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Archive for the ‘Igreja’ Category

Editorial Voz de Lamego: Luz que recria o mundo

Nestes dias não faltam belíssimas reflexões sobre a Páscoa. A Voz de Lamego eco de algumas. Um dos momentos mais marcantes destes dias é a Vigília Pascal, pelos sinais e símbolos que nos fazem visualizar a história da salvação, com particular incidência no mistério da entrega confiante de Jesus ao Pai, por nós.

Luz, palavra, água e pão. A celebração inicia com a bênção do Lume Novo. A nossa Luz, sempre nova, é Jesus, morto e ressuscitado. Na Encíclica Lumen Fidei, em sintonia com Bento XVI, o Papa Francisco sublinha que a fé é sobretudo luz, ainda que haja momentos de grande sofrimento, em que a dúvida assola e a confiança fica abalada. Com efeito, “a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho… o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros” (n.º 57). As trevas podem ser imensas, mas basta a luz de um fósforo, de um isqueiro ou de um telemóvel, para nos conseguirmos mexer e avançar confiantes.

Há momentos que precisamos de uma palavra amiga, mas talvez precisemos de quem nos escute. Não resolve os nossos problemas, mas conforta-nos saber que alguém nos escuta e tenta compreender-nos. Para que as palavras não sejam vazias, a urgência da escuta. Nesta noite santíssima escutámos longamente a Palavra de Deus, perscrutamos a presença de Deus na história que nos encaminha para Jesus. A Quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna!

Água para o caminho. Quem bebe desta água, não volta a ter sede. Eu Sou a água viva. Tantas vezes em que um pouco de água fresca é o suficiente para equilibrar o nosso organismo, para tranquilizar a nossa sede, para nos dar forças para continuar a caminhar. A bênção da água, na Vigília Pascal, faz-nos recordar a água em que fomos batizados, a água que nos renova, tornando-nos novas criaturas. Senhor, dá-nos sempre dessa água! Um pouco de pão e de água. Eu Sou o Pão da vida. O Pão que Eu hei de dar é a Minha Carne. É um verdadeiro milagre Deus fazer-Se um de nós. Verdadeiro milagre que a morte seja superada pela vida, pela ressurreição. Milagre grandioso, que Jesus Se converta em Pão para se tornar alimento de muitos. Isto é o Meu Corpo, tomai e comei. É o Meu sangue, tomai e bebei!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/21, n.º 4507, 23 de abril de 2019

Editorial da Voz de Lamego – Isto escandaliza-vos? (Jo 6, 60)

Na passada quinta-feira, o Papa Francisco teve mais um gesto surpreendente e inusitado. Durante o encontro com líderes do Sudão do Sul, prostrou-se diante deles e beijou-lhe os pés. Comoveu os próprios, mas também o mundo.

Quando vi a notícia, não fiquei admirado, pois o Papa já nos tem surpreendido com outros gestos luminosos. Pensei de imediato: mais uma atitude a ser escrutinada pelos fariseus do nosso tempo, os levitas e doutores da Lei que passeiam pela Igreja, sem se sujar nem se misturarem com os mortais.

São João Paulo II, sempre que visitava um país pela primeira vez, ajoelhava-se e beijava o chão, gesto de humildade e de bênção para o território visitado. Este gesto faltou em Timor, então anexado à Indonésia, ainda que rezem as crónicas que o Papa iria beijar uma cruz colocada no solo, símbolo do sofrimento deste povo irmão, mas um pouco antes de chegar um soldado retirou a cruz.

Em quinta-feira santa, Jesus ajoelha-Se diante dos apóstolos e lava-lhes os pés. Gesto que repetimos, beijando também os pés. Pedro recrimina Jesus por lhe querer lavar os pés. Nem penses nunca coisa dessas! O servo é que lava os pés ao seu Senhor, não o contrário. Francisco antecipou e fez-nos ver a quinta-feira santa.

O Evangelho (LC 7, 36-50), apresenta o encontro de Jesus com uma mulher conhecida na cidade como pecadora. Um fariseu, Simão, tinha-O convidado para comer. Enquanto estava à mesa, veio uma mulher, com um frasco de alabastro com perfume. Chorando, lavou-Lhe os pés, com as lágrimas, enxugou-os com os cabelos e ungiu-os com perfume. É um gesto de intimidade, de humildade e de súplica. A esta mulher vale-lhe o perdão dos pecados, porque muito amou. Ao fariseu uma reprimenda: «…Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés…».

O Santo Padre tem consciência que não resolve todas as questões relacionadas com os conflitos que envolvem os sudaneses, mas sinaliza uma opção, reconhecendo o trabalho realizado e desafiando à firmeza na construção da paz e de um país justo.

“Nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Cor 22-23). Não é fácil agradar a gregos e a troianos e aqueles que o tentam, tal como Pilatos, lavando as mãos, não cumprem com a missão sublime de serem atores da história. Nem quentes nem frios, mornos, nem lá vou nem faço míngua. É curiosa a revelação de João acerca da Igreja de Laodiceia: “Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno – e não és frio nem quente – vou vomitar-te da minha boca” (Apo 3, 15-16).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/20, n.º 4506, 16 de abril de 2019

Padre Isidro Ribeiro da Silva | 1936-2019

O Padre Isidro Ribeiro da Silva nasceu a 20 de julho de 1936 em Magueija, Lamego.

De 1948 a 1953 fez os então chamados Estudos Preparatórios na Escola Apostólica da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, em Macieira de Cambra. Entrou no Noviciado da Companhia de Jesus, no Seminário da Torre, Soutelo (Braga), no dia 7 de Setembro de 1953, emitindo os primeiros votos a 8.9. 1955. Fez ali também os três anos de Juniorado (curso de Humanidades) de 1955 a 1958.

Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Filosofia de Braga, de 1958 a 1961, com a tese “O antipsicologismo nas Investigações lógicas de Husserl”, publicada na Revista Portuguesa de Filosofia, em 1962.

Fez três anos de magistério em Soutelo-Braga, ensinado Latim e Grego, com as respetivas literaturas, aos juniores, Latim aos noviços e por algum tempo, Francês aos irmãos noviços coadjutores, de 1961 a 1964.

Estudou Teologia em Roma, na Universidade Gregoriana, e na Faculdade de Teologia de Granada, Espanha.

Foi ordenado sacerdote em Fátima em 15.7 1967, por D. João Pereira Venâncio, Bispo de Leiria, no cinquentenário das aparições.

Fez a chamada “terceira provação” (Espiritualidade e Instituto S.J.) em Gandia, Valença- Espanha, em 1968-69. De seguida frequentou o Instituto Superior de Pastoral Leão XIII da Universidade de Salamanca, entre 1969 e 1971.

Em outubro de 1971, foi destinado à Casa de Escritores S. Roberto Belarmino, em Lisboa, como escritor e redator da Revista Brotéria.

Emitiu os últimos votos em 5.11.1975, no Colégio de S. João de Brito, em Lisboa.

Foi colaborador nos três primeiros volumes da Enciclopédia Verbo de Cultura, e das revistas Magnificat (Braga) e Proyección (Granada-Espanha). Publicou uma antologia de textos extraídos da “Nova Floresta” do Pe. Manuel Bernardes.

Durante alguns anos orientou Exercícios Espirituais, mas, em face da situação difícil da Brotéria, por insistência dos Provinciais da Companhia de Jesus, consagrou-se por inteiro à revista, mantendo a colaboração assídua em paróquias de Lisboa e na margem sul do Tejo.

Dado o fenómeno migratório português, dedicou, ao longo de 28 anos, os meses de verão a substituir párocos estrangeiros, relacionados com capelães de emigrantes portugueses: em França e sobretudo na Alemanha.

Faleceu em Lisboa a 6.4.2019, com 83 anos de idade e 65 anos na Companhia de Jesus.

R.I.P.

in Voz de Lamego, ano 89/19, n.º 4505, 9 de abril de 2019

Editorial Voz de Lamego: dilatar o horizonte familiar

“A minha Mãe e os meus irmãos são estes: os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 21). A resposta de Jesus obriga a alargar o horizonte da família além dos laços sanguíneos. Jesus há de repreender os seus discípulos por quererem proibir um homem de expulsar demónios em Seu nome, porque não faziam parte do grupo! Os discípulos querem ter o exclusivo de Jesus. “Não o impeçais… quem não é contra nós, é a nosso favor” (Mc 9, 38-41).

Um dos assuntos do dia, nos meios de comunicação social, tem sido o nepotismo governamental. Claro que não é este nem o tempo nem o espaço para discutir a questão (pelo menos politicamente). Têm-se esgrimido argumentos e razões. Parece que mudam as cores, mas as práticas são idênticas, em maior ou menor proporção. Amigos e familiares vão tendo as portas escancaradas para assumirem cargos de responsabilidade, acompanhados por remunerações significativas. É possível que alguns tenham competência e façam um bom trabalho, mas haverá outros que só acedem a esses lugar pela amizade ou pelo parentesco. Não é exclusivo nem deste governo, nem do governo central. Também localmente isso acontece.

Mas cabe-nos perguntar? E como agiríamos nós? Estando num cargo de decisão e tendo que empregar, nomear ou escolher alguém para um lugar, quem escolheríamos? Um familiar? Um amigo? Um estranho? Alguém de quem não gostássemos muito? Optaríamos por uma pessoa da nossa confiança ou a pessoa mais competente para a tarefa a desempenhar?

Num momento de reflexão, a RFM (Rádio do Grupo Renascença), levantava precisamente esta questão. Aproveitando a oportunidade criada por esta polémica, importa interrogar-nos: como é que agimos nos grupos e movimentos eclesiais? “Nós amamos aqueles que são nossos, que são como nós, que se parecem connosco, que pensam como nós. Nós amamos os que nos amam e são bons para nós. Nós amamos aqueles que nos divertem e no lisonjeiam” (Cardeal O’Malley. Ver sugestão de leitura ao lado).

Quando uma pessoa é do nosso grupo, facilmente a elogiamos ou ao trabalho que realiza. Se pertence a outro grupo (eclesial), se não está no meu rol de amigos ou família, o que faz é só para se exibir ou não faz nada de jeito. Por certo, temos pessoas com as quais podemos contar e a quem podemos recorrer, sabendo que não nos vão deixar na mão. Mas seremos suficientemente criativos e despojados para confiarmos noutras pessoas, chamarmos mais gente, desafiarmos aqueles que vêm só esporadicamente?!

O desafio do Mestre da Vida é claro: ide por todo o mundo, fazei discípulos de todas as nações. Amai os vossos inimigos. O desafio do Papa Francisco é perentório: Igreja em saída, cristãos como o Bom Pastor em busca das ovelhas perdidas, preferência pelas periferias (existenciais).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/19, n.º 4505, 9 de abril de 2019

Editorial Voz de Lamego: Lutar pela toalha

O Cardeal Seán O’Malley, Arcebispo de Boston, orientou os Exercícios Espirituais aos Bispos Portugueses, de 11 a 15 de março, em Fátima. Esta foi a segunda vez que o fez, pois já em 1996 o tinha feito. Reflexões e homilias desses dias, bem como outras reflexões, mensagens, intervenções, integram um livro publicado nesta ocasião, em Portugal, aproveitando a sua presença em Fátima, sob o título “Procura-se: Amigos e Lavadores de Pés”. Teremos ocasião de o apresentar, oportunamente, como uma das leituras, na secção ao lado. Para já recuperámos uma expressão que nos faz perceber a obra, mas, de um modo mais abrangente, a Igreja de Jesus, anunciada, vivida e servida pelo Papa Francisco, a quem o autor dedica precisamente estes textos.

No decorrer da Última Ceia, Jesus levanta-Se da mesa, coloca uma toalha à cintura e começa a lavar os pés aos discípulos. A preocupação é exemplificar o seguimento e o compromisso daqueles e daquelas que queiram integrar o Seu Corpo que é a Igreja. Jesus, como em outras situações, não faz grandes discursos, exemplifica, mostra como se faz, ou faz-nos atores de uma história (parábola), para nos sentirmos suficientemente livres para optarmos, seguindo-O ou rejeitando-O. O Cardeal refere-o desta maneira: “Ele queria que os seus Apóstolos, os seus Amigos, parassem de disputar os primeiros lugares à mesa e começassem a lutar pela toalha”.

Ao longo do seu pontificado, que leva 6 anos, o Papa Francisco tem procurado fazer como Jesus, mais do que com discursos bem elaborados (o que também faz muito bem), tem assumido gestos luminosos, provocadores, por vezes mais acintosos do que aquilo que ouviríamos a Jesus, mas talvez porque no nosso tempo os apóstolos e discípulos, que somos, tenham uma carapaça mais dura, estejam mais acomodados, tenham mais argumentos (ou assim o entendemos). Ouvimos os pais a dizerem que educar os filhos neste tempo é muito mais difícil de quando eles próprios eram filhos. Os tempos são outros. A expressão adequa-se a todos nós. Os tempos são outros, somos pecadores como os Apóstolos de então, mas justificamo-nos mais rapidamente e levamos mais tempo a compreender que é para nós que Ele fala. Jesus não fala para o vizinho ou para a vizinha. É para mim. É para ti. É para todos. É para cada um de nós.

Aproximava-se rapidamente a Cruz e os Apóstolos apressavam-se a disputar a coroa, o primeiro lugar à mesa, o ministério mais honroso e com mais poder. Abertamente, em mais que uma ocasião, Pedro contesta Jesus. Quando necessário, pega na espada! Mas todos eles querem ser o primeiro, o maior! O caminho de Jesus é o do servo, daquele que disputa a toalha!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/18, n.º 4504, 2 de abril de 2019

Editorial Voz de Lamego: Igreja pobre para os pobres

Porque essa foi a opção de Jesus, que sendo rico, sendo Deus, Se fez pobre, humanizando-Se, para nos enriquecer com a Sua pobreza (cf. 2 Cor 8,9), sendo que a pobreza com que nos enriquece é o Seu Amor que se consome até ao fim, por nós, por mim e por ti, ontem, hoje e em cada dia!

Foram estas as palavras que o Papa proferiu três dias depois de ser eleito, a 16 de março de 2013, no encontro com os representantes da comunicação social. Começou por deixar claro o centro: “Cristo é o Pastor da Igreja, mas a sua presença na história passa através da liberdade dos homens: um deles é escolhido para servir como seu Vigário, Sucessor do Apóstolo Pedro, mas Cristo é o centro. Não o Sucessor de Pedro, mas Cristo. Cristo é o centro. Cristo é o ponto fundamental de referimento, o coração da Igreja. Sem Ele, Pedro e a Igreja não existiriam, nem teriam razão de ser. Como repetidamente disse Bento XVI, Cristo está presente e guia a sua Igreja. O protagonista de tudo o que aconteceu foi, em última análise, o Espírito Santo. Ele inspirou a decisão tomada por Bento XVI para bem da Igreja; Ele dirigiu na oração e na eleição os Cardeais”.

Logo depois vem a explicação da escolha do nome: “Alguns não sabiam por que o Bispo de Roma se quis chamar Francisco. Alguns pensaram em Francisco Xavier, em Francisco de Sales, e também em Francisco de Assis… Na eleição, tinha ao meu lado o Cardeal Cláudio Hummes, o arcebispo emérito de São Paulo e também prefeito emérito da Congregação para o Clero: um grande amigo! Quando o caso começava a tornar-se um pouco «perigoso», ele animava-me. E quando os votos atingiram dois terços, surgiu o habitual aplauso, porque foi eleito o Papa. Ele abraçou-me, beijou-me e disse-me: «Não te esqueças dos pobres!» E aquela palavra gravou-se-me na cabeça: os pobres, os pobres. Logo depois, associando com os pobres, pensei em Francisco de Assis. Em seguida pensei nas guerras, enquanto continuava o escrutínio até contar todos os votos. E Francisco é o homem da paz. E assim surgiu o nome no meu coração: Francisco de Assis. Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e preserva a criação; neste tempo, também a nossa relação com a criação não é muito boa, pois não? [Francisco] é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre… Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!”

E na continuação dos dias e dos anos, já vamos em 6, o Papa Francisco tem mostrado que a atenção aos pobres implica o bom uso dos bens que lhe/nos são confiados. Estava bem preparado!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/17, n.º 4503, 26 de março de 2019

Editorial Voz de Lamego: A Igreja de Francisco

Antes de mais, quero dizer com alegria: o Papa Francisco é o meu Papa. E para enunciar as suas qualidades não preciso de contrapor a outro Papa, canonizando um e diabolizando outro. Creio que os detratores de um são sensivelmente os detratores do outro, ou pelo menos, aqueles que mais pedras colocam no seu caminho, pois a predisposição para se servir da Igreja não desaparece. Quando muito poderiam estar sonolentos, saciados, refastelados, a serem servidos. Outro tempo, algumas mudanças, e, como no tempo de Cristo, os adormecidos começam a acordar, a ver que não têm o lugar seguro, ou que o testemunho os expõe perante as pessoas, perante o mundo, pois a distância na postura não deixa margens para dúvidas.

Eleito uns dias antes (13 de março), o Papa Francisco dava início ao seu pontificado a 19 de março de 2013, há 6 anos, Solenidade de São José, colocando o seu pontificado sob o protetorado do Padroeiro Universal da Igreja.

Os primeiros dias do seu pontificado ficaram marcados pelas suas palavras no início do conclave que viriam a elegê-lo como 266.º Papa da Igreja, defendendo que a Igreja deveria ser Igreja em saída, e não autorreferencial. Uma Igreja lunar que reflete a luz de Cristo e não a luz própria e, como Ele, ir em busca das 99 ovelhas que andam arredias, ir às preferiras (também geográficas, mas sobretudo) existenciais. Prefiro, diria várias vezes o Papa argentino, uma Igreja acidentada por sair que uma Igreja adoentada por ficar!

Nem de Apolo nem de Paulo nem de Pedro, a Igreja de Francisco é a Igreja de Jesus Cristo, o Bom Pastor que toma sobre si o cuidado de todo o rebanho, como servo dos servos de Deus, com a responsabilidade de guiar o caminho de todos, como candeia que vai à frente a iluminar o caminho, e vem atrás para dar ânimo às ovelhas perdidas, desgarradas, desencontradas.

É conhecido o episódio em que Francisco de Assis percebe a voz de Deus: reconstrói a minha Igreja. Francisco de Assis levou a sério esta inspiração. Mais importante que as estruturas e os meios, ainda que importantes, terão de ser as pessoas. Uma Igreja pobre, imitando Cristo, para os pobres.

Como o próprio já o referiu, a simplicidade não significa ingenuidade. O Papa está ciente que audiências gerais com alguns homens poderosos não passam de charme, mas não pode deixar de anunciar a todos o Evangelho de Jesus Cristo: a ternura e a compaixão, o perdão e a justiça, a misericórdia e o amor, o serviço e cuidado sobretudo aos mais frágeis, sem excluir ninguém, optando pelas pontes ao invés dos muros, escolhendo a verdade e a justiça ao invés da hipocrisia e a da acomodação.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/16, n.º 4502, 19 de março de 2019