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Archive for 01/07/2020

Editorial da Voz de Lamego: Os extremismos segregam e desumanizam

Ainda focados na pandemia, mas com temáticas que emergem na sociedade e na cultura como tsunamis que destroem, criando divisões, perpetuando guerrilhas, ódios e vinganças, deixando vir ao de cima o lado lunar do ser humano, o seu lado mais instintivo e selvagem. Refira-se, como ponto permanente, que a vida não é branco e preto, não é linear, mas são várias as matizes que enformam cada pessoa e, por conseguinte, não há duas pessoas iguais e uma pessoa não é a mesma ao longo da vida. Por vezes, parece que a pessoa tem várias caras, ou máscaras! Não. É precisamente a mesma pessoa, mas com matizes e mutações várias.

Isto, todavia, não nos afasta de refletirmos sobre nós e de procurarmos ter um chão mais ou menos seguro, raízes e referências que nos permitem ser pessoas confiáveis (em quem se pode confiar). Há pessoas que nunca sabemos para que lado estão viradas, pois a variação de disposição, de humor, de trato é doentia. Não nos referimos aqui a pessoas com depressão, cuja doença é verdadeiramente desumanizadora, mas às pessoas ditas “sãs”! Destas, todos conhecemos, algumas que não são confiáveis, ora nos metem no coração ora nos rotulam, denegrindo-nos generosamente.

Um parêntesis, para dizer que a palavra “denegrir” nada tem de racista, ainda que alguns digam que deveria ser banida da língua portuguesa, pois pode ferir suscetibilidades! Nesse caso não poderíamos falar em trevas, em escuridão ou em obscuro, ou lado lunar ou em eclipse! Há pessoas a lutar contra o racismo que são verdadeiramente extremistas, racistas disfarçados e violentos, além de serem desmemoriados e aculturais.

Quem não vive como pensa acabará por pensar como vive (Gabriel Marcel). Para dialogarmos com alguém precisamos de estar seguros do nosso ponto de vista, de contrário será um “diálogo de surdos” em que ninguém se entende. Obviamente, se estamos seguros do caminho que percorremos e se sabemos para onde nos encaminhamos é mais fácil perceber o caminho dos outros e respeitar o percurso que eles escolheram. A intolerância e a arrogância convivem demasiado bem com a ignorância. Esta faz-me autocentrar-me, contando só o que eu digo, o que faço, tudo o que possa vir de diferente dos outros é estorvo ou é armanço.

Vem à memória aquele dia em que os discípulos proibem um homem que estava a falar e a curar em nome de Jesus só por não pertencer ao grupo dos discípulos. As palavras de Jesus são taxativas: “Não o impeçais, porque não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e vá logo dizer mal de Mim” (Mc 9, 40).

O ideal de uma aldeia global, facilitada pelos meios de comunicação e pela mobilidade viária, aérea e marítima, está longe de ser um sonho cumprido. Globalizou-se a indiferença, mas também a violência, os extremismos, os nacionalismos. Os “ismos” ideológicos são segregadores, fazem com que as fronteiras sejam muros que excluem, afastam, dividem, e não lugares de encontro e de relação. À esquerda ou à direita, vanguardistas ou retrógrados, desengane-se quem pensa que um extremismo é mais saudável que outro só por estar no extremo oposto. Nestes extremismos, palavras “liberdade” ou “segurança” não passam disso mesmo. E isso vê-se entre nós, a liberdade apregoada radicaliza e expulsa do grupo quem discorda, não é possível a opinião própria. A segurança apregoada é fautora de ameaça e violência, combatemos com as mesmas armas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/31, n.º 4566, 30 de junho de 2020