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Archive for the ‘Fé’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Bendito é o fruto do teu ventre, Jesus

“A fragilidade humaniza a vida”, tematiza a vivência de mais uma Semana da Vida, proposta pela Igreja que caminha em Portugal, num contexto sui generis, de grande preocupação em defender, proteger e cuidar da vida, bem acentuada pela pandemia do novo coronavírus. Quem diria que aqueles que há poucos dias estavam apressados a legislar sobre direitos à morte estejam hoje a suspender direitos e liberdades a quem possa colocar em causa a saúde e a vida dos outros!

Para o cristão – seja onde for, na família, no desperto, na cultura, na política – é sempre oportuno a defesa e a promoção da vida, desde a sua conceção até à morte natural, não desistindo de encontrar respostas, ajudas, de comunicar esperança, de ser um apoio, privilegiando afetos e proximidade, aliviando a dor, procurando um sentido, mesmo que provisório, para continuar a viver bem. A morte boa não é uma opção de quem ama a vida, a opção é uma vida boa. Sem ser um valor absoluto, a vida é o primeiro dos direitos, é um valor fundante das liberdades, dos direitos e as garantias. Mais fácil é desistir. Cristão é confiar em Deus, entregar a Deus o esforço e a dedicação, e com Deus aliviar a carga que possa pesar sobre os demais.

A vida nem sempre é fácil. E há momentos em que as trevas são mais densas, como no tempo que atravessamos, mas nem por isso as pessoas ponderam desistir e, quando isso acontece nos outros, reclamam por vigilância, cuidado, respeito, responsabilidade pelos mais velhos, pelos que estão na linha da frente, na saúde, na alimentação, na manutenção da ordem, nas farmácias… respeito pelas normas! A liberdade, seja a 25 de abril ou a 25 de novembro, seja a 1 de maio ou a 10 de junho, não vai avante sem a discussão da responsabilidade e do compromisso de cuidarmos uns dos outros, mesmo que tentemos e consigamos arranjar exceções para nós!

Dentro da Semana da Vida, nos dias 12 e 13 de maio, haverá uma multidão de fiéis com os olhos colocados no Santuário de Fátima, que encherá de oração, de bênção e das intenções dos devotos, mas cuja presença física de milhares de pessoas, em nome da saúde de todos, no respeito pelas normas sanitárias e pelos avisos reiterados ao distanciamento social, contará com um número muito reduzido de pessoas, os celebrantes, funcionários do Santuário, os que ajudam na celebração e na transmissão da mesma para o mundo inteiro. A fé exige o serviço à vida, o cuidado pelos outros.

A vida nova que se gera em Isabel e que germina em Maria está envolvida no mistério de Deus. Isabel já tinha vivido tempo demais na desolação da infertilidade, mas Deus surpreende-a. Maria não sonhava com o que estava para vir, a alegria e o sofrimento atroz que a aguardariam, e Deus surpreende-a com um sonho, um projeto de vida que a envolve com a humanidade inteira.

Maria é a Senhora da esperança e da alegria, com ela Deus faz com que a humanidade seja enxertada no Seu sonho de amor e de paz, de bênção e de comunhão.

«Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre» (Lc 2, 42). Esta é a maior esperança e o fundamento de toda a alegria: Deus connosco. E luz para caminharmos neste tempo.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/24, n.º 4559, 12 de maio de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Por Maria a Jesus

Esta expressão – Per Mariam ad Iesum – sublinha como Maria nos aproxima de Jesus e nos conduz a Ele. Neste mês que lhe é particularmente dedicado, quase iniciando com o Dia das Mães, no primeiro Domingo de maio, Maria surge como Mãe que intercede por nós, nos impele para Jesus, nos comunica, através dos silêncios e das palavras, da presença e dos gestos, o Evangelho da ternura.

Numa família, a mãe tem essa missão especial de humanizar a casa e a família, de aproximar entre si os pais e os filhos e os irmãos. A maternidade, creio que é verificável em quase todas, predispõe as mulheres para uma atenção alargada aos outros, humanizando os relacionamentos. Uma vez mãe (é-o também em relação a outros filhos e na sintonia com outras mães), tem o olhar mais aguçado para as necessidades e a injustiças e uma prontidão maior para “reclamar” por justiça e verdade. Há nas mães uma capacidade imensa de reparar nos pormenores, observar tudo o que as rodeia, de forma peculiar as pessoas. Se de uma mulher se pode dizer isso, muito mais de uma mãe, pois aprendeu (desde sempre) a estar atenta aos filhos para ver por onde andam, para onde vão, que obstáculos têm por perto e se alguém é ameaça para eles ou, simplesmente, lançarem um olhar fulminante se alguém não os trata com delicadeza que merecem.

Temos muito a aprender com as mães, temos muito a aprender com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.

Não são muitos os textos do Novo Testamento que nos falam diretamente de Nossa Senhora, mas é possível sentirmo-nos próximos em cada instante em que nos é permitido vê-la e ouvi-la.

Logo na Anunciação podemos aprender algumas coisas com Nossa Senhora para melhorarmos, amadurecermos e, eventualmente corrigirmos a nossa direção como cristãos, priorizando com o que nos pode levar a encontrar Deus e, partindo da Sua graça, preenchermos a nossa vida de docilidade. Para escutar e perceber a voz do Anjo, Maria terá de ser alguém que faz silêncio. Não é, por certo, uma barata-tonta (os mais sensíveis desculpem-se a expressão), mas alguém capaz de se recolher, de rezar, de deixar que Deus fale nela e na sua vida. É uma mulher de oração e de coração. Alguém que escuta. Temos uma boca e dois ouvidos, para ouvirmos mais e falarmos menos. Quem muito fala até pode acertar muito, mas é possível, como sói dizer-se, que acerte pouco. Quem escuta, com o coração, torna-se sábio, não se precipita, não tem tendência para fazer juízos de valor precipitados, mas age pacientemente para que o trigo e o joio se revelem a seu tempo. Maria é uma pessoa inteligente: escuta, pondera, espera e coloca os dons que Deus lhe dá a funcionar. Não paralisa, decide, acolhe, aceita a vontade de Deus: faça-se em mim segundo a Tua palavra.

Ainda na Anunciação, podemos descortinar a docilidade, a pobreza, a pureza de Maria: Ave, cheia de Graça, o Senhor está contigo… Isto vale também para nós, na medida em que nos esvaziamos de nós, dos nossos egoísmos e demónios, e nos deixamos preencher pelo Espírito de Deus. Mais tarde Jesus há de dizer-nos: minha Mãe, minhas irmãs e meus irmãos são aqueles que escutam e fazem a vontade de Meu Pai que está nos Céus.

Pe. Manuel Gonçalves,

in Voz de Lamego, ano 90/23, n.º 4558, 5 de maio de 2020

A minha Páscoa – testemunho de uma jovem de 17 anos

Hoje, dia 12 de abril, foi a Páscoa do Senhor. Mesmo fechada em casa durante um mês inteiro, é impossível não sentir o calor da Ressurreição de Jesus Cristo. Apesar de todas as advertências que enfrentamos, as redes sociais inundaram-se de memórias de anos anteriores, celebrações eucarísticas transmitidas via Rádio e TV e centenas de felicitações referentes ao dia de hoje.

Como sacristã da paróquia onde estou inserida, e já com quase 13 anos a servir ao altar, não me consigo recordar de uma Páscoa tão infeliz. Esta, que é a época mais importante para os católicos cristãos, tornou-se em algo vulgar: não houve Quinta-feira Santa, muito menos Sexta-feira Santa. Não andei enfiada naquela típica azáfama, que eu sempre adorei, nos preparativos reconfortantes e nas horas de reflexão.

Antes de qualquer celebração, não tocava os sinos, mas sim as matracas. Andava pelas ruas da minha terra a ensurdecer o povo até criar calos nas mãos. Depois, sentava-me no segundo banco da igreja a rezar, a pedir concentração e fé. Assim que concluía o momento de oração pessoal, meia hora antes, preparava tudo o que era necessário para as eucaristias até ao mais ínfimo detalhe. Nada me escapava, e se escapava, não me perdoava. Estava determinada em tornar cada minuto dentro daquela igreja no mais profundo possível. O aroma do incenso, das velas a arder. A luz dos corações que ansiavam por misericórdia. Era a minha função, a minha missão.

Este ano, nada disso foi possível… à exceção de um momento: o toque dos sinos no Domingo de Aleluia. O toque dos sinos do campanário da igreja, que anunciam a todos que Ele vive! Nunca me senti tão privilegiada: poder dar a notícia a todos, através do meu toque, sem ter que dizer uma única palavra. A honra de saber entoar os sinos transbordava.

Lá no topo, vi todas as pessoas que moram nas redondezas da igreja a abrir as janelas, umas sorriam, outras choravam, outras rezavam. Mas estavam ali, a ver a única manifestação Pascal presencial que foi possível.

Dos sinos, olhei para a Torre do Relógio, mesmo em frente do meu olhar: a cruz que lá fora colocada, já não envergava um pano roxo, mas sim branco. Era mesmo verdade: Ele ressuscitara. Já não subia lá há meses, mas depois de sair da igreja, eu tinha que ir. Queria ver aquela cruz de perto. Queria tocar-lhe.

Depois de um mês fechada em casa, descer as escadas do campanário foram como facadas no meu peito: parar no topo da escadaria e contemplar o altar, tão vazio, mas tão cheio de Cristo. Sabia que ali encontraria, durante os 5 dias (de quinta a segunda-feira) o que necessitava para um ano pleno, e que recolheria ali as minhas forças, as minhas sandálias para a caminhada. Ao aproximar-me do Sacrário, a ficha caía cada vez mais rápido. “Meu Deus, porque me abandonaste?”. E as lágrimas escorriam pelo meu rosto, sem pedir autorização. Cada celebração era ressuscitada ao fitar cada uma das chagas de Cristo. Fitei aquela cruz de cima abaixo. E vi naquela igreja vazia cada rosto que possivelmente ali estaria, a observar atentamente cada pormenor de cada momento, a percorrer aquela “Via Crucis” em família. E imaginei como seria ter que sair a correr da igreja depois da missa de Domingo de Aleluia para almoçar à pressa e regressar o mais rápido possível, ser a primeira a regressar! E imaginei como seria a oração inicial, antes de partirmos para a Visita Pascal, e de igual modo depois da chegada. E ali, eu senti saudades. E de igual modo, Cristo.

Jeni Fidalgo, in Voz de Lamego, ano 90/21, n.º 4556, 21 de abril de 2020

Falecimento do Padre Hermínio dos Santos | 1933-2020

O Senhor Deus, Pai de Misericórdia Infinita, chamou à sua Presença o reverendo Padre Hermínio Bernardo dos Santos, antigo pároco de Samodães.

Nasceu a 12 de março de 1933, em Vila da Rua, concelho de Moimenta da Beira

Quando completou a instrução primária foi convidado pelo seu pároco para ser sacerdote e em 1945 entrou no Seminário Menor de Resende, seguindo para o Seminário Maior, três anos mais tarde, tendo terminado o curso filosófico, hoje equivalente ao 1.º ano do curso filosófico-teológico. Deixando, nessa ocasião o Seminário.

Viria a contrair matrimónio que durou quatro décadas, até à morte da esposa. Tiveram 10 filhos.

Foi funcionário dos correios, advogado e professor do ensino superior, mas o “chamamento do Senhor para trabalhar na Sua vinha” foi maior. Com a viuvez regressou ao Seminário, para completar os estudos superiores e ser ordenado sacerdote, o que viria a acontecer no 29 de julho de 2006, na Sé de Lamego. Tornou-se sacerdote aos 73 anos de idade.

Faleceu a 18 de abril de 2020, aos 87 anos de idade, no Lar Sacerdotal do Porto e foi sepultado no Domingo da Divina Misericórdia, 19 de abril, em Vila da Rua, seguindo as normas em vigor atualmente para os funerais.

O Senhor Bispo, D. António Couto, faz saber da sua oração e comunhão, agradecendo a Deus o dom da vida deste irmão sacerdote, com o todo o percurso de vida, na vivência do Matrimónio e na riqueza da paternidade, primeiro biológica e depois sacerdotal. Também em nome do presbitério de Lamego, D. António partilha este momento de sofrimento e luto, com os familiares mais diretos, mormente os seus descendentes e confia-o, na oração ao Deus da Vida, Aquele que ressuscitou Jesus Cristo, também a nós nos ressuscitará.

Que o Senhor lhe conceda o eterno descanso.

Celebração da Vigília Pascal – Sé de Lamego – 11 de abril de 2020

No sábado santo, 11 de abril, o Senhor Bispo, D. António, presidiu, na Sé de Lamego, à Vigília Pascal deste ano de 2020 em que nos encontramos confinados a nossas casas em virtude da pandemia do COVID 19. A Eucaristia foi transmitida, via Facebook na página da Diocese em colaboração estreita com a Rádio Clube de Lamego.

Ceia do Senhor – Sé de Lamego – 9 de abril de 2020

Como expectável, a celebração do Tríduo Pascal foi muito diferente de anos anteriores, com igrejas praticamente vazias. Daí também a aposta na transmissão das celebrações para que mais pessoas pudessem sintonizar-se com os mistérios celebrados, ainda que afastados pelas circunstâncias do tempo presente.

Na quinta-feira santa, 9 de abril, a celebração da Ceia Pascal, presidida pelo nosso Bispo, D. António Couto, na Sé de Lamego, com transmissão nas páginas da Diocese e da Paróquia da Sé, em colaboração com a Rádio Clube de Lamego, que transmitiu via rádio e também em vídeo direto pela respetiva página no Facebook.

Editorial da Voz de Lamego: Uma Igreja em cada casa

Entrámos na Semana Maior da nossa fé. Estes eram dias de movimento, tempos de oração, de procissões, de encontro e de alegria interior. As igrejas compunham-se de gente devota. Mais ou menos expressivas, as celebrações apelavam e apelam ao recolhimento espiritual, à contemplação das últimas horas de Jesus, para culminar na Páscoa, com a Visita Pascal, anunciando a ressurreição de Cristo, de casa em casa, em todas as casas.

Como pároco, já ouvi, em forma de pergunta ou de lamentação: este ano não há Páscoa?! Sim, há Páscoa, pois não se deixa de celebrar a ressurreição de Jesus. Mas de um jeito muito diferente do habitual. Antes lamentávamos as igrejas vazias, mesmo quando tinham pessoas, agora efetivamente estão vazias. Todavia, também a Igreja procurou adaptar-se a estes tempos de confinamento caseiro, procurando que não se perca a ligação, a comunhão à comunidade, contando com a criatividade de muitos. Se antes, cada casa era chamada a ser Igreja doméstica, hoje, por maioria de razão, a Igreja é em cada casa, em cada família, pois é em cada casa que se reúne a família para rezar e aprofundar a fé e a esperança, vivendo a caridade.

Antes de chegarmos à Páscoa, à alegria da Ressurreição, há caminho a percorrer, há uma cruz a transportar, há um calvário a acolher, e tantas contrariedades a experimentar, especialmente neste tempo. A realidade pandémica do coronavírus paira como ameaça sobre todos, desafiando-nos, sempre, mas agora mais ainda, a cuidar uns dos outros, atendendo sobretudo às pessoas e famílias mais vulneráveis.

Vai ficar tudo bem!

A vida é um dom e uma bênção. Sempre! Mas, porque somos limitados e finitos, a vida pode complicar-se!

Vai ficar tudo bem!

O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus… vai ser morto… VAI FICAR TUDO BEM… três dias depois ressuscitará. A última palavra será da vida, do amor, da ressurreição, a última palavra será de Deus. Mas, porquanto, vivemos na penúltima palavra, estando sujeitos às coordenadas espácio-temporais e a lidar com as fragilidades, limitações e egoísmos uns dos outros.

Ao longo da Sua vida, Jesus não Se desvia do amor do Pai, traduzido em proximidade, cuidado e serviço a todos, preferencialmente aos últimos da sociedade. Instala-se uma revolução “silenciosa” de delicadeza, de ternura e de compaixão, de amor e perdão, de serviço e bondade. A luz, que é Jesus, ilumina e ofusca, desafia e provoca, clarifica o caminho e põe a descoberto a soberba, o egoísmo e a indiferença, expõe a maldade, as trevas e as maquinações. Se uns se sentem desafiados e envolvidos, outros sentem-se acossados e expostos! Olhamos para Jesus e olhamos para autoridades judaicas e não precisamos que nos deem explicações, são percetíveis as opções e a coerência de vida. E tal coerência gera irritação, ódio, e a necessidade urgente de apagar a chama que incendeia corações e vidas!

Vou partir… a vossa tristeza é inconsolável… mas vai ficar tudo bem… Eu voltarei e, então, a vossa alegria será completa!

Vai ficar tudo bem! É a certeza da Páscoa e de todas as páscoas que vamos experimentando, ainda que falte fazer caminho!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/19, n.º 4554, 7 de abril de 2020