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Entrevista Voz de Lamego: Presidente do Município da Mêda, Dr. Anselmo de Sousa

Retomamos o périplo pelos Municípios pelos quais se estende a Diocese de Lamego. Esta semana viajamos até à Mêda para ouvirmos o Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal, Dr. Anselmo Antunes de Sousa.

Natural de Cavernães, concelho de Viseu, cedo abraçou a Mêda como sua terra. De uma família dedicada a agricultura, chegou a estudar no Seminário Maior de Viseu. O destino acabaria por o levar para uma carreira profissional dedicada ao ensino. Nesta área assumiu cargos diversos para além da profissão professor. Foi membro do concelho diretivo do Agrupamento de Escolas de Mêda, e orientador de vários projetos educativos e estágios. Casado, pai de um filho, foi eleito vereador no Município de Mêda em 2009, acabando por ser eleito presidente 4 anos depois. Exerce o seu segundo mandato como presidente de câmara. Com uma forte dedicação à causa social e ao associativismo, assume igualmente o cargo de provedor da Santa Casa da Misericordia de Mêda, e integra ainda associações como os Bombeiros Voluntários de Mêda, o Sporting Clube de Mêda e diversas associações culturais e desportivas.

Voz de Lamego – A pandemia do novo coronavírus colocou-nos a todos em alerta. A resposta, como em tantas situações, passa pela intervenção local, em que o Presidente do Município tem um papel essencial, de coordenação e intervenção. Como tem vivido o concelho estes tempos? Principais necessidades e constrangimentos…

Anselmo Sousa – De facto, esta pandemia virou o nosso mundo ao contrário. Literalmente. De repente, todos fomos obrigados a rever as nossas prioridades. E os Municípios, enquanto instrumento da administração autónoma do Estado, pela sua proximidade junto das populações, e pela amplitude das suas atribuições, que vão desde a ação social à proteção civil, foram chamados a dar resposta imediata aos efeitos desta pandemia. No caso do concelho de Mêda, a situação viveu-se de forma ambígua. Os primeiros 10 meses da pandemia passaram de forma serena, com resultados muito satisfatórios. Tivemos alguns casos de COVID, mas sempre em cadeias de contágio devidamente identificadas. No período entre o natal e o ano novo, fomos atingidos de forma brutal, com diversos surtos que atingiram a comunidade de forma avassaladora. E assim, de repente, encontramo-nos com um dos maiores índices per capita de contágio do país.  Mas não baixamos os braços. Continuamos a focar a nossa ação em dar resposta às necessidades, focando-nos no principal: ajudar os que mais precisam. Assim, numa ação concertada com IPSS’s, Bombeiros, Juntas de Freguesia, Voluntários e outras forças vivas do concelho, foi possível dar resposta à altura do exigido. O impacto dos surtos nos lares de idosos foi particularmente exigente. Porque afetou utentes das instituições, funcionários, e suas famílias. Mas a nossa resposta foi eficaz. 

VL – O impacto económico foi certamente notado nas empresas e nas famílias. Que medidas foram implementadas pelo Município para acorrer às diferentes situações e para minimizar os prejuízos e as dificuldades sentidas?

Desde a primeira hora nos mantivemos atentos às necessidades impostas por esta situação. Nas mais variadas vertentes. A interrupção das aulas obrigou-nos a encetar esforços na aquisição de equipamento informático de forma a possibilitar aos alunos sem recursos o acesso a um ensino de qualidade. Ao nível do apoio às famílias, mantivemos a distribuição de refeições escolares ao domicílio para famílias carenciadas. Colocamos diversos programas em prática com vista ao auxílio a pessoas de mobilidade reduzida ou portadoras de doença crónica, entregando compras e medicamentos ao domicílio. E claro, por termos noção do impacto económico desta pandemia, implementamos um largo programa de apoio ao comércio e à restauração, apoiando financeiramente os pequenos negócios que tinham sido obrigados ao encerramento forçado da sua atividade.

VL – As IPSS´s de toda a região foram chamadas a prestar um apoio social decisivo à população, ao mesmo tempo que tiveram de cumprir apertadas medidas de segurança. Como foi a resposta das Instituições Sociais no Concelho? Que papel coube à Câmara?

Reforçamos o apoio às IPSS’s do concelho, uma vez que estas instituições são verdadeiros parceiros na prestação de serviços e no acompanhamento de pessoas com dificuldades. Este apoio teve a vertente financeira, com reforço do apoio monetário a estas instituições, de forma a fazerem face às necessidades emergentes, e teve a vertente de apoio logístico num amplo programa de distribuição de equipamentos de proteção individual por todas as instituições. Ao mesmo tempo, isentamos por um largo período todas as IPSS’s do pagamento de diversas taxas municipais. Tudo com o propósito de facilitar a atividade destes nossos parceiros, cujo papel na mitigação dos efeitos desta pandemia, tem sido da mais elevada importância. Pela proximidade que têm junto dos mais vulneráveis, principalmente dos mais idosos, uma estreita colaboração com as IPSS’s do nosso território é da mais elevada importância para o sucesso duma ação de resposta conjunta.

VL – O turismo, fundamental na nossa região, foi amplamente afetado, com um decréscimo acentuado no número de visitantes. A restauração, a hotelaria, pequenas empresas, produtos com a marca do Concelho, viram-se em grandes dificuldades. Foi adotada alguma medida especial para este setor e que expetativas tem para a atividade turística para o concelho em 2021?

O programa de apoio ao comércio e à restauração foi um primeiro passo dado pelo município, no propósito de mitigar os efeitos da pandemia neste sector, cuja importância no nosso desenvolvimento económico local é inegável. Este programa destaca-se pela sua ambição, principalmente se tivermos em conta as capacidades financeiras do nosso Município. Fizemos um esforço considerável para colocar estas medidas em prática, exigindo um esforço no nosso orçamento na ordem dos 300.000€. No entanto não queremos ficar por aqui. Neste momento estamos a estudar um reforço destas medidas de apoio, dedicadas ao sector da hotelaria e do alojamento local. Esperamos poder lançar este reforço em breve.

VL – Nesse sentido, ainda, como é que foi a coordenação das medidas a implementar entre o poder local, bem no interior do país, e os organismos centrais? E já agora, a inserção na CIM-BSE tem contribuído para uma resposta conjunta mais coordenada e eficiente?

As Comunidades Intermunicipais – principalmente na falta das tão badaladas, mas ainda inexistentes, regiões administrativas – acabam por se tornar numa espécie de unidades intermédias entre as autarquias locais e a administração central. No nosso caso, sempre prevaleceu um espírito solidário e de parceria com todos os municípios da CIM. No entanto, cada Município tem a sua realidade, as suas prioridades, os seus eixos estratégicos e a sua agenda própria. No que à resposta á pandemia diz respeito, cada município implementou as suas medidas, em função das suas capacidades e claro, conforme a sua vontade política. A CIM-BSE é um instrumento importante para a promoção de um trabalho em rede entre os municípios, em prol do desenvolvimento da região. Mas esta situação que o país atravessa, veio provar, mais uma vez, a importância do Poder Local. Principalmente nos territórios do Interior. Os Municípios e as Juntas de Freguesia foram instrumentos de combate à Pandemia, fundamentais no apoio às populações.

VL – A dinâmica dos municípios foi igualmente decisiva neste contexto. Mas, apesar dos constrangimentos, os projetos em curso continuaram. O que gostaria de ver concretizado até ao final deste mandato autárquico?

Exatamente. A vida continua, e a atividade municipal não para. Este ano revela-se bastante importante para nós. Existem diversos projetos já em execução, bem como outros em fase adiantada de implementação, que são conquistas que há muito o nosso território exigia. A nova Área de Acolhimento Empresarial, por exemplo, já se encontra a concurso. Um investimento de cerca de 2 milhões de euros que vem dar resposta a uma necessidade de longa data. Esta valência assumirá um papel importantíssimo no desenvolvimento do nosso tecido empresarial local em muito curto prazo. No sector do turismo, uma área tão importante para o nosso território, demos recentemente inicio à construção do Centro Interpretativo de Longroiva, dedicado ao tema da presença templária naquela aldeia do Alto Douro Vinhateiro. A barragem do regadio da Coriscada continua a ocupar um lugar central nas nossas pretensões. Principalmente pela importância que este investimento assumiria para o desenvolvimento agrícola do nosso concelho. Continuamos a batermo-nos pela sua concretização, num processo que sabemos difícil e moroso, mas do qual não desistimos.

VL – Para alguém que visita o concelho, como o apresentaria? Que caraterísticas distintivas tem este território, do ponto de vista económico e empresarial, cultural e patrimonial?

O nosso slogan é a nossa imagem de marca: Onde o Douro Encontra a Serra. Esta pequena frase congrega muito da nossa identidade. Somos um concelho orgulhoso no seu passado mas de olhos postos no futuro. Presamos por manter índices de qualidade de vida acima da média, que nos tornam num território convidativo para viver, visitar ou investir. A nossa riqueza, reflete-se na qualidade dos nossos produtos, com destaque para o vinho, mas não só, fruto da conjugação do trabalho do Homem e da Natureza. Temos Património e Cultura. Temos Gastronomia e Lazer.  Mas a nossa principal riqueza é a nossa gente. Gente de afetos, amiga e hospitaleira, herdeira de uma solidariedade ancestral, que se expressa diariamente na arte de bem receber quem nos visita.

VL – A população concelhia, a exemplo do que acontece em todo o interior português, envelhece e diminui. Que consequências se avizinham? Como contrariar o êxodo da população a que assistimos e favorecer a sua fixação entre nós? Como vê, a partir do lugar que ocupa, a situação do País? Tendo em conta também os tempos que se avizinham…

É do conhecimento comum que o nosso país possui esta inclinação para o litoral. As causas estão mais que dissecadas. O atual governo tem o mérito de ter trazido o futuro do interior do país para a frente do debate político. O que precisamos agora é de consistência. Porque não é em meia dúzia de anos que revertemos um problema que tem mais de um século. O problema da desertificação não é um problema do interior. É um problema do país! Como se reverte? Com políticas consistentes, persistentes, estruturantes e, muito importante, consensuais entre os principais decisores políticos. A criação do Ministério da Coesão Territorial foi um bom passo inicial. A capacidade da Ministra Ana Abrunhosa para liderar este ministério é, em meu entender, inquestionável. Mas precisamos de ganhar tração. O cenário é, como diz, preocupante. Mas, pessoalmente, recuso-me a baixar os braços. Temos de criar condições de fixação de pessoas. Que os jovens aqui constituam as suas famílias. Para isso, precisam de emprego. Para existir emprego tem de existir investimento, público e privado. São muitas variáveis numa equação complexa. Neste momento, ainda não estamos a viver os efeitos económicos desta pandemia. Os próximos anos serão difíceis. Manifesto alguma preocupação quando não vejo, por exemplo, no Plano de Recuperação e Resiliência, grande importância dedicada aos territórios de baixa densidade. Acredito que aqui residirá uma parte importante da resposta à crise. Pela preponderância de setores como a agricultara e o turismo por exemplo. Mas não só. Se há algo que a pandemia nos trouxe foi uma nova forma de encararmos o trabalho, e o nosso relacionamento com ele. Os nossos territórios serão destinos privilegiados para pessoas com possibilidade de trabalho à distância, bem como na criação de espaços de coworking, por exemplo. Haverá, a este nível uma nova realidade à qual convém estarmos atentos.

VL – A menos de um ano do fim do atual mandato autárquico, que balanço faz do trabalho realizado?

Tem sido um mandato atribulado. Metade ficará inevitavelmente marcado pela pandemia, e pelos desafios que nos colocou. Haverá ainda muito para fazer. Mas, analisando de uma forma global estes últimos anos tenho de congratular-me pelo trabalho realizado. Iniciamos projetos importantes. Efetuamos obras importantes para o concelho, com um investimento considerável. O balanço é manifestamente positivo. É com base nesse balanço que tomei a decisão de me apresentar novamente a eleições, e dessa forma me submeter, mais uma vez, ao julgamento democrático dos cidadãos.

VL – Que mensagem de esperança e de estímulo gostaria de transmitir aos seus munícipes para este novo ano?

Os tempos que atravessamos são difíceis. Não o nego. Quiçá mais difíceis que qualquer um de nós imaginaria há cerca de 1 ano atrás. Mas não podemos esmorecer. Os desafios atuais impõem resiliência e, acima de tudo, união. Tenho a certeza que superaremos mais este obstáculo, e que, não tarda, poderemos voltar a partilhar momentos de alegria e de fraterno convívio. Não posso terminar sem deixar a todos uma palavra de esperança no futuro.

in Voz de Lamego, ano 91/22, n.º 4604, 13 de abril de 2021

Entrevista com o Sr. Presidente da Câmara Municipal Cinfães, Enf.º Armando Silva Mourisco

Esta semana, o nosso jornal foi até Cinfães, prosseguindo a entrevistar os Presidentes de Câmara que servem os concelhos que formam a nossa Diocese. Damos a apalavra ao excelentíssimo Dr. Armando Silva Mourisco, naquele que é o segundo mandato à frente deste município.

Natural de Souselo, enfermeiro, 51 anos, casado e tem três filhos. Foi Presidente da Junta de Freguesia de Souselo, entre janeiro 2002 a outubro de 2009; Presidente da Assembleia de Freguesia de Souselo de outubro de 2009 a outubro de 2013; Deputado Municipal, entre 2002 e 2013; Presidente da Câmara desde 2013. Foi Vice-presidente da Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa, de setembro de 2015 a novembro de 2017, tornando-se então a Presidente da Comunidade Intermunicipal entre 2017 e final de 2019. Foi Vice-presidente da Dólmen. É Presidente do Conselho Consultivo do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa. Integra o conselho consultivo da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Felgueiras/Politécnico do Porto. Membro do conselho geral da Associação Nacional de Municípios. Membro do Conselho Geral da Agência Portuguesa do Ambiente.

Voz de Lamego – A pandemia do novo coronavírus colocou-nos a todos em alerta. A resposta, como em tantas situações, passa pela intervenção local, em que o Presidente do Município tem um papel essencial, de coordenação e intervenção. Como tem vivido o concelho estes tempos? Principais necessidades e constrangimentos…

Tempos difíceis, estranhos e de enorme preocupação. São tempos também de muita articulação, parcerias, trabalho de equipa com a saúde, forças de segurança e socorro, instituições particulares de solidariedade social e segurança social, escolas, entre outras.

A preocupação dominante prende-se com os mais frágeis- idosos e doentes crónicos, considerando que a mortalidade é claramente elevada nesses grupos.

VL – O impacto económico foi certamente notado nas empresas e nas famílias. Que medidas foram implementadas pelo Município para acorrer às diferentes situações e para minimizar os prejuízos e as dificuldades sentidas?

Foram criados mecanismos de apoio ás famílias, instituições e empresas.

Nas famílias mais carenciadas e afetadas pela pandemia, assim como aos alunos das nossas escolas atribuímos vales de compras de produtos alimentares e de higiene, apoio nos transportes, na aquisição de medicação, no pagamento de serviços essenciais (água, luz). Também reforçamos o apoio ao arrendamento.

Realizamos a aquisição de 200 computadores que entregamos ás escolas que por sua vez os disponibilizaram aos alunos mais carenciados, tendo em vista o ensino á distância.

Reforçamos os apoios financeiros ás instituições particulares de solidariedade social e bombeiros, para além do fornecimento de equipamentos de proteção individual.

Às empresas mais afetadas pela pandemia, com o objetivo da preservação do emprego, isentamos o pagamento das taxas e impostos municipais, apoiamos no pagamento da renda, luz, água e layoff, atribuímos apoios a fundo perdido por cada posto de trabalho, promovemos a aquisição de produtos no comércio local, entre outras medidas.

VL – As IPSS´s de toda a região foram chamadas a prestar um apoio social decisivo à população, ao mesmo tempo que tiveram de cumprir apertadas medidas de segurança. Como foi a resposta das Instituições Sociais no Concelho? Que papel coube à Câmara?

As IPSS desenvolvem um dos papéis mais importantes na sociedade. Fazem-no com zelo, dedicação e sentido de responsabilidade.

O trabalho neste tempo de pandemia tem sido heroico. Esforço redobrado e disponibilidade absoluta dos recursos humanos, que muito louvamos e um aumento enorme da despesa.

Sobretudo a tarefa dificílima de proteger os utentes.

Infelizmente muitas, apesar de todo o trabalho, foram vitimas de surtos, lamentavelmente com perda de vidas humanas.

O município esteve sempre em parceria e apoio – na atribuição de ajudas financeiras e matérias de proteção para fazer face ás necessidades, na disponibilização de recursos humanos, na formação, na disponibilização de espaços de acolhimento, entre outros.

VL – O turismo, fundamental na nossa região, foi amplamente afetado, com um decréscimo acentuado no número de visitantes. A restauração, a hotelaria, pequenas empresas, produtos com a marca do Concelho, viram-se em grandes dificuldades. Foi adotada alguma medida especial para este setor e que expetativas tem para a atividade turística para o concelho em 2021?

A primavera e Verão 2020 foi de procura turística no concelho. Assim se espera novamente em 2021. Apesar de ser limitado a estes períodos temporais sempre ajuda na manutenção da atividade.

Relativo aos apoios disponibilizados pelo município, para além da promoção turística e territorial, isentamos o pagamento das taxas e impostos municipais, apoiamos no pagamento da renda, luz, água e layoff, e promovemos descontos de 25% no alojamento, nos estabelecimentos aderentes, de forma a atrair mais visitantes.

VL – Nesse sentido, ainda, como é que foi a coordenação das medidas a implementar entre o poder local, bem no interior do país, e os organismos centrais? E já agora, desempenhando as funções de Presidente da CIM Tâmega e Sousa, em que medida esta tem contribuído para uma resposta conjunta mais coordenada e eficiente?

Penso que desde a criação do ministério da coesão territorial, e da aplicação de um conjunto de medidas de apoio especificas para o interior, que a articulação e o olhar para esse interior mudou significativamente.

Quanto às CIM tem sido fundamental na articulação de polticas supramunicipais e de uma visão integrada das respostas.

VL – A dinâmica dos municípios foi igualmente decisiva neste contexto. Mas, apesar dos constrangimentos, os projetos em curso continuaram. O que gostaria de ver concretizado até ao final deste mandato autárquico?

Em Cinfães existem um conjunto de investimentos em curso, quer na área da reabilitação urbana, no turismo, nas acessibilidades, na dinâmica empresarial fundamentais para o desenvolvimento económico e social e para a empregabilidade do concelho.

Esperamos que até final do mandato esses investimentos decorram sem alterações.

VL – Para alguém que visita o concelho, como o apresentaria? Que caraterísticas distintivas tem este território, do ponto de vista económico e empresarial, cultural e patrimonial?

Cinfães propõe uma comunhão total com a natureza. A paz e o sossego de uma região no seu estado de conservação mais puro, a tranquilidade e segurança a dois passos de grandes centros urbanos estão ao alcance de todos.

Cinfães é um destino naturalmente único. Entre o cimo da serra de Montemuro e a foz do Rio Paiva no Rio Douro, da montanha ao verde das margens dos rios, Cinfães está perto de tudo e longe do reboliço e stress do dia-a-dia.

Acresce a isto uma gastronomia fantástica, a cultura e tradições, o edificado românico existente e os sentimentos acolhedores das nossas gentes.

VL – A população concelhia, a exemplo do que acontece em todo o interior português, envelhece e diminui. Que consequências se avizinham? Como contrariar o êxodo da população a que assistimos e favorecer a sua fixação entre nós? Como vê, a partir do lugar que ocupa, a situação do País? Tendo em conta também os tempos que se avizinham…

É verdade que todo o país e toda a europa envelhece.

São os novos hábitos de viver, as dificuldades de estabelecer empregos permanentes e duradouros, que acontece cada vez mais tarde e que levam á formação da família também mais tarde.

O interior envelhece mais rápido, fica mais despovoado. Os jovens emigram, fruto dos salários mais atrativos no exterior.

Incentivos á natalidade, salários mais atrativos, políticas de incentivo fiscais ao povoamento dos territórios do interior, promoção do interior como territórios com atrativos de qualidade de vida são urgentes adotar. Assim como mudar estilos e mentalidades e que deve começar no ensino pré-primário.

VL – A menos de um ano do fim do atual mandato autárquico, que balanço faz do trabalho realizado?

Não é fácil ser juiz em causa própria, mas da minha parte avalio como muito positivo, de aumento da qualidade de vida do concelho, da imagem positiva e atrativa para o exterior. No entanto terão de ser os cinfanenses a avaliar a atuação da câmara.

VL – Que mensagem de esperança e de estímulo gostaria de transmitir aos seus munícipes para este novo ano?

De muita paciência, resistência e resiliência. Sabemos que os tempos se mantêm difíceis, mas temos de nos manter fortes e muito responsáveis. Só assim ultrapassaremos as dificuldades e estes tempos estranhos, de saudade e tantas vezes de sofrimento e dor.

Mas também uma mensagem de esperança e confiança num futuro melhor, porque ele existe!

in Voz de Lamego, ano 91/20, n.º 4602, 30 de março de 2021

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Filipe Sequeira: da rádio para o palco

Assim nasce uma estrela em tempos de pandemia

O jovem cantor e músico prepara o lançamento do seu primeiro álbum a solo, com a editora Vivadisco/ Vidisco. O sonho de trabalhar com o produtor José Carlos Monteiro, as metas, e o desafio de contornar a pandemia. A entrevista, exclusiva, com Filipe Sequeira para a Voz de Lamego! 

Entrevista conduzida por Andreia Gonçalves para a Voz de Lamego.

Andreia Gonçalves: Como é que no meio de uma pandemia decides gravar o teu primeiro álbum?

Nunca há uma altura certa para se gravar; no meu caso, aproveitei o momento, depois do artista Zezito, que neste momento é o meu padrinho musical, ter-me feito o convite para participar em duas músicas com ele, cresceu realmente um sonho antigo, e aí decidi gravar os meus temas originais, que por acaso calhou numa altura muito complicada.

O que nos vais trazer?

O “Filipe Sequeira” vai-nos trazer animação, boa disposição, alegria, melodias bastante dançantes, muito ritmo e energia. Tudo que é necessário para quando isto voltar a abrir, as pessoas se poderem divertir ao máximo ao som do “Filipe Sequeira” . E com ele, ninguém irá ficar indiferente.

Porquê o José Carlos Monteiro para teu produtor?

Sou muito suspeito para falar, mas a nível musical, e dentro do estilo que eu queria, o José Monteiro seria a pessoa ideal para produzir os meus temas. Para além de acompanhar praticamente todos os seus trabalhos. Será, sem dúvida, um dos maiores produtores em Portugal. E estou imensamente satisfeito em poder trabalhar com ele. Confesso que vamos apresentar um trabalho fantástico.

A escolha da editora foi pacífica?

Nesta altura do campeonato torna-se difícil escolher ou aceitarem o nosso trabalho numa editora. Ainda para mais para quem está a começar e lançar os seus primeiros singles. Felizmente da minha parte correu tudo bem e a Vivadisco / Vidisco aceitou trabalhar comigo. É sem dúvida uma editora incrível. E juntos iremos promover este meu primeiro trabalho.

Quando chegará o Álbum para que todos possamos ouvir?

Quanto ao Álbum não terá data certa, porque não faz muito sentido, estarmos a lançar um álbum quando não há mercado ou espetáculos para promover o trabalho. Vamos claro promover nas redes sociais, em rádios e em televisão ao longo dos tempos, mas o lançamento oficial do álbum irá ficar claramente para 2021.

Apostas em videoclipes para apresentar cada single. Como tem sido esta experiência?

O meu ponto de vista, qualquer aposta numa música nas plataformas digitais, precisamos de um vídeo para pudermos “prender” as pessoas a verem e a ouvirem o nosso tema, porque as pessoas tem curiosidade de ver o vídeo, para conhecerem a história, para verem melhor o artista, como se apresenta, a sua dinâmica, e ao mesmo tempo as pessoas começam a ficar com a música na cabeça, porque vão querer ver o vídeo até ao fim, e por vezes repetir. Estes dois últimos videoclipes que realizamos têm sido incríveis. O Sandro Camilo faz parte da equipa de realização que também tem sido incansável.

Nesse aspeto, eu vou tentar apresentar os meus temas sempre com um videoclipe, ideias para realizar são muitas e cada vez a ideia é prender mais as pessoas do outro lado, ao longo da nossa caminhada.

Quando irás as rádios e à TV promover?

O meu primeiro single, “rabo de saia” irá sair já na próxima sexta-feira, e o meu segundo single, “Essa mulher é uma brasa”, no dia 16 de outubro, e a partir daí vamos começar a pensar na promoção destes dois singles, que vão ser a minha aposta para este ano 2020. Juntamente com a minha editora e a minha promotora, vamos fazer uma rota para realizar as entrevistas em rádios, e depois promover os temas em televisão.

Afinal as épocas complicadas como vivemos faz-nos repensar e trazer novas coisas ao mundo.

Todas as épocas são complicadas, e quando se inicia uma carreira, pior ainda, mas a ideia é fazer as coisas com calma e tranquilidade, com tempo tudo é possível, basta pensarmos positivo. temos é que é saber viver e termos ideias novas para podermos entrar no mercado.

Deixo o convite a todos os lamecenses, para verem o meu primeiro videoclipe do “Rabo de saia” que foi gravado no Paraíso Douro, e partilharem na próxima sexta-feira, no YouTube ou na minha página oficial! E um agradecimento ao Jornal Voz de lamego por apoiar as pessoas da sua região!

in Voz de Lamego, ano 90/43, n.º 4578, 6 de outubro de 2020

Amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas

Reportagem-entrevista de Andreia Gonçalves para a Voz de Lamego

O valor da amizade é incalculável. Mais ainda, quando atravessam a história e ultrapassam os 50 anos. Nem com as barreiras e pontes longínquas, as duas amigas que encontrei se perderam. Conheça esta história, que tem valor de joia rara. 

Alzira e Lurdes estão separadas por um oceano, a primeira vive e trabalha em Lamego, e a outra lá no país irmão, Brasil. Ambas filhas de portugueses, e nascidas em Angola. Foi em Luanda que viram nascer a amizade que seria para a vida. “Éramos vizinhas, morávamos na Vila Clotilde e estudávamos no Liceu Feminino que era uma referência muito forte da juventude da cidade de Luanda”, diz Lurdes com o seu sotaque doce que há anos recebeu de presente do país que a acolheu, a si e aos seus pais, quando os portugueses tiveram de abandonar as suas vidas, após 1974, e recomeçarem, onde quer que fosse, sem medo. Lurdes e Alzira lembram os tempos de meninas de Angola, com muita diversão, sorriso e calor. Ao chegarem do Liceu “reuníamo-nos no portão da minha casa e assim convivíamos com os amigos que também eram nossos vizinhos”. “Nas manhãs de domingo íamos à praia na Ilha de Luanda e à tarde às matinés no cinema em frente à Liga Nacional Africana ou ao Clube Transmontano onde havia uns bailes únicos”. Alzira acrescenta que “para não irmos sozinhas, a mãe da Lurdes e a minha irmã mais velha iam connosco, era engraçado, o pai dela tinha um táxi e então íamos todas no carro (a Lurdes, a mãe, a irmã, eu e minha irmã), ele deixava-nos lá e depois ia buscar-nos”.

A separação foi muito rápida e muito difícil, entre os 16 anos de uma e os 17 da outra, e não tínhamos muito tempo para pensar no que faríamos. Os sonhos derreteram-se rapidamente. “A minha família tinha a opção de vir para o Brasil ou ir para Portugal, mas por motivo de doença, o meu pai estava a padecer de cancro e precisaria morar num país tropical, decidimos vir para o Brasil” explica Lurdes.  

Para Alzira foi uma separação muito sentida! “Pois veio-me logo à cabeça que não nos íamos ver mais, que a nossa amizade ficava por ali, porque íamos para muito longe uma da outra, eu vinha para Portugal e a Lurdes para o Brasil. Tudo isto foi em 1975, portanto há 45 anos, para mim era impensável ir ao Brasil visitar a minha amiga, pois o Brasil não era logo ali ao lado… A mãe da minha amiga (que também era muito amiga da minha mãe) ainda queria que fôssemos todos para o Brasil com eles e começávamos lá uma vida nova. Mas tal não aconteceu, porque aqui em Portugal já tínhamos pelo menos uma casinha e uns terrenos, que por ironia do destino ou não, tínhamos herdado do meu avô paterno precisamente um ano antes quando viemos a Portugal de Graciosa, e as minhas tias e o meu avô quiseram aproveitar a estadia do meu pai para fazerem as partilhas, pois não tínhamos intenção de vir a Portugal tão depressa. Fizeram-se as partilhas e o meu avô faleceu uns meses a seguir.

Se não tivesse acontecido isso era provável que também fôssemos para o Brasil com eles.

Na altura da separação não me lembro de ter havido troca de direções, só sabíamos que eram de Loulé e que iam para o Brasil, e elas sabiam que os meus pais eram de Nagosa – Moimenta da Beira”, diz Alzira, relembrando o coração apertado da altura.

A separação de duas amigas foi inevitável, e havia a incerteza por toda a parte, contudo, continuaram durante anos a alimentar a amizade por carta, que atravessavam, o atlântico, nas datas mais marcantes como aniversário ou Natal. Foram precisos 25 anos, para que no ano 2000, as amigas pudessem viver um abraço, novamente, Encontraram-se em Lamego e descrevem este momento como mágico de enorme emotividade.

Agora, passaram os sessentas, e são as novas tecnologias que facilitam as comunicações. “No começo a Alzira não tinha Facebook mas trocámos e-mails, conversávamos pelo Skype e agora conversamos por WhatsApp, por Messenger, as nossas mães também conversam e a interação ficou muito fácil”.

Foi em 2010, que estiveram juntas pela última vez.  Mas, quando acabar a pandemia, Lurdes quer voar de novo até Portugal, porque quando a amizade é verdadeira “a distância não separa, as lembranças estão sempre vivas”.

Diz a filosofia chinesa que amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas: nenhuma tempestade consegue arrancar, então como não podemos nos visitar assiduamente usamos a tecnologia a favor da nossa amizade, referem as duas.

Uma união das meninas, que foram mães e que num pequeno nada partilharão ambas a experiência da nova etapa de Alzira, ser avó. Aí Lurdes já dará umas dicas!

Como foi a separação e para onde foram?

Foi uma separação muito sentida, pois veio-me logo à cabeça que não nos íamos ver mais, que a nossa amizade ficava por ali, porque íamos para muito longe uma da outra, eu vinha para Portugal e a Lurdes para o Brasil. Tudo isto foi em 1975, portanto há 45 anos, para mim era impensável ir ao Brasil visitar a minha amiga, pois o Brasil não era logo ali ao lado…

A mãe da minha amiga (que também era muito amiga da minha mãe) ainda queria que fôssemos todos para o Brasil com eles e começávamos lá uma vida nova. Mas tal não aconteceu, porque aqui em Portugal já tínhamos pelo menos uma casinha e uns terrenos, que por ironia do destino ou não, tínhamos herdado do meu avô paterno precisamente um ano antes quando viemos a Portugal de Graciosa, e as minhas tias e o meu avô quiseram aproveitar a estadia do meu pai para fazerem as partilhas, pois não tínhamos intenção de vir a Portugal tão depressa. Fizeram-se as partilhas e o meu avô faleceu uns meses a seguir.

Se não tivesse acontecido isso era provável que também fossemos para o Brasil com eles.

Na altura da separação não me lembro de ter havido troca de direções, só sabíamos que eram de Loulé e que iam para o Brasil, e elas sabiam que os meus pais eram de Nagosa – Moimenta da Beira.

Como mantiveram apesar de todas as condicionantes a vossa amizade?

Como já tinha dito elas sabiam que éramos de Nagosa, e numa aldeia a correspondência chega com facilidade a casa das pessoas, pois toda a gente se conhece, bastava o nome e a carta era entregue ao destinatário. Foi assim que recebia primeira carta da Lurdes (mas não foi logo, ainda se passaram uns anitos). Foi com muita alegria e emoção que recebi a carta e pensei logo “a Lurdes não me esqueceu”… E a partir daí fomos mantendo o contacto através de carta. Ainda nos escrevemos durante alguns anos.

Ela já veio a Portugal 2 vezes.

As novas tecnologias aproximaram-vos ainda mais?

Sim, sem dúvida, primeiro por e-mail e depois falava com ela através do Facebook da minha filha (eu não tenho Facebook) e agora pelo WhatsApp.

Quando estiveram juntas fisicamente pela última vez?

Não sei ao certo, talvez há 7 ou 8 anos.

Para quando o próximo abraço?

No início deste ano a minha amiga estava a pensar vir cá no verão para trazer a mãe, pois como a senhora já tem idade ela não queria que a mãe “morresse” sem vir à terra, mas com isto da pandemia do Covid-19 o desejo de vir a Portugal ficou adiado, por isso neste momento é difícil prever uma data.

O que é uma verdadeira amizade?

É aquela em que ambas as partes continuam a preocupar-se uma com a outra apesar da distância e sem segundas intenções.

E como se alimenta essa mesma amizade?

É tentar fazer com que a mesma não acabe, mantendo sempre o contacto através de qualquer meio.

in Voz de Lamego, ano 90/39, n.º 4574, 8 de setembro de 2020

Música: Vidas suspensas pela pandemia

Por Andreia Gonçalves

A música é a arte que inspira o mundo. E neste momento estamos privados de festas e romarias, de concertos e arraiais. A vida de muitos está suspensa e é por isso que o :Voz de Lamego foi perceber o que vai na alma das vozes daqueles que fariam das festas o seu sustento financeiro e realização pessoal até ao final do verão.

Tiago Sousa – vocalista

Vocalista dos “Império Douro”, músico e um dos fundadores dos “Guitarras D’ouro”.

Tudo parou mas eu consegui tirar pontos positivos mesmo dentro deste problema todo, tive tempo para compor, escrever, dedicar-me mais a fazer originais, também aproveitar pra estudar mais um pouco a guitarra.

Mas como é óbvio sinto falta do palco. Todo este cenário deixa- me um pouco triste, porque a música é uma arte que transporta muito sentimento para as pessoas quer na alegria quer na tristeza. E este tempo sem haver concertos deixa um vazio enorme.

Com as devidas regras e se toda a gente se proteger, corretamente, penso que as coisas poderão começar, novamente, a curto prazo, a andar. Não sabemos como vai ser o futuro mas temos de manter a esperança.

Márcio Pereira – cantor

Nos meses de março e abril a media seria de 13 concertos agendados. E de um dia para o outro a pandemia COVID-19 cancelou todos eles sem sequer estarmos à espera. Numa questão de horas, dias estes cancelamos propagaram-se para maio, junho, julho, agosto. E assim se perdeu a esperança de qualquer tipo de trabalho na área da música nesta época que se adivinhava tao rica na minha carreira.

Inicialmente a sensação foi de calma como se de umas ferias se tratasse. Mas rapidamente o sentimento passou a desespero. Tanto pela falta de dinheiro como por falta de trabalho, pois não se sabe quando poderei voltar á minha rotina normal.

No entanto foram saindo leis que nos dão alternativas ou soluções (dizem eles) mas não deixa de ser uma luz ao fundo do túnel. O segredo? Não desistir, persistir e acima de tudo readaptarmo-nos à nova realidade da forma mais profissional possível.  O futuro? É a questão mais incerta que tenho neste momento. Tudo pode acontecer como não acontecer.

Filipe Sequeira – Cantor, vocalista kmusic e locutor de rádio

A pandemia veio prejudicar completamente o meio artístico. Um ano que prometia ser dos melhores, mas do dia pra noite, conseguiu ser dos piores. Ficamos todos sem trabalho, investimentos que ficaram sem efeitos, e tudo o que preparamos para este ano foi em vão.

Mesmo com todas essas dificuldades, eu continuei a trabalhar, e 2020, será dos anos especiais. Já me encontro em estúdio, com o José Carlos Monteiro, a gravar os meus primeiros singles. Com parceria do Zezito, onde já lançamos dois temas em conjunto, até um deles, gravamos um vídeo-clip na cidade de lamego.

Não será a pandemia que me irá assustar, porque tenho esperança, que para o ano, podermos voltar aos palcos e mostrar a nossa boa disposição. E dar ao público o carinho que nos merece. Sempre foi assim, e continuará a ser. Até porque a esperança é sempre a última a morrer.

Fábio Abrunhosa – Banda SPS – técnico de som

Depois que começou esta pandemia, vi tudo a ser adiado, todos os espetáculos que tinha.  Mas com o passar do tempo, os espetáculos foram mesmo, cancelados, é claro não sabia quando isto acabaria….

Em termos financeiros, aquele extra que estava à espera e que já tinha destino, desapareceu.

Depois há́ a outra parte que é não pode mos estar juntos, pois tivemos muito tempo em confinamento.

Agora já́ é um bocadinho diferente.

A vida “artística”, não é só́ espetáculos!

É o convívio, o publico, a adrenalina, a confusão, a pressa para ter tudo pronto.

E que agora não se sente há́, sensivelmente, 4 meses.

Rúben Rodrigues – Empresário e técnico de som Grupo Arkádia

De facto, fora os espetáculos que representam 60% a 80% do meu suporte financeiro tenho um pequeno espaço comercial ligado, também, à música…  Resumindo, em poucas palavras, fui afetado em 100%.

Pois, não há espetáculos, não há vendas, não há “som” para fazer, parei completamente, sendo empresário em nome individual, nem ajudas sequer foi possível ou existem sequer.

 Com esta pandemia fiquei sem espetáculos e sem vendas, pois não se consegue vender nem instrumentos nem acessórios não havendo “música”… é isto reduzido ao que estamos neste momento a passar.

Contudo sempre com esperança que dias melhores virão e que o mais breve possível se consiga recompor tudo…

in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

Portugal meu canto – reportagem com Paulo Paradela

Andreia Gonçalves em reportagem sobre Paulo Paradela, que se encontra em Salvador da Baía, no Brasil

Paulo Paradela é um cantor natural da cidade de Lamego.

Feitas as contas tem seis álbuns de originais, o último dos quais um “best off” e fez também oito participações especiais noutros álbuns. Tudo começou no concurso de imitações “Chuva de Estrelas”, e depois no “Big Show Sic”, onde os distritos de Vila Real e Viseu torciam pelo intérprete, de voz intensa, afinada e melodiosa e “nossa”. As rádios também ajudaram no caminho de Paulo Paradela. E muitos foram os espetáculos, atuações e karaokes que o cantor realizou, através da empresa, que constituiu, para viver da música, há mais de duas décadas.

Agora, o cantor português é bandeira da cidade lamecense e um agente promotor da música portuguesa, e do nosso país, em Salvador da Baía, no Brasil. Confinado nesta fase, com as três filhas e a esposa fisioterapeuta, continua a história de amor lá do outro lado do oceano, que já conta mais de duas décadas. Teve a ideia de “cantar na varanda para os meus vizinhos para lhes dar um pouco de alegria. A ideia foi bem aceite e depois de alguns diretos para as minhas redes sociais, na varanda de casa, decidi continuar dentro de casa onde a qualidade do som era bem melhor”. O último dos quais este sábado (11/07) onde Paulo interpretou “os originais para que as pessoas desfrutem das músicas da minha autoria. Tenho tido feedback de tanta gente, dado entrevistas a rádios de países latinos, como por exemplo, Colômbia e isso faz-me estar em contacto com o mundo e promover a minha arte”.

Já foram muitos os espetáculos realizados no Brasil, através do consulado português, gabinete português de leitura, atuações de música ao vivo em restaurantes e festas privadas.

Quer regressar ao nosso país, pois diz ter saudades da família e dos amigos e quer que a filha mais velha frequente uma faculdade em Portugal. Até lá faltam dois anos de aventura no país descoberto por Pedro Álvares Cabral. “Salvador tem uma grande herança dos portugueses, na construção e ornamentação da cidade, a talha dourada das igrejas, entre outras coisas mas é um país completamente diferente”. E salienta que ” quem vai de férias não conhece o país real, onde a desigualdade social é abissal”. 

“Portugal meu canto” é um espetáculo preparado para ser apresentado no Teatro Ribeiro Conceição, em Lamego, mas adiado desde março último. Contudo, o cantor acredita: “quando isto passar voltarei a dar vida a este espetáculo de alma e coração”.

in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

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Andreia Gonçalves entrevista a professora Mónica Silva

“Os nossos alunos e o seu profissionalismo são a bandeira que nos representa e deixa orgulhosos”

A escola de Hotelaria e Turismo do Douro, situada em Lamego, está a comemorar duas décadas de existência. Tem capacidade para 300 alunos e um campus moderno e atual que pode visitar virtualmente em: https://bit.ly/2W4NzYA. Respondendo às necessidades de quem decide estudar neste espaço há um conjunto de potencial humano composto por formadores das mais diversas áreas e projetos nos âmbitos da sustentabilidade, responsabilidade social, voluntariado e saúde.

Neste sentido, faremos uma abordagem relativamente ao papel deste estabelecimento de ensino, ao longo dos últimos anos, com a professora Mónica Silva, da área de Cultura Geral, Diretora de Turma, Coordenadora dos projetos: Eco-Escolas, Educação para a Saúde e Biblioteca Escola, Embaixadora da Sustentabilidade, Mentora do Projeto Técnico Pedagógico da Escola, representante da Escola no Projeto Escola Inclusiva, Responsável pelo Grupo de Voluntariado e Representante da Escola na Rede de Bibliotecas do Concelho de Lamego.

Como tem sido a experiência de lecionar nesta instituição?

Em primeiro lugar pretendo agradecer o convite e a vossa valorização ao trabalho realizado na escola que represento com muito orgulho. Depois referir que têm sido 9 anos de grande orgulho, satisfação e realização pessoal e profissional. A Escola de Hotelaria e Turismo do Douro-Lamego tem desenvolvido desde a sua criação um papel fundamental na história da região. Com cursos das áreas técnicas de Cozinha, Pastelaria, Restaurante, Bar e Alojamento tem permitido a formação de um potencial humano para a região, para o país e para o mundo. Os nossos alunos e o seu profissionalismo são a bandeira que nos representa e deixa orgulhosos. Como professora tem sido uma experiência maravilhosa contactar, já com algumas dezenas de alunos, formar para os valores humanos e soft skills e depois vê-los realizados profissionalmente é, para mim, uma grande alegria e até sensação de dever cumprido para com a sociedade.

A escola tem um lema de fazer “coisas simples, extraordinariamente bem”.  Como se consegue por esta ideia em prática?

Este lema é fantástico e para por em prática eu utilizaria um cocktail: uma dose de profissionalismo, uma dose de orgulho, uma dose de vontade e empenho, duas ou três doses de amor , paixão, humildade e empenho pelo que se faz, mistura-se tudo e através de realizações simples focadas no objetivo principal que é a profissionalização dos nossos alunos, conseguimos fazer nascer “coisas” extraordinárias. E o resultado são os muitos prémios e certificações que os nossos alunos conseguem atingir. Acrescento ainda o papel dos projetos que desenvolvemos pois incutem e desenvolvem as soft skills para temas como por exemplo a sustentabilidade e a responsabilidade social que hoje nos nossos dias são essenciais para transformar as nossas atitudes e fazermos um mundo melhor. Creio que temos conseguido, temos levado muitos sorrisos a quem precisa com o nosso Clube de Voluntariado quando nos deslocamos às IPSS´s, Hospitais /Centros de Saúde, quando recolhemos alimentos para as campanhas do Banco Alimentar ou quando recolhemos roupa ou outro tipo de bens e depois entregamos a crianças, famílias e até ao canil de Lamego e mesmo quando participamos e nos unimos para campanhas a nível mundial de ajuda humanitária. Nesses momentos a nossa alma vem cheia de coisas boas e maravilhosas, pois recebemos muitos sorrisos, algumas lágrimas também, mas e principalmente damos e recebemos AMOR para conseguirmos continuar a nossa jornada.

Nos últimos tempos assistimos à necessidade da tele-escola. As aulas na vossa escola terminarão no final de julho, que balanço faz?

Como sempre, na nossa escola, toda a comunidade escolar que vai desde as funcionárias da limpeza até aos nossos alunos, está habituada a adaptar-se às situações. Somos empreendedores e arranjarmos soluções, nada pode parar, somos resilientes e muito persistentes. Portanto este período foi de grande esforço para todos, professores e alunos e encarregados de educação. Todas as dificuldades iniciais de acesso à internet, computador, etc… foram mitigadas com o grande apoio do Turismo de Portugal que atribuiu uma bolsa para despesas a todos os alunos subsidiados, emprestou computadores aos alunos que não tinham esses equipamentos, atribuiu um subsídio de refeição a todos os alunos pelo facto de estarem em aulas online e portanto logo no início todas as dificuldades foram sendo dissipadas.  A nossa escola teve aulas online desde o início do confinamento até final de julho para as aulas teóricas e nos meses de junho/julho realizaram-se as aulas técnicas em regime presencial com todas as regras e recomendações da DGS e que estão todas a decorrer dentro da normalidade.

A necessidade de cursos profissionais impera no nosso país. E a área de turismo é um dos maiores valores desta região e não só. Quais são os cursos que despertam maior interesse aos alunos e porque acha que isso acontece?

O nosso país é um país direcionado para o Turismo o que implica que haja uma estratégia nacional de formação profissional. A escola de Hotelaria e Turismo do Douro-Lamego faz parte do Ministério da Economia, tutelada pelo Turismo de Portugal e foca a sua ação nos cursos de Cozinha/Pastelaria, Restaurante/Bar e Alojamento. Temos cursos de nível IV que atribuem a certificação de 12º ano e de Técnico de Cozinha e Pastelaria e Restaurante e Bar e cursos de nível V com formação pós-secundário nas áreas da Gestão e Produção de Cozinha, Gestão de Produção e Pastelaria, Gestão de Restauração e Bebidas e Gestão Hoteleira Alojamento. Deixe-me destacar e desmistificar a ideia que a população no geral tem relativamente aos cursos de Restaurante e Bar. A ideia tradicional é que vão tornar-se empregados de mesa e na maioria das pessoas desvalorizam esses cursos relativamente aos de cozinha/pastelaria porque os programas de televisão lhes dão muto destaque. Mas os cursos de Restante e Bar formam futuros profissionais para assumir cargos de chefes de sala, chefes de bar, soumelier, escanção, diretor de F&B, assessor de direção de hotel, entre outras. Convido a todos a visitarem as nossas instalações, a pedirem informações acerca dos curos de Restaurante e Bar e não ter medo de arriscar e ir em frente na escola de um curso que tem 90% de empregabilidade a nível nacional e internacional. São os trabalhadores das áreas da restauração que são o postal de visita do nosso país e por isso é importante ter um potencial humano com formação e só com esse profissionalismo, a nossa simpatia e a nossa dedicação que contribuímos para o desenvolvimento da economia do nosso país. “Fazemos coisas simples, extraordinariamente bem”.

Viagens e experiências únicas que gostaria de destacar destes últimos anos?

Eu adoro viajar e gostava de conseguir nos próximos 10 anos correr pelo menos metade de todos os países do mundo!! Destaco uma viagem que fiz à costa alentejana à praia de Odeceixe onde assisti a um magnífico por do sol e com a companhia certa me senti parte de um mundo maravilhoso e apreciei a beleza do nosso país. Respirei amor e alegria e voltarei para escrever o meu nome na enseada que é tradição e que não o fiz por vergonha na altura!! Adoro o nosso país, sempre que posso conheço locais novos, mas uma viagem de sonho é a Índia.

Obrigada pelo vosso convite e parabéns pelo vosso trabalho.

in Voz de Lamego, ano 90/32, n.º 4567, 7 de julho de 2020

Rita Gomes, natural de Tabuaço, vence competição internacional

Rita Gomes em entrevista à Andreia Gonçalves para a Voz de Lamego

Os tempos mudaram, e as competições de canto passaram acontecer online.

Rita Gomes, de Tabuaço, acaba de vencer o Star Rain Cup, representando Portugal num concurso internacional de canto, da associação internacional online “Star Rain Cup Spring – season 2020”, organizado pela associação alemã MTV BERLIM. Venceu com pontuação máxima.

Rita, explica-nos como tudo aconteceu…

Este foi um concurso internacional online, organizado pela associação alemã MTV BERLIM, onde competiram diversos artistas de vários países diferentes.

A convite do meu professor de canto, o grande Professor Joaquim Caetano, tive a oportunidade de concorrer. Como era online, não exigia uma performance em direto, mas sim o envio de um tema. Escolhi o tema “Love by Grace” da fabulosa cantora Lara Fabian, não só pela beleza inerente da canção, mas também pelo sentimento forte que esta transmite. Tive a felicidade e a sorte de ver o meu trabalho reconhecido e de, para além de a ser a grande vencedora do concurso, conseguir a pontuação máxima possível de todo o concurso. Devo admitir-te que, dado grande grau de exigência do concurso e a qualidade dos participantes, que fiquei muito surpreendida e contente pelo desfecho.

O sonho dá muito trabalho, certo?

Sem qualquer tipo de dúvida! Trabalho e dedicação!

Desde sempre tive o sonho da música, tendo desde pequenina investido nesse campo, ainda que não diretamente no canto, mas na parte da formação musical e na aprendizagem de instrumentos musicais.

Há uns anos decidi que seria importante iniciar aulas de canto com o objetivo de poder melhorar a minha capacidade vocal, conservar as minhas cordas vocais e fazer uma gestão responsável da sua utilização.

O trabalho não fica pelas aulas de canto, uma vez que, como estou envolvida em vários projetos musicais diferentes, passa muito pela necessidade de ensaiar com frequência e ter a capacidade de trabalhar, desenvolver e melhorar competências vocais em casa.

É um trabalho que me leva a despender de muito tempo, mas, como tão bem diz o ditado, “quem corre por gosto, não cansa”. De qualquer forma, se não envolvesse trabalho o sabor das vitórias não seria vivido com tanta intensidade.

No ano passado também participaste numa competição internacional. Como foi?

Sim! Na verdade, esta é a minha terceira participação em concursos além-fronteiras. Em 2018, fui representar Portugal num concurso em Tenerife, onde arrecadei o prémio “Voz da Europa”. Em 2019, fui a Itália, não fiquei no pódio, mas recebi 2 convites/bolsas para poder ir cantar ao Egipto e à Rússia. Devo admitir-te que é a fascinante a qualidade que encontramos nestes concursos

És mestre em farmácia pela faculdade de Coimbra. Mas, o sonho é a música?

Sou licenciada em Farmácia Biomédica, sou Mestre em Farmacologia Aplicada e encontro-me presentemente a trabalhar na área dos Ensaios Clínicos. Tanto a área da saúde como a área da música me fascinam. E espero conseguir continuar a conciliar ambas. Desde sempre que faço uma grande ginástica com os meus horários para conseguir dar 100% de mim em ambas as áreas. Felizmente, sou uma pessoa extremamente pró-ativa e dedicada, o que sempre me permitiu não descurar uma área em função da outra. Gosto de pensar que sou multifacetada e acho, muito sinceramente, que não conseguiria viver sem trabalhar nas duas áreas. É caso para dizer que tenho 2 amores.

Rita, a banda que tu integras permite-te ganhar muita experiência. A escola de palco é também importante?

Super importante. Não apenas numa perspetiva de crescimento vocal e profissional, mas também pessoal. Sinto que cresci muito, em todos os aspetos, com a banda. Aprendi a superar-me em muitos aspetos e fiquei surpreendida com a minha capacidade de adaptação. É importante ressalvar que tenho uma equipa fantástica ao meu lado e que, sem eles, nada seria possível.

Quem são as tuas referências musicais?

Celine Dion, Whitney Houston, Mariza, Aurea!

Como te vês daqui a 10 anos?

Não gosto de fazer planos a longo prazo. Gosto de viver o presente e aproveitar o que a vida me dá! Mas espero continuar a cantar, e evoluir cada vez mais.

Ter uma família que apoia este teu talento inato, torna o caminho mais aberto é facilitado?

Sou abençoada com uma família que para além de me amar acima de tudo, me apoia em todas as decisões que eu tomo. São os primeiros a aplaudir as minhas vitórias e a suportar-me quando as coisas correm menos bem. O suporte familiar é fundamental, é meio caminho andado para que as coisas corram bem. Acho que é todo esse apoio que me dá forças para continuar a lutar para ser cada vez melhor e me superar a cada dia.

Um álbum é algo que consideras fazer a curto prazo?

Sinceramente é um sonho que tenho desde sempre! Esperemos que em breve o possa concretizar

SABIA QUE:

Desde pequena que a música está presente na vida da Rita, tendo dado os primeiros passos aos oito anos quando teve aulas de formação musical, violino, guitarra e piano.
Aos onze anos de idade, após me ter sagrado vencedora de um concurso de karaoke, organizado em Tabuaço, pelo Hugo Miguel, surge o primeiro convite relacionado com o canto, para fazer parte da orquestra ligeira de Moimenta da Beira na qual permaneceu durante 5 anos.
Passou por vários projetos musicais, bandas de garagem, tunas académicas, que não só enriqueceram o seu percurso musical e pessoal como também a ajudaram a desenvolver armas para o futuro.
Atualmente, integra uma banda musical chamada SPS Band, a orquestra ligeira da Banda de Música de Sendim, canta em casamentos, faz noites de fados, concertos acústicos e apresentações a solo.
Para aumentar os seus conhecimentos práticos e teóricos ingressou no projeto “Pauta musical”, que tem como objetivo criar estrelas e dar-lhes as ferramentas necessárias para as ajudar a ter uma carreira musical.
Ambiciona conseguir lançar um CD de originais num futuro próximo.

in Voz de Lamego, ano 90/29, n.º 4564, 16 de junho de 2020

Entrevista da Andreia Gonçalves ao fotógrafo Paulo Chaves

De Tarouca ao National Geographic

Um fotógrafo tem sempre uma maneira diferente de ver o mundo. Muitas vezes essa sensibilidade é trazida desde a infância ou de alguém que nos leva a descobrir essa paixão. Paulo Chaves vive em Tarouca, mas espalha o seu talento pelo mundo.

Paulo, quando foi a primeira vez, de que se lembre, ter fotografado algo ou alguém?

Descobri a fotografia já no secundário quando tive a disciplina de Jornalismo, onde o meu grande amigo Padre Matias, com o seu grande poder de comunicação e discurso cativante, me mostrou o mundo da comunicação e em especial a fotografia. Indicou-me o caminho para olhar o mundo com outros olhos, tentar captar a essência das coisas que nos rodeiam, muitas delas nem nos apercebemos da sua existência se não pararmos para as admirar e registar através da lente.

Passar momentos na câmara escura a revelar o que fotografamos é simplesmente uma escola para a vida. Agora é tudo mais fácil, nesta era digital, mas para mim a verdadeira escola da fotografia ainda é o rolo fotográfico, obriga a pensar a fotografia e ponderar todos os parâmetros técnicos e no fundo tentar criar algo que fique na memória.

Por essa grande influência que o Padre Matias teve nessa minha descoberta e pela grande amizade que nos une, no lançamento do meu primeiro livro fotográfico só podia o convidar a ele para fazer uma apresentação do livro.

Voltando à pergunta, se me lembro da primeira vez que fotografei algo ou alguém, sinceramente não me lembro, talvez porque não terá saído nada de jeito (risos) ou porque o que fotografei não teria grande interesse, agora o que me lembro bem foi de fazer as fotografias do primeiro jornal que foi publicado na Escola Secundária de Tarouca, no âmbito da disciplina de Jornalismo, essas sim lembro-me e claro guardo ainda um exemplar desse jornal.

Qual foi a viagem que mais o marcou?

A viagem que mais me marcou foi sem dúvida a primeira viagem que fiz à Suíça, onde os meus pais trabalhavam. Um grupo de pais juntaram-se e organizaram uma viagem de férias para os seus filhos na Suíça onde eles trabalhavam, foi sem dúvida uma viagem inesquecível, primeiro por estar com os meus pais, que só via de 9 em 9 meses, conhecer onde eles trabalhavam e claro descobrir as belezas daquele lugar, ainda hoje estou com vontade de repetir essa viagem, quem sabe um dia.

Se não estivesse ligado à fotografia talvez…

Senão estivesse ligado à fotografia talvez… a perceção da vida fosse muito diferente. Depois dessa fase na escola que me “apresentou” à fotografia ela ficou durante muitos e longos anos adormecida, claro que ia fotografando, mas nada de muito intenso. A minha atividade na música como técnico de som não deixava grande tempo para fotografias, exceto registar os momentos ao vivo das bandas onde trabalhava, mas pouco mais que isso e claro as normais fotos de família.

Foram cerca de 15 anos a percorrer os caminhos de Portugal em que a máquina muitas vezes me acompanhava, mas sem tempo para parar e fazer aquele clique de algum lugar bonito, a paragem só mesmo em frente ao palco e aí fazia o gosto ao dedo.

Em 2013 deixei de ser técnico de som (se é que alguma vez se deixa de ser), o bichinho continua cá e de vez em quando faço alguns trabalhos mas não com a intensidade do passado, e isso abriu definitivamente as portas para abraçar a fotografia, claro que na altura era só um passatempo, de certa maneira para fazer esquecer as saudades das correrias do verão a andar terra em terra a animar as festas, mas esse passatempo ficou com o passar do tempo cada vez mais sério e sem dúvida que fez mudar a minha vida.

Como se sente num mundo cada vez mais de aparências? Onde ganha força o fotógrafo e a fotografia?

Infelizmente cada vez mais o mundo é feito de aparências, onde o real e o irreal se misturam muitas vezes, chegando ao ponto de não se conseguirem distinguir. Eu tento sempre mostrar a realidade das coisas, seja numa fotografia de paisagem, monumento ou numa sessão fotográfica (se as rugas estão lá é porque fazem parte da vida, da história dessa pessoa). É claro que eu por opção prefiro mostrar o que de belo tem o mundo, principalmente as belezas do nosso país, mas também conheço muitas coisas que nada têm de belo, essas prefiro não fotografar, talvez também eu ajude um pouco neste mundo de aparências.

O nosso olhar das coisas é refletido a maior parte das vezes pelas nossas vivências, podemos não nos dar conta disso no primeiro momento, mas a nossa escolha de como retratar determinado assunto está intimamente ligado às nossas experiências e como vemos o mundo que nos rodeia e claro que eu não fujo à regra.

Neste mundo, invadido pelas novas tecnologias, qualquer pessoa pode fazer fotografias, mas existe uma grande diferença entre fotografia e imagem, ou seja, qualquer um pode fazer fotografia, seja com uma máquina fotográfica ou um smartphone, eu também faço muitas fotografias, mas fazer imagens é outra coisa, fazer algo que desperte os sentimentos às pessoas e não só aquela que fez determinada foto e a quem foi retratado, fazer uma imagem que perdure no tempo, resumindo, fazer arte, esse é o grande objetivo de um fotógrafo. Como já alguém disse, “se na minha vida fizer 3 ou 4 grandes imagens sou um fotógrafo realizado”, e é mesmo isso, tentar atingir a perfeição a todos os níveis. Pode perguntar-me se já fiz alguma dessas fotos, acho que já fiz uma, mas daqui a uns anos posso achar que afinal ainda não a fiz.

Essa é a força do fotógrafo, procurar o clique perfeito, mesmo nas coisas mais imperfeitas da vida que nos rodeia e através dessas imagens enviar uma mensagem que pode ter tanto significado hoje como daqui a 100 anos.

Findo a resposta a essa pergunta com o pensamento que sempre me guia no dia-a-dia de fotógrafo, “a minha melhor foto será a que fizer amanhã”.

Como fotógrafo os prémios atraem ou são apenas mais uma motivação para continuar a trabalhar com paixão?

Considero que os prémios são sempre uma motivação, dão força para continuar no caminho que escolhi, mas não são, nem de longe, o mais importante para continuar a fazer o que faço.

Publico uma ínfima parte do que faço nas redes sociais, Facebook e Instagram e, não raras vezes, no meio de centenas de comentários há alguns que me chamam especialmente à atenção, quando pessoas escrevem, por exemplo, que uma foto ou vídeo que publiquei lhes provocou lágrimas de alegria por voltar a ver aquele lugar onde foi feliz na sua infância, na igreja onde se casaram há 50 anos, ou quantos brasileiros, com raízes portuguesas, me agradecem por ter publicado uma foto da terra de seus avós que nunca visitaram, isso sim é uma grande motivação para continuar a fazer o que faço.

Existe um comentário que várias vezes aparece nas redes sociais às minhas fotos que é “as suas fotografias têm alma”, de tudo o que posso ouvir, este é o maior elogio que posso receber, significa que o que mostrei despertou sentimentos a outra pessoa, seja de alegria ou tristeza, mas certamente algo que a fez recordar algo ou motivação para conhecer esse lugar.

Quais os prémios que leva no currículo?

Ao longo dos anos tenho colecionado vários prémios, principalmente, o Prémio Anim’arte – Produção Artística Fotografia, ou seja, o fotógrafo do ano 2018 no Distrito de Viseu, uma distinção que muito me orgulha por ser escolhido por um vasto júri como o fotógrafo do ano.

Foi um prémio que me deixou muito feliz por ver o meu trabalho reconhecido em prol da divulgação da cultura e património português e sem dúvida um grande alento para continuar.

As fotografias que apresenta nas suas páginas correm o Mundo. Isso preocupa-o?

Não, muito pelo contrário, eu incito mesmo as pessoas que me seguem que as partilhem pelo mundo. As fotos que eu publico nas redes sociais são 99% de belezas do nosso Portugal e se as publico é para que as pessoas as vejam e quantas mais as virem melhor, quem conhece pode recordar esse momento e quem não conhece pode sentir vontade de vir a conhecer e é esse o meu principal objetivo, como algumas pessoas dizem, “você faz mais a título gratuito por divulgar os nossos monumentos do que aqueles que são pagos para o fazerem”, infelizmente muitas dessas pessoas têm toda a razão, vá lá que muitos Municípios dão valor ao que eu e muitos outros fazem para divulgar os encantos do nosso país, mas outros existem que não dão valor nenhum e ainda não se aperceberam do poder das redes sociais na divulgação dos seus territórios.

Por exemplo, uma foto que publiquei há alguns anos e que teve mais de um milhão de partilhas, sim um milhão, e esse Município nem uma palavra se dignou dizer, não foi para isso que eu a publiquei, mas que ficava agradado isso ficava, essa imagem acabou por ser publicada na revista National Geographic.

Mas voltando à pergunta, muito me alegra que as minhas fotos corram o mundo, é sinal que estou no bom caminho a mostrar o que de belo existe no nosso país.

Que preocupações leva quando vai fotografar?

Se as baterias estão carregadas e os cartões estão nas máquinas (risos).

Agora um pouco mais a sério, embora o que disse seja uma realidade, tento sempre preparar com antecedência qualquer deslocação que faça, procurando informações do lugar que vou fotografar, quer sejam outras imagens que podem servir de inspiração ou quanto mais não seja saber como lá chegar, e acreditem que muitos dos lugares que visito é preciso mesmo muita preparação para chegar a esses destinos, muitas vezes desconhecidos do grande público ou mesmo das pessoas perto dos locais que não lhes dão grande importância ou mesmo não os reconhecem como sendo interessantes.

No trabalho que desenvolvo há já dois anos para as Aldeias Históricas de Portugal, onde já se podem contar mais de 7000 fotos e centenas de vídeos obriga-me a preparar com antecedência um roteiro do que vou fazer e quando, sim porque a hora a que determinado lugar é fotografado é determinante para a qualidade do trabalho.

Outra preocupação é a segurança, porque todos os cuidados são importantes, principalmente na fotografia de paisagem onde, às vezes para se tentar conseguir a foto perfeita, podemos colocar a nossa integridade física em risco, e acreditem que nenhuma foto vale a pena nesse sentido, infelizmente existem pessoas que já não estão entre nós por causa dessas situações, primeiro a segurança.

Que história gostaria de contar a uma turma de crianças sobre as aventuras para alcançar uma foto que marcou a sua vida?

A resposta a essa pergunta segue no caminho do final da resposta anterior. Podia contar às crianças a história por detrás de uma das fotos que fiz no concelho de Lamego, especificamente na Barragem do Varosa. Há uns anos atrás, a referida barragem estava vazia deixando à luz do dia uma ponte medieval que está sempre submersa, fui lá visitar com a intenção de a fotografar, mas como seria de esperar o fundo da barragem sem água estava um perfeito lamaçal, e tendo em atenção a minha segurança, não a fui fotografar. Falei com um amigo fotógrafo, apaixonado pela natureza, que se deslocou, desde Lisboa, para vir comigo fotografar esse lugar e assim ser mais seguro do que andar lá sozinho e em boa hora o fiz. Estávamos nós no meio desse lamaçal com água pelo joelho, quando, sem que nada o fizesse esperar, simplesmente me afundei quase até à cintura nessa lama e se não fosse o meu colega as coisas não teriam sido fáceis de resolver, no final ficou essa memória de que devemos ter os máximos cuidados e se possível acompanhados por alguém e claro uma foto fantástica que partilho com vocês e que sei que trouxe muitas recordações a muita gente que pensava que nunca mais veria essa ponte onde muitos se banharam na infância e onde outros iam lavar a sua roupa.

E se lhe pedisse para me mostrar uma foto que me fizesse conhecer Portugal, qual seria?

Isso para mim é simples, o sorriso dos nossos idosos, a sua alegria de viver, o apego às suas raízes, às suas terras e histórias, é tão bom poder ouvir as suas histórias, recordar outros tempos e ouvir falar da sua terra com muito amor e um brilho nos olhos, e no final poder tirar-lhes uma foto que irá ficar sempre marcada pela conversa que tivemos.

O que o encanta no nosso património cultural?

A sua história, porque conhecendo a nossa história ficamos a conhecermo-nos melhor a nós próprios, seja um monumento, uma tradição ou as nossas gentes e esse é a nossa maior riqueza, tudo o resto perde a sua importância.

Se pudesse fotografar algo no planeta o que seria e porquê?

Existem tantas coisas belas para fotografar no nosso planeta, tantas paisagens de rara beleza, e para isso só o nosso país daria para uma vida. Tantos monumentos e tradições por todo este planeta para registar e assimilar as suas histórias, mas existe algo que para mim está acima disso tudo que é a minha família, em especial os meus pais, esposa e filha e poder estar sempre cá para lhes poder tirar fotografias, porque se puder fazer isso é porque eles estão cá e eu também, e não existe nada mais importantes para fotografar do que isso.

in Voz de Lamego, ano 90/21, n.º 4556, 21 de abril de 2020

Entrevista com o Comandante dos Bombeiros de Moimenta da Beira

“Os bombeiros precisam que lhes seja reconhecido o seu trabalho”

José Requeijo, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moimenta da Beira, é entrevistado por Andreia Gonçalves para o nosso jornal.

José Requeijo herdou do pai, não só o nome, como a vocação para se tornar bombeiro. O ídolo deixou-lhe um legado e ensinamentos que o orientam até hoje. O comandante dos Bombeiros Voluntários de Moimenta da Beira diz que “quando a sirene toca o primeiro pensamento é que alguém sem nome, sem cor, sem credo, sem posição política, precisa de ajuda” e por isso é preciso fazer de tudo para salvar vidas….

José Requeijo é, hoje, comandante dos bombeiros voluntários de Moimenta da Beira. Se recuar no tempo o que andaria a fazer há 40 anos atrás?

Bom, 40 anos atrás, foi há muito tempo era eu uma criança, muito jovem ainda, que iniciava o meu percurso escolar na escola primária, talvez na quarta classe, no entanto  já vivia o ambiente dos bombeiros pela mão do meu pai que me leva a fardar para a inauguração de um veiculo de combate a incêndios, do mais moderno que havia na região, que ficou famoso pelo nome “Jipão”, um Land Rover com motor a gasolina e que era o primeiro equipado com bomba acopolada e tanque de água de 400 litros, máquina fantástica. Um momento marcante que, ainda, hoje recordo com nostalgia.

O seu pai foi e continua a ser uma referência. Sente a responsabilidade de ser o filho do anterior comandante José Requeijo? Que ensinamentos traz, sempre, consigo?

O meu pai é a minha referência, a minha estrelinha orientadora, o meu conselheiro, o meu ídolo e continua a ser o meu companheiro. Claro, que sentir e verificar, no dia-a-dia que continua a ser uma referência nos bombeiros e, após tantos anos da sua morte, acresce-me, ainda, mais responsabilidade e em permanência, pela sua memória pela sua personalidade e pelos ensinamentos que me deixou. Não raros são os dias que me vejo a pensar em como ele resolveria ou como abordaria determinada situação, os ensinamentos e os seus conselhos são permanentes e diários. Revejo-me muito nele, muitas das minhas decisões são conselhos e aprendizagem desses momentos.

O que é mais difícil para um comandante, lutar pela vida dos outros ou lidar com a morte de alguém?

Difícil separar a dificuldade das duas, pois a ambiguidade da vida e da morte estão intimamente ligadas à nossa missão dos bombeiros. E se por um lado o nosso objetivo primeiro é a salvaguarda da vida, o que nos faz empenhar e aplicar todo o nosso conhecimento, esforço pessoal e profissionalismo, por outro lado e por natureza o ser humano não está preparado para lidar com a morte, muito menos um Comandante que reside num concelho pequeno e conhece toda a população. Sou colocado em situações sensíveis e delicadas que vão para além da função que desempenho tendo que, na maioria das vezes, lidar com sentimentos pessoais e relações próximas que elevam o patamar de tratamento emocional e psicólogo muito forte. Contudo todos estes anos vão-me dando alguma experiência para poder lidar e enfrentar situações desta complexidade. Ler mais…