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Archive for 20/01/2021

Editorial da Voz de Lamego: Os outros somos nós

É uma expressão banal, mas que interpela e compromete.

O ideal será colocarmo-nos no lugar dos outros, sabendo que, em absoluto, não é possível, mas é louvável o esforço em procurar ver a partir do que outro vê, vive, sente e sofre. Tentar compreender o seu agir e o seu pensar. A isso se chama empatia, pôr-se em sintonia com o outro. Não se trata, entenda-se, de renunciar às próprias convicções, mas fomentar o diálogo para caminharmos juntos. Só dialoga quem tem convicções, permitindo um confronto saudável de ideias e ideais. Quem não tem convicções, segue aqueles que gritam mais!

No próximo domingo, 24 de janeiro, vamos votar para o Presidente da República, e digo vamos votar, porque é nossa obrigação e compromisso, como cidadãos e como cristãos, participarmos na vida da comunidade, fazendo as escolhas que consideramos melhores para os destinos do país. Cabe-nos ouvir e discernir, sabendo que o sistema português é parlamentar e que o Presidente da República tem um papel de representatividade do povo português e da sua cultura, é moderador da ação política e partidária, garante do cumprimento da Constituição, aglutinador de vontades e projetos para o desenvolvimento e integridade de Portugal, como nação. Não legisla, nem executa, mas pode suscitar caminhos, promover uma visão para o país, inserido na União Europeia, com ligações privilegiadas aos países de língua oficial portuguesa, país tolerante e acolhedor.

Como cristãos, não deixando de ser cidadãos comprometidos, a nossa visão da vida e do mundo deve influenciar as nossas escolhas. Não somos melhores, como ponto de partida, mas devemos ser diferentes. Cabe-nos refletir sobre o candidato que melhor assume a nossa mundivisão judaico-cristã, na promoção da vida, na defesa dos mais frágeis, na busca do bem comum, na proteção da dignidade de cada pessoa, na assunção da fraternidade.

Reconhecemos a autonomia da República, mas sabemos que esta se enriquece com o contributo de cada um e também com os princípios que nos orientam como crentes. Onde estivermos, é Cristo que temos de imitar! Em todas as dimensões da vida, aquilo que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é a Cristo que o fazemos. O bem comum terá que ser o horizonte do envolvimento político-partidário dos cristãos, como construtores de pontes, incluindo e optando, como Cristo, pela atenção e cuidado aos mais pobres.

Extremismos, de esquerda ou de direita, muito convincentes no discurso, excluem, radicalizam, vivem na lógica sectária, só quem pensa como eles é que é bom. Nós ou os outros? Excluímos ou somos excluídos? E, como se tem visto, na política, como na religião, na cultura, no desporto, discursos que fragmentam e dividem, mais cedo ou mais tarde criam crises e violência. Como disse um candidato, caminhamos com dois pés, um direito e outro esquerdo!

Atendamos às palavras do Papa Francisco: «Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão… os cristãos não podem fazer de Pilatos, lavar as mãos… a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum… Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil… A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas… mas eu, que faço?».

E, por falar em política e bem comum, tentaremos trazer à Voz de Lamego a voz dos 14 municípios que a Diocese de Lamego integra, através dos Presidentes de Câmara.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/10, n.º 4592, 19 de janeiro de 2021

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