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Archive for 23/12/2020

Concerto de Natal de Avões: Um embrulho de Esperança

No passado fim de semana, a Freguesia de Avões fez de cada visor um palco, na qual a esperança ganhou forma e fora escutada através de ouvidos que falavam ao coração. 

O Concerto de Natal de Avões Online mostrou que somos de pequenos prazeres mas de grandes sonhos, partilhando metade do que temos para sermos inteiros. A nossa aldeia é esperança, toda ela uma forma de fé. Na verdade, quisemos relembrar que a fé se encontra nos caminhos que se fazem para a evitar. Este ano, quisemos levar um pedacinho do dedo de Deus a todas as casas, não obrigando ninguém a acreditar mas a sentir o calor de quem faz parte de algo. Não, Deus não nos quer apontar o dedo! Foi-nos mostrar que na base desse dedo existe uma mão para nos acompanhar, que nos guia no nevoeiro estremunhado. O que move a viver esta aldeia, é a expectativa de um novo dia, de uma Boanova…

Foi, e é, um ano duro, colocando à prova a nossa atitude e humanismo, vivendo um vírus que nos impediu de tanto: partidas sem chegada, despedidas sem lamento, sonhos interrompidos, becos sem saída e, acima de tudo, o distanciamento com os nossos semelhantes. Muito de nós, os que ainda não chegaram e os que já partiram, nunca voltaram a horas para o jantar. Quisemos, assim, que este momento vos fizesse acreditar que ainda há muito por viver e porquê lutar! Somos pequenos grão de areia mas, juntos, somos praia, somos barragem, somos um. Não temamos as encruzilhadas da pandemia porque, com peso e medida, iremos renascer num novo ciclo, onde a troca de olhares será tão cúmplice como um abraço que cumprimenta dois corações atribulados.

A tristeza deste ano é uma telha partida num dia de inverno mas o nosso acreditar é um aquecedor que nos irá aconchegar nas noites mais frias. Melhores dias são todos aqueles em que se decide colocar a fé e a esperança, acima das preocupações. O que há de tão ruim neste mundo que prevaleça sobre a bondade infinita da fé no próximo?! O nosso objetivo com este concerto foi desejar que abrissem o coração ao natal e, qualquer que seja a crise na vossa vida, não destruam as flores da esperança para que possam, amanhã, colher os frutos da fé que vos move.

Avões é Lamego e Lamego é a nossa casa, a nossa lareira num dia de Inverno. Somos comunidade, partilhando a chama da Fé e da harmonia. Não vivam o Natal ao invés de serem Natal nas vossas ações e, acreditem, a luz do dar guiará o vosso receber.

No resto de tudo, quando se rega um sonho com fé, Deus abençoa a colheita. 

Um aconchegado Feliz Natal, nas palavras, atos e omissões.

Ricardo da Fonseca, Consultor

Cronista da Voz de Lamego

Editorial da Voz de Lamego: Um Menino nos foi dado

O nascimento de uma criança é, ou deveria ser, uma bênção. Um bebé chega e altera tudo! Desinstala, incomoda, preenche tempos e espaços, exige atenção e cuidado. Vivemos num mundo de contradições várias, precisamos de ser férteis, nesta Europa envelhecida, e, no entanto, as taxas de natalidade continuam a ser muito baixas e todos os dias vemos agressões para com as crianças, abusos, tráfico, trabalho infantil, violência. Sem o nascimento de novos seres humanos não é possível a sobrevivência da humanidade e sabe-se que qualquer comunidade que não tenha crianças ou que as tenha num número reduzido tende a ser mais frágil, mais dependente do exterior, economicamente insustentável, pois são as crianças e os jovens que geram mais movimento e fazem circular a economia.

Jesus vem para desinstalar, para ser sinal de contradição, como sublinha o velho Simeão diante de Maria e de José, é Ele a Luz das nações (cf. Lc 2, 25-35). Nasce pobremente, numa manjedoura, sem grandes confortos, num ambiente pouco limpo, junto de animais. Ele que era rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, isto é, com a Sua vida, com o Seu amor (2 Cor 8, 9).

Vivemos num tempo diferente, com outras comodidades, mas temos consciência que o conforto sem o calor humano vale de pouco. Precisamos de comodidade, mas precisamos muito mais da amizade e de com quem partilharmos a vida. A vida, diz-nos Augusto Cury, “contém capítulos imprevisíveis e inevitáveis. Todo ser humano passa por turbulências na sua vida. A alguns falta o pão na mesa; a outros, a alegria na alma. Uns lutam para sobreviver. Outros são ricos e abastados, mas mendigam o pão da tranquilidade e da felicidade. Por isso há miseráveis que moram em palácios e ricos que moram em casebres”.

Aquele Menino obriga-nos a ajoelhar, a debruçar-nos sobre ele, a colocar-nos à mesma altura, para estarmos olhos nos olhos. Um Menino, numa manjedoura! Um Menino que é luz, bênção e alegria para aqueles pais, para mim e para ti, para a humanidade inteira. Quando queremos ver bem um bebé aproximamo-nos da mãe ou do berço, o que nos obriga a inclinar-nos ou a baixar-nos. O mesmo sucede se queremos conversar com uma criança de igual para igual, ajustamos a nossa altura, ajoelhamo-nos, adaptamos a voz, tornando-a mais suave (e muitas vezes acriançada, como se dessa forma a criança nos percebesse melhor!). Se olhamos a criança a partir de nós, ela ver-nos-á como gigantes; se a olhamos a partir dela mesma, da sua estatura, ela perceberá que queremos comunicar e lhe queremos bem.

Assim faz Deus connosco, em Jesus Cristo, abaixa-Se, apequena-Se, encarna, faz-Se um de nós, coloca-Se ao mesmo nível, da nossa carne, mortal e finito como nós, frágil e sujeito às mesmas vicissitudes, a ser amado, esquecido ou maltratado. Tudo por amor. Este Menino veio para ser luz e bênção e para ser sinal de contradição. Com a Sua vida próxima e terna ensina-nos que o caminho da salvação se veste de amor e de perdão, de serviço e de cuidado. Para sermos como Ele, e somo-lo enquanto discípulos missionários, não precisamos de nos agigantarmos diante dos outros, precisamos de nos despojar de adornos, tornando-nos crianças na docilidade e transparência, na sinceridade de coração.

Santo Natal a todos os que fazem a Voz de Lamego (edição, publicação, colaboração de textos, notícias e fotos, na publicidade e anúncios, assinantes, leitores e amigos) e a todas as famílias a quem esta boa nova chegar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/07, n.º 4589, 22 de dezembro de 2020