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Editorial Voz de Lamego: Como combater a solidão? Alugar amigos

A edição de 5 de outubro do jornal I destacava em primeira página: “Alugar amigos para combater a solidão”. Como subtítulo: “A moda começou no Japão e já chegou aos EUA. Avós japonesas andam a assaltar lojas para serem presas”.

As tecnologias aproximaram as pessoas, fizeram com que o mundo parecesse uma aldeia global. Na Carta Encíclica “Caritas in Veritate”, Bento XVI chamava a atenção: “a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (19). Na mesma linha, o Papa Francisco tem contraposto a era da globalização à globalização da indiferença. Temos acesso a muitas informações, mas isso já não nos comove. Com efeito, a exposição da violência em excesso, da pobreza, da miséria, da corrupção, dos crimes horrendos, tornou-nos insensíveis. O que nos chocava tornou-se banal, já não mexe connosco.

Esta moda, de alugar amigos, começou no Japão e chegou a Portugal em 2015. E, pelos vistos, está em crescendo nos EUA. Há empresas que alugam amigos. O preço pode ir de 10 a 50 euros por hora. Um amigo, um familiar, um colega… o que precisares, a empresa arranja-te um substituto, um estranho, ao ponto de ajudar a organizar uma festa, permitindo, depois ou na hora, a publicitação de uma vida faustosa e interessante, nas redes sociais, para que os outros possam ver e invejar.

A solidão é um cancro que está espalhado na sociedade atual e que continua em plena expansão. As distâncias foram encurtadas com os meios digitais, mas, por outro lado, verifica-se que estes meios isolaram ainda mais as pessoas. Por um lado, facilitam a comunicação, o trabalho, amenizaram os confinamentos. Se um filho estiver no outro canto do mundo é possível vê-lo, ao vivo e a cores. Um filho, um neto! Esbate-se a saudade! Mas continua a ser uma substituição.

O ser humano precisa do toque como de pão para a boca, precisa de cheirar e sentir o aroma do outro, de abraçar (ser abraçado), beijar ou apertar as mãos. Este contacto que faz-nos humanos, faz-nos sentir vivos e frágeis ao mesmo tempo, necessitados e completos. Por outro, o mundo digital facilita a ausência, o escondimento, a solidão… eu frente a um ecrã, vejo o mundo todo, procuro o que me interessa, descarto e dispenso o que é diferente, o que me desafia ou incomoda. Se trabalho a partir de casa, para quê sair, encontrar-me com amigos, com os colegas de trabalho para beber uns copos?! Mostro aquilo que quero, subtraio, para os outros, a parte de mim que não gosto.

A pandemia suscitou uma enorme solidariedade, ainda que também os medos se tivessem multiplicado. Mostrou muita miséria, material, cultural, espiritual. Suscitou compaixão. Mostrou pessoas e comunidades isoladas, sem meios de comunicação ou acesso a bens de primeira necessidade ou a prestação de cuidados médicos. As pessoas isolaram-se e algumas habituaram-se a viver como ilhas isoladas, tendo acesso ao mundo inteiro, a partir do sofá, da cozinha, do escritório. Multiplicaram-se os esgotamentos, os estados depressivos, a ansiedade, a acomodação. O regresso a alguma normalidade, ao que tudo indica, parece estar complicado. Há pessoas a ameaçar trocar de emprego para ficarem em teletrabalho!!! Há laços que estão a ser destruídos, há contactos que desapareceram, interdependências saudáveis e enriquecedoras que cederam à preguiça, à desconfiança, ao comodismo egoísta.

Admiramo-nos que num restaurante, num almoço ou jantar de família, os membros estejam sozinhos, cada um diante do ecrã do telemóvel, a fazer likes, a ver notícias, a jogar, a instagramar o momento. Antes saía-se para arejar, conviver, para que, em ambiente diferente, a família pudesse dispor de mais tempo de qualidade! Agora sai-se e continua-se a ver o mesmo mundo que via em casa! Estivemos tanto tempo diante de ecrãs que já não conseguimos libertar tempo para estarmos uns com os outros!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/47, n.º 4629, 20 de outubro de 2021

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