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Editorial Voz de Lamego: Não te reconheço!

É uma expressão popular que ouvimos muitas vezes sobretudo quando a outra pessoa nos surpreende positiva ou negativamente ou, então, quando vemos que ela não reage da forma como estávamos à espera que reagisse perante uma adversidade. Neste tempo de pandemia, ouvimos muitas expressões semelhantes, pois nem sempre reconhecemos imediatamente as pessoas com máscara. Já nos aconteceu, talvez a todos, cumprimentar uma pessoa, trocar algumas palavras e ficarmos a refletir quem seria tal pessoa!

É bem conhecida a expressão de Jesus a Filipe: há tanto tempo que estou convosco e não me conheces? (Jo 14, 7-14). Na parábola do Juízo Final (cf. Mt 25, 31-46), aqueles que são benditos a entrar no Reino ficam surpreendidos e questionam quando é que realizaram o bem. A resposta do Rei é concludente: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes”. O Rei reconhece-os e acolhe-os porque também eles O reconheceram no cuidado aos irmãos. Em sentido contrário, são malditos (não-reconhecidos) aqueles que não O reconheceram nos irmãos: “Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (cf. Mt 25, 31-46).

A mesma expressividade na parábola das 10 Virgens, 5 prudentes e 5 insensatas. Como o noivo se demorasse, as virgens foram adormecendo. As sensatas levaram azeite de reserva, as insensatas não se precaveram. Quando o noivo se aproxima, as insensatas apressam-se a ir comprar mais azeite, mas quando regressam a porta está fechada. “Em verdade vos digo: Não vos conheço” (Mt 25, 1-13).

A pessoa enquanto tal é um mistério que nunca se expõe nem é exposta totalmente. Pelos perfis digitais, a pessoa diz e esconde muito do que é. Um amigo, um familiar, um colega de trabalho, pode parecer que se conhece bem, mas de repente…

Na Sinagoga de Nazaré, os amigos de Jesus acharam que O “conheciam” demasiado bem. Ele é o Filho de Maria e de José, o Carpinteiro. Conhecem os parentes e as ligações à comunidade, mas são surpreendidos pelas Suas palavras, pelos prodígios realizados e pela fama que, entretanto, tinha granjeado em outras terras.

Obviamente é bom e salutar que nos conheçamos e tenhamos consciência de que conhecemos bastante bem os nossos amigos e familiares, pois é sinal de proximidade, atenção e afeto. Conhecer bem pode, positivamente, ajudar a responder às necessidades, anseios e questões levantadas por eles. Negativamente, quando diminuímos a atenção e o cuidado, porque conhecemos, porque as reações são sempre as mesmas e assim as respostas também serão. Como exemplo paradigmático: casais que na conquista e no namoro procuram ser reciprocamente atenciosos, ouvintes, compreensivos… com o tempo deixam de surpreender e já não se centram tanto nas necessidades do outro mas mais nos gostos próprios…

Com ou sem máscara, com ou sem pandemia, a verdade é que deixamos de reconhecer algumas pessoas, positiva e negativamente, pelo que eram e por aquilo em que se tornaram. No tempo, somos sempre os mesmos, mas, simultaneamente, é bom e desejável que cresçamos, amadurecendo, aprendendo, como nos diz São Paulo, até à estatura de Cristo (cf. Ef 4, 13-15). O drama é quando crescemos e ficamos da nossa própria estatura, tornando-nos como Zaqueu antes de encontrar Jesus e se deixar ver por Ele (cf. Lc 19, 1-10). Zaqueu era um homem de vistas curtas e de pequena estatura, preocupado com os seus bolsos e com o seu umbigo, mas pelo caminho encontrou-se com aquele Mestre sábio e bom. Pôs-se em movimento, em bicos de pés, subiu a uma árvore… para descer da sua prepotência e sobranceria e caminhar ao lado de Jesus, acolhendo-o em sua casa e na sua vida.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/34, n.º 4616, 7 de julho de 2021