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Editorial da Voz de Lamego: Descobrir e viver a Páscoa

A vida não se repete. Nem os acontecimentos. Nem as celebrações. Não há duas pessoas iguais. Não há dois momentos iguais. Por vezes ouvimos dizer: “bom, isto já aconteceu, não é nada que já não tivéssemos visto”, numa espécie de eterno retorno, como se situações do passado se pudessem voltar a repetir, quase milagrosamente. Em relação a esta pandemia, vamos ouvindo que não é novidade, já houve outras e até mais perigosas. É preciso ler a história e procurar compreender e relativizar as adversidades e tempestades do tempo atual! Sim, mas essa é apenas uma visão parcelar, que, obviamente, nos deve levar a retirar ensinamentos, a relativizar, ou a não absolutizar, a não dramatizar a situação atual como se fosse algo nunca visto que nos faça vislumbrar o fim do mundo. Em todo o caso, é uma situação nova, concreta, pela rapidez do contágio, e pelo facto de ter surpreendido as autoridades e as populações, quase como um tsunami ou um terramoto, além de todas as consequências que está a provocar na vida social, familiar, económica e eclesial.

Também não há duas Páscoas iguais e a deste ano é, seria, inevitavelmente diferente por todo o contexto que nos envolve e nos vai mantendo mais ou menos afastados com sucessivos apelos aos outros para que fiquem em casa, mesmo que, da nossa parte, arranjemos algumas formas de arejar, mais não seja em passeios, caminhadas ou corridas ditas higiénicas.

Páscoa, na verdade, há só uma, a morte e a ressurreição de Jesus, acontecida há dois mil anos, em Jerusalém. No decorrer da Última Ceia, Jesus antecipa e explica o mistério pascal e, preparando o futuro, faz-nos saber que oferece a vida por todos, o Seu corpo e o Seu sangue, para nos remir e reunir, para nos salvar e congregar, como família, na certeza de que sempre  que em Sua memória nos reunirmos e dissermos/fizermos o que Ele fez, nos tornaremos verdadeiramente participantes da Sua morte, oferenda por nós ao Pai, e da Sua ressurreição, certeza de que a Sua vida não foi em vão e não culminou no vazio!

Não repetimos a Páscoa de Jesus, mas tornámo-la atual, presente. Cristo, na Eucaristia, e demais sacramentos, torna-Se nosso contemporâneo. Ele deu-nos o Espírito Santo, agora o Espírito Santo dá-nos Jesus, torna-O presente, não como uma recordação histórica, longínqua, mas com uma Presença atual, com o mesmo mandato de então: Fazei isto em memória de Mim… como Eu fiz, fazei-o uns aos outros. A Missa leva-nos à missão. A oração conduz-nos ao serviço. O louvor a Deus agrafa-nos no cuidado aos irmãos. Celebrar Páscoa, hoje, é deixar-nos envolver pelo mistério de Deus, pela ação do Espírito Santo na Igreja e no mundo, cooperando para que Cristo que vive em nós viva nos outros também.

Os sinais da Páscoa podem ser ténues, mas estão aí, em cada um que faz o bem, que cumpre a missão de animar, transmitir confiança, ajudar os mais vulneráveis.

Não deixemos também nós, eu e tu, de mostrar os sinais e transparecer a certeza de que Cristo vive, em mim e em ti, no que dizemos e no que fazemos, sejamos portadores da alegria e da esperança, da fé e da caridade, do serviço e da bondade. Se mais não pudermos fazer, um sorriso, uma palavra de ânimo, um telefonema, uma mensagem enviada, a partilha do que os outros fazem de bem.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/20, n.º 4555, 14 de abril de 2020

Celebração da Vigília Pascal – Sé de Lamego – 11 de abril de 2020

No sábado santo, 11 de abril, o Senhor Bispo, D. António, presidiu, na Sé de Lamego, à Vigília Pascal deste ano de 2020 em que nos encontramos confinados a nossas casas em virtude da pandemia do COVID 19. A Eucaristia foi transmitida, via Facebook na página da Diocese em colaboração estreita com a Rádio Clube de Lamego.

Celebração da Paixão do Senhor – Sé de Lamego – 10 de abril de 2020

Na sexta-feira santa, teve lugar, na Sé de Lamego, a celebração da Paixão do Senhor, presidida pelo nosso Bispo, D. António, e transmitida pela rádio e via Facebook, pelas páginas da Diocese de Lamego e da Paróquia da Sé, seguindo a emissão da Rádio Clube de Lamego.

Ceia do Senhor – Sé de Lamego – 9 de abril de 2020

Como expectável, a celebração do Tríduo Pascal foi muito diferente de anos anteriores, com igrejas praticamente vazias. Daí também a aposta na transmissão das celebrações para que mais pessoas pudessem sintonizar-se com os mistérios celebrados, ainda que afastados pelas circunstâncias do tempo presente.

Na quinta-feira santa, 9 de abril, a celebração da Ceia Pascal, presidida pelo nosso Bispo, D. António Couto, na Sé de Lamego, com transmissão nas páginas da Diocese e da Paróquia da Sé, em colaboração com a Rádio Clube de Lamego, que transmitiu via rádio e também em vídeo direto pela respetiva página no Facebook.

A casa, a descoberta de um novo Mundo

Fica em casa! Foi a expressão mais ouvida e lida desde o primeiro momento em que se percebeu que havia um inimigo invisível. As primeiras horas geraram ansiedade, nos portugueses, mas aos poucos, vamos percebendo que, afinal, há muito para descobrir e fazer entre quatro paredes.

Alexandra Teixeira vive em Valdigem e trabalha num lar. Até dia 7 de abril está por casa e fará parte da próxima equipa de trabalho para substituir a equipa que há muito faz de tudo para assegurar o bem-estar dos idosos. Alexandra conta-nos: “estou tão habituada a trabalhar, que me senti muito mal nos primeiros dias. Fui mesmo às lágrimas, pela ansiedade e o tédio de estar em casa. Mas tive que dar a volta à situação e programei algo de diferente, diariamente, com o meu neto. Estou a gostar porque há muito que não tinha tempo para nada e agora até experimento receitas novas, cuido das minhas plantas e brinco imenso com o meu netinho” diz a jovem avó. Ainda ressalva que “são momentos únicos com mais afetos, mais amor… uma união maior porque estamos obrigados a estar juntos e temos tempo para estarmos juntos à mesa”.

Paula Teixeira é educadora de infância e natural de Moimenta da Beira. Diz estar “tranquila a passar tempo com a família”. Aproveita para fazer o que muitos portugueses fazem, por estes dias, arrumar tudo aquilo na correria do dia-a-dia não dava tempo. Sendo educadora, mãe de três filhos e dedicada ao trabalho que desenvolve com paixão e dedicação. Paula acrescenta “ainda aproveito para orientar as minhas atividades para os próximos tempos. E peço aos pais para deixarem as crianças serem elas mesmas e felizes com muitas brincadeiras”.

Esmeraldina Correia vive numa aldeia pertencente ao concelho da Meda e mostra o que sente: “Tenho que encarar a minha quarentena, porque estar em casa é o melhor para mim e para os meus. Apesar da preocupação com tudo isto tudo que se está a passar… estar em casa é uma missão que todos devemos cumprir para o nosso bem”. Quanto ao que faz dentro de casa, Esmeraldina, que é apaixonada por música, diz que divide o tempo entre as limpezas, o exercício físico e a televisão.

Leandro Sarmento é de Tarouca e estudante de comunicação em Viseu. “Estar em casa nesta quarentena não custa nada, visto que é para o bem da saúde pública. O pior mesmo são as questões a nível profissional como a nível escolar. No meu caso, o Covid-19 está a dificultar um pouco. Sou finalista do ensino superior, está a ser difícil conseguir gerir a situação a nível de estágio e mesmo de findar o curso. Com as aulas online conseguimos acompanhar a matéria, mas ao mesmo tempo não conseguimos ser avaliados da mesma forma como se a pandemia não existisse, o que pode dificultar o término do curso”. Mas há outra questão que se levanta porque o Leandro também se dedica à música: “Estamos a ver o verão em risco devido a esta situação. No meu grupo, o Varosa, já não se ensaia há um mês e este tempo poderia fazer a diferença, mas com esta situação toda também assistimos ao cancelamento de espetáculos, ou seja, todos os esforços que vínhamos a fazer já desde outubro de 2019 como o deslocamento para ensaios e todo o trabalho feito para esta nova época está a ir pelo ‘cano a baixo’. Mas a quarentena não é o pior, de todo. O pior é o que acarreta tudo isto daqui para a frente”.

O jovem termina com uma simples frase dita por Rodrigo Guedes de Carvalho: “Aos nossos avós foi-lhes pedido para irem para a guerra, a nós pedem-nos para estar em casa no sofá”. Apelo que as pessoas não saiam de casa, pois não custa nada. Mesmo que saiam, que tomem as devidas precauções, pois o que se está a passar não é brincadeira nenhuma. Saúde para todos” desejou.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/18, n.º 4553, 31 de março de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Uma Igreja em cada casa

Entrámos na Semana Maior da nossa fé. Estes eram dias de movimento, tempos de oração, de procissões, de encontro e de alegria interior. As igrejas compunham-se de gente devota. Mais ou menos expressivas, as celebrações apelavam e apelam ao recolhimento espiritual, à contemplação das últimas horas de Jesus, para culminar na Páscoa, com a Visita Pascal, anunciando a ressurreição de Cristo, de casa em casa, em todas as casas.

Como pároco, já ouvi, em forma de pergunta ou de lamentação: este ano não há Páscoa?! Sim, há Páscoa, pois não se deixa de celebrar a ressurreição de Jesus. Mas de um jeito muito diferente do habitual. Antes lamentávamos as igrejas vazias, mesmo quando tinham pessoas, agora efetivamente estão vazias. Todavia, também a Igreja procurou adaptar-se a estes tempos de confinamento caseiro, procurando que não se perca a ligação, a comunhão à comunidade, contando com a criatividade de muitos. Se antes, cada casa era chamada a ser Igreja doméstica, hoje, por maioria de razão, a Igreja é em cada casa, em cada família, pois é em cada casa que se reúne a família para rezar e aprofundar a fé e a esperança, vivendo a caridade.

Antes de chegarmos à Páscoa, à alegria da Ressurreição, há caminho a percorrer, há uma cruz a transportar, há um calvário a acolher, e tantas contrariedades a experimentar, especialmente neste tempo. A realidade pandémica do coronavírus paira como ameaça sobre todos, desafiando-nos, sempre, mas agora mais ainda, a cuidar uns dos outros, atendendo sobretudo às pessoas e famílias mais vulneráveis.

Vai ficar tudo bem!

A vida é um dom e uma bênção. Sempre! Mas, porque somos limitados e finitos, a vida pode complicar-se!

Vai ficar tudo bem!

O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus… vai ser morto… VAI FICAR TUDO BEM… três dias depois ressuscitará. A última palavra será da vida, do amor, da ressurreição, a última palavra será de Deus. Mas, porquanto, vivemos na penúltima palavra, estando sujeitos às coordenadas espácio-temporais e a lidar com as fragilidades, limitações e egoísmos uns dos outros.

Ao longo da Sua vida, Jesus não Se desvia do amor do Pai, traduzido em proximidade, cuidado e serviço a todos, preferencialmente aos últimos da sociedade. Instala-se uma revolução “silenciosa” de delicadeza, de ternura e de compaixão, de amor e perdão, de serviço e bondade. A luz, que é Jesus, ilumina e ofusca, desafia e provoca, clarifica o caminho e põe a descoberto a soberba, o egoísmo e a indiferença, expõe a maldade, as trevas e as maquinações. Se uns se sentem desafiados e envolvidos, outros sentem-se acossados e expostos! Olhamos para Jesus e olhamos para autoridades judaicas e não precisamos que nos deem explicações, são percetíveis as opções e a coerência de vida. E tal coerência gera irritação, ódio, e a necessidade urgente de apagar a chama que incendeia corações e vidas!

Vou partir… a vossa tristeza é inconsolável… mas vai ficar tudo bem… Eu voltarei e, então, a vossa alegria será completa!

Vai ficar tudo bem! É a certeza da Páscoa e de todas as páscoas que vamos experimentando, ainda que falte fazer caminho!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/19, n.º 4554, 7 de abril de 2020

Falecimento do Padre José Tomás Borges | 1938-2020

O padre José Tomás Borges, era natural da Paróquia de Paus, na Zona Pastoral de Resende, onde nasceu a nasceu a 4 de julho de 1938,  em Paus e membro da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN), a que pertence também o nosso Bispo, e faleceu a 7 de abril, aos 81 anos de idade.

A SMBN recorda-o como “um homem muito delicado e respeitador; dialogante e com grande capacidade de escuta, pelo que era procurado por muita gente… Dedicou toda a sua vida à formação inteletual e espiritual. Amava profundamente a Sociedade Missionária da Boa Nova, como parcela da Igreja. Que o Senhor o receba na sua luz”.

Foi ordenado presbítero em Cucujães, a 28 de julho de 1963, tendo desempenhado a sua Missão no Seminário das Missões, em Maputo, Valadares e Tomar; foi vigário-geral da Sociedade Missionária de 1986 a 1990.

O Sr. Bispo de Lamego, D. António, em seu nome e do presbitério de Lamego, une-se na oração e na comunhão espiritual a todos os familiares e amigos, e à SMBN, na certeza, da fé, da ressurreição dos mortos, onde, um dia, todos nos encontraremos.