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Entrevista com Fábio Cecílio, o nosso campeão mundial de futsal

Reconhecido jogador de futsal, natural de Tabuaço, onde despertou para esta modalidade, mormente fazendo parte da AJAB (Associação Juvenil Abel Botelho), numa equipa que se batia com as melhores formações. Começou por volta dos 14 anos e é há 14 anos que tem vindo a encantar os adeptos deste desporto, despertando o interesse dos maiores clubes portugueses, a começar no Braga, depois o Benfica, onde jogou seis temporadas, e, na nova temporada, novamente no Braga. Ganhou diversos troféus, ao nível do clube, mas também da seleção. Foi campeão europeu e, no passado dia 3 de outubro, campeão do mundo. Portugal bateu a poderosa Argentina, e detentora do título de campeã mundial, por 2-1.

Obrigado, Fábio, por nos cederes um pouco do teu tempo para falares connosco.

VL – Quatro segundos para acabar a final do mundial, entre Portugal e Argentina, quando a bola foi ao poste. Que pensaste nesse momento? Vamos ser os novos campeões do mundo ou isto só acaba quando o árbitro acabar?

FC – O jogo só acaba aos 0 minutos, mas eu estava confiante que ia dar para nós. O sentimento era mesmo que íamos sair daquele jogo como campeões do Mundo.

VL – Quando o árbitro apitou para o final, que sentiste? Quais as emoções? Algum pensamento concreto? Quererias estar em algum lado nesse momento?

FC – Quando começou o campeonato do mundo, claro que sonhava em sair campeão, mas sabia que seria bastante difícil. Chegar à final foi algo inédito, que nunca tinha acontecido e ganhar o último jogo ainda é algo inacreditável. Às vezes ainda não acredito que é verdade.

VL – Como descreverias os momentos que se seguiram? Com a família? Com os adeptos? A chegada a Portugal?

FC – Primeiro festejámos em equipa, depois com os incríveis adeptos que nos acompanharam ao longo de todos os jogos. De seguida, fomos ter com a família que estava presente no pavilhão e aproveitar para festejar… já não os via há um mês. Na verdade, foram dois meses de estágio muito difíceis, mas tudo compensa. A chegada a Portugal foi emocionante. Estar no nosso país, rodeado de portugueses a festejar um título que tanto ambicionámos.

VL – Um momento também importante, pelo seu simbolismo, foi a receção que na segunda-feira tiveste no Palácio de Belém, com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Que reténs deste encontro? Nos cumprimentos pessoais, que é que o Presidente vos diz?

FC – Ir ao Palácio de Belém é sinal de que o nosso trabalho está a ser reconhecido e de que deixámos tantos milhões de portugueses orgulhosos de nós e da nossa modalidade. As palavras do Sr Presidente da República no seu discurso foram muito motivadoras. No abraço que nos deu a cada um de nós, transmitiu que está é estará sempre connosco.

VL – Numa vertente mais honorífica, és Comendador da Ordem de Mérito, comenda atribuída aquando da vitória de Portugal no europeu e, agora, Comendador da Ordem Infante D. Henrique. Que significado atribuís a estas insígnias?

FC – Ter estas insígnias significa que estamos a fazer bem o nosso papel. Estamos a representar bem o nosso país e a dar a conhecer ao mundo inteiro e, principalmente, estamos a honrar Portugal.

VL – Em 2018, Portugal foi campeão europeu de Futsal, modalidade que continua em expansão e a mostrar que os portugueses estão na primeira linha. Diferenças de vencer o europeu e o mundial? Que foi mais fácil ou que vos/te deu mais gozo?

FC – São vitórias diferentes. O Campeonato Europeu de Seleções foi o primeiro. Sonhei muito com isso e sempre achei que iria ser muito difícil de alcançar, mas conseguimos e admito que nos deu muita força para acreditar que o Mundial era possível. O Mundial tem muitas seleções em competição, mais do que o Europeu e, claro, estão sempre as melhores equipas do mundo, o que faz com que tenha um sabor especial.

VL – A seleção portuguesa de futsal, já tinha chegado a um terceiro lugar, mas não a uma final mundial. Em que momento percebeste, e os teus colegas, que a final era possível?

FC – Nós sempre acreditámos que era possível porque tínhamos e temos qualidade para isso. O jogo contra a Espanha foi o jogo que me fez acreditar ainda mais, porque foi um jogo difícil, intenso em que começámos bem, onde nos debatemos bem. Na segunda parte sofremos 2 golos e ainda assim acreditámos até ao último segundo e conseguimos dar a volta. Espanha é uma seleção com muitas conquistas, incluindo 2 campeonatos do mundo e nós conseguimos ganhar esse encontro e passar para as meias finais. Aí, já tinha um sentimento de que estava mais perto de sermos campeões.

VL – Mais difícil o trajeto de apuramento ou a fase final do campeonato do mundo?

FC – Sinceramente, ambos são difíceis. Todos os jogos são para ganhar e todos vão com esse objetivo. Não há margem para falhas em nenhuma ocasião.

VL – E depois do mundial vitorioso, o que se segue, a nível pessoal?

FC – Depois do mundial e de dois meses intensos, o que sabe bem é estar com a família e festejar com eles. Não há muito tempo para aproveitar, pois a vida segue e o clube precisa de nós.

VL – Como é que um jovem de Tabuaço, interior norte, foi parar ao palco do mundo? Achas que os jovens do interior poderão sonhar, no caso do futsal, em ingressar em clubes que militam no primeiro escalão, como Braga, Benfica, Sporting?

FC – Claro que sim! Felizmente a nossa vila tem muitos jogadores com um excelente percurso em que passaram por clubes “grandes” e espero que todos sejam uma inspiração para os jovens do interior. Tudo é possível, basta acreditar e lutar por isso.

VL – Segundo sabemos, o percurso até fazeres um contrato profissional, não foi nada fácil. Queres falar-nos como começou este sonho do futsal, do gosto pela bola até te tornares federado?

FC – É uma história muito longa. Comecei tarde a jogar futsal pela AJAB e, apesar de ser um sonho de miúdo, nunca acreditei que fosse possível. A verdade é que no momento em que planeava emigrar, quando terminei os estudos, surgiram alguns clubes interessados em mim. Fui para o Sporting Clube de Braga/AAUM e tornei-me profissional quando fui para o SL Benfica.

VL – Como conciliavas o futsal, os estudos, e o trabalho no campo?

FC – Não foi nada fácil. Eu levantava-me por volta das 5h da manhã e ia para o campo trabalhar. Depois almoçava e ia para a escola ter aulas. No final do dia, havia treino. Não foi fácil, mas eu precisava de o fazer. Precisava de ter o meu dinheiro, precisava de estudar para ter um futuro e, claro, precisava do futsal.

VL – Como é que te adaptaste à cidade e a Braga, na primeira passagem?

FC – O primeiro ano foi de adaptação. Eu praticamente nunca tinha saído de Tabuaço, muito menos viver fora e sozinho. Foi complicado até porque não tinha carro e, apesar de ser perto de Tabuaço, era muito difícil ir a casa visitar a família.

VL – Depois de dois anos no Braga, o desafio seguinte foi o Benfica, onde jogaste durante seis temporadas. Foi mais fácil a adaptação no Benfica? Maior visibilidade, maior exigência?

FC – O primeiro ano também não foi fácil a adaptação à cidade, não propriamente ao clube, mas à cidade. Calhou ir viver para o centro de Lisboa, na zona da Graça e, por isso, não foi fácil, mas ao longo do ano fui-me adaptando e conhecendo. Acabei por gostar muito. Tanto o Braga/AAUM como o SL Benfica são clubes que querem vencer, tal como eu.

VL – Como viveste o confinamento, devido à pandemia? Como é que a modalidade lidou com esta situação?

FC – No momento em que tudo fechou, não houve muito a fazer. Fomos para casa, ficámos fechados e a modalidade parou nos pavilhões. O treino continuou cada um em sua casa. Tínhamos que nos manter ativos. Claro que não foi fácil. É muito diferente treinar em casa com o espaço que temos, mas depois tudo voltou ao normal, felizmente.

VL – Uma mensagem para os jovens de Tabuaço ou deste interior onde se situa a diocese de Lamego. FC – Costumo batalhar sempre em três palavras: trabalho, dedicação e persistência. Se têm sonhos, seja qual for, nunca desistam. Tudo é possível! Mesmo ser do interior e ganhar um Campeonato da Europa ou do Mundo. É possível!

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