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Editorial da Voz de Lamego: Deixai que o Menino chore

Como o Menino Jesus estava a chorar, São José terá dito a Nossa Senhora que era melhor dar-lhe uns açoites no rabo para que se calasse. A resposta de Maria é que deixem que o Menino chore porque Ele irá ter a sua conta de açoites, preanunciando as punhadas e as chicotadas que haveria levar em adulto, principalmente na aproximação ao Calvário. Une-se, nesta música antiga, originária dos monges de Coimbra, o Natal, a infância de Jesus, e a Paixão, os momentos de agressão para com Jesus. É este o contexto de uma música trabalhada e interpretada pelo “Bando Surunyo”, no concerto de Natal, na Igreja Matriz de Tabuaço.

Por ocasião do seu aniversário natalício, o Papa Francisco referiu-se a um presépio diferente: “Deixemos a mãe descansar”. Na representação, que rapidamente se tornou viral, Maria dorme enquanto José segura o Menino Jesus. Desta forma, o Santo Padre falava numa realidade concreta da família de Nazaré, mas também de muitas famílias, onde a ternura, a atenção e o cuidado predominam, onde o marido e a mulher se entreajudam nas lides domésticas. O nascimento de um filho, e os primeiros dias, e meses, altera por completo a vida em casa, multiplicando tarefas, acentuando o cansaço.

Deixar que o menino chore… nem sempre é fácil dizer não ao menino, contrariá-lo, deixar que chore, que faça birra, que caia e se suje, que brinque e tenha momentos em que não faz nada. Há, atualmente, uma necessidade imensa de preencher por completo a vida das crianças, não lhes dando tempo para pensar, para a espera paciente e também para momentos de rotina. Quer, dá-se-lhe; faz birra, cede-se-lhe; tem alguns momentos sem nada para fazer, passa-se-lhe o telemóvel para se ocupar. A agenda das crianças é tão preenchida que, por vezes, nem têm tempo para brincar: é preciso estudar, ir à natação, à música, ao Ballet, à dança, ao futebol. Uma correria constante. Há crianças começam a começar o stress!

No contexto que nos diz respeito mais diretamente, a catequese e a participação na Eucaristia, as crianças e adolescentes vão, e com gosto, se não houver um torneiro, uma competição, ou se as explicações forem noutro horário. Não estou a sugerir que a educação seja fácil. Os pais têm uma missão complexa e não é fácil encontrar equilíbrios. Não se pode deixar que as crianças decidam por elas o que fazer, mas também não se podem adultizar antes do tempo. A competividade pode ajudar no desenvolvimento, mas levada ao extremo gera conflito, comportamentos agressivos ou depressivos. Tem de se valorizar a tolerância, a diferença, a bondade. Tem de haver tempo para os jogos e as brincadeiras, para os intervalos, para a descontração.

Na passagem para um novo ano, vale a pena atender às palavras do Papa, para a ternura do Presépio e para a certeza que a vida (também nos propósitos) passa por pequenos gestos, concretos e reais. “Quem não é fiel no pouco, como se lhe pode confiar o muito?”

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/05, n.º 4540, 31 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Um Menino que é bênção e luz

Quando uma criança nasce é uma bênção, enche a casa e a família, traz luz e brilho ao lar, enriquece a Igreja e a sociedade, torna viável o futuro da humanidade e possibilita que este mundo seja habitável e possa ser admirado pela beleza com que foi criado por Deus e transformado pela ação humana.

Uma criança que nasce deveria ser uma bênção luminosa.

Mas nem sempre é assim.

Há crianças cujo nascimento acentua desgraças, escuridão e treva, ruturas e pobrezas.

Há crianças que nunca chegarão a nascer, porque incomodariam os pais, seriam mais uma fonte de despesa, de preocupação, de desgaste.

Há um ror de situações problemáticas. Devemos colocá-las na nossa oração e confiá-las ao carinho misericordioso de Deus que é Pai e Mãe (João Paulo I).

Há muitas situações que merecem a nossa atenção, pois são provocação ao nosso compromisso social e político. E temos tantas formas de o fazer: os meios de comunicação social, as redes sociais, o voto, as campanhas a favor da vida, os debates e reflexões públicas, as campanhas de solidariedade (não apenas neste tempo, mas ao longo de todos os segundos do ano) que beneficiarão as pessoas mais frágeis, as instituições que apoiam mães solteiras ou vítimas de violência doméstica, que acolhem crianças desprotegidas ou famílias desgovernadas, dispondo de tempo para o voluntariado e contribuindo com generosidade e, sem recorrer nunca às coscuvilhice, procurar intervir em situações de violência, verbal, física e emocional, maus tratos ou descuido com crianças mas também com pessoas idosas, situações de injustiça e pobreza. Há santos à porta mas, sem o sabermos, por distração ou por pressas nos nossos nadas, também há pobres que precisam de ajuda ou de voz, ou de carinho ou de palavras amigas.

Estamos a ficar velhos. O lugar dos idosos há de ser valorizado, pela sabedoria a comunicar aos mais novos e à sociedade e porque, em todo o caso, estamos cá por eles, porque foi através deles que Deus nos deu a vida.

Estamos a ficar velhos. Sobretudo nas terras do interior e nos países ocidentais. Muitos dos problemas económico-financeiros têm a ver com a falta de crianças e jovens. A população está a morrer, está envelhecida e não se renova. As pessoas que estão em “idade ativa” são cada vez menos em relação às gerações anteriores, além da esperança média de vida ter aumentado muito.

Estamos a ficar velhos. Estamos a morrer. Mas Aquele Menino vem para nos dar vida e vida em abundância (Jo 10, 10). O Papa Francisco tem alertado para um género de egoísmo que nos conduz à morte, a preferência por investir num animal doméstico ao invés de um filho. Até agora, muitos casais tinham apenas um filho, agora há casais que não estão para isso!

Há muitos ponderáveis, mas talvez seja tempo de pensar mais nas pessoas e fazer com que as percentagens económicas sejam para combater desigualdades, criar oportunidades, erradicar a pobreza, proteger a vida, o ambiente.

Ainda não morrermos, ainda há esperança. Que o Deus Menino seja Luz, Bênção e Vida. Santo Natal.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/04, n.º 4539, 17 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: De Greta Thunberg à ecologia integral

Por estes dias a questão do ambiente tem preenchido páginas e páginas de jornais, têm-se multiplicado as partilhas, os comentários, têm-se extremado posições, colocando-nos na lógica mais tradicional da contraposição, da exclusão e do fundamentalismo. Porém, a questão ecológica não pode deixar de estar presente no quotidiano. Mais que os intervenientes, importa, a meu ver, a mensagem veiculada.

Os holofotes têm estado direcionados para Greta, jovem sueca, de 16 anos. As suas intervenções na Suécia, na ONU, em Lisboa, na manifestação de Madrid, têm permitido que a questão ambiental não saia das primeiras páginas, dos telejornais, das redes sociais. Saliente-se, desde logo, o aproveitamento político, quando as suas palavras insistem na falta de vontade política em alterar a pegada ecológica. Veja-se que líderes partidários estiveram na chegada a Lisboa. E a propósito, veja-se também quem interveio na manifestação das forças de segurança. De um lado o PAN, do outro lado o CHEGA.

Por outro lado, outra visão, mais trumpista (os EUA, com Ronald Trump, não têm qualquer interesse em respeitar acordos que restrinjam a poluição atmosférica ou a utilização exaustiva de recursos naturais, desde que momentaneamente a indústria americana se sobreponha e abafe qualquer concorrência), defende que a natureza, por si só, é autorregenrativa e, portanto, não é necessário fazer correções no caminho que se está a trilhar. Neste sentido, ataca-se a mensageira.

Greta Thunberg também me pareceu burguesa e exageradamente revoltada. Com os comentários e reflexões que fui lendo e escutando, e vendo algumas das suas intervenções equilibradas, como em Lisboa, apercebi-me que seria mais relevante a mensagem que veicula, mas também os debates que tem provocado.

É importante ler também e escutar os que não concordam com Greta e com outros movimentos mais verdes, se é que de verdes têm alguma coisa. Como em tudo na vida, os extremismos, os excessos e os exclusivismos precisam de ser purificados. Como não lembrar quando um reitor proibiu a carne de vaca na universidade! Será que ele se desloca a pé? Medidas de propaganda por si só, me parece, não surtem efeito, quando muito acentuam fanatismos. Só porque acho que a comida vegetariana é mais saudável, terei o direito de obrigar os outros a serem vegetarianos? O equilíbrio, o bom senso, a quantidade, como alguém dizia. Há tantas formas de nos comprometermos com o ambiente.

Mas não basta ser defensores do ambiente, se continuarmos a criar fossos e muros entre ricos e pobres, a descartar os mais frágeis, a eliminar os que não têm voz ou não têm força suficiente, a excluir os que professam outra ideologia ou outra fé. A ecologia, no dizer do Papa Francisco, terá de ser integral, abrangendo todo o homem e o homem todo. Há países em que é crime destruir as “ovas”, mas é legal o aborto ou a eutanásia, a pedido, em qualquer situação ou por qualquer motivo!

Para quê termos uma bela floresta se não tivermos pessoas que a contemplem?

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/03, n.º 4538, 10 de dezembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Faz germinar em mim o Teu amor

Vivemos Advento, tempo de preparação para a celebração festiva do nascimento de Jesus. Tempo de graça e de salvação, em que o acontecer de Deus se traduz e concretiza no acontecer humano, pelo menos é isso que se deseja.

Neste caminho que percorremos – interiormente, mas sinalizado no ambiente que nos rodeia, luzes, arranjos natalícios e publicidade, e exteriormente, assim nos propomos, na prática do bem – somos envolvidos pela iniciativa de Deus, pela Sua graça infinita. Ele quer vir até nós, quer nascer em nós, quer frutificar em nós, ganhar raízes, habitar em nós, ficar connosco. Mas porque nos criou livres, não depende somente d’Ele, cabe-nos a nós acolher e responder ao Seu chamamento. Ele não pode entrar em nossa casa, mesmo que Se faça convidado, se não Lhe abrirmos a porta, se não O deixarmos entrar. Ele leva-nos a sério e respeita-nos, respeitando a nossa liberdade e as escolhas que fazemos.

Nesta iniciativa divina, Maria é escolhida desde sempre e desde sempre preparada para ser a Mãe do Filho do Deus Altíssimo. É este o mistério da sua Imaculada Conceição. Toda bela, toda pura, concebida sem sinal de pecado, para que n’Ela floresça o fruto do Espírito Santo. Por um lado, Deus que desce, diminuindo-Se para caber na humanidade, por outro lado, o melhor do ser humano na sua identidade original, imagem e semelhança de Deus. É neste encontro que Deus Se faz homem e que o homem poder ser divinizado em Jesus.

O privilégio de Maria é realizável também em nós, não na mesma dinâmica total, biológica e espiritual, mas na medida em que acolhamos a vontade de Deus como Ela o faz.

A iniciativa divina tem correspondência na resposta humana, na resposta de Maria. O Anjo vem da parte de Deus e surpreende Maria: “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo… encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e chamá-l’O-ás com o nome de Jesus… O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá. Por isso, o que é concebido santo será chamado filho de Deus”. A resposta de Maria não tarda, ainda que pause na surpresa do anúncio e no admirável mistério que está a acontecer: “faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 26-38)

Deus faz acontecer em nós, mas é preciso que O escutemos, que O acolhamos, que O procuremos, que O deixemos nascer em nós. Jesus nasce porque Maria diz “sim”. E, logo depois, ela dir-nos-á a condição para que o milagre aconteça em nós, para que a vida se realize na abundância: “O que Ele vos disser, fazei-o” (Jo 2, 5). Então, como o próprio Jesus o diz, se deixarmos que germine em nós o amor de Deus, na prática do bem, seremos verdadeiramente Seus discípulos, seremos verdadeiramente da Sua família (cf. Lc 8, 21).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/02, n.º 4537, 3 de dezembro de 2019

Editorial da Voz de Lamego: A soberania do Presépio

Quase de mansinho e estamos novamente no Natal. Ainda agora era agosto e quando dermos por ela já estamos em 2020! Calma, cada instante pode ser oportunidade. Seja bênção acolhida, tarefa partilhada, vida multiplicada com os outros. Caminhemos, da comunhão que nos humaniza para a comunhão que nos irmana.

O final do ano litúrgico levou-nos, melhor, leva-nos a contemplar a realeza de Jesus, a soberania de Deus. Coroa o ano, mas insere-nos, em espiral, num tempo novo, de graça e de salvação, como são todos os tempos, cada tempo diferente, com sublinhados que nos fazem perceber que estamos a caminho. Olhamos para os sinais dos tempos e para os acontecimentos e vemos que a vida muda. Por outras palavras, os ritmos diferentes fazem-nos prestar mais atenção, despertam-nos, colocam-nos de atalaia.

Estamos a entrar no Advento, mas os sinais são natalícios, os enfeites, as luzes, as promoções, a publicidade, a agitação. A dinâmica litúrgica remete-nos ao interior, mas que se exterioriza nas vivências e compromissos, na atenção aos outros, no cuidado que se deve redobrar para com aqueles que precisam da nossa atenção, da nossa visita, da nossa ajuda, que precisam de uma palavra, que precisam de um olhar terno e de ser escutados (com os ouvidos e com o coração).

A soberania que desejamos, como crentes, é a soberania do Presépio, isto é, de Jesus, Deus que nasce e descansa numa família situada num tempo, num lugar e numa cultura concreta.

No último domingo, a solenidade de Cristo Rei mostrou-nos à saciedade qual a realeza de Deus revelada em Jesus Cristo: despojamento, pobreza, humildade, verdade, melhor, amor. Amor até ao fim, até à eternidade.

Na verdade, quem ama não pode senão dar-se, entregar-se, partilhar a vida, gastar-se por aquele ou aqueles que ama. Amar é isso: é encontrar o outro e confiar-lhe a vida, na certeza que o amor nos faz querer o melhor. O amor gera amor, gera vida como, ao invés, o ódio gera ódio, e a vingança multiplica o mal, provocando a morte do outro, senão fisicamente, pelo menos, dentro de nós.

Ao encarnar, Jesus traz-nos o Amor de Deus, evidenciado neste mistério em que a eternidade passa a caber no tempo, a divindade no humano, a omnipotência na fragilidade, o Infinito no finito, no limitado, na pequenez. Nas palavras e nos gestos, Jesus não faz outra coisa que não seja falar de amor, de bênção, da gratuidade do amor que se dá, inteiramente, sem esperar nada em troca, a não ser uma resposta, no dizer de Bento XVI. Ao sair de Si, dando-Se por inteiro, Deus espera que o Homem, de algum modo, Lhe responda, positiva ou negativamente, mas não com indiferença. Essa resposta, vemo-lo agora, há de ser dada, como nos lembra o nosso Bispo, D. António, para a frente, amando os outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/01, n.º 4536, 26 de novembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: O amor sobrevive ao tempo e ao inverno

O amor exige eternidade. Quando duas pessoas se amam, namorados, pais e filhos, amigos, tendem a fazer perdurar o tempo que passam juntos e, quando não é possível, utilizam os meios e os instrumentos para se sentirem próximos.

Diz-nos o filósofo francês, Blaise Pascal: “O homem ultrapassa infinitamente o homem”. Por outras palavras, o homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito e perpetuar-se para sempre; biologicamente limitado e finito, procura sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do corpo e do espírito. Popularmente há três formas de a pessoa se perpetuar além da morte temporal: plantar uma árvore, escrever um livro e deixar descendência.

A nossa inteligência exige mais do que o vazio, mais que o termo, mais que o abismo! Foi assim que o célebre psiquiatra brasileiro, Augusto Cury, chegou à fé. A nossa inteligência exige sobrevivência à morte física, de contrário não teria sentido todo o caminho feito e esforço por tornar mais fácil a vida uns dos outros.

O ser humano não cabe no hiato de tempo que vai do nascimento à morte natural. É pensado antes, gerado sem contribuir para tal, e deseja que a sua vida, o que é e o que faz, não seja descartada só porque não está ou após a sua morte. Se tudo acaba agora, se tudo acaba ali, no último suspiro, terá valido a pena viver, esforçar-se por ser melhor e por contribuir para uma sociedade mais justa e humana, terá valido a pena sacrificar-se pelos outros, entregar-se ao seu semelhante?

Se tudo acaba na morte biológica, não precisamos de Deus. Se tudo acaba com a morte, o bem e o mal que façamos será um momento fugaz! Ao fim e ao cabo, tanto faz que apostemos no bem ou no mal. Na esteira de Nietzsche, o importante será então a nossa vontade de poder e de prazer, sem precisarmos de dar contas a ninguém, nem aos outros nem a Deus, tudo parte de nós e em nós tudo acaba!

A fé em Deus exige a fé na eternidade! Um Deus limitado no antes ou no depois não seria de todo, assim o entendemos racional e filosoficamente, Deus. As grandes religiões apoiam-se na certeza que Deus é poderoso e omnipotente, pré-existente a tudo, garantia da existência presente, e pós-existente a tudo. Se nos relacionamos com a divindade, numa perspetiva amorosa, é expectável que contemos perdurar com Ele, para sempre. É a consequência natural de quem ama: que a relação não seja bloqueada por nada, mas se cristalize, renovando-se constantemente, para que permaneça. “O amor é fidelidade no tempo” (Bento XVI).

A fé na ressurreição, a esperança na vida eterna, não se fixa no depois da morte, mas no caminho a percorrer na história e no tempo. É o amor que nos eterniza e nos conduz a Deus.

 

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/48, n.º 4535, 19 de novembro de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Dai-lhes vós mesmos de comer

No próximo Domingo, 17 de novembro, viveremos o 3.º Dia Mundial do Pobre, proposta do Papa Francisco que se vai impondo paulatinamente. Teve alguns críticos, dentro e fora da Igreja, por uma compreensão superficial e errónea do que se pretenderia, a começar pela formulação da comemoração, pois poderia entender-se que se estava a cristalizar, a elogiar e a justificar a pobreza. Uma coisa é defender a pobreza como opção que envolve humildade, despojamento e serviço ao próximo, e que obviamente, também pode incluir a produção de riqueza para promover o emprego e a disponibilidade de bens para mais pessoas; outra coisa é a resignação diante da pobreza imposta, a miséria a que milhões de pessoas estão sujeitas. “O compromisso dos cristãos, na vida ordinária de cada dia, não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem tender a aumentar em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade”.

A propósito, a Madre Teresa de Calcutá era acusada de não pensar e não defender uma política de erradicação da pobreza na medida em que apostava na resposta imediata e concreta às situações que iam surgindo. Com o tempo, ficou claro que as políticas são importantes, e sobretudo quando têm efeitos práticos, mas não se pode virar as costas à situações do dia-a-dia. Enquanto se espera pela implementação das medidas as pessoas morrerem à fome e ao frio… O assistencialismo pode ser provisório, mas não pode ser desculpa para não ajudar, fazendo já o que é necessário e possível.

O Papa Francisco tem deixado claro o princípio da subsidiariedade: não deixar para os outros o que posso fazer, envolvendo outros em questões mais complexas, não deixar para amanhã o que posso resolver hoje. Incentivar o Estado e as estruturas centrais a resolver problemas mais complexos e crónicos, de forma sustentada, mas mantendo-nos, a mim e a ti, comprometidos com a pessoa que está à nossa beira. Com efeito, em diversas ocasiões, o Papa tem sido contundente em relação a governos e estruturas centrais, à política e economia, para um envolvimento mais efetivo e rápido ao grito dos pobres, dos desfavorecidos, daqueles que continuam a viver nas periferias existenciais. Os pobres clamam. Deus ouve a sua voz. Quem se recusa a escutar o grito dos excluídos, tapa os ouvidos, o coração, a Deus. Como não lembrar a expressão papal: “esta economia mata” ao colocar o foco nas percentagens de desenvolvimento e produtividade, nas estatísticas, nos ganhos das bolsas de valor, ainda que à custa dos pobres, pessoas e povos.

Na mensagem para esta terceira jornada o Papa não pode ser mais claro: “A numerosos grupos de pessoas, a crise económica não lhes impediu um enriquecimento tanto mais anómalo quando confrontado com o número imenso de pobres que vemos pelas nossas estradas e a quem falta o necessário, acabando por vezes humilhados e explorados… Passam os séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não ensinasse nada”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/47, n.º 4534, 12 de novembro de 2019