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Archive for the ‘Liturgia’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Quaresma: viagem de regresso a Deus

Há um ano entrávamos na Quaresma com esperança, renovando nas nossas comunidades apelos e caminhadas, desafios para momentos de oração, de reflexão, de vivência de um dos tempos litúrgicos mais densos, com tradições e símbolos tão ricos que envolvem até os mais afastados da vida comunitária. Por outro lado, a abundância do turismo religioso que traz mais vida a aldeias, vilas e cidades.

Pouco tempo depois, o reconhecimento e a mitigação da pandemia levar-nos-ia a alterar planos, a suspender celebrações comunitárias, a catequese, encontros de formação, celebrações dos sacramentos. Suspender, adiar e esperar por melhores dias. E, momentaneamente, esses dias chegaram depois de uma Quaresma que se converteu em quarentena, em confinamento, em isolamento, em distanciamento físico. Vivemos à espera, em teledistância, com poucos contactos físicos, sem beijos nem abraços, e sem apertos de mão. Gradualmente ganhámos confiança e fomos regressando, os que regressámos, pois alguns, desde março, ainda receiam dar algum passo (em falso) fora de casa.

À medida que o tempo avançou, do verão ao Natal, tudo parecia estar a voltar, muito devagar, mas havia grandes expectativas de que não faltaria muito para retomarmos projetos ou avançarmos com novas propostas, no nosso caso, propostas pastorais e envolvimento das comunidades. O Ano Pastoral 2020-2021 da Diocese foi pensado nesta perspetiva, com precaução, mas abrindo e semeando sulcos de paz e de esperança, colocando possibilidades sobre a mesa. Janeiro acabou com muitas das nossas ilusões. Voltámos a um confinamento generalizado pela elevada pressão no SNS, centenas de pessoas mortas em consequência da COVID-19, e multiplicação de contágios. Agora vamos com mais calma e ponderação, ainda que alguns não tenham entendido, ainda, que todos estamos sujeitos a ser contaminados e a colocar em perigo a própria e a vida dos outros.

A Quaresma deste ano pastoral tem, desde o início, as marcas da pandemia. As ilusões são menores, mas a esperança deve ser renovada constantemente. Adaptamo-nos às circunstâncias, cuidando uns dos outros, até onde é possível e recomendável, mas não podemos esperar infindamente, de braços cruzados, de corações fechados, com a vida suspensa. A Igreja Católica deu sinais de ser pessoa de bem e de confiança, assegurando a máxima segurança nas celebrações dentro dos edifícios ou ao ar livre.

Na quarta-feira de Cinzas, o Papa deixou-nos mais uma interpelação significativa, caracterizando a Quaresma como uma viagem de regresso a Deus. O tempo é-nos dado por Deus, e só Ele sabe o dia e a hora; a nós cabe “gerir”, viver, valorizar as oportunidades, potenciar os talentos. “Quantas vezes, atarefados ou indiferentes, Lhe dissemos: «Senhor, espera! Virei encontrar-Vos mais tarde… Hoje não posso, mas amanhã começarei a rezar e a fazer algo pelos outros». E assim dia após dia… Agora Deus lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas hoje é o tempo de regressar a Deus”.

Prosseguindo, o Papa lembra-nos que a Quaresma envolve a vida toda. A configuração a Jesus deve ser total. A Quaresma coloca-nos em êxodo, da escravidão para a liberdade, um regresso, como o filho pródigo, à casa paterna, à ternura e abraço do Pai. “É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso… Curai o meu coração. Voltemos a rezar ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do louvor, que queima as cinzas das lamúrias e da resignação”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/15, n.º 4597, 23 de fevereiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Um Menino nos foi dado

O nascimento de uma criança é, ou deveria ser, uma bênção. Um bebé chega e altera tudo! Desinstala, incomoda, preenche tempos e espaços, exige atenção e cuidado. Vivemos num mundo de contradições várias, precisamos de ser férteis, nesta Europa envelhecida, e, no entanto, as taxas de natalidade continuam a ser muito baixas e todos os dias vemos agressões para com as crianças, abusos, tráfico, trabalho infantil, violência. Sem o nascimento de novos seres humanos não é possível a sobrevivência da humanidade e sabe-se que qualquer comunidade que não tenha crianças ou que as tenha num número reduzido tende a ser mais frágil, mais dependente do exterior, economicamente insustentável, pois são as crianças e os jovens que geram mais movimento e fazem circular a economia.

Jesus vem para desinstalar, para ser sinal de contradição, como sublinha o velho Simeão diante de Maria e de José, é Ele a Luz das nações (cf. Lc 2, 25-35). Nasce pobremente, numa manjedoura, sem grandes confortos, num ambiente pouco limpo, junto de animais. Ele que era rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, isto é, com a Sua vida, com o Seu amor (2 Cor 8, 9).

Vivemos num tempo diferente, com outras comodidades, mas temos consciência que o conforto sem o calor humano vale de pouco. Precisamos de comodidade, mas precisamos muito mais da amizade e de com quem partilharmos a vida. A vida, diz-nos Augusto Cury, “contém capítulos imprevisíveis e inevitáveis. Todo ser humano passa por turbulências na sua vida. A alguns falta o pão na mesa; a outros, a alegria na alma. Uns lutam para sobreviver. Outros são ricos e abastados, mas mendigam o pão da tranquilidade e da felicidade. Por isso há miseráveis que moram em palácios e ricos que moram em casebres”.

Aquele Menino obriga-nos a ajoelhar, a debruçar-nos sobre ele, a colocar-nos à mesma altura, para estarmos olhos nos olhos. Um Menino, numa manjedoura! Um Menino que é luz, bênção e alegria para aqueles pais, para mim e para ti, para a humanidade inteira. Quando queremos ver bem um bebé aproximamo-nos da mãe ou do berço, o que nos obriga a inclinar-nos ou a baixar-nos. O mesmo sucede se queremos conversar com uma criança de igual para igual, ajustamos a nossa altura, ajoelhamo-nos, adaptamos a voz, tornando-a mais suave (e muitas vezes acriançada, como se dessa forma a criança nos percebesse melhor!). Se olhamos a criança a partir de nós, ela ver-nos-á como gigantes; se a olhamos a partir dela mesma, da sua estatura, ela perceberá que queremos comunicar e lhe queremos bem.

Assim faz Deus connosco, em Jesus Cristo, abaixa-Se, apequena-Se, encarna, faz-Se um de nós, coloca-Se ao mesmo nível, da nossa carne, mortal e finito como nós, frágil e sujeito às mesmas vicissitudes, a ser amado, esquecido ou maltratado. Tudo por amor. Este Menino veio para ser luz e bênção e para ser sinal de contradição. Com a Sua vida próxima e terna ensina-nos que o caminho da salvação se veste de amor e de perdão, de serviço e de cuidado. Para sermos como Ele, e somo-lo enquanto discípulos missionários, não precisamos de nos agigantarmos diante dos outros, precisamos de nos despojar de adornos, tornando-nos crianças na docilidade e transparência, na sinceridade de coração.

Santo Natal a todos os que fazem a Voz de Lamego (edição, publicação, colaboração de textos, notícias e fotos, na publicidade e anúncios, assinantes, leitores e amigos) e a todas as famílias a quem esta boa nova chegar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/07, n.º 4589, 22 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: O encontro com o Senhor do Tempo

O tempo é uma espécie de espiral que se enlaça entre lutos e vidas novas, entre fins de ciclos que nos conduzem para novas situações e novos projetos. Com efeito, como seres humanos somos constituídos no tempo e inseridos no espaço, somos presente, enraizados no passado e impelidos para o futuro. As memórias solidificam o que somos e as capacidades que temos, permitem-nos caminhar entre as coisas boas que já fizemos, as menos boas que queremos e podemos evitar, para que na atualidade não sejamos fantasmas do que fomos. Por outro lado, como o amanhã pertence a Deus, olhamos para o futuro com esperança, pois Aquele que está no início também vai estar à nossa espera no final do caminho; Quem nos gerou para vida também garantirá que a nossa vida não se perde.

No final do ano litúrgico, particularmente nas parábolas de Jesus, que o Evangelho nos serve aos Domingos, somos colocados diante do Senhor do Tempo, como Juiz benevolente e Pai misericordioso.

No entretanto, sem Se ausentar, alheado e distante, Deus confia-nos o mundo, dá-nos o tempo, gratuitamente, os dons e os talentos, para que cuidemos uns dos outros e para administrarmos os bens da criação. A perspetiva não é o açambarcamento, mas a partilha que multiplica o que se dá! Como sublinha D. António Couto, o pecado dos primeiros pais não foi o comerem do fruto da árvore, mas o facto de o recolherem e o reterem só para si mesmos, sem deixar nada para outros. O que Deus dá não é para esconder, para guardar, mas para dividir. O que guardamos perde-se, o que damos multiplica-se.

No final da caminhada, Ele estará, como sempre, à nossa espera. Ajustamos contas, não com um estranho, mas com Alguém que nos conhece e que conhecemos. Precede-nos na vida e espera por nós para nos acolher na Sua habitação eterna.

O Reino de Deus é comparável a 10 virgens que esperam para receber e acompanhar o noivo ao banquete nupcial. Esperamos, não de braços cruzados, mas ativamente, vigilantes. Quem vai para mar prepara-se em terra. Parte do grupo prepara-se e leva azeite nas candeias e de reserva nas almotolias. As outras apostam na sorte: ou que o noivo venha cedo ou alguém possa ajudá-las caso fiquem sem azeite. Na verdade, somos responsáveis uns pelos outros. Mas há a responsabilidade pessoal, os outros não nos substituem, não vivem por nós. Deus não vive na nossa vez.

O reino de Deus é comparável àquele homem que partiu de viagem e confiou cinco talentos a um servo, dois a outro e um a outro. Os primeiros duplicaram o valor. O último, com medo, escondeu o talento, não produzindo. Não arriscou nada. O cristão é alguém que tem que arriscar. [Cf. Homilia do Papa Francisco no Dia Mundial dos Pobres, na página sete desta edição] O que nos é dado não é para devolver a Deus como Ele no-lo confiou, mas para o multiplicarmos, no cuidado por toda a criação, especialmente pela humanidade, e sobretudo na atenção privilegiada aos mais pobres, ao jeito de Jesus, traduzível na práticas das obras de misericórdia. No final seremos julgados pelo que fizemos aos mais pobres. É Jesus quem no-lo diz: o que fizeste aos mais pequeninos foi a Mim que o fizeste. A vida eterna começa em terra. O amanhã decide-se hoje, o final inicia-se na história e no tempo para que diante do Senhor do Tempo a nossa vida lhe seja entregue preenchida de amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/02, n.º 4584, 17 de novembro de 2020

Celebração da Vigília Pascal – Sé de Lamego – 11 de abril de 2020

No sábado santo, 11 de abril, o Senhor Bispo, D. António, presidiu, na Sé de Lamego, à Vigília Pascal deste ano de 2020 em que nos encontramos confinados a nossas casas em virtude da pandemia do COVID 19. A Eucaristia foi transmitida, via Facebook na página da Diocese em colaboração estreita com a Rádio Clube de Lamego.

Celebração da Paixão do Senhor – Sé de Lamego – 10 de abril de 2020

Na sexta-feira santa, teve lugar, na Sé de Lamego, a celebração da Paixão do Senhor, presidida pelo nosso Bispo, D. António, e transmitida pela rádio e via Facebook, pelas páginas da Diocese de Lamego e da Paróquia da Sé, seguindo a emissão da Rádio Clube de Lamego.

Editorial da Voz de Lamego: Uma Igreja em cada casa

Entrámos na Semana Maior da nossa fé. Estes eram dias de movimento, tempos de oração, de procissões, de encontro e de alegria interior. As igrejas compunham-se de gente devota. Mais ou menos expressivas, as celebrações apelavam e apelam ao recolhimento espiritual, à contemplação das últimas horas de Jesus, para culminar na Páscoa, com a Visita Pascal, anunciando a ressurreição de Cristo, de casa em casa, em todas as casas.

Como pároco, já ouvi, em forma de pergunta ou de lamentação: este ano não há Páscoa?! Sim, há Páscoa, pois não se deixa de celebrar a ressurreição de Jesus. Mas de um jeito muito diferente do habitual. Antes lamentávamos as igrejas vazias, mesmo quando tinham pessoas, agora efetivamente estão vazias. Todavia, também a Igreja procurou adaptar-se a estes tempos de confinamento caseiro, procurando que não se perca a ligação, a comunhão à comunidade, contando com a criatividade de muitos. Se antes, cada casa era chamada a ser Igreja doméstica, hoje, por maioria de razão, a Igreja é em cada casa, em cada família, pois é em cada casa que se reúne a família para rezar e aprofundar a fé e a esperança, vivendo a caridade.

Antes de chegarmos à Páscoa, à alegria da Ressurreição, há caminho a percorrer, há uma cruz a transportar, há um calvário a acolher, e tantas contrariedades a experimentar, especialmente neste tempo. A realidade pandémica do coronavírus paira como ameaça sobre todos, desafiando-nos, sempre, mas agora mais ainda, a cuidar uns dos outros, atendendo sobretudo às pessoas e famílias mais vulneráveis.

Vai ficar tudo bem!

A vida é um dom e uma bênção. Sempre! Mas, porque somos limitados e finitos, a vida pode complicar-se!

Vai ficar tudo bem!

O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus… vai ser morto… VAI FICAR TUDO BEM… três dias depois ressuscitará. A última palavra será da vida, do amor, da ressurreição, a última palavra será de Deus. Mas, porquanto, vivemos na penúltima palavra, estando sujeitos às coordenadas espácio-temporais e a lidar com as fragilidades, limitações e egoísmos uns dos outros.

Ao longo da Sua vida, Jesus não Se desvia do amor do Pai, traduzido em proximidade, cuidado e serviço a todos, preferencialmente aos últimos da sociedade. Instala-se uma revolução “silenciosa” de delicadeza, de ternura e de compaixão, de amor e perdão, de serviço e bondade. A luz, que é Jesus, ilumina e ofusca, desafia e provoca, clarifica o caminho e põe a descoberto a soberba, o egoísmo e a indiferença, expõe a maldade, as trevas e as maquinações. Se uns se sentem desafiados e envolvidos, outros sentem-se acossados e expostos! Olhamos para Jesus e olhamos para autoridades judaicas e não precisamos que nos deem explicações, são percetíveis as opções e a coerência de vida. E tal coerência gera irritação, ódio, e a necessidade urgente de apagar a chama que incendeia corações e vidas!

Vou partir… a vossa tristeza é inconsolável… mas vai ficar tudo bem… Eu voltarei e, então, a vossa alegria será completa!

Vai ficar tudo bem! É a certeza da Páscoa e de todas as páscoas que vamos experimentando, ainda que falte fazer caminho!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/19, n.º 4554, 7 de abril de 2020

Editorial da Voz de Lamego: vislumbra-se da Terra Prometida!

Na Quaresma, é-nos recordado a travessia do Povo de Israel e as suas tribulações pelo deserto. Quarenta horas, quarenta dias e quarenta noites, quaresma, quarentena! Quatrocentos anos pelo deserto, o tempo necessário para que uma geração dê lugar a outra, tempo de purgação, de extirpar pecado e as marcas da morte, da infinidade e da desconfiança.

A geração que entra na Terra Prometida não é a mesma que saiu do Egito, da escravidão, não é o povo que se voltou contra o seu Deus. Pelo caminho lento, duro, ziguezagueante, quase como a serpente que larga a pele para a substituir por outra, sinal de crescimento, assim uns vão passando o testemunho a outros, contando, de geração em geração, as maravilhas que o Senhor fez, apesar de todos os contratempos e desvios.

Também nós, que transcorremos o deserto, o isolamento social, uma quarentena, uma Quaresma mais longa e mais dura, não seremos os mesmos a entrar na Terra Prometida. Nem eu nem tu. Nem a sociedade. Nem a Igreja. Inevitavelmente seremos diferentes. Poderemos converter-nos ou tornar-nos cínicos. Converter-nos significará que o compromisso que assumimos como sociedade nesta crise se há solidificar na entreajuda. Cínicos, se a pandemia cristalizar os muros do medo, do egoísmo, da desconfiança e da indiferença. Nem tudo é branco ou preto, mas seja como for, como seres dotados de inteligência, no final teremos aprendido, amadurecido ou, pelo menos, envelhecido! Teremos aprendido a cuidar mais da higiene e uns dos outros e a saber que a ação individual tem implicações na sociedade. Muitas vezes ouvida, a expressão “estamos no mesmo barco” tornou-se por demais evidente. Levaremos tempo a esquecer que dependemos uns dos outros.

O Senhor Deus mostra a Moisés a terra da prometida e diz-Lhe: «Esta é a terra que jurei dar a Abraão, Isaac e Jacob. Dá-la-ei à vossa descendência. Viste-a com os teus olhos, mas não entrarás nela» (Dt 34, 1-4). Moisés não chegou a pisar a Terra Prometida, mas a alegria da proximidade permitiu-lhe morrer em paz, na esperança que a verdadeira promessa a encontraria em Deus e que cumpriu com a missão na qual foi revestido: guiar o Povo à Terra Prometida. Uma geração nova, amadurecida pela dureza do deserto, pelas adversidades do caminho, pelas perdas sofridas, pela resiliência em avançar, entrará finalmente na Terra Prometida. O risco agora é esquecerem tudo quanto o Senhor fez por eles, pois não fizeram a experiência da escravidão e subsequente libertação, através da liderança de Moisés.

Dentro da Quaresma, como preparação para a Páscoa, empreendemos uma quarentena, um caminho duro, adverso, contagioso. Tal como a Quaresma nos há de conduzir à Páscoa, a nossa Terra Prometida, que é Jesus Ressuscitado, também tudo faremos para que a quarentena nos permita ressuscitar como sociedade, fortalecida pela pandemia, renovada pela solidariedade. Não é demais dizê-lo: estamos no mesmo barco! Todos contam. Não deixemos ninguém para trás. Dependemos uns dos outros. Façamos o que está ao nosso alcance. A tempestade ainda decorre, a bonança há de chegar. Que a oração desperte para a comunhão e que a sabedoria que nos vem de Deus nos faça caminho com os irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/17, n.º 4552, 24 de março de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Deixai que o Menino chore

Como o Menino Jesus estava a chorar, São José terá dito a Nossa Senhora que era melhor dar-lhe uns açoites no rabo para que se calasse. A resposta de Maria é que deixem que o Menino chore porque Ele irá ter a sua conta de açoites, preanunciando as punhadas e as chicotadas que haveria levar em adulto, principalmente na aproximação ao Calvário. Une-se, nesta música antiga, originária dos monges de Coimbra, o Natal, a infância de Jesus, e a Paixão, os momentos de agressão para com Jesus. É este o contexto de uma música trabalhada e interpretada pelo “Bando Surunyo”, no concerto de Natal, na Igreja Matriz de Tabuaço.

Por ocasião do seu aniversário natalício, o Papa Francisco referiu-se a um presépio diferente: “Deixemos a mãe descansar”. Na representação, que rapidamente se tornou viral, Maria dorme enquanto José segura o Menino Jesus. Desta forma, o Santo Padre falava numa realidade concreta da família de Nazaré, mas também de muitas famílias, onde a ternura, a atenção e o cuidado predominam, onde o marido e a mulher se entreajudam nas lides domésticas. O nascimento de um filho, e os primeiros dias, e meses, altera por completo a vida em casa, multiplicando tarefas, acentuando o cansaço.

Deixar que o menino chore… nem sempre é fácil dizer não ao menino, contrariá-lo, deixar que chore, que faça birra, que caia e se suje, que brinque e tenha momentos em que não faz nada. Há, atualmente, uma necessidade imensa de preencher por completo a vida das crianças, não lhes dando tempo para pensar, para a espera paciente e também para momentos de rotina. Quer, dá-se-lhe; faz birra, cede-se-lhe; tem alguns momentos sem nada para fazer, passa-se-lhe o telemóvel para se ocupar. A agenda das crianças é tão preenchida que, por vezes, nem têm tempo para brincar: é preciso estudar, ir à natação, à música, ao Ballet, à dança, ao futebol. Uma correria constante. Há crianças começam a começar o stress!

No contexto que nos diz respeito mais diretamente, a catequese e a participação na Eucaristia, as crianças e adolescentes vão, e com gosto, se não houver um torneiro, uma competição, ou se as explicações forem noutro horário. Não estou a sugerir que a educação seja fácil. Os pais têm uma missão complexa e não é fácil encontrar equilíbrios. Não se pode deixar que as crianças decidam por elas o que fazer, mas também não se podem adultizar antes do tempo. A competividade pode ajudar no desenvolvimento, mas levada ao extremo gera conflito, comportamentos agressivos ou depressivos. Tem de se valorizar a tolerância, a diferença, a bondade. Tem de haver tempo para os jogos e as brincadeiras, para os intervalos, para a descontração.

Na passagem para um novo ano, vale a pena atender às palavras do Papa, para a ternura do Presépio e para a certeza que a vida (também nos propósitos) passa por pequenos gestos, concretos e reais. “Quem não é fiel no pouco, como se lhe pode confiar o muito?”

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/05, n.º 4540, 31 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Faz germinar em mim o Teu amor

Vivemos Advento, tempo de preparação para a celebração festiva do nascimento de Jesus. Tempo de graça e de salvação, em que o acontecer de Deus se traduz e concretiza no acontecer humano, pelo menos é isso que se deseja.

Neste caminho que percorremos – interiormente, mas sinalizado no ambiente que nos rodeia, luzes, arranjos natalícios e publicidade, e exteriormente, assim nos propomos, na prática do bem – somos envolvidos pela iniciativa de Deus, pela Sua graça infinita. Ele quer vir até nós, quer nascer em nós, quer frutificar em nós, ganhar raízes, habitar em nós, ficar connosco. Mas porque nos criou livres, não depende somente d’Ele, cabe-nos a nós acolher e responder ao Seu chamamento. Ele não pode entrar em nossa casa, mesmo que Se faça convidado, se não Lhe abrirmos a porta, se não O deixarmos entrar. Ele leva-nos a sério e respeita-nos, respeitando a nossa liberdade e as escolhas que fazemos.

Nesta iniciativa divina, Maria é escolhida desde sempre e desde sempre preparada para ser a Mãe do Filho do Deus Altíssimo. É este o mistério da sua Imaculada Conceição. Toda bela, toda pura, concebida sem sinal de pecado, para que n’Ela floresça o fruto do Espírito Santo. Por um lado, Deus que desce, diminuindo-Se para caber na humanidade, por outro lado, o melhor do ser humano na sua identidade original, imagem e semelhança de Deus. É neste encontro que Deus Se faz homem e que o homem poder ser divinizado em Jesus.

O privilégio de Maria é realizável também em nós, não na mesma dinâmica total, biológica e espiritual, mas na medida em que acolhamos a vontade de Deus como Ela o faz.

A iniciativa divina tem correspondência na resposta humana, na resposta de Maria. O Anjo vem da parte de Deus e surpreende Maria: “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo… encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e chamá-l’O-ás com o nome de Jesus… O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá. Por isso, o que é concebido santo será chamado filho de Deus”. A resposta de Maria não tarda, ainda que pause na surpresa do anúncio e no admirável mistério que está a acontecer: “faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 26-38)

Deus faz acontecer em nós, mas é preciso que O escutemos, que O acolhamos, que O procuremos, que O deixemos nascer em nós. Jesus nasce porque Maria diz “sim”. E, logo depois, ela dir-nos-á a condição para que o milagre aconteça em nós, para que a vida se realize na abundância: “O que Ele vos disser, fazei-o” (Jo 2, 5). Então, como o próprio Jesus o diz, se deixarmos que germine em nós o amor de Deus, na prática do bem, seremos verdadeiramente Seus discípulos, seremos verdadeiramente da Sua família (cf. Lc 8, 21).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/02, n.º 4537, 3 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Luz que recria o mundo

Nestes dias não faltam belíssimas reflexões sobre a Páscoa. A Voz de Lamego faz eco de algumas. Um dos momentos mais marcantes destes dias é a Vigília Pascal, pelos sinais e símbolos que nos fazem visualizar a história da salvação, com particular incidência no mistério da entrega confiante de Jesus ao Pai, por nós.

Luz, palavra, água e pão. A celebração inicia com a bênção do Lume Novo. A nossa Luz, sempre nova, é Jesus, morto e ressuscitado. Na Encíclica Lumen Fidei, em sintonia com Bento XVI, o Papa Francisco sublinha que a fé é sobretudo luz, ainda que haja momentos de grande sofrimento, em que a dúvida assola e a confiança fica abalada. Com efeito, “a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho… o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros” (n.º 57). As trevas podem ser imensas, mas basta a luz de um fósforo, de um isqueiro ou de um telemóvel, para nos conseguirmos mexer e avançar confiantes.

Há momentos que precisamos de uma palavra amiga, mas talvez precisemos de quem nos escute. Não resolve os nossos problemas, mas conforta-nos saber que alguém nos escuta e tenta compreender-nos. Para que as palavras não sejam vazias, a urgência da escuta. Nesta noite santíssima escutámos longamente a Palavra de Deus, perscrutamos a presença de Deus na história que nos encaminha para Jesus. A Quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna!

Água para o caminho. Quem bebe desta água, não volta a ter sede. Eu Sou a água viva. Tantas vezes em que um pouco de água fresca é o suficiente para equilibrar o nosso organismo, para tranquilizar a nossa sede, para nos dar forças para continuar a caminhar. A bênção da água, na Vigília Pascal, faz-nos recordar a água em que fomos batizados, a água que nos renova, tornando-nos novas criaturas. Senhor, dá-nos sempre dessa água! Um pouco de pão e de água. Eu Sou o Pão da vida. O Pão que Eu hei de dar é a Minha Carne. É um verdadeiro milagre Deus fazer-Se um de nós. Verdadeiro milagre que a morte seja superada pela vida, pela ressurreição. Milagre grandioso, que Jesus Se converta em Pão para se tornar alimento de muitos. Isto é o Meu Corpo, tomai e comei. É o Meu sangue, tomai e bebei!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/21, n.º 4507, 23 de abril de 2019