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Editorial Voz de Lamego: Sem vida própria!

Há pessoas que não têm vida própria, vivem a vida dos outros, em função dos outros, agindo, não segundo as próprias convicções, mas na tentativa, vã, de agradar a uma pessoa, a um grupo, ou, pelo menos, com a preocupação exacerbada de não desiludir. Isto não é viver, no sentido mais autêntico do que entendemos por viver: desenvolver dons e talentos, orientar a vida pelas convicções que se cultivam, aprofundam e amadurecem ao longo do tempo, criando pontes de diálogo e laços de amizade e proximidade, deixando marcas no mundo, a começar pelas pessoas, marcas de bondade e de amor.

Vamos por partes. “Não ter vida própria” tem, pelo menos, duas dimensões distintas ou duas leituras diferentes. Quando a pessoa gasta a sua vida em prol da família, dos amigos, da comunidade, quando vive, mais, em função do trabalho, não é necessariamente algo mau. Alguém não tem vida própria, porque não tem tempo para si mesmo, mas ocupa-a a tratar dos outros, dos filhos, ou dos pais, ou a trabalhar para o sustento e a comodidade da família, ou envolvida em atividades de voluntariado (além da profissão e das lides de casa). Há sempre um “senão”. É necessário que diferentes dimensões da vida sejam preenchidas: o trabalho, o descanso, a família, a festa, a confraternização, o lazer, o voluntariado. Os pais trabalham tanto que não têm tempo para acompanhar os filhos, ir ver deles à escola, terem tempo de qualidade juntos, poderem brincar com os filhos, escutá-los, contar-lhes uma história… talvez possam estar a desperdiçar um tempo precioso que não volta mais. Compreende-se! As necessidades dos filhos, a habitação, a alimentação, encargos e mais encargos e trabalhos precários e mal remunerados, cujos patrões não têm em conta o agregado familiar, mas o indivíduo-trabalhador desligado do seu contexto social, económico e familiar. Mas como os próprios reconhecem, mais tarde, não acompanharam o crescimento dos filhos e, na atualidade, já não se compreendem mutuamente e, agora, são os filhos que não têm tempo nem disponibilidade, pois têm pressa de viver as suas vidas.

Valorizar a família implica ter tempo para estar em casa e amadurecer a cumplicidade entre os seus membros. O trabalho é essencial se englobar o descanso, a festa, as celebrações familiares. E será ainda mais essencial se predispuser a pessoa e a família para o voluntariado e para a envolvência na vida da comunidade. Isto vale para a interação com a sociedade como vale para a pertença à comunidade eclesial.

“Sabeis quem vive somente graças aos outros? Os vírus. Os vírus não têm vida própria, têm de se agarrar a alguém”. É uma frase de uma série televisiva – DOC – baseada em factos reais: um médico italiano que perde as memórias de 12 anos e quando volta a exercer, mudando de hospital, como que recomeçando a vida profissional.

Sem vida própria! Num sentido negativo, quando uma pessoa vive em função do que os outros pensam ou dependente do sucesso ou do fracasso dos outros para se sentir feliz e realizada. Há na natureza alguns exemplos curiosos, como o cuco. Este procura o ninho de outra ave, coloca lá o seu ovo, deitando fora um dos outros ovos. O ovo é semelhante em cor e tamanho, pelo que a ave não nota o engodo. A cria do cuco nasce primeiro e a ave-mãe cuida dela como se fosse sua. O cuco bebé, por outro lado, lança fora os outros ovos, para ser o único a receber a comida. A ave-proprietária do ninho não se dá conta do engano, mesmo quando o cuco fica maior do que ela.

Qual é a nossa opção: viver como o cuco ou procurar viver a própria vida?

Como cristãos, a opção é viver ao jeito de Jesus, acolhendo a vida como dom, gastando-a com os outros, construindo fraternidade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/13, n.º 4644, 9 de fevereiro de 2022

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