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Archive for the ‘Ecologia’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Louvado sejas, Senhor!

Um dos documentos do Papa Francisco que mais surpreendeu, pela temática e pela urgência, e que continua a ser objeto de estudo, de reflexão e preocupação, dentro da Igreja, mas com boa aceitação em outros meios sociais e culturais, foi a Carta Encíclica Laudato si’, sobre o cuidado com a casa comum, casa de todos, que é o mundo que habitamos.

Já lá vão cinco anos. O Santo Padre parte da oração de São Francisco de Assis, que trata as diferentes criaturas como irmãs, num convite à fraternidade, estendida a toda a criação. “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”.

Ao louvor de São Francisco, logo o Papa manifesta, nos primeiros números, a urgência em refletir e repensar comportamentos. “Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos”.

A sensibilidade para o cuidado da natureza tem sido crescente. Ainda há pouco manifestações, por parte de estudantes, numa vintena de cidades portuguesas, lembrando que não há um planeta B. Dias dedicados à água, à terra, à árvore, ao ambiente… oportunidades para refletir na escassez de alguns recursos ou na exploração desenfreada (e egoísta) dos bens da terra. Pelas contas de alguns, nós consumimos até julho o que deveria chegar até ao fim do ano. Excesso de consumismo, sem esquecer que os nossos excessos não são compensados pela miséria de milhões de pessoas.

Ressalta na carta do Papa, e de demos nota na Voz de Lamego, aquando da sua publicação, a ecologia integral. O Papa não se posiciona em qualquer radicalismo extremista, partidarizando a defesa do ambiente, das plantas e dos animais, esquecendo as pessoas. O cuidado da casa contempla cuidado da pessoa, na defesa da vida, desde a gestação até à morte natural, a atenção ao grito dos pobres e ao desenvolvimento dos povos. De que adianta proteger o ambiente, se se matam as pessoas?!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/27, n.º 4514, 11 de junho de 2019

UM REPARO – ÁGUA

A falta de água começa a afectar fortemente a vida de muitos na nossa região, tal como relatado e ilustrado pela comunicação social. Desde há semanas (meses) que algumas populações dependem da água transportada pelos camiões-cisterna.

Há regiões no mundo com menos água do que nós, o que as levou a organizarem-se e a desenvolverem meios a preservarem e bem utilizarem. Comparativamente, no nosso país ainda há muita água, mas a diminuição da chuva e das reservas aquíferas começam a ter consequências e exigem medidas. Sem capacidade para armazenar no inverno, como assegurar água para o verão? Sem o cuidado e a atenção de todos os consumidores, como garantir uma boa utilização da água?

As recentes obras da albufeira de Alqueva mostram como o armazenamento e distribuição da água permite fixar populações e desenvolver o cultivo das terras. Quem quererá viver ou trabalhar numa terra que não tem abastecimento de água para consumo e para a agricultura? O investimento pode ser grande e moroso, mas os resultados compensarão. O problema estará, sobretudo, nas opções dos responsáveis políticos. Habituados a ciclos de curta duração (mandatos), preferem investir em algo mais rápido que permita uma reeleição, em vez de olharem para as gerações futuras. Por outro lado, ainda há freguesias (também no nosso concelho) que continuam, sem água ao domicílio, talvez porque o número de eleitores não tem grande influência!

A formação também é importante, já que os actos e opções de cada um têm influência na vida de todos. No fundo, trata-se de educar para a preservação da “casa comum”, tal como repetidamente lembrado pelo Papa Francisco.

A água é um bem essencial que tenderá a escassear, a ficar cada vez mais caro e que merece ser preservado. Não basta pedir chuva.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/51, n.º 4437, 21 de novembro de 2017