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Editorial Voz de Lamego: Rezai o terço todos os dias

Um dia Jesus disse aos Seus discípulos para rezarem sem cessar e sem desfalecer, sem desistir. «Pedi e ser-vos-á dado, procurai encontrareis, batei e abrir-se-vos-á; pois todo o que pede recebe, o que procura encontra, e ao que bate abrir-se-á» (Mt 7, 7ss). Jesus prossegue, dizendo que se os pais dão coisas boas aos filhos, muito mais o nosso Pai do Céu nos dará aquilo que Lhe pedimos.

Na passagem paralela, em São Lucas, Jesus aprofunda esta temática, contando uma parábola: «Quem de entre vós terá um amigo e irá ter com ele a meio da noite para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, visto que um amigo meu chegou de viagem e não tenho nada para lhe pôr à frente’; e ele, de dentro, respondendo, dirá: ‘Não me importunes, a porta está fechada, e os meus filhos estão na cama comigo; não posso levantar-me para tos dar’? Digo-vos: ainda que não se levante para lhos dar por ser seu amigo, levantar-se-á por causa da falta de vergonha dele e dar-lhe-á tudo quanto necessite».

Numa outra passagem, Jesus conta outra parábola, de uma viúva que insiste com um juiz iníquo, que não teme a Deus nem aos homens. Inicialmente, ele recusa-se, fica indiferente ao pedido, mas finalmente resolve-se, fazendo-o, não por convicção, mas por se sentir incomodado com a insistência. E Jesus conclui: «Ouvi o que diz o juiz injusto. E não fará Deus justiça aos seus eleitos que por Ele clamam dia e noite? Vai fazê-los esperar? Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Contudo, quando o Filho do Homem vier, encontrará porventura a fé sobre a terra?»

A parábola, diz-nos o evangelista, é acerca da necessidade de rezar sempre sem desanimar. Mas a concluir, Jesus fala de fé. Mas que tem uma coisa a ver com a outra? Sem fé, a nossa oração é vazia e inútil. Deus responde-nos sempre, mas será que O escutamos? Que confiamos na Sua bondade? Será que acreditamos que Ele quer o melhor para nós?

Nossa Senhora, em Fátima, convida a uma oração simples, acessível a todos. Tal como a mensagem que resulta das diversas aparições, também este apelo está em conformidade com o Evangelho e com o mandato de Jesus. Rezar. Sem cessar. A oração, porém, não é (apenas) a repetição de fórmulas. A oração implica sintonia, ligação, predisposição para acolher. Com efeito, Nossa Senhora pede aos pastorinhos orações pelo Santo Padre, pela paz no mundo e, reiteradamente, pela conversão dos pecadores. A conversão é ação de Deus e Deus pode agir quando e onde quer, mas podemos impedi-l’O de agir em nós, podemos fechar-nos ao Seu Espírito. A oração predispõe-nos a acolhê-l’O. A verdadeira conversão é acreditar em Jesus Cristo, pois se acreditamos n’Ele como Deus feito homem, não temos como não procurar segui-l’O, amá-l’O, imitá-l’O. Muitas vezes queremos que Ele faça a nossa vontade e esperamos que atenda as nossas preces automaticamente. É difícil a espera, é difícil colocarmos a nossa confiança, total e sem condições, em Deus, porque receamos que nos peça algo que não estamos dispostos a realizar. Por outro lado, os desígnios de Deus sempre se esbatem com a vontade humana. Ele criou-nos livres e respeita a nossa vontade. Rezamos pela paz e pedimos que Deus ilumine o coração dos agressores, dos governantes, mas não sabemos até que ponto eles pensam que estão a fazer o bem! Contudo, não deixemos de rezar, pela paz, para que o amor de Deus permite “amolecer” o coração dos homens. Este mês de maio, mês de Maria e de Fátima, rezemos pela conversão dos pecadores, pela paz no mundo, pelo santo Padre e que a “repetição” de “aves-marias” e de “pai-nossos” seja a nossa forma de dizermos: Maria, eu amo-te mas aumenta a minha docilidade para com os outros; Jesus, eu amo-te, mas faz com que me sinta verdadeiro filho, verdadeiramente teu irmão e irmão de todos os que colocas no meu caminho.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/26, n.º 4657, 11 de maio de 2022