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Archive for 15/04/2021

Entrevista Voz de Lamego: Presidente do Município da Mêda, Dr. Anselmo de Sousa

Retomamos o périplo pelos Municípios pelos quais se estende a Diocese de Lamego. Esta semana viajamos até à Mêda para ouvirmos o Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal, Dr. Anselmo Antunes de Sousa.

Natural de Cavernães, concelho de Viseu, cedo abraçou a Mêda como sua terra. De uma família dedicada a agricultura, chegou a estudar no Seminário Maior de Viseu. O destino acabaria por o levar para uma carreira profissional dedicada ao ensino. Nesta área assumiu cargos diversos para além da profissão professor. Foi membro do concelho diretivo do Agrupamento de Escolas de Mêda, e orientador de vários projetos educativos e estágios. Casado, pai de um filho, foi eleito vereador no Município de Mêda em 2009, acabando por ser eleito presidente 4 anos depois. Exerce o seu segundo mandato como presidente de câmara. Com uma forte dedicação à causa social e ao associativismo, assume igualmente o cargo de provedor da Santa Casa da Misericordia de Mêda, e integra ainda associações como os Bombeiros Voluntários de Mêda, o Sporting Clube de Mêda e diversas associações culturais e desportivas.

Voz de Lamego – A pandemia do novo coronavírus colocou-nos a todos em alerta. A resposta, como em tantas situações, passa pela intervenção local, em que o Presidente do Município tem um papel essencial, de coordenação e intervenção. Como tem vivido o concelho estes tempos? Principais necessidades e constrangimentos…

Anselmo Sousa – De facto, esta pandemia virou o nosso mundo ao contrário. Literalmente. De repente, todos fomos obrigados a rever as nossas prioridades. E os Municípios, enquanto instrumento da administração autónoma do Estado, pela sua proximidade junto das populações, e pela amplitude das suas atribuições, que vão desde a ação social à proteção civil, foram chamados a dar resposta imediata aos efeitos desta pandemia. No caso do concelho de Mêda, a situação viveu-se de forma ambígua. Os primeiros 10 meses da pandemia passaram de forma serena, com resultados muito satisfatórios. Tivemos alguns casos de COVID, mas sempre em cadeias de contágio devidamente identificadas. No período entre o natal e o ano novo, fomos atingidos de forma brutal, com diversos surtos que atingiram a comunidade de forma avassaladora. E assim, de repente, encontramo-nos com um dos maiores índices per capita de contágio do país.  Mas não baixamos os braços. Continuamos a focar a nossa ação em dar resposta às necessidades, focando-nos no principal: ajudar os que mais precisam. Assim, numa ação concertada com IPSS’s, Bombeiros, Juntas de Freguesia, Voluntários e outras forças vivas do concelho, foi possível dar resposta à altura do exigido. O impacto dos surtos nos lares de idosos foi particularmente exigente. Porque afetou utentes das instituições, funcionários, e suas famílias. Mas a nossa resposta foi eficaz. 

VL – O impacto económico foi certamente notado nas empresas e nas famílias. Que medidas foram implementadas pelo Município para acorrer às diferentes situações e para minimizar os prejuízos e as dificuldades sentidas?

Desde a primeira hora nos mantivemos atentos às necessidades impostas por esta situação. Nas mais variadas vertentes. A interrupção das aulas obrigou-nos a encetar esforços na aquisição de equipamento informático de forma a possibilitar aos alunos sem recursos o acesso a um ensino de qualidade. Ao nível do apoio às famílias, mantivemos a distribuição de refeições escolares ao domicílio para famílias carenciadas. Colocamos diversos programas em prática com vista ao auxílio a pessoas de mobilidade reduzida ou portadoras de doença crónica, entregando compras e medicamentos ao domicílio. E claro, por termos noção do impacto económico desta pandemia, implementamos um largo programa de apoio ao comércio e à restauração, apoiando financeiramente os pequenos negócios que tinham sido obrigados ao encerramento forçado da sua atividade.

VL – As IPSS´s de toda a região foram chamadas a prestar um apoio social decisivo à população, ao mesmo tempo que tiveram de cumprir apertadas medidas de segurança. Como foi a resposta das Instituições Sociais no Concelho? Que papel coube à Câmara?

Reforçamos o apoio às IPSS’s do concelho, uma vez que estas instituições são verdadeiros parceiros na prestação de serviços e no acompanhamento de pessoas com dificuldades. Este apoio teve a vertente financeira, com reforço do apoio monetário a estas instituições, de forma a fazerem face às necessidades emergentes, e teve a vertente de apoio logístico num amplo programa de distribuição de equipamentos de proteção individual por todas as instituições. Ao mesmo tempo, isentamos por um largo período todas as IPSS’s do pagamento de diversas taxas municipais. Tudo com o propósito de facilitar a atividade destes nossos parceiros, cujo papel na mitigação dos efeitos desta pandemia, tem sido da mais elevada importância. Pela proximidade que têm junto dos mais vulneráveis, principalmente dos mais idosos, uma estreita colaboração com as IPSS’s do nosso território é da mais elevada importância para o sucesso duma ação de resposta conjunta.

VL – O turismo, fundamental na nossa região, foi amplamente afetado, com um decréscimo acentuado no número de visitantes. A restauração, a hotelaria, pequenas empresas, produtos com a marca do Concelho, viram-se em grandes dificuldades. Foi adotada alguma medida especial para este setor e que expetativas tem para a atividade turística para o concelho em 2021?

O programa de apoio ao comércio e à restauração foi um primeiro passo dado pelo município, no propósito de mitigar os efeitos da pandemia neste sector, cuja importância no nosso desenvolvimento económico local é inegável. Este programa destaca-se pela sua ambição, principalmente se tivermos em conta as capacidades financeiras do nosso Município. Fizemos um esforço considerável para colocar estas medidas em prática, exigindo um esforço no nosso orçamento na ordem dos 300.000€. No entanto não queremos ficar por aqui. Neste momento estamos a estudar um reforço destas medidas de apoio, dedicadas ao sector da hotelaria e do alojamento local. Esperamos poder lançar este reforço em breve.

VL – Nesse sentido, ainda, como é que foi a coordenação das medidas a implementar entre o poder local, bem no interior do país, e os organismos centrais? E já agora, a inserção na CIM-BSE tem contribuído para uma resposta conjunta mais coordenada e eficiente?

As Comunidades Intermunicipais – principalmente na falta das tão badaladas, mas ainda inexistentes, regiões administrativas – acabam por se tornar numa espécie de unidades intermédias entre as autarquias locais e a administração central. No nosso caso, sempre prevaleceu um espírito solidário e de parceria com todos os municípios da CIM. No entanto, cada Município tem a sua realidade, as suas prioridades, os seus eixos estratégicos e a sua agenda própria. No que à resposta á pandemia diz respeito, cada município implementou as suas medidas, em função das suas capacidades e claro, conforme a sua vontade política. A CIM-BSE é um instrumento importante para a promoção de um trabalho em rede entre os municípios, em prol do desenvolvimento da região. Mas esta situação que o país atravessa, veio provar, mais uma vez, a importância do Poder Local. Principalmente nos territórios do Interior. Os Municípios e as Juntas de Freguesia foram instrumentos de combate à Pandemia, fundamentais no apoio às populações.

VL – A dinâmica dos municípios foi igualmente decisiva neste contexto. Mas, apesar dos constrangimentos, os projetos em curso continuaram. O que gostaria de ver concretizado até ao final deste mandato autárquico?

Exatamente. A vida continua, e a atividade municipal não para. Este ano revela-se bastante importante para nós. Existem diversos projetos já em execução, bem como outros em fase adiantada de implementação, que são conquistas que há muito o nosso território exigia. A nova Área de Acolhimento Empresarial, por exemplo, já se encontra a concurso. Um investimento de cerca de 2 milhões de euros que vem dar resposta a uma necessidade de longa data. Esta valência assumirá um papel importantíssimo no desenvolvimento do nosso tecido empresarial local em muito curto prazo. No sector do turismo, uma área tão importante para o nosso território, demos recentemente inicio à construção do Centro Interpretativo de Longroiva, dedicado ao tema da presença templária naquela aldeia do Alto Douro Vinhateiro. A barragem do regadio da Coriscada continua a ocupar um lugar central nas nossas pretensões. Principalmente pela importância que este investimento assumiria para o desenvolvimento agrícola do nosso concelho. Continuamos a batermo-nos pela sua concretização, num processo que sabemos difícil e moroso, mas do qual não desistimos.

VL – Para alguém que visita o concelho, como o apresentaria? Que caraterísticas distintivas tem este território, do ponto de vista económico e empresarial, cultural e patrimonial?

O nosso slogan é a nossa imagem de marca: Onde o Douro Encontra a Serra. Esta pequena frase congrega muito da nossa identidade. Somos um concelho orgulhoso no seu passado mas de olhos postos no futuro. Presamos por manter índices de qualidade de vida acima da média, que nos tornam num território convidativo para viver, visitar ou investir. A nossa riqueza, reflete-se na qualidade dos nossos produtos, com destaque para o vinho, mas não só, fruto da conjugação do trabalho do Homem e da Natureza. Temos Património e Cultura. Temos Gastronomia e Lazer.  Mas a nossa principal riqueza é a nossa gente. Gente de afetos, amiga e hospitaleira, herdeira de uma solidariedade ancestral, que se expressa diariamente na arte de bem receber quem nos visita.

VL – A população concelhia, a exemplo do que acontece em todo o interior português, envelhece e diminui. Que consequências se avizinham? Como contrariar o êxodo da população a que assistimos e favorecer a sua fixação entre nós? Como vê, a partir do lugar que ocupa, a situação do País? Tendo em conta também os tempos que se avizinham…

É do conhecimento comum que o nosso país possui esta inclinação para o litoral. As causas estão mais que dissecadas. O atual governo tem o mérito de ter trazido o futuro do interior do país para a frente do debate político. O que precisamos agora é de consistência. Porque não é em meia dúzia de anos que revertemos um problema que tem mais de um século. O problema da desertificação não é um problema do interior. É um problema do país! Como se reverte? Com políticas consistentes, persistentes, estruturantes e, muito importante, consensuais entre os principais decisores políticos. A criação do Ministério da Coesão Territorial foi um bom passo inicial. A capacidade da Ministra Ana Abrunhosa para liderar este ministério é, em meu entender, inquestionável. Mas precisamos de ganhar tração. O cenário é, como diz, preocupante. Mas, pessoalmente, recuso-me a baixar os braços. Temos de criar condições de fixação de pessoas. Que os jovens aqui constituam as suas famílias. Para isso, precisam de emprego. Para existir emprego tem de existir investimento, público e privado. São muitas variáveis numa equação complexa. Neste momento, ainda não estamos a viver os efeitos económicos desta pandemia. Os próximos anos serão difíceis. Manifesto alguma preocupação quando não vejo, por exemplo, no Plano de Recuperação e Resiliência, grande importância dedicada aos territórios de baixa densidade. Acredito que aqui residirá uma parte importante da resposta à crise. Pela preponderância de setores como a agricultara e o turismo por exemplo. Mas não só. Se há algo que a pandemia nos trouxe foi uma nova forma de encararmos o trabalho, e o nosso relacionamento com ele. Os nossos territórios serão destinos privilegiados para pessoas com possibilidade de trabalho à distância, bem como na criação de espaços de coworking, por exemplo. Haverá, a este nível uma nova realidade à qual convém estarmos atentos.

VL – A menos de um ano do fim do atual mandato autárquico, que balanço faz do trabalho realizado?

Tem sido um mandato atribulado. Metade ficará inevitavelmente marcado pela pandemia, e pelos desafios que nos colocou. Haverá ainda muito para fazer. Mas, analisando de uma forma global estes últimos anos tenho de congratular-me pelo trabalho realizado. Iniciamos projetos importantes. Efetuamos obras importantes para o concelho, com um investimento considerável. O balanço é manifestamente positivo. É com base nesse balanço que tomei a decisão de me apresentar novamente a eleições, e dessa forma me submeter, mais uma vez, ao julgamento democrático dos cidadãos.

VL – Que mensagem de esperança e de estímulo gostaria de transmitir aos seus munícipes para este novo ano?

Os tempos que atravessamos são difíceis. Não o nego. Quiçá mais difíceis que qualquer um de nós imaginaria há cerca de 1 ano atrás. Mas não podemos esmorecer. Os desafios atuais impõem resiliência e, acima de tudo, união. Tenho a certeza que superaremos mais este obstáculo, e que, não tarda, poderemos voltar a partilhar momentos de alegria e de fraterno convívio. Não posso terminar sem deixar a todos uma palavra de esperança no futuro.

in Voz de Lamego, ano 91/22, n.º 4604, 13 de abril de 2021