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Archive for 03/02/2021

Editorial da Voz de Lamego: A vida, a verdade, o amor e o bem

Portugal foi dos primeiros países a abolir a pena de morte e um dos primeiros a legalizar a eutanásia. Somos primeiros em muitas coisas, também na pobreza, nas desigualdades sociais e na corrupção.

Na passada sexta-feira, 29 de janeiro, em dias de tragédia nacional, o Parlamento português aprovou a lei que promove a eutanásia, invertendo o que é um direito inalienável, desde tempos imemoriáveis, remontando ao juramento de Hipócrates. A Declaração Universal dos Direitos Humanos consagra este direito, no Artigo 3.º: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.” A Constituição da República Portuguesa, diz, no Artigo 24.º: “1. A vida humana é inviolável.”

A vida é um direito antes dos direitos. Sem vida não há direitos.

Antes de ser direito, a vida é dom. A origem da vida não me cabe nem a mim nem a ti. O controlo sobre a própria vida tornou-se um direito narcisista: a minha vida só a mim diz respeito, o meu corpo, o que faço, o que como, o que visto e o que compro. Ninguém tem nada a ver com isso. Curiosamente, a nossa dependência aos outros é incontornável, na alimentação, no vestuário, na habitação…

Atenção, não podemos e não devemos menosprezar o sofrimento de uma pessoa concreta, ou de uma família, e as situações limite que vive. Há situações em que parece não haver saída, tal o sofrimento, a angústia, a incerteza e o medo do futuro. Porém, a nossa opção é deixá-la decidir se vive ou se morre, se deixa viver ou se mata? Afastamo-nos da pessoa quando ela mais precisa de nós, quando sofre? Ou, decidimos estar do lado dessa pessoa, ou família, escutá-la, fazendo-lhe sentir que não vamos embora, que estamos ali para ela?

Ao Estado compete assegurar a igualdade de direitos e garanti-los, assegurar a todos o direito à vida, à justiça e à habitação, à educação e aos cuidados de saúde, à igualdade de oportunidades e à liberdade de opinião e de circulação. Não lhe cabe a tutela da vida humana. Hoje, o Estado responsabiliza-se por antecipar a morte a pedido; amanhã, o pedido poderá ser obrigatório, até para criar mais vagas nos hospitais e racionalizar os recursos humanos.

Tantos profissionais que gastam a vida para cuidar e salvar o máximo de vidas. É uma tragédia. Os incêndios de 2017 chocaram-nos! As mortes diárias por COVID-19 já ultrapassam as três centenas. A pressão sobre os hospitais é imensa!

Sinal do Parlamento: facilitar a morte! Uma pessoa está a sofrer? O Serviço Nacional de Saúde ajuda-a a morrer? E para quando o acesso universal a cuidados continuados e paliativos?

Absoluto só Deus. A vida é um valor supremo, referencial para outros valores que pressupõe e exige. Ora vejamos: Jesus morre por amor, para que tenhamos vida abundante.  O filósofo Sócrates morre pela verdade. Martin Luther King e Mahatma Gandhi morrem pela liberdade e igualdade Os Apóstolos e os mártires morrem pela fé. Há pessoas que morrem ou são sacrificadas por serem honestas. Santa Teresa de Calcutá preencheu a sua vida a cuidar dos mais pobres e abandonados.

Ninguém, pelo menos para já, é obrigado a recorrer à eutanásia. A nós, cristãos cabe-nos cuidar, dar razões da nossa fé e da nossa esperança, amar e servir, acompanhar, não desistir de ninguém, ninguém deixar para trás, testemunhar a beleza e o sentido da vida, do início ao fim, não escondendo as dificuldades do caminho.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/12, n.º 4594, 2 de fevereiro de 2021

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