.º 4597, 23 de fevereiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Um Menino nos foi dado

O nascimento de uma criança é, ou deveria ser, uma bênção. Um bebé chega e altera tudo! Desinstala, incomoda, preenche tempos e espaços, exige atenção e cuidado. Vivemos num mundo de contradições várias, precisamos de ser férteis, nesta Europa envelhecida, e, no entanto, as taxas de natalidade continuam a ser muito baixas e todos os dias vemos agressões para com as crianças, abusos, tráfico, trabalho infantil, violência. Sem o nascimento de novos seres humanos não é possível a sobrevivência da humanidade e sabe-se que qualquer comunidade que não tenha crianças ou que as tenha num número reduzido tende a ser mais frágil, mais dependente do exterior, economicamente insustentável, pois são as crianças e os jovens que geram mais movimento e fazem circular a economia.

Jesus vem para desinstalar, para ser sinal de contradição, como sublinha o velho Simeão diante de Maria e de José, é Ele a Luz das nações (cf. Lc 2, 25-35). Nasce pobremente, numa manjedoura, sem grandes confortos, num ambiente pouco limpo, junto de animais. Ele que era rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, isto é, com a Sua vida, com o Seu amor (2 Cor 8, 9).

Vivemos num tempo diferente, com outras comodidades, mas temos consciência que o conforto sem o calor humano vale de pouco. Precisamos de comodidade, mas precisamos muito mais da amizade e de com quem partilharmos a vida. A vida, diz-nos Augusto Cury, “contém capítulos imprevisíveis e inevitáveis. Todo ser humano passa por turbulências na sua vida. A alguns falta o pão na mesa; a outros, a alegria na alma. Uns lutam para sobreviver. Outros são ricos e abastados, mas mendigam o pão da tranquilidade e da felicidade. Por isso há miseráveis que moram em palácios e ricos que moram em casebres”.

Aquele Menino obriga-nos a ajoelhar, a debruçar-nos sobre ele, a colocar-nos à mesma altura, para estarmos olhos nos olhos. Um Menino, numa manjedoura! Um Menino que é luz, bênção e alegria para aqueles pais, para mim e para ti, para a humanidade inteira. Quando queremos ver bem um bebé aproximamo-nos da mãe ou do berço, o que nos obriga a inclinar-nos ou a baixar-nos. O mesmo sucede se queremos conversar com uma criança de igual para igual, ajustamos a nossa altura, ajoelhamo-nos, adaptamos a voz, tornando-a mais suave (e muitas vezes acriançada, como se dessa forma a criança nos percebesse melhor!). Se olhamos a criança a partir de nós, ela ver-nos-á como gigantes; se a olhamos a partir dela mesma, da sua estatura, ela perceberá que queremos comunicar e lhe queremos bem.

Assim faz Deus connosco, em Jesus Cristo, abaixa-Se, apequena-Se, encarna, faz-Se um de nós, coloca-Se ao mesmo nível, da nossa carne, mortal e finito como nós, frágil e sujeito às mesmas vicissitudes, a ser amado, esquecido ou maltratado. Tudo por amor. Este Menino veio para ser luz e bênção e para ser sinal de contradição. Com a Sua vida próxima e terna ensina-nos que o caminho da salvação se veste de amor e de perdão, de serviço e de cuidado. Para sermos como Ele, e somo-lo enquanto discípulos missionários, não precisamos de nos agigantarmos diante dos outros, precisamos de nos despojar de adornos, tornando-nos crianças na docilidade e transparência, na sinceridade de coração.

Santo Natal a todos os que fazem a Voz de Lamego (edição, publicação, colaboração de textos, notícias e fotos, na publicidade e anúncios, assinantes, leitores e amigos) e a todas as famílias a quem esta boa nova chegar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/07, n.º 4589, 22 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: O encontro com o Senhor do Tempo

O tempo é uma espécie de espiral que se enlaça entre lutos e vidas novas, entre fins de ciclos que nos conduzem para novas situações e novos projetos. Com efeito, como seres humanos somos constituídos no tempo e inseridos no espaço, somos presente, enraizados no passado e impelidos para o futuro. As memórias solidificam o que somos e as capacidades que temos, permitem-nos caminhar entre as coisas boas que já fizemos, as menos boas que queremos e podemos evitar, para que na atualidade não sejamos fantasmas do que fomos. Por outro lado, como o amanhã pertence a Deus, olhamos para o futuro com esperança, pois Aquele que está no início também vai estar à nossa espera no final do caminho; Quem nos gerou para vida também garantirá que a nossa vida não se perde.

No final do ano litúrgico, particularmente nas parábolas de Jesus, que o Evangelho nos serve aos Domingos, somos colocados diante do Senhor do Tempo, como Juiz benevolente e Pai misericordioso.

No entretanto, sem Se ausentar, alheado e distante, Deus confia-nos o mundo, dá-nos o tempo, gratuitamente, os dons e os talentos, para que cuidemos uns dos outros e para administrarmos os bens da criação. A perspetiva não é o açambarcamento, mas a partilha que multiplica o que se dá! Como sublinha D. António Couto, o pecado dos primeiros pais não foi o comerem do fruto da árvore, mas o facto de o recolherem e o reterem só para si mesmos, sem deixar nada para outros. O que Deus dá não é para esconder, para guardar, mas para dividir. O que guardamos perde-se, o que damos multiplica-se.

No final da caminhada, Ele estará, como sempre, à nossa espera. Ajustamos contas, não com um estranho, mas com Alguém que nos conhece e que conhecemos. Precede-nos na vida e espera por nós para nos acolher na Sua habitação eterna.

O Reino de Deus é comparável a 10 virgens que esperam para receber e acompanhar o noivo ao banquete nupcial. Esperamos, não de braços cruzados, mas ativamente, vigilantes. Quem vai para mar prepara-se em terra. Parte do grupo prepara-se e leva azeite nas candeias e de reserva nas almotolias. As outras apostam na sorte: ou que o noivo venha cedo ou alguém possa ajudá-las caso fiquem sem azeite. Na verdade, somos responsáveis uns pelos outros. Mas há a responsabilidade pessoal, os outros não nos substituem, não vivem por nós. Deus não vive na nossa vez.

O reino de Deus é comparável àquele homem que partiu de viagem e confiou cinco talentos a um servo, dois a outro e um a outro. Os primeiros duplicaram o valor. O último, com medo, escondeu o talento, não produzindo. Não arriscou nada. O cristão é alguém que tem que arriscar. [Cf. Homilia do Papa Francisco no Dia Mundial dos Pobres, na página sete desta edição] O que nos é dado não é para devolver a Deus como Ele no-lo confiou, mas para o multiplicarmos, no cuidado por toda a criação, especialmente pela humanidade, e sobretudo na atenção privilegiada aos mais pobres, ao jeito de Jesus, traduzível na práticas das obras de misericórdia. No final seremos julgados pelo que fizemos aos mais pobres. É Jesus quem no-lo diz: o que fizeste aos mais pequeninos foi a Mim que o fizeste. A vida eterna começa em terra. O amanhã decide-se hoje, o final inicia-se na história e no tempo para que diante do Senhor do Tempo a nossa vida lhe seja entregue preenchida de amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/02, n.º 4584, 17 de novembro de 2020

Celebração da Vigília Pascal – Sé de Lamego – 11 de abril de 2020

No sábado santo, 11 de abril, o Senhor Bispo, D. António, presidiu, na Sé de Lamego, à Vigília Pascal deste ano de 2020 em que nos encontramos confinados a nossas casas em virtude da pandemia do COVID 19. A Eucaristia foi transmitida, via Facebook na página da Diocese em colaboração estreita com a Rádio Clube de Lamego.

Celebração da Paixão do Senhor – Sé de Lamego – 10 de abril de 2020

Na sexta-feira santa, teve lugar, na Sé de Lamego, a celebração da Paixão do Senhor, presidida pelo nosso Bispo, D. António, e transmitida pela rádio e via Facebook, pelas páginas da Diocese de Lamego e da Paróquia da Sé, seguindo a emissão da Rádio Clube de Lamego.

Editorial da Voz de Lamego: Uma Igreja em cada casa

Entrámos na Semana Maior da nossa fé. Estes eram dias de movimento, tempos de oração, de procissões, de encontro e de alegria interior. As igrejas compunham-se de gente devota. Mais ou menos expressivas, as celebrações apelavam e apelam ao recolhimento espiritual, à contemplação das últimas horas de Jesus, para culminar na Páscoa, com a Visita Pascal, anunciando a ressurreição de Cristo, de casa em casa, em todas as casas.

Como pároco, já ouvi, em forma de pergunta ou de lamentação: este ano não há Páscoa?! Sim, há Páscoa, pois não se deixa de celebrar a ressurreição de Jesus. Mas de um jeito muito diferente do habitual. Antes lamentávamos as igrejas vazias, mesmo quando tinham pessoas, agora efetivamente estão vazias. Todavia, também a Igreja procurou adaptar-se a estes tempos de confinamento caseiro, procurando que não se perca a ligação, a comunhão à comunidade, contando com a criatividade de muitos. Se antes, cada casa era chamada a ser Igreja doméstica, hoje, por maioria de razão, a Igreja é em cada casa, em cada família, pois é em cada casa que se reúne a família para rezar e aprofundar a fé e a esperança, vivendo a caridade.

Antes de chegarmos à Páscoa, à alegria da Ressurreição, há caminho a percorrer, há uma cruz a transportar, há um calvário a acolher, e tantas contrariedades a experimentar, especialmente neste tempo. A realidade pandémica do coronavírus paira como ameaça sobre todos, desafiando-nos, sempre, mas agora mais ainda, a cuidar uns dos outros, atendendo sobretudo às pessoas e famílias mais vulneráveis.

Vai ficar tudo bem!

A vida é um dom e uma bênção. Sempre! Mas, porque somos limitados e finitos, a vida pode complicar-se!

Vai ficar tudo bem!

O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus… vai ser morto… VAI FICAR TUDO BEM… três dias depois ressuscitará. A última palavra será da vida, do amor, da ressurreição, a última palavra será de Deus. Mas, porquanto, vivemos na penúltima palavra, estando sujeitos às coordenadas espácio-temporais e a lidar com as fragilidades, limitações e egoísmos uns dos outros.

Ao longo da Sua vida, Jesus não Se desvia do amor do Pai, traduzido em proximidade, cuidado e serviço a todos, preferencialmente aos últimos da sociedade. Instala-se uma revolução “silenciosa” de delicadeza, de ternura e de compaixão, de amor e perdão, de serviço e bondade. A luz, que é Jesus, ilumina e ofusca, desafia e provoca, clarifica o caminho e põe a descoberto a soberba, o egoísmo e a indiferença, expõe a maldade, as trevas e as maquinações. Se uns se sentem desafiados e envolvidos, outros sentem-se acossados e expostos! Olhamos para Jesus e olhamos para autoridades judaicas e não precisamos que nos deem explicações, são percetíveis as opções e a coerência de vida. E tal coerência gera irritação, ódio, e a necessidade urgente de apagar a chama que incendeia corações e vidas!

Vou partir… a vossa tristeza é inconsolável… mas vai ficar tudo bem… Eu voltarei e, então, a vossa alegria será completa!

Vai ficar tudo bem! É a certeza da Páscoa e de todas as páscoas que vamos experimentando, ainda que falte fazer caminho!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/19, n.º 4554, 7 de abril de 2020