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Archive for the ‘Fé’ Category

Falecimento do Pai do Pe. Rui Borges

No último sábado, 2 de outubro, o Senhor do tempo e da eternidade, Deus da Vida e da Amizade, chamou a Si o Sr. Acácio Alves Pinto Ribeiro, pai do reverendo Pe. Rui Manuel Borges, pároco de Caria e do Carregal, na Zona Pastoral de Moimenta da Beira.

Em comunhão e em nome do presbitério da nossa diocese de Lamego, o Senhor Bispo, D. António Couto, endereça ao Pe. Rui, à família e aos amigos, as condolências, comungando da dor e da fé, desta esperança que nos abre a mente, o coração e a vida para Deus que é Pai e nos ama desde sempre e para sempre. Ele que nos chamou à vida, no Seu infinito amor, não nos abandona em nenhum momento da nossa existência, nem no final biológico/histórico. Com efeito, é este o mistério da nossa fé: a morte, em Jesus Cristo, dá lugar à vida plena e definitiva, com a ressurreição um vida nova e definitiva. Aquele que ressuscitou Jesus Cristo também nos ressuscitará a nós.

Celebrações Exequiais:

  • Domingo, 3 de outubro, pelas 15h00: Eucaristia na Igreja Paroquial de Caria;
  • segunda-feira, 4 de outubro, pelas 15h00: Eucaristia Exequial e funeral, na Igreja Paroquial da Penajóia, em Molães.

Rezemos pelo Sr. Acácio, que Deus acolhe no Seu coração de Pai, e pela família para que encontrem na fé e na Palavra de Deus, a esperança na vida eterna e na ressurreição dos mortos em Cristo Jesus.

Editorial Voz de Lamego: aos pés de Nossa Senhora

@Hermínio Lopes / @ Voz de Lamego

A edição desta semana do nosso jornal diocesano assinala-se pela Festa e Romaria de Nossa Senhora dos Remédios, fixada na Natividade de Maria.

O nascimento de um bebé, na cultura semita como em muitas outras culturas, é uma bênção para a família, antes de mais, e para a povoação. Se atendermos aos Censos 2021 e para a percentagem de natalidade talvez percebamos o quanto estamos a precisar que esta aumente exponencialmente, pelo menos na Europa, muito em Portugal e, por maioria de razão, no interior Norte. A diocese de Lamego, e as 223 paróquias que a constituem, tem vindo a juntar ao envelhecimento populacional a desertificação, além da emigração que continua também em alta. A diminuição de pessoas na maioria das paróquias levava-nos a pensar que saíam das aldeias para as vilas e cidades, mas nos últimos anos também as sedes dos concelhos têm vindo a perder residentes.

A comemoração litúrgica dos santos está fixada, habitualmente, no dia da morte, o “dies natalis”, nascimento para a eternidade. Mas como os dias do ano se vão preenchendo, alguns têm o dia da comemoração nos dias próximos ao da morte ou a assinalar algum momento importante das suas vidas, a conversão ou o início de uma missão. Alguns santos Papas são comemorados no dia em que iniciaram o pontificado. De Jesus e de Nossa Senhora assinalam-se diversas solenidades, festas, comemorações, mais universais ou mais nacionais, mais regionais ou mais locais. De referir que também de São João Batista se celebra o nascimento (24 de junho) e o martírio (29 de agosto).

A maioria das pessoas comemora o aniversário natalício, mas também outras datas festivas. O Papa Francisco tem insistido para que se comemore o Batismo, dia em que nos tornamos novas criaturas pela água e pelo Espírito.

O aniversário é um instante, mas pode ser oportunidade para agradecer a vida, para refletir sobre o caminho percorrido, para avaliar a direção em que se vive. No caso dos santos, é uma belíssima ocasião para confrontarmos a vivência da nossa fé e a nossa configuração a Jesus Cristo. Os santos, amigos de Jesus, fazem-nos sentir mais próximos d’Ele e deixam ver que é possível viver a fé em situações díspares e em circunstâncias diversas. O padroeiro/patrono de uma paróquia, de uma Igreja ou de uma profissão, de uma aldeia, de uma cidade ou de um país obriga-nos, no mínimo, a pensar as razões para ter sido escolhido um e não outro. Na dinâmica cristã, não apenas a raiz história e a tradição, mas aquilo que, hoje, aqui e agora, nos diz esta festa, este santo. Vejamos então o convite que nos faz Maria na celebração do Seu nascimento e na evocação de Senhora dos Remédios.

O Santuário de Nossa Senhora está situado sobre a cidade de Lamego, no monte de Santo Estêvão, com um escadório que nos traz ao chão (propriamente dito) da cidade ou desta nos faz subir, degrau a degrau, até ao cimo, ao lugar em que se venera a Mãe de Deus e nossa Mãe, para Lhe pedirmos auxílio e proteção, para que seja remédio para os nossos achaques, sejam eles corporais ou espirituais.

Desde o início do cristianismo que os discípulos de Jesus, os cristãos, souberam acolher Maria de uma forma muito carinhosa, pois é esse também o mandato de Jesus: eis aí a Tua Mãe… A partir daquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa. Cada discípulo. Levamo-l’A para a nossa casa, para a nossa vida, colocamo-nos, como a cidade de Lamego diante do Santuário, aos Seus pés, para escutar a Sua oração, para rezarmos com Ela, para nos deixarmos contagiar por Ela, a cheia de Graça, para com Ela aprendermos a gerar Jesus, a amar e anunciar o filho de Deus ao mundo inteiro, comunicando alegria e apressando-nos a levá-l’O a todos, pela voz e pela vida.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/41, n.º 4623, 8 de setembro de 2021

Editorial: Submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo

“Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38). Em resposta ao chamamento divino, Maria apresenta-se pronta a servir, a esvaziar-se de si para se encher de Deus.

Ninguém é neutro ou imparcial. Na linguagem, na biologia, na psicologia, há tendência de excluir palavras que signifiquem opção, escolha, diferença, optando pelo neutro, pelo insosso, pelo indiferente e indistinto, colocando tudo no mesmo patamar, tudo relativizando. O curioso é que esta pretensa neutralidade irrompe (sobretudo) de grupos, movimentos, associações ideologicamente extremistas, excludentes de outras opiniões, à procura de provocar ruturas. A tolerância não tem a ver com indiferença, mas com aceitação do outro e de respeito pelas suas convicções.

Um dia destes ouviremos alguém a dizer que “de passagem” ouviu estas palavras de Maria e a Sua escolha e dirá que não se compreende como ainda são proclamadas na Eucaristia!

“As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor… como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos”.

No 21.º Domingo do Tempo Comum (ano B), escutámos um texto da missiva de São Paulo aos Efésios (5, 21-32). Não damos a mesma atenção a todas as leituras, até porque já as conhecemos! A Palavra de Deus deve ser escutada e não apenas ouvida. Daí a recomendação, sempre urgente, da formação cristã. Por outro lado, o desafio a que as leituras de Domingo se leiam previamente, durante a semana, e algum comentário que ajude a perceber o contexto e ajude a visualizar melhor a forma de viver a Palavra de Deus na atualidade.

Este pedaço de texto foi partilhado e comentado como escandaloso, advogando a distração dos cristãos ou a suposta perpetuação da discriminação das mulheres em relação aos maridos. Atente-se: a leitura começava assim: “Irmãos: Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo”. É uma mensagem firme e inequívoca que a todos implica, o cristão não pode senão amar ao jeito de Jesus. O apóstolo volta-se então para as esposas. Obviamente que o texto tem o seu contexto e o autor sagrado, ainda que inspirado por Deus, inserido na comunidade crente que reflete, acolhe e amadurece a Palavra transmitida e colocada por escrito, não é um robot que reproduz um ditado, mas um ser humano com um vocabulário específico e sujeito às coordenadas culturais e religiosas. Os textos de Paulo não são iguais aos de Pedro ou de Tiago.

A leitura continua. “Maridos: amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela”. Há uma ligação, um mistério, que une Cristo e a Igreja! A Igreja vive, serve e testemunha Jesus Cristo que, primeiramente, amou e Se entregou por ela.

O essencial é amar ao jeito do Mestre gastando a própria vida a favor dos demais. Cristo amou e entregou-Se pela Igreja. É o modelo do amor para os casais, mas igualmente para toda a Igreja, para cada batizado. Submetei-vos uns aos outros, colocai o outro em primeiro lugar, servi-o e amai-o, em Cristo, que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por nós. A “submissão” entende-se, habitualmente, como subjugação ao outro, situação de dependência e de escravidão, e até de humilhação desumana. Na lógica do Evangelho, contudo, prevalece a submissão por amor, voluntária, como escolha. A Vida, diz Jesus, ninguém ma tira, Sou Eu que a ofereço. Ele que era de condição divina, não se valeu da Sua igualdade com Deus, mas humilhou-Se a Si mesmo e tornou-Se obediente até à morte. Não há maior submissão do que esta. Sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, despojado de todo o poder e majestade, revestido somente de amor, de compaixão e de ternura.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/40, n.º 4622, 1 de setembro de 2021

Falecimento da Mãe do Pe. Agostinho Ramalho

Deus, Senhor do tempo e da história, na Sua infinita sabedoria e bondade, chamou a Si, para a Sua morada eterna, a Sra. D. Maria Nazaré Ramalho Matança, mãe do Pe. Agostinho Ramalho, pároco de Lalim, Lazarim e Cepões, no Arciprestado de Lamego.

O Sr. Bispo, D. António Couto, em comunhão e em nome do Presbitério de Lamego, manifesta o seu pesar ao reverendo Pe. Agostinho, aos seus familiares e amigos, confiado, na oração e na fé, na ressurreição dos mortos e na vida eterna. A comunhão de sentimentos, remete para a esperança na vida em Deus, no tempo e na eternidade e, assim, agradecendo a Deus por todo o bem operado nesta e através desta nossa irmã, confia que, na glória de Deus, continuará a rezar pelo seu filho, pela sua família e toda a família cristã.

A celebração das Exéquias realizar-se-ão em Bigorne, na Igreja Paroquial, pelas 18h00, seguindo-se o sepultamento no cemitério local.

Deus lhe conceda a vida eterna e à família e amigos a esperança da imortalidade.

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Editorial VL: GOSTO MAIS, MUITO MAIS DE MARTA

Gosto mais de Pedro. E também gosto de Judas, por ter sido um dos discípulos mais próximos de Jesus, homem de confiança, a quem foi confiada a administração dos parcos bens que iam recebendo para acomodar o estômago e circular entre povoações!

De Judas há de dizer-se muita coisa, mas no final só o juízo de Deus será definitivo. Tinha tudo para ser líder, inteligência e capacidade de gestão, mas perdeu-se a meio e não foi capaz de deixar que a Luz de Jesus destronasse as trevas que o vinham a consumir. Há estudiosos que sustentam que o último gesto de Judas, o suicídio, além dos fusíveis meios fritos, foi uma tentativa de se encontrar mais rapidamente com o Seu único Senhor, Jesus Cristo, no Paraíso.

Gosto muito mais de Pedro, porque é o Padroeiro da minha terra, Penude, onde nasci como cristão, onde comunguei pela primeira vez, onde celebrei a minha “Missa Nova”. Gosto muito de Pedro, não tanto por se tornar a Pedra sobre a qual Jesus constituiu a Sua Igreja, o que é deveras importante, mas pela sua espontaneidade. Esta valeu-lhe algumas reprimendas da parte do Mestre dos Mestres. Pedro tem o coração ao pé da boca, diz o que lhe dá na real gana, não mede o que diz, primeiro diz e só depois é que pensa. Mas é genuíno. Não tem duas caras, a não ser quando Paulo lhe mostra a duplicidade perante cristãos oriundos do judaísmo ou cristãos originários dos gentios! Mas nessa altura já Pedro está temperado pela humildade e pela luz da Páscoa, e reconhece que Paulo clarifica o caminho de Jesus.

Gosto muito de Marta, por alguns dos motivos pelos quais gosto muito de Pedro. Já lá vamos. Primeiro dizer que este “gostar mais” não é tanto uma comparação em relação a Maria ou a Lázaro! É uma família acolhedora, hospitaleira, próxima de Jesus. A casa deles, a família, o coração deles está disponível para Jesus, nas partidas e nos regressos.

No dia 29 de julho celebrávamos a memória litúrgica de Santa Marta. A 2 de fevereiro, deste ano, a Santa Sé decretou que a Igreja passasse a celebrar, nesse dia, os Santos Marta, Maria e Lázaro numa única Memória Litúrgica. Através de Lázaro, Jesus amadurece ou prepara a fé dos Seus discípulos na ressurreição. Com Maria, descobrimos a urgência, a primazia, a necessidade de estarmos aos pés de Jesus, para sintonizarmos o nosso com o Seu coração, para O escutarmos. De algum modo, como o discípulo amado, também Maria ajusta o bater do seu coração ao bater do coração de Jesus. Está tão perto d’Ele, que ouve este compasso com o qual sincroniza a sua vida.

Gosto mais de Marta, porque nela se visualiza uma faceta que o Papa tem acentuado em relação, por exemplo, a Abraão, a faceta de uma oração direta, sem medo, pronta a enfrentar o próprio Deus. Abraão negoceia o “destino” de Sodoma e Gomorra, até à exaustação. Na hora decisiva, a opção é por Deus, a quem confia o seu filho único. E por isso, porque confia em Deus, nele, Deus abençoa as nações da terra inteira. Ou como Jacob que luta com Deus até de madrugada!

Quando Marta se atarefa toda, afronta e enfrenta Jesus: não te importas que minha irmã fique na conversa? Após a morte de Lázaro, quando Jesus se aproxima, Marta corre ao Seu encontro e diz-lhe das boas: se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido! Direta, espontânea, confia em Jesus, revela uma grande fé, mas não deixa de Lhe fazer chegar o seu protesto, a sua oração. E, por isso, hoje gosto mais de Marta, porque me ensina a rezar em todos os momentos, mesmo sem guião!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/38, n.º 4620, 4 de agosto de 2021

Falecimento do P. Acácio Ferreira Soares | 1924-2021

Na celebração dos 60 anos de sacerdote, em celebração presidida por D. Jacinto Botelho, então Bispo de Lamego

O Senhor Deus, Pai de bondade, Senhor do tempo e da história, chamou à Sua morada eterna, o nosso irmãos, Cónego Acácio Ferreira Soares, nascido a 14 de maio de 1924, em São Cristóvão de Nogueira, concelho de Cinfães, frequentou os semanários diocesanos, de Resende e de Lamego, e foi ordenado a 3 de setembro de 1950.

Logo após a ordenação sacerdotal, foi enviado como Pároco para Chavães e Vale de Figueira, no concelho de Tabuaço. Posteriormente, foi nomeado Prefeito e responsável da disciplina no Seminário Maior de Lamego. Foi ainda Diretor da Obra Diocesana das Vocações e Diretor Espiritual.

Em 01 de janeiro de 1969, tomou posse da Paróquia de Cinfães, onde serviu durante 38 anos, até 22 de outubro de 2006, e onde residia presentemente.

O Sr. Bispo, D. António Couto, nosso Bispo, manifesta a sua comunhão aos familiares e amigos, às comunidades que o Cónego Acácio serviu ao longo da sua vida sacerdotal, unindo-se em oração, na esperança na ressurreição dos mortos e na vida eterna. Esta esperança, faz-nos agradecer a vida, o ministério sacerdotal, certos que, junto de Deus, o P. Acácio falará/rezará por nós.

A celebração das Exéquias será na Igreja Matriz de Cinfães, amanhã, pelas 11h00, indo a sepultar no cemitério local.

Deus lhe dê o descanso dos justos e a nós a sabedoria por comunicarmos vida e bênção.

Editorial Voz de Lamego: Noah e as teorias da conspiração

O pequeno Noah esteve desaparecido umas 36 horas. Logo dispararam os alarmes: rapto, negligência dos pais? O que aconteceu? O que se supõe que terá acontecido? Horas e horas de diretos! E, para alguns, a ligação imediata ao caso Maddie.

Ficámos com a sensação que para alguns teria sido preferível encontrar a criança sem vida ou concluir que tinha sido raptada. Parece que tudo encaixaria melhor! Como é possível que um menino de dois anos e meio tenha sobrevivido tanto tempo e percorrido cerca de 10 km, ao relento e sem comer? Pelo caminho foi largando roupas e calçado…

A preocupação de pais, de autoridades e de muitos voluntários foi encontrá-lo quanto antes com vida. Muitos se regozijaram com a descoberta de Noah com vida. Novas suspeitas?! Uma história mal contada! Para já, tanto quanto se sabe, não há indícios de rapto e/ou ação criminosa.

Semelhanças com o caso Maddie? Pelo menos duas diferenças significativas. Os pais de Noah não saíram para uma noitada, mas saiu o pai para trabalhar, de madrugada, sendo suposto que às oito horas da manhã os dois irmãos ainda estivessem pela cama. Por outro lado, não foi numa cidade pejada de turistas, mas na tranquilidade do campo.

Tempos de suspeita, juízos de opinião rápidos e apressados, sob necessidade de destrinçar qualquer mistério. Quando nos deparamos com situações demasiados óbvias, o grau de suspeita mantém-se ou aprofunda-se ainda mais. Parece que por detrás de tudo há algum tipo de conspiração, que alguém está a mentir ou a sonegar informação! Não podemos confiar em ninguém! Não podemos ser ingénuos e acreditar em tudo o que nos dizem! Anda meio mundo a enganar outro meio!

Um texto que lemos/escutámos por estes dias, traz-nos a figura de Job. Job era um homem justo, piedoso e temente a Deus. Tinha sete filhos e três filhas. Tinha muitas posses, centenas de cabeças de gado. A determinada altura, morrem a mulher, as filhas e os filhos, morrem-lhe os animais. Fica na penúria. Os amigos de Job tentam encontrar uma explicação lógica. Para eles, a culpa é de Job, consequência do seu mau proceder, pois Deus é justo e castiga com conta, peso e medida. Job, olhando para a sua vida, não encontra nada que mereça o castigo de Deus. E clama a Deus por justiça. Deus convida-o a contemplar o mistério das coisas, da criação e da vida. Nem tudo compreenderemos, de uma só vez e para sempre! Também os amigos de Job são chamados à liça, pois enveredam por leituras fáceis e apressadas acerca de Deus e dos Seus mistérios e rapidamente condenam Job colocando em causa a sua honorabilidade. No final, não sancionando inteiramente Job, Deus coloca-se do lado dos seus questionamentos, desafiando-o a não se deixar amedrontar pelo mistério, pois em tudo está presente a bondade divina.

Muitas pessoas ajudaram nas buscas. Muitas rezaram e confiaram na ajuda de Deus. Terá Deus colocado o anjo desta criança em alerta para que nenhum mal lhe acontecesse? Terá iluminado os que se apressaram a ajudar? Claro que há tantas outras situações em que o desfecho é diferente e sobram perguntas sobre a omnipotência de Deus e a Sua benevolência. O próprio Jesus não responde teoricamente às questões de sofrimento, ainda que as desligue de qualquer tipo de moralismo. Jesus faz o que está ao Seu alcance para ajudar, curar, salvar, integrar. Demasiadas vezes tiramos a Deus o poder de intervir na nossa vida e na história do mundo. Noutras, clamamos pela Sua intervenção.

No caso de Noah, ficar-nos-emos pela casualidade, por uma conspiração não explicada, um rapto malsucedido, ou por coincidências milagrosas através das quais Deus Se faz ver?

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/32, n.º 4614, 23 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Popularidade dos santos

Estamos em plena época dos santos populares. Com o desejo da praia, das férias e do convívio, da descontração e do descanso, ombreiam as festas populares que se iniciam em junho com os afamados “santos populares”. Se são populares, são do povo! O povo identifica-se com eles! Calma! Talvez não se identifique com os santos, mas com as festas e tradições a eles associadas!

Se olharmos para figuras populares, um artista, um cantor, um futebolista, como Cristiano Ronaldo ou Messi, têm seguidores nas redes sociais, aos milhares, ou milhões, e onde se deslocam há centenas ou milhares de fãs que querem ver, tirar uma foto, um selfie, solicitar um autógrafo, pedir a camisola! Quantos pais colocam aos filhos os nomes dos seus heróis/ídolos? Quantas jovens querem ser como Cristiano Ronaldo?

Passemos então à popularidade de Santo António, de São João e de São Pedro!

São João Batista era de facto bastante popular, atraía multidões, batizava centenas de pessoas, conduzia à conversão muitas pessoas, desafiando à não violência, à justiça social e à partilha, ao cumprimento dos mandamentos. A popularidade de São João Batista custou-lhe a vida. Herodes, a pedido da bela filha de Herodíade, mandou cortar-lhe a cabeça. Alguém quer imitar São João Batista? Outra característica de João é a humildade, não das palavras, mas na atitude, apontando para Jesus Cristo. É Ele, é Ele que deve crescer e eu diminuir… nem sou digno de Lhe desatar as correias das sandálias!

E Pedro, aquele apóstolo simples, titubeante e impulsivo que segue Jesus, quereremos imitá-lo? Deixou tudo para seguir Jesus! Se calhar pensou que largava uma vida sacrificada e dura por uma vida mais faustosa e tranquila. Essa foi uma das suas tentações, tal como a de outros discípulos. Quando vê que as coisas estão complicadas, assusta-se e nega Jesus: não tem nada a ver com Ele, não quer ser identificado com Jesus Cristo! E com os outros discípulos, mantém-se à distância de segurança! Depois da ressurreição e das aparições de Jesus, Pedro transfigura-se e torna-se um convicto pregador. Mais tarde será morto por ser cristão. Algum de nós quer seguir as pisadas de Pedro? Não estamos a falar do facto de ter sido o primeiro Papa, mas de ter sido mártir e antes um indisciplinado apóstolo!

E que dizer de Santo António? Sim, é um dos santos bem populares. De família nobre, renunciou a uma vida faustosa para se tornar monge. Depois de ordenado sacerdote dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, escolhe (ou melhor, é escolhido por Deus para) outro caminho, faz-se monge franciscano, assumindo a pobreza dos frades e a ânsia de se tornar mártir missionário em África, mas também aí Deus lhe muda o destino e virá a tornar-se um grande pregador, com centenas de pessoas a ir ao seu encontro para o ouvirem. Por outro lado, passa horas a confessar e realiza, em nome de Deus, muitos milagres. Esta parte dos milagres até que nos dava jeito! Mas o verdadeiro milagre é o da conversão. A fé move montanhas. Deus realiza os milagres através de crentes, cuja fé está amadurecida e fundada na oração e na intimidade com o Senhor. Prontos para sermos como Santo António? Seguros nos bens que temos ou no risco de tudo colocarmos em Deus?

Se fizéssemos uma sondagem sobre popularidade… talvez São João, São Pedro e Santo António não figurassem nas primeiras cem opções! Obviamente que as festas populares são importantes, referidas a estes ou outros santos. É também oportunidade para os conhecermos melhor. Por outro lado, a santidade, como cristãos, está sempre no horizonte. Cabe-nos acolher a santidade de Deus que em Cristo Se manifesta amor e compaixão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/31, n.º 4613, 16 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Felizes os que acreditando veem

Na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37), o sacerdote e o levita veem um homem caído por terra, morto ou quase morto. E o que fazem? Afastam-se para não ver, para não perderem tempo, para não se contaminarem, para não se meterem em problemas, tendo que justificar como encontraram aquele homem, o que lhe aconteceu, se viram ou se têm alguma coisa a ver com o sucedido. O ver bem implica tempo ou pelo menos atenção e compromisso.

O Bom Samaritano, por sua vez, vislumbra alguém que está maltratado, talvez moribundo ou, quem sabe, morto. Aproxima-se. Para quê? Para ver de perto, para ver bem! Para ver o que pode fazer. E faz. Vê em que condições foi deixado este homem, limpa-lhes as feridas, trata-o, coloca-o na sua montada, leva-o para a estalagem e assegura-se que cuidam bem dele. Porque viu, não os possíveis problemas futuros ou empecilhos, mas alguém a precisar de ajuda. Aproximou-se para ver melhor.

O essencial da vida é invisível aos olhos, é visível ao coração, como nos relembra Antoine de Saint-Exupéry, no Principezinho. O que é visível também é perecível. O que é duradouro, na maioria das vezes, não é tangível, não é manuseável, ainda que seja dessa forma, enquanto pessoas, que tudo se expresse, se traduza e se concretize.

No segundo Domingo da Páscoa e da Divina Misericórdia é-nos recordado a incredulidade de Tomé, desafiado a ver além do imediato e das “aparências”. Claro que os demais apóstolos também passaram por processo semelhante. Com efeito, também a eles Jesus lhes mostra as mãos e o lado, as marcas da Paixão. O Ressuscitado tinha aparecido a Maria Madalena, às mulheres, a Pedro, aos discípulos a caminho do campo, a caminho de Emaús, mas só depois de O verem, ali no meio, é que eles sancionam o que ouviram contar! Oito dias depois, Tomé, com a comunidade dos discípulos, tem a mesma oportunidade de ver Jesus.

A fé não é obscura, serve-se da racionalidade, leva-nos a ver mais longe e para lá do que é tangível, palpável, visível exteriormente. A fé ilumina as nossas escolhas, gera confiança. Só esta nos permite viver saudavelmente. Faz-nos acreditar nos outros, na vida, em Deus. Mobiliza-nos a rezar e a agir, mesmo sem vermos os frutos imediatos, envolve-nos na construção de um mundo fraterno e humano.

Jesus diz a Tomé, mas também te diz a ti e também me diz a mim: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 19-31).

Com Tomé aprendemos algo muito importante. Não é possível acreditar sem termos visto, sem fazermos a experiência de encontro com o Ressuscitado. Podem-nos falar d’Ele, dizer as coisas mais admiráveis, podemos vê-l’O como Alguém extraordinário, mas isso em nada altera a nossa vida. Mas se O vemos, se O descobrimos, se nos encontramos com Ele, então alguma coisa terá que mudar. A nossa vida nunca mais será a mesma.

Jesus mostra a Tomé, e a nós, que está visível pela fé no partir do pão (Reconheceram-n’O ao partir do pão. Fazei isto em Memória de Mim), na comunidade (quando dois ou três se reunirem em Meu nome, Eu estarei no meio deles); no serviço aos irmãos (O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis). Nas palavras a Tomé, podemos ouvir Jesus: quando virdes o meu lado, as minhas mãos, as minhas chagas, então sabereis que Eu vivo no meio de vós. Seremos felizes se O virmos no partir e no partilhar do pão, se O virmos e d’Ele cuidarmos nas feridas dos nossos irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/22, n.º 4604, 13 de abril de 2021

Editorial Voz de Lamego: Aspirai às coisas do alto

Aspirar às coisas do alto

Cristo morreu! É o lamento de sexta-feira santa. Tudo está consumado.

Cristo voltou à vida, por dom maravilhoso do amor de Deus. É o anúncio prazeroso e feliz de Domingo!

O Amor de Deus em Jesus Cristo é mais forte que a morte. Páscoa é esta passagem da morte à vida, das trevas à luz, do medo à confiança, da dispersão à comunhão, da desolação ao encontro. A ressurreição não é um acontecimento banal, usual, é um acontecimento inaudito, novo, não é uma conquista humana, científica, é intervenção de Deus. Ainda procuramos palavras para descrever a ressurreição, o voltar à vida, não biológica, mas gloriosa. O importante mesmo é a alegre e boa notícia: Jesus está vivo, no meio de nós, e, a partir do meio, nos atrai para constituirmos família.

A boa notícia, a informação acerca de Jesus, não é para autocomprazimento, para regozijo pessoal ou para aumentar a cultura geral, mas é saber que se torna anúncio. Não há discípulos que não sejam apóstolos, que não sejam missionários. É como os dons, são dons enquanto estão ao serviço dos outros, de contrário serão teoria, hipóteses, possibilidades, mas não dons, não realidade. Não há tempo a perder. É AGORA!

Eis a alegria do Evangelho, a Boa Notícia: Cristo, Filho de Deus, está vivo, está no meio de nós. As trevas foram vencidas pela luz. O medo deu lugar à confiança. Da morte ressurgiu a vida. O Crucificado ressuscitou. O amor venceu o pecado e a desolação. Não podemos calar; não podemos esconder; não podemos abafar o grito de júbilo, não podemos encerrar tão intensa luz. O sepulcro fica para trás. É tempo de partir. É tempo de apregoar a Boa Notícia. Ele não está na morte, não está no túmulo. Ele está onde há vida. Ele é vida, nova, ressuscitada, gloriosa. Ele encontra-nos, ponhamo-nos a caminho. Ele precede-nos. Sigamo-l’O.

Uma grande alegria tende a espalhar-se, extravasa, não é possível guardar só para nós.

A Boa Notícia espalha-se, e os Apóstolos são surpreendidos por Jesus Ressuscitado. É agora que se tornam verdadeiramente apóstolos, missionários. Não deixam de ser discípulos – correriam o risco da dispersão e do engodo – mas vem ao de cima a missão evangelizadora. O titubeante Pedro, anuncia Jesus com alegria e convicção. É tempo de partir, de ir, de anunciar em toda a parte, de testemunhar. «Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».

O desafio é que o nosso coração bata ao ritmo do coração de Jesus. Ele que era de condição divina, assumiu-nos na nossa fragilidade humana, na nossa finitude, para nos ensinar a viver na intimidade do Pai e na certeza que a vida se cumpre pelo amor que é mais forte do que a morte. Depois da Sua ressurreição/ascensão, cabe-nos exercitar a nossa identidade e a nossa pertença. “Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória” (Col 3, 1-4)

O convite do Apóstolo é claro: afeiçoar-nos às coisas do alto, tomar as feições de Jesus, procurando imitá-l’O no amor e no serviço a cada pessoa que encontrarmos no nosso caminho, especialmente aos mais pequeninos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/21, n.º 4603, 6 de abril de 2021