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Entrevista com Joaquim Paulino Bernardes – Administrador E. Leclerc

Tendo a Voz de Lamego uma matriz cristã, procurámos entrevistar um ou outro empresário que obteve sucesso no espaço territorial da Diocese de Lamego e cujo empreendedorismo lhes permitiu criar vários postos de trabalho, contribuindo para o desenvolvimento da região, mas igualmente com uma componente social, com ligações mais ou menos estreitas à Igreja. Com a colaboração do Pe. José Ferreira, pároco da Sé e Cónego do Cabido, lançamos questões sobre o relacionamento com os funcionários e sobre a função social da riqueza.

Será possível conjugar investimento e compromisso cristão? Ser empresário de sucesso sem sacrificar as pessoas a números e percentagens?

Foram a estas e outras questões que o Sr. Joaquim Bernardes, administrador do hipermercado E. Leclerc de Lamego, respondeu, revisitando também a sua vida, nomeadamente como emigrante e, no regresso a Portugal, as etapas que o levaram a enveredar pelo movimento E. Leclerc, fixando-se em Lamego.

Voz de Lamego – Agradecemos, desde já, a oportunidade em nos conceder uns momentos para conversar connosco. Como é que se tornou aderente do movimento E.Leclerc?

Fui imigrante em França entre a década de 70 e 80 e conheci o E.Leclerc como cliente.

Os supermercados distinguiam-se dos restantes pela defesa constante do poder de compra dos consumidores em todas a áreas de consumo: combustíveis, produtos alimentares, moda, livros, auto, etc… Os preços eram de facto muito mais baratos. Na localidade em que vivia, no distrito de Lyon, reparei que um pequeno comerciante que conhecia pessoalmente e onde também fazia compras, abriu um supermercado E.Leclerc na periferia da cidade e que explicou-me que o fundador do grupo E.Leclerc, o Sr. Edouard Leclerc, autorizava que comerciantes independentes abrissem uma loja com o seu nome desde que vendessem mais barato, trabalhassem em âmbito famíliar (marido e mulher trabalhariam lado a lado) e repartissem os resultados da empresa com todos seus colaboradores.

Quando no início da década de 90 regressei a Portugal, abri um minimercado na cidade do Cartaxo e vi nascer os primeiros grandes supermercados e hipermercados. Conhecendo a missão da marca E.Leclerc em França, estabeleci contactos, e, após muita burocracia e dificuldades que tive que ultrapassar, consegui abrir com a minha esposa o E.Leclerc de Lamego em dezembro de 1996.

Como é que funciona o movimento E.Leclerc?

É um movimento cooperativo em que a empresa familiar, constituída por um casal, é proprietária do seu ponto de venda e são também coproprietários da marca E.Leclerc, tornando-os responsáveis pelo legado do seu fundador, o Sr. Edouard Leclerc. A sua missão, na década de 40 (pós-segunda guerra mundial) era ajudar os Franceses a acederem a produtos alimentares a preço baixo, comprando grandes quantidades de produtos para os vender mais baratos, tornando-se, por isso, este movimento precursor da distribuição moderna. É uma história muito rica de grandes combates sempre a favor dos consumidores e que os leitores podem conhecer em (http://movimento-leclerc.pt/)

Passado tantos anos do início desta cadeia de supermercados E. Leclerc, ainda se mantêm os objetivos que estiveram na génese da sua fundação?

Sem dúvida. Esta missão mantém-se válida e é hoje atualizada do ponto de vista social e dos valores que a norteiam. A titulo de exemplo no E.Leclerc promovemos: um consumo responsável (não vendemos crédito ao consumo); igualdade e ética no local de trabalho; a compra a fornecedores e produtores locais, apoiando assim o tecido económico local; a descentralização das competências e das decisões, beneficiando diretamente a qualificação e o número de empregos gerados por loja em oposição a grupos centralizados; o apoio as iniciativas culturais, sociais e desportivas locais que respondem ás solicitações da população local;

Como foi mudar de terra e fixar-se em Lamego?

Eu e a minha esposa mudamo-nos em 1995 com a convicção, desde o primeiro momento, que seria uma mudança definitiva. E assim foi. Considero-me hoje um Lamecense e em conjunto com a minha família criámos laços, amizades e afinidades que dão sentido à nossa vida e, no meu caso particular, à minha missão pessoal. Descobri gente de fibra e perseverante que muito estimo e respeito, pois acompanharam-nos do ponto de vista pessoal e profissional. Refiro-me também a todos os colaboradores com quem trabalho e com quem já trabalhei.

Como é a sua relação com os colaboradores?

Somos uma equipa familiar e todos conhecem as suas responsabilidades e a sua missão. Dispõem de uma grande autonomia e de um ambiente trabalho saudável podendo falar comigo sobre qualquer questão, sempre que o entenderem.

Esta é uma empresa de gente com “fibra”, em que mais de 30% dos colaboradores têm mais de 20 anos de casa e apenas 2% são contratos a prazo. Tentei sempre fazer do local de trabalho dos meus colaboradores um porto de abrigo, promovendo situações laborais estáveis. Gostaria de enumerar as boas memórias e histórias que guardo com os meus colaboradores ao longo de 25 anos, mas seria necessário escrever um livro. Aproveito a oportunidade para reconhecer publicamente o empenho e o valor de todos os homens e mulheres que comigo vão construindo e consolidado esta casa. A todos quero manifestar a minha gratidão.

Quantos são?

Nas épocas sazonais, de verão e natal, somos mais, mas a média anual são cerca de 130 colaboradores diretos e cerca de 15 indiretos (seguranças, limpeza e reposição externa).

Conhece-os pessoalmente?

É evidente que os conheço. Como é que posso cumprimentá-los e falar com eles se não souber o seu nome? Atualmente, tenho 40 funcionários que trabalham comigo há mais de 20 anos.

Alguns dos colaboradores são mesmo a segunda geração dos que começaram em 1996. Ou seja, trabalham os pais, os filhos e quem sabe, um dia, os netos. Infelizmente, a memória atraiçoai- me algumas vezes, levando a alguma troca de nomes.

Promove algum momento de convívio?

Sim, formais e informais, mas o mais simbólico é a organização anual do jantar de Natal que envolve sempre um número elevado de colaboradores na preparação e planeamento. É uma noite de partilha entre todos, em que distribuímos presentes aos mais jovens e festejamos os valores cristãos desta época.

São também beneficiários dos resultados da empresa?

Em 24 anos de atividade reparti todos anos, parte dos resultados da empresa com os colaboradores. É justo que, se contribuíram para os lucros da empresa, possam também beneficiar de uma gratificação em função do seu empenho e mérito. Os restantes resultados são investidos, localmente, de forma a melhorar continuamente as condições da atividade e desempenho da empresa.

Pensa que o respeito pela ética no trabalho também beneficia economicamente a empresa?

Sem dúvida, que isso é um imperativo que se impõe. Com base nas minhas convicções religiosas e valores pessoais que cultivo, não poderia ter   outra missão que não fosse promover os valores éticos e morais no trabalho, nomeadamente, encorajando um ambiente de trabalho saudável, de respeito mútuo e assente na honestidade. Quando se têm profissionais com um sentido ético no desempenho do seu trabalho, e com valores morais, há menos possibilidade  de furtos, desvios ou corrupção e isso também é importante dentro de uma organização e na sociedade em geral, como sabemos.

Este é um jornal regionalista… De que modo a região tem beneficiado da atividade da empresa?

Julgo que já fui respondendo a esta questão, mas podemos resumir da seguinte forma: emprego de mão de obra mais qualificada nas lojas, fruto de uma gestão mais descentralizada; a promoção de carreiras profissionais a longo prazo da quase totalidade dos seus colaboradores; a partilha dos lucros e dos resultados alcançados há mais de 24 anos; apoiamos e privilegiamos a produção local, permitindo o acesso de pequenos produtores de todas as áreas de produção; a possibilidade de contratar prestadores e empresas locais de serviços e de indústria para as suas necessidades locais, reforçando as sinergias; graças à nossa rede de dimensão europeia, conseguimos propor aos clientes produtos de grandes marcas, mas também os de marca própria, a preços muito baixos. Os nossos clientes reconhecem-no e quem compra sabe que aqui as compras ficam mais baratas. É esta a nossa missão.Posso concluir que as populações locais podem aceder a uma oferta de produtos e serviços que geralmente só estão acessíveis em centros urbanos de maior dimensão. Mas a missão E.Leclerc é precisamente disponibilizar tudo a preços baixos;

De que modo a sua formação cristã o tem influenciado no seu agir empresarial?

Reconheço que, nestas duas décadas a empresa tem apoiado, economicamente, iniciativas de carácter religioso, no âmbito paroquial da cidade, mas também doando géneros alimentares e não só, a inúmeras iniciativas sociais, culturais e religiosas em várias centenas de milhares de euros. Mas neste campo, prefiro que sejam as associações, as instituições da Igreja local, e mesmo os beneficiários diretos a destacar o papel humanitário da empresa. Fi-lo sempre pelas minhas convicções religiosas sem esperar nada em troca. A minha formação espiritual tem ajudado a saber humanizar a empresa e a dar-lhe um sentido de proximidade com os mais necessitados, quando há campanhas humanitárias.

A sua empresa tem contribuído para iniciativas na região?

Sem dúvida. Tentamos sempre que possível, participar em iniciativas várias e ajudar as instituições que prestam assistência à população e na organização de eventos que promovem o concelho e a região.

Embora a ajuda não deva ser interesseira …pode atrair mais clientes?

As empresas devem desenvolver o seu papel social em função das emergências e necessidades sociais da região em que se insere. Como cristão, este é um papel natural feito de forma desinteressada, mas cujo reconhecimento emerge de forma lenta. Tenho o privilégio de perceber ao longo de 25 anos, que contribuímos para as melhorias das condições de muitos concidadãos, clientes, mas também não clientes. Confirmo que em prazos longos e com decisões consistentes as políticas sociais geram reconhecimento.

É possível conjugar lucro, ajudando a fixar famílias?

Claro que sim. Trabalhamos todos no sentido de desenvolver a empresa e o setor do comércio e serviços e, nesse sentido, apoiar o desenvolvimento local. Ao manter e criar emprego, as pessoas têm um rendimento estável que lhes permite fixarem-se no concelho e concelhos limítrofes e manterem um nível económico e social estável, diminuindo a emigração.

Que diria a alguém que queira investir na região?

A realização nesta área não advém do resultado económico direto, sendo, contudo, essencial para a continuidade da atividade se projetar a longo prazo, desenvolvendo sinergias com o tecido económico e social locais.

Como é que lidou com este tempo de pandemia?

Com muita esperança e paciência. Foi um desafio a uma escala global com consequências negativas do ponto de vista social e económico. A nível laboral foi difícil, pois enfrentamos um momento imprevisível e sem precedentes, mas contei sempre com o empenho e a colaboração dos funcionários que se esforçaram muito para mantermos todos os nossos serviços a funcionar com qualidade e segurança. Por outro lado, também verifiquei maior disponibilidade e tempo para um recolhimento e maior convívio com a família.

É possível ser cristão e ser empresário de sucesso? Como conciliar?

Acredito seriamente que sim. É possível ser cristão em toda e qualquer circunstância e em qualquer contexto. É este o desafio de ser cristão no século XXI. Os cargos de maior responsabilidade para com a sociedade são hoje submetidos a enormes pressões de lucros a curto prazo, às vezes sem olhar a meios, mas não devemos ceder naquilo em que acreditamos. É uma questão de coerência e de verdade para quem acredita e orienta a sua vida pela mensagem do Evangelho.

in Voz de Lamego, ano 91/30, n.º 4612, 8 de junho de 2021

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