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Archive for the ‘Educação’ Category

Há outros vírus a combater…

Adeus a um Mestre: o Professor Sabino Pinto Almeida

Gosto demasiado de palavras. Tenho um respeito tão grande por este património tão nosso, que me incomodam os erros gramaticais, orais, de sintaxe. Deus e eu sabemos o quanto me arrepia quando me perguntam “o que é que tu fizestes? Como é que soubestes?”. É uma mania pessoal que até se reflete no meu modo de ser. Tudo isto foi genuinamente plantado em mim por uma pessoa que nos deixou recentemente, em Lamego: o Professor Sabino Pinto Almeida.

Natural de Panchorra, perto de Resende, o Professor Sabino esteve 10 anos na Escola Secundária da Sé, até se reformar em 2005. Foi meu Professor de Português durante seis anos, até ao 12.º ano. Uma época memorável.

Quem o conhecia, sabia perfeitamente que o Professor Sabino despertava alguma curiosidade: a voz grave, o bigode cuidadosamente aparado que escondia o lábio superior, a pouca facilidade em sorrir, a mala preta, clássica, que agarrava pesarosamente sempre que se dirigia para a sala de aula, enquanto olhava para o chão, faziam dele uma figura que impunha respeito e autoridade. Medo. No entanto, nada neste estilo imponente significava arrogância ou desprezo pelos alunos. Havia, isso sim, uma exigência inegociável pelo estudo. Pelo compromisso de aprender. O respeito pela nossa língua, o português. Por isso, só tínhamos duas opções: gostar dele ou temer sempre que o nome dele aparecia.

Com ele, fui apresentado a O’Neill. Detestei. Com ele tive vontade de desistir mal li os versos “As Armas e os Barões Assinalados/Que da Ocidental Praia Lusitana”, de Camões. Também foi com o Professor Sabino que discuti por que raio a casa do Ramalhete era tão espetacular que demorava para aí umas 30 páginas a descrevê-la? Foi através dele que me apaixonei pela escrita leve e encantadora de Jorge Amado. Que aprendi a gostar do olhar descritivo, atento (jornalístico?) de Almeida Garrett. Fiquei sempre intrigado com a opinião dele sobre Saramago, um nome pouco falado nas aulas. Fernando Pessoa, não, era consensual. Acho que ele era mais Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos. Eu sempre gostei mais do futurismo de Álvaro de Campos. E como ele adorava Urbano Tavares Rodrigues?

Ainda assim, não foram seis anos de aprendizagens feitas ao sabor dos “gostos”. É graças ao Professor Sabino que ainda hoje retenho autênticas lições de humildade. Certo dia, defendi que a palavra “cobarde” também poderia ser escrita com “v”. Ele duvidou; fixou-me, saiu porta fora e a sala colapsou. Que teria feito eu? Dez minutos depois, regressa, naquele estilo de caminhar pausado e metódico, com um dicionário, e diz-me: “você tem razão”. Ou então numa das famosas “idas ao quadro”, em que ele me mandou analisar um poema em frente a toda a turma. Um autêntico momento de tensão. “Para onde se dirige o sujeito poético, senhor Fábio?”. Respondi totalmente ao lado. “Para um sítio que eu cá sei vai o senhor!”. Foi a coisa mais azeda que me disse. E ainda assim, a mais certeira. Não me tinha preparado como deve ser para o texto.

Com ele aprendi a fazer do dicionário uma companhia diária. Ter dúvidas é sinónimo de inteligência. O respeito pela nossa língua é matéria de responsabilidade, de honrar gente que veio antes de nós e nos deixou esta herança. Um dia quando me perguntarem o que é um Professor, saberei colocar Sabino como sinónimo. Ainda que saiba a pouco, só posso pensar: obrigado por tudo, Professor Sabino.

Fábio Ribeiro, in Voz de Lamego, ano 90/11, n.º 4546, 11 de fevereiro de 2020

Cuidar de idosos não é um trabalho… é uma prova de amor à vida

SILÊNCIO é a palavra que não deve existir quando se tem conhecimento de um idoso ser maltratado, seja de forma verbal ou física. É vergonhoso que num país como o nosso, com uma população tão envelhecida, se oiçam histórias em lares que já se ouviam há 40 anos atrás.
RESPEITO é o mínimo que se exige para quem passa o dia a trabalhar com um idoso.  Se conhece algum caso, POR FAVOR, DENUNCIE! Porque quem cala, consente. 

EDUCAÇÃO NUM LAR significa dizer bom dia e boa tarde, sempre, depois de bater à porta do quarto dos utentes. Ter a roupa preparada para o dia seguinte, com cores a combinar, porque a autoestima no idoso também existe.  Não é entrar por ali a dentro como se fosse o quintal de casa. Perguntar o que gostava de vestir, se posso levantá-lo e se permite que lhe faça a higiene, explicando, sempre, o que se está a fazer… Mais, NUNCA falar em tons agressivos ou a imitar desenhos animados, pois idoso não é bebé e odeia ser tratado como tal. Dar comida a uma pessoa na velhice não é enfiar as colheradas goela a baixo, é servir o utente com a maior dignidade. “Não fazer aos outros o que não gostavas que te fizessem a ti”. Água, mais do que comida, é de extrema importância para todos nós. Não se pode deixar desidratar. A substituição de água e chá devem ter horários e à noite não pode faltar! Carinho é uma coisa que se dá, mais do que com palavras, através de gestos. Mudar uma fralda ou ajudar na casa de banho não pode ser VIOLAR a privacidade, é aconchegar, fazer tudo com o máximo de cuidado e atenção, tapando as partes íntimas sempre que possível e não comprometer a estabilidade da pessoa que por si só já pensa que “dantes fazia isto sozinha, agora já não consigo”. Basta imaginar, como se VAI SENTIR no futuro quando lá chegar?

Formação e vocação, assim como um enfermeiro, um professor, um bombeiro, os profissionais dos lares que cuidam, diretamente, os seus utentes devem ter formação adequada e, acima de tudo, vocação por esta profissão que é desgastante e cansativa, mas muito compensadora para os que têm um bom coração.

VERDADE, ao verem as imagens do “Sexta às 9” imaginem como se sente a esposa daquele senhor que é maltratado, diariamente? MEDO é a palavra que define o coração daquela esposa, que passou uma vida a dois sem nunca imaginar que as frustrações das funcionárias do “lar”, para onde iriam no fim do seu ciclo de vida, fazer atos tão horrendos ao pai dos seus filhos.

DIGNIDADE até à morte. É um ato CRIMINOSO não conceder a todos os utentes de um lar, com ou sem demência, com ou sem problemas físicos, com ou sem família, a maior dignidade, enquanto humanos e pessoas que escreveram a história deste país.

Na escola que eu frequentei ensinaram-nos a dar a mão a um idoso na hora da morte, para que nem nesse momento não se sentisse sozinho e o medo do incerto não lhe atormentasse o coração. Palavras doces todos temos, vocação para algumas tarefas NÃO.

TRABALHAR POR DINHEIRO NÃO CHEGA.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/10, n.º 4545, 4 de fevereiro de 2020

Editorial Voz de Lamego: Sábio é aquele que está disponível para aprender

Sábio não é o que sabe tudo, o que sabe mais coisas. Sábio é aquele que está sempre disponível para aprender, para acolher, para amar, para ser amado, para ser instrumento de ligação aos outros, ao mundo e a Deus. Sábio não é o que tem um curso superior, ou tem muitos contactos, que tem um canudo, ou viajou pelo mundo inteiro. Sábio é o que quer escutar os outros, quer compreender o mundo à sua volta, que dispõe a sua vida para acolher o mistério que vem do alto, que vem de Deus. Sábio é o que reconhece os seus erros e ainda assim caminha. É o que não desiste, mesmo que por vezes tenha que recuar, recomeçar, voltar a tentar. Sábio é aquele que reconhece que está a caminhar, que ainda não chegou à meta, que ainda está longe. Sábio é aquele que se dispõe a servir a Verdade. Sábio não é o que não peca. Sábio é o que está disponível para acolher o perdão.

Sábio é o que se deixa encantar com as pequenas coisas da vida, momentos sublimes do nascer ou do por do sol, o sorriso de uma criança ou os malabarismos de um gato. Sábio não é aquela pessoa séria, sisuda, que dita sentenças. Sábio é aquele que sabe rir de si mesmo, e sorrir diante dos seus disparates, e que procura estar atento a tudo o que o rodeia.

Sábio não é o que atingiu um grau de conhecimento superior, ou está moralmente acima de qualquer suspeita. Sábio é aquele que cultiva a arte da dúvida, da curiosidade, da interrogação, que está sempre em busca, procurando aprender com tudo e com todas as situações.

O sábio não é aquele que não muda porque atingiu a perfeição. Embora um provérbio chinês diga que só não mudam os sábios e os estúpidos. Coloquemo-nos entre uns e outros, a caminho… Sábio é, antes, aquele que procura aperfeiçoar todos os aspetos da sua vida e mantém aberta a mente para acolher situações novas e poder contribuir para a transformação do mundo.

Sábio não é o que não tem dúvidas, mas aquele que vive nas dúvidas, procurando ser feliz e contribuir para a felicidade dos outros, fazendo a ponte. A dúvida é específica do ser humano. Somos ser inacabados. Mas que beleza! Como somos seres inacabados temos a oportunidade de crescer sempre mais, até ao Infinito, até à eternidade de Deus.

Sábio não é aquele que tem respostas para tudo, mas aquele que questiona (quase) tudo, que se interroga constantemente e ao mundo que o rodeia.

Sábio não é aquele que tem todas as certezas, mas aquele que não se deixa abater pelas dúvidas e incertezas e procura acertar o seu caminho, para o sábio cristão, procura acertar o seu caminho pelo de Jesus Cristo.

Maria interroga o Anjo quando este lhe anuncia que vai ser Mãe do Filho de Deus: “Como será isto se não conheço homem?”

A interrogação faz parte da procura, da escuta, do nosso peregrinar, faz parte do caminho da sabedoria.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/46, n.º 4533, 5 de novembro de 2019

Dia dos Santos ou Halloween?

Conhecer para compreender e poder discernir

As festividades associadas à denominação de Halloween são simples brincadeiras, ou melhor, simples pretextos lúdicos? Será isto que a maioria das pessoas pensa sobre esta efeméride também conhecida por «Dia das Bruxas»?

O livro, “Halloween – a travessura do Diabo” – é o resultado do trabalho de investigação sobre este tema a que se dedicou Aldo Buonaiuto, o qual pode contribuir para um melhor conhecimento do contexto histórico, desde o seu surgimento até à actualidade.

Através de uma séria pesquisa, o autor defende um poderoso argumento que prova estarmos em presença de um reavivar de cultos pagãos, de origem europeia e não americana, como comummente se admite e que agora, a pretexto da festividade do Dia de Todos os Santos e dos fiéis defuntos de origem cristã, se pretende reimplantar, por reinterpretação simbólica, essas ancestrais celebrações, aproveitando-se da ausência de conhecimentos religiosos como consequência da secularização das últimas décadas e pelas novas e ditas «suaves e propiciadoras» correntes espiritualistas do New Age.

Esclarecendo a faceta incógnita do Halloween e das práticas maléficas a que este fenómeno está ligado, sobretudo de modo inconsciente para muitos que nele participam, o autor conduz-nos de forma simples e esclarecedora, pelos meandros das suas origens até à magia da doçura ou travessura, nos dias de hoje.

“A festa das abóboras é, na realidade, uma festa para abóboras ocas. A travessura do demónio é doçura mortal para a alma”.

Miguel Ataíde, in Voz de Lamego, ano 89/44, n.º 4531, 22 de outubro de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Educação: insistir, contrariar, resistir

O programa “À Roda da Alimentação”, da RTP 1, conduzido por Catarina Furtado, no dia 7 de setembro, começava, como habitualmente, com uma pergunta e três hipóteses: “Quantas vezes devemos insistir com os bebés até que aceitem um novo sabor? 9, 10 ou 11 vezes?” A resposta foi dada no final do programa: 11 vezes.

Na base da questão, a preocupação: como conseguir que as nossas crianças tenham uma alimentação equilibrada e variada? Sabe-se da guerra que os pais têm para que os filhos comam determinados alimentos que considerem saudável e necessário. Para ajudar a responder, o Pediatra Paulo Oom. O importante é não desistir de insistir. O ser humano foi condicionado para gostar de alimentos doces (saudáveis, com calorias… para caçar) e rejeitar os alimentos amargos (associados a alimentos que podiam matar). Então temos que contrariar esta tendência. No máximo, aos seis meses, a criança tem que começar a comer os alimentos, se possível não começar pelos doces, por exemplo, cereais, mas por legumes, como a sopa. A comida passada é facilmente aceite pela criança, mas não quando deteta um grãozito… há uma fase, 8 a 10 meses, se a criança for treinada a outras texturas e consistências, mais sólidas, com pedaços, vai-se repercutir nos anos seguintes, vai querer experimentar coisas novas… a “dieta” para a criança terá que ser para a família toda, o exercício físico, as regras de alimentação… tem que haver o exemplo dos pais… É muito importante que a criança, a crescer, saiba quais as linhas vermelhas que não pode ultrapassar, aquilo que não é inegociável… é suposto que todos comam de todos os grupos alimentares… Quando a criança aumenta de peso nos primeiros dois anos vai ter uma relação direta da sua tendência para o excesso de peso e para a obesidade na adolescência…. O problema não é da criança, é da família e da comunidade em que está inserida, como a escola. Imaginação e criatividade na apresentação dos alimentos. A atividade física é sempre importante.

Educar um filho, uma criança, não é fácil. Os dias que correm apresentam muitas referências, valores, alternativas. Antes, a referência era a família, a Igreja, a escola. Hoje a escola é a primeira e quase única referência. As crianças passam grande parte do tempo dentro de quatro paredes, dentro do espaço confinado da escola. Diga-se em abono da verdade, que hoje em dia há uma maior consciência da envolvência comunitária na vida escolar e académica.

Outra pergunta que se coloca com frequência: orientar as crianças, ter uma ação mais “invasiva”, ou deixar andar, não contrariar as crianças, procurar respeitar os seus gostos e as suas inclinações. Há escolas em que os alunos escolhem as disciplinas que querem, os horários que lhes convém e os espaços em que querem estar… Mas queiramos ou não, não deixa de haver orientação. Os pais serão os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e cabe dar-lhes as ferramentas e indicar-lhes o que consideram o melhor caminho. Quando chegar o tempo, os filhos decidirão que caminho seguir…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/43, n.º 4530, 15 de outubro de 2019

Editorial Voz de Lamego: A cultura do encontro na educação

Mais um ano escolar! Mais oportunidades de encontro, de amadurecimento, de crescimento. Mais um ano de diálogo, de compromisso e de desafio.

Para quem entra pela primeira vez, a escola pode assustar. Será mais difícil para os pais do que para as crianças, sobretudo nos meios maiores. Separar-se dos filhos, confiá-los a outras pessoas, colocá-los num meio estranho, provoca ansiedade e medo. Será que o filho/a se vai adaptar? Como vai lidar com os outros? Como é que cuidarão dele/a?

Para quem regressa, se as coisas correram mal, pode acentuar-se a animosidade para com a escola e para com pessoas que fazem a escola. Se correram bem, haverá possibilidades de ainda correrem melhor. Reencontro de amigos, regresso a um ambiente que se tornou familiar e que se converteu na segunda ou, até mesmo, na primeira casa.

O gosto pela aprendizagem será sempre um estímulo. Por essa razão hoje se fala tanto em “motivação”. Tantas as ofertas, as propostas, que a escola aparece como estorvo ou enfado! Sem secundarizar o efeito das redes sociais! Em todos os ambientes, o telemóvel tornou-se uma necessidade patológica: desligar, colocar em silêncio, arrumar na mochila, para não haver a tentação de ver se há notificações… Para muitos é um drama!

A escola absorve-nos cada vez mais. Parece que a vida toda se resolve à volta da escola. Positiva e negativamente. Positivamente quando é inclusiva, quando é promotora da cultura, da comunidade, da partilha e da solidariedade, quando ajuda à integração das pessoas, preparando-as para a vida, para o mercado do trabalho, mas sempre e sobretudo para que aqueles que, num tempo são mais “aprendizes”, se tornem verdadeiramente autores de uma sociedade mais justa e fraterna, num mundo mais saudável. Negativamente, quando a seleção e a competividade, levadas ao extremo, servem para excluir, criando muros entre bons e maus. Premeie-se o mérito, mas sem esquecer a pessoa, o seu contexto familiar e social, as suas dificuldades e potencialidades e/ou as suas insuficiências, procurando não deixar ninguém para trás. Não é fácil. É um desafio para toda a comunidade educativa (que inclui a escola, a família, o ambiente geográfico e social, os parceiros, empresas e autarquias, Igreja, associações e movimentos).

Servindo-nos das palavras do Papa Francisco, a escola tem o grave dever de promover a cultura do encontro, na inclusão e respeito das diferenças. Diz o Papa: é preciso “cooperar para formar jovens abertos e que se interessam pela realidade que os circunda, capazes de cuidado e ternura… estimular nos alunos a abertura ao outro como rosto, como pessoa, como irmão e irmã que deve ser conhecido e respeitado, com a sua história, as suas qualidades e defeitos, riquezas e limites”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/39, n.º 4526, 18 de setembro de 2019