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Archive for the ‘Fé’ Category

Editorial Voz de Lamego: Hoje não me apetece ir à Missa

Não me apetece ir à Missa!

A mim também não!

Mas nem tudo na vida tem a ver com desejos ou com apetites.

Eu vou à Missa quando me apetece. Para quê ir contrafeito? E trabalhar? Aí tem de ser… E ir à escola? Como não? Temos que ir!

Em todas as dimensões da vida, há momentos em que o desejo nos faz querer adiar, hesitar, arranjar alguma justificação para não ir…

Quando um bebé é pequenino, na maioria dos casos, tem um sono que não está sintonizado com os dos pais, nem com os horários noturnos. Por outro lado, uma constipação, alguma doença, um dente a nascer, fazem com que os pais estejam enlevados o tempo todo, não conseguindo dormir bem nem de noite nem de dia, pois o cérebro mantém-se ligado. Se o bebé chorar dez vezes durante a noite, a mãe ou o pai, ou à vez, hão de se levantar de todas as vezes para ir engalhar o menino, ver o que tem e ver se precisa de comer, de mudar a fralda ou simplesmente de sentir a presença materna/ paterna. Os pais levantam-se cinco vezes ou quinze vezes, não por prazer, desejo, não por gosto ou por vontade, mas fazem-no por amor, com sacrifício, cansados, ensonados e até irritadiços quando voltam a ouvir chorar o filho. Mas levantam-se por amor, uma obrigação que vem de dentro, que vem do coração. Fá-lo-ão com satisfação? Duvido!

Voltemos então à questão inicial. Não vou à Missa. Vou apenas quando me apetece. Quando não tenho que fazer. Ou iria se o horário fosse outro, mas este horário não me dá muito jeito. Trabalho toda a semana, o Domingo é o único dia que tenho para descansar e me levantar um pouco mais tarde. E ao sábado à tarde? Ao sábado é quando arrumamos a casa, vamos às compras ou é tempo para algum lazer, para caminhar, ver um filme, para ir até ao café estar com os amigos. Se tivesse mais tempo, eu ia à Missa. Vendo bem, estes argumentos são razoáveis, justos e defensáveis! Afinal, nós conseguimos arranjar justificações para o que não nos apetece fazer ou para compromissos a que ninguém nos obriga.

Não vou à Missa porque não gosto do padre. Não me identifico com as homilias que ele faz. Demora muito. Repete as mesmas coisas. Só fala do Evangelho, que já ouvimos antes. A Igreja precisa de evoluir, ficou parada no tempo. Há dias fui a uma Missa, a um casamento, e gostei. O padre era engraçado, falava bem, divertiu-nos bastante. Se todos os padres fossem assim, as igrejas estavam cheias, até eu ia mais vezes à Missa. Contou uma anedota que pôs toda a gente a rir. Assim vale a pena.

Já todos ouvimos estes argumentos. Uma e outra vez. E identificamo-nos com algumas destas explicações e até acrescentaríamos outras. É certo que o sacerdote não é simplesmente um autómato, a sua maneira de ser e de estar e de falar pode cativar mais ou fazer com que as pessoas se sintam acolhidas, reconhecidas, parte importante na celebração. Porém, a Eucaristia, como os demais sacramentos, não é obra do padre, não tem a ver com apetites ou desejos, ainda que os tenhamos, tem a ver com fé, com compromissos, tem a ver com amor. Por vezes, somos convidados e não nos apetece muito sair de casa ou apetecer-nos-ia estar noutro lugar, mas vamos por amizade, por consideração, por estima (ou por dever profissional). A Eucaristia é, antes de mais, um convite a que respondemos. É Deus que nos convoca. Convoca-nos através da Igreja, que também somos, mas é um convite. Se temos fé, acolhemos o convite. Se amamos a Deus de todo o coração vamos querer estar onde Ele nos quer, num espaço e num tempo em que nos reunimos como família, como assembleia. Trata-se de responder a um convite, no qual todos contamos, como filhos, como amigos de Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/20, n.º 4651, 30 de março de 2022

Editorial Voz de Lamego: São Paulo caiu do cavalo… E eu e tu?

Decorre, entre os dias 18 de 25 de janeiro, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, no hemisfério norte, e na proximidade do Pentecostes, no hemisfério sul. A semana está envolvida pela conversão de São Paulo, que a Igreja celebra a 25 de janeiro. São Paulo, segundo o relato do livro dos Atos dos Apóstolos, perseguia ferozmente os cristãos quando, a caminho de Damasco, caiu do cavalo abaixo. O perseguidor, afinal, era perseguido por Jesus e passa a ser Seu seguidor. Paulo dá-se conta que, ao perseguir os cristãos, estava em contramão a perseguir o próprio Jesus. Perseguindo Jesus, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, Paulo conclui que está a perseguir Aquele em nome do Qual era perseguidor. Para defender Deus, perseguia Deus, perseguia Jesus, perseguindo os cristãos.

É, sem dúvida, uma conversão plasticamente significativa. É repentina! Um milagre perfeito! Sem contar! Sem que nada se pudesse prever! Da noite para o dia! Se virmos como o próprio relata a sua conversão nas cartas que escreve talvez percebamos melhor como Deus ia agindo, silenciosa e eficazmente, no íntimo de São Paulo. Uma pessoa devota, zelosa da religião, autêntica… mais tarde ou mais cedo é possível que se deixe moldar por Deus! Ainda que, diga-se em abono da verdade, seja difícil a conversão num crente fanático e fundamentalista! Mas a Deus nada é impossível!

Também neste aspeto, São Paulo é um desafio e uma provocação. Tanto zelo, tanta persistência, mas é Deus que sai vencedor. A oração é combustível que pode, e deve, dilatar o nosso coração, e o daqueles por quem rezamos, para acolhermos a vontade de Deus, para a Ele, e somente a Ele, nos convertermos de todo o coração.

Em cada ano, um organismo das Igrejas cristãs fica responsável por escolher, propor e refletir um tema e apresentar materiais para uma melhor vivência deste tempo de oração e reflexão pela unidade dos cristãos. Este ano coube ao Conselho das Igrejas do Oriente Médio (MECC), que tem sede no Líbano, que escolheu como tema “Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O” (Mt 2, 2). O porquê desta escolha: “Nunca como nestes tempos difíceis sentimos a necessidade de uma luz que vença as trevas, e essa luz, como proclamam os cristãos, manifestou-se em Jesus Cristo para dar testemunho comum na terra onde Cristo viveu e ressuscitou. Diante da atual crise sanitária internacional, numa região do mundo onde os direitos humanos são sistematicamente espezinhados por injustos interesses políticos e económicos, e que sofre as consequências no plano humano e material da terrível explosão que assolou Beirute em 4 de agosto de 2020, o Grupo ecuménico local tem multiplicado os esforços para apresentar os frutos das sessões de trabalho realizadas na plataforma on-line”.

Por sua vez, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristão sublinha que “os cristãos do Oriente Médio encontraram na ‘estrela’ uma imagem da vocação cristã. A estrela foi o sinal que guiou os Reis Magos de lugares distantes e de diferentes culturas até o Menino Jesus e representa uma imagem de como os cristãos se unem em comunhão entre eles ao aproximarem-se de Cristo. O tema da Semana quer, portanto, ser um convite para que os cristãos sejam um símbolo como a estrela, que conduz todos os povos a Cristo, o meio pelo qual Deus conduz todos os povos à unidade”.

Os autores dos subsídios acrescentam que a pandemia Covid-19, “a consequente crise económica e o fracasso das estruturas políticas, económicas e sociais que deveriam ter protegido os mais fracos e vulneráveis, evidenciaram o profundo desejo, a nível global, que uma luz brilhe nas trevas”, salientando que a estrela que brilhou no Oriente há dois mil anos “ainda nos chama a ir à Manjedoura, onde Cristo nasceu”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/10, n.º 4641, 19 de janeiro de 2022

Editorial Voz de Lamego: As maravilhas de uma vida plena

Por estes dias, assistimos a um extraordinário exercício de passa-culpas em relação ao chumbo do Orçamento de Estado (OE). Curiosamente, diga-se, que o debate foi pouco clarificador, centrando-se prolixamente a sopesar dividendos de uma anunciada crise política, justificando as opções partidárias e encontrando a culpa (nos outros) pelo chumbo do mesmo.

Deixamos o debate político-partidária para quem tem essa missão, obrigação e esse mandato, mas fica a sensação, em todo o processo, que não se pensou no interesse do país, mas no acautelar das mais valias partidárias em futuras eleições, fossem imediatas, que parece que todos os partidos queriam, e igualmente que ninguém admite ter querido, fosse no futuro, cumprindo o calendário normal.

Depois do chumbo do OE, continuaram as acusações, desculpas, justificações, passa-culpas e a campanha eleitoral regressou em pleno. Até, pasme-se, ouvimos sugestões de que os mesmos poderiam fazer outro orçamento (se no entender de quem o fez, este era o melhor orçamento, como fazer uma segunda versão? Um segundo orçamento seria pior que o primeiro ou se havia possibilidade de melhorar o atual, num hipotético novo orçamento, bastava aprovar o atual e melhorá-lo onde fosse possível!) e depois logo se veria se um orçamento travestido teria possibilidades de aprovação ou se seria novamente chumbado pelos mesmos que chumbaram este! Empurrava-se o problema? Mudava o orçamento (seria incompetência do governo) ou mudava o voto de algum partido (seria incoerência)? Adiante…

Na iminência da dissolução da Assembleia da República, regressou a pressa em discutir a “eutanásia”, ganhando, agora, prioridade sobre o OE e sobre o país. Imaginamos o exercício intelectual (que nos parece desonesto): fomos eleitos, temos o aval do povo para decidirmos o que quisermos, vamos fazê-lo rapidamente, antes que o Parlamento seja dissolvido e a seguir não nos elejam para fazer o que nos propusemos fazer! Independentemente dos argumentos político-partidários que possam usar-se para concretizar a lei, esta pressa contraria a democracia, pois limita o debate, apressa uma solução com medo de quê os mesmos que os elegeram [os atuais deputados] não voltem a escolhê-los novamente. Tivemos mais que tempo, contávamos continuar a ter, mas já que no-lo vão tirar, vamos gastar o que temos, a desbaratar, até para mostrar que afinal tínhamos ideias e projetos! Num contexto diferente, mas que ilustra estas situações, a parábola de Jesus sobre o administrador infiel, que, ao ser despedido e para se salvaguardar, encontra forma de compensar os devedores do seu patrão, para que eles lhe assegurem um futuro promissor (cf. Lc 16, 1-8).

Tão engraçado: em março o Presidente da República vetou o decreto de legalização da morte medicamente assistida. Ainda será possível gerar maiorias para esta iniciativa! Toca a despachar, pois a seguir, se a composição do parlamento se alterar, recorreriam a outro expediente, ao referendo, caso não conseguissem, então, fazer aprovar essas alterações, e não seria tão certo! Curioso! Poderiam ter aproveitado o tempo para promover medidas de combate à pobreza, à melhoria dos cuidados de saúde, preparando investimentos nos cuidados continuados e paliativos, no acesso dos mais desfavorecidos à cultura, à educação (nos dois confinamentos, as crianças, adolescentes e jovens do interior foram os mais penalizados, por falta de meios, ou acesso tardio aos mesmos, ou por falta de Internet fiável), a refletir e sobretudo implementar medidas de combate à exclusão social, ao abandono escolar, às desigualdades sociais, ao repovoamento do território, a melhorar serviços de resposta social, melhorando a vida dos mais idosos, criando, tanto quanto possível, mais oportunidades de sociabilização e inclusão, apostando a sério no apoio à natalidade e à infância… Como dizia Confúcio, “Porquê, preocupar-nos com a morte? A vida tem tantas coisas que temos de resolver primeiro…”.

Relembra, para nos fixarmos no debate, o médico Luís Paulino Pereira (in Vida Plena, da Paulus Editora): “não é justo, nem razoável, nem aceitável do ponto de vista moral, que para acabar com o sofrimento se acabe também com a vida de um ser humano”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/49, n.º 4631, 3 de novembro de 2021

Falecimento do Pai do Pe. Rui Borges

No último sábado, 2 de outubro, o Senhor do tempo e da eternidade, Deus da Vida e da Amizade, chamou a Si o Sr. Acácio Alves Pinto Ribeiro, pai do reverendo Pe. Rui Manuel Borges, pároco de Caria e do Carregal, na Zona Pastoral de Moimenta da Beira.

Em comunhão e em nome do presbitério da nossa diocese de Lamego, o Senhor Bispo, D. António Couto, endereça ao Pe. Rui, à família e aos amigos, as condolências, comungando da dor e da fé, desta esperança que nos abre a mente, o coração e a vida para Deus que é Pai e nos ama desde sempre e para sempre. Ele que nos chamou à vida, no Seu infinito amor, não nos abandona em nenhum momento da nossa existência, nem no final biológico/histórico. Com efeito, é este o mistério da nossa fé: a morte, em Jesus Cristo, dá lugar à vida plena e definitiva, com a ressurreição um vida nova e definitiva. Aquele que ressuscitou Jesus Cristo também nos ressuscitará a nós.

Celebrações Exequiais:

  • Domingo, 3 de outubro, pelas 15h00: Eucaristia na Igreja Paroquial de Caria;
  • segunda-feira, 4 de outubro, pelas 15h00: Eucaristia Exequial e funeral, na Igreja Paroquial da Penajóia, em Molães.

Rezemos pelo Sr. Acácio, que Deus acolhe no Seu coração de Pai, e pela família para que encontrem na fé e na Palavra de Deus, a esperança na vida eterna e na ressurreição dos mortos em Cristo Jesus.

Editorial Voz de Lamego: aos pés de Nossa Senhora

@Hermínio Lopes / @ Voz de Lamego

A edição desta semana do nosso jornal diocesano assinala-se pela Festa e Romaria de Nossa Senhora dos Remédios, fixada na Natividade de Maria.

O nascimento de um bebé, na cultura semita como em muitas outras culturas, é uma bênção para a família, antes de mais, e para a povoação. Se atendermos aos Censos 2021 e para a percentagem de natalidade talvez percebamos o quanto estamos a precisar que esta aumente exponencialmente, pelo menos na Europa, muito em Portugal e, por maioria de razão, no interior Norte. A diocese de Lamego, e as 223 paróquias que a constituem, tem vindo a juntar ao envelhecimento populacional a desertificação, além da emigração que continua também em alta. A diminuição de pessoas na maioria das paróquias levava-nos a pensar que saíam das aldeias para as vilas e cidades, mas nos últimos anos também as sedes dos concelhos têm vindo a perder residentes.

A comemoração litúrgica dos santos está fixada, habitualmente, no dia da morte, o “dies natalis”, nascimento para a eternidade. Mas como os dias do ano se vão preenchendo, alguns têm o dia da comemoração nos dias próximos ao da morte ou a assinalar algum momento importante das suas vidas, a conversão ou o início de uma missão. Alguns santos Papas são comemorados no dia em que iniciaram o pontificado. De Jesus e de Nossa Senhora assinalam-se diversas solenidades, festas, comemorações, mais universais ou mais nacionais, mais regionais ou mais locais. De referir que também de São João Batista se celebra o nascimento (24 de junho) e o martírio (29 de agosto).

A maioria das pessoas comemora o aniversário natalício, mas também outras datas festivas. O Papa Francisco tem insistido para que se comemore o Batismo, dia em que nos tornamos novas criaturas pela água e pelo Espírito.

O aniversário é um instante, mas pode ser oportunidade para agradecer a vida, para refletir sobre o caminho percorrido, para avaliar a direção em que se vive. No caso dos santos, é uma belíssima ocasião para confrontarmos a vivência da nossa fé e a nossa configuração a Jesus Cristo. Os santos, amigos de Jesus, fazem-nos sentir mais próximos d’Ele e deixam ver que é possível viver a fé em situações díspares e em circunstâncias diversas. O padroeiro/patrono de uma paróquia, de uma Igreja ou de uma profissão, de uma aldeia, de uma cidade ou de um país obriga-nos, no mínimo, a pensar as razões para ter sido escolhido um e não outro. Na dinâmica cristã, não apenas a raiz história e a tradição, mas aquilo que, hoje, aqui e agora, nos diz esta festa, este santo. Vejamos então o convite que nos faz Maria na celebração do Seu nascimento e na evocação de Senhora dos Remédios.

O Santuário de Nossa Senhora está situado sobre a cidade de Lamego, no monte de Santo Estêvão, com um escadório que nos traz ao chão (propriamente dito) da cidade ou desta nos faz subir, degrau a degrau, até ao cimo, ao lugar em que se venera a Mãe de Deus e nossa Mãe, para Lhe pedirmos auxílio e proteção, para que seja remédio para os nossos achaques, sejam eles corporais ou espirituais.

Desde o início do cristianismo que os discípulos de Jesus, os cristãos, souberam acolher Maria de uma forma muito carinhosa, pois é esse também o mandato de Jesus: eis aí a Tua Mãe… A partir daquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa. Cada discípulo. Levamo-l’A para a nossa casa, para a nossa vida, colocamo-nos, como a cidade de Lamego diante do Santuário, aos Seus pés, para escutar a Sua oração, para rezarmos com Ela, para nos deixarmos contagiar por Ela, a cheia de Graça, para com Ela aprendermos a gerar Jesus, a amar e anunciar o filho de Deus ao mundo inteiro, comunicando alegria e apressando-nos a levá-l’O a todos, pela voz e pela vida.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/41, n.º 4623, 8 de setembro de 2021

Editorial: Submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo

“Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38). Em resposta ao chamamento divino, Maria apresenta-se pronta a servir, a esvaziar-se de si para se encher de Deus.

Ninguém é neutro ou imparcial. Na linguagem, na biologia, na psicologia, há tendência de excluir palavras que signifiquem opção, escolha, diferença, optando pelo neutro, pelo insosso, pelo indiferente e indistinto, colocando tudo no mesmo patamar, tudo relativizando. O curioso é que esta pretensa neutralidade irrompe (sobretudo) de grupos, movimentos, associações ideologicamente extremistas, excludentes de outras opiniões, à procura de provocar ruturas. A tolerância não tem a ver com indiferença, mas com aceitação do outro e de respeito pelas suas convicções.

Um dia destes ouviremos alguém a dizer que “de passagem” ouviu estas palavras de Maria e a Sua escolha e dirá que não se compreende como ainda são proclamadas na Eucaristia!

“As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor… como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos”.

No 21.º Domingo do Tempo Comum (ano B), escutámos um texto da missiva de São Paulo aos Efésios (5, 21-32). Não damos a mesma atenção a todas as leituras, até porque já as conhecemos! A Palavra de Deus deve ser escutada e não apenas ouvida. Daí a recomendação, sempre urgente, da formação cristã. Por outro lado, o desafio a que as leituras de Domingo se leiam previamente, durante a semana, e algum comentário que ajude a perceber o contexto e ajude a visualizar melhor a forma de viver a Palavra de Deus na atualidade.

Este pedaço de texto foi partilhado e comentado como escandaloso, advogando a distração dos cristãos ou a suposta perpetuação da discriminação das mulheres em relação aos maridos. Atente-se: a leitura começava assim: “Irmãos: Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo”. É uma mensagem firme e inequívoca que a todos implica, o cristão não pode senão amar ao jeito de Jesus. O apóstolo volta-se então para as esposas. Obviamente que o texto tem o seu contexto e o autor sagrado, ainda que inspirado por Deus, inserido na comunidade crente que reflete, acolhe e amadurece a Palavra transmitida e colocada por escrito, não é um robot que reproduz um ditado, mas um ser humano com um vocabulário específico e sujeito às coordenadas culturais e religiosas. Os textos de Paulo não são iguais aos de Pedro ou de Tiago.

A leitura continua. “Maridos: amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela”. Há uma ligação, um mistério, que une Cristo e a Igreja! A Igreja vive, serve e testemunha Jesus Cristo que, primeiramente, amou e Se entregou por ela.

O essencial é amar ao jeito do Mestre gastando a própria vida a favor dos demais. Cristo amou e entregou-Se pela Igreja. É o modelo do amor para os casais, mas igualmente para toda a Igreja, para cada batizado. Submetei-vos uns aos outros, colocai o outro em primeiro lugar, servi-o e amai-o, em Cristo, que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por nós. A “submissão” entende-se, habitualmente, como subjugação ao outro, situação de dependência e de escravidão, e até de humilhação desumana. Na lógica do Evangelho, contudo, prevalece a submissão por amor, voluntária, como escolha. A Vida, diz Jesus, ninguém ma tira, Sou Eu que a ofereço. Ele que era de condição divina, não se valeu da Sua igualdade com Deus, mas humilhou-Se a Si mesmo e tornou-Se obediente até à morte. Não há maior submissão do que esta. Sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, despojado de todo o poder e majestade, revestido somente de amor, de compaixão e de ternura.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/40, n.º 4622, 1 de setembro de 2021

Falecimento da Mãe do Pe. Agostinho Ramalho

Deus, Senhor do tempo e da história, na Sua infinita sabedoria e bondade, chamou a Si, para a Sua morada eterna, a Sra. D. Maria Nazaré Ramalho Matança, mãe do Pe. Agostinho Ramalho, pároco de Lalim, Lazarim e Cepões, no Arciprestado de Lamego.

O Sr. Bispo, D. António Couto, em comunhão e em nome do Presbitério de Lamego, manifesta o seu pesar ao reverendo Pe. Agostinho, aos seus familiares e amigos, confiado, na oração e na fé, na ressurreição dos mortos e na vida eterna. A comunhão de sentimentos, remete para a esperança na vida em Deus, no tempo e na eternidade e, assim, agradecendo a Deus por todo o bem operado nesta e através desta nossa irmã, confia que, na glória de Deus, continuará a rezar pelo seu filho, pela sua família e toda a família cristã.

A celebração das Exéquias realizar-se-ão em Bigorne, na Igreja Paroquial, pelas 18h00, seguindo-se o sepultamento no cemitério local.

Deus lhe conceda a vida eterna e à família e amigos a esperança da imortalidade.

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Editorial VL: GOSTO MAIS, MUITO MAIS DE MARTA

Gosto mais de Pedro. E também gosto de Judas, por ter sido um dos discípulos mais próximos de Jesus, homem de confiança, a quem foi confiada a administração dos parcos bens que iam recebendo para acomodar o estômago e circular entre povoações!

De Judas há de dizer-se muita coisa, mas no final só o juízo de Deus será definitivo. Tinha tudo para ser líder, inteligência e capacidade de gestão, mas perdeu-se a meio e não foi capaz de deixar que a Luz de Jesus destronasse as trevas que o vinham a consumir. Há estudiosos que sustentam que o último gesto de Judas, o suicídio, além dos fusíveis meios fritos, foi uma tentativa de se encontrar mais rapidamente com o Seu único Senhor, Jesus Cristo, no Paraíso.

Gosto muito mais de Pedro, porque é o Padroeiro da minha terra, Penude, onde nasci como cristão, onde comunguei pela primeira vez, onde celebrei a minha “Missa Nova”. Gosto muito de Pedro, não tanto por se tornar a Pedra sobre a qual Jesus constituiu a Sua Igreja, o que é deveras importante, mas pela sua espontaneidade. Esta valeu-lhe algumas reprimendas da parte do Mestre dos Mestres. Pedro tem o coração ao pé da boca, diz o que lhe dá na real gana, não mede o que diz, primeiro diz e só depois é que pensa. Mas é genuíno. Não tem duas caras, a não ser quando Paulo lhe mostra a duplicidade perante cristãos oriundos do judaísmo ou cristãos originários dos gentios! Mas nessa altura já Pedro está temperado pela humildade e pela luz da Páscoa, e reconhece que Paulo clarifica o caminho de Jesus.

Gosto muito de Marta, por alguns dos motivos pelos quais gosto muito de Pedro. Já lá vamos. Primeiro dizer que este “gostar mais” não é tanto uma comparação em relação a Maria ou a Lázaro! É uma família acolhedora, hospitaleira, próxima de Jesus. A casa deles, a família, o coração deles está disponível para Jesus, nas partidas e nos regressos.

No dia 29 de julho celebrávamos a memória litúrgica de Santa Marta. A 2 de fevereiro, deste ano, a Santa Sé decretou que a Igreja passasse a celebrar, nesse dia, os Santos Marta, Maria e Lázaro numa única Memória Litúrgica. Através de Lázaro, Jesus amadurece ou prepara a fé dos Seus discípulos na ressurreição. Com Maria, descobrimos a urgência, a primazia, a necessidade de estarmos aos pés de Jesus, para sintonizarmos o nosso com o Seu coração, para O escutarmos. De algum modo, como o discípulo amado, também Maria ajusta o bater do seu coração ao bater do coração de Jesus. Está tão perto d’Ele, que ouve este compasso com o qual sincroniza a sua vida.

Gosto mais de Marta, porque nela se visualiza uma faceta que o Papa tem acentuado em relação, por exemplo, a Abraão, a faceta de uma oração direta, sem medo, pronta a enfrentar o próprio Deus. Abraão negoceia o “destino” de Sodoma e Gomorra, até à exaustação. Na hora decisiva, a opção é por Deus, a quem confia o seu filho único. E por isso, porque confia em Deus, nele, Deus abençoa as nações da terra inteira. Ou como Jacob que luta com Deus até de madrugada!

Quando Marta se atarefa toda, afronta e enfrenta Jesus: não te importas que minha irmã fique na conversa? Após a morte de Lázaro, quando Jesus se aproxima, Marta corre ao Seu encontro e diz-lhe das boas: se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido! Direta, espontânea, confia em Jesus, revela uma grande fé, mas não deixa de Lhe fazer chegar o seu protesto, a sua oração. E, por isso, hoje gosto mais de Marta, porque me ensina a rezar em todos os momentos, mesmo sem guião!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/38, n.º 4620, 4 de agosto de 2021

Falecimento do P. Acácio Ferreira Soares | 1924-2021

Na celebração dos 60 anos de sacerdote, em celebração presidida por D. Jacinto Botelho, então Bispo de Lamego

O Senhor Deus, Pai de bondade, Senhor do tempo e da história, chamou à Sua morada eterna, o nosso irmãos, Cónego Acácio Ferreira Soares, nascido a 14 de maio de 1924, em São Cristóvão de Nogueira, concelho de Cinfães, frequentou os semanários diocesanos, de Resende e de Lamego, e foi ordenado a 3 de setembro de 1950.

Logo após a ordenação sacerdotal, foi enviado como Pároco para Chavães e Vale de Figueira, no concelho de Tabuaço. Posteriormente, foi nomeado Prefeito e responsável da disciplina no Seminário Maior de Lamego. Foi ainda Diretor da Obra Diocesana das Vocações e Diretor Espiritual.

Em 01 de janeiro de 1969, tomou posse da Paróquia de Cinfães, onde serviu durante 38 anos, até 22 de outubro de 2006, e onde residia presentemente.

O Sr. Bispo, D. António Couto, nosso Bispo, manifesta a sua comunhão aos familiares e amigos, às comunidades que o Cónego Acácio serviu ao longo da sua vida sacerdotal, unindo-se em oração, na esperança na ressurreição dos mortos e na vida eterna. Esta esperança, faz-nos agradecer a vida, o ministério sacerdotal, certos que, junto de Deus, o P. Acácio falará/rezará por nós.

A celebração das Exéquias será na Igreja Matriz de Cinfães, amanhã, pelas 11h00, indo a sepultar no cemitério local.

Deus lhe dê o descanso dos justos e a nós a sabedoria por comunicarmos vida e bênção.

Editorial Voz de Lamego: Noah e as teorias da conspiração

O pequeno Noah esteve desaparecido umas 36 horas. Logo dispararam os alarmes: rapto, negligência dos pais? O que aconteceu? O que se supõe que terá acontecido? Horas e horas de diretos! E, para alguns, a ligação imediata ao caso Maddie.

Ficámos com a sensação que para alguns teria sido preferível encontrar a criança sem vida ou concluir que tinha sido raptada. Parece que tudo encaixaria melhor! Como é possível que um menino de dois anos e meio tenha sobrevivido tanto tempo e percorrido cerca de 10 km, ao relento e sem comer? Pelo caminho foi largando roupas e calçado…

A preocupação de pais, de autoridades e de muitos voluntários foi encontrá-lo quanto antes com vida. Muitos se regozijaram com a descoberta de Noah com vida. Novas suspeitas?! Uma história mal contada! Para já, tanto quanto se sabe, não há indícios de rapto e/ou ação criminosa.

Semelhanças com o caso Maddie? Pelo menos duas diferenças significativas. Os pais de Noah não saíram para uma noitada, mas saiu o pai para trabalhar, de madrugada, sendo suposto que às oito horas da manhã os dois irmãos ainda estivessem pela cama. Por outro lado, não foi numa cidade pejada de turistas, mas na tranquilidade do campo.

Tempos de suspeita, juízos de opinião rápidos e apressados, sob necessidade de destrinçar qualquer mistério. Quando nos deparamos com situações demasiados óbvias, o grau de suspeita mantém-se ou aprofunda-se ainda mais. Parece que por detrás de tudo há algum tipo de conspiração, que alguém está a mentir ou a sonegar informação! Não podemos confiar em ninguém! Não podemos ser ingénuos e acreditar em tudo o que nos dizem! Anda meio mundo a enganar outro meio!

Um texto que lemos/escutámos por estes dias, traz-nos a figura de Job. Job era um homem justo, piedoso e temente a Deus. Tinha sete filhos e três filhas. Tinha muitas posses, centenas de cabeças de gado. A determinada altura, morrem a mulher, as filhas e os filhos, morrem-lhe os animais. Fica na penúria. Os amigos de Job tentam encontrar uma explicação lógica. Para eles, a culpa é de Job, consequência do seu mau proceder, pois Deus é justo e castiga com conta, peso e medida. Job, olhando para a sua vida, não encontra nada que mereça o castigo de Deus. E clama a Deus por justiça. Deus convida-o a contemplar o mistério das coisas, da criação e da vida. Nem tudo compreenderemos, de uma só vez e para sempre! Também os amigos de Job são chamados à liça, pois enveredam por leituras fáceis e apressadas acerca de Deus e dos Seus mistérios e rapidamente condenam Job colocando em causa a sua honorabilidade. No final, não sancionando inteiramente Job, Deus coloca-se do lado dos seus questionamentos, desafiando-o a não se deixar amedrontar pelo mistério, pois em tudo está presente a bondade divina.

Muitas pessoas ajudaram nas buscas. Muitas rezaram e confiaram na ajuda de Deus. Terá Deus colocado o anjo desta criança em alerta para que nenhum mal lhe acontecesse? Terá iluminado os que se apressaram a ajudar? Claro que há tantas outras situações em que o desfecho é diferente e sobram perguntas sobre a omnipotência de Deus e a Sua benevolência. O próprio Jesus não responde teoricamente às questões de sofrimento, ainda que as desligue de qualquer tipo de moralismo. Jesus faz o que está ao Seu alcance para ajudar, curar, salvar, integrar. Demasiadas vezes tiramos a Deus o poder de intervir na nossa vida e na história do mundo. Noutras, clamamos pela Sua intervenção.

No caso de Noah, ficar-nos-emos pela casualidade, por uma conspiração não explicada, um rapto malsucedido, ou por coincidências milagrosas através das quais Deus Se faz ver?

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/32, n.º 4614, 23 de junho de 2021