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Delfina Adrega – A senhora biscoiteira do Bairro da Ponte

O primeiro instinto para melhor receber quem chega é remexer num pequeno saco plástico e estender depois a mão: “Tome lá uma cavaquinha!”. É assim, desde há mais de 40 anos, quando Maria Delfina Adrega se aventurou, sozinha, na cozinha lá de casa a confecionar o famoso Biscoito da Teixeira, que se transformou depois no conhecido cartão-de-visita da pequena banca que tem por hábito instalar, nos dias quentes, na “sala de visitas” da cidade de Lamego, a Av. Dr. Alfredo de Sousa. “Eu andava a cozer para as outras e a acartar para esta e para aquela, mas depois abri os olhos e também aprendi”, recorda. Natural da freguesia de Magueija, cedo desceu à cidade para viver no animado Bairro da Ponte, banhado pelo rio Balsemão, outrora alfobre de uma comunidade próspera, onde não faltavam moleiros, sapateiros, comerciantes e, claro, algumas biscoiteiras. Ainda hoje é aqui que se sente mais à vontade e continua a morar, embora lamente que “muita coisa” esteja a cair.

Maria Delfina começou tarde nas lides da doçaria. Apenas por volta dos 35 anos de idade. Nessa época, recorda, vendia menos. “Só fazia um bocadinho. Meia arroba ou uma arroba. Agora faz-se mais”. Para além de Lamego, chegou a vender noutras paragens em festas e romarias. “Adorava isso”. Era assim que garantia o sustento lá de casa. Teve seis filhos, enviuvou cedo, e precisou então de todo o ânimo e destreza para conciliar todas estas tarefas. “Sempre tive força para fazer tudo”. Agora, o peso da idade já não lhe permite amassar e cozer o biscoito no forno a lenha como antes. Foi uma filha que herdou a responsabilidade de dar forma ao Biscoito da Teixeira, fiel à receita de sempre: farinha, açúcar, sal e “muito limãozinho”.

Atrás da sua pequena banca, sob uma toalha imaculada, Maria Delfina ajeita cuidadosamente o sortido de produtos que adoça a boca de muitos lamecenses e turistas. Para além do Biscoito, também há cavacas do Porto, bolos podres, pães-de-ló e até rebuçados da Régua. Tudo fresco e doce, como convém, e que transformam este local todas as semanas num destino de peregrinação para os clientes fiéis. Problemas de saúde, decorrentes da diabetes, já não a deixam ver com a nitidez de antigamente. Pede, por isso, muitas vezes a quem chega que a ajudem a escolher as pequenas moedas para devolver o troco certo.

“Gostei sempre de estar aqui. Estou habituada. Se me tiram isto, então é que vou mais depressa embora”, explica. Para muitos turistas que calcorreiam pela primeira vez as imensas avenidas centrais de Lamego, em direção ao Santuário dos Remédios, é a D. Delfina quem lhes dá as boas-vindas. “Prove lá uma cavaquinha. Eu dou”, interpelando sempre quem passa.

Ricardo Pereira, in Voz de Lamego, ano 91/19, n.º 4601, 23 de março de 2021

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