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Editorial Voz de Lamego: Felizes os que acreditando veem

Na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37), o sacerdote e o levita veem um homem caído por terra, morto ou quase morto. E o que fazem? Afastam-se para não ver, para não perderem tempo, para não se contaminarem, para não se meterem em problemas, tendo que justificar como encontraram aquele homem, o que lhe aconteceu, se viram ou se têm alguma coisa a ver com o sucedido. O ver bem implica tempo ou pelo menos atenção e compromisso.

O Bom Samaritano, por sua vez, vislumbra alguém que está maltratado, talvez moribundo ou, quem sabe, morto. Aproxima-se. Para quê? Para ver de perto, para ver bem! Para ver o que pode fazer. E faz. Vê em que condições foi deixado este homem, limpa-lhes as feridas, trata-o, coloca-o na sua montada, leva-o para a estalagem e assegura-se que cuidam bem dele. Porque viu, não os possíveis problemas futuros ou empecilhos, mas alguém a precisar de ajuda. Aproximou-se para ver melhor.

O essencial da vida é invisível aos olhos, é visível ao coração, como nos relembra Antoine de Saint-Exupéry, no Principezinho. O que é visível também é perecível. O que é duradouro, na maioria das vezes, não é tangível, não é manuseável, ainda que seja dessa forma, enquanto pessoas, que tudo se expresse, se traduza e se concretize.

No segundo Domingo da Páscoa e da Divina Misericórdia é-nos recordado a incredulidade de Tomé, desafiado a ver além do imediato e das “aparências”. Claro que os demais apóstolos também passaram por processo semelhante. Com efeito, também a eles Jesus lhes mostra as mãos e o lado, as marcas da Paixão. O Ressuscitado tinha aparecido a Maria Madalena, às mulheres, a Pedro, aos discípulos a caminho do campo, a caminho de Emaús, mas só depois de O verem, ali no meio, é que eles sancionam o que ouviram contar! Oito dias depois, Tomé, com a comunidade dos discípulos, tem a mesma oportunidade de ver Jesus.

A fé não é obscura, serve-se da racionalidade, leva-nos a ver mais longe e para lá do que é tangível, palpável, visível exteriormente. A fé ilumina as nossas escolhas, gera confiança. Só esta nos permite viver saudavelmente. Faz-nos acreditar nos outros, na vida, em Deus. Mobiliza-nos a rezar e a agir, mesmo sem vermos os frutos imediatos, envolve-nos na construção de um mundo fraterno e humano.

Jesus diz a Tomé, mas também te diz a ti e também me diz a mim: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 19-31).

Com Tomé aprendemos algo muito importante. Não é possível acreditar sem termos visto, sem fazermos a experiência de encontro com o Ressuscitado. Podem-nos falar d’Ele, dizer as coisas mais admiráveis, podemos vê-l’O como Alguém extraordinário, mas isso em nada altera a nossa vida. Mas se O vemos, se O descobrimos, se nos encontramos com Ele, então alguma coisa terá que mudar. A nossa vida nunca mais será a mesma.

Jesus mostra a Tomé, e a nós, que está visível pela fé no partir do pão (Reconheceram-n’O ao partir do pão. Fazei isto em Memória de Mim), na comunidade (quando dois ou três se reunirem em Meu nome, Eu estarei no meio deles); no serviço aos irmãos (O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis). Nas palavras a Tomé, podemos ouvir Jesus: quando virdes o meu lado, as minhas mãos, as minhas chagas, então sabereis que Eu vivo no meio de vós. Seremos felizes se O virmos no partir e no partilhar do pão, se O virmos e d’Ele cuidarmos nas feridas dos nossos irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/22, n.º 4604, 13 de abril de 2021