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Editorial Voz de Lamego: A paz que Eu vos deixo

O Papa Paulo VI convocou o mundo para celebrar o Dia Mundial da Paz: “Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o ‘Dia da Paz’, em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de janeiro de 1968. Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro”.

Ao longo do ano, existem dias mundiais, internacionais, dias dedicados a uma causa, para relembrar um acontecimento, para promover um valor, uma atitude, um compromisso. Estas comemorações existem para colmatar um défice, um esquecimento, alguma injustiça ou desigualdade. Mesmo que evoquem um acontecimento, têm o propósito de assinalar uma vitória, uma conquista para a humanidade ou para determinado povo, uma personalidade que marcou a história ou, em sentido contrário, para que não seja esquecido aquele dia, aquele acontecimento, aquela pessoa, para que não se caia no mesmo erro.

O Dia Internacional da Mulher, assinalado a 8 de março, alerta para as muitas desigualdades que ainda existem entre homens e mulheres, no trabalho e na lida doméstica, sendo também uma chamada de atenção para a violência doméstica em que a maioria das vítimas são mulheres. O Dia Mundial da Árvore, a 21 de junho, evidencia o cuidado a ter com o meio ambiente, com o excesso de poluição, com a desflorestação, com os incêndios, mostrando como o descuido da natureza a todos afeta. O Dia Mundial do Pobre, no penúltimo Domingo do Tempo Comum, remete para a opção preferencial dos mais pobres e que a erradicação da pobreza que continua a ser uma miragem, mas também um compromisso urgente, como se viu em tempo de pandemia, como se está a ver em tempo de guerra. São apenas alguns exemplos!

Se não houvesse guerra, não precisaríamos de um Dia Mundial da Paz ou um Dia Mundial da Não Violência, ou da Não discriminação. Mas, infelizmente, continuam a existir diferentes focos de guerra, em Cabo Delgado ou Myanmar, e, agora, entre a Rússia e a Ucrânia. A guerra traz o pior da humanidade, pela matança de pessoas, pelo rasto de tristeza e de luto que deixa, semeando ódios e desejo de vingança nas gerações mais novas, que deveriam estar a cultivar a paz, a fraternidade, uma vida saudável, com esperança no futuro. Por outro lado, os recursos usados por uma guerra serviriam muito para a erradicação da pobreza, mas no caso multiplicam-na exponencialmente.

Paulo VI enumera os muitos perigos que persistem: “da sobrevivência do egoísmo nas relações entre as nações… das violências, a que algumas populações podem ser arrastadas pelo desespero de não verem reconhecido e respeitado o próprio direito à vida e à dignidade humana… do recurso a terríveis armas exterminadoras, de que algumas potências dispõem… de fazer crer que as controvérsias internacionais não podem ser resolvidas pelos meios da razão, isto é, das negociações fundadas no direito, na justiça e na equidade, mas só por meio de forças aterradoras e exterminadoras”.

O compromisso pela paz há de corresponder ao empenho pelo desenvolvimento dos povos, à luta pela igualdade social, pela liberdade e pela justiça. Não basta não haver paz, é urgente que as pessoas, as famílias, os povos vivam em ambiente de segurança e lhes sejam assegurados direitos e garantias fundamentais, habitação, educação, cultura, saúde.

Diz Jesus aos seus discípulos: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; Eu não vo-la dou como a dá o mundo» (Jo 14, 27). A paz que nos vem de Jesus alicerça-se, não no egoísmo, mas no amor, não no poder, mas no serviço, não na violência, mas na ternura, não rivalidade, mas na compaixão, não na inveja, mas na partilha, não no ódio, mas na comunhão, não na força, mas na humildade! É este o caminho da verdadeira paz, a que brota do coração.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/17, n.º 4648, 9 de março de 2022

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